Pesquisa da UFSCar avalia impactos da diabetes em membros superiores e inferiores

Estudo busca participação de voluntários para investigar sensibilidade, força e função dos braços e pernas

(Imagem: Freepik)

Uma pesquisa de Iniciação Científica do curso de Fisioterapia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) está convidando pessoas com diagnóstico de diabetes mellitus tipo 1 ou tipo 2, com idades entre 18 e 65 anos, para responder a um questionário online que investiga os efeitos da doença nos membros superiores e inferiores. A participação é voluntária, anônima e pode ser feita de qualquer lugar do Brasil.

O estudo, intitulado “Avaliação sensorial, motora e da função dos membros superiores e inferiores em indivíduos com Diabetes Mellitus”, é conduzido pela estudante de graduação Daniel Oishi Mariano, sob orientação da professora Paula Rezende Camargo, do Departamento de Fisioterapia (DFisio). A pesquisa tem como objetivo compreender de que forma o diabetes afeta aspectos como sensibilidade, força e função de braços e pernas, e como esses fatores se relacionam entre si.

“A diabetes mellitus é uma doença crônica e progressiva, com índices epidêmicos em todo o mundo. Estima-se que afete 537 milhões de pessoas globalmente, sendo o Brasil o sexto país com maior número de casos”, contextualiza Mariano. Segundo ele, a literatura científica já sugere uma possível relação entre a doença e disfunções musculoesqueléticas, especialmente no ombro, o que pode comprometer atividades diárias.

A expectativa do estudo é reunir dados que contribuam para avaliações clínicas mais completas. “Com informações suficientes, será possível alertar os profissionais da saúde para que atentem também para as condições musculoesqueléticas e sintomas nos membros superiores em pacientes com diabetes”, afirma o pesquisador. “Além disso, os resultados poderão auxiliar na construção de tratamentos mais específicos para essas alterações.”

A participação consiste apenas em um questionário online, sem necessidade de comparecimento presencial, e leva cerca de 20 minutos para ser respondido. Ao final do preenchimento, os participantes recebem uma cartilha com orientações sobre cuidados com sintomas da diabetes e possíveis complicações associadas à doença.

Interessados podem acessar o questionário no link https://forms.gle/bApFpyiGzf3e3Vta9. O prazo para participação vai até o final de agosto. Mais informações podem ser obtidas pelo WhatsApp (16) 99186-1145. Projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFSCar (CAAE: 84185024.6.0000.5504).

(Imagem: Divulgação)

Trase lança dados abertos sobre instalações da cadeia de suprimentos de commodities

Empresas e instituições financeiras podem usar os dados disponíveis gratuitamente para atender a requisitos regulatórios, como a Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) da UE e estruturas voluntárias, incluindo a Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza (TNFD)

Vista aérea de uma planta de processamento de óleo de palma

As usinas de processamento de óleo de palma estão entre as instalações mapeadas pela Trase. (Imagem: WarnaDunia/Adobe Stock Photo) 

Por Helen Bellfied para a “Trase”

Mapas recém-publicados pela Trase mostram a localização, a propriedade e a capacidade de instalações como matadouros de gado no Brasil, usinas de óleo de palma na Indonésia e cooperativas de cacau na Costa do Marfim. Os dados de acesso aberto estão disponíveis gratuitamente em nossa página de mapas de dados de instalações .

A demanda por dados em nível de ativos em cadeias de suprimentos agrícolas aumentou em resposta a regulamentações como a Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) da UE e estruturas voluntárias, incluindo a Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza (TNFD), que exigem que empresas e instituições financeiras avaliem e divulguem o impacto de suas atividades sobre as pessoas e o meio ambiente, bem como os riscos e oportunidades associados.

A localização de ativos físicos, como matadouros ou moinhos, é uma informação vital para empresas que buscam avaliar e gerenciar riscos ambientais e sociais em suas operações e cadeias de valor, e para instituições financeiras que buscam compreender os riscos em carteiras de crédito e investimentos. Isso ocorre porque os riscos de impactos ambientais (por exemplo, desmatamento) ou sociais (por exemplo, conflitos de terra) são frequentemente específicos de cada local.

Por exemplo, matadouros de gado localizados perto de fronteiras de desmatamento podem estar mais expostos ao desmatamento, cooperativas de cacau que operam em certas áreas podem ser mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, e instalações de processamento de soja que operam em áreas com escassez de água podem ser mais vulneráveis a interrupções.

Captura de tela da página de dados: O mapa de dados das instalações mostra a localização dos matadouros de bovinos no Brasil

Atendendo às necessidades de empresas e instituições financeiras

As empresas precisam mapear suas cadeias de suprimentos até as regiões de abastecimento para avaliar, mitigar e remediar impactos ambientais e sociais. As informações mais precisas vinculariam os suprimentos a fazendas individuais, mas a rastreabilidade em nível de fazenda continua sendo um desafio em algumas cadeias de suprimentos, especialmente para commodities onde há muitos intermediários, como gado, ou pequenos produtores, como cacau. Nesse caso, informações em nível de área também podem subsidiar as ações da empresa.

Informações sobre as instalações da cadeia de suprimentos podem fazer uma contribuição crítica. Instalações como cooperativas, silos e moinhos são os primeiros pontos de agregação dos produtores e, portanto, fornecem uma indicação da provável região de abastecimento ao redor deles. Isso permite que as empresas realizem avaliações de risco em nível de área dos impactos ambientais e sociais naquela região, fornecendo algum nível de granularidade e especificidade. Mesmo onde a rastreabilidade em nível de fazenda está disponível, uma avaliação em nível de área ao redor de uma instalação pode fornecer informações adicionais cruciais sobre riscos como escassez de água ou os riscos de mistura com produtos de outras fazendas ligados a impactos ambientais e sociais. Isso se reflete nas orientações da Accountability Framework Initiative , do processo LEAP da TNFD e das Cadeias de Fornecimento Agrícolas Responsáveis da OCDE-FAO .

A capacidade das instituições financeiras de avaliar sua exposição a impactos ambientais e sociais por meio de seus empréstimos e investimentos também exige que elas compreendam os impactos localizados nas operações e cadeias de valor de seus clientes. Esses dados são necessários para auditorias de due diligence, divulgação e relatórios, avaliações e precificação de risco de crédito, e para novos produtos, como empréstimos vinculados à sustentabilidade e títulos verdes.

Enfrentando desafios em dados de instalações

Existem desafios significativos para empresas e instituições financeiras que acessam dados em nível de ativos em cadeias de suprimentos agrícolas, os quais esta nova divulgação de dados do Trase ajuda a abordar:

Aumentando o acesso aos dados

Atualmente, o acesso aos dados é frequentemente limitado, pois grandes bancos de dados proprietários, muitas vezes de propriedade de consultorias e fornecedores de dados comerciais, exigem pagamento para acesso. Os bancos de dados abertos existentes geralmente abrangem apenas um subconjunto de instalações. A Trase ajuda a resolver esse problema, fornecendo e consolidando acesso aberto aos dados das instalações da cadeia de suprimentos para um conjunto de commodities florestais de risco. Dados abertos trazem vantagens significativas ao proporcionar transparência em todo o setor, permitindo a revisão por pares e clareza sobre a precisão e as limitações dos dados subjacentes, além de atualizações por meio de crowdsourcing.

Melhorando a precisão

Os dados existentes frequentemente apresentam entradas conflitantes entre fontes governamentais, divulgações corporativas e mapas de crowdsourcing. As mesmas instalações podem ser listadas sob vários nomes em conjuntos de dados. Os métodos de verificação raramente são publicados e, em muitos casos, as coordenadas estão incorretas ou aproximadas (por exemplo, centroides de região ou endereço da sede). Os novos dados da Trase coletam, consolidam e verificam informações publicamente disponíveis sobre ativos de governos, incluindo o SICARM no Brasil, divulgações corporativas e industriais, pesquisadores e plataformas de mapeamento como o Google Maps ou o OpenStreetMap.

Preenchendo lacunas de dados

Há um grande número de instalações na cadeia de suprimentos; por exemplo, há mais de 9.000 silos de soja no Brasil. Além disso, existem milhares de instalações pequenas ou remotas, como silos-bolsa em fazendas ou centros de acondicionamento em vilarejos, que muitas vezes não são registradas. Atualmente, muitas vezes não há dados sobre propriedade, capacidade, licenças e compradores que possam subsidiar o mapeamento da cadeia de suprimentos.

A divulgação inicial de dados de instalações da Trase inclui matadouros e instalações de processamento de carne no Brasil (gado, frangos etc.), usinas de óleo de palma na Indonésia (integrando identificadores UML) e cooperativas de cacau na Costa do Marfim. O rápido progresso em inteligência artificial também está permitindo uma identificação mais ágil de instalações não identificadas. Adicionaremos informações sobre mais commodities e países, incluindo silos de soja no Brasil, onde estamos colaborando com a Clay AI for Earth no uso de inteligência artificial para melhorar a identificação e a verificação. Sempre que possível, os dados da Trase também incluirão informações sobre a propriedade, capacidade e identificadores exclusivos, como números de identificação fiscal da empresa, que permitem aos usuários conectar e triangular os dados vinculados à instalação. Essa abordagem segue o sucesso da Lista Universal de Moinhos (UML) , amplamente adotada pelo setor de óleo de palma em relatórios e divulgação, e da Lista Universal de Moinhos de Açúcar no setor açucareiro. Também adicionaremos informações sobre os galpões de abastecimento e os riscos de desmatamento associados a cada instalação.

Trase gostaria de reconhecer o trabalho árduo e a experiência dos pesquisadores e cientistas de dados que desenvolveram os conjuntos de dados das instalações, incluindo: Jason Benedict, Robert Heilymayr, Kimberly Carlson, Ramada Febrian, Valentin Guye, Cécile Renier e a equipe Do Pasto Ao Prato (Erasmus zu Ermgassen, Andrea Garcia, Finn Mempel).


Fonte: Trase

Governo Lula cede à pressão dos lobby pró-veneno e suspende implantação do Programa Nacional de Rastreabilidade de Agrotóxicos e Afins

Conheça a máquina de lobby contra projetos de lei que proíbem pulverização  de agrotóxicos - De Olho nos Ruralistas

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) decidiu adiar por 60 dias a implantação do Programa Nacional de Rastreabilidade de Agrotóxicos e Afins (PNRA), após forte pressão de entidades que representam os interesses de produtores e vendores de venenos agrícolas. A medida foi formalizada pela PortariaNº 817 de  21 de julho de 2025 e amplia o prazo para que empresas e produtores rurais se adequem às novas exigências previstas na Portaria nº 805, de 9 de junho de 2025, incluindo a definição do cronograma de adesão e dos padrões técnicos do programa.

Segundo o Mapa, a decisão também abre espaço para o envio de contribuições até o dia 31 de julho, com o objetivo de revisar aspectos técnicos da norma publicada no mês de junho. Entre os pontos mais criticados está a exigência do uso de etiquetas por radiofrequência (RFID) nas embalagens dos produtos, considerada pela indústria como onerosa e desnecessária para o setor.

Nesse cenário, algumas entidades que fazem lobby em prol da produção e venda de agrotóxicos, tais como a CropLife Brasil e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) acabaram elogiando a decisão do governo e reforçaram a importância de um diálogo mais profundo sobre o tema. Ambas as entidades afirmam apoiar a rastreabilidade, mas defendem ajustes que evitem impactos econômicos negativos na cadeia produtiva. “A publicação desta portaria atende um anseio do setor privado e, com certeza, vamos colaborar na construção de uma proposta factível”, afirmouo Sindiveg em nota.

Além disso, a iniciativa do governo Lula ocorre em meio a críticas de parlamentares ligados à bancada ruralista e à apresentação de projetos que visam suspender o PNRA. Isso porque os opositores apontam a falta de consulta ao setor e alertam para o risco de aumento nos custos operacionais, especialmente para pequenos e médios produtores, que são maioria no país.

É sempre bom lembrar que, ao contrário do que afirmam as entidades do lobby pró-venonos agrícolas,  o grosso do uso de agrotóxicos no Brasil ocorre em latifúndios onde se concentra o plantio de monoculturas de exportação que incluem a soja, milho, cana de açúcar e algodão.

A vida do microplástico: como os fragmentos se movem através de insetos, plantas, animais, e de você

The Microplastics Scourge | Hopkins Bloomberg Public Health Magazine
Por Phoebe Weston  & Tess McClure para o “The Guardian” 

Microplásticos foram encontrados em placentas de bebês em gestação, nas profundezas da Fossa das Marianas, no cume do Everest e nos órgãos de pinguins-da-antártida. Mas como eles viajam pelo mundo e o que fazem com as criaturas que os carregam? Aqui está a história de como o plástico contamina ecossistemas inteiros – e até mesmo os alimentos que comemos. Ilustrações de Claire Harrup

O começo: um único fio

Imagem sobreposta mostrando plásticos passando pelo cano de esgoto e acabando misturados ao fertilizante pulverizado no solo. Imagem sobreposta mostrando plásticos nos peixes, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

A história começa com um único fio de poliéster, desprendido da trama de um suéter de acrílico rosa barato enquanto ele gira em uma máquina de lavar. Essa lavagem descarta centenas de milhares de minúsculos fragmentos e fios de plástico – até 700.000 em um único ciclo de lavagem .

Junto com bilhões de outras fibras sintéticas microscópicas, nosso fio percorre os canos de esgoto doméstico. Muitas vezes, acaba como lodo de esgoto, sendo espalhado nos campos dos agricultores para ajudar no crescimento das plantações. O lodo é usado como fertilizante orgânico nos EUA e na Europa , transformando inadvertidamente o solo em um enorme reservatório global de microplásticos. Uma estação de tratamento de águas residuais no País de Gales descobriu que 1% do peso do lodo de esgoto era plástico.

A partir daí, ele sobe pela cadeia alimentar, passando por insetos, pássaros, mamíferos e até humanos. Talvez a vida do nosso suéter como peça de roupa acabe em breve, durando apenas algumas saídas antes de sair da lavagem encolhido e com bolinhas, para ser descartado. Mas a vida do nosso fio será longa. Ele pode ter sido parte de um suéter por apenas algumas semanas, mas pode viajar pelo mundo natural por séculos.

No mundo do solo e das minhocas

Imagem sobreposta mostrando plásticos no solo e na minhoca, no besouro e na borboleta

Espalhados pelos campos como água ou lodo, nossos minúsculos filamentos se entrelaçam na estrutura dos ecossistemas do solo. Uma minhoca que vive sob um campo de trigo cava seu caminho através do solo, confundindo o fio com um pedaço de folha ou raiz velha. A minhoca o consome, mas não consegue processá-lo como matéria orgânica comum.

A minhoca se junta a quase uma em cada três minhocas que contêm plástico, de acordo com um estudo publicado em abril , bem como a um quarto das lesmas e caracóis que ingerem plástico enquanto pastam no solo. Lagartas de borboletas pavão, azul-claro e almirante-vermelha também contêm plástico, talvez por se alimentarem de folhas contaminadas com ele, mostram pesquisas.

Com o plástico no intestino, a minhoca escavadora terá mais dificuldade para digerir nutrientes e provavelmente começará a perder peso . Os danos podem não ser visíveis, mas, para os insetos, a ingestão de plástico tem sido associada a crescimento atrofiado , fertilidade reduzida e problemas no fígado, rins e estômago. Mesmo algumas das menores formas de vida em nosso solo, como ácaros e nematoides – que ajudam a manter a fertilidade da terra – são afetadas negativamente pelo plástico .

A poluição plástica no ambiente marinho tem sido amplamente documentada, mas um relatório da ONU constatou que o solo contém mais poluição microplástica do que os oceanos. Isso importa não apenas para a saúde dos solos, mas também porque insetos rastejantes como besouros, lesmas e caracóis formam os blocos de construção das cadeias alimentares. Nosso verme agora está permitindo que essa fibra plástica se torne um viajante internacional.

Na cadeia alimentar, em mamíferos e aves

Imagem sobreposta de plásticos no pássaro, nas vacas, na minhoca e nas plantas Imagem sobreposta mostrando plásticos no peixe, no pão e no leite que foram apresentados na ilustração anterior.

Em um jardim suburbano, um ouriço fareja uma dúzia de invertebrados em uma noite, consumindo fibras plásticas dentro deles. Um deles é a nossa minhoca.

Um estudo que analisou as fezes de sete ouriços descobriu que quatro delas continham plástico, um dos quais continha 12 fibras de poliéster, algumas das quais eram rosa. Se ouriços não vivem em seu país, substitua-os por outro pequeno mamífero ou pássaro apressado: o mesmo estudo descobriu que camundongos, ratazanas e ratos também estavam comendo plástico, diretamente ou por meio de presas contaminadas.

Aves que se alimentam de insetos, como andorinhões , tordos e melros, também estão ingerindo plástico por meio de suas presas. Um estudo realizado no início deste ano descobriu pela primeira vez que as aves têm microplásticos nos pulmões porque também os inalam. “Os microplásticos estão agora onipresentes em todos os níveis da cadeia alimentar”, afirma a Professora Fiona Mathews, bióloga ambiental da Universidade de Sussex. A carne, o leite e o sangue de animais de fazenda também contêm microplásticos.

No topo da cadeia alimentar, os humanos consomem pelo menos 50.000 partículas de microplástico por ano . Elas estão presentes em nossos alimentos , na água e no ar que respiramos . Fragmentos de plástico foram encontrados no sangue , no sêmen , nos pulmões , no leite materno , na medula óssea , na placenta , nos testículos e no cérebro .

Lavando nos rios e soprando no vento

Imagem sobreposta mostrando plásticos no rio, no mar e nos peixes Imagem sobreposta mostrando plásticos nos peixes, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

Mesmo ao subir na cadeia alimentar animal, nossa fibra de poliéster não se decompõe. Em algum momento, o fio retorna à terra quando a criatura que consumiu seu hospedeiro morre, e uma nova aventura começa. O corpo se decompõe, mas a fibra de poliéster perdura. Uma vez no solo, ela é arada pelo agricultor antes da semeadura. Mas pode não permanecer lá por muito tempo – ventos fortes sopram o solo seco e degradado para o ar, levando consigo um fragmento rosado de plástico. Em chuvas fortes, a fibra pode ser arrastada para um rio que deságua no mar: uma das principais fontes de contaminação marinha é o escoamento da terra.

Esse processo de movimentação pelos sistemas naturais ao longo dos anos é chamado de “espiral plástica”. Cientistas descobriram que microplásticos equivalentes a 300 milhões de garrafas plásticas de água caíram no Grand Canyon, em Joshua Tree e em outros parques nacionais dos EUA. Até mesmo os lugares mais remotos estão contaminados. Um cientista encontrou 12.000 partículas de microplástico por litro em amostras de gelo marinho do Ártico, arrastadas pelas correntes oceânicas e trazidas pelo vento.

Infiltração em plantas, flores e plantações

Imagem sobreposta mostrando plásticos no trigo e no solo Imagem sobreposta mostrando plásticos no peixe, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

Com o passar do tempo, nosso fio de plástico ainda não apodreceu, mas se quebrou em fragmentos, deixando pequenos pedaços de si mesmo no ar, na água e no solo. Ao longo dos anos, ele pode se tornar tão pequeno que se infiltra na parede celular da raiz de uma planta enquanto suga nutrientes do solo. Nanoplásticos foram encontrados nas folhas e frutos de plantas e, uma vez dentro, podem afetar a capacidade da planta de fotossíntese, sugere a pesquisa . Aqui, dentro dos sistemas microscópicos da planta, os pedaços de nossa fibra rosa causam todos os tipos de estragos  bloqueando os canais de nutrientes e água, danificando as células e liberando substâncias químicas tóxicas . Alimentos básicos como trigo, arroz e alface demonstraram conter plástico, que é uma maneira pela qual eles entram na cadeia alimentar humana.

Oito bilhões de toneladas de plástico e contando

Imagem sobreposta mostrando plásticos no peixe, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

Desde suas origens humildes, nossa fibra pode ter viajado pelo mundo, desprendendo-se ao longo do caminho e penetrando em quase todas as camadas de diferentes ecossistemas e nos confins do mundo natural. Extraí-la depois de iniciada essa jornada é extremamente difícil. A melhor maneira de prevenir sua disseminação é detê-la desde o início – antes da minhoca, antes do solo, antes da máquina de lavar, até mesmo antes da fabricação do suéter.

Desde a década de 1950, a Humanidade produziu mais de 8,3 bilhões de toneladas de plástico – o equivalente ao peso de um bilhão de elefantes. Ele está presente em embalagens, tecidos, materiais agrícolas e bens de consumo. Optar por viver sem ele é quase impossível.

Empresas de fast fashion, gigantes de bebidas, redes de supermercados e grandes empresas agrícolas não se responsabilizaram pelos danos que isso causou, afirma Emily Thrift, pesquisadora de plástico no meio ambiente na Universidade de Sussex. Ela afirma que os consumidores individuais podem reduzir seu consumo, mas não devem sentir que isso é inteiramente sua responsabilidade. “Se você produz esse nível de desperdício, precisa haver alguma forma de penalização por isso”, afirma. “Eu realmente acredito que, até que haja políticas e maneiras de responsabilizar as grandes corporações, não vejo muita mudança nisso.”


Fonte: The Guardian

Extremos da Terra caminham para ponto de não retorno

Tundra do Ártico e floresta amazônica demandam ações imediatas para mitigar o metano e outros superpoluentes climáticos de curta duração

Por Carlos Nobre e Durwood Zaelke 

O atual cenário de guerra e o clima de tensão entre países importantes na geopolítica mundial têm afastado a crise climática global do noticiário diário. A proximidade da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), no entanto, traz o tema para a ordem do dia, diante da alarmante situação de dois importantes extremos ambientais da Terra: a floresta amazônica e a tundra do Ártico — um bioma localizado no extremo norte do planeta, coberto quase que exclusivamente por gelo. Ambos enfrentam riscos reais de ultrapassar o chamado ponto de não retorno climático, situação em que os danos ambientais se tornam irreversíveis.

Ainda que separados por milhares de quilômetros, esses dois biomas compartilham uma ligação fundamental: estão profundamente ameaçados pelo aumento acelerado da temperatura global e pelas emissões de gases de efeito estufa (GEE), especialmente o metano. Embora similar ao dióxido de carbono (CO2), ele permanece na atmosfera por cerca de uma década, em comparação a centenas de milhares de anos do CO2, mas absorve 86 vezes mais energia solar, contribuindo para o efeito estufa e impactando severamente o meio ambiente. Os prejuízos causados rompem limites geográficos e socioambientais, afetando o agronegócio e a economia de forma geral.

Como sabemos, a amazônia é a maior floresta tropical do mundo e tem um papel fundamental na regulação do clima terrestre. Além de manter o ciclo das chuvas e abrigar uma biodiversidade única, ela funciona como “sumidouro de carbono”. É um processo natural que absorve e armazena CO2 da atmosfera. O desmatamento ilegal, juntamente com os incêndios florestais, está reduzindo a capacidade da amazônia de absorver CO2 e nos aproxima de um colapso ecológico que pode ser irreversível.

Do outro lado do hemisfério, no Norte, o Ártico está aquecendo quatro vezes mais rápido do que a média global e, com isso, o gelo do Ártico e a tundra terrestre estão derretendo a um ritmo preocupante. Essa camada marinha de água congelada é altamente reflexiva, e a substituição desse grande escudo branco por um oceano mais escuro acarreta mais aquecimento por conta da absorção do calor, em um efeito de retroalimentação autoamplificadora. A neve e o gelo terrestres no Ártico também são reflexivos e, quando derretem e são substituídos por terra mais escura, desencadeiam outro ciclo de retroalimentação autoamplificadora. Além disso, neste bioma, conhecido como “permafrost”, o aquecimento do solo congelado há milênios corre o risco de liberar vastas reservas de metano e CO2.

A conexão entre esses dois biomas revela que a crise climática não é localizada, é global. A ciência nos mostra o que está acontecendo e o futuro do planeta depende das escolhas que fazemos hoje. Se chegarmos a esse ponto de não retorno —e estamos caminhando céleres para isso—, a amazônia e o Ártico não conseguirão mais se regenerar. Nesse grave cenário que se avizinha, mesmo se reduzíssemos drasticamente as emissões, o sistema climático seguiria aquecendo por conta própria. Se esse limite for ultrapassado, cerca de 70% da amazônia pode se degradar nas próximas décadas, tornando a floresta inviável.

Evitar esse ponto crítico requer ação imediata para mitigar o metano e outros poluentes climáticos de curta duração, desacelerando o aquecimento mais próximo. Nesse sentido, estudos do Instituto de Governança e Desenvolvimento Sustentável (IGSD) indicam que mitigar o metano e outros superpoluentes climáticos pode evitar quatro vezes mais aquecimento em 2050 do que cortar apenas o CO2.

No ano em que o Brasil sedia a COP30, em Belém, há um apelo crescente para que o país lidere uma nova abordagem para mitigar os superpoluentes climáticos de curto prazo. Isso inclui a exigência para que as empresas de óleo e gás limitem imediatamente suas emissões de metano e desencorajem fortemente a exploração de novos combustíveis fósseis, reconhecendo que as reservas existentes hoje são muito maiores do que podem ser queimadas mantendo o planeta relativamente seguro.

A impossibilidade de atingir a meta firmada em 2015 no Acordo de Paris —de frear o aumento da temperatura média global em até 1,5°C— é um estímulo para que sigamos em busca de uma transição justa e inclusiva para as próximas gerações. Cada dia é importante para não recebermos uma conta impagável e sem retorno, em um futuro que está mais próximo do que se imagina.

Carlos Nobre é Climatologista, membro da Academia Brasileira de Ciências e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC); Durwood Zaelke é Advogado ambiental, fundador do Institute for Governance & Sustainable Development (IGSD).


Fonte: Uma gota no oceano

Enquanto agricultores desapropriados amargam o calote estatal, construção da termelétrica no Porto do Açu foi turbinada com R$ 4 bilhões do BNDES

A inauguração que ocorrerá amanhã da termelétrica GNA II deverá ter a presença do presidente Lula, e existem bilhões de razões para este convite. É que a sua construção teria envolvido um investimento de R$ 7 bilhões, sendo que apenas o BNDES garantiu o aporte de R$ 4 bilhões do valor total. Um investimento deste a empresa é uma joint venture que envolve a Prumo, controladora do Porto do Açu, a alemã Siemens Energy, a gigante estal chinesa da área de energia, a State Power Investment Corporation (Spic) e a petroleira inglesa BP.

O curioso é que todo esse dinheiro está investido em uma empresa que apenas vai operar se houver alguma crise grave em outras fontes de energia, e com impactos negativos para as contas pagas pelo brasileiro comum.

Mas enquanto essa montanha de dinheiro público foi colocado em uma empresa essencialmente estrangeira para vender energia mais cara para os brasileiros, as centenas de famílias que tiveram suas terras confiscadas pelo (des) governo de Sérgio Cabral continuam tendo negadas o ressarcimento devido pela perda de seus meios de produção e reprodução, atingindo ainda diretamente a geração de renda agrícola do município de São João da Barra.

Alguém deveria lembrar ao presidente Lula que foi durante o governo da presidente Dilma Rousseff, também do PT como ele, que ocorreram as escrabrosas ações da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (Codin) para retirar agricultores pobres de terras que eles ocupavam por várias gerações. Assim, como hoje a Codin objetivamente não possui orçamento para pagar o que deve a centenas de agricultores familiares, o presidente Lula deveria liberar uma linha de crédito para honrar as dívidas com esses brasileiros pobres. Afinal, se há dinheiro para turbinar empreendimentos controlados por empresas estrangeiras, há que haver dinheiro para quem está sendo atingido duramente pelos efeitos de um modelo de desenvolvimento calcado na criação de enclaves.

Agrotóxico amplia vendas em até 2.672,8% e escancara farsa dos transgênicos no Brasil

Pulverização de agrotóxicos em lavoura em Mato Grosso: dos produtos mais vendidos no Brasil, metade foi banida na EU devido à alta toxicidade.  Foto extraída de Juruena – Rastros de Veneno

Por Cida de Oliveira*

Não é a toa que o Brasil caminha para consolidar sua posição de maior lixeira química do mundo. O modelo agrícola hegemônico, baseado no monocultivo em grandes extensões de terra banhadas em agrotóxicos, o levou para a liderança mundial do consumo desses produtos. Dianteira essa que pode ser traduzida também pela explosão nas vendas de toneladas e toneladas de herbicidas no período de 2010 a 2020. Nesses onze anos saltaram de 157.512 para 329.697. Em números absolutos, um aumento de 128% na comercialização, conforme levantamento da Embrapa Meio  Ambiente em conjunto com a Universidade de Rio Verde a partir de dados disponibilizados pelo Ibama.

Publicado na revista científica Agriculture, o estudo mostra números astronômicos que compõem o aumento do mercado dos herbicidas, categoria que responde por mais de 60% de todos os agroquímicos. O destaque ficou com o cletodim, que aumentou suas vendas em 2.672,8%. O produto usado na soja e algodão, entre outras culturas, passou de 244,5 toneladas vendidas em 2010 para 6.779,6 em 2020.

Princípio ativo de 46 produtos registrados no país para combater as chamadas plantas invasoras segundo o banco de dados Agrofit, o cletodim enfrenta barreiras na União Europeia (EU). Detém o registro de um único produto, com validade limitada a 15 dos 27 países-membros.

Outro que alavancou seu mercado no Brasil foi o haloxifope-metil, com aumento de 896,9%. Princípio ativo de 27 produtos registrados para soja, cana, citros e algodão, partiu de 111,3 toneladas para 1.109,8 ao longo dos 11 anos. Na EU, porém, enfrenta processo de restrições. Foi banido da canola, com efeitos sobre a produção australiana, grande fornecedor que está tendo de se adequar. Seu uso em cenouras, leguminosas, pastagens, soja e beterraba soja e beterraba poderá ser afetado. A Agência Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) estabeleceu agenda para reduzir os limites máximos de resíduos ao mínimo.

 Preocupação com segurança

Outro princípio ativo que cujos fabricantes faturaram mais é o triclopir. Saltou de 228 toneladas em 2010 para 2.405 toneladas em 2020, aumento de 953,5%. A molécula presente em 40 produtos aprovados no Brasil para soja e outras culturas passou por avaliação recente pela autoridade europeia do setor na Polônia. Os testes fazem parte do processo de renovação do registro pedido pela Corteva. A empresa formada com a fusão da DuPont com a Dow Chemical procura ganhar tempo em uma UE cada vez mais exigente quanto aos agrotóxicos. A revisão se concentrou no uso do herbicida em pastagens e analisou seus limites máximos de resíduos em arroz. Apesar dos parâmetros considerados confiáveis para avaliação de risco para fins de regulação, a falta de informações mais apuradas levantou preocupações sobre sua segurança e eficácia.

Sucesso no Brasil, barrado na União Europeia

O diclosulam é outra molécula que aumentou bem seu mercado. Presente em seis produtos aprovados no Brasil para uso na soja, viu sua comercialização ampliada em 561,3% em onze anos. Sucesso no Brasil, o agente ativo sequer chegou a ser registrado na UE, segundo levantamento dos professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Sônia Hess e Rubens Nodari publicado na revista Ambientes em Movimento e na mais recente edição do Dossiê Abrasco.

A flumioxazina, substância ativa de 48 produtos aprovados no Brasil para soja, cana e eucalipto, entre outros, teve aumento de 531,6% na comercialização. Na avaliação dos autores do estudo na Embrapa e Universidade de Rio Verde, o incremento nas vendas se deu com a ampliação dos produtos, o que permitiu menores preços em comparação a outros herbicidas.

Banido da Europa em 2009, o glufosinato de amônio também foi bem, aumentando as vendas em 290%. Princípio ativo de 65 formulações registradas no Brasil, passou a ganhar espaço a partir de 2017, com a aprovação de mais produtos formulados à base da molécula. E deverá ganhar mais espaço caso vinguem novos transgênicos aprovados, resistentes à substância. É o caso o trigo e uma nova soja.

Glifosato ainda na dianteira

Essa explosão nas vendas desses produtos, no entanto, não os coloca no ranking dos mais vendidos no Brasil. Presente em 31 formulações, o glifosato teve aumento de 106,5% de 2010 a 2020, segundo levantamento da Embrapa. Mesmo assim, vendeu 246.017 toneladas em 2020, mantendo-se na já antiga liderança das vendas no país, como também mostra levantamento dos professores da UFSC.

Do mesmo modo, o 2,4-D mantém a vice liderança. Princípio ativo de 52 produtos com registro no Brasil, viu suas vendas aumentar em 233,8% entre 2010 e 2020, passando de 15.323 toneladas em 2010 para 51.149 toneladas em 2020, segundo a Embrapa. Uma pequena diferença quanto ao apurado pela USFC, que aponta 57.597,6 toneladas. Mesmo assim, segue na vice-liderança, para indignação de setores da sociedade civil e científica que lutam pelo seu banimento no país. Em julho de 2022 a Anvisa desprezou manifestações e decidiu manter o produto no mercado.

Pacote do Veneno

Integrante da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) pela terceira vez, representando agora o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o geneticista e professor da UFSC, Rubens Nodari, não poupa críticas ao modelo agrícola hegemônico no país. E principalmente às políticas em diversos governos que alimentam, sustentam e pioram a situação. É o caso da aprovação do chamado Pacote do Veneno, em janeiro de 2023, que limitou o papel da Anvisa e do Ibama de questões relativas a agrotóxicos e transgênicos. E da liberdade conferida a essas indústrias poderosas por meio da permissividade da Lei de Biossegurança.

Voto vencido nas decisões da CTNBio, que aprova sem muito questionamentos os pedidos para liberação de novos organismos geneticamente modificados, Nodari avalia que a comissão deixa de cumprir seu papel ao ignorar que “evidência de ausência é diferente de ausência de evidência”. “Quando aprovaram lá o primeiro transgênico, alegaram que havia ausência de evidências. Ora, porque não investigaram para achar; quem procura, acha”, disse, ressaltando que não é contrário a novas tecnologias. “Mas quero que tudo seja analisado com rigor”.

Promessa descumprida

“O aumento de vendas desses produtos todos, que choca e muito, tem tudo a ver com o aumento das plantações transgênicas no Brasil. Primeiro vieram com pretexto de resistir a herbicidas e produzir mais. Mas não foi o que aconteceu”, critica. Todo esse crescimento nas vendas de agrotóxicos, aliás, não foi acompanhado pelo aumento na área plantada, conforme mostra o levantamento da Embrapa.

Em entrevista ao Blog, Nodari disse que o modelo de produção transgênica, com monocultura em grandes extensões de terra e uso de venenos não tem mesmo como dar certo. Isso porque o sucesso da produção agrícola depende da diversidade. “Quando a genética é uniforme em grandes áreas, com plantas iguais, a resistência é menor. Já a diversidade de plantas proporciona variedade genética. E cada planta diferente torna-se um obstáculo para inoculação e disseminação de fungos, por exemplo. É assim nos sistemas agroflorestais, que otimizam o uso da terra combinado com produção agrícola e animal”, comparou.

Segundo ele, a agroecologia é uma tecnologia capaz de aumentar a produção de alimentos sem venenos e enfrentar a crise ambiental. “Mas não é a saída escolhida no país. Prova disso é todos os governos colocaram somente gente do agronegócio para comandar seus ministérios da Agricultura”, disse, lembrando que propostas no sentido contrário ao setor de agrotóxicos praticamente são esquecidas.

Oceano de produtos perigosos

Falar sobre aumento nas vendas de agrotóxicos, que faz a alegria apenas dos fabricantes e daqueles que se beneficiam, é também uma oportunidade de reforçar o alerta sobre o oceano de agrotóxicos perigosos no qual o Brasil está mergulhado. Ou seja, se nada for feito para reverter, em questão de tempo os negócios hoje lucrativos passarão a perder mercado externo.

Dos 14 herbicidas que venderam, sozinhos, mais de 3.000 toneladas no Brasil em 2020, a metade (7) já foi banida na União Europeia. Trata-se de atrazina, acefato, dicloreto de paraquate, diurom, dibrometo de diquate, tebutiurom e ametrina. Ou seja, a proibição ocorre devido aos efeitos nocivos aos humanos e ao meio ambiente devido à exposição a componentes químicos que comprovadamente têm efeitos tóxicos.

No Brasil, ao contrário, há concessão de autorizações para novos produtos por prazo indefinido, com base em processos de avaliação questionados pela boa ciência. Seja pelo baixo rigor científico e aprovação de estudos com falhas metodológicas, apresentados somente pela parte interessada na aprovação. E também pela ausência de participação pública na tomada de decisão.

Exemplo é o rebaixamento da classificação toxicológica de 1924 agrotóxicos no início de agosto de 2019. Com a mudança, o glifosato, por exemplo, recebeu a faixa 4, “produto pouco tóxico”. Na prática, deixou de ser reconhecido como produto capaz de causar câncer em humanos, conforme classificação da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC). Nesse “passe de mágica”, produtos com explosão nas vendas de 2010 a 2020, como o cletodim, triclopir, 2,4-D, atrazina e ametrina, entre outros, foram transformados em substâncias pouco tóxicas. Suas bulas, porém, mantêm o termo muito perigosos ao meio ambiente.

Essa seletividade do perigo de acordo com a conveniência é um escândalo, segundo avaliação do engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo. “Venenos destinados a matar plantas continuam afetando redes ecossistêmicas, mesmo não matando os ratos de teste. E os inseticidas que afetam o sistema nervoso e reprodutivo de insetos afetam insetos não alvo de maneira bem clara, coisa que nos animais é mais difícil de perceber”, ponderou ao Blog.

Melgarejo, que integra o Movimento da Ciência Cidadã, chamou atenção também para o que chama de obsessão pelas análises de risco envolvendo um novo produto e um alvo no laboratório. E a compara com a complexidade da vida real. “Lembra do Einstein dizendo que se os polinizadores acabarem a humanidade regredirá à idade da luta por comida? Pois então… como um veneno pode ser mortal para polinizadores e inócuo para humanos?”, questiona. “As relações, as conexões, as redes, ficam de fora nestas análises de risco que isolam um agente e um alvo. Estes estudos, que simulam uma condição irreal, são reducionistas demais, de um cientificismo pobre, que ocultam danos reais. Não dão conta da complexidade”.


*Cida de Oliveira é jornalista

 

O clima ameaça uma ‘cascata de pontos de inflexão’

Líderes mundiais devem tomar “medidas imediatas e sem precedentes” para evitar pontos de inflexão climáticos devastadores, dizem especialistas

“Os recifes de corais tropicais ultrapassaram seu ponto crítico”. Imagem: mariejirousek .

Por Brendan Montague para o “The Ecologist”

Especialistas em pontos de inflexão ecológicos alertaram que bilhões de pessoas estão em risco, já que o aquecimento global deve ultrapassar 1,5°C dentro de alguns anos.

Uma Conferência Global Tipping Points em Exeter, com quase 200 delegados neste mês, endossou uma declaração pedindo ação dos formuladores de políticas — especialmente dos líderes reunidos na cúpula climática COP30 no Brasil ainda este ano.

Eles afirmam: “Os recifes de corais tropicais já ultrapassaram seu ponto crítico e estão sofrendo uma perda sem precedentes, prejudicando os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas que dependem deles.”

Crítico

E alertam que uma série de outros pontos de inflexão – incluindo o colapso de correntes oceânicas cruciais e a extinção da floresta amazônica – pode se seguir. Cada fração de grau acima de 1,5°C importa. E cada ano de “excesso” também importa.

A presidência brasileira da COP30 destacou repetidamente os pontos de inflexão em suas comunicações , e a nova declaração se junta aos organizadores da COP no apelo aos governos para que ajudem a desencadear pontos de inflexão positivos em suas sociedades e economias.

Ao fazer isso, eles podem reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa e proteger e restaurar os ecossistemas que fornecem sistemas essenciais de suporte à vida.

Acionamento

O professor Tim Lenton, do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter, disse: “Precisamos de políticas decisivas e de ações da sociedade civil – isso é fundamental para os direitos humanos e a saúde planetária e, em última análise, é uma questão de sobrevivência”.

Mike Barrett, Conselheiro Científico Chefe do WWF, afirmou: “Os riscos de pontos de inflexão globais são reais e as consequências, catastróficas. E se esperarmos até sentirmos os impactos, saberemos também que já é tarde demais para agir.” 

Para minimizar a ultrapassagem, as emissões globais de gases de efeito estufa devem ser reduzidas pela metade até 2030, em comparação aos níveis de 2010.

A boa notícia é que sabemos o que fazer para evitar isso – principalmente restaurando a natureza e fazendo a transição dos sistemas energético e alimentar. Mas a hora de agir é agora. Mais tarde já é tarde demais.

Governos e empresas devem alinhar rapidamente suas políticas e fluxos financeiros para limitar o aquecimento global e interromper a destruição da natureza, minimizando o risco de desencadear novos pontos de inflexão perigosos. Em vez disso, devemos catalisar pontos de inflexão positivos, especialmente na restauração da natureza, que é uma das nossas principais aliadas no combate às mudanças climáticas. 

A declaração completa

A previsão é de que o aquecimento global exceda 1,5°C dentro de alguns anos, colocando a humanidade na zona de perigo, onde vários pontos de inflexão climática representam riscos catastróficos para bilhões de pessoas. 

Os recifes de corais tropicais já ultrapassaram seu ponto de inflexão e estão sofrendo uma perda sem precedentes, prejudicando a subsistência de centenas de milhões de pessoas que dependem deles. O aquecimento atual ativou essas mudanças irreversíveis, e cada fração de aquecimento adicional aumenta drasticamente o risco de desencadear novos pontos de inflexão prejudiciais.

Isso inclui um colapso da formação de águas profundas nos mares de Labrador-Irminger, desencadeando mudanças climáticas abruptas que reduzem a segurança alimentar e hídrica no noroeste da Europa e na África Ocidental. 

Particularmente alarmante é o risco de colapso da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), que mergulharia o noroeste da Europa em invernos rigorosos e prolongados, ao mesmo tempo em que comprometeria radicalmente a segurança alimentar e hídrica global. A floresta amazônica também corre o risco de uma morte generalizada devido aos efeitos combinados das mudanças climáticas e do desmatamento.

A janela para evitar essas dinâmicas climáticas em cascata está se fechando rapidamente, exigindo ações imediatas e sem precedentes dos formuladores de políticas em todo o mundo, especialmente dos líderes na COP30. Este é um imperativo de direitos humanos e saúde planetária e, em última análise, uma questão de sobrevivência.

Tecnologias

Fundamental para prevenir pontos de inflexão climática é minimizar tanto a magnitude quanto a duração do excesso de temperatura acima de 1,5 °C. Cada ano e cada fração de grau acima de 1,5 °C são importantes. 

Para minimizar o excesso de emissões, as emissões globais de gases de efeito estufa devem ser reduzidas pela metade até 2030, em comparação com os níveis de 2010, exigindo uma aceleração sem precedentes na descarbonização. Só assim o mundo poderá atingir emissões líquidas zero a tempo de atingir o pico de temperaturas globais bem abaixo de 2°C e começar a retornar a 1,5°C, e depois abaixo dele. Isso também exigirá o aumento da escala da remoção sustentável de carbono da atmosfera.

As atuais Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e as metas vinculativas de longo prazo limitarão o aquecimento global apenas a cerca de 2,1°C. Portanto, apelamos a todas as nações que atualizam suas NDCs para o prazo de setembro de 2025 para que estabeleçam metas consistentes com a minimização da ultrapassagem de 1,5°C.

Para atingir essas metas, unimo-nos à Presidência da COP30 no apelo aos governos para que implementem políticas que ajudem a desencadear pontos de inflexão positivos em suas economias e sociedades, gerando mudanças autopropulsoras em tecnologias e comportamentos rumo à emissão zero. Também apoiamos a iniciativa Mutirão Global para catalisar a ação coletiva da sociedade civil e ajudar a desencadear pontos de inflexão positivos para alcançar objetivos climáticos comuns.

Para desencadear pontos de inflexão positivos que ajudem a eliminar 75% das emissões de gases de efeito estufa vinculadas ao sistema energético e a fazer a transição dos combustíveis fósseis de forma justa, ordenada e equitativa, apelamos aos formuladores de políticas para adotar (e aplicar) mandatos políticos ambiciosos para introduzir gradualmente tecnologias limpas e eliminar gradualmente as tecnologias movidas a combustíveis fósseis. 

Trajetória

Isso inclui proibições à venda futura de carros a gasolina/diesel, caminhões a diesel e caldeiras a gás. Para tecnologias menos maduras, como hidrogênio verde, amônia verde e aço verde, pedimos maior investimento em pesquisa, desenvolvimento e implantação.

Para desencadear pontos de inflexão positivos que ajudem a eliminar os 25% das emissões de gases de efeito estufa associadas à alimentação, agricultura e desmatamento, apelamos aos formuladores de políticas para que adotem políticas comerciais que catalisem a produção sustentável de commodities e transfiram recursos públicos do setor pecuário para proteínas de origem vegetal. Isso também ajudará a limitar o risco de pontos de inflexão na biosfera – incluindo a morte da floresta amazônica – e poderá liberar terras para a regeneração da natureza.

Para desencadear pontos de inflexão positivos de regeneração da natureza que ampliem a remoção sustentável de CO2 da atmosfera, pedimos ações políticas e da sociedade civil para proteger os direitos indígenas, apoiar iniciativas de conservação lideradas pela comunidade e garantir a valorização justa e transparente da natureza. 

Isso ajudará a atingir as metas do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal de restaurar 30% dos ecossistemas degradados e conservar 30% das terras, águas e mares. É essencial para limitar a ultrapassagem de 1,5°C.

Somente com políticas tão decisivas e ações da sociedade civil o mundo poderá mudar sua trajetória, deixando de enfrentar riscos climáticos incontroláveis e passando a aproveitar oportunidades positivas.


Fonte: The Ecologist

Lula no porto, e agricultores e pescadores atingidos do lado de fora: essa é a cara do modelo de desenvolvimento a la enclave

A mídia corporativa regional está anunciando a visita do presidente Lula ao interior do Porto do Açu para participar da inauguração da Usina Termelétrica (UTE GNA II).  A construção desta usina, contou com o generoso aporte R$ 7 bilhões de investimento por ter sido incluída no chamado Novo PAC. Além da UTE GNA II, o complexo de geração de energia elétrica no Porto de Açu reúne a UTE GNA I, com 1,3 GW, e um terminal de gás natural liquefeito (GNL), ambos em operação desde 2021. Com 3 GW de potência instalada, o conjunto  é apresentado como sendo o maior do gênero em operação na América Latina.

Enquanto Lula certamente será apresentado às belas maquetes do Porto do Açu e brindado com os melhores canapés que chefes de estado devem  merecer, uma outra história menos brilhosa continua rolando do lado de fora das cercas do Porto do Açu. 

Falo aqui da continua saga de cetenas de agricultores desapropriados há mais de uma década que continuam sem receber um centavo por suas propriedades e de pescadores artesanais que tiveram seu acesso fechado à Lagoa de Iquipari e outros corpos lacustres em nome da proteção ambiental que, na verdade, não passa de uma forma violenta de desterritorialização.

E antes que eu me esqueça, há que se lembrar que dado o tamanho desse empreendimento e sua capacidade poluidora, ainda vamos ouvir muito das consequências socioambientais de um empreendimento que só deverá ser acionada, e a preço tão salgado quanto as terras contaminadas pelo sal dos aterros hidráulicos do Porto do Açu, em momentos de bandeira vermelha.

E adivinhem quem serão os principais atingidos por essa poluição toda? Acertou quem respondeu os perdedores de hoje, agricultores e pescadores que ainda resistem no território do V Distrito de São João da Barra.

MST ocupa fazenda improdutiva em Campos dos Goytacazes (RJ) e denuncia ‘despejo sem ordem de reintegração de posse’

Ao todo, 500 famílias reivindicam Reforma Agrária no local de usina desativada

Região é historicamente marcada pelo latifúndio e injustiça social, afirma o movimento – Comunicação MST-RJ

Por Clívia Mesquita para o “Brasil de Fato”

Nas primeiras horas da manhã da última quinta-feira (24), cerca de 500 famílias organizadas no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda São Cristóvão, localizada no município de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense. A ação reivindica a destinação do local para Reforma Agrária.

Poucas horas após a ocupação, o movimento alertou que a Polícia Militar ameaça realizar um despejo forçada na área. “A ação é ilegal e arbitrária, uma violação direta da Constituição Federal, que exige decisão judicial para qualquer reintegração”, denuncia em nota.

Segundo o MST, a propriedade pertence ao grupo Othon, que controlava as antigas usinas Cupim e Barcelos. O Brasil de Fato solicitou ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) um posicionamento sobre a ocupação e informações sobre a situação cadastral da Fazenda. O texto será atualizado caso haja retorno do instituto.

Em vídeo enviado à reportagem, Mateus Guedes e Cristiano Meirelles, da direção estadual do MST no Rio de Janeiro, denunciam a concentração de terras improdutivas na região de Campos. “A Fazenda São Cristóvão é uma das mais de dez fazendas que tem na região norte fluminense que deve milhões e milhões para os cofres públicos, que é dinheiro de imposto, que deve voltar em forma de terra para o povo brasileiro. É urgente e necessário que o Incra e os demais órgãos tomem consciência do que está acontecendo aqui em Campos para que a gente evite maiores conflitos”, afirmou Meirelles.

O município de Campos dos Goytacazes é historicamente marcado por conflitos agrários que remontam o período da ditadura militar. Algumas usinas de cana-de-açúcar da região foram, inclusive, utilizadas para incinerar corpos de presos políticos.

Nesse contexto, a atuação do latifúndio se perpetua nos dias atuais com a concentração de terras, afirma em nota o MST. “Grandes extensões de terras pertencentes a usinas falidas, que não cumprem sua função social e, portanto, são alvo de uma intensa demanda pela democratização do acesso à terra por milhares de famílias camponesas”, diz o texto.

Terras da Fazenda São Cristóvão devem ser destinada à Reforma Agrária pois não cumprem função social, reivindica famílias acampadas. (Foto: Comunicação MST-RJ)

Em todo Brasil, o movimento busca pressionar o governo federal por avanços na política de Reforma Agrária, que está paralisada. No Rio de Janeiro, não houve conquista de novos assentamentos nos três primeiros anos do governo Lula (PT). Mais de mil famílias aguardam processos de regularização fundiária para terem direito à terra no estado.

A ocupação desta manhã faz parte das ações em torno da Jornada Nacional Camponesa, por conta do Dia do Trabalhador e Trabalhadora Rural, celebrado em 25 de julho. 

Outro lado

Brasil de Fato tentou contato com o grupo Othon, o mesmo que administra a rede de hotéis, pelo e-mail vinculado ao CNPJ, mas não teve retorno até o fechamento da matéria. Sobre a ação de despejo, a reportagem procurou a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) e aguarda um posicionamento.