Estudo da Unicamp detecta agrotóxicos e outros contaminantes em fórmulas infantis

Amostras de fórmulas infantis passam por análise em laboratório da Faculdade de Engenharia de Alimentos: risco de contaminações indiretas

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Nas prateleiras das drogarias e dos supermercados, as fórmulas infantis se multiplicam e atendem a diversos públicos e demandas nutricionais. Segundo um estudo de 2024 publicado na revista Globalization and Health, a venda de fórmulas infantis no Brasil, entre 2006 e 2020, aumentou 750%, saltando de R$ 278 milhões para R$ 2,3 bilhões. O aumento expressivo no consumo dos produtos chama atenção para a necessidade de um olhar cuidadoso não apenas em relação aos seus benefícios, mas também em relação aos riscos que contaminantes eventualmente presentes nesses alimentos podem trazer à saúde de recém-nascidos e bebês.

Um estudo realizado na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp com fórmulas infantis confirma a preocupação. Foram analisadas 30 amostras de produtos comercializados no país a fim de investigar a presença de resíduos de agrotóxicos e micotoxinas – compostos tóxicos produzidos por fungos. Em duas análises, apareceram resíduos desses compostos, entre os quais o carbofurano e o metamidofós, de uso proibido no Brasil, além de outras substâncias, como fármacos veterinários.

Apesar de a maior parte dos contaminantes registrar concentrações abaixo dos limites de segurança estabelecidos pelas autoridades sanitárias, sua mera presença acende o alerta para o risco de contaminações indiretas, que podem ocorrer na cadeia de produção das fórmulas, e para a necessidade de o país adotar normas específicas voltadas ao setor. As análises, publicadas em dois artigos, uma no Journal of Chromatography A e outra no Journal of Food Composition and Analysis, fazem parte da pesquisa de doutorado de Marcella Vitória Galindo, com orientação da professora Helena Teixeira Godoy e do pesquisador Wellington da Silva Oliveira e com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Marcella Vitória Galindo, autora do estudo: orientação alimentar adequada para as mães é fundamental
Marcella Vitória Galindo, autora do estudo: orientação alimentar adequada para as mães é fundamental

De olho nas fórmulas

A primeira análise baseou-se em uma lista de 23 possíveis contaminantes – 19 agrotóxicos e 4 micotoxinas. Os agrotóxicos foram elencados a partir de uma lista elaborada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que disponibiliza relatórios e monografias periodicamente sobre os compostos mais empregados nos campos de cultivo do país. “Fizemos um levantamento sobre as matérias-primas utilizadas e consideramos quais agrotóxicos poderiam ser encontrados com base nos levantamentos da Anvisa”, explica Galindo. As amostras também passaram por uma verificação, chamada triagem suspeita, para apontar a presença de outros contaminantes além dos 23 iniciais. Para isso, a pesquisadora lançou mão de um banco de dados com mais de 2 mil contaminantes, entre agrotóxicos e seus metabólitos, hormônios, fármacos veterinários e outras substâncias.

Nessa análise inicial, o estudo encontrou, abaixo dos limites de segurança estabelecidos pela União Europeia (UE), cujos parâmetros foram usados devido à ausência de uma legislação específica no país, os pesticidas fenitrotiona, clopirifós e bifentrina, assim como as quatro micotoxinas observadas (alfatoxinas B1, B2, G1 e G2). A pesquisadora alerta que, mesmo estando dentro dos níveis especificados, a questão não deixa de ser preocupante. “Isso não significa que esses compostos vão, necessariamente, trazer malefícios, porque o organismo tem a capacidade de metabolizá-los e eliminá-los. O problema é que o organismo dos bebês não tem esse sistema ainda completamente desenvolvido”, afirma.

Uma questão importante envolveu a detecção do carbofurano, agrotóxico proibido no Brasil em 2017 e identificado em cerca de 10% das amostras. Nesse caso, a hipótese é de que a contaminação tenha ocorrido por bioacumulação. “Mesmo não sendo utilizado, o composto pode ainda permanecer no ambiente por muitos anos e contaminar os alimentos”, esclarece Godoy. Foram identificados, na triagem, 32 compostos, entre agrotóxicos não previstos, hormônios e medicamentos veterinários, algo que pode resultar de contaminações na cadeia de produção de matérias-primas como o leite de vaca e o de cabra.

A segunda análise monitorou os resíduos de agrotóxicos também por meio de uma triagem suspeita, com base em um banco de dados com 278 produtos do tipo. Nessa etapa, seis compostos foram detectados em 86,6% das amostras: ftalimida, cis-1,2,3,6-tetra-hidroftalimida, pyridaben, bupirimate, piperonil butóxido e metamidofós. Desses, destacam-se o pyridaben, a ftalimida e a cis-1,2,3,6-tetra-hidroftalimida por estarem em concentrações acima do limite estabelecido pela UE, e o metamidofós, de uso também proibido no Brasil, desde 2012. De acordo com as pesquisadoras, os resíduos podem ter vindo de várias fontes, desde as matérias-primas até o processamento e embalagem. Godoy destaca que o estudo não busca desencorajar o consumo desses produtos, mas garantir a qualidade dos alimentos fornecidos aos bebês. “O processamento é importante e, desde que feito dentro das normas estabelecidas, garante um alimento de qualidade”, diz.

A professora Helena Teixeira Godoy, orientadora da pesquisa: composto pode contaminar os alimentos
A professora Helena Teixeira Godoy, orientadora da pesquisa: composto pode contaminar os alimentos

Regulação já

Uma das motivações que levaram Galindo a trabalhar com a análise de fórmulas infantis é a ausência de normas e legislações específicas para o setor no país, o que dificulta o controle sobre os produtos. Nos últimos anos, o avanço das técnicas de análise, como as empregadas na pesquisa, possibilitou estudos mais detalhados. “Não adianta existirem normas se não for possível sabermos se os produtos atendem ou não a elas”, observa Godoy.

A continuidade da pesquisa deverá incluir a análise de amostras de leite materno, com foco na identificação de contaminantes provenientes do ambiente, de embalagens de alimentos e de produtos de cuidado pessoal que podem chegar ao leite via alimentação e devido ao estilo de vida das mães. Além de evidenciar a necessidade de haver normas rígidas para esse tipo de produto, o doutorado de Galindo identifica os fatores humanos envolvidos no problema. “É fundamental promover uma orientação alimentar adequada para as mães, incentivando-as a evitar o consumo de produtos que supostamente estão contaminados por substâncias potencialmente nocivas. Essa conscientização não só protege a saúde individual, mas também reflete um compromisso com a segurança nutricional, tanto da mãe quanto do bebê”, aponta a pesquisadora. “Trata-se de uma questão social e de saúde pública.”


Fonte: Jornal da Unicamp

Ações da Bayer caem após veredito bilionário no estado da Geórgia, enquanto empresa tenta mudar legislação para se blindar

Por Carey Gillam para o “The New Lede” 

O veredito do júri da Geórgia ordenando que a Bayer AG pague mais de US$ 2 bilhões a um homem que sofre de câncer, que ele atribuiu ao uso do herbicida Roundup, ocorre no momento em que o governador do estado avalia se deve sancionar uma medida que efetivamente impediria que tais casos fossem a julgamento no futuro.

O veredito da sexta-feira passada abalou os investidores da Bayer, derrubando as ações da empresa alemã em mais de 8% na segunda-feira. O júri concluiu que a Bayer, que comprou a fabricante do Roundup, Monsanto, em 2018, falhou em alertar adequadamente os usuários sobre anos de evidências científicas de que a exposição ao Roundup poderia causar câncer, concedendo ao autor John Barnes US$ 2 bilhões em danos punitivos e US$ 65 milhões em danos compensatórios.

Barnes desenvolveu linfoma não-Hodgkin (NHL) após usar Roundup para pulverizar ervas daninhas ao redor de sua casa em Dalton, Geórgia, de 1999 a 2019, comprando o herbicida em lojas Home Depot. Ele foi diagnosticado com NHL em 2020 e passou por várias rodadas de tratamento e uma recorrência da doença, embora atualmente esteja em remissão, de acordo com seus advogados. Ele é uma das mais de 100.000 pessoas nos EUA que entraram com ações judiciais alegando que desenvolveram câncer devido ao uso de herbicidas da Monsanto.

Barnes, pai, avô e ex-fuzileiro naval, testemunhou no julgamento de três semanas que a doença e o tratamento deixaram sequelas duradouras. 

“Com esse câncer… não há cura”, Barnes testemunhou. Ele chorou ao descrever o medo persistente de que seu tempo com a família possa ser limitado. “Todo dia é preocupação, não só para mim, mas para minha família.” 


John Barnes testemunhou em seu julgamento contra a Bayer/Monsanto em 14 de março de 2025. Imagem de vídeo gravado pela Courtroom View Network.)

A grande indenização punitiva do júri foi motivada tanto por evidências científicas que demonstram uma conexão causal entre o Roundup e seu ingrediente ativo glifosato, quanto por uma abundância de evidências mostrando que a Monsanto trabalhou ativamente por décadas para manipular o registro científico sobre os riscos do Roundup, disse o advogado de Barnes, Kyle Findley .

“O veredito mostra que a comunidade não vai tolerar esse tipo de negociação secreta, manipulando a ciência e os periódicos científicos para promover suas próprias visões de seus produtos”, disse Findley.

A Monsanto sabia “há anos e anos” que o uso do Roundup poderia causar câncer, mas não refletiu esse conhecimento nos rótulos do Roundup nem tomou outras medidas para proteger os clientes, disse ele.

 Embora algumas das pesquisas científicas que relacionam o glifosato ao câncer datem da década de 1980, também há pesquisas recentes que reforçam a conexão, incluindo um estudo de 2023 feito por cientistas afiliados ao Instituto Nacional de Saúde, que descobriu que pessoas expostas ao glifosato têm biomarcadores na urina associados ao desenvolvimento de câncer e outras doenças.  

A Bayer disse que vai apelar do veredito e espera que, mesmo que não consiga anular a sentença do júri, o valor seja significativamente reduzido, como foi o caso de outros grandes vereditos do júri em casos Roundup. O litígio nacional até agora custou à Bayer bilhões de dólares em acordos e vereditos do júri favorecendo os demandantes, e mais casos estão pendentes. A Bayer disse que, em janeiro, aproximadamente 114.000 reivindicações de 181.000 reivindicações foram resolvidas ou “consideradas inelegíveis”. 

“Discordamos do veredito do júri, pois ele entra em conflito com o peso esmagador das evidências científicas e o consenso dos órgãos reguladores e suas avaliações científicas em todo o mundo”, disse a empresa em uma declaração. “Nosso histórico demonstra que vencemos quando os advogados dos demandantes e seus especialistas não têm permissão para deturpar as avaliações científicas e regulatórias em todo o mundo que continuam a apoiar a segurança dos produtos. Continuamos a apoiar totalmente a segurança dos produtos Roundup – ferramentas essenciais nas quais os agricultores confiam para produzir alimentos acessíveis e alimentar o mundo.”

A Bayer disse que espera que o governador da Geórgia, Brian Kemp, em breve assine uma nova legislação aprovada recentemente pelos legisladores estaduais que impactaria casos como o de Barnes. A Bayer é a principal arquiteta da lei da Geórgia e de medidas semelhantes em outros estados que, na verdade, protegeriam as empresas de processos movidos por pessoas que alegam ter sofrido problemas de saúde devido ao uso de pesticidas. A Bayer e seus aliados estão promovendo a aprovação das leis com uma enxurrada de propaganda. 

 empresa diz que a busca por mudanças legislativas é necessária para proteger seus “investimentos importantes” e garantir que os agricultores não percam o acesso ao Roundup, e espera que outros estados “sigam o exemplo da Geórgia no apoio aos agricultores”.

As novas leis impediriam as pessoas de processar fabricantes de pesticidas por não alertá-los sobre os riscos à saúde, desde que os rótulos dos produtos sejam aprovados pela Agência de Proteção Ambiental. Os oponentes dizem que a legislação impedirá agricultores e outros que usam agrotóxicos de responsabilizar as empresas no tribunal se seus produtos causarem doenças ou ferimentos.


Fonte: The New Lede

BR-319: abrindo caminho para o deslocamento indígena e a catástrofe ambiental

Por Monica Piccinini para o “The Canary” 

Desde que os colonizadores europeus pisaram no Brasil , os povos indígenas têm lutado uma batalha implacável para proteger suas terras e preservar seu modo de vida. Séculos de opressão os forçaram a alterar suas culturas, tradições e crenças, mas sua resiliência permanece inquebrável. Hoje, eles ainda sofrem invasões violentas de fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e crime organizado, mantendo suas comunidades presas em uma luta constante pela sobrevivência.

proteção das terras indígenas do Brasil é crucial para a sobrevivência da floresta amazônica. No entanto, vários projetos – incluindo exploração de petróleo e gás, expansão do agronegócio, criação de gado, produção de biocombustíveis , mineração legal e ilegal , exploração madeireira e crime organizado – ameaçam esse ecossistema vital.

Rodovia BR-319: uma estrada para lugar nenhum para os povos indígenas

A reconstrução da rodovia BR-319 na Amazônia , um dos projetos mais prejudiciais ao meio ambiente do mundo, serve como um catalisador para essas atividades destrutivas. Com 885 km de extensão, a rodovia conecta a capital do Amazonas, Manaus, a Porto Velho, cortando áreas intocadas da floresta tropical. Uma reconstrução proposta de 408 km abriria uma porta de entrada para o desmatamento , crime e exploração corporativa, impactando diretamente mais de 18.000 indígenas.

A Amazônia desempenha um papel crítico na regulação do clima global e na geração de vapor de água que traz chuva para o Brasil através dos “rios voadores”. A reconstrução da BR-319 interromperá esse sistema vital, ameaçando a saúde da região e o equilíbrio ambiental geral.

O desmatamento e a degradação ao longo da BR-319 interromperão os “rios voadores”, o que pode levar a secas devastadoras, escassez de alimentos e água e ao colapso do setor agropecuário brasileiro, incluindo a agricultura familiar, desestabilizando, em última análise, a economia do país.

ONGs sustentam a BR-319 às custas de comunidades indígenas

Territórios indígenas não são meramente terra – eles são lugares vivos, respirantes, ricos em história, cultura e significado. Essas terras guardam o pulsar das tradições, onde comunidades coexistem em um equilíbrio delicado e sagrado com os animais, a água, as florestas e a própria terra. Seu vínculo com a natureza é profundo e sagrado, pois sua própria sobrevivência depende de sua saúde e força. É um vínculo construído com base no respeito e no cuidado, uma promessa de nutrir a terra que os sustenta, garantindo que ela floresça para as gerações futuras.

No entanto, esse vínculo agora está ameaçado. Nas áreas ao redor da rodovia BR-319, lideranças indígenas do Lago Capanã Grande e Baetas têm relatado graves violações de seus direitos e crescentes ameaças devido à degradação de seus territórios e à expansão da rodovia. Houve também uma tentativa alarmante de organizações não governamentais (ONG) de validar o protocolo de consulta com as comunidades.

Essa situação preocupante surgiu durante um evento na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que contou com a participação do Ministério Público Federal, um representante do Ministério do Meio Ambiente, uma ONG e lideranças indígenas. O encontro foi organizado pelo pesquisador Lucas Ferrante e coberto pela Revista Cenarium.

A questão foi mais detalhada no artigo BR-319: Narrativas, Negócios e Poder , publicado pela Revista Cenarium em fevereiro. De acordo com o artigo, a ONG Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) produziu um documento alegando falsamente que a comunidade indígena havia sido consultada e concordado com a reconstrução da rodovia, desde que uma reserva extrativista fosse criada para protegê-los. Chocantemente, a comunidade só soube dessa aprovação depois de assinar o documento.

Rodovia BR-319: uma ‘manipulação de direitos’ e ‘violação’ de terras tradicionais

Em 2020, Ferrante viajou pela rodovia BR-319, entrevistando indígenas e líderes impactados pela estrada. Desde então, suas opiniões sobre os efeitos da rodovia permaneceram consistentes. Um líder indígena do Lago Capanã compartilhou suas preocupações sobre o impacto da rodovia em sua aldeia (seu nome foi omitido para garantir sua segurança):

Gostaria de expressar minha indignação diante de todos em relação ao impacto da rodovia BR-319 nas terras indígenas do Lago Capanã. Isso nos traz problemas, manipulação de direitos, violação de nossas áreas tradicionais, ocupação por grileiros, poluição do nosso rio, destruição da nossa natureza.

E isso está causando grandes problemas no fluxo dos nossos rios. Córregos estão sendo soterrados. Aqui usamos a água do rio. O resultado dessa BR vai virar uma porta aberta para a entrada de criminosos, traficantes, todo tipo de droga, como já existe.

A população indígena vive de alimentos da natureza, a população indígena não vive de gado. Os povos indígenas vivem de objetos tradicionais. Eles vivem da subsistência da natureza e subtraem a natureza para si mesma para sua sobrevivência e protegem sua própria natureza. Eu sou contra essa pavimentação.

A expansão da BR-319 está impulsionando o rápido crescimento do agronegócio na região, particularmente em terras públicas não alocadas. Produtores de soja do Mato Grosso do Sul estão cada vez mais se mudando para Rondônia, comprando terras de pecuaristas que estão então se deslocando para o sul dentro do corredor da BR-319 para plantar soja. Essas terras são frequentemente confiscadas ilegalmente por meio de grilagem de terras, desmatamento ilegal ou despejos violentos de comunidades indígenas e tradicionais.

Essa situação chama a atenção para questões críticas como a Moratória da Soja, especialmente porque há tentativas crescentes de aboli-la, o que pode ter efeitos devastadores sobre o meio ambiente e as comunidades indígenas e tradicionais.

Lobby do agronegócio mira a Moratória da Soja

A Moratória da Soja do Brasil, estabelecida em 2006, é um acordo em que as empresas signatárias se comprometem a não comprar soja cultivada em terras desmatadas na Amazônia após julho de 2008. Este acordo tem sido uma ferramenta vital na luta contra o desmatamento. No entanto, agora ele enfrenta uma ameaça, pois o poderoso lobby do agronegócio do Brasil intensifica os esforços para desmantelá-lo. Como o maior produtor e exportador mundial de soja, as políticas agrícolas do Brasil têm imensas consequências globais.

Em outubro de 2024, o estado do Mato Grosso, principal produtor de soja, promulgou o Projeto de Lei 12.709/2024, efetivamente cortando incentivos fiscais para empresas que aderirem à Moratória da Soja. Em 19 de fevereiro, o presidente da Assembleia Legislativa do Mato Grosso, Max Russi, fez a seguinte declaração:

Estamos todos unidos em defesa de um dos pilares mais importantes da nossa economia: o agronegócio.

No mesmo mês, uma reportagem preocupante da Repórter Brasil revelou que a Cargill, uma das maiores exportadoras de grãos brasileiros, estava sugerindo que iria se distanciar das regras da Moratória da Soja.

Em 11 de março, o ministro da Agricultura do Brasil, Carlos Fávaro, organizou uma reunião com líderes do agronegócio e o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, que está supervisionando o caso referente à Moratória da Soja. Entre as figuras-chave estavam Blairo Maggi, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e mentor político de Fávaro, bem como representantes de grandes gigantes agrícolas, como o Grupo Bom Futuro e a Amaggi, a maior trading company agrícola do país.

Preocupações surgem dos papéis e conexões sobrepostos envolvidos. A influência significativa de Maggi tanto na formulação de políticas quanto no agronegócio, juntamente com laços familiares e os interesses adquiridos de Amaggi na Moratória da Soja, levantam questões sobre a imparcialidade dessas discussões.

Fávaro manifestou forte oposição à Moratória da Soja, chamando-a de “discrepante” e “pouco profissional”, e declarou firmemente sua posição:

Tentei demonstrar que a Moratória da Soja também não é constitucional e estou confiante de que o Ministro Dino agirá nesse sentido.

Comunidades indígenas: um mero obstáculo na busca do lucro pelo agronegócio

Se a Moratória da Soja for suspensa, os produtores de soja migrarão para a Amazônia, desencadeando desmatamento desenfreado, degradação ambiental, poluição e violação dos direitos indígenas, incluindo violência e invasão de terras. Isso também pode resultar em um aumento acentuado nas emissões de gases de efeito estufa, levando a consequências sociais e ambientais desastrosas.

Em uma nação onde o agronegócio impulsiona a economia, os territórios indígenas são vistos como obstáculos ao crescimento capitalista implacável. Com o Congresso brasileiro dominado pela poderosa bancada ruralista, os “ruralistas”, há pouca preocupação com os direitos indígenas, pois eles pressionam incansavelmente por leis que atendam a seus próprios interesses. Para eles, a sobrevivência das comunidades indígenas é um mero obstáculo em sua busca por lucro.

O futuro da Amazônia, suas comunidades indígenas e nosso planeta estão em risco. A reconstrução da BR-319 não é apenas uma estrada – é um movimento perigoso que pode destruir séculos de herança e prejudicar o meio ambiente além do reparo. Se o Brasil seguir esse caminho, o dano será permanente, deixando cicatrizes profundas na terra, em seu povo e no mundo.

À medida que o mundo se prepara para a COP30 , a urgência de proteger a Amazônia e seus ecossistemas nunca foi tão clara. As decisões tomadas nesta cúpula terão um impacto profundo na preservação da Amazônia, e devemos garantir que a sustentabilidade, os direitos indígenas e a proteção ambiental ocupem o centro do palco nessas discussões.


Fonte: The Canary

MPF aciona Justiça contra licenciamento de empreendimento na área do antigo Comperj, em Itaboraí (RJ)

Ação questiona atuação do órgão estadual e busca soluções concretas de restauração e proteção, sem anular os licenciamentos já existentes

O Ministério Público Federal (MPF) apresentou ação civil pública para responsabilizar o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) quanto aos impactos ambientais causados pelo Complexo de Energias Boaventura, em Itaboraí (RJ). O empreendimento está localizado na mesma área criada para a ocupação do antigo Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

A ação aponta que o Complexo de Energias Boaventura (nome atual) é uma continuação do mesmo empreendimento com o nome de Polo Gaslub, que surgiu em continuidade ao antigo Comperj, sendo a mudança de nomes um esforço para afastar o estigma associado ao projeto inicial. Segundo o MPF, essa prática resultou no enfraquecimento de medidas de proteção ambiental e na flexibilização de condicionantes ambientais impostas desde a sua concepção.

O MPF pede à Justiça uma solução construtiva, sem que seja necessário anular atos existentes. Para isso, o Inea e o Ibama deverão implementar medidas equivalentes às condicionantes originais e os recursos previstos deverão ser aplicados contra o agravamento da crise climática, com a utilização efetiva para a recuperação das áreas afetadas. Em último caso, pede que o licenciamento ambiental seja retomado pelo Ibama, para que possa corrigir todas as medidas que não foram promovidas pelo Inea.

Como parte da solução, o MPF indicou a possibilidade de que o Ibama se junte ao MPF no processo. No caso, essa medida busca evitar a chamada “hipocrisia institucional”, apontada na petição inicial da ação, e reforçar a necessidade de um posicionamento coerente do Estado brasileiro na proteção do meio ambiente.

O MPF argumenta que o licenciamento tem origem federal, sendo que a ocupação da área desde o Comperj foi possível apenas após a criação das condicionantes para a proteção de unidades de conservação federais, como a Área de Proteção Ambiental de Guapi-Mirim e a Estação Ecológica da Guanabara. No entanto, o Ibama delegou a competência ao Inea, que alterou sozinho as condicionantes originais e afetou as previsões para a proteção das unidades ambientais.

Irregularidades

O MPF também destaca que há um passivo ambiental significativo na área do Comperj, incluindo a contaminação do solo e do lençol freático por metais pesados. Apesar dessas evidências, o Inea teria permitido novas atividades no local sem exigir previamente a recuperação ambiental.

Além disso, o órgão estadual teria substituído obrigações de resultado ambiental, como a restauração da proteção dos rios da região antes do funcionamento do empreendimento, por meras obrigações financeiras sem comprovação de aplicação efetiva na área original e com o custo da proteção transferido para a sociedade brasileira. Consequências são indicadas, como a falha na preservação das águas que abastecem a região metropolitana e que chegam até a Baía da Guanabara, potencialmente agravando a situação de crise hídrica.

Segundo o MPF, outro ponto crítico da ação é o jogo licenciador, onde as peças do empreendimento, como a unidade de processamento e as linhas de transmissão, são licenciadas de forma fracionada, sem considerar sua interdependência e os impactos de todo o complexo.

A situação envolve também a atuação da Comissão Estadual de Controle Ambiental (Ceca), que, conforme o MPF, apenas ratifica as decisões do Inea sem realizar uma análise rigorosa dos impactos ambientais do empreendimento. O MPF ressalta que a Ceca aprovou a licença prévia mesmo após alertas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) sobre a ausência de estudos adequados sobre os impactos nas unidades de conservação federais.

Crime organizado e internet impulsionam agrotóxicos ilegais no Brasil

Ofertas de insumos irregulares e proibidos no país são facilmente encontradas em redes sociais e marketplaces. Estima-se que 25% dos agrotóxicos que circulam no Brasil sejam irregulares

Insumos proibidos no Brasil são vendidos legalmente em países vizinhos, como ParaguaiFoto: Patrick Pleul/dpa-Zentralbild/dpa/picture alliance

Por Matheus Gouvea de Andrade para a Deutsche Welle Brasil

Nos últimos anos, a preocupação com o uso de agrotóxicos no Brasil ganhou maior destaque, acompanhada de um avanço na aplicação destes produtos de forma irregular no país. Com a facilidade das vendas online, os agrotóxicos ilegais, muitas vezes contrabandeado de países vizinhos, encontraram terreno fértil para ampliar sua presença no campo.

As estimativas do setor são de que 25% dos agrotóxicos que circulam no Brasil sejam irregulares. Em 2023, a Polícia Federal apreendeu 575 toneladas destes produtos, quase 180% mais que em 2022. Em 2023, o Ministério da Agricultura apreendeu 422,9 toneladas e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) 195,7 toneladas.

Na maioria das vezes, os insumos são apreendidos em rodovias ou em fiscalizações em propriedades rurais. O mercado ilegal é composto por uma cadeia dividida em contrabando, roubo de cargas, falsificação de produtos e desvio de finalidade na utilização de princípios ativos importados.

A atração para os compradores está especialmente nos preços, pois esses insumos de origem ilegal tendem a ser mais baratos que as opções regulamentadas. Observadores apontam que a alta do dólar nos últimos anos, ao tornar os produtos legalizados mais caros, impulsionou a demanda no mercado paralelo.

Além disso, há substâncias que são permitidas em países vizinhos, mas não no território brasileiro, como no caso do paraquat, proibido no país desde 2020 devido aos riscos para a saúde, que vão desde câncer à doença de Alzheimer. Na União Europeia, a substância é banida desde 2007. O Paraguai é uma das portas de entrada do insumo proibido no Brasil. Importante de países como China e Índia, o paraquat é vendido legalmente no Paraguai. Depois, a substância ingressa por via terrestre no Brasil, com destaque para o Paraná.

Crime organizado

O grande mercado chamou a atenção do crime organizado. Recentemente, a Operação Mafiusi da Polícia Federal destacou os agrotóxicos entre os produtos comercializados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), assim como drogas e cigarros, além de outras atividades mais tradicionais para o crime.

“Não importa tanto o produto, são quadrilhas especializadas em logística”, afirma Luciano Stremel Barros, presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf). Em sua visão, a possibilidade de transportar diferentes mercadorias, muitas vezes no mesmo veículo, propicia a ascensão do crime organizado, que vai se apropriando das rotas no país.

Barros lembra que, além do uso de produtos inadequados para a produção nacional, há riscos no descarte das substâncias tóxicas ilegais. No caso de produtos regulamentados, a ampla maioria das embalagens segue rigorosos padrões sanitários. No caso irregular, segundo ele, diante da falta de fiscalização e impossibilidade de usar os descartes legais, os recipientes são enterrados ou queimados, o que causa ainda maiores danos ambientais e potencialmente à saúde da população local.

Legislação só no papel

Para muitos produtores, as práticas no campo são bem distantes das regulamentações e permissões dos organismos de controle. Eric Gustavo Cardin, professor de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), conversou com uma série de agricultores na região nos últimos anos, e afirma que há um perfil que chega a “dar risadas” das mudanças de legislações referentes à questão.

De acordo com Cardin, aqueles com maior capacidade de investimento costumam ter mais cuidados com eventuais transgressões, no entanto, há outros que veem no uso de substâncias ilegais uma forma de aumentar a rentabilidade de seus negócios. “Agrotóxicos são caros, se alguém pode ter uma diminuição do custo com relação a esta mercadoria, muitas vezes opta por essa alternativa.”

Nestes casos, muitos pedem os insumos ilegais pela internet. “Muitos conhecem os vendedores no Paraguai, sendo comum o envio cruzando a fronteira”, aponta. “Especialmente na região de fronteira no oeste do Paraná, é algo muito comum.”

Facilidade online

Em outras regiões do Brasil, a facilidade que marketplaces oferecem para o envio de agrotóxicos irregulares cumpre papel “significativo” na expansão do mercado, avalia Barros. Em sites especializados do setor, produtos como o paraquat são oferecidos para entrega em todo o país, algo que também ocorre em comunidades do Facebook que contam com dezenas de milhares de seguidores.

Questionada sobre o tema, a Meta, empresa que controla a rede social, enviou um link para a política de produtos e serviços restritos da plataforma. Após a companhia ser notificada sobre os anúncios, alguns não estavam mais disponíveis. Nestes casos, deveria haver maior atuação das plataformas, aponta Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCPI). “Existem condições para isso, como o controle com algoritmos. Sabemos que há ferramentas disponíveis”, avalia.

Segundo ele, nos últimos anos, houve movimentos distintos entre as empresas do setor, com alguns marketplaces aderindo mais ao controle de conteúdo do que outros. Para Vismona, o Brasil é tratado como um “mercado marginal” por certas companhias que não são originárias do país, o que favorece a oferta de produtos proibidos no território nacional.

Frequentemente, plataformas alegam não poder exercer censura prévia, e pedem que violações sejam denunciadas pelos próprios usuários para a retirada de conteúdos. Para Vismona, este movimento “delega para as vítimas o controle, sendo que são as empresas que detém o poder”. Além disso, ele argumenta que a questão se trata do Código de Defesa do Consumidor, não de liberdade de expressão.

Legislação comum e acordo com UE

Uma proposta frequente de envolvidos no tema é a de que o Mercosul adote uma legislação comum sobre substâncias permitidas no bloco, similar a que está em vigor na União Europeia (UE). Desta forma, as disparidades que permitem a circulação legal de produtos como o paraquat no Paraguai seria eliminada, o que, em tese, facilitaria o controle.

Barros vê a possibilidade com ceticismo, apontando que uma paridade nas legislações teve pouco avanço em instâncias como o Parlasul, o parlamento do Mercosul. Cardin lembra ainda que a capacidade de execução interna no bloco é reduzida, com aprovações de temas por consenso sendo difíceis, especialmente em momentos de divergências políticas entre os países.

No entanto, ele observa que o fechamento de um acordo com a UE poderia ser um “fator novo” para exercer pressão sobre o tema. Segundo Cardin, o Paraguai se encontra em uma posição “confortável”, mas uma maior cobrança internacional para que o país adotasse legislações mais restritivas em conformidade com regras em vigor no exterior poderia ser um caminho para mudanças.


Fonte: Deutsche Welle Brasil

Mudanças climáticas ameaçam futuro da banana na América Latina

Barraca de banana ao longo de uma rodovia para São Paulo, Brasil. As mudanças climáticas tornarão grandes áreas da América Latina inviáveis ​​para o cultivo de banana se medidas não forem tomadas em breve. Crédito da imagem: jACK TWO/Flickr , licenciado sob Creative Commons CC BY-NC-ND 2.0

Sua plantação está localizada na região semiárida do estado da Bahia, no nordeste do Brasil.

Há temores de que os próximos meses de seca reavivem os tempos difíceis de 2023, quando uma onda de calor causou uma redução de 15% na colheita do ano seguinte.

Mesmo em condições normais, 60% da fazenda de frutas de 100 hectares de Kogler requer irrigação.

“Mas quando as temperaturas ficam em torno de 40°C e os níveis de umidade estão muito baixos, as plantas param de funcionar, mesmo com irrigação”, diz ele.

Com as temperaturas globais continuando a subir, as perspectivas estão longe de ser promissoras.

Um estudo publicado na Nature Food descobriu que, até 2080, o aumento das temperaturas levará a uma redução de 60% nas áreas adequadas para a produção de banana para exportação na América Latina e no Caribe se medidas urgentes não forem tomadas para combater as mudanças climáticas .

São esperadas quedas de produtividade na maioria das áreas atualmente utilizadas para o cultivo de banana na região.

Ervino Kogler em sua plantação de banana, uma fruta que é uma fonte crucial de renda para países de baixa e média renda. Crédito da imagem: Luiz Neves

Os cientistas também descobriram que fatores socioeconômicos, como disponibilidade de mão de obra e infraestrutura, limitam severamente a adaptação climática.

Pesquisadores usaram imagens de satélite para mapear regiões de produção intensiva de banana, identificando fatores climáticos, socioeconômicos e relacionados ao solo que influenciam a viabilidade da cultura.

Os resultados mostram que a produção de banana está concentrada em regiões de baixa altitude, com temperaturas altas e estáveis ​​e solos levemente ácidos. A maioria das fazendas de banana está localizada perto de portos e centros urbanos, o que dificulta sua localização em áreas mais adequadas.

“Em algumas regiões já está muito quente, perto do limite para produção comercial, e eles ficarão muito quentes”, disse Dan Bebber, professor de ecologia na Universidade de Exeter, Reino Unido, que liderou o estudo, ao SciDev.Net .

“Algumas regiões onde o cultivo de banana ainda era viável sem irrigação, embora com alto risco climático, agora exigem irrigação para mitigar esses riscos.”

Mauricio Coelho, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária

Segundo Bebber, Colômbia e Costa Rica são particularmente vulneráveis , o que é preocupante para a indústria exportadora para Europa e América do Norte.

As únicas regiões com perspectiva favorável são o sul do Brasil, que já tem um clima mais frio, e o Equador, onde as projeções não indicam aquecimento significativo.

“Descobrimos que o monitoramento remoto usando radar de satélite foi muito útil para detectar a produção de banana de alta intensidade”, explicou Bebber.

“No entanto, muitos países insulares do Caribe, como o Haiti, produzem bananas de forma menos intensiva, e não conseguimos detectar com precisão esses sistemas de produção”, acrescentou.

Sua equipe planeja desenvolver outros métodos para monitorar esse tipo de produção.

Onze milhões de dólares

As bananas são um dos produtos agrícolas mais exportados do mundo, com um mercado avaliado em cerca de US$ 11 bilhões anualmente.

Esta fruta é uma fonte crucial de renda para países de baixa e média renda. Na Colômbia, o comércio agrícola representa cerca de 5% do produto interno bruto (PIB) do país e emprega quase 300.000 pessoas, direta ou indiretamente, de acordo com o estudo.

Além disso, como é um alimento básico consumido no mundo todo, as ameaças à sua produção também representam riscos à segurança alimentar em vários países.

Desde 2020, o Brasil incluiu o cultivo de banana no Zoneamento de Risco Climático Agrícola, um sistema de mapeamento que avalia os riscos de plantar e produzir em diferentes condições climáticas.

Mauricio Coelho, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (CBA), conta ao SciDev.Net que o Zoneamento de Risco Climático Agrícola mostrou que regiões do Brasil que antes eram semiúmidas estão se tornando semiáridas.

“Algumas regiões onde o cultivo de banana ainda era viável sem irrigação, embora com alto risco climático, agora exigem irrigação para mitigar esses riscos”, explicou.

Ervino Kogler com uma muda de bananeira. Crédito da imagem: Luiz Neves

Estratégias de mitigação

Várias estratégias foram adotadas para mitigar o impacto das mudanças climáticas na produção de banana. Em sua fazenda de banana, Ervino Kogler aumentou a quantidade de rega diária e direcionou a água para mais partes das plantas.

No entanto, a disponibilidade de água também é afetada pelo aquecimento global. Para resolver esse problema, os cientistas estão estudando variedades de banana tolerantes à seca.

Entre elas estão duas variedades desenvolvidas pela CBA, que requerem 25% menos água do que as cultivares tradicionais.

Segundo Coelho, essas bananas híbridas foram desenvolvidas inicialmente para resistir a doenças fúngicas como a sigatoka preta e a amarela. No entanto, inesperadamente, eles também apresentaram menores necessidades de água.

Cientistas indianos também descobriram que expor as bananeiras Grand Nain — uma das variedades mais comuns — a um aumento gradual de temperatura de 30 a 42 °C pode ajudá-las a suportar temperaturas mais altas no futuro.

Por meio desses experimentos, os pesquisadores identificaram os genes e as vias metabólicas envolvidas na aquisição da tolerância ao calor.

“Eles terão memória molecular para suportar o aumento do estresse”, explicou Kundapura Ravishankar, do Instituto Indiano de Pesquisa Hortícola, ao SciDev.Net .

Ele acrescentou que as descobertas do estudo são relevantes para várias áreas do mundo.

Em outro desenvolvimento tecnológico, a CBA, em colaboração com uma empresa de biofertilizantes, criou um “protetor solar” para plantas, que reduz os danos às folhas e frutos causados ​​pelo calor excessivo.

A substância, diluída em água, pode ser pulverizada com pulverizadores costais, tratores ou até mesmo drones. Segundo Coelho, a camada protetora melhora a capacidade da planta de trocar gases durante a fotossíntese.

Coelho disse que experimentos em andamento em plantações de banana mostraram que plantas sem protetor solar tinham 30% menos clorofila — o pigmento verde essencial para a fotossíntese — do que aquelas tratadas com o produto.


Este artigo foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do  SciDev.Net

Ciência: Conhecimento indesejado

Quem ainda precisa de pesquisa? É muito chato para a TV. Donald Trump está abolindo os cientistas. E Christian Drosten está farto de ser o burro

Os cientistas vieram para harmonizar o planeta. Nem todo mundo se sente confortável com isso. Foto: dpa/Hendrik Schmidt 

Por Frederico Valin para o “Neues Deutschland”

Christian Drosten foi o cientista mais proeminente na Alemanha durante a pandemia. Isso não foi sem razão: ele é um dos maiores especialistas mundiais em coronavírus. O que ele explicou em entrevistas ou no podcast “Corona Update” produzido pela NDR foi o estado atual da pesquisa. Ele explicou de uma forma que até mesmo leigos pudessem entender, mas, ainda assim, tentou não ser simplista. Era um ato de equilíbrio que ele frequentemente, mas nem sempre, conseguia fazer. Foi também graças a Drosten que a Alemanha superou bem a primeira onda, que – facilmente esquecemos – fez tantas vítimas em outras partes do mundo.

Em um podcast recente com o “Zeit”, Drosten diz que, dada essa experiência, ele não assumiria mais a tarefa de educar o público alemão. Sua vida, ele diz, nunca mais será a mesma de antes da pandemia. Ele pagou pessoalmente um alto preço por seu trabalho: foi atacado repetidamente, não apenas online. Ele foi atacado enquanto estava de férias, na presença de sua família.

De uma perspectiva humana, é compreensível que Christian Drosten coloque o bem-estar de seu próprio círculo acima do bem-estar de um público interessado em ciência. É um testemunho devastador para este público, para esta sociedade, que ela condene seus cientistas mais competentes ao silêncio. No podcast, Drosten dá dicas de quando e por que ele teria decidido de forma diferente: as intervenções de pessoas que fingiam ser especialistas em corona, mas não eram, contribuíram diretamente para sua conta de ódio. »Você se pergunta: por que você tem que assumir isso quando é atacado pelas partes mais desqualificadas, pelos motivos mais desqualificados, e você dificilmente consegue se defender disso. Você está apenas fazendo papel de bobo, por que faria isso?’ Não é difícil ver a quem ele está se referindo, mesmo que Drosten não mencione os nomes: Jonas Schmidt-Chanasit, Klaus Stöhr e especialmente Hendrik Streeck estavam tão frequentemente fundamentalmente errados que é justo perguntar o que eles realmente esperavam alcançar. Pelo menos eles conseguiram abalar a fé no conhecimento científico: um sistema que produz tais especialistas não pode ser de muita utilidade.

Esses especialistas foram alimentados pela indústria da mídia que não está comprometida com a realidade, mas age discursivamente: outras opiniões também devem ser permitidas. É por isso que os três mencionados apareceram com tanta frequência em artigos: não como o pior caso da ciência, mas como uma opinião alternativa legítima e bem fundamentada. O fato de que suas opiniões muitas vezes não se sustentam é irrelevante dessa perspectiva. Não se trata da verdade, que nunca poderá ser alcançada de qualquer maneira. Nem se trata de uma realidade que exija muito esforço para ser alcançada. É sobre publicidade. E nada prejudica mais a ciência do que quando o público percebe que alguns especialistas autoproclamados, em sua necessidade de aparecer, não são nada. E eles nem sequer são punidos com desacato geral, mas são autorizados a continuar suas carreiras. No entanto, você precisa dessa posição na indústria da mídia para obter financiamento de terceiros.

Ao contrário dos EUA, onde a ciência está de fato sob alta pressão política e a política de identidade da direita não apenas ameaça, mas na verdade abole a liberdade de pesquisa, a crise na Alemanha (ainda) não é abrangente: a pesquisa “Barômetro da Ciência”, realizada anualmente desde 2014, revela um nível estável de confiança pública na pesquisa durante esse período. “55 por cento dos entrevistados”, afirma a avaliação para 2024, “têm confiança total ou moderada na ciência e na pesquisa. A proporção de entrevistados que não confiam na ciência e na pesquisa ou que não confiam nelas é de nove por cento.

Há, no entanto, um caso atípico: em 2021, ano em que as medidas para conter a pandemia afetaram todas as áreas da vida, o número daqueles que não confiavam na pesquisa ou não confiavam nela de forma alguma foi de 13%. Isso é consistente com o estudo recente “Trust in Science and Science-Related Populism” (TISP), que entrevistou 72.000 pessoas em 68 países. De acordo com o estudo, 75% dos entrevistados acreditam que os métodos científicos são a melhor maneira de determinar se uma afirmação é verdadeira ou falsa. Os autores afirmam: “A maioria das pessoas confia nos cientistas e concorda que eles deveriam se envolver mais em questões sociais e políticas”.

Atualmente, não há nenhuma perda fundamental de confiança na ciência, nem globalmente nem na Alemanha. No entanto, há sinais de que a confiança é frágil: durante as medidas de combate à propagação da pandemia, o apoio a certas medidas que restringiam a liberdade das pessoas caiu, às vezes drasticamente; A questão aqui é se isso foi simplesmente uma rejeição de medidas específicas ou se a confiança fundamental em uma política que visava se recusar a restringir a economia e a área do trabalho, ao mesmo tempo em que regulava fortemente o lazer e a cultura, havia sido abalada.

É um problema crucial que, durante a pandemia, os tomadores de decisões políticas se esconderam atrás dos cientistas ao tomar decisões impopulares. A referência a dados que não deixam margem de manobra tornou estes últimos altamente expostos e também os colocou na mira de pequenos grupos radicais. O fato de Drosten estar agora chegando à conclusão de que não deveria ter se exposto daquela maneira é preocupante, mas, de acordo com um estudo da cientista de comunicações Nayla Fawzi, de Mainz, este aparentemente não é um caso isolado.

Também existe o risco de que a confiança do público na ciência não a proteja de ser completamente ignorada em tempos de dúvida. A doutrina de extrema direita do governo Trump, que, sob o lema de “erradicar a política woke” e “defender a tradição americana e a civilização ocidental”, está desviando dinheiro de todas as áreas que não estão de acordo com a ideologia, está ameaçando a confiança dos americanos na pesquisa. Os cortes afetam não apenas disciplinas individuais, mas todo o campo: tanto a National Science Foundation (NSF), que realiza pesquisas básicas, quanto os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) estão sendo forçados a demitir funcionários. Espera-se que o NIH economize quatro bilhões de dólares sozinho. As consequências afetariam a todos nós: “O desenvolvimento de novos tratamentos seria atrasado, e a oportunidade de treinar futuras gerações de cientistas importantes diminuiria”, afirma o presidente da Universidade Harvard, Alan Garber.

Dadas as crises iminentes, esta é uma perspectiva preocupante.


Fonte: Neues Deutschland

Por causa das implicações cancerígenas do Glifosato, Bayer é atingida com veredito de US$ 2 bilhões nos EUA

Logotipo da Bayer AG em uma fábrica da fabricante farmacêutica e química alemã em Wuppertal, Alemanha

Logotipo e bandeiras da Bayer AG são fotografados do lado de fora de uma fábrica da fabricante farmacêutica e química alemã em Wuppertal, Alemanha, em 9 de agosto de 2019. REUTERS/Wolfgang Rattay/Foto de arquivo

Por Agência Reuters

BERLIM, 22 de março (Reuters) – Bayer (BAYGn.DE)foi condenada por um júri no estado americano da Geórgia a pagar cerca de US$ 2,1 bilhões a um autor que alegou que o herbicida Roundup da empresa causou seu câncer, disseram os escritórios de advocacia do autor na última sexta-feira.

O veredito, do qual a Bayer disse no sábado que iria apelar, é um dos maiores acordos legais emitidos em um caso relacionado ao Roundup e é o mais recente revés para o grupo, um dos maiores fabricantes de sementes e agrotóxicos do mundo.

A Bayer pagou cerca de US$ 10 bilhões para resolver alegações contestadas de que o Roundup, baseado no herbicida glifosato, causa câncer. Mais de 60.000 outros casos estão pendentes para os quais o grupo reservou US$ 5,9 bilhões em provisões legais.

O grupo farmacêutico e de biotecnologia alemão adquiriu o Roundup como parte de sua aquisição de US$ 63 bilhões da empresa agroquímica norte-americana Monsanto em 2018.

O veredito da Geórgia inclui US$ 65 milhões em danos compensatórios e US$ 2 bilhões em danos punitivos, de acordo com uma declaração enviada por e-mail à Reuters pelos escritórios de advocacia do autor, Arnold & Itkin LLP e Kline & Specter PC.

A Bayer disse em um comunicado que discordava do veredito do júri, pois ele entrava em conflito com o peso esmagador das evidências científicas e o consenso dos órgãos reguladores e suas avaliações científicas em todo o mundo.

“Acreditamos que temos fortes argumentos na apelação para anular esse veredito e eliminar ou reduzir as indenizações excessivas e inconstitucionais”, afirmou.

Ele disse que os danos em casos que chegaram a julgamentos finais foram reduzidos em 90% no geral em comparação com as sentenças originais do júri.

No início deste mês, a Bayer informou aos legisladores dos EUA que poderia parar de vender o Roundup a menos que eles reforçassem a proteção legal contra litígios de responsabilidade pelo produto, disse à Reuters um analista financeiro e pessoa próxima ao assunto.


Fonte: Agência Reuters

Qualis: o estranho rumo dos periódicos científicos

Critérios para avaliar artigos acadêmicos mudarão em breve. Incluirão número de downloads e menções em redes sociais. Avanço rumo à popularização da ciência? Ou mergulho ainda mais profundo na mercantilização e na lógica empresarial?

Arte: Julie Jabur

Por Michel Goulart da Silva para o “Outras Palavras” 

Nos últimos meses, muito se tem comentado acerca do Qualis – o sistema de avaliação dos periódios científicos brasileiros organizado pela Capes – e as mudanças a serem realizadas em seus critérios, notas e rankings. No geral, as reflexões produzidas em torno desse tema têm se limitado a analisar se a forma está correta ou se o novo sistema funcionará. Ou seja, essas reflexões colocam-se dentro dos limites da compreensão de que existe a necessidade de um sistema de avaliação para a pós-graduação e para as publicações acadêmicas e que apenas deve ser melhorada, mantendo a busca de resultados qualitativos e quantitativos. Portanto, não fazem uma avaliação do caráter mercantil dessas avaliações e de como afetam a produção científica em seu conjunto. Há poucas reflexões que tocam no caráter mercantil dessa avaliação e no fato de que esse processo ignora os fundamentos que deveriam embasar a divulgação científica. 

Embora as informações divulgadas pela Capes ainda sejam escassas, sabe-se que, a partir de agora, a classificação dos periódicos passa a ser baseada em artigos publicados e não mais por revistas. Nessa nova proposta, a avaliação passa a ter três critérios fundamentais: 1) número de citações; 2) número de downloads e menções em sites e redes sociais; 3) contribuição científica e impacto teórico. Portanto, com a nova avaliação, o que estava ruim com o Qualis poderá se tornar um desastre que permitirá o aprofundamento do livre mercado acadêmico.

Nos últimos anos, aprofundou-se o caráter mercantil das publicações científicas, em um duplo sentido, “de movimentar valores monetários muito elevados, e de proporcionar altíssimas taxas de lucro”.1 O central na avaliação das publicações acadêmicas vem sendo o número de citações, como forma de medir o prestígio que permite ao pesquisador se destacar em editais e rankings. Esse processo se fortaleceu por meio da imposição de regras sobre a própria escrita dos artigos, como exigir um determinado percentual de citações de artigos recentes, entre outras coisas. Na prática, um autor que verifica resumos num banco de dados de publicações recentes pode ter mais chance de sucesso do que alguém que estuda a fundo e cita a obra de um autor clássico. Uma das consequências dessa forma viciada passa pelo fato de que orientadores de pós-graduação comumente ganhem citações de seus orientados, além das parcerias com outros pesquisadores que participam dos esquemas de coautorias forjadas.

Outro aspecto passa pelo uso da aparição em sites e redes sociais como critério, o que, na era dos algoritmos, torna-se um prato cheio para a difusão momentânea e superficial de artigos que se tornarão irrelevantes depois de pouco tempo. Esse problema coloca em cena o fato de as redes de pesquisadores se mobilizarem para valorizar determinado artigo ou autor sem levar em conta a perspectiva histórica de como essa produção se localiza no processo de produção do conhecimento. Concretamente, serão valorizadas muitas produções que respondem superficialmente a temas de momento e que se tornarão irrelevantes em poucos meses ou mesmo semanas.

Portanto, o centro da questão passa menos pela forma como serão avaliados os artigos e os periódicos, mas se de fato é preciso que se faça uma avaliação quantitativa da produção científica. Esse processo foi inserido, há muitos anos, como parte da avaliação da pós-graduação, a partir da qual se definem critérios para a distribuição de recursos públicos – ou seja, eles definem com qual estrutura os programas de pós-graduação poderão contar em determinado período. Nesse caso, os mecanismos que aumentem a visibilidade de artigos vinculados aos programas, ainda que de forma temporária e forçada, poderão ser utilizadas para destacar critérios que levem a um melhor desempenho.

Essa lógica expressa o processo de mercantilização que vem avançando nas últimas décadas nos meios acadêmicos. Nesse processo, observa-se que “a administração baseada nas avaliações quantitativas é uma faceta da transformação da universidade num simulacro de empresa, daquilo que é produzido (em especial, os artigos científicos) em simulacro de mercadoria, dotadora de simulacros de valor de troca”.2 Portanto, a divulgação científica, na forma de anais de eventos, livros ou de artigos em periódicos, toma a forma de uma mercadoria. Com isso, inverte-se o caráter da produção científica, que deveria ser o de apresentar para os pesquisadores os resultados, parciais ou finais, de projetos desenvolvidos em universidades e centros de pesquisa. Os anais de eventos não deveriam ser produtos onde se vende espaço de publicação, mas a expressão de debates realizados em congressos e simpósios com os pares. Os artigos em revista deveriam mostrar a sistematização de resultados do trabalho realizado por grupos pesquisas. E os livros deveriam mostrar de forma mais densa e acabada o trabalho realizado ao longo dos anos anteriores. Na atual lógica, a preocupação passa por garantir mercadorias que garantam mais linhas no Currículo Lattes.

Concretamente, a divulgação científica deveria ser uma forma de fomentar o diálogo entre pesquisadores do mesmo campo do conhecimento que, a partir da leitura dos materiais difundidos, poderiam avaliar esses trabalhos, criticá-los e, inclusive coletivamente, apontar para novos caminhos nessa produção de conhecimento. Nada disso é possível em meio a proliferação de textos difundidos sem critério levando em conta somente os valores pagos para publicação. Essa indústria de textos pode levar a que se dê mais espaço para trabalhos de pouca qualidade científica, enquanto pesquisadores sérios e comprometidos com a produção de conhecimento pouco publiquem por evitarem entrar nesse jogo de mercantilização.

Esse processo vem sendo imposto ao espaço acadêmico, seja pelas pressões advindas dos interesses privados externos à universidade, seja pela adesão ideológica dos pesquisadores às ideias de mercantilização da pesquisa científica. Esses dois problemas levam à fragmentação do conhecimento, na medida em que seus produtos possam ser mais rapidamente vendidos, e à busca por resultados práticos, evitando-se pesquisas que não levem à satisfação do mercado acadêmico.

Esse processo impacta na produção científica. No capitalismo, “como todas as mercadorias, seu fornecimento é impulsionado pela demanda, resultando que o desenvolvimento de materiais, fontes de energia e processos tornou-se menos fortuito e mais atento às necessidades imediatas do capital”.3 Empobrece-se a produção do conhecimento, que deixa de ser uma busca por compreender os fenômenos da realidade e passa ser, na maior parte dos casos, a mera descrição visando a publicação de textos em anais de eventos ou em revistas.

Esses não são problemas que a nova política de avaliação de artigos pretende diagnosticar e procurar soluções, mas piorar a situação. Quando incentivam na avaliação de periódicos os desvios que vêm desvirtuando a divulgação científica, com a publicação rápida de artigos ou com os convites aleatórios em periódicos duvidosos de textos publicados muitos anos antes, os órgãos responsáveis estão fomentando o fortalecimento da lógica mercantil. O caráter plural da divulgação científica e do debate se perde em meios a eventos em que nada se discute e revistas que os pesquisadores não se interessam em ler, levando a que se limitem a pagar para publicar.

1 Marcos Barbosa de Oliveira. A mercantilização da ciência: funções, disfunções e alternativas. São Paulo: Scientiae Studia, 2023, p. 54.

2 Marcos Barbosa de Oliveira. A mercantilização da ciência: funções, disfunções e alternativas. São Paulo: Scientiae Studia, 2023, p. 235-6.

3 Harry Braverman. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. 3ª ed. Rio de Janeiro: LTC, 2015, p. 146.

Michel Goulart da Silva é É Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Contemporâneo, ditadura no Brasil, modernização, marxismo e cultura política.


Fonte: Outras Palavras

Consumo de água em tempos de escassez hídrica

Segundo uma pesquisa, muitos europeus querem se tornar mais econômicos, mas não sabem exatamente como fazer isso

O maior consumo privado de água ocorre no banheiro e no jardim. Foto: IMAGO/Rolf Kosecki

Por Joaquim Wille para o Neues Deutschland 

Campos secos, aumento da mortandade florestal, rios secos: a Alemanha e a Europa Central passaram por vários anos extremamente secos na última década, sendo os piores de 2018 a 2020 e 2022. Essa experiência aparentemente deixou uma impressão duradoura nas pessoas, como mostra uma pesquisa recente por ocasião do próximo Dia Mundial da Água.

Cerca de dois terços dos europeus preveem escassez de água num futuro próximo, e uma grande maioria de 87% considera importante usar água com moderação em suas casas. No entanto, mais de um terço ainda não instalou dispositivos de economia de água. O principal motivo é provavelmente que muitas pessoas subestimam o consumo real em suas casas. Embora muitos digam que economizar água é importante, de acordo com a pesquisa, 79% subestimam seu consumo real de água. Mais de um quinto (22%) acredita que o consumo per capita na Europa é de apenas um a dez litros por dia. Na realidade, a média é de 144 litros.

De acordo com a Agência Federal do Meio Ambiente (UBA), na Alemanha, o país com a maior população da UE, o consumo de água potável em residências e pequenas empresas diminuiu durante um longo período de tempo nas últimas três décadas, de 144 litros per capita por dia em 1991 para 123 litros em 2016. No entanto, o consumo aumentou novamente durante os anos secos. No ano extremo de 2019, a média foi de 128 litros, e no ano também muito seco de 2022, foi de 126 litros. O motivo do aumento foi a maior demanda de água nos meses muito quentes e secos do verão, de acordo com a UBA.

Recentemente, a situação da água melhorou novamente devido a algumas chuvas fortes. Os solos, que às vezes secavam nos dois metros superiores em quase todo o país, se recuperaram em grande parte, como mostra o “Monitor de Secas” do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental em Leipzig. No entanto, há casos atípicos em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Brandemburgo e Saxônia, onde regiões com “seca severa” e “seca extrema” são atualmente indicadas para o “solo total” até uma profundidade de cerca de 1,80 metros.

Cerca de dois terços dos europeus preveem escassez de água num futuro próximo.

Pesquisas climáticas prevêem que anos secos se tornarão mais frequentes no futuro devido ao avanço do aquecimento global. O Instituto de Tecnologia de Karlsruhe apresentou um estudo que mostra que os níveis das águas subterrâneas, especialmente no norte e leste da Alemanha, podem cair significativamente ao longo deste século, mesmo se o aquecimento global for mantido abaixo de dois graus. Especialistas estão até discutindo o fornecimento de energia de longo prazo para Berlim, com seus 3,9 milhões de habitantes, por meio de uma usina de dessalinização de água do mar na costa do Báltico e um gasoduto de 250 quilômetros de extensão.

Portanto: economizar água pode ajudar a mitigar tais cenários. A pesquisa apresentada agora fornece pistas sobre o motivo pelo qual muitas famílias ainda fazem muito pouco para garantir o uso eficiente da água. Os principais obstáculos citados por aqueles que não planejam mudar para torneiras economizadoras de água e outras soluções de eficiência são: medo dos altos custos dos dispositivos de economia de água (28%), falta de informação (25%) e falta de interesse (24%).

Aqueles que estão em um curso de poupança, por outro lado, esperam principalmente ganhos financeiros: 34% citaram “economizar dinheiro” como o principal motivo. Outras razões, como garantir recursos hídricos para as gerações futuras e proteger o meio ambiente (23% cada), vieram depois.

Como a maior parte do consumo de água em casa é para tomar banho, tomar banho e usar o vaso sanitário, acessórios economizadores de água podem dar uma contribuição importante para economizar água sem ter que sacrificar o conforto. Isso é enfatizado pelo fabricante Grohe, de Düsseldorf, que encomendou a pesquisa. A empresa anuncia grande potencial de economia financeira para seus clientes. Com a “tecnologia Ecojoy” que ele desenvolveu, o consumo de água pode ser reduzido em quase 50%. Isso também reduz os custos de preparação de água quente. A empresa calcula que uma família de quatro pessoas que usa um chuveiro econômico economiza até 47.000 litros de água e 573 euros por ano em custos de água e energia. O preço de compra da poupança poderia, portanto, ser amortizado em menos de um mês.

A pesquisa “Grohe Water Insights 2025” também abordou a situação nos EUA e no Oriente Médio. Não é de se espantar que países como Arábia Saudita e Marrocos estejam à frente das outras regiões em termos de conscientização sobre problemas e priorização pessoal. Com 60% das residências usando conexões economizadoras de água, o uso dessas conexões é um pouco mais difundido aqui.

Na Europa, o risco de escassez de água é considerado mais provável do que nos EUA. No entanto, embora a intenção de economizar água seja semelhante (69%), os acessórios de economia de água.

Na Europa, o risco de escassez de água é considerado mais provável do que nos EUA. No entanto, embora a intenção de economizar água seja semelhante (69%), os acessórios de economia de água são mais amplamente aceitos na Europa (57%) do que na América do Norte (47%).


Fonte: Neues Deustchland