O Pantanal em chamas

Mudanças climáticas e agronegócio brasileiro ameaçam maior área alagada do mundo

pantanalNo final de agosto de 2020, a fumaça de um incêndio florestal sobe perto do rio Cuiabá, perto do Pantanal no Brasil.  Foto: Reuters / Amanda Perobelli

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

Este ano, o incêndio está mais forte do que nunca no Pantanal, no oeste do Brasil. O mar de chamas já devorou ​​vários milhares de quilômetros quadrados da maior zona úmida do mundo. A brigada de incêndio e as forças armadas têm lutado até agora contra o incêndio em vão. A área com status de patrimônio natural mundial da Unesco, que realmente requer proteção especial, enfrenta a pior tragédia ambiental de sua história.

De 1º de janeiro a 31 de agosto deste ano, o instituto de pesquisas espaciais INPE, responsável pelo monitoramento ambiental por satélite no Brasil, contabilizou 10.316 focos de incêndio no Pantanal, mais de três vezes mais do que no mesmo período do ano anterior. Desde o início da vigilância por satélite, em 1998, o INPE nunca registrou tantos incêndios nessa região nos primeiros oito meses do ano. No final de abril, as chamas devoraram uma área de 3.686 quilômetros quadrados, que é mais de quatro vezes o tamanho de Berlim.

Os especialistas presumem que, como em anos anteriores, a maioria dos incêndios foi deliberadamente iniciada para dar lugar a pastagens de gado e plantações de soja. “Quem ateia fogo no Pantanal é uma pessoa”, diz André Luiz Siqueira, da organização local de proteção ambiental Ecoa. »Os incêndios naturais são gerados por raios, que estão sempre associados à estação das chuvas. Mas como não choveu no Pantanal, fica claro que o homem é a causa principal «, explica a bióloga.

O desmatamento e a queimada andam de mãos dadas. Só em abril passado, um tribunal do estado de Mato Grosso do Sul autorizou a empresa agrícola Majora Participações a derrubar 42,5 mil hectares no Pantanal Sul. Mas a extensão da conflagração deste ano sugere outra causa: a possível mudança climática permanente. A zona úmida, que depende das chuvas e das inundações periódicas de seus afluentes do planalto central brasileiro, está passando atualmente por uma das piores estações de seca. De acordo com o Instituto Brasileiro de Pesquisa Agropecuária Embrapa, a estação chuvosa de outubro a março, importante para a bacia do Pantanal, registrou 40% menos chuvas do que a média dos anos anteriores.

Além disso, o principal afluente, o Rio Paraguai, tem tão pouca água este ano como não há quase cinco décadas. No município de Ladário, no Mato Grosso do Sul, onde os níveis de água são medidos há 120 anos, o nível de água em junho era de apenas 2,1 metros – 3,5 metros abaixo da média de longo prazo e o menor valor medido em 47 anos. Um estudo da Universidade Estadual de Mato Grosso também mostra que o volume de água do Rio Paraguai está diminuindo a cada ano. Para o diretor de pesquisas Ernandes Oliveira Júnior, isso é claramente uma consequência das mudanças climáticas. Marcos Rosa, geógrafo da rede de pesquisa MapBiomas, teme que “esta seja uma nova normalidade em decorrência das mudanças climáticas provocadas pelo homem, que estão mudando o ciclo das chuvas,

Já em 2015, seu colega Aguinaldo Silva, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul em Corumbá, alertava sobre as consequências potencialmente catastróficas das mudanças climáticas para o Pantanal. Sua equipe internacional de pesquisadores tem estudado mudanças ambientais na importante zona úmida desde 2000. “Podemos dizer com alguma certeza que o clima global está mudando e as temperaturas estão ficando mais quentes”, disse Silva. »Isso pode ter consequências dramáticas para o ciclo da água do Pantanal e alterar as enchentes anuais do Rio Paraguai. Podem ocorrer longos períodos de seca que têm um impacto negativo na flora e na fauna. ”

Para ele, porém, a maior ameaça ao Pantanal vem do planalto e das mudanças no balanço hídrico que ali ocorrem devido ao desmatamento do Cerrado e à disseminação das monoculturas de soja. “Os rios que deságuam no Pantanal nascem no Cerrado”, explica o geógrafo Marcos Reis Rosa. O desmatamento faz com que o solo perca sua proteção, o que torna os rios mais planos e assoreados. Hidrelétricas e barragens agravaram a situação. De acordo com dados oficiais, havia 41 usinas hidrelétricas nos afluentes do Pantanal em 2017, e mais de 100 estão em planejamento.

Outra causa da escassez de água no Pantanal é a destruição da floresta amazônica. Com a aceleração do desmatamento por lá, mudaram as estações das chuvas no Brasil, explica Vinícius Silgueiro, da organização não governamental Instituto Centro de Vida. “A Amazônia dá vida a praticamente todos os ecossistemas do continente.” No entanto, o aumento do desmatamento está afetando o “transporte fluvial”. Esse é um dos motivos pelos quais o Pantanal vive atualmente sua maior tragédia ambiental em décadas.

Os pesquisadores concordam que, se as ameaças não cessarem, o Pantanal de 150 mil quilômetros quadrados, lar de onças, jacarés e centenas de outras espécies de animais, extremamente rico em espécies, está prestes a entrar em colapso – e em um futuro não muito distante.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Rafael Diniz, o exterminador do futuro de Campos, importa flautistas de Hamelin para fazer campanha nas redes sociais

exterminadorDepois de exterminar as políticas sociais e gastar bilhões de orçamento sem a prometida melhoria na gestão, Rafael Diniz faz opção de alianças pela direita e uma campanha centrada nas redes sociais

O jovem prefeito Rafael Diniz (Cidadania) manteve no dia de ontem um encontro auspicioso com o principal fiador das reformas ultraneoliberais do governo Bolsonaro, o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia (DEM) no que pareceu um prenúncio de uma aliança para as próximas eleições municipais em Campos dos Goytacazes ( ver abaixo uma foto do encontro).

rafael rodrigo

Para quem pensa que essa aliança entre Rafael e Rodrigo é despropositada, basta olhar as práticas do prefeito para ver que ele é o precursor da destruição das políticas sociais em Campos dos Goytacazes, que o deputado federal tão ferozmente tenta expandir para o resto do Brasil. Essa é uma aliança que unirá dois políticos que tem clara aversão às necessidades dos mais pobres. E, por causa disso, faz todo sentido e não surpreende.

À primeira vista, a candidatura de Rafael Diniz é aquilo que em inglês se chamaria de um “sitting duck” (um pato pousado na lagoa), pois o seu (des) governo amealhou tanto desgosto na maioria dos pobres que formam o grosso do eleitorado local, que em condições normais de temperatura e pressão, o prefeito não deveria estar se dando ao trabalho de concorrer.

Mas estes não são tempos normais por causa da mistura entre um ambiente político conflagrado pela crise econômica, mas também pelos efeitos devastadores da pandemia da COVID-19. Com isso, se tem uma diminuição da circulação das pessoas e do contato direto entre candidato e eleitor.

Entretanto, o que é defeito para a maioria dos candidatos, para Rafael Diniz é vantagem. É que depois de ter destroçado a maioria das políticas sociais, o jovem prefeito não teria mesmo como visitar pessoalmente a maioria das localidades do município que, aliás, o seu governo deixou em estado de completo abandono. Assim, também faz sentido a informação recebida pelo blog dando conta que Rafael Diniz irá tentar vencer as eleições via as redes sociais, tal como já o fez em 2016. Para tanto, ele já teria importado uma equipe de profissionais de mídia que irão começar a tentar a dourar a pílula amarga que seria mais quatro anos de um governo completamente e inteiramente anti-pobre.

Flautista-de-HamelinCom seus flautistas de Hamelin importados, Rafael Diniz tentará usar as redes sociais para vencer uma eleição na qual as ruas não lhe querem

O problema para Rafael Diniz e seus “flautistas de Hamelin” é que o raio até caiu 2 vezes no mesmo lugar, mas com dificuldades. A primeira delas é que Rafael Diniz fez um péssimo governo, daquele tipo que só destruiu e nada construiu. Até a bandeira da melhoria da gestão foi para as calendas, pois ele não só manteve a política de encher a prefeitura de Campos com apadrinhados de políticos em cargos comissionados, como gastou mal fortunas inteiras, especialmente nas áreas de saúde e educação. Com isso, cria-se uma dificuldade para ilusionismo digital, pois há que se convencer as pessoas que elas não viveram o inferno de uma administração que olhou mais para a “rua das Pedras” em Búzios do que para a avenida Zuza Mota às margens da Lagoa do Vigário de cujas proximidades o avô de Rafael, o ex-prefeito Zezé Barbosa, por tanto tempo reinou sobre a política de Campos dos Goytacazes.

A minha impressão é que diferente de eleições realizadas recentemente, o próximo ciclo eleitoral voltará a depender da capacidade dos candidatos de “vender o peixe” diretamente aos eleitores. Uma razão para isso, como observou um experiente observador do uso político das redes sociais, é que todos os partidos agora usam os espaços virtuais para fazer campanha. Isso não apenas congestiona as redes, mas como deixa todos os gatos parecendo que são da mesma cor. Se isso se confirmar, Rafael Diniz terá poucas chances até para chegar ao segundo turno, tamanha é a sua rejeição popular (existindo até áreas onde ele já está proibido de entrar).

Por último, há quem ache que existam chances de que tenhamos um aperto nas regras de isolamento social nas próximas semanas em função da expansão da pandemia da COVID-19. Se isso acontecer há que se ver se isso deve realmente aos índices de contágio e óbitos. Afinal, as razões para apertar o confinamento sempre estiveram postas e Rafael Diniz, ao contrário do que apontam as estatísticas, tem cada vez mais flexibilizado o funcionamento do comércio local. Daí que qualquer aperto no confinamento terá que ser muito bem explicado por um prefeito que claramente não poderá usar as ruas para fazer a sua campanha de reeleição.

No Dia da Amazônia, Salles continua passando sua boiada

Hoje, 5 de agosto, é celebrado o Dia da Amazônia. O que deveria ser um dia de celebração da preservação da maior área de florestas tropicais do planeta, acaba servindo para marcar e denunciar a situação catastrófica que reina naquela região sob o comando de Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão e Ricardo Salles.

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Falando em Salles, esse dia 05 de agosto certamente celebrado por ele como um dos dias da Amazônia em que conseguiu atravessar a sua boiada sobre o conjunto de leis que deveriam proteger os biomas amazônicos.

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Somente neste 05 de agosto ocorreram 2494 incêndios na Amazônia

Mas não há de ser nada, e a devida reação já está ocorrendo em todas as partes da Terr. E cedo ou tarde, os custos políticos e econômicos obrigarão a uma mudança radical na forma pela qual o Brasil está hoje destruindo seus biomas altamente diversos para o plantio de soja e a criação de gado.

Enquanto, celebremos toda a resistência que já ocorre dentro e fora do Brasil. É que dessa resistência virão dias da Amazônia que serão dignos de serem celebrados.

O preço da vida

E a “harmonia entre economia e ecologia”? Sobre as armadilhas da lógica capitalista

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Por Stephan Kaufmann para a Neus Deutschland

O campo dos ativistas pela proteção do clima está dividido: alguns culpam os cálculos capitalistas com despesas e receitas pela mudança climática e exigem “Mudança de sistema, não mudança climática!” Os demais, por outro lado, veem em boas mãos a proteção do clima no capitalismo. Para eles, a mudança climática não é resultado de competição por lucros e redução de custos, mas um caso de “falha de mercado”.

Para corrigir essa falha, a natureza precisa acima de tudo de uma coisa: um preço. Se os danos ao meio ambiente causarem apenas custos suficientes, sua proteção torna-se um objetivo comercial e, portanto, uma realidade. A “harmonia entre economia e ecologia” almejada pela precificação da natureza, entretanto, tem suas armadilhas. Porque quer usar a lógica capitalista e, portanto, permite sua aplicação.

As empresas de cálculo capitalista visam ao maior excesso possível sobre seus custos. A fim de reduzir custos, eles usam o meio ambiente como uma fonte barata de recursos e um depósito de poluentes: é por isso que alimentam seu crescimento com fontes de energia baratas e seguras, como petróleo e carvão, o que impulsiona a concentração de CO2 na atmosfera e, consequentemente, as mudanças climáticas. Porque as empresas não têm que pagar pelas emissões e suas consequências, ou apenas de forma limitada. É aí que entram os conceitos que colocam um preço no meio ambiente e, assim, tornam a proteção dele lucrativa, pois diminui os custos para a empresa.

O ex-vice-presidente do Banco Mundial Nicholas Stern ancorou firmemente o argumento do custo no debate de 2007. Segundo seu “Relatório Stern”, as mudanças climáticas são “a maior falha de mercado que já ocorreu”. O dano econômico aumentaria com a velocidade do aquecimento global: se a temperatura média global subisse de 2 a 3 graus Celsius, até 3 por cento da produção global poderia ser perdida para sempre. Com um aquecimento de 5 a 6 graus Celsius, a perda chega a atingir uma média de 10%.

Em contraste, os custos anuais da proteção climática necessária seriam significativamente menores. Stern estimou em cerca de 1% do PIB em 2050. “Isso é significativo, mas está completamente alinhado com o crescimento contínuo, em oposição à mudança climática desenfreada, que em algum momento ameaçará seriamente o crescimento.”

Pavan Sukhdev, ex-banqueiro de investimentos do Deutsche Bank, adotou uma abordagem semelhante em 2008. Em nome da Comissão Europeia e do Ministério Federal do Meio Ambiente, ele teve os custos econômicos da extinção de espécies calculados. Além disso, recifes de corais, fungos e bactérias deveriam ter um preço. Os economistas calcularam esse preço extrapolando os lucros potenciais do uso da biodiversidade. Afinal, a biodiversidade não só estabiliza os ecossistemas, mas também é uma fonte inesgotável de novas substâncias medicinais, e garante o abastecimento de alimentos, água e qualidade do solo. O valor de mercado global dos produtos farmacêuticos baseados em recursos genéticos está entre 75 e 150 bilhões de dólares por ano. Dessa forma, os economistas criaram uma forma de “biocapital” a partir da natureza.

Sukhdev e seus colegas resumiram os benefícios econômicos desse capital como “serviços” da natureza, cujo valor estimaram em cerca de US$ 5 trilhões por ano apenas nas reservas naturais do continente. Esses valores econômicos seriam gradualmente destruídos pela degradação ambiental, o que reduziria o crescimento econômico.

Claro, a questão que permanece é se as previsões de Stern e Sukhdev serão corretas – afinal, é difícil para os economistas prever o crescimento econômico no trimestre atual. É ainda mais difícil fazer um prognóstico ao longo de décadas em condições de desastre. Além disso, no entanto, a abordagem econômica já é importante. Nele, por um lado, a destruição da natureza não é mais o resultado lógico da produção e do cálculo capitalista, mas ineficiente em termos de economia de mercado. Na realidade presume-se que o capitalismo e a proteção climática realmente formam um todo harmonioso e são mutuamente dependentes.

Por outro lado, a consideração econômica do meio ambiente significa que a natureza e os humanos só valem a pena ser protegidos porque seus danos causam custos que deprimem o crescimento econômico. O Comissário da UE Stavros Dimas, um dos iniciadores do estudo Sukhdev, chamou a preservação da biodiversidade de “um dever ético e moral”. No entanto, ele não se baseou na ética e na moral, mas enfatizou a utilidade capitalista da natureza como um poderoso argumento para a proteção ambiental.

No entanto, essa abordagem é problemática. Porque a partir dele se seguem três condições, quando e em que medida as espécies e o clima são protegidos.

Em primeiro lugar, do ponto de vista capitalista, proteger o meio ambiente só é racional se seus custos forem menores do que os da destruição ambiental. Onde a proteção do clima e das espécies é muito cara, ela não é feita, apesar de toda moral e ética. Em segundo lugar, apenas as partes da natureza são protegidas que podem ser usadas economicamente e cujos danos, portanto, geram custos. Quais custos são aceitáveis ​​para a proteção do clima, portanto, dependem do valor capitalista das pessoas, espécies e ecossistemas ameaçados pelas mudanças climáticas. E existem grandes diferenças. Sabemos disso pelos danos causados ​​pelas tempestades: tempestades severas em países pobres causam custos mais baixos do que pequenas tempestades em países ricos, portanto, são menos problemáticas economicamente, embora ceifem mais vidas humanas.

Em terceiro lugar, porém, a vida boa e saudável não começa para todas aquelas pessoas e espécies que são reconhecidas como economicamente dignas de proteção. Porque eles são valorizados e protegidos apenas como partes utilizáveis ​​da natureza viva. O objetivo da proteção do clima, do ponto de vista do custo, é simplesmente garantir a existência das pessoas e do meio ambiente como recurso para o crescimento. Mais não é possível.
Para argumentar com os custos econômicos da conservação da natureza, o próprio Sukhdev chamou de “humilhação da humanidade” porque se trata apenas de lucros e perdas. No entanto, “a única maneira de preservar a natureza” é colocar uma etiqueta de preço nela. Também para Jianguo Liu, da Michigan State University, “avaliar a contribuição da natureza é o passo decisivo” no cálculo de “tornar acessível a preservação de florestas, savanas e pântanos”. Liu está atualmente calculando um produto bruto do ecossistema como um suplemento ao produto nacional bruto.

Os danos ao meio ambiente diminuem quanto mais caro fica – esse cálculo é simples em si mesmo. Proteção ambiental drástica significaria preços muito altos. Mas mesmo aqui você pode ver que as coisas não são tão simples. Veja o imposto sobre o CO2, por exemplo: para conseguir a redução rápida necessária nas emissões de gases de efeito estufa, o preço do CO2 teria que ser “extremamente alto”, diz Patrick Artus do banco francês Natixis. Mas isso prejudicaria as empresas e o crescimento econômico – e, portanto, não está acontecendo. O mesmo se aplica à simples proibição, por exemplo, da emissão de gases de efeito estufa. “A desvantagem da lei regulatória geralmente são os altos custos econômicos”, explica Eric Heymann, do Deutsche Bank.

Por um lado, a destruição da natureza deve ter um preço para que aconteça custos e não ocorra. Por outro lado, esses custos não devem subir muito, razão pela qual são mantidos baixos. Resultado: a extinção de espécies e as mudanças climáticas estão avançando. A contradição entre o crescimento capitalista e a conservação da natureza, portanto, não se resolve dando um preço à natureza. Os políticos estão atualmente impondo “tecnologia” para resolver essa contradição. O “desafio” é que “são necessárias melhores soluções tecnológicas para evitar altos custos econômicos”, diz Heymann.

O preço do ambiente deve, portanto, operar um milagre: por um lado, deve ser suficientemente baixo para não destruir os cálculos dos lucros ou – se for introduzido apenas a nível nacional – dar às empresas em causa uma desvantagem competitiva em relação à concorrência. Por outro lado, deve ser alto o suficiente para tornar os danos ambientais mais caros e, assim, promover o desenvolvimento e a aplicação de tecnologia amiga do clima. Essa tecnologia, por sua vez, deveria ser cara o suficiente para trazer lucro a seus desenvolvedores e, ao mesmo tempo, tão barata para seus usuários que seu uso custasse menos que o custo da poluição ambiental – no caso da proteção do clima, menos que o custo das emissões de gases de efeito estufa. E, finalmente, a tecnologia também deve ser eficiente

É incerto e até improvável que isso funcione. Até porque os preços da natureza deveriam tornar lucrativo o desenvolvimento de uma tecnologia de ar condicionado que ainda não existe. Enquanto não existir, a proteção do clima permanece subordinada ao crescimento econômico. Se o Conselho Consultivo Alemão está exigindo atualmente: “Os enormes recursos que são usados ​​para a recuperação econômica devem ser consistentemente alinhados com os objetivos de proteção ambiental”, então a prioridade é a “recuperação econômica” – e esta então deveria ser “verde”, quanto mais possível fosse”.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pela Neues Deutschland [Aqui!].

Governo Bolsonaro comete equívoco estratégico ao precarizar o INPE

ministro-astronautaO ex-astronauta e vendedor de travesseiros Marcos Pontes é um dos artífices dos ataques perpetrados pelo governo Bolsonaro ao Inpe

A inconformidade do alto escalão do governo Bolsonaro com a ciência produzida pelos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ficou evidente com a demissão do seu então diretor, o físico Ricardo Galvão em agosto de 2019.

De lá para cá, uma série de movimentos indicam que a opção preferencial do presidente Jair Bolsonaro, secundado pelo ministro “lost in space“, o ex-astronauta e atual vendedor de travesseiros, o oficial da reserva Marcos Pontes, é de asfixiar financeiramente o Inpe, na provável e vã esperança de que não haverá mais monitoramento de qualidade na mudança da cobertura vegetal da Amazônia brasileira.

A coisa é tão explícita que a Agência Espacial Brasileira decidiu cortar para zero o orçamento de pesquisa, desenvolvimento e capital humano do Inpe  para 2021.  Com isso, não haverá para que os pesquisadores do instituto possam aprimorar suas capacidades para responder aos crescentes desafios científicos que estão emergindo por causa do avanço da franja de desmatamento e degradação dos ecossistemas amazônicos.

Outra colossal e onerosa besteira que bem exemplifica a disposição de sabotar o Inpe foi o gasto de R$ 145 milhões pelo Ministério da Defesa para a aquisição de microssatélites para fazer um serviço que já é feito com mais qualidade e precisão em São José dos Campos. 

O pior é que brevemente ficará dolorosamente evidente que o governo brasileiro precisará cada vez mais da expertise e da respeitabilidade internacional que o Inpe e seus pesquisadores possuem, até para se defender de novas descobertas que virão a público sobre o grau de destruição dos ecossistemas amazônicos.

A verdade é que o governo Bolsonaro, ao sabotar abertamente a capacidade funcional do Inpe, está dando um tiro (de bazuca) no próprio pé. É que em todos os anos em que foi permitido que desenvolvesse suas pesquisas sem graves intromissões ideológicas, os pesquisadores do Inpe atuaram não apenas como um instituto de excelência científica, mas com um órgão de Estado. 

E há que se notar que, por mais que se queira impedir o avanço da ciência, as rodas que movem o avanço do conhecimento científico sempre são mais fortes do que os desejos dos governantes de plantão. Em outras palavras, não há como brecar o avanço da ciência, e quando muito pode-se torná-lo mais lento.

Finalmente, há que ficar claro que a defesa do Inpe sintetiza hoje a defesa da ciência nacional e as possibilidades de que o Brasil possa ter um destino que não seja apenas ser terra arrasada pela dependência na venda de commodities agrícolas e minerais.

O fabuloso custo da depauperada saúde pública municipal em Campos dos Goytacazes

saúde camposHá quem ache que o atual prefeito, o jovem Rafael Diniz, nem devesse se dar ao trabalho de concorrer à reeleição, tamanho é seu desgaste junto à maioria da população que lhe deu em esmagadora maioria a chance de administrar a cidade de Campos dos Goytacazes.

De minha parte, eu já acho exatamente o contrário. É que se Rafael Diniz fugisse da eleição, a população e seus concorrentes não teriam a oportunidade de inquiri-lo acerca de certas peculiaridades estranhíssimas que cerca a sua gestão, especialmente na área de compras e licitações.

Vejamos, por exemplo, o exemplo dos serviços públicos de saúde que conseguiram o feito de piorar significativamente com a prefeitura de Campos dos Goytacazes sob o comando de Rafael e seus menudos neoliberais. Uma coisa que causa espanto porque os custos com a rede pública municipal de saúde continuam muito altos, enquanto servidores concursados e RPAs amargam condições muito ruins de trabalho, sem que para muitos o salário devido seja pago.

Abaixo posto um vídeo produzido pelo gabinete do vereador Álvaro Oliveira onde fica demonstrado que todas as privações sofridas pelos servidores e pela população não se deve, curiosamente, à falta de recursos, mas a uma opção gerencial de como usar os milhões que são colocados na secretaria municipal de saúde.

Goste-se ou não do vereador Álvaro Oliveira, as informações que ele oferece sobre os gastos da saúde em Campos dos Goytacazes são estarrecedoras, especialmente no que se refere aos decretos de suplementação por “excesso de arrecadação”.  Esse tipo de decreto é estranho, na medida em que passamos os últimos 3 anos e 8 meses ouvindo Rafael Diniz e seus menudos neoliberais falando em uma crise financeira que os impediria de bem governar a cidade de Campos.

E mais, 43 milhões em compras de material de consumo para as unidades municipais de saúde? Quem vai a qualquer uma dessas unidades dificilmente nota tal bonança em termos de dispêndio, e a informação que circula é que falta até “cibalena”.

Um detalhe em relação ao passado quando se tinha a atuação de um certo “Observatório Social de Campos dos Goytacazes” que acompanhava com olhos caninos (com devida justeza, é preciso que se diga) os gastos do governo da prefeita Rosinha Garotinho.  É que bastou Rafael Diniz assumir a cadeira de prefeito que o tal observatório tomou o doril que inexiste na rede pública de saúde e sumiu. Aliás, se eu bem lembro, alguns daqueles que acusavam Rosinha Garotinho de falta de transparência acabaram por ocupar postos no governo Diniz, um prefeito ainda menos transparente do que a prefeita que sucedeu.

Qual é o moral da história? Somente uma população organizada pode realmente fiscalizar governos, pois observatórios vão e vem, ao saber das sucessões.  Afinal, o observador de hoje poderá ser o que rejeita a observação amanhã.

Novas queimadas na floresta detectadas antes do Dia da Amazônia alcançam número assustador

Números alarmantes de novas queimadas foram detectadas na Amazônia brasileira, aponta a Anistia Internacional. As autoridades públicas seguem omissas na proteção da terra e dos direitos humanos dos povos da floresta amazônica.

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Antes do Dia da Amazônia, celebrado neste 5 de setembro, cerca de 63 mil focos de incêndios foram identificados este ano, até 31 de agosto, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O Exército brasileiro está posicionado na Amazônia, desde maio, ostensivamente para combater o desmatamento e os incêndios ilegais.

A Anistia Internacional também destacou que o desmatamento aumentou em 43,5% entre agosto de 2019 e julho de 2020, comparado com o mesmo período de 2018 a 2019, destruindo um total de 9.205 km² de floresta. A destruição recente pode, na realidade, ser muito maior, depois que os dados forem corrigidos para levar em conta um erro de satélite que afetou a captura de alguns focos de incêndio desde 16 de agosto.

“Com os incêndios novamente se multiplicando rapidamente nesta estação de queimadas, está mais do que claro que as forças armadas brasileiras não possuem a experiência ou habilidade técnica necessária para barrar a ação daqueles que ateiam fogo na floresta e promovem invasões ilegais de terras protegidas”, disse Richard Pearshouse, diretor de Meio Ambiente e Crises da Anistia Internacional.

Richard continua: “O envio de forças do Exército encobre a estratégia do governo brasileiro de intencionalmente enfraquecer a capacidade operacional de seus próprios órgãos ambientais, com a finalidade de abrir a Amazônia para a exploração comercial”.

“O governo deveria devolver o controle da fiscalização ambiental e implementação das leis ambientais às autoridades civis apropriadas. A única maneira de proteger a maior floresta tropical do mundo é o governo demonstrar apoio político inequívoco à proteção ambiental civil na Amazônia, começando por restabelecer as verbas e outros recursos e apoiar as agências governamentais para que implementem a legislação ambiental”, explica ele. 

Ao todo 74% dos focos de incêndios detectados pelo INPE foram registrados depois do governo brasileiro ter proibido queimadas, em meados de julho de 2020. Os incêndios muitas vezes são iniciados intencionalmente por grileiros, indivíduos que desmatam áreas de floresta e invadem as terras para convertê-las, posteriormente, em pastagem. Essa atividade ilegal sustenta a multibilionária indústria pecuarista brasileira.

Imagens de satélite captadas nos últimos dois meses também revelaram a existência de novos incêndios nas três áreas protegidas que a Anistia Internacional visitou recentemente no Estado de Rondônia: o território indígena Uru-Eu-Wau-Wau e as reservas extrativistas do Rio Jacy-Paraná e Rio Ouro Preto.

Fazendas de gado ilegais alimentam a destruição da Amazônia

A pecuária bovina é o principal fator causador das invasões e ocupações ilegais de terras em reservas extrativistas e territórios indígenas da Amazônia brasileira, alimentando o desmatamento e pisoteando os direitos dos povos indígenas e moradores tradicionais dessas áreas.

A região amazônica é palco do maior crescimento da lucrativa indústria pecuarista no Brasil. Desde 1988, o número de gado criado na região quase quadruplicou, chegando a 86 milhões de animais em 2018, ou seja, 40% do rebanho nacional total. Parte dessa expansão vem destruindo grandes áreas de floresta protegida em territórios indígenas e reservas extrativistas.

Ao todo 63% da área desmatada entre 1988 e 2014 tornou-se pastagem de gado – uma área cinco vezes maior que a superfície de Portugal. A Anistia Internacional documentou esse processo em detalhes em um relatório publicado , em novembro de 2019.

De acordo com dados governamentais, os territórios indígenas da Amazônia brasileira perderam 497km² de floresta entre agosto de 2018 e julho de 2019 – um aumento de 91% em relação ao período correspondente de um ano antes.

Gado criado ilegalmente em áreas protegidas é encontrado na cadeia de fornecimento da JBS

Em investigação recente , a Anistia Internacional constatou que gado criado ilegalmente em áreas protegidas da Amazônia brasileira foi identificado na cadeia de fornecimento da JBS, a maior empresa de processamento de carnes.

A Anistia Internacional não encontrou evidências que indicassem envolvimento direto da JBS com violações dos direitos humanos, mas a organização está pedindo à JBS que implemente um sistema de fiscalização efetivo, incluindo de seus fornecedores indiretos, até o final de 2020, para assegurar que nenhum bovino criado ilegalmente em áreas protegidas ingresse em sua cadeia de fornecimento.

A Anistia Internacional lançou uma petição online, “Diga não ao gado criado ilegalmente na Amazônia”, que pode ser assinada aqui.

Sobre a Anistia Internacional

A Anistia Internacional é um movimento global de mais de 7 milhões de pessoas que encaram a injustiça como algo pessoal. A organização realiza campanhas para que direitos humanos internacionalmente reconhecidos sejam respeitados e protegidos no Brasil e no mundo. Criada em 1961, pelo advogado britânico Peter Benenson, teve sua sede inaugurada no Brasil em 2012.

A política comercial da União Europeia está finalmente falhando, com o acordo com o Mercosul praticamente morto

O acordo comercial do Mercosul está praticamente morto. Por um lado, isso deveria ter sido evitado. Por outro lado, é tarde demais para as florestas primárias queimadas.

mercosul euAgricultores irlandeses protestam contra o anúncio do agora praticamente morto acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul

Por Petra Pinzler para Zeit

O último por favor apague a luz! É difícil ter essa impressão quando se acompanha as notícias sobre a política comercial europeia. A Comissão Europeia quis comemorar porque negociou com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai a maior área de livre comércio do mundo, com mais de 770 milhões de habitantes, criando assim importantes mercados de vendas para a economia alemã. E agora isso.

Em primeiro lugar, ambientalistas e ativistas de direitos humanos protestaram contra o acordo comercial do Mercosul. Quando as fotos da florestas brasileiras em chamas circularam pelo mundo meses atrás, surgiram dúvidas em alguns governos se mais comércio com este país de todos os lugares seria realmente uma boa ideia. Irlanda, Áustria e França anunciaram seu veto. Há poucos dias, a chanceler Angela Merkel fez uma declaração em conversa com a ativista climática Greta Thunberg, dúvidas sobre os benefícios do acordo comercial. E nesta semana, a ministra da Agricultura alemã, Julia Klöckner, que de outra forma não é conhecida por sua coragem política excessiva, juntou-se à resistência. Então você pode ter certeza agora: o Mercosul está praticamente morto, quem ainda quiser o acordo vai ter que inventar muito.

A política comercial da Comissão Europeia está em jogo. E isso é incrível e triste ao mesmo tempo. Triste – porque há anos existem boas ideias de como tudo isso poderia ter sido evitado. E surpreendente – porque a estratégia da Comissão teve bastante êxito no passado, apesar de todas as críticas (pelo menos da perspectiva de Bruxelas).

Mais comércio é sempre bom?

Por pura teimosia e aparentemente respondendo às críticas, a Comissão tem conseguido repetidamente concluir acordos comerciais nos últimos anos – que nada mais são do que promoção comercial tradicional. E todos eles obedecem ao mantra de que mais comércio é sempre bom e que todas as exceções devem ser justificadas. Uma reflexão fundamental sobre o significado do comércio, mais consideração com o meio ambiente, o clima e as pessoas – isso ainda é estranho em Bruxelas até hoje – porque, do ponto de vista dos eurocratas do comércio, acaba suprimindo o real: que a economia está crescendo e a política comercial são novos mercados deve desenvolver.

Impulsionada por este dogma, a Comissão Europeia tem repetidamente iniciado e concluído novas negociações com sempre novas regiões do mundo nos últimos anos. Ao mesmo tempo, apresentou-se como um contra-modelo de sucesso para a América de Donald Trump – como um refúgio de justiça e continuidade. E agiu como se criasse a conciliação entre economia, ecologia e questões sociais em seus contratos. Taticamente, ela acrescentou algumas frases sobre proteção climática aos preâmbulos para os ambientalistas, algo sobre os direitos sociais dos trabalhadores para os sindicatos e algumas formulações para os ativistas de direitos humanos.

O fato de os acordos comerciais com outras regiões versarem principalmente sobre crescimento econômico e de todas as outras questões sociais, proteção do clima, proteção das espécies e proteção dos trabalhadores serem apenas questões menores – isso nunca mudou. E também houve poucas mudanças na política real; ainda não importa se mais comércio é ruim para o clima, para as pessoas ou para a proteção das espécies.

Houve avisos suficientes de que isso não pode e não deve durar para sempre. Poderia ter sido um aviso à Comissão da UE, por exemplo, que há alguns anos centenas de milhares de pessoas saíram às ruas contra o então planejado acordo TTIP europeu-americano. Mas aconteceu o contrário: o TTIP falhou, mas isso foi devido a Trump. Ele não queria o acordo, mas a Comissão da UE gostaria de concluí-lo. Portanto, ele continuou a negociar uma espécie de luz TTIP nos últimos anos. Somente no final de agosto os EUA e a UE concordaram discretamente com cortes tarifários , por exemplo, a UE está reduzindo as tarifas sobre a lagosta.

Na verdade, isso não deveria acontecer, pelo menos não se você levar suas próprias promessas a sério. A UE comprometeu-se oficialmente a não celebrar mais acordos com países que não respeitem o Acordo de Paris sobre o Clima. Oficialmente, a presidente da Comissão da UE, Ursula von der Leyen, também quer fazer da UE a região modelo verde do mundo. Portanto, levado a sério, não deveria mais concluir um acordo com os EUA. Ela pode argumentar de maneira puramente formal que os EUA ainda estão envolvidos no Acordo de Paris – a rescisão de Trump só entrará em vigor este ano. Ao mesmo tempo, porém, seu comportamento mostra que seus próprios padrões, em última análise, não são realmente importantes para ela – pelo menos quando se trata de proteção climática.

Mas voltando ao acordo do Mercosul. Se isso falhar devido à resistência dos cidadãos e dos governos da UE, então é também uma reação à triste teimosia da Comissão. Não que a maioria dos governos europeus tenha se tornado protetores radicais da selva. Mas eles sabem: você simplesmente não pode explicar aos cidadãos de forma plausível que está facilitando negócios com o Brasil para o benefício de sua própria indústria – enquanto, ao mesmo tempo, as florestas primárias mais importantes do mundo estão sendo incendiadas lá.

Diz-se que em toda crise existe uma oportunidade. Até que o contrário seja provado, isto também se aplica à política comercial da Comissão da UE. Porque vai ser revisto em breve , e talvez o Mercosul seja uma espécie de alerta, afinal. Até 15 de setembro você pode enviar sugestões de como poderia ser melhor. Aqui está o endereço de e-mail: trade-policy-review- 2020@ec.europa.eu. Vamos ver com que seriedade o presidente da Comissão, von der Leyen, leva as sugestões.

fecho

Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicada pelo jornal semanal alemão Zeit [Aqui!].

Indústria petrolífera aposta em futuro com mais plástico

Plano de injetar $400 bilhões para aumentar produção em 25% gera risco para investidores

A indústria petrolífera está colocando suas esperanças em um forte crescimento da demanda mundial por plásticos, mas a expectativa pode ser frustrada à medida em que governos e empresas começam a apresentar ações de redução do uso do material de olho nas metas climáticas. O setor já enfrenta preços baixos recordes de matéria-prima plástica como resultado de sobrecapacidade, mas planeja expandir a oferta de plásticos virgens em 25%, a um custo de pelo menos 400 bilhões de dólares nos próximos 5 anos. Esse é um cenário de alto risco para investidores, alerta o novo relatório do Carbon Tracker e dos especialistas em plásticos da empresa britânica SYSTEMIQ.

futuro plástico

Apostando em tendência contrária, os cenários apresentados pelas empresas BP e da IEA indicam que a demanda por plásticos será o maior impulsionador de crescimento, representando 95% e 45% da expansão até 2040, respectivamente. As companhias já levam em conta que a demanda por petróleo será impactada em sua área central, a de transportes, devido às medidas de descarbonização e eletrificação já em curso em vários países.

No relatório, a SYSTEMIQ indica que a crescente pressão para reduzir o uso de plásticos – agora uma preocupação pública mundial – poderia cortar o crescimento da demanda de plástico virgem de 4% ao ano para menos de 1%, com o pico da demanda sendo alcançado já em 2027. A indústria petrolífera perderia seu principal motor de crescimento, tornando mais provável que a demanda geral por petróleo tenha atingido o pico já em 2019.

“Retire o pilar de plástico que sustenta o futuro da indústria petrolífera, e toda a narrativa de demanda crescente por petróleo desaba”, afirma Kingsmill Bond, estrategista de energia do Carbon Tracker e autor principal do relatório. “É simplesmente ilusório para a indústria de plásticos imaginar que ela pode duplicar suas emissões de carbono ao mesmo tempo em que o resto do mundo está tentando reduzi-las a zero.”

Reciclagem

Segundo o relatório, os plásticos impõem à sociedade um custo externo de pelo menos US﹩ 1 mil por tonelada, ou US﹩ 350 bilhões por ano, que vão desde emissão de dióxido de carbono, custos de saúde associados a gases nocivos, custos de coleta e o combate à poluição oceânica.

O dióxido de carbono (CO2) é produzido em todas as etapas da cadeia de valor do plástico – incluindo ser queimado, enterrado ou reciclado, e não apenas na extração de petróleo e etapa de fabricação. O relatório conclui que a produção de uma tonelada de plástico libera aproximadamente o dobro do CO2 do que a produção de uma tonelada de petróleo.

Por isso, legisladores em diferentes países se mobilizam contra o aumento do uso de plástico. Em julho de 2020 a UE propôs um imposto de 800 euros/tonelada sobre resíduos de plástico não reciclado. Na China, a primeira grande sinalização nesse sentido veio em 2018, quando o país fechou em grande parte sua indústria de importação e processamento de resíduos plásticos – a maior do mundo – forçando os exportadores a resolver a questão dos resíduos em casa.

Enquanto isso, 36% do plástico produzido no mundo é usado apenas uma vez, 40% acabam poluindo o meio ambiente e apenas 5% vai para reciclagem. A SYSTEMIQ observa que as soluções tecnológicas já estão disponíveis para permitir uma redução maciça no uso do plástico a um custo mais baixo do que o atual, com reutilização, melhoria de projetos e regulamentação de produtos, substituições por papel e, principalmente, um grande aumento na reciclagem.

Há enormes benefícios na mudança do atual sistema linear para um sistema mais circular”, afirma Yoni Shiran, que lidera a Plataforma Plastic da SYSTEMIQ e é coautora do relatório. “Você pode ter toda a funcionalidade dos plásticos, mas com metade do custo de capital, metade da quantidade de matéria-prima, 700 mil empregos adicionais e 80% menos poluição.”

Sobre o Carbon Tracker

A Iniciativa Carbon Tracker é um think tank financeiro sem fins lucrativos que procura promover um mercado de energia global seguro para o clima, alinhando os mercados de capitais com a realidade climática. Pesquisas da instituição sobre a bolha de carbono, o carbono não queimável e os ativos irrecuperáveis deram início a um novo debate sobre como alinhar o sistema financeiro com a transição energética para um futuro de baixo carbono. www.carbontracker.org

Cronologia de um desastre anunciado: Ascema Nacional lança dossiê sobre desmonte das leis ambientais pelo governo Bolsonaro

salles bolso mourãoRicardo Salles, Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão são, segundo a Ascema Nacional, os executores da destruição das leis ambientais brasileiras

O atual cenário político e socioambiental brasileiro demonstra o resultado do desmonte realizado pelo Governo Bolsonaro, os ataques constantes contra os órgãos e entidades socioambientais, além dos discursos contra a atuação dos servidores e as normas ambientais. Em função disso, a Associação Nacional dos Servidores de Meio Ambiente (Ascema Nacional) decidiu preparar um relatório elencando todas as ações realizadas pelo governo Bolsonaro para destruir a governança ambiental existente, bem como para inviabilizar o funcionamento dos sistemas de comando e controle da área ambiental.

cronologia

Segundo a Ascema, des o início do atual governo tem havido um aumento em número e extensão dos incêndios florestais, expansão do desmatamento da Amazônia; vazamento de óleo atingiu diversos pontos da costa brasileira sem que o governo se mostrasse capaz de dar uma resposta rápida e competente que possibilitasse descobrir os responsáveis por sua origem; as tentativas de incriminar e intimidar indígenas, ambientalistas e organizações não-governamentais, além de intimidação e cerceamento da ação dos servidores da área ambiental, resultando em um real e deliberado desmonte das instituições públicas de meio ambiente.

A diretoria da Ascema lembra que a trajetória do presidente Jair Bolsonaro é marcada por controvérsias e ataques ao meio ambiente e aos órgãos e servidores ambientais. Um exemplo citado ocorreu em 2002 quando Jair Bolsonaro foi multado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por pesca ilegal na Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis (RJ). Um ano após o ocorrido, o então deputado apresentou um projeto de lei ( o PL 5720/2013) que visava proibir o porte de armas de servidores designados para atividades de fiscalização de caça.  A Ascema lembra que o projeto acabou sendo retirado de tramitação pelo próprio Jair Bolsonaro.

A Ascema denuncia que os servidores de órgãos ambientais federais (MMA, IBAMA, ICMBio e SFB), mesmo sofrendo com o assédio institucional e perseguição, vêm alertando sobre a gravidade dos problemas que, por sua vez, são reforçados pela falta de eficiência da gestão e a estratégia de desmonte. Nesse sentido, a Ascema aponta que a desestruturação e enfraquecimento do MMA e de suas autarquias, como a extinção de setores e cargos de direção deixados vagos por longos períodos nos órgãos, contribuem para a paralisação e deliberada ineficiência das suas atividades.

Além disso, a Ascema relata a falta de critérios técnicos para a nomeação de pessoas, muitas sem conhecimento suficiente e sem experiência prévia para cargos de direção, com destaque para a substituição de servidores de carreira por militares das Forças Armadas ou policiais militares (inexperientes, porém obedientes), demonstram a intencionalidade do enfraquecimento da área ambiental na atual gestão.

Outra denúncia importante feita pela Ascema refere à tramitação de uma imensa e injustificada proporção dos processos administrativos do ICMBio em caráter restrito ou sigiloso, em muitos casos sem qualquer justificativa legal que dê amparo à medida, ferindo o princípio da transparência no serviço público, prevista na lei de acesso à informação (Lei 12.527/2011).

Para quem desejar o relatório da Ascema em sua íntegra, bastante clicar [Aqui!]