A política comercial da União Europeia está finalmente falhando, com o acordo com o Mercosul praticamente morto

O acordo comercial do Mercosul está praticamente morto. Por um lado, isso deveria ter sido evitado. Por outro lado, é tarde demais para as florestas primárias queimadas.

mercosul euAgricultores irlandeses protestam contra o anúncio do agora praticamente morto acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul

Por Petra Pinzler para Zeit

O último por favor apague a luz! É difícil ter essa impressão quando se acompanha as notícias sobre a política comercial europeia. A Comissão Europeia quis comemorar porque negociou com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai a maior área de livre comércio do mundo, com mais de 770 milhões de habitantes, criando assim importantes mercados de vendas para a economia alemã. E agora isso.

Em primeiro lugar, ambientalistas e ativistas de direitos humanos protestaram contra o acordo comercial do Mercosul. Quando as fotos da florestas brasileiras em chamas circularam pelo mundo meses atrás, surgiram dúvidas em alguns governos se mais comércio com este país de todos os lugares seria realmente uma boa ideia. Irlanda, Áustria e França anunciaram seu veto. Há poucos dias, a chanceler Angela Merkel fez uma declaração em conversa com a ativista climática Greta Thunberg, dúvidas sobre os benefícios do acordo comercial. E nesta semana, a ministra da Agricultura alemã, Julia Klöckner, que de outra forma não é conhecida por sua coragem política excessiva, juntou-se à resistência. Então você pode ter certeza agora: o Mercosul está praticamente morto, quem ainda quiser o acordo vai ter que inventar muito.

A política comercial da Comissão Europeia está em jogo. E isso é incrível e triste ao mesmo tempo. Triste – porque há anos existem boas ideias de como tudo isso poderia ter sido evitado. E surpreendente – porque a estratégia da Comissão teve bastante êxito no passado, apesar de todas as críticas (pelo menos da perspectiva de Bruxelas).

Mais comércio é sempre bom?

Por pura teimosia e aparentemente respondendo às críticas, a Comissão tem conseguido repetidamente concluir acordos comerciais nos últimos anos – que nada mais são do que promoção comercial tradicional. E todos eles obedecem ao mantra de que mais comércio é sempre bom e que todas as exceções devem ser justificadas. Uma reflexão fundamental sobre o significado do comércio, mais consideração com o meio ambiente, o clima e as pessoas – isso ainda é estranho em Bruxelas até hoje – porque, do ponto de vista dos eurocratas do comércio, acaba suprimindo o real: que a economia está crescendo e a política comercial são novos mercados deve desenvolver.

Impulsionada por este dogma, a Comissão Europeia tem repetidamente iniciado e concluído novas negociações com sempre novas regiões do mundo nos últimos anos. Ao mesmo tempo, apresentou-se como um contra-modelo de sucesso para a América de Donald Trump – como um refúgio de justiça e continuidade. E agiu como se criasse a conciliação entre economia, ecologia e questões sociais em seus contratos. Taticamente, ela acrescentou algumas frases sobre proteção climática aos preâmbulos para os ambientalistas, algo sobre os direitos sociais dos trabalhadores para os sindicatos e algumas formulações para os ativistas de direitos humanos.

O fato de os acordos comerciais com outras regiões versarem principalmente sobre crescimento econômico e de todas as outras questões sociais, proteção do clima, proteção das espécies e proteção dos trabalhadores serem apenas questões menores – isso nunca mudou. E também houve poucas mudanças na política real; ainda não importa se mais comércio é ruim para o clima, para as pessoas ou para a proteção das espécies.

Houve avisos suficientes de que isso não pode e não deve durar para sempre. Poderia ter sido um aviso à Comissão da UE, por exemplo, que há alguns anos centenas de milhares de pessoas saíram às ruas contra o então planejado acordo TTIP europeu-americano. Mas aconteceu o contrário: o TTIP falhou, mas isso foi devido a Trump. Ele não queria o acordo, mas a Comissão da UE gostaria de concluí-lo. Portanto, ele continuou a negociar uma espécie de luz TTIP nos últimos anos. Somente no final de agosto os EUA e a UE concordaram discretamente com cortes tarifários , por exemplo, a UE está reduzindo as tarifas sobre a lagosta.

Na verdade, isso não deveria acontecer, pelo menos não se você levar suas próprias promessas a sério. A UE comprometeu-se oficialmente a não celebrar mais acordos com países que não respeitem o Acordo de Paris sobre o Clima. Oficialmente, a presidente da Comissão da UE, Ursula von der Leyen, também quer fazer da UE a região modelo verde do mundo. Portanto, levado a sério, não deveria mais concluir um acordo com os EUA. Ela pode argumentar de maneira puramente formal que os EUA ainda estão envolvidos no Acordo de Paris – a rescisão de Trump só entrará em vigor este ano. Ao mesmo tempo, porém, seu comportamento mostra que seus próprios padrões, em última análise, não são realmente importantes para ela – pelo menos quando se trata de proteção climática.

Mas voltando ao acordo do Mercosul. Se isso falhar devido à resistência dos cidadãos e dos governos da UE, então é também uma reação à triste teimosia da Comissão. Não que a maioria dos governos europeus tenha se tornado protetores radicais da selva. Mas eles sabem: você simplesmente não pode explicar aos cidadãos de forma plausível que está facilitando negócios com o Brasil para o benefício de sua própria indústria – enquanto, ao mesmo tempo, as florestas primárias mais importantes do mundo estão sendo incendiadas lá.

Diz-se que em toda crise existe uma oportunidade. Até que o contrário seja provado, isto também se aplica à política comercial da Comissão da UE. Porque vai ser revisto em breve , e talvez o Mercosul seja uma espécie de alerta, afinal. Até 15 de setembro você pode enviar sugestões de como poderia ser melhor. Aqui está o endereço de e-mail: trade-policy-review- 2020@ec.europa.eu. Vamos ver com que seriedade o presidente da Comissão, von der Leyen, leva as sugestões.

fecho

Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicada pelo jornal semanal alemão Zeit [Aqui!].

Indústria petrolífera aposta em futuro com mais plástico

Plano de injetar $400 bilhões para aumentar produção em 25% gera risco para investidores

A indústria petrolífera está colocando suas esperanças em um forte crescimento da demanda mundial por plásticos, mas a expectativa pode ser frustrada à medida em que governos e empresas começam a apresentar ações de redução do uso do material de olho nas metas climáticas. O setor já enfrenta preços baixos recordes de matéria-prima plástica como resultado de sobrecapacidade, mas planeja expandir a oferta de plásticos virgens em 25%, a um custo de pelo menos 400 bilhões de dólares nos próximos 5 anos. Esse é um cenário de alto risco para investidores, alerta o novo relatório do Carbon Tracker e dos especialistas em plásticos da empresa britânica SYSTEMIQ.

futuro plástico

Apostando em tendência contrária, os cenários apresentados pelas empresas BP e da IEA indicam que a demanda por plásticos será o maior impulsionador de crescimento, representando 95% e 45% da expansão até 2040, respectivamente. As companhias já levam em conta que a demanda por petróleo será impactada em sua área central, a de transportes, devido às medidas de descarbonização e eletrificação já em curso em vários países.

No relatório, a SYSTEMIQ indica que a crescente pressão para reduzir o uso de plásticos – agora uma preocupação pública mundial – poderia cortar o crescimento da demanda de plástico virgem de 4% ao ano para menos de 1%, com o pico da demanda sendo alcançado já em 2027. A indústria petrolífera perderia seu principal motor de crescimento, tornando mais provável que a demanda geral por petróleo tenha atingido o pico já em 2019.

“Retire o pilar de plástico que sustenta o futuro da indústria petrolífera, e toda a narrativa de demanda crescente por petróleo desaba”, afirma Kingsmill Bond, estrategista de energia do Carbon Tracker e autor principal do relatório. “É simplesmente ilusório para a indústria de plásticos imaginar que ela pode duplicar suas emissões de carbono ao mesmo tempo em que o resto do mundo está tentando reduzi-las a zero.”

Reciclagem

Segundo o relatório, os plásticos impõem à sociedade um custo externo de pelo menos US﹩ 1 mil por tonelada, ou US﹩ 350 bilhões por ano, que vão desde emissão de dióxido de carbono, custos de saúde associados a gases nocivos, custos de coleta e o combate à poluição oceânica.

O dióxido de carbono (CO2) é produzido em todas as etapas da cadeia de valor do plástico – incluindo ser queimado, enterrado ou reciclado, e não apenas na extração de petróleo e etapa de fabricação. O relatório conclui que a produção de uma tonelada de plástico libera aproximadamente o dobro do CO2 do que a produção de uma tonelada de petróleo.

Por isso, legisladores em diferentes países se mobilizam contra o aumento do uso de plástico. Em julho de 2020 a UE propôs um imposto de 800 euros/tonelada sobre resíduos de plástico não reciclado. Na China, a primeira grande sinalização nesse sentido veio em 2018, quando o país fechou em grande parte sua indústria de importação e processamento de resíduos plásticos – a maior do mundo – forçando os exportadores a resolver a questão dos resíduos em casa.

Enquanto isso, 36% do plástico produzido no mundo é usado apenas uma vez, 40% acabam poluindo o meio ambiente e apenas 5% vai para reciclagem. A SYSTEMIQ observa que as soluções tecnológicas já estão disponíveis para permitir uma redução maciça no uso do plástico a um custo mais baixo do que o atual, com reutilização, melhoria de projetos e regulamentação de produtos, substituições por papel e, principalmente, um grande aumento na reciclagem.

Há enormes benefícios na mudança do atual sistema linear para um sistema mais circular”, afirma Yoni Shiran, que lidera a Plataforma Plastic da SYSTEMIQ e é coautora do relatório. “Você pode ter toda a funcionalidade dos plásticos, mas com metade do custo de capital, metade da quantidade de matéria-prima, 700 mil empregos adicionais e 80% menos poluição.”

Sobre o Carbon Tracker

A Iniciativa Carbon Tracker é um think tank financeiro sem fins lucrativos que procura promover um mercado de energia global seguro para o clima, alinhando os mercados de capitais com a realidade climática. Pesquisas da instituição sobre a bolha de carbono, o carbono não queimável e os ativos irrecuperáveis deram início a um novo debate sobre como alinhar o sistema financeiro com a transição energética para um futuro de baixo carbono. www.carbontracker.org

Cronologia de um desastre anunciado: Ascema Nacional lança dossiê sobre desmonte das leis ambientais pelo governo Bolsonaro

salles bolso mourãoRicardo Salles, Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão são, segundo a Ascema Nacional, os executores da destruição das leis ambientais brasileiras

O atual cenário político e socioambiental brasileiro demonstra o resultado do desmonte realizado pelo Governo Bolsonaro, os ataques constantes contra os órgãos e entidades socioambientais, além dos discursos contra a atuação dos servidores e as normas ambientais. Em função disso, a Associação Nacional dos Servidores de Meio Ambiente (Ascema Nacional) decidiu preparar um relatório elencando todas as ações realizadas pelo governo Bolsonaro para destruir a governança ambiental existente, bem como para inviabilizar o funcionamento dos sistemas de comando e controle da área ambiental.

cronologia

Segundo a Ascema, des o início do atual governo tem havido um aumento em número e extensão dos incêndios florestais, expansão do desmatamento da Amazônia; vazamento de óleo atingiu diversos pontos da costa brasileira sem que o governo se mostrasse capaz de dar uma resposta rápida e competente que possibilitasse descobrir os responsáveis por sua origem; as tentativas de incriminar e intimidar indígenas, ambientalistas e organizações não-governamentais, além de intimidação e cerceamento da ação dos servidores da área ambiental, resultando em um real e deliberado desmonte das instituições públicas de meio ambiente.

A diretoria da Ascema lembra que a trajetória do presidente Jair Bolsonaro é marcada por controvérsias e ataques ao meio ambiente e aos órgãos e servidores ambientais. Um exemplo citado ocorreu em 2002 quando Jair Bolsonaro foi multado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por pesca ilegal na Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis (RJ). Um ano após o ocorrido, o então deputado apresentou um projeto de lei ( o PL 5720/2013) que visava proibir o porte de armas de servidores designados para atividades de fiscalização de caça.  A Ascema lembra que o projeto acabou sendo retirado de tramitação pelo próprio Jair Bolsonaro.

A Ascema denuncia que os servidores de órgãos ambientais federais (MMA, IBAMA, ICMBio e SFB), mesmo sofrendo com o assédio institucional e perseguição, vêm alertando sobre a gravidade dos problemas que, por sua vez, são reforçados pela falta de eficiência da gestão e a estratégia de desmonte. Nesse sentido, a Ascema aponta que a desestruturação e enfraquecimento do MMA e de suas autarquias, como a extinção de setores e cargos de direção deixados vagos por longos períodos nos órgãos, contribuem para a paralisação e deliberada ineficiência das suas atividades.

Além disso, a Ascema relata a falta de critérios técnicos para a nomeação de pessoas, muitas sem conhecimento suficiente e sem experiência prévia para cargos de direção, com destaque para a substituição de servidores de carreira por militares das Forças Armadas ou policiais militares (inexperientes, porém obedientes), demonstram a intencionalidade do enfraquecimento da área ambiental na atual gestão.

Outra denúncia importante feita pela Ascema refere à tramitação de uma imensa e injustificada proporção dos processos administrativos do ICMBio em caráter restrito ou sigiloso, em muitos casos sem qualquer justificativa legal que dê amparo à medida, ferindo o princípio da transparência no serviço público, prevista na lei de acesso à informação (Lei 12.527/2011).

Para quem desejar o relatório da Ascema em sua íntegra, bastante clicar [Aqui!]

Relatório mostra que tolerância ao desmatamento e  COVID-19 apresentam riscos fundamentais para os negócios da JBS

A empresa brasileira JBS SA é a maior processadora de carnes do mundo por vendas. A empresa opera cinco unidades de negócios principais: JBS Brasil, Seara, JBS USA Beef, JBS USA Pork e Pilgrim’s Pride. Este artigo avalia a exposição ao desmatamento e os riscos físicos e de transição das operações da JBS no Brasil. A CRR localizou e monitorou 983 fornecedores diretos e 1.874 fornecedores indiretos da JBS em seis estados da Amazônia. Além disso, o CRR calcula a receita e o impacto do EBITDA do desmatamento, da demanda chinesa e do COVID-19 em três cenários prospectivos.

Baixe o PDF aqui: JBS: Desmatamento Extraordinário na Cadeia de Suprimentos, COVID-19 Pose Fundamental Business Risks

CRR realizará um webinar sobre este relatório em 11 de setembro

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Principais conclusões:

  • A JBS tem uma presença crescente no mercado chinês. A China foi responsável por 26,1% das exportações globais da JBS no 1T20 e 33,4% no 2T20. A empresa se beneficiou da crescente dependência chinesa das importações de carne depois que a febre suína africana reduziu o rebanho suíno do país.
  • Desde 2016, a JBS expressa a intenção de listar seus ativos internacionais nos Estados Unidos. A listagem nos Estados Unidos consistiria em uma cisão das operações internacionais da JBS em uma empresa separada com os mesmos acionistas. Simultaneamente aos planos de listagem dos Estados Unidos, o segundo maior acionista da JBS, BNDESPar, anunciou sua intenção de vender metade de suas ações.
  • As operações de carne bovina da JBS no Brasil têm uma exposição exagerada ao risco de desmatamento. A JBS opera 20 frigoríficos na Amazônia Legal. O monitoramento da conformidade do fornecedor pela empresa é limitado ao seu fornecimento direto. Seus riscos indiretos da cadeia de suprimentos permanecem inalterados.
  • Desde 2008, foram desmatados 20.296 ha na amostra da cadeia de suprimentos direta da JBS e 56.421 ha na cadeia de suprimentos indireta. A CRR estima de forma conservadora que a pegada total de desmatamento da JBS pode chegar a 200.000 ha em sua cadeia de suprimentos direta e 1,5 milhões de ha em sua cadeia de suprimentos indireta.
  • Tanto o desmatamento quanto o COVID-19 podem impactar as receitas da empresa, a estrutura de custos e o valor dos ativos. Os riscos de negócios incluem o fechamento de fábricas COVID-19; ação do acionista; restrições aos mercados de exportação e exclusões da cadeia de abastecimento; o crescente cansaço do consumidor chinês por carne importada; e disponibilidade de substituições baseadas em plantas.
  • Em um cenário de “alto impacto”, o EBITDA da JBS poderia ser impactado negativamente em 26% ou US $ 1,3 bilhão, levando ao aumento dos custos de financiamento. O custo de capital da JBS pode aumentar, já que quase um terço de seu financiamento é feito por meio de investidores e bancos europeus que estão adotando políticas ESG mais rígidas.

JBS depende cada vez mais das receitas dos EUA e dos mercados de exportação da China

Maior processadora de carnes do mundo com sede no Brasil, mas com atuação global

A JBS SA é uma empresa brasileira que atua principalmente no processamento de carnes. As atividades da JBS se concentram na produção de uma variedade de produtos bovinos, suínos e de aves. Seus produtos são distribuídos sob diversas marcas, como Friboi, Swift, Bertin, Pilgrim’s, entre outras. A empresa também opera negócios relacionados, como couro, biodiesel, higiene pessoal e limpeza, gestão de resíduos sólidos e embalagens metálicas. A JBS atua em 15 países diferentes.

A JBS é a maior processadora de carnes do mundo em vendas. Possui 400 unidades produtivas, instalações e escritórios, dos quais 230 são destinados à produção de produtos bovinos, suínos, ovinos e avícolas. A empresa está listada na bolsa de valores de São Paulo desde 2007 e recebeu apoio financeiro significativo do banco de desenvolvimento brasileiro BNDES. Com esse financiamento público, a JBS fez diversas aquisições nacionais e internacionais. A família fundadora Batista mantém uma participação de 39,8 por cento.

A empresa opera cinco unidades de negócios principais:

  • A JBS Brasil compreende a produção brasileira de carne bovina e couro da empresa. A JBS administra 37 frigoríficos em todo o Brasil e 24 instalações de produção de couro de todo o mundo. Além disso, possui 18 centros de distribuição e cinco confinamentos para gado de corte. A JBS Brasil gerou receita de R $ 16,9 bilhões (US $ 3,1 bilhões) no 1S20, (14,0% da receita consolidada ajustada para eliminações entre empresas), um aumento de 21,1% em relação ao 1S19. A participação nas receitas do mercado de exportação aumentou de 40% no 1T20 para  51% no 2T20.
  • A Seara é a unidade produtora e exportadora de frangos e suínos da empresa . A unidade produz carnes para o mercado interno brasileiro e exporta para mais de 100 países. Ele tem 30 unidades de processamento de aves, oito unidades de processamento de suínos, 20 instalações de alimentos preparados, e 18 centros de distribuição localizados em todo o Brasil. A Seara foi responsável por 1% da receita da JBS no 1S20, da qual 54,7% veio do mercado externo no 2T20.
  • JBS USA Beef, JBS USA Pork e Pilgrim’s Pride controlam as operações da empresa na América do Norte, Europa e Austrália. Entre outras instalações, essas três unidades de negócios operam 18 abatedouros de bovinos, cinco abatedouros de suínos e 36 unidades de avicultura. A JBS USA foi responsável por 1% da receita no 1S20.

A JBS tem uma presença cada vez maior no mercado chinês, maior destino das exportações da empresa. A China foi responsável por 26,1% das exportações globais da JBS no 1T20 e 33,4% no 2T20 . A empresa se beneficiou nos últimos anos da crescente dependência da China nas importações de carne, depois que a febre suína africana reduziu o rebanho suíno do país. Em janeiro de 2020, a JBS assinou um memorando de entendimento com o WH Group, um grande frigorífico com sede em Hong Kong, para fornecer até R $ 3 bilhões (reportados como US $ 717 milhões na época) em produtos bovinos, de aves e suínos para os chineses mercado anualmente. Esta parceria ocorreu após um acordo em novembro de 2018 com a Alibaba no valor de US $ 1,5 bilhão.

Listagem nos EUA, desinvestimento do BNDES não antes de 2021

O IPO foi adiado em 2017 devido a investigações visando proprietários

Desde 2016, a JBS tem manifestado repetidamente sua intenção de reestruturar seus negócios com uma listagem de seus ativos internacionais nos Estados Unidos. O principal fator por trás desses planos de reestruturação é o descasamento entre a estrutura de capital da empresa e sua estrutura operacional. Uma listagem nos Estados Unidos desbloquearia o valor para o acionista de um modelo de negócios que depende principalmente de transações em dólares americanos, mas que reporta suas finanças em reais. Sinais de que a empresa estava progredindo com essa listagem ressurgiram em novembro de 2019.

A listagem nos Estados Unidos resultaria em uma cisão das operações internacionais da JBS em uma empresa separada com os mesmos acionistas. As operações no Brasil continuariam sob a JBS SA, a entidade atualmente listada na bolsa de valores de São Paulo. Considerando que a empresa estava pronta para seguir em frente em março de 2020, os impactos do surto de COVID-19 desviaram o foco da empresa da listagem. Em agosto de 2020, o CEO Gilberto Tomazoni indicou que a empresa retomou os planos de listagem, mas isso “ não pode acontecer este ano

Simultaneamente aos planos de listagem dos Estados Unidos, o segundo maior acionista da JBS, BNDESPar, anunciou em novembro de 2019 sua intenção de vender metade de suas ações da JBS. A BNDESPar, braço de investimento de capital do banco de desenvolvimento do Brasil BNDES, detém uma participação de 21,3 por cento na JBS. A JBS responde por 20%  da carteira do BDNESPar. O BNDES contratou diversos bancos de investimento e planejou um roadshow para vender sua participação após a divulgação dos resultados da JBS do 4T19. A venda seria feita em uma única parcela e estava prevista para junho de 2020, mas a pandemia do COVID-19 interrompeu esse processo. Em julho de 2020, relatórios disse que a BNDESPar começaria com outros desinvestimentos primeiro, e que vendas mais complexas, como sua participação na JBS, ocorreriam em uma data posterior não revelada.

Como resultado dos repetidos atrasos em sua reestruturação corporativa, a JBS permanece em um estado contínuo de incerteza. Os planos para a listagem nos EUA foram repetidamente desviados devido a investigações criminais em 2017 e surtos de pandemia em suas instalações em 2020.

JBS tem uma exposição exagerada ao desmatamento em sua cadeia de fornecimento de carne bovina brasileira

As operações de gado da JBS no Brasil há muito tempo estão associadas ao desmatamento na Amazônia. Após intensas campanhas da sociedade civil, a JBS foi um dos maiores produtores de carne bovina do Brasil a firmar Acordos multilaterais de Pecuária com organizações da sociedade civil em 2009 para aumentar a sustentabilidade do setor. A empresa também assinou Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) juridicamente vinculativos com o Ministério Público Federal. A JBS tem uma meta de desmatamento zero e se compromete publicamente a abster-se de obter matérias-primas de fazendas que sejam:

  • envolvido com o desmatamento no bioma Amazônia após 2009;
  • enfrentando embargos ambientais;
  • vinculado a qualquer tipo de trabalho forçado;
  • localizadas em terras indígenas ou em áreas de preservação ambiental.

A JBS também está envolvida em várias iniciativas com várias partes interessadas, incluindo a Coalizão Brasileira sobre Clima, Florestas e Agricultura, a Tropical Forest Alliance (TFA) e o Protocolo da Cadeia de Suprimentos.

A JBS rastreia a conformidade do fornecedor por meio de um sistema de monitoramento socioambiental que usa imagens de satélite e georreferenciamento de dados para analisar 50.000 fornecedores de gado na Amazônia diariamente. Por meio desse sistema, a empresa monitora uma área de 45 milhões de hectares (ha). A empresa irá bloquear fornecedores que não estejam em conformidade com as políticas da JBS em compras futuras. A JBS indicou ao CRR que mais de 9.000 fazendas foram bloqueadas até o momento. Os auditores independentes encontraram uma taxa de conformidade de 99,9% com essas políticas.

O sistema de monitoramento da JBS é limitado aos seus fornecedores diretos de gado , e a empresa ainda não possui sistemas para monitorar sistematicamente seus fornecedores indiretos . A empresa declarou publicamente que “a rastreabilidade de toda a cadeia de fornecimento de carne bovina é um desafio de toda a indústria e uma tarefa complexa”. A empresa informou ao CRR que está em discussões ativas com o Ministério da Agricultura do Brasil para explorar a possibilidade de criar os chamados “GTAs Verdes” – registros de transporte de animais que incluiriam informações sobre embargos ambientais e de trabalho escravo. Essas discussões estão em andamento desde pelo menos 2013, e os relatórios de auditoria independente de 2019 descreveram esses esforços como “ ainda não bem-sucedidos. ” Além disso, a JBS está testando tecnologias de blockchain e índices teóricos de produtividade como medidas para lidar com a exposição indireta da cadeia de suprimentos. O índice teórico de produtividade visa abordar o risco de “lavagem de gado”, avaliando o tamanho de uma propriedade e a quantidade de gado que ela fornece.

Apesar de suas medidas, a JBS continua ligada ao desmatamento ilegal em sua cadeia de abastecimento, e uma proporção não especificada da pegada de desmatamento da cadeia de abastecimento da JBS pode estar violando o Código Florestal do Brasil . Vários meios de comunicação descobriram que a JBS comprou gado de fazendas desmatadas ilegalmente em Rondônia e no Pará . De acordo com um relatório de março de 2020 do Guardian , a JBS indiretamente era proveniente de uma fazenda em Rondônia cujo proprietário estava implicado no assassinato de nove pessoas em Mato Grosso. A JBS nega que exista vínculo entre a empresa e o proprietário da fazenda. Conforme informado em julho de 2020, em Mato Grosso, a JBS transportou vacas de fazendas embargadas para fazendas “limpas” que atendam aos protocolos de abastecimento da JBS. Em 2017, a JBS foi multada em R $ 24 milhões (US $ 4,3 milhões) por comprar gado de áreas desmatadas ilegalmente no Pará. A JBS indicou à CRR que apelou da multa.

A JBS opera um total de 37 frigoríficos de gado no Brasil, dos quais 20 estão localizados na Amazônia Legal. Um estudo anterior que avaliou os riscos de desmatamento dos frigoríficos com base em zonas de compra projetadas concluiu que a JBS tinha a maior exposição de todos os frigoríficos ativos na Amazônia. Com base em suas localizações, oito frigoríficos da JBS tinham riscos de desmatamento projetados de 600.000 ha cada.

Figura 1 : Localização dos Frigoríficos JBS Bovinos no Brasil

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, com base no Ministério da Agricultura e JBS .

75.000 ha de desmatamento detectados na amostra da cadeia de suprimentos direta e indireta da JBS 

Com base nos dados de transporte de animais e cadastro rural, o CRR localizou 983 fornecedores diretos e 1.874 fornecedores indiretos (ver Figura 2) para a JBS nos estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará e Tocantins (ver Anexo para Metodologia CRR). Essas fazendas enviaram um ou mais lotes de gado diretamente para um matadouro da JBS ou para outra fazenda que posteriormente vendeu gado para a JBS. Com base nos 90.000 fornecedores informados pela JBS, o conjunto de dados do CRR constitui aproximadamente 1,1 por cento da cadeia de fornecimento direto da JBS em todo o Brasil. A amostra representa cerca de 10 por cento da cadeia de abastecimento direto nos seis estados mencionados acima.

Figura 2: Amostra de 983 fornecedores JBS diretos e 1.874 fornecedores JBS indiretos

Fonte: Chain Reaction Research, com base em dados do Ministério da AgriculturaJBS e Autorizações de Transporte de Animais (GTA).

O conjunto de dados fornece uma amostra granular da origem do gado abatido nas instalações da JBS e permite uma avaliação direcionada dos riscos de desmatamento nas cadeias de suprimento direta e indireta. A Figura 4 ilustra as localizações confirmadas dos fornecedores diretos e indiretos das instalações da JBS nos municípios de Colider (MT), Alta Floresta (MT), Tucumã (PA) e Juína (MT). Essas propriedades estão dentro da zona de compra potencial do mesmo matadouro identificado em estudos anteriores .

Figura 3: Localização da amostra dos fornecedores diretos e indiretos dos frigoríficos da JBS em Colider (MT), Alta Floresta (MT), Tucumã (PA) e Juína (MT)

Fonte: Pesquisa de Reação em Cadeia, com base em Ministério da Agricultura , JBS , Imazon e Autorizações de Transporte de Animais (GTA).

Figura 4: Desmatamento em amostra de fornecedores diretos e indiretos dos frigoríficos da JBS em Colider (MT), Alta Floresta (MT), Tucumã (PA) e Juína (MT)

Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

Desde 2008, foram detectados desmatamentos confirmados de 20.296 ha nas 983 propriedades identificadas na cadeia de abastecimento direta da JBS . Essa mudança no uso da terra representa 0,85% da área acumulada das fazendas identificadas, com um desmatamento médio de 20,65 ha por fazenda. Aproximadamente 70 por cento (14.655 ha) dos desmatamentos detectados ocorreram no bioma Cerrado, em alguns casos sem as licenças ambientais exigidas. Os sistemas de monitoramento da cadeia de suprimento direto da JBS são menos desenvolvidos no bioma Cerrado do que na Amazônia, pois os dados de satélite do desmatamento do Cerrado não são integrados aos sistemas internos da JBS.

Os números absolutos e relativos de desmatamento confirmam que a exposição da JBS é maior em sua cadeia de suprimentos indireta do que em sua cadeia de suprimentos direta. A CRR identificou 50.852 ha de desmatamento nas 1.874 fazendas identificadas na cadeia de fornecimento indireto da JBS após a data de corte de 2008 do Código Florestal do Brasil. Isso representa 1,44% da área acumulada dessas propriedades, com uma média de 27,13 ha por fazenda. Apesar dos esforços da empresa para resolver o problema, o desmatamento na cadeia de fornecimento indireto ainda está fora do escopo de sua política de desmatamento zero. Assim, a exposição ao risco de desmatamento associado permanece totalmente não mitigada. A falta de mitigação permite a chamada “ lavagem de gado,” Por meio do qual o gado é transferido de fazendas não conformes para fazendas conformes para que os agricultores mantenham o acesso ao mercado para os matadouros.

Figura 5: Exemplo de fazenda em Novo São Joaquim, Mato Grosso com desmatamento de 371 ha (à esquerda) que fornecia gado a um fornecedor direto da JBS em Tesouro, Mato Grosso com desmatamento mínimo (à direita)

A exposição adicional ao desmatamento pode estar presente em fazendas adjacentes aos fornecedores diretos identificados. A titulação de terras e as autodeclarações fraudulentas ao Cadastro Ambiental Rural (CAR) podem resultar na fragmentação das fazendas em entidades administrativas separadas pertencentes às mesmas empresas ou indivíduos. Em vários exemplos conhecidos, o desmatamento ocorreu em uma parte da fazenda enquanto o gado era fornecido por outra parte que foi registrada separadamente. Na realidade, essas peças pertencem a uma única fazenda com um único proprietário. Essa exposição não é capturada nos números apresentados neste relatório, mas pode constituir um risco adicional de desmatamento não mitigado. A JBS indicou ao CRR que a responsabilidade pela apuração dos dados do CAR é dos órgãos oficiais competentes.

Figura 6: Exemplo de desmatamento em fazenda em Nova Canaã do Norte, Mato Grosso adjacente a fornecedor direto da JBS. Ambas as propriedades estão registradas sob o mesmo proprietário

Pegada de desmatamento estimada de 1,7 milhão de ha até o momento, com 64 milhões de ha de floresta em risco 

A CRR estima de forma conservadora que a pegada total de desmatamento da JBS desde 2008 pode chegar a 200.000 ha em sua cadeia de suprimentos direta e 1,5 milhão de ha em sua cadeia de suprimentos indireta. Esses números são extrapolações do desmatamento médio por fazenda para o número total de fazendas para as quais existem registros da cadeia de abastecimento (ver Figura 7) e incluem apenas os estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, e Tocantins. Entre outros, os dados excluem dados dos estados amazônicos de Rondônia (quatro frigoríficos da JBS) e Acre (um frigorífico da JBS).

2,1 milhões de ha de vegetação nativa permanecem nas 1.874 propriedades identificadas na cadeia de fornecimento indireto da JBS. Extrapolando esse número, o CRR projeta impressionantes 64 milhões de hectares de florestas remanescentes na cadeia de fornecimento indireto da JBS. Isso é quase o equivalente à ilha do Sri Lanka ou ao estado americano da Virgínia Ocidental. A mencionada ausência de medidas mitigadoras pode colocar em risco essas florestas nos próximos anos.

Figura 7: Estimativas de exposição da JBS ao risco de desmatamento nas cadeias produtivas diretas e indiretas em GO, MG, MS, MT, PA e TO

* As propriedades foram identificadas nos registros do GTA 2019. As propriedades foram localizadas por meio de comparação com os dados do cadastro rural (SIGEF e SNCI) ** Desmatamento calculado com base em dados anuais do PRODES confirmados desde 2008 *** Vegetação remanescente calculada com base nos dados do INPE e FREL. **** Calculado com base nas médias dos imóveis localizados multiplicados pelo número total de imóveis identificados. Vegetação remanescente calculada apenas para a cadeia de abastecimento indireta devido à falta de medidas de mitigação. Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

COVID-19, desmatamento representam ameaças fundamentais ao modelo de negócios da JBS SA

A análise de cenário mostra como os riscos físicos e de transição podem afetar as receitas e o valor dos ativos

Além da longa exposição ao desmatamento, a JBS foi fortemente afetada pelo surto de COVID-19 deste ano, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Nos EUA, surtos em suas fábricas no Colorado , Utah , Michigan , Wisconsin , Texas , Nebraska , Minnesota e Pensilvânia afetaram milhares de trabalhadores. Em resposta, a JBS comprometeu US $ 120 milhões para fundos destinados a combater a pandemia e implementou uma série de medidas preventivas de segurança.

Em 24 de abril de 2020, um surto de COVID-19 em uma avícola da JBS no estado brasileiro do Rio Grande do Sul marcou o primeiro surto em grande escala em uma frigorífica brasileira. Este caso marcou o início de um surto mais amplo em frigoríficos nos estados do sul do Brasil, onde a maioria das instalações de produção de aves e suínos do país. No final de junho, 32 fábricas operadas por várias empresas no estado do Rio Grande do Sul apresentavam trabalhadores infectados com COVID-19. De acordo com promotores do trabalho estaduais, os trabalhadores da carne representam mais de 25% dos 19.710 casos confirmados de infecção no estado. Pelo menos cinco carniceiros gaúchos e 12 familiares ou amigos morreram em decorrência da doença. Testes positivos também foram relatados para trabalhadores das instalações da JBS em Goiás e oito fábricas da JBS em Mato Grosso .

Tanto a crescente preocupação com o desmatamento na Amazônia quanto as respostas globais ao COVID-19 podem ter impactos de longo prazo nos negócios da JBS e apresentar uma gama de riscos comerciais diferentes. Apesar do forte desempenho financeiro da JBS nos últimos trimestres , esses riscos podem impactar negativamente o modelo de negócios da empresa. Esta seção analisa vários cenários para cada um dos riscos identificados, em linha com as metodologias desenvolvidas no contexto da Força-Tarefa para Divulgações Relacionadas ao Clima (TCFD).

1.     Risco Físico: Fechamento de planta por causa de surtos de COVID-19

Após a detecção dos surtos de COVID-19, a JBS fechou temporariamente várias de suas fábricas de carnes nos Estados Unidos e no Brasil, voluntariamente ou por ordem judicial. Conforme relatado em artigos da mídia, fechamentos incluídos;

A maioria desses fechamentos foi temporária e a produção reiniciada em questão de semanas. Em alguns casos, os fechamentos resultaram em interrupções significativas na cadeia de abastecimento , com animais de fazenda mortos nas fazendas fornecedoras, mas não processados ​​em produtos de carne. Na outra ponta da cadeia, os fechamentos deixaram as prateleiras de carnes vazias nas lojas. No Rio Grande do Sul, um porta-voz da associação dos produtores de carne indicou que as paralisações ainda não afetaram os números da produção. No entanto, na época deste relatório, o Brasil tinha o segundo país com mais casos de COVID-19 em todo o mundo e continuava com taxas diárias elevadas de novas infecções. Os frigoríficos continuam a ser os hotspots da COVID-19 e é provável que mais encerramentos se sigam, apesar das medidas de prevenção e controlo tomadas. Além de fechamentos de fábricas, greves, protestos de trabalhadores e falta de pessoal como resultado de surtos de COVID-19, também podem afetar a produtividade.

A JBS não divulgou os impactos cumulativos dos fechamentos em seus números de produção. Com base nas capacidades médias diárias de processamento relatadas no Brasil e nos Estados Unidos, os impactos da paralisação das nove fábricas acima mencionadas são estimados em 10.439 cabeças de gado (13,9% da capacidade instalada), 691.000 frangos (16,1% da capacidade instalada) e 18.520 suínos (4,9% da capacidade instalada) por dia. Os fechamentos afetaram cerca de 4% de todas as instalações de processamento de carnes da JBS.

Figura 8: Cálculos para os impactos do tempo de inatividade diário estimado devido ao fechamento da planta COVID-19

* Calculado com base na capacidade agregada diária informada, dividida pelo número de usinas por país (JBS Formulário de Referência , p.164-166).

O fechamento temporário de fábricas pode impactar tanto as receitas da JBS quanto seus ativos biológicos e intangíveis. Cada dia de fechamento de fábrica tem um impacto linear negativo nas vendas e no lucro bruto. Fechamentos intermitentes repetidos podem ter os maiores impactos sobre os ativos biológicos da JBS (2019: R $ 5 bilhões / US $ 1,25 bilhão), enquanto os testes anuais de redução ao valor recuperável podem afetar o ágio das subsidiárias (2019: R $ 24,5 bilhões / US $ 6,1 bilhões) no saldo da JBS Folha. A Figura 8 mostra os impactos projetados sobre as receitas e ativos em três cenários prospectivos: um cenário de impacto leve sem novos fechamentos de fábricas; um cenário de médio impacto com fechamentos de plantas intermitentes durante 2H20; e um cenário de alto impacto com o fechamento total da fábrica pelos próximos 12 meses.

Figura 9: Impactos financeiros estimados de fechamentos de fábricas relacionadas a COVID-19 em três cenários prospectivos

* As premissas incluem fechamentos de planta médios de 2 semanas para cada uma das nove plantas relatadas e nenhum fechamento adicional no futuro. ** As premissas incluem fechamentos de planta médios de 2 semanas para cada uma das nove plantas relatadas e futuros fechamentos intermitentes durante 2H20. Os cálculos são baseados em fechamentos de uma semana a cada mês por um período de seis meses. *** As premissas incluem fechamentos de planta médios de 2 semanas para cada uma das nove plantas relatadas e futuros fechamentos permanentes por um período de 12 meses. **** Cálculos com base nos impactos assumidos de eventos de 15% nas receitas e nos valores dos ativos. ***** Os cálculos do EBITDA não incluem baixas de ativos. Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

2.     Risco de reputação: aumento das preocupações dos investidores e ação dos acionistas

As instituições financeiras internacionais estão cada vez mais cautelosas com os investimentos brasileiros, em particular no setor de frigoríficos. Em junho de 2020, um grupo de 30 investidores institucionais da Europa e Ásia apelou ao governo brasileiro para conter a destruição ambiental. Em uma carta pública, esses investidores sinalizaram sua intenção de se desfazer de ativos brasileiros – tanto corporativos quanto soberanos – e destacaram sua preocupação com a indústria de frigoríficos do Brasil e seu papel no desmatamento. Os investidores signatários representaram US $ 3,7 trilhões de ativos sob gestão. Pelo menos um investidor, Nordea Asset Management, seguiu adiante e anunciou que excluiu a JBS de todos os ativos que vende. Em agosto de 2020, foi relatado que o HSBC “soou alarmes” sobre seu investimento na JBS devido à inação do desmatamento. Essas ações seguem uma série de ações e engajamento dos acionistas com a JBS nos últimos anos:

  • Em março de 2020, 95 acionistas atuais e anteriores iniciaram arbitragem judicial, buscando R $ 1,4 bilhão (US $ 280 milhões) em compensação por danos causados ​​por práticas ilegais da JBS. As alegações dos acionistas são baseadas em declarações falsas e enganosas feitas pela JBS e seus diretores executivos desde seu IPO em 2007.
  • O Conselho de Ética dos Fundos de Pensão do Governo Nacional Sueco relatou seu envolvimento com a JBS em seu relatório anual de 2019: “ A Amazônia está mais uma vez em foco com o aumento de incêndios florestais ilegais durante o outono de 2019. O Conselho de Ética fortaleceu seu foco na produção de soja e pecuária com o objetivo de garantir que empresas como JBS, Bunge e Archer Daniel Midlands comprem seus produtos de partes legalmente desmatadas da Amazônia ”.
  • Em julho de 2018, o Norges Bank colocou oficialmente a JBS em sua lista de exclusão , seguindo uma recomendação do seu Conselho de Ética . Na época, a Norges possuía US $ 143 milhões em ações da JBS e citou “corrupção bruta” como critério de exclusão. A JBS mantém essa lista em março de 2020.
  • Em abril de 2018, a gestora de recursos holandesa APG votou contra a reeleição de três diretores da JBS. A APG está entre os dez maiores acionistas da JBS.

À medida que os investidores se cansam do clima político e econômico do Brasil e das preocupações com o aumento do desmatamento, a JBS SA pode ver uma saída de investidores atuais e reduzir significativamente o interesse de investidores em potencial. A redução do apetite do investidor também pode complicar significativamente o processo de venda de ações do BNDES. A maior parte da ação dos investidores provém atualmente de instituições financeiras europeias, que constituíram a maioria dos signatários da carta de junho de 2020 e assumiram a liderança em processos de envolvimento anteriores. Atualmente, 32% do financiamento total da JBS vem de investidores europeus.

Desinvestimentos, exclusões, recusa em conceder empréstimos e outras ações de instituições financeiras afetariam a estrutura de custos da JBS e, portanto, seu lucro líquido. Em particular, o custo da dívida pode aumentar se os bancos se recusarem a conceder empréstimos e a empresa for forçada a buscar novos financiadores em circunstâncias difíceis. A Figura 9 projeta os impactos financeiros das ações das instituições financeiras em três cenários: um cenário de baixo impacto com desinvestimento dos signatários da carta de junho de 2020; um cenário de médio impacto com desinvestimento dos signatários e de suas matrizes; e um cenário de alto impacto em que metade de todas as instituições financeiras europeias se retiram.

Figura 10: Impactos financeiros estimados da ação dos financiadores relacionados ao desmatamento em três cenários prospectivos

* As premissas incluem o desinvestimento dos 30 signatários da carta pública de junho de 2020 ao governo brasileiro.    ** As premissas incluem o desinvestimento dos 30 signatários da carta pública de junho de 2020 ao governo brasileiro e suas empresas controladoras. *** As premissas incluem desinvestimento e recusa em conceder empréstimos de metade de todos os atuais investidores europeus. **** Calculado com base em um aumento de 25 pontos base nas despesas de juros no cenário de impacto médio e um aumento de 50 pontos base no cenário de alto impacto. ***** Calculado como porcentagem em relação ao EBITDA 2019. Fonte: Chain Reaction Research

3.     Risco de mercado: Restrições aos mercados de exportação e exclusões da cadeia de abastecimento

A COVID-19 pode resultar em restrições aos mercados de exportação de produtos cárneos da JBS produzidos em fábricas com surtos de vírus. Em junho de 2020, a China anunciou que aumentou suas inspeções de produtos de carne importados depois que uma segunda onda de infecções por COVID-19 começou devido a um surto em um mercado atacadista em Pequim. A alfândega chinesa não aceita mais licenças de importação de 15 frigoríficos . As quatro fábricas suspensas no Brasil incluem uma avícola da JBS. Este movimento ocorreu após uma suspensão anterior das importações de carne bovina da Austrália, possivelmente em retribuição às críticas da Austrália sobre a forma como a China lidou com o surto de COVID-19. As quatro frigoríficas australianas sujeitas a esta suspensão incluem duas fábricas de propriedade da JBS. A abordagem chinesa mais restritiva aos produtos de carne importados pode afetar particularmente as exportações brasileiras da JBS SA para a China, que tem sido um mercado de notável crescimento para a empresa nos últimos anos.

As preocupações com incêndios florestais e desmatamento também podem resultar em novas exclusões das cadeias de fornecimento corporativas por não conformidade com as políticas de compra responsável. Após os incêndios florestais de 2019 na Amazônia, as marcas globais de moda H&M e VF Corporation suspenderam todo o uso de couro originário do Brasil devido ao papel da indústria de gado nos incêndios. Em maio de 2020, um grupo de mais de 40 supermercados britânicos alertou o governo brasileiro que pode boicotar os produtos brasileiros se a legislação que permite um desmatamento mais rápido na Amazônia for aprovada. Em agosto de 2020, uma campanha do Greenpeace no Reino Unido exigiu ao varejista Tesco que corte todos os laços com a JBS. Com maiores taxas de desmatamento nos primeiros meses de 2020 e indicações de outra intensa temporada de incêndios, mais boicotes, exclusões e suspensões podem ocorrer.

Outras restrições às exportações para a China e a perda de clientes corporativos impactariam as receitas e as margens EBITDA da JBS. A China tem se tornado um mercado de vendas cada vez mais importante e a JBS investe em parcerias para vendas diretas ao consumidor. Clientes corporativos com compromissos de desmatamento zero provavelmente estão presentes em seus canais de vendas de couro e carne bovina. A Figura 10 mostra os impactos financeiros sob três cenários prospectivos: um cenário de impacto leve, sem outras restrições à exportação ou exclusões da cadeia de abastecimento; um cenário de médio impacto com um número limitado de futuras restrições à exportação e exclusões da cadeia de abastecimento; e um cenário de alto impacto em que o acesso aos mercados chinês e europeu é significativamente restringido.

Figura 11: Impactos financeiros estimados do desmatamento e restrições de exportação relacionadas ao COVID-19 e exclusões da cadeia de abastecimento em três cenários prospectivos

* As suposições não incluem outras restrições à exportação ou exclusões da cadeia de suprimentos além das já relatadas. ** As premissas incluem sete fábricas adicionais com futuras restrições de exportação para a China e futuras exclusões da cadeia de suprimentos representando o equivalente a 25% das vendas da UE. *** As premissas incluem acesso futuro totalmente restrito aos mercados chinês e europeu **** Cálculos baseados no número total de frigoríficos (230), vendas reportadas na China (US $ 2.803 milhões) e vendas reportadas na Europa (US $ 780 milhões). ***** Cálculos baseados nos impactos da receita e margens EBITDA da JBS Brasil (5,4%) e Seara (11,1%). As premissas subjacentes incluem uma participação de 75% das instalações brasileiras nos números totais de exportação da JBS. Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

4.     Risco de reputação e tecnologia: cansaço crescente do consumidor chinês por produtos de carne importados e ameaças de substituição por proteínas vegetais

Além das restrições da alfândega chinesa, as tendências nas preferências do consumidor chinês também podem impactar negativamente o potencial de exportação de carnes da JBS. Tanto o surto de peste suína africana quanto o surto de COVID-19 levantaram questões entre os consumidores chineses sobre a segurança e a sustentabilidade das proteínas animais. As empresas de pesquisa de mercado projetam que o interesse por proteínas vegetais e carne cultivada em laboratório crescerá entre os consumidores na China nos próximos dez anos. Como as proteínas vegetais não são novidade para os consumidores chineses, a aceitação do mercado de produtos de carne alternativos é provável se os consumidores forem educados sobre os benefícios nutricionais, de saúde e segurança.

Fórum Econômico Mundial também observa que a demanda por proteína vegetal está aumentando na Ásia como resultado das suspeitas dos consumidores sobre possíveis ligações entre a carne animal e o COVID-19. Essa mudança na demanda é mais notável em Hong Kong e na China continental. O surto do vírus acelerou uma tendência contínua que já chamou a atenção dos rivais da JBS baseados em vegetais, Beyond Meat e Impossible Foods. Ambas as empresas internacionais e locais estão produzindo carnes alternativas usadas em bolinhos, macarrão, arroz e produtos de fast-food.

As proteínas de origem vegetal estão se tornando rapidamente um produto substituto viável e econômico das proteínas animais em meio a um rápido declínio nos custos de produção. Em maio de 2020, o CEO da Beyond Meat indicou que a empresa está pronta para competir diretamente com a carne bovina de verdade em termos de preço nos supermercados. O aumento nos preços da carne bovina causado pela COVID-19 desencadeou interrupções na cadeia de suprimentos diminuiu a diferença nos preços relativos. As margens brutas do Beyond Burger fornecem espaço para a empresa reduzir os preços de varejo a fim de capturar participação de mercado de produtos de carne reais. Em março de 2020, a Impossible Foods fez um movimento semelhante ao cortar os preços de seus produtos veganos em 15% . Tanto a Beyond Meat quanto a Impossible Foods entraram no mercado chinês.

As alternativas de carne vegetal podem reduzir a participação da JBS no mercado de carne chinês e suas receitas. Com as recentes parcerias da JBS com o WH Group e o Alibaba, as vendas diretas aos consumidores chineses se tornaram uma fonte de receita importante e crescente que pode estar em risco com esse desenvolvimento. A Figura 11 ilustra os impactos financeiros da perda de participação no mercado para proteínas baseadas em plantas em três cenários prospectivos: um cenário de impacto leve em que a JBS perde 5 por cento de sua participação no mercado chinês para alternativas baseadas em plantas; um cenário de impacto médio em que perde 25% de sua participação no mercado chinês; e um cenário de alto impacto com uma perda de participação de mercado de 50%. A empresa pode ser capaz de mitigar esses riscos por meio de maiores investimentos em alternativas baseadas em plantas que a empresa já introduziu em vários mercados.

Figura 12: Impactos financeiros estimados da perda de participação no mercado chinês para proteínas baseadas em plantas em três cenários prospectivos

* As premissas incluem perda de participação de mercado para os concorrentes e não levam em consideração novas linhas de produtos de base vegetal que a JBS pode introduzir. ** Com base na receita líquida na China de US $ 3.737 milhões em 2019. *** Com base na margem EBITDA de 9,6% em 2019. **** Com base no ágio da JBS multiplicado pela participação chinesa nas vendas de 2019 e multiplicado pela resp. 5%, 25% e 50%.  Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

Resumo dos quatro impactos financeiros e os três cenários

A soma dos quatro impactos, após a dedução da contagem dupla, pode impactar as receitas em 22 por cento e o EBITDA em 26 por cento no cenário de “alto impacto”. A dupla contagem refere-se à redução da receita chinesa que é calculada duas vezes no impacto do risco de mercado e no impacto da tecnologia.

Figura 13: Resumo de quatro impactos financeiros em três cenários

Fonte: Chain Reaction Research

EBITDA 2T20 acima do esperado devido ao desequilíbrio entre demanda e oferta

Os resultados do 2T20 surpreenderam os analistas principalmente por causa das margens relativamente altas nas operações de carne bovina nos Estados Unidos e no Brasil, mas o trimestre foi claramente um outlier.Na unidade da JBS Brasil (principalmente carne bovina), os animais “processados” caíram 15%, mas as exportações para a China aumentaram 53% em dólares. A margem EBITDA aumentou de 4,7 por cento no 2T19 para 12,4 por cento no 2T20. A JBS USA Beef (incluindo Austrália e Canadá) teve uma queda de 18% no volume devido ao fechamento de capacidade relacionado ao COVID-19. Porém, em meio a preços mais altos, à medida que a demanda continuava forte, a margem EBITDA cresceu de 8,9% no 2T19 para 20,4% no 2T20. Para o conjunto da empresa, a margem EBITDA do 2T20 foi de 15,5 por cento versus 6,9 por cento no 1T20 e 10,0 por cento no 2T19. A Figura 13 mostra que o 2T20 é um outlier, pois a margem EBITDA se desenvolve em uma faixa de 6,5-9,6 por cento em uma base anual entre 2015 e 2019.

chr 4Fonte: Chain Reaction Research, Bloomberg, 6 de julho de 2020

O financiamento de US $ 10 bilhões pode estar em conflito com as políticas florestais

A JBS depende fortemente do financiamento da dívida e a dívida líquida / EBITDA se deterioraria significativamente em um cenário de alto impacto. Como os bancos e detentores de títulos têm o maior impacto no custo de capital de uma empresa, o alto nível de endividamento da JBS pode se tornar uma questão ESG importante para os financiadores que contratam a empresa. Cada vez mais, os principais bancos estão emitindo empréstimos vinculados a metas ESG. No final do 2T20, A dívida da JBS consistia em 66,5% de títulos e 33,5% de empréstimos bancários. Quase 94% da dívida é denominada em dólares americanos e 6,1% em reais. No final do 2T20, a dívida líquida era de US $ 10,0 bilhões, o que é superior à estimativa do consenso da Bloomberg de US $ 9,1 bilhões para o final de 2020. Embora a dívida líquida / EBITDA tenha melhorado recentemente, o cenário de alto impacto seria pro forma de US $ 1,3 bilhão dos US $ 4.962 milhões (2019) e levar a uma dívida líquida / EBITDA de 3,2X.

chr 3

Fonte: Chain Reaction Research, Bloomberg, 6 de julho de 2020; F = previsão baseada em consenso.

Dos 20 maiores financiadores, metade deles – com US $ 10 bilhões em exposição ao JBS – tem políticas de desmatamento ou políticas que estão gradualmente se adaptando ao desmatamento zero. A Figura 15 resume os 20 maiores financiadores (excluindo as participações familiares) da JBS e suas afiliadas, incluindo JBS USA e Pilgrim’s Pride. No total, esses financiadores forneceram US $ 24,4 bilhões em serviços financeiros à JBS e suas afiliadas: US $ 13,5 bilhões em empréstimos, US $ 1,3 bilhão em títulos e US $ 3,3 bilhões em participações. E por meio de serviços de subscrição, a JBS recebeu US $ 6,3 bilhões.

Em 2019, o JPMorgan Chase (exposição de US $ 1,6 bilhão), empresa do grupo JPMorgan Asset Management, divulgou seu primeiro relatório climático baseado nas recomendações do TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures). As políticas do JPMorgan Chase cobrem todas as atividades do grupo . O grupo também é signatário ou membro de muitas outras iniciativas, incluindo o Fórum de Bens de Consumo (CGF), que luta pelo desmatamento zero. O Rabobank (exposição de US $ 1,5 bilhão) é um membro ativo da Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS), com assento no conselho executivo. O Rabobank também é membro do CGF. Crédito Suiço (exposição de US $ 1,2 bilhão) vê a proteção da biodiversidade como parte integrante de seus compromissos de sustentabilidade. Suas políticas estão alinhadas com o RSPO e o Forest Stewardship Council (FSC), mas o banco não menciona explicitamente metas de desmatamento zero. O Santander participa da RTRS e, por meio da Banking Environment Initiative (BEI), do Soft Commodity Compact. Barclays é signatária da Declaração de Nova York sobre Florestas (NYDF) das Nações Unidas, que visa reduzir a perda de floresta natural pela metade até 2020 e encerrá-la até 2030, e adotou o Compacto de Commodities Soft da Banking Environment Initiative. A iniciativa, de acordo com o Barclays, compromete o banco com o desmatamento zero na área florestal, papel e celulose e óleo de palma. O Deutsche Bank também assinou o NYDF.

Alguns outros financiadores estão tomando medidas para desenvolver uma política de desmatamento. O Bank of America e o Bancorp afirmam que não farão contatos comerciais com empresas ativas na extração ilegal de madeira ou fogo descontrolado. Há, no entanto, um grande grupo dos 20 maiores financiadores que não possuem políticas florestais. O BNDES e outros bancos brasileiros não têm compromissos concretos de desmatamento zero. O Royal Bank of Canada não tem políticas de desmatamento, semelhantes ao BMO Financial Group (exposição de US $ 1,4 bilhão). Farm Credit Services (exposição de US $ 1,3 bilhão) não tem política ambiental relevante, enquanto BlackRock e Fidelity não têm políticas florestais.

chr 2

Fonte: Chain Reaction Research, Thomson-Eikon, Bloomberg; dados de 3 de junho de 2020

Anexo 1: Notas metodológicas para análise de desmatamento 

O perfil dessa empresa inclui uma análise do desmatamento das cadeias de suprimentos diretas e indiretas da JBS. Este anexo descreve as notas metodológicas da abordagem utilizada. Ele descreve o seguinte: 

  • As principais fontes de dados utilizadas
  • Uma descrição do processamento de dados e desenvolvimento de banco de dados
  • Uma descrição da análise de dados e verificações de qualidade
  • As limitações da metodologia

1. Fontes de dados

As principais fontes de dados incluem:

  • Autorizações de transporte de animais (GTAs). Essas licenças são documentos sanitários obrigatórios exigidos no transporte de gado entre duas propriedades. A CRR utilizou os registros do GTA 2019 dos estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e Tocantins para identificar os nomes das fazendas que abastecem direta e indiretamente a JBS.
  • Cadastros rurais e registros de propriedades. O CRR usou os cadastros e registros imobiliários do SIGEF (Sistema de Gestão Fundiária) e SNCI obtidos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrícola (INCRA).
  • Dados anuais de desmatamento confirmados. O CRR usou os dados anuais oficiais do Programa de Cálculo do Desmatamento na Amazônia (PRODES) do governo brasileiro como base para os cálculos do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.
  • Dados de vegetação remanescentes. O CRR usou mapas da agência espacial brasileira INPE (para a Amazônia) e os dados do FREL do Ministério do Meio Ambiente (para o Cerrado) para avaliar a vegetação nativa remanescente.

2. Processamento de dados e construção de banco de dados

Três etapas a seguir foram realizadas para construir o banco de dados para este relatório:

  • Limpe e prepare as informações do GTA. Usando o R Studio, um script foi escrito para limpar o texto em nosso conjunto de dados GTA e nos registros de terras SIGEF e SNCI para garantir o maior sucesso possível de correspondência de string. Exemplos dessa limpeza incluem a conversão de caracteres do português para o inglês (ã para a), padronizando o espaçamento entre palavras e padronizando o nome das empresas (ex: JBS exportaçãoto JBS).
  • Identificar fornecedores diretos e indiretos da JBS.Um script foi escrito para pesquisar o conjunto de dados GTA e extrair todas as entradas que tinham um matadouro JBS como destino final. A filtragem foi aplicada para “abate” (abate) e “bovinos” (gado), para limitar os dados à cadeia produtiva da carne bovina da JBS e para garantir que o frigorífico fosse o destino final. Para identificar fornecedores indiretos, a CRR repetiu esse processo com os fornecedores diretos da JBS como destino cadastrado do transporte de gado. Para evitar falsos positivos, incluímos apenas registros em que o nome do proprietário, o nome da fazenda e o município correspondiam. Aplicamos os filtros de engorda (engorda) ou reprodução (reprodução) como finalidade de transporte. Por meio dessa metodologia, foram identificadas 9.730 fazendas de abastecimento direto e 56.421 fazendas de abastecimento indireto à JBS. Cada um desses fornecedores forneceu um ou mais lotes de gado.
  • Localize fornecedores geograficamente . Usando o R studio, a correspondência de strings foi realizada para combinar o conjunto de dados “fornecedor identificado pela JBS” com o cadastro e registros de propriedade do SIGEF e SNCI para os seis estados no escopo desta análise. Para evitar falsos positivos, os registros só foram incluídos se uma correspondência foi encontrada entre os conjuntos de dados em; a) o nome do proprietário; b) o nome da fazenda; ec) o município da fazenda. Se duas ou menos dessas métricas corresponderem, os fornecedores serão excluídos de análises posteriores. Por meio deste método, foram localizadas um total de 983 fazendas de abastecimento direto e 1.874 fazendas de abastecimento indireto. Dois shapefiles com dados georreferenciados foram criados no QGIS (“JBS localizadas em fazendas de fornecimento direto” e “JBS localizadas em fazendas de fornecimento indireto”).

3. Análise de dados e verificações de qualidade

Os shapefiles “JBS localizada em fazendas fornecedoras diretas” e “JBS localizada em fazendas fornecedoras indiretas” foram posteriormente utilizados como mapa base para a análise do desmatamento e vegetação remanescente, através das seguintes etapas:

Sobreposição de dados de desmatamento do PRODES.  O CRR utilizou alertas confirmados de desmatamento do PRODES do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para os anos de 2008-2019. A CRR escolheu 2008 como ano limite por estar em linha com o Código Florestal Brasileiro. Os dados de desmatamento foram cruzados com os dois shapefiles para calcular o desmatamento em cada propriedade localizada, resultando em um total de 20.296 ha para as 983 fazendas de abastecimento direto e 50.852 ha para as 1.874 fazendas de abastecimento indireto.

Sobrepor os dados de vegetação remanescentes.  O CRR usou dados históricos de desmatamento do INPE para a Amazônia desde 1988, e o mapa de base de vegetação nativa FREL de 2000 para o Cerrado. A CRR calculou a área total de terras para as fazendas de abastecimento indireto e diminuiu todas as mudanças na vegetação nativa desde o início desses cronogramas. No entanto, a CRR não realizou esse cálculo para a cadeia de suprimentos direta, partindo do pressuposto de que os próprios sistemas de monitoramento da JBS mitigariam o risco de futura supressão de vegetação nativa nessas propriedades. Os cálculos resultaram em uma projeção de 2,1 milhões de ha de floresta e outros tipos de vegetação nativa remanescentes nas fazendas de abastecimento indireto localizadas.

Projeções da pegada do desmatamento na cadeia de suprimentos direta e indireta. A fim de extrapolar os achados de nossa amostra, o CRR calculou médias para o desmatamento por propriedade. Para as fazendas de abastecimento direto localizadas, a CRR calculou uma média de 20,65 ha por propriedade (20.296 ha de desmatamento dividido por 983 propriedades localizadas). A CRR multiplicou essa média pelo total de 9.730 fazendas de abastecimento direto identificadas para chegar à projeção estimada de 200.000 ha de desmatamento na cadeia de abastecimento direto da JBS desde 2008. Esse cálculo foi repetido para as fazendas de abastecimento indireto, resultando em um desmatamento médio maior por fazenda de 27,14 ha por propriedade. A estimativa extrapolada para as 56.421 fazendas de abastecimento indireto identificadas resultou em um número de 1,5 milhão de ha desmatados desde 2008.

Verificações de qualidade. O CRR conduziu uma série de verificações de qualidade durante várias fases da análise de dados. Esses incluem:

  • Confirmação de que os frigoríficos listados como destino nos registros do GTA ainda são de propriedade da JBS por meio da comparação do registro com a lista de ativos constante do documento de referência societário da JBS  .
  • Retirar os registros duplicados de imóveis localizados que possuem registros SIGEF e SNCI para evitar dupla contagem.
  • Cruzando alertas de desmatamento com limites de propriedades para excluir áreas desmatadas que ultrapassam os limites das fazendas.
  • Realizar, em cada etapa da análise, verificações de qualidade das amostras para garantir o funcionamento adequado dos scripts aplicados.
  • Cálculo do desmatamento médio por fazenda para ambas as propriedades com e sem desmatamento para balancear as estimativas projetadas para a exposição total ao risco de desmatamento da JBS e levar em conta a realidade de que nem todas as fazendas fornecedoras apresentam desmatamento.
  • Usando a equação de Cochrane para escolher um tamanho de amostra para uma grande população (Equação 1), para garantir a representatividade de nossa amostra. Com essa fórmula, pode-se determinar que o uso de dados de 384 fazendas seria suficiente para uma amostra representativa. Usamos 983 fazendas, o que é aproximadamente 10 por cento das 9.730 fazendas de fornecimento direto identificadas nos GTAs.

Equação 1: Equação de Cochrane: 

n0

é o tamanho da amostra necessário, Z é o valor z (encontrado em uma tabela z), p é a estimativa de quantas fazendas têm desmatamento (0,5 assume variabilidade máxima; que metade das fazendas contém desmatamento e a outra não), e é o nível desejado de precisão (neste caso 95%) eq é 1-p. 

n0 = Z2pqe2

n0 = (1,96) 2 (0,5) (0,5) 0,052

n0 = 384,16 fazendas

  1. Limitações metodológicas

 

Os dados e métodos analíticos do CRR apresentam uma série de limitações que merecem cautela na interpretação dos resultados apresentados. Eles incluem:

  • Estimativas e projeções conservadoras. Fizemos uma série de escolhas que resultaram em estimativas mais cautelosas e subnotificação potencial dos totais. Esses incluem:
    • Não atribuindo desmatamento adjacente, mas fora dos limites da fazenda. Em vários casos, os alertas de desmatamento transgridem os limites das fazendas. A CRR excluiu todo o desmatamento que ocorreu fora dos limites das fazendas de nossos cálculos, apesar da probabilidade de que sejam parte de um único evento de desmatamento. Consulte a Figura 1a abaixo para obter um exemplo.
    • Projeções baseadas em registros GTA 2019. O CRR projeta a pegada total do desmatamento no número de propriedades incluídas em nossos registros de GTA de 2019. Com isso, exclui fornecedores da JBS que não forneciam para a empresa em 2019, mas sim em outros anos. Também exclui quaisquer fornecedores com registros GTA defeituosos, fraudulentos ou ausentes.
    • Os dados não abrangem os estados amazônicos de Rondônia e Acre. O conjunto de dados GTA não incluiu dados para esses dois estados da Amazônia. São estados com desmatamento significativo nos últimos anos e onde a JBS está presente. As cadeias de suprimento direta e indireta de seus dois frigoríficos em Rondônia e um frigorífico no Acre não estão incluídas em nossos cálculos.
    • A análise não cobre a cadeia de suprimentos de terceiro nível e além. A análise é baseada em fornecedores identificados no primeiro e segundo níveis da cadeia de suprimentos da JBS. Exclui quaisquer fazendas que possam ser posteriormente removidas do matadouro. O gado normalmente muda de propriedade em propriedade várias vezes durante sua vida e quaisquer riscos de desmatamento nessas camadas também são totalmente não mitigados.
  • Sem distinção entre desmatamento legal e ilegal. Esta análise não faz distinção entre desmatamento legal e ilegal e não faz nenhuma reclamação de práticas ilegais por parte da JBS ou de qualquer um de seus fornecedores, exceto se referindo a relatórios de terceiros. Em particular no bioma Cerrado, a maior parte do desmatamento está dentro do escopo do Código Florestal Brasileiro.

chr 1

Obs: O desmatamento é indicado em vermelho e uma fazenda de abastecimento direto da JBS em amarelo. Os eventos de desmatamento na parte inferior da fazenda são todos parte de um evento, embora apenas parte dele contará como desmatamento desta fazenda

fecho

Este relatório foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!   ].

Em homenagem ao Dia da Amazônia, Colorado lança cerveja que muda de preço de acordo com a conservação da Floresta

Com babaçu em sua receita, novo rótulo terá 100% do valor arrecadado nas vendas destinado a mais de 600 famílias da Rede de Cantinas da Terra do Meio, no Pará

coorado

Conhecida por valorizar os ingredientes brasileiros em suas receitas, a Cervejaria Colorado inova mais uma vez e traz para o mercado a Colorado Amazônica – cerveja de trigo, feita com babaçu, pacová e casca de limão. Muito além de um novo rótulo, essa cerveja nasce com um propósito: ajudar a manter vivo o berço da biodiversidade brasileira. Para isso, semana a semana, o preço da Colorado Amazônica poderá flutuar de acordo com os índices de desmatamento da região, ou seja, quando reduz o desmatamento, cai o preço da cerveja e quanto menor a floresta, mais cara será a lata de Colorado Amazônica. O desejo da marca é que a Floresta seja muito preservada para o lançamento chegar a um preço incrível!

Assim, além de valorizar a região que apresenta a maior biodiversidade do País, a Colorado Amazônica irá colaborar com comunidades tradicionais da Amazônia – desde a escolha e compra dos ingredientes até a venda da cerveja. Feita com babaçu, artesanalmente produzida por comunidades no Pará, o novo rótulo terá 100% do valor arrecadado em sua venda doado para a Rede de Cantinas da Terra do Meio, formada por ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares, que trabalham com profundo respeito e exercem um papel fundamental na conservação da área e manutenção da floresta em pé.

“Nas nossas cervejas sempre destacamos os sabores brasileiros e a Colorado Amazônica traz no nome e em sua receita o nosso desejo de colocar em destaque o melhor do Brasil”, explica Guilherme Poyares, gerente de marketing de Colorado. “Mais do que uma cerveja, assumimos um compromisso com a conservação da biodiversidade e estamos ao lado daqueles que respeitam e ajudam a manter a Amazônia em pé. Por isso, nos cercamos de parceiros sérios que vivem e cuidam da floresta todos os dias e estamos muito felizes em fomentar essa conversa junto ao público”, completa Poyares.

Para esse projeto, o Engenheiro Florestal Tasso Azevedo, Coordenador do MapBiomas desenvolveu um Índice de Reajuste de Preços da Amazônia (IRPA) que tem como base a comparação da média do desmatamento semanal detectado nas últimas quatro semanas e o mesmo período do ano anterior. A cada semana o índice será calculado e indicará o reajuste a mais ou a menos que será aplicado ao preço da cerveja.

A implantação deste projeto conta com a parceria da rede Origens Brasil®, iniciativa que promove negócios sustentáveis na Amazônia em áreas prioritárias de conservação, garantindo a origem, transparência, rastreabilidade e o comércio justo de produtos da região. “Com a Colorado Amazônica, a Colorado se tornou membro da rede Origens Brasil® e reforçou seu compromisso de longo prazo com os povos da floresta, de forma ética e transparente. O Origens Brasil® é assim, acreditamos na força da atuação em rede, unindo empresas, organizações da sociedade civil, ribeirinhos, indígenas, extrativistas e consumidores em prol de um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia, que alia produção com conservação da floresta em pé”, conta Luiz Brasi Filho, coordenador de mercado da rede Origens Brasil®.

Colorado Amazônica é uma Witbier, também conhecida como Belgian White. Produzida com farinha de babaçu, pacová e casca de limão, a receita ressalta o sabor dos ingredientes da região amazônica, além de manter alta refrescância e agradar o paladar brasileiro com 9 de IBU na escala de amargor. A bebida possui teor alcoólico de 4,5%. A novidade chega ao mercado a partir do dia 3 de setembro e estará disponível na loja da marca (http://lojaonline.cervejariacolorado.com.br/) e também no Empório da Cerveja, com entregas em todas as regiões do Brasil.

Observatório do Legislativo Brasileiro mapeia influência da bancada ruralista no congresso nacional

No senado, bancada ruralista tem maior controle sobre a pauta e sobre comissões importantes para a agenda ambiental

Plenário do Congresso

 

Desde o início da gestão do presidente Bolsonaro, os temas “Meio Ambiente” e “Amazônia” têm ocupado grande espaço nos debates políticos e nas mídias nacional e internacional, não apenas porque ações assertivas de preservação ambiental são cada vez mais urgentes mundo afora, mas também porque o governo brasileiro tem sistematicamente emitido sinais contrários às agendas ambiental e climática. Em favor de uma suposta maximização dos ganhos do agronegócio brasileiro, o governo desconsidera que a questão ambiental é hoje fator determinante para a própria estabilidade e crescimento do setor.

Em agosto de 2019, as queimadas na Amazônia levaram o Brasil ao centro do debate internacional. Em junho de 2020, houve novo crescimento das queimadas – 20% a mais com relação ao mesmo mês do ano anterior. Internamente, contudo, a questão ambiental tem estado na pauta desde o início do governo de Jair Bolsonaro. Especialistas, ativistas e
organizações não governamentais, logo no início do mandato, enfrentaram tentativas de extinção do Ministério do Meio Ambiente, cortes orçamentários no ICMBio e no IBAMA, redução de unidades de conservação ambiental, bloqueio de verbas destinadas a políticas de combate a mudanças climáticas, dentre outras ações do gênero. Em janeiro de 2020, Bolsonaro reativou o Conselho da Amazônia e transferiu sua gestão do Ministério do Meio Ambiente para a Vice-Presidência, sem muitos resultados concretos do órgão, a não ser a proibição das queimadas no bioma amazônico por 120 dias a partir de meados de julho. Recentemente, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, considerou a pandemia de COVID-19 uma oportunidade para avanço do projeto de desregulamentação e simplificação de regras infralegais da área.

Os problemas dessa agenda, entretanto, não se resumem às decisões do Executivo. O setor ruralista tem representação historicamente forte no legislativo brasileiro e avessa à legislação ambiental. Ao mesmo tempo, há poucas informações sistematizadas sobre o Congresso que permitam identificar o interesse individual, a agenda e o posicionamento de cada parlamentar sobre o assunto. Com o objetivo de contribuir para diminuir essa lacuna, o Observatório do Legislativo Brasileiro fez um mapeamento inicial do agronegócio na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

Este boletim prioriza os seguintes aspectos: a) patrimônio e ocupação; b) participação de proprietários rurais em comissões e frentes; c) produção legislativa e ativismo parlamentar sobre o tema.

1. Proprietários rurais concentrados no Senado e em partidos de centro-direita

Identificar parlamentares vinculados direta ou indiretamente ao agronegócio não é tarefa simples, e detectar a propriedade de terras por deputados e senadores cumpre um primeiro papel essencial nessa direção. Para isso optamos por três caminhos: a) identificar o exercício de atividades relacionadas ao agronegócio por meio das autodeclarações de ocupação realizadas no momento do registro das candidaturas junto ao TSE; b) identificar a existência e o tamanho de propriedades rurais em nome dos parlamentares nas declarações patrimoniais constantes do mesmo órgão; e c) identificar propriedades rurais em nome de parlamentares na base fornecida pelo Incra. Nos três casos, há problemas. Nas autodeclarações de ocupação, é muito comum que deputados e senadores se autoidentifiquem como políticos em exercício do cargo x ou y, sem que haja referência a sua atividade pregressa à vida política. Já nas declarações patrimoniais, extraídas das estatísticas dos pleitos de 2014 e 2018, há imprecisões e lacunas que subestimam a magnitude do vínculo com o setor e a intensidade da defesa de seus interesses. Na base da Incra, os proprietários são identificados por nome e não CPFs, o que torna mais difícil a tarefa de excluir homônimos. Ainda assim, os dados revelam informações instigantes. Somente 7 dos 513 deputados federais se autodeclararam no exercício de atividades relacionadas à agropecuária. No Senado, esse número é de apenas 1. No que se refere às propriedades no campo, no entanto, de 10% a 16% dos deputados têm propriedades rurais declararam, quando observados os dados do TSE e do Incra, respectivamente. Segundo levantamento feito pelo Ruralômetro em 2014, esse percentual era de 55% no início da última legislatura, não estando claro se o cenário atual retrata queda significativa da representação desse perfil ou se há aumento importante na subnotificação. No Senado, para o qual não há dados comparativos na ferramenta do Ruralômetro, esse percentual é hoje de 25%, ou seja, 1 a cada 4 senadores possui bens rurais. Se incluídos os dados do Incra, essa proporção sobe para 35%.

Além disso, o Senado supera a Câmara no que se refere ao valor das propriedades listadas. O valor médio no Senado é R$ 1.98 milhões, enquanto na Câmara é quase 3,5 vezes menor, R$ 0.57 milhões. Nas duas casas, boa parte dos proprietários possui mais de uma propriedade rural.

No que se refere à distribuição partidária, utilizados os dados do TSE, obtidos por CPF do parlamentar, cinco partidos de centro e centro-direita reúnem sozinhos 60% dos proprietários rurais do Congresso – MDB, PSD, PP, PL e DEM. Quando observado o percentual de proprietários por partido, observamos novamente a prevalência desses partidos. No MDB e no DEM, inclusive, o percentual de proprietários supera 20% de suas bancadas no Congresso.

2. A bancada ruralista nas comissões: Senado novamente se destaca

A propriedade de bens rurais não implica necessariamente defesa formal de interesses do agronegócio e a defesa de tais interesses não é monopólio dos congressistas que possuem propriedades rurais. Uma primeira forma de avaliar a atuação política dos parlamentares sobre o tema é identificar quais comissões e frentes impactam o setor, nas duas casas legislativas, em virtude dos temas de que tratam; se congressistas com propriedades rurais ocupam predominantemente esses espaços; e qual o perfil dos deputados não proprietários que coabitam esses órgãos/associações.

Na Câmara dos Deputados, observamos a composição das comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR) e de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS). Nelas, não há sobrerrepresentação dos proprietários rurais, apenas 6 de 69 parlamentares do total dessas comissões são proprietários (8,6%), em contraste com os parlamentares proprietários na casa, cerca de 11% (TSE). Já no Senado, o papel dos proprietários rurais é bastante relevante nas duas comissões mais importantes para o setor – a Comissão do Meio Ambiente (CMA) e a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA). Quase 50% dos senadores proprietários ruralistas ocupam cadeiras nesses órgãos, o que é indício de que a posse de propriedade rural entre senadores pode estar relacionada com atuação mais propositiva e influência maior dos ruralistas na legislação sobre o setor e assuntos correlatos.

3. O tamanho e a importância da FPA na produção de informação e tomada de decisão

Tão importantes, nesse caso, quanto as próprias comissões são as frentes parlamentares constituídas para tratar do tema. As frentes não têm papel estruturalmente definido na avaliação das proposições, mas cumprem ao menos duas tarefas interdependentes de suma importância: garantem visibilidade ao tema que lhes dá origem e ajudam a organizar em coalizões os apoiadores das posições defendidas.

No primeiro ano da atual legislatura, o número de frentes criadas (mais de 300) foi 4 vezes maior que a média das frentes instituídas no primeiro ano das legislaturas coincidentes com Lula I, Lula II, Dilma I e Dilma II. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), no entanto, que aqui nos interessa, não é nova. Data da Constituinte (entre 1987 e 1988) a criação desse grupo de parlamentares dedicado à defesa dos interesses do setor, que, desde então, tornou-se uma das principais frentes temáticas no Congresso. É a maior frente parlamentar mista atualmente existente, reunindo quase 50% dos membros de cada casa – 246 deputados e 39 senadores. O tamanho é suficiente para fazer avançar proposições de interesse e barrar iniciativas contrárias ao setor.

Como membros da FPA, destacam-se partidos como PP e MDB, que, conforme dito anteriormente, abrigam boa parte dos proprietários rurais. PSL e Novo, no entanto, que reúnem poucos proprietários rurais, também se destacam na composição da frente. A força da FPA parece advir, portanto, em boa medida, de sua grande capacidade de atrair parlamentares não proprietários, ao menos se considerado exclusivamente o perfil de seu patrimônio declarado, conforme gráfico a seguir.

Outro dado relevante é a presença de membros da FPA nas comissões que impactam o setor, aquelas relacionadas à agropecuária e meio ambiente anteriormente citadas. Na Câmara, onde cada parlamentar pode integrar no máximo até duas comissões permanentes, a sobrerrepresentação de membros da FPA nos órgãos que legislam sobre agronegócio é evidente. Dos deputados que ocupam vagas nas duas comissões, 43 pertencem à frente e 26 não. Dito de outro modo, 62% dos membros das comissões pertencem à FPA. No Senado, há equiparação na proporção de vagas ocupadas por membros e não membros da FPA nas duas comissões correlatas, mas 40% dos membros da FPA ocupam cadeira em uma delas. Ou seja, a despeito do fato de que as regras de funcionamento do Senado facultam aos senadores integrar até seis comissões permanentes simultaneamente, o que reduz a necessidade de priorização de um único tema sobre o qual atuar, senadores da FPA mantêm forte atuação nas duas comissões.

4. O impacto da FPA na produção legislativa em temas afeitos ao agronegócio

Para investigar o impacto da atuação de grupos potencialmente ligados ao agronegócio na produção legislativa, analisamos, inicialmente, a autoria de proposições apresentadas nas áreas de agropecuária e meio ambiente, nas duas casas legislativas, considerados os seus tipos mais relevantes – Projetos de Lei, Proposta de Emenda Constitucional e Projetos de Lei Complementar. Dado que há lacunas nas informações sobre ocupação profissional e propriedades rurais, optamos pela identificação da incidência dos parlamentares da FPA, comparativamente aos demais, na autoria de propostas sobre os temas, não importando, para esta fase da pesquisa, se as propostas foram ou não transformadas em norma jurídica.

O resultado é revelador. Na Câmara, 48% das proposições relativas à agropecuária e ao meio ambiente são de autoria de membros da FPA – proporção idêntica ao percentual de deputados que participam da Frente. No Senado, no entanto, o impacto da Frente na definição de propostas sobre os temas é muito mais expressivo. 70% das propostas nas duas áreas foi apresentada por senadores da FPA, o que significa potencial impacto da frente na agenda ambiental indicativa que circula no Casa.

5. Índice de ativismo de tribuna

Por fim, buscamos analisar o esforço empreendido pelos congressistas para formação de opinião e construção de consensos nos temas Meio Ambiente e Uso do Solo. A tribuna é, nesse sentido, elemento fundamental, motivo pelo qual o OLB criou um índice novo, chamado Índice de Ativismo na Tribuna (IAT). O indicador varia entre 0 (nenhum ativismo na tribuna sobre o tema) e 10 (máximo de ativismo na tribuna sobre o tema). Sua metodologia baseia-se na análise de discursos parlamentares, procurando neles palavras-chave relativos ao tema2*. É importante frisar, entretanto, que a análise de engajamento não tem qualquer valor de valência. O que o índice revela não é a posição de determinado parlamentar, se favorável ou contrária à agenda em questão, mas o quanto ele se engaja no tema a despeito de seu posicionamento.

Na Câmara, 207 parlamentares (40%) tiveram alguma pontuação no índice, a maior parte deles (66%) com menos de 5 pontos, o que denota um engajamento baixo do conjunto da casa. Apesar disso, 23 parlamentares obtiveram nota acima de 7 (de médio a alto engajamento), destacando-se a presença significativa, nesse conjunto, de membros da FPA (13), mas também de filiados a partidos de esquerda (principalmente do PT), com posição provavelmente contrária à do primeiro grupo.

2* As palavras usadas na busca e análise foram: propriedade agrícola, reserva indígena, fundiário, fundiária, desmatamento, reserva ambiental, fronteira agrícola, inca, proteção ambiental, fazenda, gleba, imóvel rural, lote rural, área rural, loteamento, terreno agrícola, propriedade rural, agropecuária, pecuária, extrativismo, agricultura deputados com nota acima de 7 fazem parte das duas principais comissões que discutem o tema. Ou seja, lideranças mais engajadas na tribuna não tomam decisões no âmbito das comissões.

No Senado, 20% dos parlamentares têm nota acima de 7. Há maior presença de parlamentares com propriedade de terra nesse conjunto e participação mais ativa desse senadores e senadores nas comissões que discutem Meio Ambiente e Agropecuária.

Nas duas casas, há clara predominância de parlamentares bem posicionados no IAT oriundos de estados com forte relação com o tema da agricultura ou pertencentes à Amazônia legal.

Conclusão: Mensurar o quanto os interesses do agronegócio brasileiro estão representados no Congresso e refletidos na sua agenda requer análise conjugada de uma série de variáveis relativas ao perfil político-partidário do parlamentar e às suas atividades legislativas. Neste estudo do tema na atual legislatura, o OLB fez um primeiro mapeamento de algumasdessas variáveis. A despeito dos limites observados nos dados consultados, há alguns achados importantes. A pequena parcela de deputados e senadores que declaram possuir propriedades rurais concentra filiados a partidos de centro-direita. O Senado é a instituição que tem maior proporção dos proprietários, ¼ da casa, garantindo sobrerrepresentação dos mesmos em comissões permanentes dedicadas a temas relativos à agropecuária e ao meio ambiente.

São os dados de composição e atuação da FPA, contudo, que mais revelam o possível impacto do agronegócio no Congresso. Cerca de 50% dos deputados e senadores da atual legislatura compõem a Frente, que controla as comissões sobre o tema na Câmara e tem participação importante em comissões correlatas no Senado. Os membros da FPA também possuem índice de ativismo de tribuna mais elevado nos temas Meio Ambiente e Uso do Solo comparativamente aos demais congressistas. Os mais engajados no levantamento desses temas em seus discursos são parlamentares oriundos de estados em que agropecuária tem peso relevante.

Outros dados serão agregados a este primeiro mapeamento sobre o peso do agronegócio no Congresso, mas, até então, pode-se afirmar que o setor tem capilaridade suficiente nas duas casas legislativas, especialmente, no Senado, para pender a balança da agenda ambiental do Legislativo em seu favor.

Metodologia

As análises apresentadas neste boletim foram feitas a partir de dados coletados de diferentes fontes oficiais. Do Repositório de Dados Abertos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal , extraímos as seguintes informações:

● lista de Deputados titulares na Câmara;

● lista de Senadores titulares no Senado;

● filiação partidária atualizada dos congressistas;

● lista de ocupantes de comissões permanentes nas duas casas legislativas;

● discursos proferidos em Plenário;

● proposições (PL, PEC, MPV e PLP) apresentadas e tramitadas na Câmara dos Deputados desde 2019;

● classificação das proposições por tema, realizada pelo Setor de Informação da Câmara, e por autoria.

Como forma de identificar parlamentares com propriedades rurais, recorremos às declarações de bens realizadas pelos congressistas no momento do registro de suas candidaturas junto ao TSE em 2018 (e em 2014 para senadores cujos mandatos terminam em 2022). Organizamos essas informações de forma a manter apenas ocorrências que diziam respeito aos seguintes tipos de propriedades declaradas: fazendas, glebas, imóveis rurais, áreas rurais, áreas de loteamento, terrenos agrícolas e propriedades rurais. Feito isso, contabilizamos as ocorrências de propriedades por congressista e deflacionamos os valores declarados de cada uma pelo IPCA de maio de 2020 (usando os indexadores fornecidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada ). Do TSE, também extraímos informações como escolaridade, sexo e ocupação profissional declarada de cada congressista.

As proposições legislativas consideradas em nossas análises foram Projetos de Lei, Medidas Provisórias, Projetos de Lei Complementar e Propostas de Emenda à Constituição. Coletamos dados de proposições como essas apresentadas desde 2019 até o final de maio de 2020. Para agrupá-las nas áreas de interesse do agronegócio, utilizamos as classificações desenvolvidas pelos setores de documentação da Câmara e do Senado: no primeiro caso, consideramos os temas Agricultura, pecuária, pesca e extrativismo, meio ambiente e desenvolvimento sustentável e estrutura fundiária; já na câmara alta, consideramos os temas agricultura, pecuária e abastecimento, política fundiária e reforma agrária, meio ambiente. Como informações sobre a tramitação das proposições são disponibilizadas em estruturas e formatos diferentes em cada casa, o banco de dados final foi sistematizado para permitir a análise da produção legal do Congresso.

Finalmente, para realização dos cruzamentos entre bases de dados, utilizamos IDs únicos para cada parlamentar extraídos do TSE (no caso, o código sequencial de candidatura), da Câmara dos Deputados e do Senado Federal; e também número de CPF dos parlamentares, disponível tanto nos repositórios do TSE quanto da Câmara. Na ausência de  dados atualizados sobre a frente mista pela agropecuária, extraímos a composição da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) a partir do website do grupo na internet,utilizando os nomes dos parlamentares para identificar os pertencentes à frente. A base final foi consistida para checar a validade das informações.

Sobre o OLB

O Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB), núcleo de pesquisas ligado ao IESP-UERJ combina expertise acadêmica e ferramentas de análise de dados para acompanhar e avaliar o comportamento dos parlamentares no Congresso Nacional. Produzimos informações substantivas para organizações da sociedade civil e cidadãos sobre a tramitação e aprovação de políticas públicas, promovendo a transparência da atividade legislativa.

Greenpeace projeta queimadas na Amazônia no Ministério do Exterior da Alemanha

Com ato em Berlim, organização se manifestou contra o acordo UE-Mercosul. Ativistas afirmam que o pacto comercial contribuiria para a destruição da Floresta Amazônica.

green 1“Parem a destruição da Amazônia!”, projetou o Greenpeace na fachada do Ministério do Exterior da Alemanha

Ativistas do Greenpeace projetaram imagens de incêndios na Amazônia e mensagens pedindo a proteção da floresta na fachada do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, em Berlim, nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira (03/09). Com o ato, a ONG se manifestou contra o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, considerado prejudicial ao meio ambiente pelos ativistas.

“Com o acordo comercial UE-Mercosul, a destruição maciça da floresta tropical ameaça se espalhar ainda mais. A política precisa finalmente agir! O ministro do Exterior, Heiko Maas, deve se opor ao acordo para proteger o coração verde do planeta”, escreveu a organização numa publicação em sua conta no Facebook.

Os ativistas projetaram imagens de árvores em chamas e as frases “Acordo UE-Mercosul: perigoso para a Amazônia” e “Parem a destruição da Amazônia”. O ato também visava atrair a atenção para o Dia Internacional da Amazônia, comemorado em 5 setembro.

No último dia 21 de agosto, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, afirmou ter “sérias dúvidas sobre a implementação do acordo entre a União Europeia e o bloco sul-americano devido ao aumento do desmatamento na Amazônia.

No início desta semana, a ministra da Agricultura da Alemanha, Julia Klöckner, posicionou-se contra o acordo e afirmou que os colegas de pasta europeus estão céticos em relação ao pacto comercial. O presidente do Comitê de Comércio do Parlamento Europeu, o alemão Bernd Lange, também defendeu a suspensão do acordo.

green 2“Acordo UE-Mercosul: perigoso para a Amazônia”, diz projeção

Nesta quarta-feira, Merkel voltou a colocar em dúvida ratificação do acordo. Segundo ela, sob as atuais circunstâncias, a assinatura do acordo não enviaria um bom sinal. Merkel garantiu que compartilha do espírito ed a intenção do acordo, mas que regulamentações climáticas precisam ser negociadas e acertadas.

Carsten Lindemann, vice-presidente da bancada parlamentar da União Democrata Cristã (CDU), o partido de Merkel, enfatizou que o acordo não deve ser questionado. Em entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine, ele afirmou que se a UE não seguir adiante com o acordo, os países do Mercosul iriam se direcionar cada vez mais para a China. Alertas semelhantes foram emitidos por diversos setores da economia alemã.

Em junho do ano passado, após 20 anos de negociações, a UE e os países que compõem o Mercosul – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – chegaram a um acordo comercial abrangente para a criação da maior zona de livre comércio do mundo. Antes de entrar em vigor, o pacto precisa, porém, ser ratificado por todos os Estados-membros do bloco europeu.

Os parlamentos da Áustria, da Holanda e da região francófona da Bélgica já rejeitaram o acordo negociado. A ratificação do pacto também encontra resistência na França, Irlanda e Luxemburgo.

Segundo o Greenpeace, o acordo entre a UE e os países do Mercosul prevê maiores cotas de importação de produtos agrícolas e de carne bovina e de frango, e a Europa, portanto, importaria significativamente mais produtos para os quais grandes áreas de florestas precisam ser destruídas. Segundo a organização, muitos dos incêndios atuais são causados deliberadamente para preparar terras para a agricultura industrial.

Ainda de acordo com o Greenpeace, uma pesquisa realizada em agosto na Alemanha apontou que 85% dos entrevistados são a favor que um acordo comercial entre a UE e o Mercosul fortaleça os direitos humanos e os padrões sociais. E para 84% dos entrevistados, a consolidação da proteção ambiental deveria ser um ponto central do acordo.

Em junho, Maas enfatizou a importância de relações comerciais fortes com o Mercosul e se pronunciou favorável ao acordo.

“É claro que o Ministério do exterior tem que enfrentar crises com cooperações internacionais”, disse a especialista em florestas do Greenpeace, Gesche Jürgens. “Acordos comerciais sustentáveis devem, no entanto, focar na proteção do clima e na justiça social. Estes acordos não devem promover indústrias que violam os direitos humanos e destroem o meio ambiente.”

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Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

MST repudia uso da Força Nacional contra Sem Terra na Bahia

Em um momento como o que enfrentamos, é ultrajante que o governo faça uso da força para invadir nossos espaço produtivos

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Da Página do MST

O Movimento Sem Terra vem a público repudiar as ações de ataque do (des) Governo Federal contra à Reforma Agrária no estado da Bahia.

Na manhã desta quarta-feira (2), ministro da Justiça e Segurança Pública (MJSP), André Mendonça, publicou no Diário Oficial a portaria n°493, de 1 de setembro de 2020, que autoriza a Força Nacional Brasileira a atacar as áreas do MST nos municípios de Prado e Mucuri, região do Extremo Sul da Bahia.

Por meio dela, o Ministério da Agricultura terá apoio, até o dia 2 outubro, para ações de reintegração de posse contra assentamentos do MST na região.

O extremo sul da Bahia está localizado em um território com ricas e férteis terras alvos de especulação financeira, do capital internacional e das oligarquias locais.

Após a última eleição presidencial, que elegeu uma figura que criminaliza publicamente os movimentos sociais populares, as famílias Sem Terra vêm sofrendo persistentes e crescentes ataques e retirada de direitos auferidas ao longo do tempo.

Desde 2008, as famílias Sem Terra do estado se organizam e denunciam o avanço indiscriminado, irresponsável e insustentável do agronegócio na região que provoca a destruição da Mata Atlântica, contamina rios e nascentes, expulsa comunidades tradicionais, povos indígenas, além de contribuir diretamente com o aumento dos índices de desigualdade social na região.

Em virtude das ameaças e investidas arbitrárias, o MST reafirma seu compromisso de seguir organizado e em luta para que as áreas de assentamento e acampamento permaneçam cada vez mais fortalecidas.

Em um momento como o que enfrentamos, é ultrajante que o governo faça uso da força para invadir nossos espaço produtivos, quando, na verdade, deveria se preocupar com a saúde do povo.

Essa investida nada mais é, do que um desejo sombrio e infundado de acabar com a luta pela terra no país.

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Este texto foi originalmente publicado na página oficial do MST [Aqui!].

Fogo! Reuters revela que dados de queimadas na Amazônia estão errados e catástrofe é maior do que o divulgado até aqui

EXCLUSIVO-Dados de queimadas na Amazônia precisam ser corrigidos; provavelmente foi pior mês de agosto em 10 anos

fogoQueimada em área de floresta próxima de Humaitá (AM). Reuters/Ueslei Marcelino

Por Jake Springs para a agência Reuters

BRASÍLIA (Reuters) – Os dados oficiais de agosto sobre focos de incêndio na Amazônia precisam ser corrigidos e provavelmente vão mostrar uma alta na comparação com o ano passado, o que significará o pior mês de agosto em uma década, disse à Reuters nesta quarta-feira um dos pesquisadores responsáveis pelos números.

Segundo o pesquisador Alberto Setzer, não estão corretos dados que apontam que os incêndios  na Amazônia caíram 5% em agosto, conforme informação disponível atualmente no sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O pesquisador do Inpe, que trabalha na produção dos dados oficiais sobre focos de incêndios, disse que o registro de dados finalizados sofreu um atraso por um erro em uma satélite da Nasa. 

Quando a questão for resolvida, afirmou, agosto deste ano provavelmente registrará um aumento de 1% a 2% na comparação com o mesmo mês do ano passado. Isso significa que seria o pior mês de agosto em números de incêndios desde 2010.

A assessoria de imprensa do Inpe encaminhou um pedido de comentário para Setzer, que deu mais detalhes sobre seus cálculos e alertou que uma variação de 1% a 2% ficaria dentro da margem de erro.

O Ministério da Ciência e Tecnologia, ao qual o Inpe é vinculado, não respondeu a um pedido de comentário.

Já a assessoria do presidente Jair Bolsonaro não quis comentar, direcionando perguntas ao gabinete do vice-presidente da República Hamilton Mourão, que coordena o Conselho Nacional da Amazônia Legal. O gabinete de Mourão não respondeu de imediato a um pedido de comentário. Uma porta-voz do Ministério do Meio Ambiente não quis comentar.

Uma onda de focos de incêndios na Amazônia, em agosto de 2019, que levou a um pico das queimadas em nove anos, provocou protestos pelo mundo e no Brasil, com críticas à política de proteção da maior floresta tropical do mundo. O presidente francês, Emmanuel Macron, chegou a trocar farpas com Bolsonaro à época.

Setzer disse que o Inpe tem procurado fontes alternativas para corrigir o problema, estimando que pode demorar de uma a duas semanas para que os dados finais sejam publicados.

Uma vez corrigidos os dados, com falhas para a Amazônia a partir de 16 de agosto, juntamente com diferenças menores produzidas por dados ausentes para o norte da Amazônia desde então, o número final deve mostrar um ligeiro aumento, afirmou Setzer. 

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Este artigo foi inicialmente publicado pela agência Reuters [Aqui!].

O problema com a disparidade

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*Por Adolph Reed, Jr.  e Walter Benn Michaels  para o “Nonsite”

Se a pandemia de COVID-19 e a morte de George Floyd devem ter tornado visíveis desigualdades que ninguém tinha visto, as taxas de mortalidade tanto do vírus quanto nas mãos da polícia foram encontradas com análises que repetem o que todos sempre fizeram disse – primeiro, no diagnóstico do que produziu essas desigualdades e, em segundo lugar, na recomendação para eliminá-los. O problema (considerado tão arraigado na vida americana que às vezes é chamado de pecado original da América) é o racismo; a solução é o anti-racismo. E a confiança no diagnóstico e na cura é tão alta que produziu ação em todos os lugares, desde o protesto do BLM nas ruas até a votação da legislatura do Mississippi para derrubar sua bandeira para salas de diretoria corporativas que prometem literalmente bilhões de dólares – tudo com o admirável objetivo de acabar supremacia branca.

Tudo isso, é claro, tendo como pano de fundo uma economia que – tanto para os brancos quanto para os negros – se tornou cada vez mais desigual ao longo do último meio século. O índice de Gini (uma medida de desigualdade em que zero significa que todos temos o mesmo, enquanto um significa que uma pessoa tem tudo) passou de 0,397 em 1967 para 0,485 hoje. (Em contraste, a pior pontuação atual na Europa é basicamente a nossa há meio século.) E a maioria das pessoas – pelo menos na esquerda – que se preocupa com a disparidade racial, sem dúvida acredita que a desigualdade entre as classes também é um problema. Na verdade, eles podem muito bem acreditar que atacar o racismo também é um passo na direção de atacar a lacuna entre o decil superior da riqueza americana e todos os demais.

Mas eles estão enganados. Na verdade, não apenas o foco no esforço para eliminar as disparidades raciais não nos levará na direção de uma sociedade mais igualitária, nem mesmo é a melhor maneira de eliminar as disparidades raciais em si. Se o objetivo é eliminar a pobreza negra, e não simplesmente beneficiar as classes altas, acreditamos que o diagnóstico de racismo está errado e a cura do anti-racismo não funcionará. O racismo é real e o anti-racismo é admirável e necessário, mas o racismo existente não é o que principalmente produz nossa desigualdade e o anti-racismo não vai eliminá-lo. E porque o racismo não é a principal fonte de desigualdade hoje, o anti-racismo funciona mais como um equívoco que justifica a desigualdade do que uma estratégia para eliminá-la.

O que faz o racismo parecer o problema? As disparidades raciais muito reais visíveis na vida americana. E o que faz o anti-racismo parecer a solução? Duas crenças plausíveis, mas falsas: que as disparidades raciais podem de fato ser eliminadas pelo anti-racismo e que, se pudessem, sua eliminação tornaria os Estados Unidos uma sociedade mais igualitária A diferença de riqueza racial, por ser tão notável e comumente invocada, é uma ilustração muito boa, para não dizer perfeita, de como, em nossa opinião, tanto o problema quanto a solução são concebidos de maneira incorreta.

Já se sabe que os brancos têm mais riqueza líquida do que os negros em todos os níveis de renda, e a diferença racial geral na riqueza é enorme. Por que o anti-racismo não resolve esse problema? Porque, como Robert Manduca mostrou, o fato de os negros estarem superrepresentados entre os pobres no início de um período em que “trabalhadores de baixa renda de todas as raças” foram prejudicados pelas mudanças na vida econômica americana significa que eles “suportaram o impacto ”dessas mudanças. 1 A falta de progresso na superação da lacuna de riqueza entre brancos e negros tem sido função do aumento da lacuna de riqueza entre ricos e pobres.

Na verdade, se você olhar como a riqueza de brancos e negros é distribuída nos Estados Unidos, verá imediatamente que a própria ideia de riqueza racial é vazia. Os 10% mais ricos da população branca possuem 75% da riqueza branca; os 20% mais ricos têm virtualmente tudo isso. E o mesmo é verdade para a riqueza negra. Os 10% mais ricos das famílias negras detêm 75% da riqueza negra.

Isso significa que, como Matt Bruenig do People’s Policy Project observou recentemente,“A disparidade geral de riqueza racial é impulsionada quase inteiramente pela disparidade entre os 10% mais ricos dos brancos e os 10% mais ricos dos negros.” Embora Bruenig deixe claro que existe uma lacuna de riqueza perceptível entre os níveis de classe, ele explorou o impacto da eliminação da lacuna entre os 90% mais pobres de cada grupo e descobriu que, depois de fazer isso, 77,5% da lacuna geral permaneceria. Ele então examinou o efeito da eliminação da diferença de riqueza entre os 50% mais pobres – o ponto médio – de cada população e descobriu que isso eliminaria apenas 3% da diferença racial. Portanto, 97% da diferença de riqueza racial existe entre a metade mais rica de cada população. E, o que é mais significativo, mais de três quartos dele estão concentrados nos 10% superiores de cada um. Se você disser àquelas pessoas brancas nos 50% mais pobres (pessoas que basicamente não possuem nenhuma riqueza) que a desigualdade básica nos Estados Unidos é entre negros e brancos, elas saberão que você está errado. Mais revelador, se você disser a mesma coisa para os negros nos 50% mais pobres (pessoas que têm menos do que nenhuma riqueza), eles também saberão que você está errado. Não são todos os brancos que têm dinheiro; são os dez por cento dos (principalmente) brancos, e alguns negros e alguns asiáticosA diferença de riqueza entre todos, exceto os negros e brancos mais ricos, é diminuída pela diferença de classes, a diferença entre os mais ricos e todos os demais.

Como diagnóstico, identificar disparidades é taxonômico e retórico, não etiológico. Insistir para que entendamos essas desigualdades como evidência de racismo é uma exigência sobre como devemos classificá-las e nos sentir a respeito delas, não um esforço para examinar suas causas específicas. Embora a diferença de riqueza reflita os efeitos do racismo, tanto no passado quanto no presente, ela não explica como exatamente as diferenças são produzidas, para cima e para baixo na distribuição de renda e riqueza. Por exemplo, entre 1968 e 2016, os negros americanos fizeram avanços significativos em ocupações e categorias de empregos às quais antes não tinham acesso. Consistente com essa oportunidade expandida, no artigo que mencionamos acima, Manduca descobriu que, durante esse período, as disparidades entre brancos e negros na classificação de renda – onde a renda média do grupo cai na distribuição de renda nacional, medida em centis – diminuíram em quase um terço. Isso não estava nem perto da paridade, mas uma melhoria definitiva. (A renda média dos negros subiu do vigésimo quinto percentil para o trigésimo quinto.) No entanto, durante o mesmo período, a diferença geral de renda entre negros e brancos praticamente não mudou. O motivo foi a extrema concentração de renda no topo naquele período. Na verdade, a renda mediana dos negros no vigésimo quinto percentil em 1968 era igual a 55% da média nacional, mas em 2016 a renda no trigésimo quinto percentil era igual a apenas 48% da média nacional. Não é o racismo o responsável por esse declínio relativo; é o capitalismo neoliberal.

Mesmo como um programa para lidar com as disparidades raciais, o anti-racismo não é um bom remédio para a desigualdade. Se a diferença de riqueza racial fosse de alguma forma eliminada para cima e para baixo na distribuição, 90% dos negros ainda teriam apenas 25% da riqueza total, e os 10% mais ricos ainda teriam 75%. E isso era de se esperar porque, em uma sociedade com desigualdade geral acentuada e crescente, a eliminação de “lacunas” raciais na distribuição de vantagens e desvantagens por definição não afeta o padrão maior e mais fundamental de desigualdade.

Essa inadequação se torna mais clara quando consideramos o truque argumentativo que impulsiona o discurso da disparidade. O que estamos realmente dizendo toda vez que insistimos que a desigualdade básica é entre negros e brancos é que as únicas desigualdades com que nos preocupamos são aquelas produzidas por alguma forma de discriminação – que a desigualdade em si não é o problema, são apenas as desigualdades produzidas pelo racismo e sexismo, etc. O que o discurso da disparidade nos diz é que, se você tem uma economia cada vez mais desigual, que está gerando principalmente empregos que nem pagam um salário mínimo, o problema que precisamos resolver não é como para reduzir essa desigualdade e não como tornar esses empregos melhores, mas como garantir que eles não sejam desproporcionalmente ocupados por negros e pardos.

É verdade, como mostrou o cientista político Preston H. Smith II, que na forma do que ele chama de “democracia racial”, alguns negros defenderam o ideal de uma escada hierárquica na qual os negros e outros não-brancos seriam representados em todos os degraus em proporção aproximada à sua representação na população em geral. 2 Mas o fato de que alguns negros o desejaram não torna a democracia racial desejável. Como observamos, separadamente, juntos e repetidamente, a implicação da proporcionalidade como métrica da justiça social é que a sociedade seria justa se 1 por cento da população controlasse 90 por cento dos recursos, desde que 13 por cento do 1 por cento eram negros, 14 por cento eram hispânicos, metade eram mulheres, etc.

Reclamações sobre desproporcionalidade são matemática liberal. E uma política centrada em desafiar a desproporcionalidade vem com o aval de não menos um Doutor da Igreja do Neoliberalismo de Esquerda do que o economista Paul Krugman, que afirmou em seu papel de ideólogo para a campanha de Hillary Clinton de 2016 que a desigualdade “horizontal”, ou seja, as desigualdades mediram “Entre grupos racial ou culturalmente definidos é o que é realmente importante na América e descartou o elaborado programa do senador Bernie Sanders para a redistribuição social-democrata como “uma quimera”. 3

É a fixação na desproporcionalidade que nos diz que o aumento da riqueza de um por cento seria OK se houvesse mais bilionários negros, pardos e LGBTQIA +. E o fato de que o anti-racismo e a anti-discriminação de todos os tipos validariam em vez de minar a estratificação da riqueza na sociedade americana é completamente visível para aqueles que atualmente possuem essa riqueza – todas as pessoas ricas ansiosas para embarcar em um curso de purificação moral (treinamento anti-racista) mas sem nenhum interesse por uma política (redistribuição social-democrata) que altere as condições materiais que os tornam ricos.

Em contraste, a tensão na política negra que convergiu em torno do que Smith chama de ideal social- (ao invés de racial-) democrático procedeu do entendimento de que, porque a maioria dos negros americanos estão na classe trabalhadora – e de forma desproporcional, em parte por causa do mesmo efeitos do racismo passado e atual aos quais aludimos acima – os negros também se beneficiariam desproporcionalmente das agendas redistributivas que expandem as políticas de salários sociais e melhoram os padrões de vida e a segurança da classe trabalhadora universalmente. A tensão entre esses dois ideais de justiça social, como Smith indica, era, e é, uma tensão decorrente de diferenças de percepção e valores enraizados em diferentes posições de classe.

Daí o fato de que, ao longo do último meio século (como a sociedade americana atingiu novos patamares de desigualdade e como os democratas fizeram muito pouco mais do que os republicanos para combatê-la), o princípio racial-democrático na política negra e na sociedade em geral , substituiu o social-democrata, foi uma vitória para a classe – negra e branca – que o apoiou. Em sua insistência de que a proporcionalidade é a única norma e métrica defensável de justiça social, a política anti-racista rejeita programas universais de redistribuição social-democrata em favor do que é, em última análise, uma abordagem de infiltração racial segundo a qual tornar mais negros ricos e negros ricos mais rico é um benefício para todos os negros.

É instrutivo, a esse respeito, que a diferença de riqueza racial tenha se tornado o padrão-ouro, por assim dizer, da injustiça racial. Por um lado, os acadêmicos, funcionários de ONGs, comentaristas da mídia e similares que enfatizam isso como um assunto de interesse público estão, eles próprios, tipicamente enraizados nos estratos gerenciais profissionais, entre os quais são mais visíveis e mais experientes. Reclamações sobre colegas de trabalho brancos cujos pais lhes dão entrada de $ 700.000 em condomínios não existem muito na classe trabalhadora. A lacuna não é apenas uma questão de status superior; defini-la como um marcador crucial de desigualdade racial, como o trabalho de Manduca ilustra, naturaliza as forças que produzem o quadro maior e mais consequente da desigualdade capitalista dentro do qual a riqueza é produzida e distribuída. De fato, Dionissi Aliprantis e Daniel Carroll , em um relatório para o Federal Reserve Bank de Cleveland, descobriram que a fonte mais importante da lacuna de riqueza racial persistente é a lacuna de renda. Eles indicam, com base em um modelo sofisticado de acumulação de riqueza que se ajusta a diferentes padrões de poupança ao longo do ciclo de vida, que, se as tendências atuais persistirem, levaria 259 anos para que a riqueza média negra fosse igual a 90% da média branca. Ajustando o modelo para presumir que a igualdade de renda entre brancos e negros foi alcançada em 1962, eles descobriram que a riqueza familiar média negra teria atingido 90% da riqueza familiar branca em 2007.

Políticas de redistribuição social democrata que reduzem os diferenciais de renda efetivos entre o topo e a base, combinadas com sérias medidas anti-discriminação e aumento do investimento público que restaura e expande o setor público onde trabalhadores negros e pardos estão desproporcionalmente empregados. mais para reduzir até mesmo a lacuna de riqueza racial do que propostas genuínas de sonho, como reparações ou outras estratégias de construção de ativos semelhantes a Rube Goldberg. A resistência a tal abordagem mostra até que ponto o anti-racismo como política é um artefato e motor do neoliberalismo. Ele faz um trabalho melhor legitimando os princípios de justiça social baseados no mercado do que aumentando a igualdade racial. E um componente-chave desse trabalho de legitimação é o desvio das alternativas social-democratas.

Podemos ver como isso funciona em um relatório recente do National Women’s Law Center , que, no contexto da atual crise de saúde, concluiu não apenas que “as mulheres negras estão desproporcionalmente representadas em empregos de linha de frente na prestação de serviços públicos essenciais”, mas também que as mulheres negras que fazem esses trabalhos “normalmente recebem apenas 89 centavos para cada dólar pago a homens brancos não hispânicos nas mesmas funções”. 4 No geral, a disparidade salarial média para mulheres negras nas onze categorias ocupacionais que o relatório discute é de US $ 0,20 por hora, o que, como observam os autores, é especialmente significativo para trabalhadores de baixa remuneração. “Essa diferença de salários resulta em uma perda anual que pode ser devastadora para as mulheres negras e suas famílias, que já lutavam para sobreviver antes da crise de saúde pública. Por exemplo, mulheres negras em uma ocupação de linha de frente mal paga, como garçons e garçonetes, perderam US $ 7.800 devido à diferença salarial em 2018. Mulheres negras que trabalham como professoras perderam espantosos US $ 14.200 devido à diferença salarial em 2018. ” Esse é exatamente o tipo de injustiça que a batalha contra a disparidade deve enfrentar.

Mas é também precisamente o tipo de injustiça que revela o caráter de classe dessa batalha. O salário médio por hora para homens brancos não hispânicos em oito das onze categorias ocupacionais em que as mulheres negras são mal pagas é menos de U $ 20 por hora (e em um nono, assistentes sociais de saúde, é pouco mais de US$ 20). A disparidade nos diz o problema a ser resolvido é que as mulheres negras ganham US$ 0,20 a hora menos do que os homens brancos. A realidade nos diz que não são esses US$ 0,20 por hora que tornam precária a situação econômica dessas trabalhadoras negras. Todos que recebem um salário por hora inferior a US$ 20 estão em uma situação econômica precária. E não é apenas porque este relatório não faz referência à necessidade de aumentar os salários de todos os trabalhadores nessas onze categorias ocupacionais da linha de frente. Cada vez que projetamos a desigualdade questionável em termos de disparidade, cometemos a injustiça fundamental – a diferença entre o que os trabalhadores da linha de frente ganham e o que seus patrões e os acionistas nas empresas pelas quais seus patrões trabalham – invisível ou pior. Porque se a sua ideia de justiça social é tornar os salários das mulheres negras mal pagos iguais aos dos homens brancos um pouco menos mal pagos, ou você não consegue ver a estrutura de classes ou aceitou a estrutura de classes.

O grau em que mesmo os esquerdistas nominais ignoram essa realidade é uma expressão da extensão da vitória ideológica do neoliberalismo nas últimas quatro décadas. Na verdade, se nos lembrarmos da frase de Margaret Thatcher, “A economia é o método: o objetivo é mudar a alma”, a transformação do anti-racismo em arma para implantar a moralidade liberal como a solução para as injustiças do capitalismo deixa claro que é a alma da esquerda que ela tinha mente. Assim, por exemplo, a recepção de Raj Chetty e seus co-autores o estudo amplamente discutido de 2018 sobre mobilidade econômica intergeracional deixou claro que sua descoberta mais chocante foi o grau em que os negros ricos têm menos probabilidade do que seus colegas brancos de passar seu status para os filhos, especialmente os filhos homens. Como se a dificuldade que os ricos possam ter para repassar suas riquezas expropriadas se transformasse em problema de esquerda pelo fato de os ricos em questão serem negros. 5 É claro que os autores do estudo não são necessariamente responsáveis ​​por como a mídia noticiosa representa seu significado, mas são totalmente responsáveis ​​pelo fato de que seu trabalho desconecta em grande parte a mobilidade econômica – e as disparidades raciais – da economia política, tanto no diagnóstico quanto nas soluções propostas. Para eles, “a questão crítica para compreender a lacuna entre negros e brancos no longo prazo é: as crianças negras têm renda mais baixa do que as brancas, condicionada à renda dos pais e, em caso afirmativo, como podemos reduzir essas lacunas intergeracionais?” A ideia deles do problema básico realmente não é que uma vantagem injusta está sendo passada de geração em geração, mas que está sendo passada de forma mais eficaz entre brancos do que entre negros.

E suas soluções, que se concentram nos supostos efeitos de fatores como família e vizinhança, concentram-se principalmente nas almas dos negros e brancos. Como argumentou o historiador Touré Reed, seus “três remédios específicos: ‘programas de mentoria para meninos negros, esforços para reduzir o preconceito racial entre os brancos ou esforços para facilitar a interação social entre grupos raciais dentro de uma determinada área’ …”. são “centrados principalmente na tutela cultural” e no “entendimento inter-racial”. 6 E, como Reed também aponta, eles minimizam os efeitos de qualquer redistribuição real, “—incluindo“ programas de transferência de renda ”e, curiosamente,“ aumentos de salário mínimo ”- com o fundamento de que só“ melhorarão a economia para um único geração ”(166). (É como se Workers of the World Unite tivesse se transformado em não dê um peixe ao homem, ensine-o …)

Tanto o estudo em si quanto a repercussão pública que gerou ressaltam até que ponto o anti-racismo contemporâneo presume a vitória ideológica thatcherista. Chetty e seus co-autores tratam a ordem econômica neoliberal como uma natureza dada e inexpugnável. Eles não levam em consideração as intervenções políticas desde os anos 1960 – de um lado, a expansão da aplicação da lei antidiscriminação e a abertura de estruturas ocupacionais; de outro, redução do setor público e dos salários sociais, declínio na sindicalização e quatro décadas de transferência regressiva de renda e riqueza – que afetaram substancialmente a mobilidade econômica dos negros. Nem consideram se a recência relativa dessa mobilidade ascendente aumentada pode ter efeitos intergeracionais consequentes, especialmente em um contexto geral de estagnação salarial e transferência regressiva. É por isso que eles podem imaginar uma política redistributiva apenas na forma de intervenções fracas no chá, como aumento do salário mínimo – não vitalício, que eles imediatamente descartam como inadequado. Sua ênfase na mobilidade intergeracional dentro desse contexto estreito reforça a visão de que a desigualdade racial deve ser a desigualdade central para nossa preocupação. E sua redução do universo de intervenção possível ecoa outro ditado notório de Thatcher:“Sabe, a sociedade não existe. Existem homens e mulheres individualmente e existem famílias. ” E ela teria ficado bem com a reificação adicional de Chetty et al. De indivíduos e famílias como bairros – “É nosso dever cuidar de nós mesmos e, então, também, cuidar de nossos vizinhos”.

A trajetória geral de seu relato – desde a formulação inicial do estudo do problema até suas conclusões e recomendações – é que consertar as disparidades requer consertar as pessoas. Essa construção tem sido um desvio padrão dos mecanismos mais amplos e profundos que impulsionam a desigualdade proveniente das Poor Laws inglesas através da propagação da ideologia do “capital humano” pelos economistas de Chicago na década de 1950 e da invenção do antropólogo Oscar Lewis da cultura da pobreza (rebatizada na década de 1980 e 1990 como a subclasse urbana) até que foi formalizada como política por meio da vitória da visão culturalista, ao invés de redistributiva, que definiu a Guerra à Pobreza. É mais ou menos assim que deve ser se as estruturas político-econômicas e, especificamente, as relações de classe capitalistas forem definidas fora de cena.

O que temos falado até agora são diferentes maneiras de entender a desigualdade econômica, e nosso ponto é que o próprio compromisso de enquadrar a desigualdade entre ricos e pobres como a disparidade entre brancos e negros é – se você quiser uma sociedade mais igualitária —Encontrado. Mas dinheiro não é tudo. E quanto às disparidades que podem ter um componente de classe, mas onde parece que a raça ou o racismo desempenham um papel significativo e autônomo? Examinar as limitações e as características insidiosas de como o discurso da disparidade opera nas duas outras áreas em que agora é mais proeminente – COVID-19 e assassinatos de civis pela polícia – demonstrará o quão distorcido por classes e contraproducente ele é.

Todos nós já ouvimos muito sobre disparidades raciais nas mortes por coronavírus – desde a observação padrão de que as comunidades “negras e pardas” foram as mais atingidas por Sanjay Gupta (Correspondente Médico Chefe da CNN), incluindo uma lista de fatores biológicos que aumentam o risco de efeitos graves do vírus “ser uma pessoa de cor – afro-americano, latino-americano ou nativo americano”. Há um sentido em que ambas as observações são verdadeiras, mas há um sentido muito mais poderoso em que são falsas e a forma como são falsas, primeiro, reproduz alguns dos mitos mais perniciosos sobre raça (o principal é que tal coisa existe) e, em segundo lugar, implanta raça e racismo de uma forma que deturpa o problema e, portanto, descreve mal a solução.

As pessoas de cor correm maior risco? 7 A maioria dos leitores provavelmente já conhece muitos dos principais fatores de risco com relação ao COVID-19: de acordo com os Centros de Controle de Doenças, entre eles estão asma; doença renal crônica em tratamento com diálise; distúrbios da hemoglobina (uma proteína que transporta oxigênio no sangue); doença pulmonar crônica; diabetes; status imunocomprometido; doença hepática; doenças cardíacas graves; obesidade severa; idade de 65 ou mais; residência em lares de idosos ou instalações de cuidados de longa duração. Todas, exceto as duas últimas categorias, são condições médicas específicas que podem afetar qualquer pessoa na população em geral. Essas condições demonstraram aumentar o risco de danos graves causados ​​pela infecção, tanto clinicamente, por exame dos efeitos específicos que o vírus pode ter em pessoas com essas condições, ou estatisticamente, mostrando que as pessoas com essas condições são significativamente mais propensas a sucumbir aos piores efeitos do vírus, ou ambos.

As duas últimas categorias, em particular, estão ligadas também a circunstâncias sociais específicas, principalmente a um ponto avançado do ciclo de vida, que está associado à diminuição da capacidade de combater doenças. Mas outras circunstâncias sociais estão envolvidas com eles, bem como com muitas das outras condições. Por exemplo, lares de idosos e instalações de cuidados de longo prazo não apenas abrigam pessoas com condições que as tornam especialmente vulneráveis; eles normalmente dependem de trabalhadores prestadores de cuidados que são mal pagos e explorados e têm maior probabilidade de estarem em maior risco de infecção e, portanto, de transmitir a infecção do que a população em geral. Como todos sabemos, esses “trabalhadores essenciais” podem ser celebrados como “heróis”, mas em um sistema de saúde com fins lucrativos, onde os operadores de tais instalações, cada vez mais empresas de capital privado e de investimento, tendem a cortar custos para manter seus resultados financeiros, os heróis não são apenas mal pagos, sua saúde é uma preocupação secundária.

Os profissionais de saúde, e os profissionais essenciais em geral, têm uma probabilidade desproporcional de adoecer e são desproporcionalmente negros. De forma mais geral, sabemos que nos Estados Unidos, as pessoas classificadas como negras e hispânicas têm uma probabilidade desproporcional de serem pobres e economicamente marginais, de ter acesso inadequado à saúde, de trabalhar em empregos perigosos, debilitantes e, no caso do COVID -19, provavelmente para expô-los a infecções e viver em circunstâncias relativamente congestionadas e em áreas com elevada exposição a toxinas ambientais – todas as condições que prejudicam a saúde básica. Nesse sentido, raça está associada ao risco porque é uma categoria abrangente que abrange proporções relativamente altas de pessoas que vivem em circunstâncias sociais que aumentam o risco. É uma espécie de abreviatura, uma “medida proxy. “Medidas de proxy são o que os pesquisadores usam para tentar obter os efeitos de uma variável quando eles não têm informações diretas sobre a própria variável. Eles usam outras variáveis ​​que parecem se mover junto com aquela em que estão interessados, mas para as quais não têm dados diretos para tentarinferir a importância da categoria pela qual estão interessados ​​em contabilizar. Os pesquisadores geralmente reconhecem o uso da raça como um substituto para a classe.

Mas por que precisamos de um proxy para a classe? Por que não apenas usar a classe? Porque, na maioria das vezes, não podemos. Embora a observação de Vincente Navarro (para a turma de formandos de 2003 da Johns Hopkins Medical School), “os Estados Unidos são um dos poucos países que não incluem a classe em suas estatísticas vitais e de saúde nacional”, sem dúvida exagerou o caso, seu A observação de que os EUA preferem coletar “estatísticas vitais e de saúde por raça e gênero” está correta. Comparando as abordagens da UE e dos EUA para eliminar as disparidades na saúde, Elizabeth Docteur e Robert A. Berenson observam que o foco da UE nas “desigualdades entre as camadas mais favorecidas e as mais desfavorecidas da população”, isto é, “populações com educação mais baixa, uma classe ocupacional mais baixa , ou renda mais baixa. ” “Em contraste,” eles continuam a dizer, os EUA os dados que eles analisam apresentam “disparidades de saúde associadas a raça e etnia como o foco principal de seu esforço para aumentar a igualdade na saúde”. Portanto, os estudiosos que desejam examinar os efeitos de classe do COVID-19, por exemplo, devem confiar em medidas proxy – por exemplo, CEPs, níveis de educação ou raça – para tentar chegar à questão indiretamente. Assim, qualquer que seja o papel desempenhado pela raça em realmente produzir a vulnerabilidade de qualquer indivíduo ao vírus, o papel desempenhado pela raça ao explicar essa vulnerabilidade está em primeiro plano: a manchete é comunidades negras e pardas suportam o peso do COVID-19, não funcionando- as pessoas da classe suportam o fardo do COVID-19. deve confiar em medidas de proxy – por exemplo, CEPs, níveis de educação ou raça – para tentar chegar à questão indiretamente. Assim, qualquer que seja o papel desempenhado pela raça em realmente produzir a vulnerabilidade de qualquer indivíduo ao vírus, o papel desempenhado pela raça ao explicar essa vulnerabilidade está em primeiro plano: a manchete é comunidades negras e pardas suportam o peso do COVID-19, não funcionando- as pessoas da classe suportam o fardo do COVID-19. deve confiar em medidas de proxy – por exemplo, CEPs, níveis de educação ou raça – para tentar chegar à questão indiretamente. Assim, qualquer que seja o papel desempenhado pela raça em realmente produzir a vulnerabilidade de qualquer indivíduo ao vírus, o papel desempenhado pela raça ao explicar essa vulnerabilidade está em primeiro plano: a manchete é comunidades negras e pardas suportam o peso do COVID-19, não funcionando- as pessoas da classe suportam o fardo do COVID-19.

Mesmo quando essa substituição nomeia essencialmente as mesmas pessoas, é um problema, de várias maneiras.

Primeiro, ele funciona para converter a raça de um substituto para outros fatores em um substituto para esses outros fatores. A estudiosa de saúde pública R. Dawn Comstock e seus co-autores em um estudo de 2004 no American Journal of Epidemiology pesquisaram 1.198 artigos naquele periódico e no American Journal of Public Healthpublicado entre 1996 e 1999 e descobriu que quase 86 por cento mencionaram raça, mas que na maioria, pouco mais de 57 por cento, “o propósito de usar raça ou etnia como variáveis ​​não foi descrito” (616) e “apenas raramente foram feitas recomendações de políticas sobre o base de achados associados à raça ou etnia ”(617). Ou seja, os pesquisadores costumam usar raça como uma categoria para interpretar dados simplesmente porque ela já está lá na forma como os dados são coletados e agregados. Fazer isso parece apropriado porque é consistente com o conhecimento popular do senso comum de que “raça” é importante de alguma forma e, portanto, perpetua a ideia de que raça é importante de alguma forma.

Em segundo lugar, a ideia de que a raça em si é importante perpetua a falsa ideia de que existe uma coisa chamada raça. Mas, biologicamente falando, não existe. Não é surpreendente que os pesquisadores já tenham dedicado muito tempo e esforço à procura de marcadores biológicos das diferenças entre as raças. O que é surpreendente é que, muito depois de a busca por tais marcadores ter falhado e haver consenso de que a razão de não os encontrarmos é porque eles não existem, continuamos a organizar nosso pensamento em torno deles – como se houvesse algo sobre a biologia dos corpos negros em função de sua negritude que os tornava mais suscetíveis ao COVID-19. Muitos médicos, incluindo médicos, presumem que os negros, por exemplo, têm características biológicas distintas dos brancos. Um estudo recente descobriu que 50% dos estudantes de medicina ou residentes endossaram pelo menos uma falsa crença sobre diferenças raciais na biologia entre negros e brancos. Um estudo complementar descobriu que quase três quartos de uma amostra de pessoas sem treinamento médico endossaram pelo menos uma dessas falsas crenças. Vale ressaltar a esse respeito que há maior diversidade genética entre duas espécies de chimpanzés, nossos parentes primatas mais próximos, que vivem na mesma pequena região da África Central do que em toda a nossa espécie em todo o globo.

Há uma longa e sórdida história dos danos frequentemente trágicos que as crenças populares sobre as diferenças raciais na biologia causaram às pessoas neste país e em todo o mundo. 8 No ambiente atual, é muito fácil para as pessoas presumir que as disparidades raciais resultam de diferenças na biologia racial. E, como o pensamento racialista é uma mistura nebulosa de fantasias, a crença popular não precisa atribuir as diferenças à biologia. As crenças populares sobre “cultura” fazem o mesmo trabalho de plantar confusão e desinformação. “Cultura”, neste contexto, é tipicamente apenas uma maneira educada de dizer raça e que não requer qualquer afirmação sobre biologia, embora seja freqüentemente usada de forma intercambiável para invocar diferenças essenciais. À sua maneira, uma visão popular de raça como cultura pode ser tão prejudicial quanto a visão biológica porque facilmente dá origem a argumentos de culpabilização das vítimas, segundo os quais as condições de saúde vulneráveis ​​das pessoas são culpa delas devido a suas dietas e hábitos destrutivos estereotipados atribuído a eles. Isso, por sua vez, dá origem a argumentos de que “eles” precisam exercer maior responsabilidade pessoal e que não se deve esperar que “nós” paguemos os custos de cuidar deles. Também vimos muito desse sentimento durante a crise do COVID-19.

Terceiro, aquilo em que focamos pode tornar mais difícil ver outros padrões, talvez igualmente ou mais importantes. Como os dados de saúde pública não são coletados com a renda como categoria de análise, não podemos determinar definitivamente se os ricos, de qualquer raça, foram em média tão vulneráveis ​​aos piores efeitos do COVID-19 quanto os pobres de qualquer raça ou se os idosos ricos são tão vulneráveis ​​quanto os pobres. Essa seria uma informação importante se quisermos entender mais claramente quem em nossa população geral está sob maior ou menor risco. No entanto, temos pistas. Um estudo recente de Les Leopold e do Labor Institute examinou uma série de fatores associados a taxas de mortalidade mais altas na cidade de Nova York.

Bairros com aproximadamente um terço a mais de afro-americanos do que a média dos bairros de Nova York têm nove mortes a mais por 100.000, fazendo com que a taxa média de mortalidade salte de 201 por 100.000 para 210. Se a porcentagem de moradias lotadas também aumentar em um terço, a taxa de mortalidade também aumentou cerca de nove por 100.000. Ter nascido na América Latina, uma categoria que inclui muitos trabalhadores sem documentos, foi associado a duas vezes o risco de morrer de COVID-19 do que o enfrentado por afro-americanos e aqueles que viviam em casas lotadas. Provavelmente, é muito mais difícil para os trabalhadores sem documentos, mesmo os essenciais, obter acesso a assistência médica e financeira. Ser velho, é claro, é um grande fator de risco, não importa sua etnia, local de origem ou renda.

Mas a renda por si só, um indicador-chave de classe, foi a característica mais influente. Bairros de baixa renda registraram um acréscimo de quase 28 mortes por 100.000, aumentando a taxa média de mortalidade em mais de 10 por cento, de 201 mortes por 100.000 para 229. 9

A taxa de mortalidade nos setores censitários com renda média anual abaixo de $ 25.000 foi de 221,8 por 100.000 habitantes, enquanto para os setores censitários com renda média anual acima de $ 240.000 a taxa de mortalidade foi de 85,7 por 100.000. Você tinha duas vezes e meia mais probabilidade de morrer de COVID-19 se morasse em um bairro pobre do que se morasse em um rico. E “apenas a renda” foi “a característica mais influente ” 10

Portanto, em quarto lugar, o uso da raça como proxy de classe não apenas produz um mal-entendido do problema (racismo), mas também produz um mal-entendido da solução (anti-racismo). O entendimento correto do problema é que não são os trabalhadores negros e pardos que estão em risco, mas os trabalhadores de baixa renda, especialmente aqueles que têm de trabalhar durante a pandemia. E isso seria verdade mesmo se todos os trabalhadores de baixa renda fossem de fato pretos e pardos. Por quê? Porque mesmo que seja o racismo que faz com que tantos trabalhadores mal pagos sejam pretos e pardos, não é o racismo que os faz ser tão mal pagos. Krogers, Amazon e McDonalds não pagam tão pouco a seus funcionários porque muitos deles são pessoas de cor. Eles pagam tão pouco porque é assim que eles lucram. Se você tornou os trabalhadores proporcionalmente brancos e asiáticos,

Novamente, isso não significa negar os efeitos do racismo e não negar a disparidade racial. O racismo ajuda a explicar por que tantos trabalhadores de baixa renda são negros e pardos. Mas isso não explica seus baixos salários. E todo o anti-racismo do mundo não daria a menor contribuição para o aumento desses salários. Portanto, mesmo se usar raça como um substituto para a classe fosse preciso no sentido de que nomeava exatamente o mesmo conjunto de pessoas, seria profundamente enganoso. A raça não pode ser um substituto da classe porque a raça indica que o problema é a discriminação contra os trabalhadores, enquanto a classe diz que o problema é obter o máximo valor de seu trabalho. Ou vire ao contrário: a analítica de classe diz que o problema é como tratamos os trabalhadores da linha de frente; a analítica da raça diz que o problema é que muitos negros e pardos precisam ser trabalhadores da linha de frente. É por isso que as empresas mais impiedosas com fins lucrativos podem aprender a amar as demandas mais radicais de eliminação das disparidades entre preto e branco. Para tornar Jeff Bezos e seus acionistas tão ricos quanto eles, a Amazon precisa pagar menos a seus trabalhadores. Não precisa se importar nem um pouco com a cor que eles são.

O que salva muitas pessoas do COVID-19 não é o fato de serem brancas ou asiáticas, mas o fato de serem ricas. E isso é ainda mais vividamente verdadeiro no caso da terceira pessoa da trindade disparitária, as mortes por policiais. Pode ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico ser assassinado pela polícia; mas, como acontece com as mortes de COVID, essas mortes são categorizadas apenas por raça, sexo e idade, então não podemos ter certeza. Em qualquer caso, ninguém pensaria em protestar que os pobres são desproporcionalmente mortos pela polícia, já que controlar os pobres é basicamente o que é policiamento. O problema é a matança desproporcional de negros pobres.

Parte disso pode ser explicado pelo fato de que, como já observamos, os homens negros estão sobrerrepresentados entre os pobres. De fato, se imaginássemos que as vítimas em tiroteios policiais vieram dos três intervalos inferiores no gráfico abaixo, poderíamos concluir que, pelo menos em parte, ser desproporcionalmente morto pela polícia rastreia pobreza desproporcional. O significado da classe social aqui seria apenas uma parte do que os pesquisadores mostraram ser sua (crescente) importância no que diz respeito ao sistema de justiça de forma mais geral, onde, como disse Adaner Usmani, o encarceramento não foi “definido pelo aumento das desigualdades raciais”, mas pelo aumento das disparidades de classe e onde, de fato, enquanto as taxas de encarceramento aumentaram “drasticamente” para os negros americanos pobres; na verdade, diminuíram para “afro-americanos com educação superior”. 11 Uma versão dessa mesma dinâmica de fato ocorreu na área da saúde onde, como Frederick J. Zimmerman e Nathaniel W. Anderson dizem, entre 1993 e 2107, a “diferença entre brancos e negros apresentou melhora significativa”, mas “as disparidades de renda pioraram. ” 12

reed 1

https://statisticalatlas.com/United-States/Household-Income

Ainda assim, o racismo certamente desempenha um papel significativo. Para 2019, o Mapping Police Violence registra 30 homicídios policiais de negros desarmados e 53 homicídios de brancos desarmados. (Aqui!) e, se não fosse pelo racismo, parte dessa desproporcionalidade desapareceria. Seria, por exemplo, significativamente reduzido se a polícia matasse apenas um negro a menos e mais um branco por mês. Mas alguém acredita que isso contaria como uma solução, que apenas as mortes que podemos culpar ao racismo que importam? Todo mundo sabe o nome de George Floyd; nenhum de nós sabe o nome de qualquer um dos brancos desarmados mortos pela polícia este ano. Ninguém deve – e nós não devemos – negar que a desproporção é um efeito significativo do racismo. Mas ninguém deveria – e nós não pensamos – que o problema da violência policial é causado pelo racismo ou pode ser resolvido pelo anti-racismo.

Em outras palavras, toda vez que a disparidade racial é invocada como a lente através da qual ver a desigualdade americana, o papel avassalador desempenhado pelo aumento da desigualdade no sistema de classes americano se torna invisível. E isso é, claro, verdadeiro tanto para a direita quanto para a esquerda – pense em todos os comentaristas conservadores que defendem a polícia invocando o espectro do assassinato de negros contra negros. E então pense no amplo consenso entre os criminologistas de que o coeficiente de Gini “prevê taxas de homicídio melhor do que qualquer outra variável”. Os conservadores que tentam culpar a raça pelo crime negro e os liberais que tentam culpar o racismo estão ambos perdendo o ponto. Se você quiser distinguir entre a esquerda e a direita, a questão relevante não é o que eles pensam sobre raça; é o que eles pensam quando a raça é retirada da equação.

Desse ponto de vista, o que vemos hoje não é como a crise do COVID-19 ajudou a revelar as desigualdades estruturais da vida americana, mas como intensificou o processo de ocultá-las. Pense em como o gráfico acima funciona para nos ensinar a ver e ficar chocados com o número desproporcional de brancos e asiáticos na parte superior e negros e latinos na parte inferior, em vez da diferença entre a parte superior e a inferior – para nos chocar com disparidade em vez de desigualdade.

E nenhuma resposta hoje é menos convincente do que, por que não podemos ficar chocados com ambos? Por um lado, não somos. Embora (e é aqui que o gráfico faz um pequeno trabalho contra-hegemônico) as famílias brancas pobres são a maioria, a diferença entre ricos e pobres só ganha força hoje se puder ser redescrita como a diferença entre brancos e negros. Não há manchetes alardeando a descoberta de que os pobres têm pior assistência médica do que os ricos, muito menos anunciando que são mortos com mais frequência pela polícia. Você também pode anunciar que os pobres têm menos dinheiro do que os ricos. Na verdade, o compromisso de abordar as disparidades tornou-se tão central que, mesmo quando está claro que abordar os problemas dos pobres, em vez dos negros, seria mais eficaz na solução dos problemas dos negros,

Em outras palavras, centralizar os negros se tornou uma forma de ignorar os pobres – até mesmo os negros pobres! Afinal, cada passo na direção da redistribuição universal avança, ainda que minimamente, a igualdade entre ricos e pobres e trabalha para corrigir as disparidades raciais. Nenhum passo na direção de reduzir as disparidades promove a igualdade entre ricos e pobres e, sem redistribuição universal, mesmo as medidas que tomamos para reduzir as disparidades são minimamente eficazes. O que significa, então, fazer da disparidade o foco de nossa agenda política?

O que estamos tentando fazer aqui é mostrar que ver a desigualdade como disparidade é vê-la através de uma lente neoliberal. (Vale a pena lembrar, neste contexto, que Margaret Thatcher, quando questionada sobre o que ela considerava sua maior conquista, respondeu “Tony Blair e o Novo Trabalhismo. Forçamos nossos oponentes a mudar de ideia.”) É claro que muitas pessoas comprometidas com o BlackLivesMatter podem se entender como comprometidas também com medidas sociais que vão além de corrigir o problema de desproporcionalidade. Mas, se forem, esse compromisso não decorre de maneira alguma da identificação da disparidade como a métrica mais importante da desigualdade. E, como argumentamos, esse compromisso, não importa o quão seriamente sentido, não é corroborado pela substância da prática política anti-racista. Para o registro, isso significa que aqueles que afirmam uma postura “tanto / quanto-ista” – desde os entusiastas jovens mais auto-satisfeitos e moralizantes aos mais decrépitos trogloditas mergulhados em suas nostálgicas fantasias trotskistas – denunciem os defensores da análise político-econômica e a política da classe trabalhadora como “reducionista de classe” está tentando iludir a si mesma ou o resto de nós, ou ambos,

Finalmente, embora alguns anti-racistas – e certamente muitos liberais – expressem indiferença ou desprezo pelos brancos pobres e da classe trabalhadora, é praticamente impossível, como gerações de proponentes negros da social-democracia compreenderam claramente, imaginar uma estratégia séria para ganhar os tipos de reformas que realmente melhorassem as condições dos trabalhadores negros e pardos, sem ganhá-las para todos os trabalhadores e sem fazê-lo por meio de uma luta ancorada na ampla solidariedade da classe trabalhadora.

E se fosse possível, estaria errado. Uma sociedade onde igualar negros e brancos significa torná-los igualmente subordinados a uma classe dominante (principalmente branca, mas, realmente, o que isso importa?) Não é uma sociedade mais justa, apenas uma sociedade diferente. Esse é o problema da disparidade.

NOTAS

1. Robert Manduca, “Income Inequality and the Persistence of Racial Economic Disparities”, Sociological Science 5 (março de 2018): 182-205. https://sociologicalscience.com/download/vol-5/march/SocSci_v5_182to205.pdf 

2. Preston H. Smith II, Racial Democracy and the Black Metropolis: Housing Policy in Postwar Chicago (Minneapolis, MN: University of Minnesota Press, 2012) e “The Quest for Racial Democracy: Black Civic Ideology and Housing Interests in Postwar Chicago, ” Journal of Urban History 26 (janeiro de 2000): 131-157. 

3. Paul Krugman, “Hillary and the Horizontals,” New York Times (10 de junho de 2016): no https://www.nytimes.com/2016/06/10/opinion/hillary-and-the-horizontals.html . 

4. As mulheres negras são 26,1 por cento dos auxiliares de cuidados pessoais, auxiliares de saúde domiciliar e auxiliares de enfermagem e, entre aqueles que trabalham em tempo integral, durante todo o ano nesses empregos, https://nwlc-ciw49tixgw5lbab.stackpathdns.com/wp-content/uploads /2020/07/Black-Womens-Equal-Pay-Day-Factsheet-7.27.20-v3.pdf 

5. Na verdade, What Was African American Literature (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2012) deKen Warrenargumenta que as ambições burguesas individuais (ganhar muito dinheiro, ter um emprego de prestígio, etc.) são normalmente transformadas em esforços para alcançar justiça social apenas por realocá-los em pessoas negras. O desejo do branco de ser rico passa a ser o desejo do negro de ser igual. E embora Warren esteja falando principalmente sobre romances, obviamente não é uma ficção. Enquanto escrevemos isto, a Bloomberg News está relatando preocupações de que “Embora cerca de 10% dos diretores nas 200 maiores empresas do S&P 500 sejam negros … a porcentagem de executivos negros ingressando em conselhos em 2020 caiu para 11% de 13% no ano anterior.”https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-08-19/companies-seek-more-black-directors-after-adding-women Black Corporate Directors Matter! É claro que a representação proporcional de mulheres e negros nos conselhos de administração é mais uma questão liberal do que de esquerda. Mas, também é claro, sempre que você enquadra a desigualdade em termos de disparidade, você se compromete com a lógica do liberalismo. 

6. Touré F Reed, Toward Freedom: The Case Against Race Reductionism (Nova York: Verso, 2020) , 166-67. 

7 Em primeiro lugar, as pessoas são mais ou menos vulneráveis ​​como indivíduos, não como membros de grupos. Na verdade, existe algo como um truque de prestidigitação no trabalho de chamar categorias classificadas de grandes conjuntos de dados agregados de “grupos”. Ser membro de um grupo no uso diário implica algum senso de coesão em torno de experiências ou preocupações compartilhadas. Grupos estatísticos são abstrações numéricas que os pesquisadores extraem desses conjuntos de dados agregados com base em características compartilhadas que os pesquisadores consideram elementos importantes do que estão tentando estudar. Portanto, esses “grupos” são pessoas categorizadas com base em características compartilhadas que são pertinentes aos pesquisadores. Esses agrupamentos podem ser maiores ou menores, dependendo dos interesses dos pesquisadores. Eles podem ser “aninhados” de forma que algumas categorias menores caibam dentro ou abaixo de categorias maiores.

No que diz respeito à pesquisa em saúde pública e à noção de populações em risco, a abordagem é classificar dados agregados, talvez de toda a população, para determinar quais características tornam, ou parecem tornar, os indivíduos mais suscetíveis a resultados indesejáveis. No caso do COVID-19, uma vez que todos os expostos parecem estar em risco semelhante de contrair o vírus, as questões críticas são quais características tornam alguns indivíduos mais propensos a serem expostos e quais características fazem aqueles que contraem a doença mais propensos a sofrer complicações graves ou morte. Os pesquisadores e funcionários da saúde pública classificam as pessoas com essas características como populações de risco, o que significa que, como indivíduos, são mais propensas do que a população em geral a sofrer complicações graves, incluindo morte,

8. Já observamos a história de danos médicos e políticos gerados pelo tratamento da raça como uma categoria biológica legítima. Esse mal pode derivar de intenções aparentemente benignas, não menos do que de intenções ignóbeis ou más. Jonathan Kahn, em Race in a Bottle: The Story of BiDil and Racialized Medicine in a Post-Genomic Age (Nova York: Columbia University Press, 2014) , examina a aliança entre a Big Pharma, a Association of Black Cardiologists e o Federal Drug Administração no início dos anos 2000 que levou à primeira patente na história para um medicamento supostamente específico para uma raça, um anticoagulante que não se mostrou eficaz para uso geral, mas foi aprovado, após testes duvidosos, como eficaz para homens afro-americanos. Claro, não foi.

A confusão sobre o que raça é e o que não é, combinada com a predominância do quadro de disparidades, já levou a um foco equivocado nos apelos por diversidade racial na seleção de indivíduos para ensaios clínicos que testam possíveis vacinas COVID-19. A escritora científica do Washington Post Carolyn Y. Johnson mostra o problema claramente que 

“A busca científica sem precedentes para acabar com a pandemia com uma vacina agora enfrenta um de seus testes mais cruciais, e nada menos do que o sucesso de todo o esforço está em jogo. Uma vacina deve funcionar para todos – jovens e idosos; preto, marrom e branco. Para provar que sim, muitos dos 30.000 voluntários para cada teste devem vir de diversas comunidades. É uma necessidade científica, mas também um imperativo moral, uma vez que jovens negros morrem de coronavírus com o dobro da taxa de brancos e negros, hispânicos e nativos americanos são hospitalizados com quatro a cinco vezes a taxa de brancos da mesma idade grupos. (Carolyn Y. Johnson, “A Trial for Coronavirus Vaccine Researchers: Making Sure Black and Hispanic Communities are included in Studies”, Washington Post [26 de julho de 2020]: np)

Não temos nada contra a alegação de que os pesquisadores devem selecionar participantes de ensaios clínicos de uma população diversa. No entanto, a afirmação de Johnson presume que a classificação racial pode ser mapeada em diferenças biologicamente significativas. Mais uma vez, não pode, porque a raça é um artifício ideológico imposto arbitrariamente a uma espécie humana que certamente varia biologicamente, embora não apenas não muito em comparação com outras espécies de primatas, mas de maneiras que nada têm a ver com a taxonomia racial abstrata . Em relação à prática médica em particular, Darshali Vyas e co-autores publicaram recentemente um artigo no New England Journal of Medicine soando o alarme sobre as maneiras como a “correção racial” injustificada em algoritmos clínicos pode reforçar as desigualdades existentes. Eles notam que:

apesar das evidências crescentes de que a raça não é um substituto confiável para a diferença genética, a crença de que é tornou-se incrustada, às vezes insidiosamente, na prática médica. Uma inserção sutil da raça na medicina envolve algoritmos de diagnóstico e diretrizes de prática que ajustam ou “corrigem” seus resultados com base na raça de etnia do paciente. Os médicos usam esses algoritmos para individualizar a avaliação de risco e orientar as decisões clínicas. Ao incorporar a raça aos dados e decisões básicos de saúde, esses algoritmos propagam a medicina baseada em raça. Muitos desses algoritmos ajustados por raça orientam as decisões de maneiras que direcionam mais atenção e recursos para pacientes brancos do que para membros de minorias raciais e étnicas. (Darshali A. Vyas, Leo G. Eisenstein e David S. Jones,New England Journal of Medicine 383, no. 9 [27 de agosto de 2020]: 874-82; esta citação é de 874.)

Vyas et al. relatam que muitas vezes “os desenvolvedores de algoritmos não oferecem nenhuma explicação de por que podem existir diferenças raciais ou étnicas. Outros oferecem fundamentos lógicos, mas quando estes são rastreados até suas origens, eles levam a uma ciência racial desatualizada e suspeita ou a dados tendenciosos ”. Além disso, eles observam que “as diferenças raciais encontradas em grandes conjuntos de dados provavelmente refletem os efeitos do racismo – ou seja, a experiência de ser negro na América, em vez de ser negro em si – como o estresse tóxico e suas consequências fisiológicas. Nesses casos, o ajuste racial não faria nada para resolver a causa da disparidade. Em vez disso, se os ajustes impedirem os médicos de oferecer serviços clínicos a certos pacientes, eles correm o risco de incutir injustiça no sistema ”(879).

Em tais casos, raça dificilmente tem a intenção de ser um substituto da classe. Em vez disso, ele faz o trabalho que a raça sempre fez como um artifício que torna a classe invisível e lê a desigualdade na natureza. E, sem surpresa, as considerações de mercado também figuram nas correções de corrida, na medida em que a eficácia de custo é um elemento no cálculo dos algoritmos. Vyas et al. também relatar uma ferramenta clínica amplamente usada levou em consideração os custos de cuidados de saúde anteriores ao prever o risco clínico. Como o sistema de saúde gastou mais dinheiro, em média, com pacientes brancos do que com negros, a ferramenta retornou escores de risco mais altos para pacientes brancos do que para negros. Essas pontuações podem muito bem ter levado a mais encaminhamentos de pacientes brancos para serviços especializados, perpetuando disparidades de gastos e preconceito racial em saúde. (879)

9. Less Leopold, “COVID-19’s Class War,” The American Prospect (28 de julho de 2020): no https://prospect.org/coronavirus/covid-19-class-war-death-rates-income /.

10. Barbara Jean e Karen Fields discutem outro incidente que acerta totalmente o que está errado sobre este momento de tagarelice “pior para os negros” sobre COVID-19. Ao discutir essa história do NYT— https://www.nytimes.com/2006/10/29/nyregion/a-study-links-trucks-exhaust-to-bronx-schoolchildrens-asthma.html , eles observam:

Às vezes, a névoa da corrida rola no último minuto, como um non sequitur descarrilador para um argumento de outra forma lógico. Há alguns anos, o  New York Times relataram que cientistas que conduziram um estudo epidemiológico de asma entre crianças em idade escolar em South Bronx produziram evidências contundentes sobre a poluição do ar ambiental causada pelo tráfego de caminhões pesados. O estudo identificou as emissões de partículas, citou a localização das principais rodovias e, por meio de coleta de dados engenhosa, tirou conclusões sobre a exposição das crianças, em bairros específicos, em diferentes horas do dia, a “concentrações muito altas de partículas finas em um ambiente bastante regular base.” As correlações surgiram: “Os sintomas, como chiado no peito, dobraram nos dias em que a poluição do tráfego de caminhões era mais alta.” Pareceria tão claro quanto o meio-dia que a desigualdade de classes havia imposto a doença a essas crianças americanas. Ainda assim, o resumo do artigo cai em uma confusa pseudo-genética. Para uma lista de contribuintes para as altas taxas de asma, que inclui trânsito intenso, população densa, moradia precária e falta de acesso a cuidados médicos, o artigo acrescenta “uma grande população de negros e hispânicos, dois grupos com altas taxas de asma”. O Racecraft permitiu que a consequência sob investigação se disfarçasse entre as causas. A suscetibilidade ao ar sujo não depende da categoria censitária à qual pertence o asmático.Racecraft: The Soul of Inequality in American Life (Nova York: Verso, 2014), 40-41.

11. Os editores, “Everything You Know about Mass Encarceration Is Wrong: An Interview with Adaner Usmani”, Jacobin (17 de março de 2020): no https://www.jacobinmag.com/2020/03/mass-incarceration-racism -carceral-state-new-Jim-crow .

12. Frederick J. Zimmerman e Nathaniel W. Anderson, “Tendências em Equidade em Saúde nos Estados Unidos por Raça / Etnia, Sexo e Renda, 1993-2017,” JAMA Network Open 2, no. 6 (5 de junho de 2019): no https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6604079/ ); corrigido JAMA Network Open 2, no. 7 (24 de julho de 2019).

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sobre os autores

Adolph Reed, Jr. é professor emérito de ciência política na Universidade da Pensilvânia e organizador da iniciativa Medicare for All-South Carolina do Debs-Jones-Douglass Institute. No momento, ele está concluindo um livro, Quando os compromissos vêm para casa, para o poleiro: o declínio e a transformação da esquerda norte-americana pela Verso e, com Kenneth W. Warren, “Você não pode chegar lá a partir daqui: estudos negros, política cultural e a evasão de Desigualdade” pela Routledge. Seus outros livros incluem The Jesse Jackson Phenomenon: The Crisis of Purpose in Afro-American Politics ; WEB Du Bois e American Political Thought: Fabianism and the Color Line ; Agitações no jarro: política negra na era pós-segregaçãoNotas de aula: Posando como política e outros pensamentos sobre a cena americana ; e co-autor com Kenneth W. Warren et al., Renewing Black Intellectual History: The Ideological and Material Foundations of African American Thought .

Walter Benn Michaels é professor de inglês na University of Illinois at Chicago (UIC), e seu livro mais recente é The Beauty of a Social Problem (Chicago, 2016). Outros de seus livros incluem The Gold Standard e a Logic of Naturalism: American Literature at the Turn of the Century ; Nossa América: Nativismo, Modernismo e Pluralismo ; A forma do significante: 1967 até o fim da história ; e O problema com a diversidade: como aprendemos a amar a identidade e a ignorar a desigualdade .

fecho

Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo “Nonsite” [Aqui!  ].