Alerta para baixas taxas de vacinação contra doenças em animais de criação

vacinação de bovinosA cobertura vacinal do gado é muito limitada em todo o mundo, especialmente em países como Argentina e Brasil, que apresentam um número maior de animais doentes ou lacunas vacinais mais amplas para diversas doenças. Crédito da imagem: Johnny Salas Brochero/Pexels . A imagem foi recortada.

O relatório indica que investir na vacinação animal na região (especialmente na Argentina e no Brasil) não só reduziria as doenças animais e as perdas de produção, mas também o uso de antimicrobianos, fator crucial no combate à resistência aos antibióticos.

O estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences ( PNAS ), analisou a cobertura vacinal contra 104 doenças de bovinos, aves e suínos em 203 países, entre 2005 e 2025.

“Muitas dessas doenças não afetam apenas a produtividade, a economia e o abastecimento de alimentos, mas também têm implicações diretas para a saúde pública.”

Alejo Menchaca, diretor da Plataforma de Pesquisa em Saúde Animal do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (INIA) do Uruguai.

Os autores detectaram cobertura limitada para a grande maioria dessas vacinas. Ao avaliar as 11 vacinas mais prevalentes em programas internacionais de vacinação, eles também observaram que a proteção real do gado é insuficiente.

No caso do gado, por exemplo, apenas 16,6% dos animais em risco foram vacinados contra a febre aftosa e menos de 8% contra a brucelose e a raiva.

A doença com o maior número estimado de casos em bovinos foi a dermatose nodular contagiosa, que pode reduzir a produção de leite e afetar a fertilidade dos animais. Com 3,5 milhões de casos detectados em 2025, a cobertura vacinal foi de apenas 33%, sendo a Índia o país com o maior número de casos.

A situação é ainda mais crítica em suínos, com menos de 7% de vacinação contra a peste suína clássica — altamente letal para esses animais — e antraz, e 8% contra a raiva.

Na avicultura, a vacinação não ultrapassa 18%, mesmo na patologia mais frequente, a Doença de Newcastle, que pode causar morte súbita, letargia e insuficiência respiratória, com 166 milhões de casos.

“Este é um estudo extremamente relevante porque destaca, com dados globais e comparáveis , a baixa cobertura vacinal em animais de produção contra doenças de alto impacto”, disse Alejo Menchaca, diretor da Plataforma de Pesquisa em Saúde Animal do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (INIA) do Uruguai, à SciDev.Net .

“Muitas dessas doenças não afetam apenas a produtividade, a economia e o abastecimento de alimentos, mas também têm implicações diretas para a saúde pública ”, explica o veterinário, que não participou do estudo.

“A América Latina representa pouco mais de 25% do rebanho bovino mundial”, e se adicionarmos a África e a Índia, chegamos a “quase 70% do rebanho bovino mundial. É precisamente nessas regiões que a cobertura vacinal é mais baixa e, portanto, a situação é ainda mais crítica”, acrescenta Menchaca.

Argentina e Brasil

Especialistas constataram “lacunas e variações significativas na vacinação animal em todo o mundo”, mas recomendaram a intensificação dos esforços na Argentina e no Brasil, que figuram constantemente entre os dez países com o maior número de animais doentes ou com as maiores lacunas de vacinação para diversas doenças.

Para a Argentina, o estudo destaca a necessidade de fortalecer as campanhas de vacinação para o gado. Em 2025, o país registrou o maior número de casos de brucelose (52.000 infecções), uma doença debilitante em humanos. A cobertura vacinal é de 17%.

Eles também alertaram sobre doenças aviárias no Brasil, que apresentou as maiores taxas de laringotraqueíte infecciosa (LTI), uma doença altamente contagiosa. Enquanto o Brasil registrou 7,2 milhões de casos em 2025, com uma cobertura vacinal de apenas 0,2%, na Argentina (645 mil casos), a taxa foi de 6%.

Para explicar a baixa cobertura vacinal contra a laringotraqueíte infecciosa aviária (LTI), responsável por grande parte da carga global de doenças aviárias, Alec Gleason, um dos autores do artigo, sugere que “menos casos são relatados do que para outras doenças clássicas, o que poderia levar os programas a priorizar outras vacinas”.

Com base em números de 2025, os autores também chamaram a atenção para animais não vacinados contra peste suína clássica no Brasil (44 milhões) e na Colômbia (10 milhões); antraz na Argentina (53 milhões); e raiva no Brasil (233 milhões) e na Colômbia (11 milhões).

Causas e perspectivas

Apesar da disponibilidade de vacinas, o estudo alerta para uma estagnação na imunização global.

Em relação à América Latina, eles apontam que esta é uma das duas regiões (juntamente com o Mediterrâneo Oriental) onde se origina o maior aumento de doenças aviárias. Isso ocorre quando a densidade animal e a escala de produção das granjas aumentam, o que pode ampliar as oportunidades de transmissão. “Há mais contatos, mais produção e mais conectividade entre as granjas”, explicou Gleason à SciDev.Net .

Mas as doenças podem persistir mesmo quando são anunciadas campanhas de vacinação. Daniel Vilte, pesquisador do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina, lembrou casos em que, diante de um surto repentino, governos ou indivíduos importaram rapidamente uma vacina estrangeira.

“Se não corresponder à estirpe exata que atua naquele local, a resposta para a controlar poderá ser insuficiente”, alerta o especialista, que também não participou no estudo e desenvolveu uma vacina contra a síndrome hemolítico-urémica no seu país.

“Problemas também podem surgir com a cadeia de frio, resultando na chegada da vacina com uma resposta imunológica fraca”, acrescenta. “Isso diminui a gravidade da doença, mas não impede o desenvolvimento da infecção.”

Para melhorar a eficácia, Gleason propõe comparar as taxas de cobertura entre países e aprimorar o monitoramento e a classificação das cepas das doenças mais prevalentes. “Selecionar aquelas com a resposta mais forte (e resolver as incompatibilidades) poderia aumentar substancialmente a proteção”, prevê ele.

Resistência a antibióticos

O estudo também aborda as vantagens da vacinação na redução do uso de antibióticos no gado, o que, por sua vez, diminui a disseminação de bactérias resistentes.

No entanto, prevê-se que o uso de antimicrobianos na pecuária aumentará 30% em 2040 em comparação com os níveis de 2019, e que a América do Sul será uma das regiões com maior crescimento no uso desses medicamentos em animais.

“No século passado, descobrimos os antibióticos; e neste século, precisamos aprender a lidar com o problema da resistência antimicrobiana. A vacinação é a ferramenta mais eficaz para reduzir o uso de antimicrobianos, porque previne a doença antes que seja necessário tratá-la com antibióticos”, reflete Menchaca.

Questionado sobre por que o setor agrícola parece relutante em investir em vacinas, mas não tanto em gastar com antibióticos, o especialista uruguaio opina que isso se deve, por vezes, à “falta de conhecimento” e destaca a necessidade de capacitar os tomadores de decisão para que estejam cientes da importância da adoção de vacinas.

Mas, em outras ocasiões, ele ressalta que existe uma lógica prática: “As vacinas sozinhas nem sempre são suficientes para resolver o problema e devem ser complementadas com outras medidas de saúde, o que pode diminuir o atrativo de sua implementação.”

“Além disso”, continua ele, “em regiões onde as taxas de vacinação são mais baixas, geralmente há menos investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D), menos conhecimento da epidemiologia local e das variantes circulantes, menos desenvolvimento de vacinas locais de boa qualidade e menos conhecimento sobre a eficácia das vacinas desenvolvidas em outros contextos.”

“Fortalecer o investimento público em P&D, aprimorar as campanhas de saúde locais e coordená-las com o setor privado é fundamental para reverter essa situação e caminhar rumo a um benefício comum: animais mais saudáveis, sistemas de produção mais sustentáveis, alimentos mais saudáveis ​​e pessoas com melhor saúde”, conclui o especialista uruguaio.


Fonte: SciDev.Net

Vazamento na Foz do Amazonas não é um acidente — é um teste ético para o Brasil

O incidente na perfuração da Petrobras escancara uma pergunta incômoda: estamos preparados para explorar petróleo no último grande território vivo do planeta?

O vazamento registrado durante a perfuração da Petrobras na Foz do Amazonas não é apenas um episódio técnico. É um teste de coerência – Imagem gerada por IA – Foto: Ilustrativa/Divulgação 

Por Oscar Lopes para o “Neomundo”

Não foi uma explosão.
Não houve óleo negro na superfície.
Não apareceu nenhuma imagem dramática de aves cobertas por piche.

E, ainda assim, o vazamento registrado durante a perfuração do poço FZA-M-59, na Foz do Amazonas, talvez seja um dos episódios ambientais mais simbólicos — e reveladores — dos últimos anos no Brasil.

Segundo documento interno da própria Petrobras, ao qual a imprensa internacional teve acesso, cerca de 15 mil metros cúbicos de fluido de perfuração vazaram para o mar a quase 2.700 metros de profundidade, em uma das regiões mais sensíveis e menos conhecidas do planeta. O incidente foi classificado como potencialmente capaz de causar danos ao meio ambiente ou à saúde humana. As atividades, por ora, estão suspensas.

A empresa afirma que o fluido é biodegradável, atende aos limites de toxicidade e que tudo está sob controle.

Mas talvez essa não seja a pergunta certa.

O vazamento não é o ponto final. É o ponto de partida

O debate público rapidamente se dividiu entre dois polos previsíveis:
de um lado, quem grita “tragédia ambiental”;
do outro, quem responde “foi contido, não há risco”.

Só que o episódio revela algo mais profundo — e mais desconfortável.

A Foz do Amazonas virou um laboratório de risco institucional

Ali, não se testa apenas tecnologia de perfuração em águas ultraprofundas. Testa-se a capacidade do Brasil de:

  • avaliar riscos reais em ecossistemas pouco mapeados;
  • ouvir comunidades tradicionais antes, e não depois;
  • alinhar discurso climático com decisões econômicas;
  • sustentar a própria credibilidade ambiental no cenário global.

Quando um vazamento acontece antes mesmo de qualquer descoberta comercial, o sinal de alerta não é técnico. É estratégico.

Um território invisível… até dar problema

A Bacia da Foz do Amazonas — também chamada de Margem Equatorial — abriga um sistema oceânico singular, com recifes profundos, alta biodiversidade e conexões diretas com o maior rio do planeta. É uma região onde ciência ainda está correndo atrás do básico: mapear, entender, descrever.

E é justamente aí que mora o paradoxo.

Como perfurar com segurança um território que ainda não conhecemos direito?

Organizações da sociedade civil questionam o licenciamento concedido pelo Ibama, apontando falhas graves:

  • ausência de consulta adequada a povos indígenas, quilombolas e pescadores;
  • uso de modelos de dispersão de impactos baseados em dados de 2013, quando já existem informações de 2024;
  • subestimação de cenários extremos em uma região de correntes marítimas complexas.

Nada disso é detalhe técnico. É governança ambiental.

O passado insiste em voltar

Este não é um capítulo isolado. Desde 1946, a Foz do Amazonas desperta interesse da indústria do petróleo. Entre 2001 e 2011, ao menos 11 poços foram perfurados. Em 2011, uma sonda da própria Petrobras chegou a ser arrastada por correntes marítimas intensas — um alerta ignorado por anos.

Depois de uma negativa em 2023, a autorização para o novo poço só veio em outubro de 2025, após recurso da estatal. Pouco depois, a empresa pediu licença para perfurar outros três poços contingentes: Manga, Maracujá e Marolo.

Em paralelo, no leilão da Agência Nacional do Petróleo, em junho de 2025, a Petrobras arrematou 10 dos 19 blocos disponíveis na região. Outras gigantes globais seguiram o mesmo caminho.

O recado é claro: a corrida pelo petróleo na Amazônia Azul começou.

O verdadeiro vazamento é de coerência

O Brasil já sediou a COP30, ocupou o centro do debate climático global e reforçou, nos discursos oficiais, seu compromisso com a biodiversidade, a transição energética e a liderança ambiental. Ao mesmo tempo, aposta alto na expansão da fronteira petrolífera mais sensível do país.

Esse vazamento não derramou apenas fluido de perfuração.
Ele derramou uma contradição.

Se tudo der certo, dirão que foi um incidente menor.
Se algo der errado, o custo será incalculável — ambiental, social e reputacional.

A pergunta que fica não é se o fluido era biodegradável.
É se a decisão política que levou até ali também é.

A Foz do Amazonas como espelho do Brasil

No fim das contas, a Foz do Amazonas não é só um território em disputa.
Ela virou um espelho.

Reflete quem somos quando crescimento econômico e proteção ambiental entram em conflito.
Reflete até onde vai, de fato, nosso compromisso com um futuro de baixo carbono.
E reflete se aprendemos algo com décadas de acidentes que sempre começam assim: pequenos, controlados, “dentro do previsto”.

Talvez o maior risco não esteja no fundo do mar.
Mas na superfície das decisões.

E esse, definitivamente, ainda não foi contido.


Fonte: Neomundo

A era dos fungos

Por Monica Piccnini para “The Ecologist” 

Profissionais de saúde e acompanhantes de pacientes na enfermaria oncologista do Hospital Santa Rita de Cássia, em Vitória, capital do estado do Espírito Santo, começaram a relatar doenças respiratórias em outubro de 2025: tosse, febre, fadiga, falta de ar.

Tratamentos que normalmente funcionavam falhavam, e a recuperação era lenta ou ausente. À medida que mais pessoas adoeciam, ficou claro que o problema não era individual, algo circulava pelo próprio hospital.

Após semanas de investigação, as autoridades estaduais de saúde confirmaram 33 casos de histoplasmose, uma infecção causada pelo fungo Histoplasma capsulatum. O organismo, comumente encontrado em solo enriquecido com fezes de aves e morcegos, havia entrado em um ambiente clínico considerado selado contra exposição ecológica.

Ecossistemas

Isso não foi só uma falha de higiene. Era um sinal de mudança ambiental que chegava a lugares feitos para mantê-las afastadas. Era um organismo mais antigo que a própria humanidade, um que aprendeu a sobreviver em um mundo que estamos mudando rapidamente, superaquecendo.

“Esse fungo faz parte do meio ambiente”, disse Tyago Hoffmann, secretário de saúde do Espírito Santo. “Mas a exposição ambiental pode alcançar lugares que acreditamos serem controlados.”

O surto não foi uma anomalia; era um aviso.

Os fungos são essenciais para a vida em terra. Eles decompõem matéria orgânica, ciclam nutrientes e sustentam os ecossistemas vegetais. Sem eles, os solos falhariam e as florestas desavariam. Ainda assim, eles continuam entre os organismos menos estudados e menos compreendidos da Terra.

Cientistas estimam que pode haver entre 1,5 e 3,8 milhões de espécies fúngicas e menos de 10% já foram formalmente descritas. Ainda menos são estudados quanto ao seu impacto na saúde humana.

Floreio

O que está mudando não é o comportamento fúngico, mas as condições ecológicas que antes o limitavam. A mudança climática não cria doenças fúngicas do nada. Ela remodela as condições em que os fungos vivem, se espalham e persistem.

Historicamente, essa lacuna de conhecimento não foi particularmente perigosa, pois nossos corpos foram protegidos pelo calor. A temperatura média humana, em torno de 37 graus centígrados, cria uma barreira biológica natural, que a maioria dos fungos simplesmente não conseguiria sobreviver.

À medida que a temperatura global sobe, essa barreira está enfraquecendo. Os fungos estão se adaptando, espécies antes restritas a ambientes mais frios agora evoluem para tolerar calor mais alto. Alguns agora são capazes de sobreviver em temperaturas mais próximas às do corpo humano.

“Patógenos fúngicos representam uma séria ameaça à saúde humana”, disse Viv Goosens, do Wellcome Trust. “As mudanças climáticas vão agravar esses riscos.”

Temperaturas mais quentes expandem a área geográfica de muitas espécies. Por exemplo, mudanças na chuva alteram a umidade do solo, ajudando os fungos a prosperar em lugares onde antes não podiam. Enchentes transportam esporos através das paisagens, e secas secam o solo, permitindo que partículas microscópicas entrem em edifícios que nunca foram projetados para mantê-los afastados.

O surto não foi uma anomalia; era um aviso.

Surgimento

Os fungos são excepcionalmente bons sobreviventes, pois seus esporos são leves, duráveis e capazes de viajar longas distâncias. Em um clima desestabilizado, essas características de sobrevivência tornam-se um risco à saúde pública.

Pesquisadores médicos reconhecem cada vez mais a mudança climática como um fator que impulsiona o surgimento de doenças fúngicas. Uma revisão publicada na Therapeutic Advances in Infectious Disease alerta que o aumento das temperaturas e a perturbação ecológica estão redesenhando o mapa global das doenças.

Já vimos como isso se manifesta com Candida auris. Identificado pela primeira vez em 2009, o fungo multirresistente a medicamentos foi detectado em hospitais de mais de 50 países em seis continentes.

Muitos pesquisadores acreditam que o aumento das temperaturas ambientais pode ter ajudado a superar as barreiras térmicas que antes impediam os fungos de infectar os humanos.

O Dr. Norman van Rhijn, da Universidade de Manchester, disse: “Já vimos o surgimento do fungo Candida auris devido ao aumento das temperaturas, mas, até agora, tínhamos pouca informação sobre como outros fungos poderiam responder a essa mudança no ambiente.

Vulnerável

“Os fungos são relativamente pouco pesquisados em comparação com vírus e parasitas, mas esses mapas mostram que patógenos fúngicos provavelmente impactarão a maioria das regiões do mundo no futuro.”

Histoplasma capsulatum está presente há muito tempo em toda a América. A infecção ocorre quando esporos são inalados, muitas vezes após o solo ser perturbado por obras, vento ou mudanças na ventilação.

Em Vitória, os investigadores acreditam que esporos entraram no Hospital Santa Rita de Cássia através do sistema de ar-condicionado ou de outras vulnerabilidades estruturais. Uma vez dentro, encontraram pessoas menos capazes de resistir à infecção: pacientes imunocomprometidos com câncer e profissionais de saúde sobrecarregados.

A histoplasmose frequentemente se assemelha à gripe ou pneumonia, atrasando o diagnóstico. Em indivíduos saudáveis, pode se resolver sem tratamento, mas em pessoas vulneráveis, pode se espalhar além dos pulmões e se tornar fatal.

Resistência

Padrões semelhantes estão surgindo em outros lugares. Doenças fúngicas estão surgindo em novas regiões, ligadas ao aumento das temperaturas, perturbações ecológicas e infraestrutura falhante.

Os mais expostos raramente são os mais responsáveis. Profissionais de saúde, faxineiros, funcionários juniores e acompanhantes de pacientes são frequentemente os primeiros afetados e os últimos protegidos. Muitos vivem em bairros mais quentes, dependem de sistemas públicos de saúde subfinanciados e não têm acesso a diagnóstico precoce ou licença remunerada.

As comunidades menos responsáveis pelas emissões de combustíveis fósseis estão sendo forçadas a aceitar as consequências primeiro. Isso é injustiça climática, acontecendo no nível microbiano.

Apesar das evidências crescentes de risco, a doença fúngica permanece negligenciada. Existem poucos antifúngicos, resistência crescente e vigilância limitada. O financiamento para pesquisa e a atenção política continuam mínimos, especialmente quando comparados às ameaças virais que afetam populações mais ricas.

Isolado

O surto no Hospital Santa Rita de Cássia não é apenas uma história médica – é uma história ecológica. Isso mostra como a perturbação ambiental não fica fora dos muros do hospital. Ele entra nos edifícios por meio de sistemas de ar, fraquezas da infraestrutura e suposições de separação entre a saúde humana e o mundo natural.

As mudanças climáticas são frequentemente discutidas em termos distantes, como o derretimento das calotas polares, a queima de florestas e o aumento do mar, mas seus efeitos já estão presentes em hospitais, locais de trabalho e pulmões.

A saúde humana depende de ecossistemas estáveis e, quando esses sistemas se desestabilizam, os padrões das doenças mudam. Os esporos que circularam por um hospital no Brasil carregavam uma mensagem que não podemos ignorar.

As mudanças climáticas estão remodelando doenças, e as instituições criadas para nos proteger não estão mais protegidas das consequências.

Este Autor

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

Republicando um texto de 2011 e refletindo sobre sua atualidade: os riscos da fragmentação identitária

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Em junho de 2011 publiquei o artigo abaixo no número 200 da hoje extinta revista “Somos Assim” e decidi republicar hoje porque me parece que algumas questões apontadas nele continuam merecendo ser respondidas.  Lembro que eu já havia republicado este texto em 2018 aqui neste blog, mas percebo que a atualidade permanece após quase 15 anos. 

As novas múltiplas identidades e o seu papel na perpetuação da exploração

Em uma das minhas visitas a uma rede social na internet encontrei um adesivo apontando para uma nova utopia “por um mundo sem racismo, machismo e homofobia”.  Em tese essa é uma utopia positiva, pois ninguém com uma visão democrática de vida iria querer viver ameaçado por alguma destas facetas opressivas. Mas uma coisa que me intriga é por que subitamente fomos tomados por uma consciência tão fracionada da violência cotidiana em que vivemos submetidos dentro do sistema capitalista. Aliás, pior, por que aceitamos tantas identidades para os oprimidos sem que ninguém se questione sobre quem foram seus criadores.

Uma primeira observação necessária é a de que, pelo menos no âmbito do Brasil, essas identidades foram introduzidas pela Fundação Ford em meados da década de 90 do Século XX.   Em uma visita que fiz à sede da Fundação Ford no Rio de Janeiro, após retornar do meu doutorado nos Estados Unidos, tive uma conversa com tintas de premonição dado que meu interlocutor me adiantou uma agenda de ações que se materializou dentro dos nossos discursos cotidianos na década seguinte.  Não devo ser o único a apontar a gênese norte-americana dessa multiplicidade de identidades que hoje conformam o discurso politicamente correto, usado por governantes e membros de organizações não-governamentais como se fosse um mantra da libertação social de supostas minorias oprimidas. Mas o fato é que esta gênese continua sendo meticulosamente escondida dos seus promotores.

Mas qual seria a razão da omissão da maternidade para os setores oprimidos pelo funcionamento das engrenagens sociais? A resposta para esta charada precisa ser buscada na utilidade que as mesmas tiveram no contexto da sociedade estadunidense. Se olharmos para o levante dos direitos civis a favor dos negros que ocorreu nos EUA ao longo da década de 60 do Século XX, veremos que a maioria das lideranças não possuía uma visão de questionamento da sociedade capitalista. Pelo contrário, buscava-se incluir os negros nos circuitos de consumo que historicamente estiveram reservados aos brancos. Ainda que num primeiro momento estas lideranças tenham sido perseguidas e algumas assassinadas (como no caso de Martin Luther King), esta agenda de inclusão progressiva acabou servindo para manter a maioria das estruturas sócio-econômicas e políticas basicamente intocadas.  Em suma, um movimento que nasceu com potenciais revolucionários, acabou sendo domesticado e assimilado.

 Ainda que os norte-americanos tenham tentado exportar o seu modelo de inclusão conservadora mesmo antes da queda do Muro de Berlim, foi justamente este evento que ofereceu a oportunidade que precisavam para fazê-lo.  O desmantelamento da URSS e a hegemonia neoliberal que se seguiram também contribuíram para a disseminação das tentativas de fragmentar a identidade dos oprimidos, coisa que acabou ocorrendo na década seguinte. Neste sentido, o aparecimento de múltiplas minorias como resultado do fracionamento das identidades que vigoraram desde quando Karl Marx lançou o Manifesto Comunista em 1848 (isto é burgueses e proletários) só foi possível devido ao desaparecimento de um dos contendores da Guerra Fria. Em outras palavras, estas múltiplas identidades são uma expressão direta do fracasso do socialismo real e da hegemonia, ainda que momentânea, da ideologia neoliberal. Por outro lado, o fato de que até partidos e movimentos sociais que se pretendem revolucionários tenham assimilado estas novas identidades expressa a força da ideologia neoliberal. Ainda que alguns desses partidos e movimentos tenham adotado o discurso politicamente correto e as identidades que o acompanham por motivos táticos (e até oportunistas), isto não diminui o fato de que a hegemonia neoliberal impôs uma nova e fragmentada visão dos oprimidos.  Essa fragmentação, aliás, implicou numa falácia muito eficaz que consiste em desviar a gênese da opressão das relações de classe para outros tipos de relação, como as raciais, étnicas, religiosas e de gênero.  É preciso reconhecer que esta é uma estratégia muito eficaz, pois agora chega a ser brega (senão coisa de dinossauros ideológicos) tentar explicar todas essas facetas da opressão como algo intrínseco ao próprio Capitalismo.

Mas em que pesem as dificuldades de se retomar um debate que privilegie a classe como categoria explicativa para as opressões de todos os tipos, a crise sistêmica que o sistema capitalista atravessa auxilia a sua retomada.  A verdade é que determinadas situações, como a que ocorreu recentemente na Praça Porta do Sol em Madri, demonstram de forma cabal que sem um entendimento de classe da realidade pouco adianta galvanizar as energias geradas pelo descontentamento social. E pior, o que começa com um potencial de impor transformações no status quo acaba servindo para alimentar aquelas facetas mais sombrias da sociedade contemporânea, já que em face da despolitização causada pela fragmentação identitária, a tendência sempre será de que o potencial de transformação seja anulado, resultando em frustração e raiva.

Finalmente, retornando ao inicio desta reflexão, eu me pergunto o que aconteceria se repentinamente o mundo acordasse sem racismo, machismo e homofobia. Será que estaria cessada toda a violência e opressão que vemos hoje pelo mundo afora?

Uso de agrotóxicos proibidos causa proibição de importação de frutas produzidas no Mercosul pela França

FRANCE TO SUSPEND IMPORTS OF CERTAIN FRUITS OVER BANNED PESTICIDE RESIDUES

A França suspenderá a importação de frutas que contenham resíduos de pesticidas proibidos na UE , anunciou no domingo o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu  

Por Diário do Centro do Mundo

A França anunciou a suspensão da importação de frutas provenientes do Mercosul que contenham resíduos de agrotóxicos proibidos na União Europeia. A decisão foi comunicada no início da noite deste domingo (4) pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu e tende a acirrar as negociações do acordo comercial entre os dois blocos.

Em “carta aberta aos agricultores da França”, Lecornu afirmou: “Portarias serão adotadas pelo governo esta semana para suspender a importação de gêneros alimentícios provenientes de países da América do Sul, como abacates e maçãs, contendo resíduos de cinco substâncias, no entanto, já proibidas na Europa”.

Em publicação na rede X, ele citou mancozebe, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim, além de indicar impacto sobre abacate, maçã, manga, goiaba, cítricos e uvas.

Segundo o premiê, “os controles sobre as importações serão maciçamente reforçados, nas fronteiras e dentro do território [francês]”. Ele acrescentou: “Acabo de endurecer as instruções a esse respeito. Cabe, doravante, à União Europeia amplificar rapidamente essas ações na escala de todo o mercado europeu”.

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Efeito nas negociações com o Mercosul

A França é a principal opositora do acordo de redução tarifária com o Mercosul, sob pressão de agricultores locais. Em dezembro, com apoio da Itália, Paris conseguiu adiar a assinatura final para janeiro, alegando a necessidade de salvaguardas e controles sanitários.

O adiamento irritou o presidente Lula (PT), que concordou em postergar a cerimônia após conversa com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni.

O Brasil sinaliza que pode abandonar as negociações se houver nova postergação, enquanto a França atua para barrar a entrada em vigor do acordo, que ainda depende do Parlamento Europeu.


Fonte: Diário do Centro do Mundo

Organizações pedem que a Anvisa suspenda o uso de 3 agrotóxicos após novas descobertas científicas

Por Yudi Soares para “Terra Brasil Notícias”

O debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil ganhou novo fôlego em 2025 após entidades da sociedade civil solicitarem oficialmente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a suspensão das vendas de três ingredientes ativos amplamente utilizados: glifosato, atrazina e alacloro, em um contexto de recordes sucessivos no consumo dessas substâncias e de questionamentos sobre a integridade científica de estudos que embasaram decisões regulatórias anteriores.

Por que o glifosato está no centro da discussão no Brasil?

Por mais de duas décadas, decisões regulatórias sobre sua segurança se apoiaram em um estudo publicado no ano 2000, cuja independência científica passou a ser fortemente questionada.

Em 2025, veio à tona que funcionários da empresa Monsanto teriam participado da elaboração do artigo de forma não transparente, levando à sua retratação pela revista científica. Como esse estudo serviu de base para pareceres da Anvisa que mantiveram o glifosato liberado em 2020, entidades passaram a exigir reavaliação urgente com critérios atualizados, transparência e maior escrutínio público.

Quais são os números mais recentes sobre agrotóxicos no Brasil?

A discussão sobre o glifosato se insere em um cenário mais amplo de crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil. Em 2024, o Ibama registrou aproximadamente 908 mil toneladas de ingredientes ativos comercializados, um aumento superior a 20% em relação a 2023, o maior volume já registrado na série histórica.

Entre esses ingredientes, o glifosato segue na liderança, com mais de 230 mil toneladas vendidas em 2024, seguido de compostos como o mancozebe, que subiu de posição após forte crescimento. Embora os dados do Ibama sejam autodeclaratórios e passíveis de revisão, eles confirmam uma tendência de expansão em volume e faturamento, também apontada pelo Sindiveg.

Quais são os riscos de câncer associados à atrazina e ao alacloro?

Além do glifosato, a atrazina e o alacloro também foram incluídos no pedido de reavaliação apresentado à Anvisa. Em novembro de 2025, especialistas internacionais em saúde classificaram essas duas substâncias como prováveis causadoras de câncer em humanos, aumentando a pressão por medidas de precaução.

A atrazina ocupa lugar de destaque no mercado nacional, com dezenas de milhares de toneladas comercializadas anualmente, o que amplia o potencial de exposição populacional. Diante dessa classificação de risco, as entidades defendem a aplicação do princípio da precaução, com suspensão temporária do uso enquanto uma nova análise toxicológica abrangente é conduzida.

Quais fatores são considerados na reavaliação toxicológica de agrotóxicos?

As entidades que assinam o pedido à Anvisa argumentam que uma reavaliação séria deve considerar não apenas estudos laboratoriais, mas também evidências de campo e impactos cumulativos. Nessa perspectiva, o processo precisa analisar efeitos à saúde humana, ao meio ambiente e às condições de trabalho no campo, de forma integrada.

Para tornar essa análise mais robusta, costumam ser avaliados diversos aspectos científicos e regulatórios, que ajudam a orientar decisões sobre restrições, cancelamentos ou mudanças de uso autorizado:

  • Novas evidências científicas sobre efeitos à saúde humana, incluindo estudos epidemiológicos;
  • Impactos ambientais, como contaminação de solo, água e biodiversidade;
  • Exposição ocupacional de trabalhadores rurais e condições de aplicação;
  • Resíduos em alimentos consumidos pela população e padrões de consumo.

Como o aumento do uso de agrotóxicos impacta a sociedade brasileira?

O crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil é acompanhado por preocupações com saúde pública e meio ambiente, como contaminação da água, do solo e dos alimentos. Casos de intoxicação aguda em trabalhadores expostos diretamente e suspeitas de efeitos crônicos na população em geral reforçam a necessidade de políticas de redução e controle mais rigoroso.

Paralelamente, o país registra número recorde de liberações de novos produtos: em 2025, de fevereiro ao início de dezembro, foram autorizados mais de 700 agrotóxicos para uso agrícola, superando 2024. Esse avanço coexiste com iniciativas como o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que busca estimular práticas agrícolas menos dependentes de químicos sintéticos e fortalecer a vigilância em saúde.

Quais caminhos vêm sendo discutidos para reduzir a dependência de agrotóxicos?

No contexto atual, o debate sobre políticas de redução de agrotóxicos envolve diferentes frentes de ação governamental, científica e social. Documentos técnicos e propostas oficiais costumam apontar a necessidade de combinar mudanças regulatórias com incentivos a alternativas produtivas mais sustentáveis.

De forma geral, são mencionadas três linhas de atuação que podem apoiar uma transição gradual para modelos de produção menos dependentes de pesticidas químicos, conciliando produtividade com proteção à saúde e ao meio ambiente:

  1. Revisão regulatória: reavaliar ingredientes ativos, atualizar monografias, restringir usos específicos ou cancelar registros de substâncias com evidências consistentes de risco;
  2. Estímulo a alternativas: incentivar o manejo integrado de pragas, a agroecologia e insumos biológicos, reduzindo a necessidade de produtos químicos tradicionais;
  3. Transparência e monitoramento: ampliar sistemas de vigilância em saúde, controle de resíduos em alimentos e divulgação de informações acessíveis sobre riscos e usos permitidos.

Fonte: Terra Brasil Notícias

A cobiça pelo petróleo venezuelano como fachada para os objetivos de retomada de hegemonia

Donald Trump está em busca da hegemonia perdida

Agora que ficou abertamente explícito que a retirada de Nicolás Maduro tem tudo a ver com o acesso às riqueza petrolífera venezuelana e nada com o que estabelecimento de uma dessas democracias de fachada que abundam no mundo, há quem corretamente esteja se preocupando com o que aconteceria com a crise climática se todo potencial de emissões de CO2 associado à exploração das vastas reservas ali existentes. 

Em sua página do Facebook, o professor do Departamento de Geografia da UFRJ Cláudio Egler apontou que “a queima integral das reservas provadas de petróleo da Venezuela — da ordem de 130 a 150 GtCO₂e — teria um impacto extremamente significativo no clima global, pois corresponderia sozinha a quase quatro anos das atuais emissões globais de CO₂ ou a uma fração substancial do orçamento de carbono restante compatível com as metas de 1,5°C ou mesmo 2°C estabelecidas pela IPCC“.  Egler acrescentou que “em termos físicos, a liberação dessa magnitude adicional de gases de efeito estufa intensificaria o forçamento radiativo global, acelerando o aquecimento médio do planeta, ampliando a frequência e a intensidade de eventos extremos (ondas de calor, secas e chuvas intensas) e agravando processos de longo prazo como a elevação do nível do mar e a acidificação dos oceanos“.

Embora legítimas e cientificamente ancoradas, eu diria que um dos problemas que Donald Trump, um negacionista climático convicto, teria se refere ao algo muito básico no capitalismo: a relação entre oferta e demanda.  A questão é que embora o consumo de combustíveis fósseis seja ainda o principal componente da matriz energética global, há uma tendência crescente de substituição por outras fontes, o que no tempo serviria para diminuir a pressão por demanda, inclusive naquelas áreas em que a exploração está se dando dentro de seus maiores potenciais.

Além disso, há que se levar em conta os interesses de outros países produtores de petróleo, visto que uma ampliação rápida da exploração do petróleo venezuelano colaboraria para uma queda no preço do barril, o que geraria uma espécie de efeito dominó nas economias que dependem dessa fonte de renda. Associado a isso ainda há a questão de que as próprias petroleiras estadunidenses tem seus interesses econômicos espalhados por todos os países produtores, e uma ênfase na exploração na Venezuela geraria desequilíbrios econômicos e principalmente políticos que iriam se chocar contra os interesses das petroleiras.  Talvez por isso a reação inicial ao anúncio de Donald Trump no sentido de que as petroleiras estadunidenses vão se ocupar diretamente do processo de saque das reservas venezuelanas tenha sido tão silenciosa.

Outro aspecto relacionado à oferta se refere ao lado da demanda. O principal comprador de petróleo atualmente é a China que mantém laços econômicos diretos com a Venezuela. Se de fato o cenário desenhado por Donald Trump viesse a se confirmar seria muito mais fácil e prático para a China investir na melhoria da capacidade de produção da Rússia e de países asiáticos.

Mas ainda há que se levar em conta a especificidade das reservas petrolíferas venezuelanas. O fato é que o petróleo venezuelano é majoritariamente pesado a extrapesado e frequentemente ácido, com alto teor de enxofre, características que o diferenciam do petróleo leve e doce produzido em países como os Estados Unidos. Concentrado sobretudo na Faixa Petrolífera do Orinoco, esse tipo de óleo apresenta alta densidade e viscosidade, o que dificulta sua extração, transporte e refino, exigindo processos mais caros e refinarias com tecnologia especializada. Além disso, seu refino gera maior proporção de derivados de menor valor agregado, como asfalto, e menor volume de combustíveis mais lucrativos, como gasolina e diesel. A necessidade de infraestrutura específica também limita o número de compradores, fazendo com que, historicamente, o petróleo venezuelano seja negociado a preços mais baixos no mercado internacional em comparação aos petróleos leves.

Em síntese, embora a disputa em torno da Venezuela seja apresentada sob o discurso da democracia, ela está profundamente ligada ao controle de suas vastas reservas de petróleo, cujo aproveitamento integral teria impactos climáticos severos e incompatíveis com as metas globais de redução de emissões. Ainda assim, fatores econômicos e geopolíticos relativizam a viabilidade de uma exploração acelerada: a tendência de redução da demanda por combustíveis fósseis, os interesses de outros países produtores preocupados com a queda do preço do barril, a atuação global das grandes petroleiras e o papel central da China como principal compradora limitam esse movimento. Soma-se a isso a própria especificidade do petróleo venezuelano — pesado, ácido e de difícil refino — que encarece sua exploração e reduz sua atratividade comercial, ajudando a explicar tanto o silêncio inicial do mercado quanto os obstáculos práticos a uma corrida imediata por essas reservas.

Moral da história: o lobo mau que já sabe que seus pulmões enfraqueceram e as garras já não são mais lá essas coisas (isto é, os EUA) pode estar soprando a casa dos três porquinhos (no caso a Venezuela) apenas para causar susto, pois sabe que não vai derrubar nada, e o negócio está mais para conseguir submissão sem muito esforço do que qualquer outra coisa.

‘Uma quantidade inacreditável de poluição’: qual é a dimensão da ameaça da IA ​​para o clima?

Defensores da IA ​​afirmam que ela pode contribuir para o combate à crise climática. No entanto, o aumento vertiginoso dos custos de energia e água preocupa os especialistas

Um computador de grande porte consumindo toda a energia de um reservatório.

O custo ambiental do boom da IA ​​é difícil de mensurar, mesmo enquanto dispara. Imagem composta: Alex Mellon para o The Guardian: Getty Images

Por Ajit Niranjan para “The Guardian” 

“Foi de cair o queixo”, disse Wilson, um ex-trabalhador do setor de petróleo e gás do Texas que documenta emissões de metano há mais de uma década e estima que o data center Colossus da xAI estivesse expelindo mais desse gás que aquece o planeta do que uma grande usina de energia. “Uma quantidade inacreditável de poluição.”

Naquela mesma semana, o principal produto da empresa estava causando alvoroço nos noticiários. O chatbot irreverente de Musk, Grok, repetiu uma teoria da conspiração de que um “genocídio branco” estava ocorrendo na África do Sul quando questionado sobre assuntos tão aleatórios quanto beisebol e andaimes. As postagens foram rapidamente apagadas, mas Grok continuou elogiando Hitler , promovendo ideologias de extrema-direita e fazendo afirmações falsas.

Grok de Elon Musk

Grok, o chatbot de IA de Elon Musk, já elogiou Hitler e repetiu teorias da conspiração sobre o “genocídio branco”. Fotografia: Algi Febri Sugita/ZUMA Press Wire/Shutterstock

“É um desperdício horrível, horrível”, disse Wilson, diretor do grupo de campanha Oilfield Witness, apontando para imagens do Mickey Mouse nazista geradas pelo Grok como um exemplo do que o gás fóssil estava sendo queimado para produzir. “Que utilidade isso tem?”

Alguns especialistas temem que os centros de dados possam prejudicar a transição para uma economia limpa, adicionando um obstáculo desnecessário à tarefa inglória de impedir que o planeta aqueça 1,5°C (2,7°F). Outros se mostram otimistas em relação aos custos de energia, argumentando que eles são insignificantes em comparação não apenas com as indústrias poluentes, mas também com o poder da tecnologia de transformar a sociedade.

Qual é a dimensão da ameaça da IA ​​para o clima? E será que ela pode trazer mais benefícios do que prejuízos?

Quando Hannah Daly dirigia modelos para a Agência Internacional de Energia (IEA) em Paris e depois se tornou professora de energia sustentável na University College Cork, na Irlanda, ela dedicava pouco tempo a se preocupar com o custo de carbono dos computadores. Carros, vacas e aquecimento doméstico estavam entre os problemas complexos que consumiam o orçamento de carbono; as emissões dos serviços digitais eram pequenas e relativamente estáveis.

Mas na Irlanda, a demanda computacional por energia atingiu níveis impossíveis de ignorar. Os centros de dados consomem um quinto da eletricidade do país e a previsão é de que esse consumo chegue a quase um terço em poucos anos. A rápida expansão de armazéns repletos de chips, que surgiram em um ritmo mais acelerado do que a rede elétrica consegue suportar, levou à sua proibição efetiva de conexão à rede em 2021.

A trajetória de “crescimento enorme e exponencial” é o que preocupa, disse Daly. “Não sei se a Irlanda é uma exceção ou um prenúncio do que está por vir. Mas é definitivamente um conto de advertência.”

Os centros de dados consomem apenas 1% da eletricidade mundial, mas em breve poderão demandar muito mais. Sua participação no consumo de eletricidade dos EUA deverá mais que dobrar, chegando a 8,6% até 2035, segundo a BloombergNEF, enquanto a AIE (Agência Internacional de Energia) projeta que os centros de dados serão responsáveis ​​por pelo menos 20% do crescimento da demanda de eletricidade nos países desenvolvidos até o final da década.

Parte da demanda está sendo atendida por meio de contratos de longo prazo para a compra de energia renovável – apoiando a expansão da energia limpa mesmo quando a eletricidade que alimenta a instalação é poluente – enquanto algumas empresas de tecnologia assinaram acordos para usar energia nuclear.

Mas, num futuro próximo, os combustíveis fósseis deverão dominar o fornecimento. Os centros de dados da China estão concentrados no leste do país, região com forte presença do carvão. Nos EUA, onde se espera que o gás natural gere a maior parte da eletricidade nos centros de dados na próxima década, o governo Trump usou esse argumento para justificar a queima de mais carvão. “O carvão, bonito e limpo, será essencial para… vencer a corrida da IA”, disse o secretário de Energia, Chris Wright, em setembro, ao anunciar um pacote de investimentos de US$ 625 milhões (R$ 2,7 bilhões).

Um centro de dados da Amazon em Didcot, Oxfordshire.

Um datacenter da Amazon em Didcot, Oxfordshire. Fotografia: Horst Friedrichs/Alamy

Na Irlanda, que está construindo terminais para importar gás natural liquefeito (GNL) e usinas para queimá-lo, o boom dos data centers compensou os ganhos climáticos da expansão das energias renováveis ​​no setor elétrico, de acordo com uma análise que Daly realizou para a Friends of the Earth Ireland no ano passado. Países mais pobres também podem não estar imunes. A energia solar barata começou a substituir o carvão a um ritmo notável no Paquistão, mas os data centers estão prestes a ocupar a capacidade ociosa de usinas de energia desativadas, após o governo anunciar que dedicaria 2 GW de energia à inteligência artificial e ao bitcoin.

“Essa ideia de que o menor custo das energias renováveis ​​por si só impulsionará a descarbonização não é suficiente”, disse Daly. “Porque se houver uma enorme demanda de energia que queira crescer, ela recairá sobre esses ativos de combustíveis fósseis obsoletos.”

Isso significa que usar chatbots para redigir e-mails, escrever ensaios e planejar férias coloca o planeta em risco? As empresas de tecnologia têm resistido à pressão para fornecer dados detalhados sobre o consumo de energia de sua IA, mas estimativas populares giram em torno de 0,2 a 3 watts-hora (Wh) para uma simples consulta de texto e aumentam consideravelmente para “pesquisas complexas” e produção de vídeo. Em uma postagem de blog em julho, o CEO da OpenAI, Sam Altman, afirmou que uma consulta no ChatGPT usa tão pouca energia quanto uma lâmpada acesa por alguns minutos, em consonância com um relatório recente do Google sobre o consumo médio de texto para seu assistente de IA, Gemini.

Os números são insignificantes em comparação com atividades como voar, comer carne ou dirigir um carro. Ainda assim, os céticos se preocupam com a enorme escala da tecnologia – o ChatGPT afirma ter várias centenas de milhões de usuários semanais apenas três anos após seu lançamento – e com o fervor com que as empresas a inseriram em todos os aspectos da vida digital. O Google controla cerca de 90% do mercado global de mecanismos de busca e impôs a IA generativa em sua página de resultados. A ascensão de agentes de IA e serviços nos bastidores deve aumentar ainda mais esse burburinho.

“O que me preocupa é que estamos implementando IA de uma forma que não nos permite ter uma boa noção do consumo de energia”, disse Sasha Luccioni, líder de clima da empresa de IA Hugging Face, que se frustrou com as “divulgações seletivas” de grandes empresas que obscurecem o verdadeiro impacto climático de seus produtos. “Estamos essencialmente operando sob a hipótese de que não é um problema – ou que, se for um problema, será resolvido de alguma forma – em vez de nos anteciparmos a ele.”

Se a IA pudesse pagar suas dívidas energéticas economizando carbono em outros setores da economia? Essa é a tese apresentada em um relatório da AIE (Agência Internacional de Energia) em abril, que argumentou que as aplicações de IA existentes poderiam reduzir as emissões em uma proporção muito maior do que a produzida pelos data centers. Um artigo de pesquisadores da London School of Economics e da Systemiq chegou a uma conclusão semelhante em junho, após modelar cenários nos quais a IA ajudaria a integrar energia solar e eólica à rede elétrica, identificar proteínas alternativas que imitam a carne, melhorar a composição das baterias em carros elétricos e incentivar as pessoas a fazerem escolhas sustentáveis.

“A IA pode acelerar a implementação dessas tecnologias limpas, basicamente acelerando sua posição na curva de inovação e adoção”, disse a coautora Roberta Pierfederici, pesquisadora de políticas públicas do Instituto Grantham da LSE.

As projeções de redução de carbono trazem grandes incertezas – maior eficiência pode levar a um maior consumo, alerta a AIE (Agência Internacional de Energia), e efeitos rebote podem anular os ganhos, como carros autônomos prejudicando o transporte público – mas exemplos já existem. O Google afirma que a IA o ajudou a reduzir o resfriamento em data centers em 40%. A espanhola Iberdrola diz que a IA otimizou a manutenção e o desempenho de turbinas eólicas, aumentando a eficiência operacional em 25%. A francesa Engie afirma ter reduzido o tempo de inatividade em usinas solares usando IA para detectar falhas.

Como outros setores são muito poluentes, dizem os pesquisadores, a IA precisaria reduzir suas emissões em apenas uma pequena fração para compensar o custo de carbono de sua computação, que um estudo recente estimou em 0,1-0,2% das emissões globais, e está aumentando. “No setor de energia, já estamos vendo os resultados”, disse Pierfederici. “Já o setor de carne ainda não chegou lá.”

s defensores da tecnologia limpa não são os únicos que perceberam o potencial transformador da IA.

Quando Holly e Will Alpine decidiram deixar seus empregos na Microsoft no ano passado, sabiam que estavam abrindo mão de uma ótima oportunidade. O casal de millennials desfrutava de salários típicos do setor de tecnologia americano, graças às suas posições nas equipes de IA responsável e sustentabilidade da empresa, com colegas próximos e um trabalho que lhes dava um senso de propósito. Will estava entre as primeiras vozes a pressionar para que se enfrentasse a redução do custo de energia dos data centers.

Mas o trabalho da Microsoft para clientes do setor de petróleo e gás incomodava o casal, que começou a se preocupar mais com as emissões que a empresa possibilitava do que com as que ela produzia. Em 2019, a empresa anunciou uma parceria com a ExxonMobil com potencial para expandir a produção em até 50 mil barris por dia. No mesmo ano, iniciou um projeto digital com a Chevron que, segundo a petrolífera, reduziu em 30 dias o tempo de planejamento de seus poços em águas profundas. Com o surgimento de mais contratos, os Alpines começaram a pressionar a empresa por respostas.

“A resposta da empresa frequentemente apontava para sua própria pegada operacional, o que não é relevante”, disse Holly Alpine, que deixou a empresa com Will para fazer campanha para que a indústria de tecnologia combatesse as emissões que gera. “Após uma campanha interna de quatro anos, na qual recebemos muitas promessas, mas a maioria não foi cumprida, percebemos que a pressão interna não era suficiente.”

Um poço de petróleo no deserto

O diretor executivo da petrolífera Saudi Aramco afirmou recentemente que a empresa incorporou inteligência artificial “em tudo”. Fotografia: Bloomberg/Getty Images

A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que a IA poderá aumentar as reservas tecnicamente recuperáveis ​​de petróleo e gás em 5% e reduzir o custo de um projeto em águas profundas em 10%. As grandes petrolíferas estão ainda mais otimistas. “A inteligência artificial será, em última análise, o próximo boom do fracking na indústria”, disse Mike Sommers, diretor do Instituto Americano de Petróleo, à Axios . Amin Nasser, CEO da Saudi Aramco, afirmou que a empresa incorporou IA “em tudo” em uma entrevista à Bloomberg Television no início deste ano. A maior petrolífera do mundo dobrou seus investimentos em tecnologia de 2023 para 2024, segundo Nasser, e a ampla adoção da IA ​​”aumentou a produtividade e, consequentemente, o número de poços”.

Ao mesmo tempo, a indústria de petróleo e gás afirma que a IA pode reduzir sua intensidade de carbono, por exemplo, analisando dados de satélite para detectar vazamentos de metano. Mas mesmo nesse aspecto, críticos apontam que existe uma lacuna entre as percepções digitais e as ações corporativas. Wilson, que viu “nuvens gigantescas de gás escapando por todos os lados” durante uma recente viagem de campo à Bacia Permiana, disse que a sofisticada rede de satélites da indústria obteve poucos resultados, pois os vazamentos representam um problema pequeno em comparação com as liberações intencionais de metano.

“Eles estão usando isso como desculpa para adiar a ação”, disse Wilson. “Observar o metano do espaço não vai impedir a emissão de metano.”

Talvez ainda mais preocupante do que a expansão da oferta de combustíveis fósseis seja o efeito sobre o consumo. Um estudo publicado em outubro revelou que anúncios gerados por IA superam os criados por humanos, e a facilidade com que podem ser prouzidos reduz drasticamente o custo de incentivar o consumo. O setor de marketing, já familiarizado com anúncios hiperpersonalizados e compras simplificadas, está se preparando para agentes de IA que poderão comprar presentes e reservar voos em nome do cliente. A Tui, maior operadora de viagens da Europa, afirma estar investindo fortemente em IA, à medida que as pessoas recorrem ao ChatGPT para reservar suas férias.

“A narrativa está realmente focada nessa comparação falsa entre a energia usada para operar a tecnologia e os casos de uso positivos”, disse Alpine. “Mas é perigoso omitir os casos de uso negativos.”

Algumas vozes pedem uma pausa, pelo menos até que regras melhores sejam implementadas. Em outubro, o relator especial da ONU para o direito humano à água potável pediu uma moratória no desenvolvimento de novos centros de dados, citando os impactos ambientais prejudiciais. Em dezembro, uma coalizão de mais de 230 grupos ambientalistas nos EUA exigiu uma moratória nacional até que esses centros de dados fossem regulamentados. A Comissão de Serviços Públicos da Irlanda suspendeu sua proibição de fato às conexões à rede elétrica, mas afirmou que 80% do consumo anual de eletricidade de um centro de dados deve vir, eventualmente, de novos projetos de energia renovável.

Outros defenderam que se pressione o setor para que faça o bem. A Espanha, único país a mencionar a IA em uma legislação climática, obriga o governo a promover a digitalização que possa ajudar a descarbonizar a economia. Laurence Tubiana, uma das arquitetas do Acordo de Paris sobre o clima, sugeriu a taxação da IA ​​para gerar os fundos necessários para impedir o aquecimento global.

Os alpinistas, que afirmam não ser contra a IA, mas apenas desejar “limites razoáveis” para a tecnologia, estão pressionando para que o projeto de lei da UE sobre IA classifique os combustíveis fósseis como uma aplicação de alto risco da tecnologia. Eles também querem que os investidores considerem as emissões geradas pela IA na avaliação das empresas em relação a métricas ambientais, sociais e de governança (ESG).

O Google e a xAI não responderam ao pedido de comentários. A OpenAI afirmou que dedica muita atenção à melhor utilização de seu poder computacional, apoia iniciativas com parceiros para atingir metas de sustentabilidade e acredita que a IA será fundamental no combate às mudanças climáticas.

A Microsoft afirmou que a transição energética é complexa e exige avançar de forma ética, com a tecnologia desempenhando um papel importante na descarbonização do setor. “Isso requer equilibrar as necessidades energéticas e as práticas industriais atuais, ao mesmo tempo que se inventam e implementam as do futuro”, disse um porta-voz.

Luccioni afirmou que, em vez de entrar em pânico com a IA, as pessoas deveriam pressionar as empresas para que criem ferramentas que sejam econômicas desde a sua concepção.

“Talvez eu seja um pouco ingênua, mas ainda acredito que a IA pode fazer bem no combate à crise climática – projetando a próxima geração de baterias, monitorando o desmatamento, prevendo furacões”, disse ela. “Há tantas coisas boas para as quais poderíamos usá-la – e, em vez disso, estamos criando sites de mídia social repletos de conteúdo gerado por IA, enquanto data centers são alimentados por geradores a diesel.”


Fonte: The Guardian

O ataque dos EUA à Venezuela e suas repercussões

Sequestro de Maduro foi na mesma data de captura de Noriega e assassinato  de Soleimani - Opera Mundi

Tenho lido várias declarações de pessoas ainda impactadas pelo ataque estadunidense à Venezuela. Além das análises já publicadas aqui no Blog do Pedlowski por distintos comentadores que destrincharam as razões das ações do governo Trump na Venezuela, quero me deter em um aspecto menos óbvio que é a razão pela qual muitos se surpreenderam com mais uma expressão de uso de força direta dos EUA.

Como já assinalei brevemente em postagem anterior, o ataque à Venezuela é a primeira vez em que os EUA usam força militar direta e sem rodeios contra um país da América do Sul.  Antes o que havia basicamente era o uso de forças para ações combinadas com governos locais contra grupos específicos ou ainda o emprego de táticas para minar e derrubar governos. O exemplo de Cuba é o mais longevo no sentido do emprego de medidas de bloqueio econômico em combinação com tentativas de desestabilização política.

Assim, as pessoas estão se chocando porque viram mais perto o emprego de força militar que países como Vietnã, Iraque, Irã, Líbia e Síria (apenas para começar) já sentiram, com o saldo de milhões de mortos.  Em outras palavras, as pessoas se chocam porque finalmente viram a coisa acontecer mais de perto, e não apenas por meio da cobertura superficial da mídia corporativa brasileira que, aliás, repetiu o papelão no dia de ontem.

Mas as pessoas estão certas quando dizem que o ataque e o sequestro do casal Maduro representam uma espécie de virada de maré. É que se fizeram isso na Venezuela, o que vai deter os estadunidenses de repetirem o ato em outros países sul americanos? Aparentemente nada, a não ser suas próprias divisões internas.

Um detalhe que é precisa que se ressalte é que, ao contrário do que fizeram em outros países, os estadunidenses se acomodaram inicialmente com uma sucessão chavista na presidência da Venezuela, além do fato de Donald Trump ter desacreditado a líder da extrema-direita venezuelana, Maria Corina Machado, como alguém apto a assumir o poder.  Esses movimentos indicam que o governo Trump sabe perfeitamente dos riscos envolvidos nessa ação em uma região em que a desigualdade social profunda entre ricos e pobres é mantida por meio de processos que nada tem de democrático. Assim, ao se acomodar, ao menos momentaneamente com segmentos ideologicamente duros do chavismo, o que Donald Trump parece estar tentando fazer é não produzir um processo de desestabilização regional. O problema é saber se as ações de ontem já não serviram como um estopim de desestabilização.

Por outro lado, a situação criada pelo ataque à Venezuela, me fez lembrar a frase “A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa” foi dita por Karl Marx em sua obra “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”. Marx usou originalmente essa ideia para analisar o golpe de Estado de Napoleão III, comparando-o com a revolução de seu tio, Napoleão Bonaparte, mostrando como os eventos históricos podem se repetir, mas de forma menos grandiosa e mais cômica ou ridícula na segunda vez.  Por que lembrei dessa frase? É que por mais que o presidente Donald Trump e seus ministros queiram, a ideia de que se pode reestabelecer uma hegemonia que se constituiu em um momento histórico que já se esgotou, principalmente em função das opções feitas pelo burguesia dos EUA de ampliar sua extração de mais valia em países como a China via investimentos que alteraram o balanço geopolítico em prol dos chineses de forma extrema e irreversível. Ou seja, esse ataque está mais para farsa do que para tragédia.

Finalmente, me parece importante notar que no caso brasileiro não apenas a corrida eleitoral de 2026 foi colocada em outro patamar pela invasão estadunidense, mas também o debate que ocorrerá dentro da esquerda brasileiro sobre o receituário que teremos de adotar para enfrentar a conjuntura histórica que ele criou.

Professor da UFRJ analisa os múltiplos significados do ataque à Venezuela e sequestro de Maduro

Trump: EUA vão explorar petróleo da Venezuela após ataques e sequestro de  Maduro

Ordem de Donald Trump para ataque à Venezuela e sequestro de Nicolás Maduro representa atualização da Doutrina Monroe e retomada da Doutrina do Destino Manifesto

Por Carlos Eduardo Martins* 

Em relação ao ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela e sequestro de Nicolas Maduro e sua esposa cabe mencionar o seguinte: 

1) Representa não apenas a atualização da Doutrina Monroe, mas a retomada da Doutrina do Destino Manifesto e sua extensão a todo o Hemisfério Ocidental. O objetivo é o domínio completo do poder estadunidense nessa região para garantir o acesso a recursos estratégicos e banir a influência do BRICS, da China, da Rússia e da multipolaridade emergente nesse espaço. Para isso se busca a destruição de governos nacionais-populares e sua substituição por governos e regimes títeres dos Estados Unidos. Estamos diante de um novo padrão de imperialismo norte-americano que transita do imperialismo informal para o tout-court, como vimos denunciando em nossos livros e artigos;

2) Toda a América Latina se torna alvo e está na linha das prioridades da reestruturação do poder norte-americano provocada por Donald Trump. Ele esvazia o Leste Europeu e mesmo o Oriente Médio do campo de regiões vitais para os interesses norte-americanos. A América Latina tende a ocupar o espaço que o Oriente Médio ocupou no século XX, com a descoberta e mapeamento de suas reservas estratégicas e a liderança dos Estados Unidos na exportação de petróleo e gás. Países, como a Venezuela, com dotação excepcional de petróleo, e o Brasil, com dotação extraordinária de terras raras, estão em risco extremo e convertem-se em alvos prioritários do imperialismo estadunidense;

3) Apesar dos grandes avanços internacionais dos poderes multipolares, são ainda evidentes as suas deficiências na garantia da defesa da soberania nacional, da paz mundial, de um padrão monetário alternativo ao dólar e na capacidade de organizar ações coletivas. A unidade contra o unilateralismo e o imperialismo norte-americano é por si só insuficiente para garantir as respostas necessárias. A diversidade de poderes que sustentam a multipolaridade emergente, seus distintos níveis de compromisso com a defesa dos povos e a democracia substantiva fragiliza a ação coordenada e a resposta coletiva. A acumulação de forças disponível é ainda limitada;

4) Por enquanto, o que há de confirmado na intervenção dos Estados Unidos é a deposição e sequestro de Maduro e sua esposa. A facilidade com que se deu a ação, o descarte por Trump de Maria Corina Machado como sucessora de Maduro, seu discurso afastando um segundo ataque e anunciando o controle do Estado venezuelano pelos norte-americanos abrem interrogações: será blefe? Houve negociação com setores do governo venezuelano como Trump insinuou para uma mudança de regime sem descartar a estrutura hierárquica atual? Em caso positivo, qual a estabilidade dessa negociação? Haverá reação interna? Qual o efeito concreto do discurso da Vice-Presidente Delcy Rodriguez repudiando a ação estadunidense?

5) Estamos diante de um novo padrão de imperialismo muito mais agressivo que o das últimas décadas para enfrentar o seu declínio econômico e geopolítico. A reação moderada do governo brasileiro, que publicou nota condenando a intervenção mas sem denunciar o governo Trump ou o sequestro de Maduro e sua esposa, e inoperância da CELAC para se manifestar evidenciam as limitações das forças locais para estarem à altura dos acontecimentos e a necessidade de se construir nas esquerdas e no campo democrático novos níveis de de solidariedade e de compromisso com a Integração latino-americana.


* Carlos Eduardo Martins é  doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen).