A Enel e seu milhão de podas no estado do Rio de Janeiro: bom para quem?

A caixa postal deste blog recebe diariamente materiais preparados por empresas e agências de publicidade. Como parte disso, recebo frequentemente materiais preparados pela agência que cuida da imagem da concessionária de energia elétrica, a Enel.

A nota em questão aborda a realização de podas de árvores em cidades do estado do Rio de Janeiro entre 2023 e 2024. Segundo a nota que me foi enviada, neste período a Enel Distribuição Rio teria realizado cerca de um milhão podas preventivas de galhos e árvores em todas as 66 cidades da sua área de concessão. A ação, que faz parte do Plano de Ampliação e Confiabilidade do Fornecimento de Energia e Segurança da Rede Elétrica da empresa tem como objetivo declarado reduzir o impacto da vegetação na rede elétrica e reforçar a resiliência do sistema “diante dos crescentes desafios climáticos“.

Segundo dados da nota, só em 2024  teriam sido executadas 561.128 podas, número 41% maior do que o efetuado em 2023. Até o fim de 2025, a estimativa é de que a Enel Rio realizará 628 mil podas, um crescimento de 12% em relação a 2024.

PODA DRÁSTICA É CONSIDERADA INFRAÇÃO AMBIENTAL - AMAU - Associação de  Municípios do Alto Uruguai

Podas drásticas inviabilizam árvores e os serviços ambientais que elas oferecem

O que me preocupa é saber que na cidade de Campos dos Goytacazes, a Enel Rio efetuou 35.560 podas, um incremento de 172% em comparação com 2023! E por que a preocupação?  É que ontem mesmo pude assistir a uma série de podas realizadas na Rua Saldanha Marinho e elas tinham toda a característica do que se pode chamar de “drástica” que é aquela que chega ao ponto de inviabilizar a árvore tamanha é alteração de suas características físicas no pós-poda.

Além disso, é interessante notar que toda essa quantidade de podas está sendo realizada sem que haja o devido acompanhamento por parte de um órgão municipal. Quando observo que as podas estão sendo feitas em alguma rua de nossa cidade, o que se vê é apenas a presença de um caminhão da própria Enel que se encarrega de poda e da remoção do material retirado das árvores. Com isso, quem monitora se o tipo e a intensidade da poda feita é realmente necessária e adequada?

Por outro lado, quando a Enel fala dos crescentes desafios climáticos, o que fica evidente nas podas feitas é que o desafio da proteção climática dos cidadãos não é considerado. Se fosse assim, a primeira coisa que não se faria seria realizar podas no período mais quente do ano, quando qualquer sombra ajudaria a minimizar os efeitos drásticos da perda da proteção dada pelas poucas árvores que existem nas ruas campistas.

Por isso, há que se cobrar das prefeituras fluminenses que parem de deixar algo tão essencial na mão de uma empresa que claramente encara as árvores como um elemento de risco para os seus interesses privados. É que se a Enel continuar podando no ritmo que está, e sem nenhuma supervisão, não sobrará nenhuma árvore para nos proteger dos recordes de temperatura que estão e continuarão ocorrendo por causa das mudanças climáticas.

Alerta Observatório dos Agrotóxicos: Brasil se consolida como o maior consumidor mundial de agrotóxicos

Com informações do portal especializado do agronegócio “Agrolink” fica evidente que o Brasil se consolidou como o maior mercado global de  agrotóxicos em 2024, com vendas estimadas em US$ 14,3 bilhões, superando os Estados Unidos (US$ 13,3 bilhões) e a China ((US$ 10,8 bilhões). A informação foi compartilhada por Anderson Nacaxe, CEO & Co-Founder da Oken.Finance, destacando o crescimento contínuo do setor.

Esse crescimento foi impulsionado pela produção de soja, milho, cana-de-açúcar e café.  Além disso, apesar de um crescimento anual moderado (CAGR de 1,7%), a demanda por agrotóxicos segue forte, refletindo a expansão da área controlada pelo latifúndio agro-exportador.  

Syngenta, UPL, Basf: as empresas que mais vendem no Brasil agrotóxicos  proibidos na Europa - Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

A multinacional suiço-chinesa Syngenta é uma das maiores ganhadoras com o aumento do consumo de agrotóxicos no Brasil

Entre as empresas líderes, a Syngenta mantém sua posição no topo, com previsão de US$ 13,6 bilhões em vendas, seguida por Bayer (US$ 12 bilhões), BASF (US$ 9 bilhões) e Corteva Agriscience (US$ 7,3 bilhões). O mercado global, embora tenha sofrido uma queda em 2023 devido à menor demanda e flutuações cambiais, projeta um crescimento de 1,8% ao ano até 2030. Além do Brasil e dos EUA, a China aparece como terceiro maior mercado, com um ritmo de expansão mais acelerado (Taxa de Crescimento Anual Composta de 3%), impulsionado pela modernização agrícola.  

A América Latina se consolida como motor de crescimento do setor, com Brasil e Argentina liderando. Já nos EUA e na Europa, regulamentações ambientais rigorosas impactam a demanda por  agrotóxicos favorecendo soluções sustentáveis, como biotecnologia e bioagrotóxicos. Outro fator relevante é a concentração de mercado, com as cinco maiores empresas (Syngenta, Bayer, BASF, Corteva e UPL) dominando o setor. 

“O Brasil ultrapassa os EUA e se torna o maior mercado global de agrotóxicos, enquanto a China cresce rapidamente. O futuro do setor dependerá de inovação e adaptação regulatória, com destaque para soluções mais sustentáveis e eficientes”, comentou Nacaxe.

Tendência de crescimento dos agrotóxicos deverá repercutir no aumento de contaminação ambiental e adoecimento no Brasil

Um dado que é omitido nas análises dos analistas do agronegócio é que o crescimento continuo no uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outros mercados como o europeu e até o chinês deverá repercutir no aumento da contaminação ambiental no Brasil, trazendo ainda efeitos sobre a saúde humana, com o aumento potencial de casos de vários tipos de câncer, para começo de conversa.

Por isso é urgente que a questão dos agrotóxicos seja colocada como questão prioritária no debate político, pois só com muita mobilização é que poderemos influenciar diretamente em uma situação que se mostra cada vez mais negativa para o meio ambiente e a maioria da população brasileira


Fonte dos dados deste texto: Agrolink

A raiz da impopularidade de Lula é escondida pela mídia corporativa que pressiona por mais (e não menos) arrocho

O charme e o carismo podem não ser suficientes para salvar seu governo nas urnas em 2026. E a culpa será dele mesmo

O governo do presidente Lula padece neste momento do mesmo problema que assolou o governo do ex-presidente Joe Biden nos EUA.  Apesar de possuir índices econômicos muito melhores do que o do desastroso período de Jair Bolsonaro, a coisa parece muito pior para os pobres do que há dois anos atrás.  Parece não, está.  E está naquilo que conta que é, digamos, a volta do carrinho no supermercado, independente do tamanho do estabelecimento em que se está.

A raiz dessa contradição é que o governo Lula conseguiu êxito nos índices que medem sucesso econômico às custas do encurtamento do investimento público e na criação de barreiras ainda maiores para que os mais pobres possam acessar os poucos benefícios sociais que ainda existem em um estado francamente neoliberal.

A extrema-direita que quer cortar ainda mais direitos e jogar no chão estruturas essenciais como o do Serviço Único de Saúde (SUS) está neste momento navegando em mar de almirante (podendo ser até aquele que participou do golpe de estado mambembe do qual Bolsonaro está sendo acusado de ter sido o mentor).  É que se tornou fácil jogar nas costas do governo Lula todos as culpas das políticas neoliberais que foram implementadas desde janeiro de 2023. É que a maioria que votou em Lula o fez para que fosse feita uma mudança para melhor no que a dupla Bolsonaro/Paulo Guedes tinha feito.  Mas o que acabou sendo entregue foi a receita “Haddad” que, convenhamos, só se difere da anterior porque é entregue sem os xingamentos que se ouvia no governo anterior.

Boa parte da esquerda institucional (o PSOL incluso) está tentando convencer os trabalhadores e a juventude que continuar atolados no pântano da frente ampla em nome da luta contra a extrema-direita é a única saída possível. O problema é que se nada for feito para girar o timão para a esquerda, manter o curso atual será como entregar de bandeja o poder em 2026. Seja quem for o candidato da extrema-direita. E é nesse imbróglio que a porca pode torcer o rabo. É que o trabalhadores, especialmente os mais pobres precarizados, não vivem de comer ideologia.

A mídia corporativa que é aliada dos grandes bancos e do latifúndio agro-exportador continua apresentando todo a situação como se fosse de incompetência do governo Lula em manter as receitas neoliberais que estão afundando o Brasil.   Na verdade, o que todos os analistas da mídia corporativa querem é mais arrocho e mais retirada de direitos, pois, como porta-vozes do rentismo, eles não se importam com a falta de ovos ou do cafezinho na casa dos pobres. Aliás, quanto menos disso tiver para os pobres, maior será o lucro dos que mandam em seus patrões.

Um detalhe interessante nisso tudo foram as eleições equatorianas.  Todos os ditos analistas davam como praticamente certa a reeleição em primeiro turno do bilionário Daniel Noboa que vem aplicando um receituário um pouco mais extremo do que o aplicado por Lula. Pois bem, a eleição não só vai para o segundo turno, como a diferença para a segunda colocada, Luísa Gonzalez, que é do partido do ex-presidente Rafael Correa, foi de apenas meio ponto percentual de diferença.  Mais uma vez, uma população sul americana deu o sinal de que o neoliberalismo, mesmo com o poder econômico na mão, nem sempre ganha de barbada.

O problema aqui no Brasil é o seguinte: o que virá de Lula nos próximos meses será suficiente para salvar seu governo nas urnas em 2026? Até aqui os sinais não são nada animadores, pois o balanço para estar indo mais no sentido do que a mídia corporativa está cobrando. 

Garimpo de ouro (ilegal e legal) está causando grande destruição na Amazônia equatoriana

As empresas de mineração usam escavadeiras para procurar ouro e sulcar a paisagem – isso geralmente é ilegal. Foto: Alamy/ Morley Read
Por Knut Henkel,  de Tena/Equador, para o “Neues Deustchland”

A poucos quilômetros da entrada da cidade fica a área cercada onde 144 escavadeiras laranjas estão alinhadas em várias fileiras. Quase nenhum fabricante conhecido de veículos pesados ​​de construção não está representado. “No início de fevereiro de 2022, unidades do exército e da polícia ao redor de Yutzupino ficaram sérias”, explica Danny Pedromo, um motorista de táxi da cidade equatoriana de Tena, na Amazônia. “Em uma operação de sete dias, cerca de mil policiais uniformizados confiscaram escavadeiras, bombas e outros equipamentos para desacelerar a mineração de ouro.” As empresas de mineração ilegais deixaram para trás uma paisagem devastada e contaminada ao redor do Río Anzu e do Río Jatunyaku. Os dois rios outrora pitorescos se encontram perto da aldeia indígena de Yutzupino e depois deságuam no Río Napo.

O Rio Napo é o maior rio da região da floresta tropical equatoriana e deságua na Amazônia. Por muito tempo também foi importante para o abastecimento de água potável. Mas isso acabou. “Nos últimos anos, centenas de mineradores têm trabalhado nos três rios, escavando o subsolo em busca de ouro e separando o metal precioso da rocha usando mercúrio “, diz Sandra Rueda, advogada e membro do parlamento. “Eles usaram escavadeiras pesadas que foram confiscadas pela polícia e unidades do exército durante a operação e estacionadas na propriedade da administração da cidade.”

Ataques contra garimpeiros ilegais como o recente na Comunidade San Isidro de Puni não acontecem com frequência.

Ataques contra garimpeiros ilegais como o recente na Comunidade San Isidro de Puni não acontecem com frequência. Foto: facebook.com/napoamala.vida

Até hoje eles estão lá e enferrujam. Mas as autoridades não impediram a mineração a céu aberto. “Continuaremos a promover – com novos equipamentos”. Agora, os mineradores estão escavando rios mais acima em busca do metal precioso”, diz Rueda. Ela vem da pequena cidade de Tena e está comprometida em tornar a superexploração mais punível.  O ouro é comum na região amazônica do Equador. Tradicionalmente, as comunidades indígenas extraíam o metal de sedimentos de rios usando uma peneira. No passado, isso era feito sempre que era preciso dinheiro: para o início das aulas, para um casamento ou para financiar os funerais de parentes. Ao contrário de hoje, porém, com a peneira manual, sem equipamentos pesados ​​e o mercúrio tóxico. Nos humanos, o metal pesado danifica principalmente o sistema nervoso e os rins.

O fato de os rios transportarem pequenas pepitas há muito tempo desperta o desejo e traz à tona empresas de mineração ilegais e legais. “O Estado concedeu concessões em várias ondas. No passado, isso acontecia principalmente em regiões remotas, mas agora até mesmo partes da área urbana de Tena, onde moro, foram licenciadas”, diz Sandra Rueda, que trabalhou por muito tempo como promotora pública de crimes ambientais e de direitos humanos. Em 2005, ela recebeu os primeiros relatos de mineração ilegal de ouro. “Naquela época, atuávamos principalmente no distrito administrativo de Carlos Julio Arosemena Tola, confiscando equipamentos pesados ​​e condenando seus proprietários.”

Concessões para 7125 hectares

Mas o Estado muitas vezes prejudica esses pequenos sucessos ao abrir áreas do ecossistema sensível para mineração. Embora isso seja ilegal desde 2008. Naquela época, foi aprovada a nova constituição equatoriana, que concede direitos à natureza e obriga os responsáveis ​​por danos ambientais a restaurá-la. “O único problema é que os políticos não estão cumprindo e o judiciário não está aplicando os direitos da natureza”, diz Rueda com raiva. Para eles, um ponto de virada foi alcançado no final de 2019 e início de 2020, quando se soube que o governo regional de Tena havia concedido concessões de mineração para 7.125 hectares – dos quais cerca de 670 hectares estavam nos arredores da cidade de Tena. Centenas de moradores afetados se reuniram espontaneamente para coordenar a resistência contra a alocação ilegal de terras sem qualquer participação da população. Advogados, donos de restaurantes, operadores de hotéis e albergues, guias de turismo e muitos outros se uniram, coordenaram, estudaram textos legais e entraram com uma ação judicial – contra o estado.

O protesto foi bem-sucedido, como evidenciado pela operação de uma semana realizada três anos atrás, que resultou no confisco de mais de 140 escavadeiras. Esta foi uma primeira reação às críticas da população, que protestava contra a mineração todas as segundas-feiras na ponte sobre o Rio Tena. Naquela época, os ambientalistas tinham grandes esperanças de que as autoridades estabeleceriam limites tanto para a mineração ilegal quanto para a legal, diz Miriam Robles. Ela faz parte da iniciativa Napo ama la vida” (Napo ama a vida) desde o final de 2019 . “Queremos defender o que resta”, explica Robles, que há muito tempo ganha a vida oferecendo passeios de rafting, canoagem e caiaque nos rios. Hoje em dia isso não é mais concebível.

Os rios parecem uma paisagem lunar de uma plataforma de observação que paira sobre o vale a cerca de dez quilômetros de Tena, pouco antes da vila de Yutzupino. Aqui e ali, nuvens de fumaça de diesel ainda podem ser vistas subindo das pesadas escavadeiras que empurram o solo para frente e para trás em busca de partículas de ouro. Quase ninguém em Tena acredita que os garimpeiros ilegais e a empresa de mineração chinesa Terrearth Resources, que detém a concessão oficial, irão renaturalizar a paisagem. “Algo assim nunca aconteceu no Equador antes, embora esteja consagrado na lei”, explica Sandra Rueda. “Napo ama la vida” ganhou vários processos, mas as autoridades simplesmente permaneceram inativas. Isso custou a Miriam Robles seu sustento; passeios de rafting agora são praticamente impossíveis, e então a mulher de 46 anos mudou de carreira. Ela acabou de abrir um restaurante em Tena. Mas, no final das contas, ela não sabe se terá futuro com isso. De qualquer forma, há menos turistas no Equador devido à situação de segurança, e ela também se pergunta se eles retornarão a Tena devido à destruição da natureza.

Alguns colegas, guias, operadores de agências, mas também operadores turísticos passaram a fazer caminhadas na selva, trilhas e visitas a agricultores orgânicos. Mas Miriam Robles não sabe se isso será suficiente para reerguer o que era o setor mais importante antes da pandemia. “A pandemia do coronavírus nos levou à beira da extinção de duas maneiras: porque o turismo não estava funcionando e porque a mineração de ouro criou um fato consumado.” O Estado equatoriano é parcialmente responsável por isso, pois impôs um toque de recolher durante o período e forneceu pouco apoio aos mais pobres entre os pobres, a população indígena, embora eles não pudessem vender seus produtos nos mercados. “Naquela época, a fome e a extrema necessidade tomaram conta de muitas comunidades indígenas, e algumas se voltaram para a mineração de ouro, aceitando ofertas de empresas para montar acampamentos em suas terras”, diz Sandra Rueda. Ainda hoje, os mineradores oferecem de dois a três mil dólares americanos por hectare . »Nada mudou, as pessoas estão procurando ouro o tempo todo. Atualmente, há 40 frentes de financiamento em torno da Tena.

A situação é dramática. No início de janeiro, o presidente Daniel Noboa recebeu um pedido de ajuda das aldeias de Talag e San Carlos, a poucos quilômetros de Tena. Os moradores pediram apoio contra a mineração, que tentava se espalhar em suas aldeias. Eles ainda não receberam uma resposta, mas “Napo ama a vida” espalhou o pedido de ajuda e espera uma resposta da capital Quito. Isso já deveria ter acontecido há muito tempo, pois o presidente Noboa aprovou o Decreto-Lei 435 em outubro de 2024, instruindo as autoridades a registrar, documentar e controlar as atividades de mineração. Mas nada aconteceu desde então.

Mercúrio na Amazônia

O preço do ouro está atualmente em uma alta histórica de US$ 2.670 a onça. O alto preço está alimentando a demanda pelo metal precioso em todo o mundo e garantindo que máquinas pesadas sejam usadas para minerar ouro, e não apenas na América Latina. Na região amazônica, os garimpeiros, muitas vezes bem organizados, são praticamente onipresentes: seja no Brasil, no Peru, na Colômbia ou no Equador. Aqui, seis províncias do país pertencem à região amazônica e, diferentemente de seus vizinhos, o Equador protegeu a região, pelo menos no papel, e deu à população local voz ativa na concessão de concessões de mineração.

“Tudo isso foi definido e fixado de forma clara e inequívoca na Constituição de 2008”, explica Alberto Acosta, ex-presidente da Assembleia Constituinte e também ex-ministro de Minas e Energia. O problema central, no entanto, é o conluio entre empresas de mineração ilegais e legais e as autoridades estatais e autoridades eleitas. “Estamos lidando com estruturas profundamente corruptas e um desrespeito sistemático à legislação nacional.”

Criminologistas como Fernando Carrión acreditam que o sistema judicial é muito fraco. Além disso, o crime organizado está envolvido no comércio ilegal de ouro. A Carrión estima que seu faturamento no Equador já seja de cinco bilhões de dólares. Além do negócio das drogas, que movimenta seis bilhões de dólares, o comércio de pepitas é o segundo pilar. Não é diferente na Colômbia, no Brasil e em outros países. Com muita frequência, os governos têm pouco para combater isso, também porque os cartéis pagam bônus lucrativos em todos os lugares; Isso garante que você desvie o olhar cuidadosamente. Há uma bomba-relógio tóxica na região amazônica. A poluição por mercúrio está aumentando em muitas regiões – incluindo o Equador.

“Estamos lidando com estruturas profundamente corruptas e um desrespeito sistemático à legislação nacional.”

Alberto Acosta 
Ex-Ministro de Minas e Energia


Fonte: Neues Deutschland

Green grabbing: a grilagem “verde” ataca no campo do sul do Piaui

No sul do Piauí, grandes propriedades rurais recorrem ao Cadastro Ambiental Rural e a ferramentas digitais para avançar sobre territórios de comunidades tradicionais, sob o disfarce da preservação do meio ambiente

Por Diego Braga Neto para o Jornal da Unesp 

Pesquisadores da Unesp que atuam no sul do Piauí estão estudando os efeitos e a expansão de uma nova forma de grilagem que afeta a região. Denominada de green grabbing, ela associa o uso de sistemas digitais de georreferenciamento e a utilização de brechas nas leis ambientais para lograr a apropriação de terras públicas e de áreas habitadas por comunidades tradicionais de pequenos agricultores. Um artigo relatando os resultados da pesquisa foi publicado na Revista NERA, ligada ao Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp, câmpus de Presidente Prudente.

Há décadas, os estudiosos da economia rural estão familiarizados com o land grabbing. Esta expressão em inglês identifica um fenômeno geopolítico global. Impulsionados pela demanda mundial por terras, grupos econômicos multinacionais poderosos movimentam-se continuamente para assumir o controle de vastos territórios e recursos naturais em todo o planeta. Estes grupos privilegiam a produção agrícola no formato de monocultura, redundando em múltiplos impactos que incluem o enfraquecimento do solo, os danos aos ecossistemas e a contribuição para as mudanças climáticas.

Já o green grabbing é um mecanismo particularmente perverso, pois é a mesma apropriação de terras e recursos naturais por empresas com muito capital, porém disfarçada sob a justificativa de proteger o meio ambiente. Além dos danos já conhecidos associados à monocultura extensiva, a prática pode levar ao deslocamento de comunidades locais, conflitos sociais e ao comprometimento da segurança alimentar.

Os estudos no sul do Piauí envolvem Samuel Frederico e Marina Castro de Almeida, professores do Departamento de Geografia e Planejamento Ambiental da Unesp do Instituto de Geociências e Ciências Exatas, em Rio Claro, e a doutoranda Bruna Henrique Albuquerque. Os três assinam juntos o artigo relatando a pesquisa, que recebeu apoio da Fapesp e foi conduzida na comunidade de Melancias.

Comunidade surgiu após abolição da escravatura

Com origens que remontam ao período imediatamente posterior à abolição da escravatura (1888) — quando grupos de escravizados recém-libertos se estabeleceram nas terras férteis dos vales das muitas chapadas da região —, Melancias é uma comunidade tradicional baseada na agricultura familiar situada em uma região de serras no sul do estado. Atualmente, ela compreende cerca de 50 famílias espalhadas em seis pequenos núcleos, que sobrevivem de culturas de subsistência, extrativismo vegetal, caça, pesca e da criação de animais.

Serras e áreas de baixio no sul do Piauí, na região do Matopiba, onde se desenvolveu o estudo.

Melancias está incrustada praticamente no centro de uma macrorregião conhecida como Matopiba, que abrange o sul do Maranhão, o oeste de Tocantins, o sul do Piauí e o noroeste da Bahia. O Matopiba é hoje uma das áreas mais cobiçadas pelo agronegócio por seu clima com chuvas bem distribuídas e uma topografia predominantemente plana, característica do Cerrado.

Samuel Frederico, coordenador da pesquisa e docente do Programa de Pós-Graduação em Geografia na Unesp em Rio Claro, explica que  “a mágica do green grabbing só acontece porque se vale de uma cortina de fumaça de legalidade”. Pelo Código Ambiental Brasileiro, editado em 2012, todas as propriedades rurais devem, obrigatoriamente, preservar parte de seu terreno, a chamada reserva legal. No bioma Cerrado, onde se localiza a comunidade de Melancias, a reserva legal deve ser de 20% da área total das propriedades rurais.

A grilagem recorre ao CAR

O Cadastro Ambiental Rural, ou simplesmente CAR, foi criado em 2012. Nas palavras dos pesquisadores da Unesp, trata-se de “um instrumento engenhoso e surpreendente”. Engenhoso porque é um sistema online que reúne todas as informações ambientais exigidas para a regularização de qualquer propriedade rural no Brasil. O cadastro é feito com base em coordenadas de georreferenciamento, definindo o perímetro do imóvel e apontando quais partes são produtivas e quais são reserva legal ou mesmo áreas de proteção permanente (como nascentes, margens de rios e outras).

É surpreendente por ser autodeclaratório, ou seja, os próprios proprietários preenchem os dados e indicam a situação ambiental de seu imóvel. Embora o sistema tenha sido muito criticado na época de seu lançamento, seu uso se difundiu e, apesar da existência de fraudes, vem funcionando muito melhor do que o esperado em diversas regiões do Brasil, contribuindo para a melhora da qualidade dos dados disponíveis sobre propriedades rurais.

Com o avanço do agronegócio extensivo na região da comunidade de Melancias, plantações, sobretudo de soja, se espalharam pelas áreas das chapadas. O terreno plano possibilita a mecanização da produção, com o uso de máquinas para plantar e colher os grãos. Entre a chegada das primeiras fazendas de grãos, em 1985, até o ano de 2015, a área utilizada para a monocultura aumentou mais de 1.400%, praticamente cercando todo o território ocupado por Melancias (veja quadros abaixo).

Fonte: Fronteira agrícola e green grabbing: apropriação digital de terras nos Cerrados Piauienses

O pesquisador da Unesp diz que a maior parte das áreas ocupadas pelo avanço das fazendas consistia em terras devolutas, que foram sendo apropriadas de forma privada por uma série de mecanismos ilegais. Com o tempo, houve o esgotamento natural de parte do solo. Ao mesmo tempo, a legislação obrigou os proprietários a destinar 20% do bioma Cerrado de suas fazendas para a reserva legal. “Como ocuparam a quase totalidade das áreas chapadas com a produção de soja, não havia onde [os proprietários] alocarem a reserva legal. Onde eles começaram a alocar a reserva legal? Sobre os vales fluviais”, explica Frederico.

No preenchimento do CAR, os donos das fazendas passaram a apontar as áreas dos vales como sendo parte do seu território. Essa estratégia atende dois objetivos. Primeiro, regulariza a situação ambiental das fazendas, ao descrever as áreas preservadas dos vales como se fossem a sua reserva legal obrigatória. Segundo, possibilitam uma ampliação da área dos imóveis rurais ao avançar sobre as chamadas terras devolutas, que são áreas públicas que não têm uma destinação específica pelo poder público. Junto com as terras, os fraudadores passam a ser “donos” também das margens dos rios que cortam os vales. Com isso, o ciclo do green grabbing se fecha.

“A ideia de green grabbing deriva desse conceito maior, da narrativa e da justificativa de proteção ambiental e de mitigação das mudanças climáticas para se apropriar das terras”, diz o pesquisador.

Fonte: Fronteira agrícola e green grabbing: apropriação digital de terras nos Cerrados Piauienses

Os moradores da comunidade de Melancias não possuem títulos, escrituras ou quaisquer outros documentos que lhes assegurem a posse da terra, embora seus antepassados lá residam há gerações. E há outro agravante. Frederico explica que a Constituição Federal somente reconhece a titulação de terras ocupadas por grupos indígenas e quilombolas. Melancias nunca foi um quilombo e se autodeclara como comunidade ribeirinha tradicional. Por isso, apesar de habitarem a região há mais de um século, não detêm a posse das terras que ocupam.

A luta das famílias ribeirinhas da região pelo reconhecimento de seu território se tornou um caso emblemático da violência sofrida pelos povos e comunidades tradicionais em virtude do avanço das fronteiras agrícolas. Hoje, a comunidade conta com o apoio de organizações civis e sociais nacionais e estrangeiras, que oferecem suportes como assessoria jurídica, elaboração e veiculação de relatórios de denúncia, atuação junto ao poder público e organizações supranacionais.

Em 2020, a Justiça Federal concedeu, em caráter liminar, a suspensão de “qualquer atividade que represente perturbação da posse tradicional exercida pela comunidade de Melancias”. A ação foi proposta pelo Ministério Público Federal (MPF), que apontou omissão e a responsabilidade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do Instituto de Terras do Piauí (Interpi).

Cercamento irregular avançando sobre terras tradicionais da comunidade de Melancias

Para o MPF, os órgãos públicos falharam em não promover a regularização fundiária do território ocupado por Melancias. Com isso, contribuíram para a instabilidade social e os conflitos fundiários na região. No entanto, a decisão definitiva sobre a posse das terras não tem data para sair.

Green grabbing já se disseminou no país

Bruna Henrique Albuquerque diz que o caso de Melancias é apenas mais um entre outros similares que estão ocorrendo no Brasil, principalmente em locais onde as fronteiras agrícolas avançam sobre terras devolutas. “Infelizmente, é generalizado. Há muito impacto nas comunidades locais. Grileiros e grandes grupos econômicos estão usando o CAR ou mesmo o SIGEF [Sistema de Gestão Fundiária], que é o cadastro digital do Incra, que também é autodeclaratório, para o cercamento de terras”, diz ela.

Apesar de testemunhar um exemplo direto de mau uso das ferramentas digitais de gestão ambiental, ela acredita que os sistemas atuais são bons e precisam de aperfeiçoamento, não de uma refundação. “Como geógrafa, acho a informação geoespacial extremamente necessária. Com estes sistemas, conseguimos implementar políticas públicas”, avalia. “A forma como o sistema tem sido utilizado é o problema. Mas é importante ter os imóveis rurais organizados para sabermos onde estão e quem são os donos, ou quem alega ser”diz.

Frederico concorda. “A simples existência do cadastro traz vantagens para o órgão regulador. A despeito da qualidade da informação fornecida, a partir dele as autoridades se tornaram capazes de identificar o responsável legal pelo imóvel. Todo CAR exige a inclusão de dados sobre o proprietário ou posseiro, bem como sobre os respectivos títulos que respaldam a situação fundiária descrita no cadastro”, explica.

“Se melhorarmos a fiscalização dos registros já será um grande avanço. O Brasil é enorme, e é praticamente impossível que se verifique pessoalmente todas as propriedades. Então, uma solução é priorizar áreas sensíveis, que abriguem comunidades tradicionais já existentes, e também comunidades quilombolas e indígenas”, diz.

Imagens acima: Samuel Frederico.


Fonte:  Jornal da UNESP

Stonex, grande trader dos EUA, comprou ouro extraído ilegalmente nas florestas da Amazônia brasileira

Documentos revelam como o metal escavado por garimpeiros ilegais chega às grandes empresas por meio de uma rede obscura de fornecedores

Por Grace Murray , Andrew Wasley , Poliana Dallabrida , Daniela Penha  e  André Campos para o TBIJ em parceria com a Repórter Brasil

A grande empresa de serviços financeiros dos EUA, StoneX, comprou milhões de dólares em ouro de uma empresa ligada à mineração ilegal, desmatamento e poluição por mercúrio na floresta amazônica, segundo o Bureau of Investigative Journalism (TBIJ) e a Repórter Brasil.

Documentos mostram que um dos fornecedores brasileiros da StoneX obteve ouro de uma vasta rede de mineradores informais de toda a Amazônia, incluindo alguns sancionados pela agência ambiental do Brasil.

A floresta amazônica – um amortecedor crítico contra o colapso climático – é um viveiro de produção ilícita de ouro e os altos preços levaram a uma onda de mineração informal “selvagem”, que está ligada a danos ambientais. Os investidores tendem a ver o ouro como uma aposta segura em tempos de incerteza econômica e os preços atingiram uma alta histórica recentemente em meio à ameaça de uma nova guerra comercial iniciada por Donald Trump.

Embora mineradores informais não possam exportar diretamente, grandes comerciantes internacionais ainda podem obter ouro ilícito por meio de exportadores licenciados. Documentos vistos pelo TBIJ mostram que em setembro de 2023, uma dessas empresas, a Coluna, vendeu à StoneX uma remessa de ouro de US$ 4,6 milhões (£ 3,7 milhões) que incluía mineradores sancionados entre seus fornecedores.

As duas empresas ainda estavam fazendo negócios em outubro de 2024, quando a StoneX comprou outros dois lotes de ouro por £ 1,2 milhão, embora não se saiba se parte desse ouro era ilícito.

Carga encalhada

As revelações decorrem de um incidente em setembro de 2023, quando agentes da alfândega de São Paulo pararam uma carga de ouro de US$ 4,6 milhões destinada a uma subsidiária da StoneX em Dubai. Ela foi retida após agentes do aeroporto encontrarem uma discrepância com o peso que havia sido declarado pela Coluna.

A Coluna entrou com uma ação judicial para liberar a carga e, ao fazê-lo, revelou uma extensa rede de fornecedores de mineradores ilegais.

A atividade ilegal aumentou no Brasil depois que Jair Bolsonaro se tornou presidente em 2019 e tem sido associada à poluição tóxica, à devastação de terras indígenas e a ameaças às comunidades locais.

O problema foi reduzido significativamente depois que o novo governo brasileiro implementou medidas para combater a mineração ilegal em 2023 – incluindo a digitalização de faturas, o que torna as cadeias de suprimentos mais fáceis de mapear.

Mas a origem do ouro da Amazônia ainda pode ser difícil de rastrear. Como os mineradores selvagens não são autorizados a exportar ouro eles mesmos, eles vendem para uma rede de intermediários que abastecem o pequeno número de exportadores de metais preciosos autorizados pelo banco central do Brasil.

“É muito fácil para ouro extraído ilegalmente entrar no sistema”, disse Ane Alencar, diretora de ciência da organização não governamental Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). “É importante tornar o ouro rastreável”, ela acrescentou.

 

 

A StoneX disse à TBIJ que é um membro responsável da indústria global de metais preciosos e conduz uma extensa due diligence. A empresa acrescentou que segue políticas e processos robustos para verificar a legitimidade da origem de todos os metais preciosos que adquire, obtendo todos esses metais em estrita conformidade com os requisitos legais e regulatórios aplicáveis.

A StoneX disse que o metal impedido de sair do Brasil já estava no sistema bancário brasileiro quando a empresa o comprou, e que a StoneX coletou os certificados de origem e documentação de antecedentes necessários. Ela acrescentou que a Coluna, que continua exportando até hoje, foi licenciada pelo Banco Central no Brasil. A Coluna não respondeu aos pedidos de comentário.

 

Ouro à venda em Dubai, para onde se destinava o carregamento de ColunaAliança de Imagens DPA / Alamy

 

Rastro de papel

Os documentos que a Coluna entregou às autoridades incluem quase 1.200 faturas de mineradores ilegais para dois dos intermediários que fornecem à Coluna.

No total, mais de 12,2 kg de ouro, faturados por mais de 2,9 milhões de reais (R$) (£ 474.000), estavam vinculados a crimes ambientais, descobriram o TBIJ e a Repórter Brasil. Isso representa 16% da remessa. E mais de 200 dessas faturas, representando a grande maioria, vieram de uma cooperativa selvagem que foi multada em R$ 2,2 milhões (cerca de £ 350.000) em 2022 por crimes como desmatamento, operação em terras não autorizadas e uso de mercúrio.

O mercúrio é usado por mineradores para separar o ouro do minério, mas o produto químico é altamente tóxico e, se usado de forma irresponsável, pode envenenar o abastecimento de água local e matar a vida selvagem. “Os peixes contaminados não ficam apenas na área onde a mineração ocorreu”, disse Ana Claudia Vasconcellos, pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, no Rio de Janeiro. Ela disse ao TBIJ que o mercúrio pode afetar áreas a até 100 km de distância.

Seu uso na mineração de ouro no Brasil só é permitido com licença e em conformidade com certas regulamentações nacionais. Uma das multas da cooperativa foi relacionada à aquisição de 100 kg de mercúrio. Outra detalhou o uso de mercúrio na produção de pelo menos 147,8 kg de ouro que violou requisitos ambientais.

A Coopemiga, a cooperativa, disse à Repórter Brasil que reformulou sua gestão no final de 2023 e está progressivamente adotando técnicas mais seguras e ambientalmente responsáveis ​​para extração de ouro. A StoneX disse que entendeu que os membros apropriados da cooperativa foram responsabilizados após a investigação de 2022.

A StoneX é membro da London Bullion Market Association (LBMA), que promove o fornecimento responsável de metais preciosos e define padrões do setor para empresas.

Alan Martin, seu chefe de fornecimento responsável, disse: “A LBMA leva todas as acusações relacionadas ao fornecimento impróprio de ouro com a maior seriedade [e] mantém regras rígidas para seus membros e refinadores credenciados.”

Martin disse que a LBMA investiga qualquer potencial violação da qual tenha conhecimento e observou que a investigação das autoridades brasileiras sobre a carga bloqueada da Coluna estava em andamento e ainda não havia encontrado nenhuma conclusão definitiva de irregularidade. A LBMA também não viu nenhuma evidência de violação de suas regras para membros em sua própria investigação preliminar. A LBMA está bem ciente dos desafios de fornecimento causados ​​por mineradores ilegais na região da Amazônia brasileira e trabalhou para destacar o problema, ele acrescentou.

 

Uma operação de mineração “selvagem” na Amazônia brasileira. Alain Nogues / Sygma via Getty

 

Um mercado obscuro

Embora a operação da StoneX em Dubai fosse a destinatária listada para a remessa apreendida de US$ 4,6 milhões, o ouro seria de fato carregado em um voo comercial da Swiss International Air Lines para Zurique, levantando mais questões sobre a rastreabilidade do ouro da Amazon vendido internacionalmente. Não está claro se a Suíça era ou não o destino final.

De acordo com a análise de registros comerciais do TBIJ, a operação da StoneX em Dubai movimenta regularmente ouro diretamente da Suíça para a Turquia sem passar pelos Emirados Árabes Unidos. No entanto, a entidade da StoneX na City of London transporta ouro pela mesma rota, e também dos Emirados Árabes Unidos para a Índia.

Mark Pieth, advogado e autor do livro Gold Laundering, disse ao TBIJ que o destino real de uma carga frequentemente será diferente do listado. “O que você tem que se acostumar neste mundo de comércio de trânsito é que você tem as mercadorias indo para um lado e a papelada para outro”, disse ele. No caso da carga bloqueada da Coluna, não está claro por que a documentação listou um destino diferente do voo em que deveria ser carregada.

Entre agosto de 2023 e outubro de 2024, a divisão de Dubai da StoneX transportou mais de US$ 400 milhões (cerca de £ 312 milhões) em ouro da Suíça para empresas de refino na Turquia. Essas empresas transformam o metal em barras — ouro de alta pureza, geralmente armazenado como um ativo de reserva por bancos — ou o vendem para fabricantes de joias.

Registros comerciais mostram que um dos compradores turcos, Ahlatci, enviou uma série de remessas de ouro da Suíça para os Emirados Árabes Unidos em nome da StoneX em 2023.

Ahlatci não respondeu ao pedido de comentário do TBIJ. Uguras, outro comprador turco de ouro StoneX Dubai da Suíça, disse ao TBIJ que apenas ouro de refinarias credenciadas pela LBMA tem permissão para ser importado para a Turquia, e que esta e outras medidas garantem que ele obtenha fontes responsáveis.

Os registros também mostram que outro comprador turco de ouro da StoneX de 2023 foi a Istanbul Gold Refinery. Suas barras estão disponíveis para compra no site de barras de ouro da StoneX.

A Istanbul Gold Refinery disse à TBIJ que não comprou nenhum ouro doré (barras de ouro não purificadas) da StoneX do Brasil. Quando questionada, ela não respondeu a pedidos de esclarecimento sobre se comprou ouro em outras formas, ou como garantiu que o ouro da StoneX comprado da Suíça não poderia ter vindo originalmente do Brasil.

A Swiss International Air Lines disse ao TBIJ: “Nós garantimos o transporte com os mais altos padrões de segurança e sempre cumprimos as sanções aplicáveis ​​e outras regulamentações comerciais.”

 
Imagem principal: Alain Nogues / Sygma via Getty

Repórteres: Grace Murray, Andrew Wasley, Poliana Dallabrida, Daniela Penha e André Campos
Editor de meio ambiente: Robert Soutar
Editor adjunto: Chrissie Giles
Editor: Franz Wild
Editor de produção: Alex Hess
Verificador de fatos: Alice Milliken


O TBIJ tem vários financiadores, uma lista completa dos quais pode ser encontrada aqui . Nenhum dos nossos financiadores tem qualquer influência sobre decisões editoriais ou produção.


Fonte: TBIJ

EUA detêm imigrantes da Venezuela na base militar de Guantánamo

Os presos seriam integrantes da organização criminosa “Tren de Aragua”, mas nenhuma evidência apresentada. As famílias são privadas de informação e contacto

Entrada para o Camp Delta, Baía de Guantánamo, Fonte:Kathleen T. Rhem, 
Por Philipp Zimmermann para o Amerika21

Washington, D.C. O governo do presidente dos EUA, Donald Trump, aparentemente deteve pelo menos 100 migrantes venezuelanos no campo de detenção da Baía de Guantánamo. Os homens foram transferidos de uma prisão no estado do Texas para a notória base militar dos EUA em Cuba, relata o New York Times . Em uma reportagem recente, o portal Infobae fala até de 175 venezuelanos que foram levados para Guantánamo.

As pessoas em questão foram classificadas pelas autoridades como “imigrantes ilegais de alto risco”. A secretária de Segurança Interna de Trump, Kristi Noem, descreveu os prisioneiros levados para Guantánamo como “os piores dos piores”.

Sobre os próximos passos, Noem disse à imprensa que os presos receberão o “devido processo”.

No entanto, sua declaração de que “as instalações na Baía de Guantánamo serão uma vantagem para nós e nos permitirão continuar fazendo o que sempre fizemos lá” causou irritação. O campo de prisioneiros dos EUA na baía ocupada de Guantánamo, em Cuba, ganhou notoriedade no início dos anos 2000, quando centenas de prisioneiros muçulmanos foram mantidos e torturados ali durante anos em condições desumanas .

De acordo com relatos recentes, muitos dos prisioneiros atualmente detidos em Guantánamo estão sendo vigiados por militares em vez de autoridades de segurança civis. Isso apesar das garantias do governo Trump de que os detidos permaneceriam sob a jurisdição das autoridades civis de imigração. Alguns venezuelanos também estão alojados na mesma ala da prisão onde, até recentemente, eram mantidos prisioneiros suspeitos de pertencerem à Al-Qaeda.

Em alguns casos, as famílias dos detidos moveram ações judiciais contra sua transferência para Guantánamo . Juntamente com organizações de direitos humanos, eles denunciaram o fato de que os familiares não receberam nenhuma informação sobre as condições da prisão e não foram autorizados a ter contato com os prisioneiros. Como resultado, um tribunal no estado do Novo México bloqueou a transferência de mais três prisioneiros. Eles foram então levados para a Venezuela em voos diretos.

Também surgiu uma polêmica devido às acusações das autoridades norte-americanas de que os venezuelanos detidos supostamente pertencem à organização criminosa “Tren de Aragua”. Esta organização foi fundada há cerca de 15 anos em uma prisão no estado venezuelano de Aragua e expandiu suas atividades internacionalmente nos últimos anos. O grupo está envolvido em tráfico de drogas, extorsão e sequestro.

Enquanto isso, Jessica Myers Vosburgh, representante da organização de direitos humanos dos EUA Center for Constitutional Rights, alertou contra a atribuição precipitada de culpa. Em alguns casos, a acusação de que os migrantes pertenciam ao “Trem de Aragua” era infundada. A classificação geral como membros de gangues pelas autoridades norte-americanas representaria um risco para esses indivíduos, pois eles teriam que temer retaliações da organização criminosa.

A transferência de prisioneiros venezuelanos para a base naval ocupada pelos EUA em Cuba parece ser apenas o começo.

O presidente dos EUA, Trump, ordenou recentemente ao Departamento de Segurança Interna que preparasse a base militar para acomodar 30.000 detidos estrangeiros.

No final de janeiro, o Secretário de Defesa Pete Hegseth reiterou a crescente militarização da política migratória dos EUA: “Quando identificamos criminosos ilegais em nosso país, os militares vão em frente para ajudar a trazê-los para seus países de origem ou, enquanto isso, para outros países”, disse Hegseth. “Se eles não podem ir a lugar nenhum agora, podem ir para a Baía de Guantánamo”, ele ameaçou.

O governo cubano criticou duramente a detenção de migrantes na base dos EUA . “Muitas das pessoas que os Estados Unidos estão expulsando ou pretendem expulsar são vítimas das políticas de pilhagem do governo e atendem a necessidades de mão de obra que sempre existiram na agricultura, construção, indústria, serviços e vários setores da economia dos EUA”, disse o Departamento de Estado em um comunicado publicado em seu site.

Outros são resultado de uma entrada mais fácil nos Estados Unidos, “de regulamentações seletivas motivadas politicamente que os acolhem como refugiados”. A emigração deles “é também uma consequência dos danos socioeconômicos causados ​​por medidas coercitivas unilaterais”.

A instalação militar é conhecida internacionalmente, entre outras coisas, por “hospedar um centro de tortura e detenção indefinida que fica fora da jurisdição dos Estados Unidos e onde pessoas que nunca foram acusadas ou condenadas por um crime são mantidas por até 20 anos”.


Fonte: Amerika21

O dilema ambiental da Inteligência Artificial em um mundo cada vez mais digital

Imagem: Freepik

São Paulo, fevereiro de 2025 – A ascensão das Inteligências Artificiais Generativas, tanto para uso pessoal quanto corporativo, já é uma realidade e vem revolucionando diversos setores, impulsionando a inovação e a produtividade. No entanto, seu uso contínuo e crescente tem gerado impactos ambientais e sociais significativos, devido ao alto consumo de energia e água, especialmente nos data centers. Esses centros de processamento, armazenamento e gerenciamento de dados utilizam milhões de litros de água para lidar com os grandes volumes de informações que recebem. Por exemplo, o GPT-4, a versão mais avançada do chat de IA generativa da OpenAI, pode consumir até meio litro de água para gerar um único e-mail.

Com o aumento da demanda por modelos avançados de Inteligência Artificial, a necessidade de centros de dados robustos cresce na mesma proporção. Essas estruturas exigem uma quantidade massiva de energia para operar e resfriar os servidores, resultando em um impacto ambiental considerável. Segundo um estudo realizado pela Deloitte, só em 2023 essas estruturas foram responsáveis pelo consumo de 1,4% da energia global. Além disso, apenas o treinamento de um grande modelo de linguagem de IA pode gerar cerca de 300 toneladas de CO2.

Diante desse cenário, é essencial compreender os desdobramentos energéticos e ecológicos que o uso excessivo de IA poderá causar. Gustavo Fortuna, líder em Inteligência Artificial da BlueShift, empresa referência em soluções de dados e tecnologia, destaca que promover o uso sustentável da IA depende de práticas sólidas de governança por parte das empresas de tecnologia. “A adoção de medidas sustentáveis e a transparência sobre questões ambientais são essenciais para que tanto as empresas quanto o público em geral possam fazer um uso consciente dessas ferramentas.”

A urgência de práticas mais sustentáveis nas empresas deve acelerar a implementação de regulamentações não apenas para o uso, mas também para a criação e aprimoramento das Inteligências Artificiais. A União Europeia já deu um passo importante nesse sentido com o AI Act, o primeiro marco legislativo mundial sobre IA, que busca garantir a segurança e o uso ético dessas tecnologias. Contudo, embora seja um avanço significativo, o AI Act ainda não aborda de maneira aprofundada a sustentabilidade e o impacto ambiental das inteligências artificiais, nem estabelece limites claros sobre o consumo de energia e água pelas empresas. Em contrapartida, em Frankfurt, na Alemanha, uma iniciativa já limita a construção de novos data centers e o consumo de recursos, mostrando novas alternativas para regulamentar este setor.

Para Gustavo Fortuna, a criação de políticas de regulamentação das IAs deve buscar o equilíbrio entre os avanços tecnológicos e a proteção ambiental. “As próprias IAs podem ser usadas para analisar dados e tendências climáticas de forma mais aprofundada. Com a transparência das empresas que gerenciam essas ferramentas, podemos estabelecer processos para medir os impactos ambientais e sociais das IAs e como mitigá-los de forma eficaz”, explica.

Do “Consenso das Commodities” ao “Consenso da Descarbonização”

Por Breno Bringel e Maristella Svampa  para o “Nueva Sociedad”

Estamos vivendo um momento decisivo, marcado por um alto nível de fragilidade e incerteza diante da emergência climática e dos múltiplos riscos e destinos globais possíveis. A narrativa de estabilidade, governança nacional e governança global criada nas últimas décadas por atores hegemônicos desmoronou, primeiro com a crise de 2008 e depois com a pandemia de Covid-19. A imprevisibilidade e a instabilidade se converteram na norma diante de uma sequência de crises profundas (sociais, políticas, sanitárias, geopolíticas, econômicas e ecológicas) que não podem mais ser tratadas como antes, pois se justapõem e se reforçam mutuamente.

Estamos passando de múltiplas crises para uma policrise civilizacional, ou seja, crises inter-relacionadas que estão causalmente interligadas – isto é, produzem danos maiores do que a soma do que produziriam isoladamente – e questionam o modelo civilizacional baseado no crescimento ilimitado, progresso e desenvolvimento. Somam-se a esse cenário o fortalecimento da extrema direita e dos autoritarismos, a erosão da democracia, o controle digital e tecnológico da vida e o fortalecimento da cultura da guerra, conforme sugerido pelo Pacto Ecossocial e Intercultural do Sul em sua recente Declaração de Bogotá.

Diante destas tendências, a transição socioecológica deixou de ser uma questão restrita a grupos de ativistas e cientistas para se tornar o eixo central das agendas políticas e econômicas contemporâneas. Entretanto, duas questões importantes surgem aqui. Primeiro, diante da urgência da descarbonização, há uma tendência de reduzir a transição socioecológica – cujo entendimento integral deve abranger os níveis energético, produtivo, alimentar e urbano – à transição energética. A segunda questão está associada à forma como a transição energética é realizada e quem pagará os custos.

A transição energética, impulsionada principalmente por grandes corporações, fundações e governos do Norte global e dos países emergentes em direção à energia supostamente “limpa”, está exercendo uma pressão cada vez maior sobre o Sul global. Para que a China, os Estados Unidos e a Europa avancem em direção à desfossilização, novas zonas de sacrifício estão sendo criadas nas periferias globais. Há vários exemplos dessa dinâmica: a extração de cobalto e lítio para a produção de baterias de alta tecnologia para carros elétricos afeta brutalmente o chamado “triângulo do lítio” na América Latina e no norte da África; a crescente demanda por madeira de balsa – abundante na Amazônia equatoriana – para a construção de turbinas eólicas exigidas pela China e por países europeus destrói comunidades, territórios e biodiversidade; e a nova licitação para megaprojetos de painéis solares e infraestrutura de hidrogênio aumenta ainda mais a apropriação de terras.

Esse processo está se tornando conhecido no ativismo e nos estudos críticos como “extrativismo verde” ou “colonialismo energético”: uma nova dinâmica de extração capitalista e apropriação de matérias-primas, bens naturais e mão de obra, especialmente (embora não exclusivamente) no Sul global, com o objetivo de uma transição para a “energia verde”.

Argumentamos que o colonialismo energético é a peça central de um novo consenso capitalista, que definimos como o “Consenso da Descarbonização”. Trata-se de um acordo global que defende a mudança de uma matriz energética baseada em combustíveis fósseis para uma matriz sem emissões de carbono (ou com emissões reduzidas), baseada em energias “renováveis”. Seu leitmotiv é lutar contra o aquecimento global e a crise climática, estimulando uma transição energética promovida pela eletrificação do consumo e pela digitalização. No entanto, em vez de proteger o planeta, contribui para destruí-lo, aprofundando as desigualdades existentes, exacerbando a exploração dos recursos naturais e perpetuando o modelo de mercantilização da natureza. Este texto analisa como se produziu a mudança dos consensos capitalistas globais anteriores – o “Consenso de Washington” e o “Consenso das Commodities” – para o “Consenso da Descarbonização”. Ele também discute suas principais características, bem como as linhas de continuidade e ruptura em um mundo multipolar. Por fim, apresenta uma série de reflexões e propostas em relação à transição energética, tanto em termos geopolíticos quanto locais-territoriais.

Do “Consenso de Washington” ao “Consenso da Descarbonização” (via “Consenso das Commodities”)

O processo de liberalização comercial e econômica, desregulamentação, privatização, redução do Estado e expansão das forças de mercado nas economias nacionais, iniciado na década de 1980 e consolidado na década de 1990, recebeu o nome de “Consenso de Washington”. Conhecemos bem a receita trágica: um pacote de reformas que promoveu o fundamentalismo de mercado, estabelecendo o neoliberalismo como a única alternativa após a queda do Muro de Berlim. Foi um consenso entre diversos atores que promoveu a globalização neoliberal, com um peso especial das instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial (BM), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Apesar das diferenças de nuance, uma série de políticas de ajuste estrutural foi imposta aos países do Sul, promovendo o livre mercado.

Essas políticas foram elaboradas tendo a América Latina como ponto de referência e acabaram sendo referendadas por boa parte dos governos da região. No entanto, os graves efeitos ambientais e sociais e as múltiplas crises econômicas que elas geraram em vários países latino-americanos serviram de base para sua crítica política e intelectual. Resistência, redes e movimentos sociais começaram a se articular contra os acordos de livre comércio, a globalização neoliberal e seus principais símbolos. Os protestos contra a OMC, o Banco Mundial, o FMI, as campanhas contra a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e o Fórum Social Mundial foram processos fundamentais que articularam a denúncia do “Consenso de Washington” com o objetivo de gerar alternativas e convergências para “outros mundos possíveis”.

Na virada do século, esse ciclo global e regional de protestos foi acompanhado por intensas mobilizações em países como Argentina (2001), Venezuela (2002) e Bolívia (2003), que impulsionaram o surgimento do chamado “ciclo progressista” latino-americano e de um imaginário pós-neoliberal. Os progressismos latino-americanos exigiram um papel mais proeminente do Estado, com políticas sociais direcionadas e, em alguns casos, redistributivas, mas o fizeram de forma intimamente ligada ao fortalecimento do capital privado multinacional. O que foi vendido em vários países como uma política win-win, em que os pobres melhoravam de vida enquanto os ricos continuavam a enriquecer, foi possível graças à entrada da América Latina em uma nova ordem econômica e político-ideológica sustentada pelo auge dos preços internacionais de matérias-primas e bens de consumo cada vez mais exigidos pelos países centrais e potências emergentes como a China.

Essa nova ordem, caracterizada pela hegemonia do desenvolvimento neoextrativista, marcou a transição para outro tipo de consenso capitalista: o “Consenso das Commodities “, visto por atores muito diversos e heterogêneos – dos mais conservadores aos mais progressistas – como uma autêntica “oportunidade econômica”. As economias latino-americanas foram reprimarizadas e a dinâmica de desapropriação se acentuou de forma muito violenta, com a destruição da biodiversidade e a expulsão e o deslocamento de populações de seus territórios.

Nesse contexto, aumentaram a conflituosidade social e a resistência das comunidades e dos movimentos sociais à expansão do agronegócio, aos megaprojetos de mineração a céu aberto, à construção de grandes barragens hidrelétricas e à expansão da fronteira de petróleo e energia para hidrocarbonetos não convencionais. Mas as lutas de resistência contra o desenvolvimentismo neoextrativista, nas quais os movimentos ecoterritoriais desempenharam um papel de liderança, não se limitaram a um repertório reativo. Do “não” emergiram muitos “sins” e alternativas ao desenvolvimento e novos horizontes propositivos começaram a ser cultivados, como o Bem Viver, os bens comuns, a plurinacionalidade, os direitos à natureza e o paradigma do cuidado.

O fim do boom das commodities em meados de 2010 coincidiu com o fim desse ciclo progressista e com o fortalecimento da direita em vários países, em meio a uma profunda deterioração dos sistemas políticos e ao questionamento dos atores sociais e políticos estabelecidos. Uma forte polarização se estabeleceu entre o progressismo, que passou a ser atacado e ficou na defensiva, e as forças conservadoras ou reacionárias que começaram a definir a agenda.

A pandemia de Covid-19 surgiu nesse contexto como um evento global crítico, que acelerou e consolidou mudanças geopolíticas que já estavam em andamento, como a militarização global, o fortalecimento da China, a disputa inter-imperialista e o aumento da distância entre o centro e a periferia. Ao mesmo tempo, abriu-se uma nova janela política de discussão sobre como seria o mundo pós-pandemia. Apesar da insistência dos setores dominantes em manter os negócios como de costume, apostando mais em um “retorno à normalidade” do que em uma “nova normalidade”, uma lógica adaptativa do capitalismo em direção a um modelo supostamente mais “limpo” e “ecológico” também começou a ganhar terreno.

Grandes corporações transnacionais, instituições supranacionais e governos, com o apoio de várias organizações internacionais e especialistas, começaram a colocar a necessidade de descarbonizar a matriz energética no centro da agenda econômica e política. O Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) tornaram-se as principais referências oficiais para gerar estruturas internacionais compartilhadas. No terreno nacional, vários países criaram seus Pactos Verdes ou Green New Deals e até mesmo ministérios de Transição Ecológica. Atores supranacionais, como a Comissão Europeia, também pressionaram por um Pacto Verde Europeu, formulado com o objetivo de se tornar o primeiro continente “neutro em relação ao clima”. Assim, o discurso “NetZero até 2050” começou a aparecer em grande parte dos discursos convencionais, inclusive em alguns que eram abertamente negacionistas até anos atrás e agora começaram a oferecer “soluções climáticas”. Foi assim que surgiu o mais recente consenso capitalista: o que chamamos de “Consenso da Descarbonização”.

O “Consenso da Descarbonização”: características, contradições e implicações

O “Consenso da Descarbonização” baseia-se em um objetivo comum amplamente aceito. Em um mundo ferido pelo colapso, quem poderia se opor à descarbonização e à neutralidade climática? A questão principal não é o quê, mas como. A descarbonização é bem-vinda, mas não dessa forma. Entre os objetivos dessa descarbonização hegemônica não estão a desconcentração do sistema energético, o cuidado com a natureza, muito menos a justiça climática global, mas outras motivações, como atrair novos incentivos financeiros, reduzir a dependência de alguns países na busca pela segurança energética, expandir nichos de mercado ou melhorar a imagem das empresas. Em outras palavras, se os atores dominantes adotam essa agenda, é porque a veem como uma nova janela de oportunidade para o reposicionamento geopolítico e a acumulação capitalista, mais especificamente, uma “acumulação por desfossilização” que aprofunda a contradição capital/natureza.

Nesse novo consenso, a descarbonização não é vista como parte de um processo mais amplo de mudança do perfil metabólico da sociedade (nos padrões de produção, consumo, circulação de bens e geração de resíduos), mas como um fim em si mesmo. Embora se reconheça a gravidade da emergência climática, estão sendo construídas políticas que não apenas são insuficientes, mas também têm impactos muito graves, uma vez que a exploração dos recursos naturais está se intensificando e a ideologia do crescimento econômico indefinido está sendo mantida. Com mais uma transformação na retórica da “sustentabilidade”, abre-se uma nova fase de pilhagem ambiental do Sul global, afetando a vida de milhões de seres humanos e de seres sencientes não humanos, comprometendo ainda mais a biodiversidade e destruindo ecossistemas estratégicos. O Sul global, mais uma vez, se torna um depósito de recursos supostamente inesgotáveis, de onde são extraídos minerais estratégicos para a transição energética do Norte global, bem como um destino para os resíduos e a poluição gerados por essa nova “revolução industrial”.

O “Consenso da Descarbonização” mobiliza continuamente o discurso do potencial tecnológico e da inovação. Ao mesmo tempo, defende explicitamente os “negócios verdes”, o “financiamento climático”, as “soluções baseadas na natureza”, a “mineração climaticamente inteligente”, os “mercados de carbono” e várias formas de investimento especulativo. Quase sem nenhuma solução de continuidade, as políticas de “responsabilidade social” das empresas extrativistas foram convertidas nas últimas décadas em políticas de “responsabilidade socioambiental”, em uma tentativa de construir uma imagem de responsabilidade ecológica que contrasta fortemente com a realidade. Em suma, propõe-se um tipo de transição baseada em uma lógica fundamentalmente mercantil e com uma interface hiperdigitalizada, que gera novas mercadorias e formas sofisticadas de controle social e territorial.

O “Consenso da Descarbonização” é, em consequência, marcado pelo imperialismo ecológico e pelo colonialismo verde. Ele mobiliza não apenas práticas, mas também um imaginário ecológico neocolonial. Por exemplo, a ideia de “espaço vazio”, típica da geopolítica imperial, é frequentemente usada por governos e empresas. Se no passado essa ideia, que complementa a noção ratzelliana de “espaço vital” (Lebensraum), gerou ecocídio e etnocídio indígena – e mais tarde serviu para promover políticas de “desenvolvimento” e “colonização” de territórios -, hoje ela é usada para justificar a expansão territorial para investimentos em energia “verde”. Dessa forma, grandes extensões de terra em áreas rurais pouco povoadas são vistas como espaços vazios adequados para a construção de turbinas eólicas ou fábricas de hidrogênio. Esses imaginários geopolíticos das transições corporativas reproduzem relações coloniais, que não apenas podem ser vistas como uma imposição de fora para dentro, do Norte para o Sul. Em muitos casos, o que está em jogo é também um tipo de colonialismo verde interno, que cria as condições para o avanço do extrativismo verde com base em alianças e relações coloniais entre as elites nacionais e as elites globais.

O “Consenso de Descarbonização” também gera, em nome da “transição verde”, pressões nos próprios territórios do Norte global, tanto nos EUA quanto na Europa , com um grande impacto nas áreas rurais menos populosas. Mas nada disso se compara aos impactos e à escala desses processos na periferia globalizada. Como bem aponta um estudo recente de Alfons Pérez sobre os Pactos Verdes:

A distribuição geográfica da extração e das reservas atuais dessas matérias-primas essenciais desenha um mapa que é certamente diferente daquele da extração de combustíveis fósseis. Embora o Oriente Médio tenha sido o epicentro geoestratégico para o fornecimento de hidrocarbonetos, o foco agora está mudando para outras áreas do planeta. As principais regiões para a exploração desses elementos estão concentradas no Sul global e em regiões como a África Subsaariana, o Sudeste Asiático, a América do Sul, a Oceania e a China.

Apesar da busca incessante por esses minerais críticos, a forma e a temporalidade da implementação do “Consenso da Descarbonização” provocam contradições até mesmo entre seus próprios promotores. A exacerbação de políticas esquizofrênicas – ou double bind, para usar os termos de Gregory Bateson – parece ser um sinal da policrise civilizacional. Há aqueles que, embora reconheçam sua importância, procuram adiar a descarbonização e extrair até a última gota de petróleo, como é o caso de muitas empresas de combustíveis fósseis e seu lobby junto aos governos. Um exemplo foi o presidente Joe Biden que, em março de 2023, desafiando sua promessa eleitoral, aprovou o Projeto Willow, que permite a expansão da fronteira petrolífera no Ártico do Alasca, colocando em risco um ecossistema extremamente frágil que já está sofrendo com o derretimento do gelo devido ao aquecimento global. Outro exemplo vem da União Europeia que, ao mesmo tempo em que busca expandir o Pacto Verde Europeu, optou por voltar ao carvão até meados de 2022, usando como justificativa a crise energética acelerada pela guerra na Ucrânia. Assim, o governo alemão ordenou, em janeiro de 2023, a demolição de um vilarejo para dar lugar à expansão de uma mina de carvão de lignito, o tipo de carvão mais poluente entre os combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, como parte do plano europeu de recuperação pós-crise, a Alemanha pressionou os estados-membros da UE a destinar parte desses fundos para o desenvolvimento do hidrogênio verde. Mais recentemente, o governo brasileiro também parece haver entrado no Consenso da Descarbonização, anunciando um plano de ‘transformação ecológica’ ancorado, contudo, na lógica do crescimento econômico e sem renunciar a novas frentes de exploração de petróleo.

O tipo de lógica pós-fóssil promovida pelo “Consenso da Descarbonização” leva, portanto, a uma transição corporativa, tecnocrática, neocolonial e insustentável. Diversas projeções alertam que, abordada dessa forma, a transição energética é metabolicamente insustentável. O próprio Banco Mundial alertou, em 2020, que a extração de minerais

como grafite, lítio e cobalto, poderia aumentar em quase 500% até 2050 para atender à crescente demanda por tecnologias de energia limpa. Estima-se que mais de 3 bilhões de toneladas de minerais e metais serão necessários para a implantação de energia eólica, solar e geotérmica, bem como para o armazenamento de energia, a fim de alcançar uma redução de temperatura abaixo de 2 °C no futuro.

Relatórios mais recentes são ainda mais assustadores com relação ao aumento do uso de “minerais de transição”. Como argumenta o jornalista francês Guillaume Pitron, “centenas de milhares de turbinas eólicas, algumas mais altas que a Torre Eiffel, serão construídas nos próximos anos e exigirão enormes quantidades de cobalto, zinco, molibdênio, alumínio, zinco, cromo… entre outros metais”.

O “Consenso da Descarbonização” restringe o horizonte da luta contra as mudanças climáticas ao que a pesquisadora brasileira Camila Moreno define como a “métrica do carbono”: uma forma limitada de quantificar o carbono apenas em termos de moléculas de CO2, que oferece uma espécie de moeda para a troca internacional, gerando a ilusão de que algo está sendo feito contra a degradação ambiental. Dessa forma, o problema subjacente é encoberto e não apenas a poluição continua, mas também novos negócios são feitos com a poluição (por meio, por exemplo, do comércio de compensação de emissões). Os limites naturais e ecológicos do planeta continuam sendo ignorados, pois é evidente que não há lítio ou minerais críticos suficientes se os modelos de mobilidade e os padrões de consumo não forem alterados. O próprio fato de as baterias de lítio, assim como os projetos eólicos e solares, também exigirem minerais (como cobre, zinco e muitos outros) deve nos alertar para a necessidade de uma reforma radical do sistema de transporte e do modelo de consumo existentes.

Portanto, a transição não pode ser reduzida apenas a uma mudança de matriz energética que garanta a continuidade de um modelo insustentável. Ao propor uma transição energética corporativa de curto prazo, o “Consenso da Descarbonização” mantém o padrão hegemônico de desenvolvimento e acelera a fratura metabólica, com o objetivo de preservar o estilo de vida e o consumo atuais, especialmente nos países do Norte e nos setores mais ricos em escala global.

Continuidades e rupturas entre os três consensos capitalistas

Se durante a Guerra Fria a imaginação geopolítica hegemônica falava de um mundo bipolar, dividido em dois blocos ideologicamente polarizados, com a queda do Muro de Berlim começou a ser forjada uma imaginação geopolítica hegemônica baseada em consensos capitalistas globais. Se analisarmos o “Consenso da Descarbonização” sob a perspectiva da processualidade sócio-histórica, veremos que há continuidades e rupturas entre os três consensos hegemônicos em vigor nas últimas décadas. Entre os pontos de continuidade, três elementos principais podem ser destacados. O primeiro é o discurso da inevitabilidade, que afirma que não há alternativa a esses consensos. Após o “There is no Alternative” do Consenso de Washington, a restrição do mundo do possível foi sendo aperfeiçoada com diferentes repertórios de legitimação social, seja o acesso ao consumo pelos setores populares, seja a retórica de respirar um ar mais saudável. O “Consenso das Commodities” foi construído com base na ideia de que havia um acordo sobre a natureza irrevogável ou irresistível da dinâmica extrativista resultante da crescente demanda global por matérias-primas, cujo objetivo era fechar a possibilidade de alternativas. De maneira semelhante, o “Consenso da Descarbonização” hoje busca instalar a ideia de que, dada a urgência climática, não há outra transição possível e que a única existente e “realista” é a transição corporativa.

Em segundo lugar, todos esses consensos implicam em uma maior concentração de poder em atores não democráticos (grandes corporações, agentes financeiros e organizações internacionais), minando qualquer possibilidade de governança democrática, ainda mais em um contexto de “transição”. Isso se manifesta de duas formas principais. Por um lado, é visto na captura corporativa dos espaços de governança. Espaços como a Conferência das Partes (COP), que, como órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, deveriam ser fóruns multilaterais para avançar na luta contra as mudanças climáticas, são cada vez mais uma feira de negócios para o capitalismo verde que mantém as relações de poder energético entre o Norte e o Sul. Podemos dizer que as COPs servem ao “Consenso da Descarbonização”, assim como a OMC serviu ao “Consenso de Washington” e ao “Consenso das Commodities“.

Por outro lado, ela se manifesta na forte concentração de poder entre as grandes empresas, do início ao fim das cadeias globais. Se considerarmos o caso do lítio na Argentina e no Chile, por exemplo, no final da cadeia de valor global estão os gigantes automotivos (Toyota, BMW, Audi, Nissan, General Motors) e empresas elétricas como a Vestas e a Tesla. 50% da industrialização de baterias para fábricas automotivas está concentrada em empresas chinesas, e o controle da extração também é dominado por poucas empresas: a americana Albemarle, a chilena SQM, a americana Livent Corp, a australiana Orocobre e a chinesa Ganfeng. Por sua vez, o Chile e a Argentina exportam carbonato de lítio, uma commodity sem valor agregado e, apesar dos anúncios recorrentes sobre “industrialização”, os países do chamado “triângulo do lítio” estão longe de controlar a cadeia global do lítio, das salinas às baterias.

Em muitos casos, a extração de lítio está sendo realizada sem licença social, acordo ou consulta com as comunidades indígenas que habitam esses territórios há milênios e que denunciam o consumo excessivo de água e seus impactos no processo de extração. Nas Salinas Grandes, em Jujuy, Argentina, desde 2010, um grupo de comunidades indígenas (chamadas de “as 33 comunidades”) vem rejeitando a extração de lítio em seus territórios, exigindo consulta livre, prévia e informada e defendendo uma perspectiva holística e ancestral que integra território, autonomia, Bem Viver, plurinacionalidade, água e sustentabilidade da vida. O salar é considerado pelos povos indígenas como “um ser vivo, um doador de vida”, e eles têm como lema “A água e a vida valem mais do que o lítio”, como pode ser visto estampado no Aerocene Pacha, um balão de ar quente sem combustível que o artista argentino Tomás Saraceno ergueu em janeiro de 2020.

Em terceiro lugar, a constante busca pela expansão das fronteiras capitalistas envolve, em todos esses casos, a promoção de megaprojetos voltados para o controle, a extração e a exportação de bens naturais. E, para isso, há uma clara aposta em garantir “segurança jurídica” ao capital com bases regulatórias e legais que permitam a maior lucratividade empresarial. Não é inocente, por exemplo, que nos novos acordos comerciais bilaterais que a UE está negociando (com o Chile e o México, entre outros) ela tenha incorporado capítulos sobre energia e matérias-primas para garantir o acesso a minerais essenciais para a transição. A Comissão Europeia deixou bem claro na declaração do Pacto Verde Europeu que “o acesso aos recursos é uma questão de segurança estratégica para a implementação do Pacto Verde” e que é essencial “garantir o fornecimento de matérias-primas sustentáveis, em especial as necessárias para as tecnologias renováveis, digitais, espaciais e de defesa”. Nesse contexto, apresentou, em março de 2023, uma proposta para uma “Regulamentação de Matérias-Primas Críticas”, ostensivamente destinada a garantir um fornecimento seguro e sustentável dessas matérias-primas. No entanto, conforme explicado em um relatório do Centre for Research on Multinational Corporations (SOMO, para sua sigla em holandês), a estratégia proposta pela UE não levará a um fornecimento sustentável de minerais críticos para a Europa, pois exacerbará os riscos aos direitos humanos e ao meio ambiente, prejudicará a dinâmica econômica nos países parceiros e continuará a reforçar o consumo insustentável nos países ricos.

Além dessas linhas de continuidade, há também novidades. Uma característica importante do “Consenso de Descarbonização” está ligada à complexidade das relações neocoloniais em um mundo multipolar, marcado pela competição inter-imperial, onde a geopolítica se transforma em geoeconomia e em múltiplos colonialismos. Não é apenas a UE, que carece de minerais essenciais, que está buscando acesso direto a eles. A China, apesar de possuir esses minerais, está muito bem-posicionada no Sul global, onde há quase duas décadas vem fazendo investimentos muito agressivos em setores extrativistas estratégicos, mantendo um tipo de relacionamento diferente daqueles estabelecidos pelos EUA e pela Europa. Uma das peculiaridades da nova dependência gerada entre a China e os países latino-americanos, dos quais, em quase todos os casos, é o principal parceiro comercial, é que, embora seus investimentos sejam de longo prazo em diferentes setores (agronegócio, mineração, petróleo, infraestrutura ligada às atividades extrativistas), em termos de transferências de tecnologia – particularmente em relação à transição verde – ela tende a usar tecnologia chinesa de ponta, que também inclui, às vezes, mão de obra chinesa. A disputa inter-imperial é concluída com os EUA. Embora essas questões pareçam estar ausentes das declarações do Departamento de Estado, em várias ocasiões a chefe do Comando Sul, Laura Richardson, deixou claro o interesse estratégico da América do Sul para seu país (em termos de água, petróleo, lítio, entre outros). Por fim, acrescentamos que a Rússia, como um ator tendencialmente hegemônico em um mundo multipolar, está longe de ter o alcance das potências mencionadas no campo da disputa sobre a transição energética.

Outro elemento de distinção importante entre esses três consensos é o papel do Estado. Sabemos que o “Consenso de Washington” foi marcado por uma lógica de Estado mínimo e o “Consenso das Commodities” defendeu um Estado moderadamente regulador, mas em estreita aliança com o capital transnacional. Por sua vez, o “Consenso da Descarbonização” parece inaugurar o surgimento de um tipo de neoestatismo de planejamento – em alguns casos, mais próximo de um estado eco-corporativo – que busca combinar a transição verde com a promoção de fundos privados e a financeirização da natureza. Dessa forma, as transições verdes conduzidas por instituições governamentais e pelo Estado tendem a se aproximar, facilitar e se fundir com as transições corporativas, em uma dinâmica de subserviência do setor público aos interesses privados. Entretanto, em alguns casos em que há ciclos intensos de mobilização social, o Estado pode tentar recuperar alguma autonomia relativa promovendo transições ecossociais que incentivem a descentralização e a desconcentração do poder corporativo.

Além disso, embora tanto o “Consenso das Commodities” quanto o “Consenso da Descarbonização” impliquem em uma lógica extrativista, os produtos e os minerais necessários foram ampliados. No primeiro caso, são principalmente produtos alimentícios, hidrocarbonetos e minerais, como cobre, ouro, prata, estanho, bauxita e zinco, enquanto no segundo, além dos minerais mencionados, o foco de interesse são os chamados minerais críticos para a transição energética, como lítio, cobalto, grafite, índio, entre outros, e terras raras. Em ambos os casos, a extração e a exportação de matérias-primas têm consequências catastróficas em termos de destruição ecológica e geração de dependência. No entanto, como argumenta a socióloga alemã Kristina Dietz, um aspecto fundamental que diferencia o extrativismo verde do neoextrativismo é o discurso usado para legitimar o primeiro, uma vez que os atores que o promovem afirmam que ele é sustentável e que é a única maneira possível de enfrentar a emergência climática.

Descarbonização sim, mas com justiça geopolítica

Para que a descarbonização saia dessa lógica perversa, ela deve ser desmercantilizada e descolonizada a partir de um questionamento estrutural. Qualquer hipótese de uma transição ecossocial justa e integral deve enfrentar esse desafio e não pode estar ancorada apenas no nível local – como geralmente acontece – mas também deve considerar o nível geopolítico como uma prioridade. Isso implica incorporar o imperativo do decrescimento por parte do Norte global, bem como a dívida ecológica com os povos do Sul, buscando construir pontes entre os atores e diagnósticos críticos em busca de uma justiça ecológica global.

O Norte global precisa urgentemente começar a decrescer em várias áreas: em termos de consumo, redução da esfera de mercantilização, desmaterialização da produção, transporte e distribuição das horas de trabalho. Embora em muitas das propostas de decrescimento os fatores mencionados acima pareçam estar ligados a uma lógica de redistribuição social, a “desmaterialização” – ou seja, a redução da intensidade do uso de matérias-primas e energia – é inexorável. Embora seja uma responsabilidade prioritária do Norte global, isso não significa que seja “apenas uma coisa do Norte”, como é frequentemente argumentado no debate público, e que o Sul tenha que reivindicar seu “direito ao desenvolvimento”, porque é o chamado desenvolvimento e a lógica do crescimento insustentável que está nos levando ao colapso hoje.

O decrescimento é uma demanda por justiça global, no contexto de um planeta já danificado. Além disso, como advertiram vários defensores do decrescimento (como Giorgos Kallis, Federico Dimaria e Jason Hickel, entre muitos outros), a redução progressiva do metabolismo social se traduziria em menos pressão sobre os recursos naturais e os territórios do Sul, o que abriria um “espaço conceitual” no Sul global que seria necessário para avançar em direção ao pós-extrativismo. Ainda assim, como afirma Hickel, “o decrescimento é uma demanda por descolonização. Os países do Sul devem ser livres para organizar seus recursos e seu trabalho em torno da satisfação das necessidades humanas e não em torno de servir ao crescimento do Norte”.

O complemento do decrescimento só pode ser o pagamento da dívida ecológica com os povos e países do Sul. Em termos contábeis, a dívida climática é apenas uma linha no balanço de uma dívida ecológica mais ampla. Assim, a dívida ecológica poderia ser entendida como a obrigação e a responsabilidade que os países industrializados do Norte têm para com os países do Sul pela pilhagem e exploração de seus recursos naturais (petróleo, minerais, florestas, biodiversidade, recursos marinhos), à custa da energia humana de seus povos e da destruição, devastação e poluição de seu patrimônio natural e de suas próprias fontes de subsistência.

A dívida ecológica também está intimamente ligada à dívida externa. A superexploração dos recursos naturais se intensifica quando as relações comerciais pioram para as economias extrativistas, que precisam fazer pagamentos da dívida externa e financiar as importações necessárias. A pressão que os centros capitalistas exercem sobre a periferia para extrair recursos naturais é exacerbada no contexto da dívida externa. O imperativo de crescimento dos países ricos tem como contrapartida a “obrigação de exportar” do Sul, que nos países capitalistas periféricos parece estar associado à necessidade de pagar a dívida externa e seus juros, o que renova um círculo interminável de desigualdade. Isso está acontecendo hoje na Argentina, um país com uma dívida externa (contraída pelo governo neoliberal de Mauricio Macri entre 2015 e 2019) que o torna incapaz de pensar em qualquer alternativa de mudança que não seja expandir as fronteiras do neoextrativismo, a fim de obter dólares para aliviar os pagamentos de juros da dívida externa com o FMI.

Durante décadas, houve inúmeras e recorrentes iniciativas exigindo reparações abrangentes por responsabilidades históricas e que também articulam explicitamente a dívida ecológica com a dívida externa. Esse foi o caso da campanha Quem deve a quem? que, no auge do movimento altermundialista, na virada do século, exigiu o cancelamento da dívida externa e o pagamento da dívida ecológica. Além de denunciar a natureza ilegítima da dívida externa, o objetivo era conscientizar a população do Norte global sobre sua responsabilidade pela dívida ecológica. Mais recentemente, em 27 de fevereiro de 2023, o movimento Debt for Climate lançou um convite para se reunir com representantes dos países mais afetados pela interseção da crise climática e da dívida, a fim de discutir o cancelamento da dívida do Sul global e, assim, permitir uma transição justa. Esse dia marcou o 70º aniversário do Acordo de Londres, por meio do qual a Alemanha recebeu um alívio de 50% da dívida acumulada antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Alguns dos países que permitiram que a Alemanha vivesse seu chamado “milagre econômico”, graças a esse cancelamento, estão hoje altamente endividados. No entanto, a Alemanha impede qualquer medida progressiva para aliviar esses países de seu pesado fardo de dívida, enquanto, ao mesmo tempo, eles estão sofrendo as consequências devastadoras da crise climática.

De acordo com Alberto Acosta, se isso foi possível para a Alemanha em um contexto pós-guerra, por que não seria possível para os países do Sul em um cenário pós-pandemia e de emergência climática? O Acordo de Londres também nos oferece uma lista de questões a serem consideradas no enfrentamento da dívida externa: capacidade de pagamento, cancelamento substancial da dívida, redução significativa das taxas de juros, transparência nas negociações para determinar os benefícios das partes, cláusulas de contingência, esquemas de gerenciamento de disputas e a possibilidade de arbitragem justa e transparente, entre muitas outras. Para avançar na busca de soluções duradouras, é necessário, embora não seja suficiente, exigir o cancelamento da dívida, auditorias cidadãs e atenção às repetidas denúncias de violência e corrupção ligadas à dívida externa. Em suma, uma reconfiguração do sistema financeiro internacional que deixe claro que nenhum país pode se salvar sozinho, algo que não surgirá espontaneamente, mas que requer uma reativação das articulações internacionalistas que conectem o Norte e o Sul global neste cenário de policrise civilizacional.

Nesse marco, o decrescimento e o pós-extrativismo são duas perspectivas complementares e multidimensionais que permitem a construção de pontes internacionalistas e Norte-Sul em torno de uma transição ecossocial integral. Ambas formulam uma crítica aos limites ecológicos do planeta e enfatizam a insustentabilidade dos modelos de consumo imperial e do aprofundamento das desigualdades sociais. São também conceitos-horizonte que constituem um ponto de partida para a construção de ferramentas de mudança e alternativas civilizacionais, com base em outro regime socioecológico, diferente do regime economicista e pragmático de certos ambientalismos do momento. Podem avançar, com justiça climática, em direção a um horizonte de transformação ecossocial.

Construir transições ecossociais justas, populares e territorializadas

Em contraste com o que propõe o “Consenso da Descarbonização”, a energia deve ser vista como um direito e a democracia/soberania energética como um horizonte para sustentar o tecido da vida. A justiça ecossocial deve ter como objetivo eliminar a pobreza energética e desmantelar as relações de poder. No horizonte de uma transição energética justa, os combustíveis fósseis devem ser deixados no solo e os processos de exploração de hidrocarbonetos devem ser “desescalonados”, conforme sugerem as companheiras da organização Censat Agua Viva na Colômbia, o que implica uma ruptura de sentido para ressignificar a natureza.

Há cada vez mais vozes que, felizmente, buscam desmascarar o “Consenso da Descarbonização”, argumentando que a transição energética não pode ser feita às custas da água, dos ecossistemas e dos povos. Elas mostram, ao mesmo tempo, que as transições ecossociais justas não são e não podem ser uma projeção do futuro, mas estão acontecendo no presente, na experiência cotidiana de múltiplos territórios urbanos e rurais, no Norte e no Sul. Como resultado, o desafio não é tanto construir novas utopias e narrativas ecoutópicas para um mundo em que gostaríamos de viver, mas expandir, reconhecer e aprimorar essas práticas, conduzidas por diversas comunidades, organizações e movimentos sociais, que já existem e prefiguram alternativas sociais.

As transições ecossociais populares e territoriais estão, portanto, ancoradas em experiências concretas que, embora locais, podem ser ampliadas, conectadas e inspirar outras realidades. Elas têm vários eixos estratégicos que se alimentam mutuamente: energia (comunidade), alimentos (agroecologia e soberania alimentar), produção e consumo (estratégias de deslocalização e práticas pós-extrativistas de economia social e solidária, agricultura urbana), trabalho e cuidado (redes de cuidado e sociabilidades anticapitalistas), infraestruturas (moradia, mobilidade etc.), cultura e subjetividade (mudança cultural e de mentalidade), disputa política e normativa (geração de novos imaginários políticos relacionais vinculados a direitos territoriais e da natureza, eco-dependência, eco-feminismos, múltiplas dimensões da justiça e ética interespécies).

Essas propostas entendem que as transições ecossociais não podem se restringir apenas às questões climáticas e energéticas, como é comum no tipo dominante de transição, mas devem ser holísticas e integrais. Elas exigem uma transformação estrutural do sistema energético, mas também do modelo urbano e de produção, bem como dos vínculos com a natureza: desconcentrar, desprivatizar, desmercantilizar, descentralizar, despatriarcalizar, desierarquizar, reparar e curar. Além disso, ela busca um conceito de justiça integral que transcende a visão limitada das transições corporativas: o social não pode ser separado do ambiental; e a justiça social, ambiental, étnica, racial e de gênero também são indissociáveis.

Longe de romantizar as experiências de transições ecossociais justas, é essencial entender suas contradições, dificuldades e obstáculos internos e externos. Nesse registro, a multiescalaridade e as mediações políticas são elementos fundamentais. Por exemplo, uma alternativa ecossocial restrita a pequenas comunidades e lugares específicos que não se relacionam com outras experiências não é o mesmo que experiências localizadas, mas não localistas, que buscam construir articulações e sentidos para além de seu próprio território. Em um contexto de desglobalização gradual, a tentação de uma forte desconexão é grande. Mas para que as transições justas avancem, precisamos da criação de blocos regionais fortes, bem como do avanço na direção de um estado ecossocial.

A crise ecológica e climática está introduzindo novos riscos, a maioria com danos irreversíveis, que afetam a população de forma desigual. Como o economista Rubén Lo Vuolo aponta, precisamos ir além da lógica de um Estado que repara os danos para construir um Estado capaz de preveni-los. A distribuição deve ser pensada independentemente do crescimento. Um Estado ecossocial deve buscar um mecanismo de proteção social que seja o mais universal possível. Em vez de garantir uma aposentadoria (para aqueles que contribuem há anos), devemos buscar uma renda universal ou uma renda básica, a fim de passar de um Estado compensatório para um Estado preventivo, mais preocupado com as necessidades das pessoas do que com os interesses das corporações.

Sem uma mobilização social constante, coordenada e maciça, é improvável que isso aconteça. Não se trata apenas de reunir os movimentos climáticos ou repensar o ambientalismo, mas também de integrar uma multiplicidade de lutas que nem sempre estiveram conectadas entre si, mas que nos últimos anos tendem a aderir progressivamente ao paradigma das transições justas, contribuindo para que avancem em suas diferentes dimensões: movimentos feministas, antirracistas, camponeses, indígenas, animalistas, sindicais, de economia popular e solidária, entre outros. Longe das soluções individualistas que emergem do “Consenso da Descarbonização”, isso nos permite entender que a saída é coletiva; que não é apenas técnica, mas profundamente política. Essa é a chave para gerar processos de confluência e libertação cognitiva que permitam nos percebermos como sujeitos valiosos, embora não únicos, na construção urgente e necessária de uma história interespécies que merece ser vivida.

Notas

  1. Michael Lawrence, Scott Janzwood y Thomas Homer-Dixon: «What is a Global Polycrisis? And How Is It Different from a Systemic Risk?», informe para discussão, Cascade Institute, 9/2022.
  2. Ver https://pactoecosocialdelsur.com/declaracion-de-bogota/
  3. M. Svampa y Pablo Bertinat (eds.): La transición energética en la Argentina. Una hoja de ruta para entender los proyectos en pugna y las falsas soluciones, Siglo XXI Editores, Buenos Aires, 2022.
  4. M. Svampa: «‘Consenso de los Commodities’ y lenguajes de valoración en América Latina» en Nueva Sociedad No 244, 3-4/2013, disponível em nuso.org.
  5. B. Bringel y Geoffrey Pleyers (eds.): Alerta global. Políticas, movimientos sociales y futuros en disputa en tiempos de pandemia, Clacso, Buenos Aires, 2020.
  6. Este conceito foi formulado pelo Grupo de Estudios en Geopolítica y Bienes Comunes de la Universidad de Buenos Aires. Ver, entre otros, «El litio y la acumulación por desfosilización en Argentina» en M. Svampa y P. Bertinat (eds.): La transición energética en Argentina.
  7. Thea Riofrancos: «Por qué relocalizar la extracción de minerales críticos en el Norte global no es justicia climática» en Viento Sur, 8/3/2022.
  8. A. Pérez: Pactos verdes en tiempos de pandemias. El futuro se disputa ahora, Observatori del Deute en la Globalització / Libros en Acción / Icaria, Barcelona, 2021, p. 62.
  9. G. Bateson: Steps to an Ecology of Mind, Chandler, San Francisco, 1972.
  10. Etienne Beeker: «¿Hacia dónde va la transición energética alemana?» em Agenda Pública, 15/2/2023.
  11. Banco Mundial: Minerals for Climate Action: The Mineral Intensity of the Clean Energy Transition, BM, Washington, DC, 2020.
  12. G. Pitron: «El impacto de los metales raros. Profundizando en la transición energética» em Green European Journal, 5/2/2021.
  13. C. Moreno, Daniel Speich Chassé y Lili Fuhr: A métrica do carbono: abstrações globais e epistemicídio ecológico, Fundação Heinrich Böll, Río de Janeiro, 2016.
  14. Melisa Argento, Ariel Slipak y Florencia Puente: «Cambios en la normativa de explotación y creación de una empresa 100% estatal», Serie Políticas y Líneas de Acción, Clacso, 2021.
  15. Para mais informações, ver https://pacha.aerocene.org
  16. A. Pérez, op. cit., p. 58.
  17. Disponivel em: single-market-economy.ec.europa.eu/publications/european-critical-raw-materials-act_en.
  18. «SOMO Position Paper on Draft Critical Raw Materials Regulation», 17/5/2023, disponível em somo.nl/somo-position-paper-on-critical-raw-materials-regulation/.
  19. M. Svampa y A. Slipak: «Amérique Latine, entre vieilles et nouvelles depéndances: le rôle de la Chine dans la dispute (inter)hégémonique» em Hérodote. Revue de Géographie et de Géopolitique vol. 2018/4, No 171, 2018.
  20. M. Argento, A. Slipak y F. Puente, p. cit.
  21. Camilo Solís: «Laura Richardson: la jefa del Comando Sur de EEUU que pretende el litio sudamericano y que cierren Russia Today y Sputnik» em Interferencia, 6/6/2023.
  22. K. Dietz: «Transición energética y extractivismo verde», Serie Análisis y Debate No 39, Fundación Rosa Luxemburgo, Oficina Región Andina, Quito, 9/2022. Ver o artigo nesse número, p. 108.
  23. F. Demaria: «Decrecimiento: una propuesta para fomentar una transformación socioecológica profundamente radical» em Oikonomics No 16, 11/2021. Vale destacar que enquanto na Europa o debate sobre o decrecimiento desbordou o campo militante, abandonando seu caráter «abstrato» para permear os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mundanças Climáticas (que questionam a lógica do crescimento econômico) e inserir-se cada vez mais na discussão política institucional de la União Europeia, nos EUA, pelo contrário, esse continua sendo um tema tabu, inclusive dentro dos círculos ecossocialistas, pouco propensos a retomá-lo nos debates sobre a transição ecossocial.
  24. J. Hickel: «The Anti-Colonial Politics of Degrowth» em Resilience, 4/5/2021.
  25. «Alerta verde No 78: ¡No más saqueo, nos deben la deuda ecológica!» em Ecología Política No 18, 1999.
  26. M. Svampa y E. Viale: «De la ceguera ecológica a la indignación colectiva», ElDiarioAR, 14/5/2023.
  27. Francisco Cantamutto y Martín Schoor: «América Latina y el mandato exportador» en Nueva Sociedad edición digital, 6/2021, disponível em nuso.org.
  28. Joan Martínez Alier y Arcadi Oliveres: ¿Quién debe a quién? Deuda ecológica y deuda externa, Icaria, Barcelona, 2010.
  29. A. Acosta: «Un aniversario histórico, 70 años del Acuerdo de Londres. ¿Por qué es un imposible para los países del sur?» em Ecuador Today, 23/2/2023.
  30. Ver o Manifiesto de los Pueblos del Sur por una Transición Justa y Popular, 2023, disponível em: pactoecosocialdelsur.com/manifiesto-de-los-pueblos-del-sur-por-una-transicion-energetica-justa-y-popular-2/.
  31. Ver, a respeito, os trabajos de Pablo Bertinat e a Declaración de Bogotá del Pacto Ecosocial e Intercultural del Sur.
  32. R. Lo Vuolo: «Crisis climática y políticas sociales. Del Estado de Bienestar al Estado Eco-Social», Serie Documentos de Trabajo CIEPP No 111, 12/2022.

Fonte: Editora Elefante 

Abaixo-Assinado: a Margem Equatorial e suicídio ecológico do Brasil

Este documento coletivo repudia as pressões do governo Lula para perfuração exploratória em busca de petróleo na Foz do Amazonas, atentatória ao patrimônio natural do país, e defende a rápida redução da produção e consumo de combustíveis fósseis, conforme compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Ele está aberto para adesões no link ao final

Em 2024, sofremos um aquecimento médio global superficial, terrestre e marítimo combinados, de 1,55 oC acima do chamado período pré-industrial (1850-1900). Trata-se de um aquecimento sem precedentes na história das civilizações humanas e, provavelmente, nos últimos 125 mil anos. O sistema econômico globalizado movido a combustíveis fósseis e a desmatamento está provocando o início do sexto evento de extinção em massa de espécies nos últimos 445 milhões de anos. Em 2022, o próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) admitiu: “A extensão e magnitude dos impactos das mudanças climáticas são maiores do que as estimadas nas avaliações anteriores”. A aceleração do aquecimento é inequívoca. Demorou quase um século (1920-2015) para o aquecimento atingir 1 oC acima do período 1850-1900. Mas em apenas 10 anos (2015-2024) atingimos 1,55 oC, com um salto de 0,4 oC nos últimos dois anos!

Eis duas certezas científicas que governantes e governados no Brasil não têm mais o direito de ignorar ou desconsiderar: (1) a viabilidade do nosso país requer abandonar os combustíveis fósseis, zerar os incêndios florestais, o desmatamento e as emissões da agropecuária, bem como um esforço de guerra para restaurar a manta vegetal nativa do país, perdida ou degradada nos últimos decênios; (2) cada décimo de grau a mais de aquecimento torna o planeta mais insalubre, mais adverso e mais letal para todos nós, humanos e não humanos.

Não podemos tampouco ignorar uma terceira certeza científica: o Brasil é um país extremamente vulnerável à emergência climática. Lar de uma riqueza biológica sem igual, em seu território situa-se a maior parte da maior floresta tropical do planeta. Ocorre que desde 1970 extensões imensas da área original da floresta amazônica já foram destruídas sobretudo pelo agronegócio: 37% de sua parte leste e pelo menos 21% da floresta como um todo no território brasileiro. Mais de 50% da área do Cerrado e 43% da Caatinga já não existem mais. E boa parte do que ainda resta dessas florestas já foi degradada pela atividade agropecuária. Mantida a trajetória atual, boa parte da região equatorial brasileira se tornará inabitável antes do final do século.

Nossas florestas são fontes de estabilidade do clima, de proteção da biodiversidade, de água e de refrigeração da atmosfera. O desmatamento acelera o aquecimento e ambos perturbam gravemente os ciclos hidrológicos do país, intensificando as secas. Na Amazônia, secas que aconteceriam a cada cem anos repetiram-se com intensidade crescente em 2005, 2010, 2015-2016 e 2023-2024, ameaçando a resiliência da floresta. As secas estão expandindo a área do semiárido no Nordeste e já fizeram surgir uma primeira zona árida, em um rápido processo de desertificação. Aquecimento e perda florestal combinados geram também chuvas intensas e inundações catastróficas. Em 2011, as chuvas na região serrana do Rio de Janeiro provocaram deslizamentos de terra classificados pela ONU como o 8º maior deslizamento mundial dos últimos 100 anos. Em 2022 e 2023, inundações devastaram Petrópolis, Recife e o litoral norte de São Paulo. Em 2024, as inundações no Rio Grande do Sul foram sem precedentes. Além disso, a elevação do nível dos oceanos já está afetando os 279 municípios brasileiros defrontantes com o mar, 12 dos quais capitais de estado. No Rio, o nível do mar se elevou 13 cm entre 1990 e 2020 e pode se elevar mais 21 cm até 2050. Em Santos, essa elevação pode ser de até 27 cm até 2050. O IPCC avalia que Recife ocupa a 16ª posição no ranking mundial das cidades mais vulneráveis às mudanças climáticas. Segundo a Confederação Nacional de Municípios, 94% dos municípios brasileiros decretaram estado de emergência ou calamidade pública entre 2013 e 2024.

E eis uma quarta certeza científica: estamos no início da curva ascendente desses impactos. Contê-los em níveis compatíveis com nossa capacidade de adaptação deve ser, portanto, nossa prioridade absoluta. O consumo dos combustíveis fósseis já explorados atualmente implicará aumento de 40% das emissões de gases de efeito estufa até 2050. Iniciar novas explorações desses combustíveis gerará ainda maior aquecimento. Além disso, explorar petróleo justamente na foz do Amazonas é algo que atinge as raias da estupidez! Ali estão as maiores áreas de manguezais do mundo e enorme riqueza de recifes de corais (mais especificamente, recifes de rodolitos, igualmente agregadores de biodiversidade), de peixes, mamíferos marinhos e aves migratórias. Mensurações aéreas realizadas pelo Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE mostraram enorme absorção de CO2 atmosférico pelo fitoplâncton que se concentra nessa região, alimentado pelos sedimentos trazidos pelo grande rio. O fitoplâncton é nosso aliado na contenção do aquecimento!

O IBAMA classificou a exploração de petróleo nessa região como de “risco máximo”, com 18 impactos negativos, quatro dos quais de alta magnitude. Fortíssimas correntes marítimas nessa região aumentam o risco de vazamentos de petróleo e tornam impossível limitar a tempo a destruição da vida marinha, dos litorais e dos corais que apenas ali existem. Em apoio ao IBAMA, a Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (ASCEMA) enviou ao presidente Lula uma mensagem clara: “O IBAMA é um órgão de Estado, cuja missão é a proteção do meio ambiente e dos recursos naturais do Brasil”. Atropelar o IBAMA, inaugurar termoelétricas a gás “natural” fóssil em série ou dizer que mais petróleo pode viabilizar a “transição energética” é inaceitável. E é puro cinismo. Um documento do Ministério das Minas e Energia (2023) revela as reais ambições do governo: “O Brasil produz, atualmente, três milhões de barris de petróleo por dia. A expectativa é de que este número chegue a 5,4 milhões até 2029, com expectativa de se tornar o 4º maior produtor de petróleo do mundo – com 80% destes recursos vindos do pré-sal”.

Mais petróleo, na Amazônia ou alhures, é o caminho mais curto para nosso suicídio ecológico. Em emissões acumuladas desde 1850, o Brasil é o quarto país mais emissor de gases de efeito estufa no mundo, sobretudo por causa da destruição de nossas florestas. Em emissões atuais é o sexto. Estamos, em todo o caso, entre as maiores vítimas globais dessas emissões. Liderar a COP30 em Belém requer sair da OPEP+ e reduzir em 92% nossas emissões até 2035 em relação aos níveis de 2005, como propõe o Observatório do Clima, de modo a atingir emissões líquidas zero até 2040, como, de resto, o próprio presidente Lula defendeu na última reunião do G20. Não queremos e não podemos arcar com as consequências fatais de concepções anacrônicas e anticientíficas que ainda associam petróleo a desenvolvimento. O que está em jogo é a perda de habitabilidade de latitudes crescentes do Brasil e do planeta como um todo.

Tanto em termos biológicos quanto em termos civilizacionais, o Brasil é um país megadiverso e tem plenas condições de oferecer desenvolvimento social genuíno a todos, desde que não se torne um Petroestado. É inadiável entender que desenvolvimento genuíno nada tem a ver com crescimento do PIB ou aumento do consumo energético, especialmente de combustíveis fósseis, os quais, como a ciência demonstra há mais de meio século, estão condenando o planeta a um colapso climático potencialmente irreversível.

Endossam esse documento, inicialmente, os nomes abaixo listados em ordem alfabética. Se quiser apoiá-lo, clique no link: https://chng.it/Lmr62WFMxV

Adilson Vieira. Sociólogo. Coordenação da Rede de Trabalho Amazônico, Conselheiro do Fundo Amazônia
Dom Adolfo Zon Pereira, Bispo de Alto Solimões (AM)
Dom Adriano Ciocca, Bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT)
Alcidema Magalhães, Professora da UFPA e Coordenadora do Programa de Pós-graduação de Geografia
Alexandre Araújo Costa, Professor Titular da Universidade Estadual do Ceará.
Alice Gabino, Coordenadora do Movimento Amazônia na Rua (PE)
Allan Coelho, Teólogo e Professor Universitário
Ana Laura Oliveira, Coordenadora da Rede Emancipa de Educação Popular 
Ana Paula Santos, Diretora de Universidades Públicas da UNE
Antonia Cariongo, liderança do Quilombo Cariongo (Santa Rita/MA)
Antonio Donato Nobre, Professor do Programa de Doutorado em Ciência do Sistema Terrestre do INPE
Bruno Magalhães, Coordenador da Rede Emancipa de Educação Popular
Camila Valadão, Deputada estadual (PSOL-ES)
Carlos Bocuhy, Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (PROAM)
Carlos Minc, ex-Ministro do Meio Ambiente
Carlos Nobre, Instituto de Estudos Avançados (USP), membro da Academia Brasileira de Ciências
Chico Whitaker, “Prêmio Nobel Alternativo” da Right Livewood Award, conferido pelo Parlamento Sueco
Claudio Angelo, Jornalista
Clóvis Cavalcanti, Presidente de Honra da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (EcoEco)
Coletivo 660
Christiane Neme Campos, Professora Associada, Depto. de Teoria da Computação, Instituto de Computação, Unicamp
Cristina Serra, Jornalista e escritora
Daniel Seidel, secretário executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP)
Pe. Dario Bossi, Assessor da CNBB
Déborah Danowski, Professora Emérita da PUC-Rio e pesquisadora do CNPq
Dinamam Tuxá, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e APOINME
Eduardo Viveiros de Castro, Antropólogo, Professor Titular da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Ciências
Emília Wanda Rutkowski, Professora Titular, FECFAU, Unicamp
Dom Erwin Krautler, Bispo emérito do Xingu
Fernanda Melchionna, Deputada Federal (PSOL)
Dom Flávio Giovenale, Bispo de Cruzeiro do Sul (AC)
Francisco Cardoso Guedes Neto, Secretaria de Estado de Educação (RJ) e Secretaria Municipal de Educação (RJ)
Gabriel “Biologia”, Vereador (PSOL Fortaleza), biólogo e mestre em ecologia 
Gabriela Castellano, Professora do Instituto de Física Gleb Wataghin, Unicamp
Dom Gabriele Marchesi, Bispo de Floresta (PE)
Dom Gilberto Pastana, Presidente da Comissão para a Amazônia da CNBB e Arcebispo de São Luís (MA)
Dom Giovane Pereira de Melo, Bispo de Araguaína (TO)
Dom Guilherme Antônio Werlang, Bispo de Lages (SC)
Gustavo Goulart Moreira Moura, Professor do curso de Oceanografia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará
Helena Falkenberg Marques, Jovens pelo Clima (DF)
Heloise Rocha, Grupo Consciência Indígena (GCI) e Sindicato dos Trabalhadores da Educação Pública do Pará (SINTEPP)
Jackson Pinheiro, Professor da Faculdade de Biologia da UFPA 
Janaína Uemura, Ação Educativa, Coletivo 660
João Pedro de Paula, Diretor de Assistência Estudantil da UNE
José Abílio Barros Ohana, biólogo, Casa Amazônia
Jorge Abrahão, Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis
José Acácio de Barros, San Francisco State University, Membro correspondente da Academia Brasileira de Filosofia
José Correa Leite, Professor Universitário, Assembleia Mundial da Amazônia (AMA)
José Eustáquio Diniz Alves, Pesquisador aposentado do IBGE
Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, Bispo do Marajó (PA)
Dom José Luís Ferreira Salles, Bispo de Pesqueira (PB)
Juliane Cintra, Ação Educativa, Coletivo 660
Jussara Marques de Miranda, Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas
Dom Lauro Sérgio Versiani Barbosa, Bispo de Colatina (ES)
Liszt Vieira, Advogado e sociólogo, membro do Conselho da Associação Terrazul
Lourenço Queiroz Capriglione – Mestre em Meio Ambiente, comunicador climático e militante do PSOL
Luana Alves, Vereadora (PSOL São Paulo) 
Lucia Mendes, Coordenadora do Fórum em Defesa das Águas, do Meio Ambiente e do Clima (DF) 
Luciana Gatti, Coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE
Luciana Genro, Deputada Estadual (PSOL-RS)
Dom Lúcio Nicoletto, Bispo de São Félix do Araguaia (MT)
Dom Luiz Fernando Lisboa, Bispo de Cachoeiro de Itapemirim (ES)
Dom Luiz Gonzaga Fechio, Bispo de Amparo (SP)
Luiz Marques, Professor aposentado colaborador do Depto. de História da Unicamp
Maike Kumaruara, Grupo Consciência Indígena (GCI) e Movimento Negro Unificado (MNU)
Dom Manoel João Francisco, Bispo de Cornélio Procópio (PR)
Manuela Carneiro da Cunha, Antropóloga 
Márcio Wagner – Professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da UFPA
Maria Inês Ladeira, Antropóloga, Centro de Trabalho Indigenista 
Mariana Conti, Vereadora (PSOL Campinas)
Mariana Riscali, Diretora Executiva Fundação Lauro Campos e Marielle Franco 
Marijane Lisboa, Professora da PUC-SP
Mary Caroline Ribeiro – Coordenadora Geral do Sindtifes-PA e Diretora da Fasubra.
Mauri Cruz, Instituto de Direitos Humanos (IDhES)
Mauro William Barbosa de Almeida, Antropólogo 
Max Costa, Doutorando NAEA/UFPA, Coordenador da Casa Amazônia e editor da Revista Socioambiental Jatobá
Michael Löwy, Diretor de Pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique, Paris
Moema Miranda, Sinfrajupe, Assessora da Comissão para Ecologia Integral e Mineração da CNBB
Mônica Seixas, Deputada estadual (PSOL-SP)
Nadia Farage, Antropóloga, Professora aposentada da Unicamp
Oded Grajew, Presidente emérito do Instituto Ethos
Patrícia Valim, Professora Universidade Federal da Bahia (UFBA)/RBMC/Manifesto Coletivo
Paulino Montejo, Assessor político da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)
Paulo Santilli, Antropólogo, Professor aposentado da Unesp 
Dom Pedro Brito Guimarães, Arcebispo de Palmas (TO)
Pedro Ivo Batista, Coordenação Nacional do FBOMS e Conselheiro do Conama
Frei Pedro Nelto Alves Lima, OFM, Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade (AFES)
Professor Josemar, Deputado Estadual (PSOL-RJ)
Dom Raimundo Vanthuy Neto, Bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM)
Dom Reginaldo Andrietta, Bispo de Jales (SP)
Regio dos Santos Gomes, Chefe de Serviço do Instituto de Radioproteção e Dosimetria
Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, OFM, Rede Igrejas e Mineração
Dom Roque Paloschi, Bispo de Porto Velho (RO)
Renata Moara, Diretora de Meio Ambiente da UNE 
Renato Cunha, Coordenador Executivo do Gambá, Grupo Ambientalista da Bahia
Ricardo Dahab, Professor Titular, Depto. de Teoria da Computação, Instituto de Computação, Unicamp 
Ricardo Galvão, Membro da Academia Brasileira de Ciências, ex-diretor do INPE, presidente do CNPq
Roberto Robaina, Vereador (PSOL Porto Alegre) 
Rosa Baptista, coordenadora geral do DCE USP
Rubens Harry Born, Engenheiro, advogado ambientalista, diretor da Fundação Esquel, conselheiro do CONAMA 
Ruth Almeida – Professora do Instituto Socioambiental e dos Recursos Hídricos da Ufra
Sabine Pompeia, Professora do Depto. de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo, Unifesp
Salete Valesan, Coletivo 660
Sâmia Bomfim, Deputada Federal (PSOL)
Sérgio Haddad, Professor aposentado, coordenador de projetos especiais da Ação Educativa
Sheila Vilhena, Professora da Faculdade de Biologia da UFPA
Sila Mesquita Apurinã, Teóloga, Filósofa e Coordenadora Nacional da Rede de Trabalho Amazônico (RGTA)
Simone Romero, Vice-presidenta do Sindicato dos Jornalistas do Pará 
Stella Araujo Sette, Coletivo 660
Suely Araújo, Coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, ex-Presidente do IBAMA
Thalita Veronica Gonçalves e Silva, Defensora Pública do Estado de São Paulo (DPESP)
Dom Vicente Ferreira, Presidente da Comissão para Ecologia Integral e Mineração da CNBB.
Vivi Reis, Vereadora (PSOL Belém)
Vladimir Safatle, Professor do Depto. de Filosofia da USP
Dom Zenildo Lima da Silva, Bispo auxiliar de Manaus (AM)


Fonte: Fórum21