Mais uma barriga: a comunidade científica campista não subiu no palanque de Caio Vianna

Li com alguma curiosidade a nota publicada por Aldir Sales [Aqui! ] dando conta da presença do deputado estadual Waldeck Carneiro no palanque eleitoral do candidato Caio Vianna (PDT) na noite de ontem (25/11). É que segundo essa nota, a presença do reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Raul Palácio, e de uma representante do Diretório Central de Estudantes da Uenf no mesmo palanque eleitoral representaria uma pretensa subida no palanque de Caio Vianna (ver imagem abaixo).

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Sem querer me ater muito à oportunidade de um reitor de universidade pública subir em palanque eleitoral, o mesmo valendo para uma sindicalista estudantil, é uma barriga jornalística (para não dizer uma fake news) que a comunidade científica campista tenha subido no palanque de quem quer que seja na atual campanha eleitoral. Isto não quer dizer que pesquisadores e docentes não tenham colaborado individualmente para a confecção de programas ou votado neste ou naquele candidato, mas daí dizer que todo o coletivo de pesquisadores esteve ontem no palanque de Caio Vianna é, no mínimo, um exercício de “wishful thinking” (ou melhor de um pensamento desejoso).

Eu particularmente lamento que nenhum dos dois candidatos que estão no segundo turno tenha tomado a iniciativa de convidar a tal “comunidade científica” aludida por Aldir Sales para uma reunião aberta a todos os interessados. É que assim se poderia ter discutido francamente toda as potencialidades existentes nas instituições de ensino superior sediadas na cidade de Campos dos Goytacazes. Nesta conversa franca se poderia ter debatido as melhores opções para a construção das saídas que o nosso município tão urgentemente necessita após quatro anos de destruição da capacidade do governo municipal de se posicionar como um agente de transformação da nossa realidade social e econômica. Resta apenas agora desejar que o vencedor passe a agir concretamente para firmar parcerias e financiar projetos de pesquisa que gerem a necessária alavancagem para sairmos da crise em que nos encontramos.

Sobre a presença do deputado estadual Waldeck Carneiro no palanque de Caio Vianna após o diretório municipal do PT ter definido uma posição de neutralidade eu só tenho a lamentar. É que tendo o PT conseguido sair da obscuridade em que se encontrava a partir da militância aguerrida da professora Odisséia Carvalho, o mínimo que qualquer deputado do PT deveria fazer, em nome do fortalecimento do partido em Campos dos Goytacazes, seria respeitar as instâncias municipais que se decidiram democraticamente pela neutralidade no segundo turno.  Depois ainda tem militante do PT que reclama que outras forças de esquerda tenham conseguido ocupar mais espaço político, traduzido em um número maior de votos, e avançando mais do que o seu partido no esforço de construção partidária no atual ciclo eleitoral. É por esse tipo de intromissão de cima para baixo que eu, apesar de ser um dos primeiros filiados do PT no estado do Rio de Janeiro, decidi me desfiliar já em 1997 quando voltei ao Brasil. 

O acordo comercial entre UE-Mercosul é à prova de desmatamento?

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Em junho de 2019, a Comissão Europeia e os países do Mercosul concordaram com um acordo comercial (ACMUE) que, uma vez ratificado pelos países participantes, deverá aumentar o comércio de produtos agrícolas entre as duas regiões. O acordo comercial eliminará 93% das tarifas dos produtos do Mercosul para a União Europeia (UE), beneficiando notadamente produtos agrícolas, incluindo carne bovina e soja.

Preocupações têm sido levantadas com frequência sobre o risco de aumento do desmatamento na região do Mercosul – especialmente na Amazônia brasileira. Tais preocupações são pertinentes, uma vez que uma análise em 189 países, de 2001 a 2012, mostra que o desmatamento aumentou significativamente ao longo dos três anos após a promulgação de acordos de livre comércio (Abman & Lundberg 2020). No entanto, os proponentes do ACMUE têm argumentado que o risco de desmatamento poderia ser mitigado devido às disposições de seu Capítulo de Comércio e Desenvolvimento Sustentável e às recomendações fornecidas pela Avaliação de Impacto da Sustentabilidade.

No entanto, este relatório mostra que o desmatamento pode aumentar nos países do Mercosul em virtude do aumento da demanda por produtos agrícolas (Capítulo 1) e pode afetar regiões sensíveis no Brasil, incluindo áreas vizinhas de Terras Indígenas e Unidades de Conservação (Capítulo 2). Além disso, o Capítulo 3 evidencia que as disposições de Comércio e Desenvolvimento Sustentável do ACMUE são insuficientes para mitigar o aumento do risco de desmatamento com foco no caso brasileiro. Portanto, o acordo atual pode não promover o desenvolvimento sustentável conforme exigido pelo regulamento comercial da UE. No capítulo 3 apresentam-se sete recomendações para reduzir o risco de que a ratificação do atual ACMUE resulte em desmatamento suplementar e conflitos com populações indígenas. A seguir estão os principais resultados.

CAPÍTULO 1.  O ACMUE AUMENTARÁ O RISCO DE DESMATAMENTO ADICIONAL NOS PAÍSES DO MERCOSUL

Este capítulo mostra que o desmatamento pode aumentar entre 122 mil e 260 mil hectares nos países do Mercosul, de acordo com os seis cenários alternativos examinados. Cinquenta e cinco por cento do desmatamento seriam no Brasil, considerando-se a média dos seis cenários avaliados (variando de 45% a 66%).

Os cenários combinaram premissas relativas às elasticidades comerciais, ao nível de governança da terra e à adoção ou não do duplo cultivo. O desmatamento seria maior em um cenário de maior elasticidade comercial, menor governança da terra e não uso de duplo cultivo. Em resposta à liberalização comercial, os setores de pecuária processada, bebidas e açúcar do Mercosul aumentam a produção que é então exportada para a UE. Por outro lado, a UE diminuiria a produção desses produtos devido ao aumento da concorrência. As emissões terrestres variam de 75 milhões de toneladas de CO2e do primeiro cenário (S11) a 173 milhões de toneladas no último cenário (S23).

O ACMUE geraria ganhos de bem-estar (em termos de ganhos monetários dos produtores e consumidores) de quase 2,2 bilhões de euros para ambas as regiões da UE-Mercosul. A UE capturaria 68% dos ganhos, o Brasil 23% e os 9% restantes iriam para outros países do Mercosul.

Os impactos comerciais, as mudanças no uso da terra e as implicações do bem-estar foram estimados usando-se uma versão avançada de um modelo de Equilíbrio Geral Computável (CGE) (GTAP-BIO). Esse modelo representa a estrutura da economia global e traça a produção, o consumo e o comércio de todos os tipos de bens e serviços (incluindo, mas não se limitando a culturas, produtos pecuários, óleos vegetais e farelos, açúcar, arroz processado e alimentos processados) em escala global. Para implementar o ACMUE, as mudanças tarifárias propostas foram exogenamente introduzidas neste modelo.

CAPÍTULO 2.  O ACMUE ARRISCARIA O DESMATAMENTO EM ÁREAS SENSÍVEIS NA AMAZÔNIA E NO CERRADO BRASILEIRO

Este capítulo projeta onde o desmatamento adicional provavelmente ocorreria nos biomas Cerrado e Amazônia no Brasil. Esses biomas representaram 96,7% do desmatamento total no Brasil em 2019. Embora nem todo o desmatamento projetado seja no Brasil e/ou dentro de um único bioma, a análise é útil para destacar as áreas prioritárias para mitigação.

Na Amazônia brasileira, o desmatamento é mais provável em três estados: Pará (39,9%), Rondônia (32,6%) e Mato Grosso (25,2%). O ACMUE aumentaria o risco de desmatamento nas proximidades de Terras Indígenas e Unidades de Conservação. O desmatamento vem aumentando rapidamente nessas áreas, uma consequência provável da redução das operações policiais e das perspectivas de exploração dessas áreas para fins comerciais.

No Cerrado, o desmatamento estaria concentrado em sua região nordeste ou MATOPIBA. A previsão é que o Maranhão abrigue 31,6% do desmatamento total, seguido pelo Piauí (21,3%) e Bahia (20,4%). O ACMUE aumentaria o risco de desmatamento próximo a áreas protegidas no Cerrado. Identificamos duas regiões críticas: i) Maranhão, onde várias Terras Indígenas e um parque nacional ficam ao lado de focos de desmatamento; e ii) Mato Grosso, na ecótono entre o Cerrado e a Amazônia, onde três Terras Indígenas estão próximas da fronteira do desmatamento.

Duas etapas foram usadas para projetar a localização do desmatamento futuro. Primeiro, os autores estimaram a probabilidade de uma determinada área ser desmatada com base em fatores associados ao desmatamento de 2001 a 2018. O segundo passo foi alocar o desmatamento projetado do Capítulo 1 ao longo da paisagem florestal existente (pós-2018). Esta fase consistiu em: i) ordenar os pixels florestais restantes (pós-2018) da maior à menor probabilidade de desmatamento, e ii) selecionar os pixels superiores até que a soma da área desses pixels atingisse a área potencial desmatada total prevista pelo modelo GTAP-BIO.

 CAPÍTULO 3. AS DISPOSIÇÕES AMBIENTAIS ATUAIS DO ACMUE SÃO INSUFICIENTES PARA MITIGAR O RISCO DE DESMATAMENTO

Esses capítulos mostram que as disposições ambientais atuais do ACMUE são insuficientes para mitigar o risco de desmatamento.

O capítulo sobre Comércio e Desenvolvimento Sustentável (CDS) pede a efetiva implementação do Acordo de Paris. No entanto, as metas de mitigação climática da UE e do Mercosul estão abaixo do necessário para manter o aumento da temperatura bem abaixo de 2°C, de acordo com os cientistas. No caso do Brasil, a promessa de zerar o desmatamento ilegal foi colocada em um futuro distante: 2030.

Além disso, o capítulo sobre CDS carece de sanções, e o espaço para a participação da sociedade civil é limitado. O processo de resolução de controvérsias é demorado (mais de 460 dias), que favorecem atores não conformes.

Para defender os princípios de sustentabilidade, desenvolvimento e direitos humanos, o ACMUE deve condicionar sua ratificação à melhoria do desempenho das políticas e à criação de novas disposições. O foco da prevenção é essencial dada a natureza irreversível e de longo prazo dos impactos do uso da terra associados ao ACMUE (desmatamento e conflitos violentos).

As seguintes recomendações são consistentes com a resolução do Parlamento Europeu de 16 de setembro de 2020 sobre o papel da UE na proteção e restauração das florestas mundiais (Parlamento Europeu, 2020). A resolução i) reitera que a política de comércio e investimento da UE deve incluir capítulos de desenvolvimento sustentável vinculativos e exequíveis; e ii) salienta que devem ser incluídos compromissos claros com o combate ao desmatamento em todos os novos acordos comerciais, incluindo o Mercosul.

  1. Condicionar a ratificação do acordo à redução real do desmatamento. A ratificação ou o início das reduções tarifárias do ACMUE devem ser contingenciados no Brasil para reduzir seu desmatamento de acordo com a meta da Política Nacional de Mudanças Climáticas do país: 3.900 km2 (390.000 hectares). Como o Brasil não cumprirá sua meta para 2020, o ACMUE deve esperar até que essa linha de base seja finalmente alcançada no futuro. Para atingir esse objetivo, o Brasil precisaria retomar o exitoso Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na. Amazônia Legal (PPCDAM) e implantar outras abordagens de mercado e regulamentação, como a rastreabilidade de commodities de alto risco.
  2. Criar um fundo para apoiar a redução das políticas de desmatamento e degradação florestal. A ratificação ou o início das reduções tarifárias devem ser condicionados à implantação de assistência técnica e financeira, como a criação de um fundo de apoio sustentável. Esses fundos devem se concentrar em regiões com maiores riscos de desmatamento direto e indireto levando em conta o provável deslocamento da mudança de uso da terra – por exemplo, o aumento da intensificação do uso da terra em uma região que leva à expansão do desmatamento em outras áreas.
  3. Consultar e garantir os direitos dos povos indígenas. A UE deve condicionar a ratificação do acordo à consulta adequada aos povos indígenas e ao estabelecimento de direitos de terra seguros e proteção adequada dos territórios das Terras Indígenas, de acordo com a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Na prática, isso implicaria que os territórios indígenas deveriam ser demarcados, e os invasores deveriam ser realocados antes da redução tarifária.
  4. Estabelecer sanções legalmente vinculativas para resolver a não conformidade. O capítulo sobre CDS deve estabelecer sanções vinculantes legais semelhantes às previstas para outras questões no ACMUE. Vale ressaltar que acordos comerciais que usam sanções para resolver disputas, como acordos dos EUA, estimularam a adoção de melhores práticas antes que os acordos comerciais fossem ratificados. No entanto, mesmo que as disposições do capítulo sobre CDS fossem vinculantes, o longo processo para enfrentar as violações seria insuficiente para conter a onda de desmatamento.
  5. Estabelecer limite de tempo para julgamento de violações do ACMUE. As partes devem reduzir a duração da resolução de disputas ambientais. O ACMUE poderia considerar o modelo do Acordo Estados Unidos – México – Canadá (USMCA) que criou um Mecanismo de Trabalho de Resposta Rápida encarregado do monitoramento rápido e aplicação das disposições.
  6. Estabelecer práticas recomendadas obrigatórias. Dadas as atuais falhas sistêmicas da política ambiental no Brasil, o ACMUE deve exigir a adoção das melhores práticas, como certificação independente, rastreabilidade de produtos, devida diligência e consulta às comunidades indígenas antes de investir.
  7. Ampliar e melhorar o escopo de participação da sociedade civil. Echavarría et al. (2020) recomendam ao ACMUE expandir e melhorar o escopo de participação da sociedade civil, incluindo envolvimento em subcomitês de CDS, criação de mecanismos de diálogo com governos, provisão de financiamento para que a sociedade civil possa acompanhar a implementação e participar de reuniões.

Clique aqui para fazer o download da publicação.

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Este artigo foi inicialmente publicado no sítio ofícial do Imazon [   ].

Investigação revela que redes de supermercados e de fast food do Reino Unido usam frangos associados ao desmatamento no Brasil

Tesco, Lidl, Asda, McDonald’s e Nando’s, todas fontes de frangos alimentados com soja produzida na região do bioma tropical do Cerrado

chicken 1Uma análise recente das terras pertencentes ou usadas por fornecedores de soja no Cerrado desde 2015 encontrou 801 km2 de desmatamento. Fotografia: Jim Wicken / Cortesia da Mighty Earth

Por Jonathan Watts , Andrew Wasley , Alexandra Heal , Alice Ross , Lucy Jordan, Emma Howard e Harry Holmes para o The Guardian

Supermercados e lojas de fast food estão vendendo frango alimentado com soja importada associada a milhares de incêndios florestais e pelo menos 800 quilômetros quadrados de derrubada de árvores no Cerrado brasileiro, revelou uma investigação transfronteiriça conjunta.

Tesco, Lidl, Asda, McDonald’s, Nando’s e outros varejistas de rua, todos compram frango alimentado com soja fornecida pela gigante comercial Cargill, a segunda maior empresa privada dos Estados Unidos. A combinação de proteção mínima para o Cerrado – um sumidouro de carbono e habitat de vida selvagem de importância mundial – com uma cadeia de suprimentos opaca e sistemas de rotulagem confusos, significa que os compradores podem estar inadvertidamente contribuindo para sua destruição.

O locutor e ativista Chris Packham disse que as revelações mostram que os consumidores precisam receber mais informações sobre seus alimentos. “A maioria das pessoas ficaria incrédula quando pensasse que está comprando um pedaço de frango no Tesco’s que foi alimentado com uma plantação responsável por uma das maiores destruições de floresta tropical nos últimos tempos”, disse ele.

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Supermercados e lojas de fast food do Reino Unido estão vendendo frango alimentado com soja associada ao desmatamento no Cerrado brasileiro

“Precisamos acordar para o fato de que o que compramos nos supermercados do Reino Unido, as implicações dessa compra podem ser amplamente e enormemente prejudiciais, e este é um excelente exemplo disso.”

O Reino Unido abate pelo menos um bilhão de galinhas por ano , o equivalente a 15 aves para cada pessoa no país. Muitos são engordados com grãos de soja importados para o Reino Unido pela Cargill, que compra dos agricultores do Cerrado, uma savana tropical lenhosa que cobre uma área igual à Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e Espanha juntas.

A análise dos dados de transporte mostra que a Cargill importou 1,5 milhão de toneladas de soja brasileira para o Reino Unido nos seis anos até agosto de 2020. Números de exportação em nível de bioma, compilados pelo órgão de vigilância da cadeia de abastecimento Trase, indicam que quase metade das exportações brasileiras da Cargill para o O Reino Unido é do Cerrado.

Entre os carregamentos mais recentes estavam 66.000 toneladas de grãos de soja que desembarcaram nas docas de Liverpool em agosto em um navio-tanque alugado pela Cargill, o BBG Dream. Esse foi o foco de uma investigação colaborativa do Bureau of Investigative Journalism, do Greenpeace Unearthed, do ITV News e do Guardian.

O porão do navio havia sido carregado no terminal portuário de Cotegipe, em Salvador, Brasil , com grãos vindos da região do Cerrado Matopiba, incluindo alguns de Formosa do Rio Preto, a comunidade mais desmatada do Cerrado. Além da Cargill, os fornecedores incluíam a Bunge (maior exportadora de soja do Brasil) e a ADM (outra grande produtora de alimentos nos Estados Unidos).

chicken 3A Cargill importou 1,5 milhão de toneladas de soja brasileira para o Reino Unido nos seis anos até agosto de 2020. Fotografia: Victor Moriyama / Greenpeace

Depois de cruzar o Atlântico, todo o carregamento foi descarregado na planta de esmagamento de soja Seaforth da Cargill em Liverpool, de acordo com registros marítimos e de embarque. A investigação rastreou a forma como o grão esmagado ali é então transportado de caminhão para moinhos em Hereford e Banbury, onde é misturado com trigo e outros ingredientes para produzir ração para gado. De lá, segue para as granjas contratadas da Avara.

Avara é uma joint venture entre a Cargill e a Faccenda Foods. Ele engorda as aves, que são abatidas, processadas e embaladas para distribuição à Tesco, Asda, Lidl, Nando’s, McDonald’s e outros varejistas. Avara prospera em relativa obscuridade. “Você pode não ter ouvido falar de nós, mas há uma boa chance de ter gostado de nossos produtos”, diz o site da empresa .

Então, de onde exatamente vem essa soja? O fornecedor da Avara, a Cargill, compra soja de muitos fornecedores no Cerrado, pelo menos nove dos quais estiveram envolvidos em desmatamentos recentes. A análise da consultoria Aidenvironment dos terrenos pertencentes ou usados ​​por essas empresas desde 2015 encontrou 801 km2 de desmatamento – uma área equivalente a 16 manhattans. Também detectou 12.397 incêndios registrados.

Vídeo sobre como o frango britânico está ligado ao desmatamento e incêndios no Brasil por Sian Butcher e Georgie Johnson para Unearthed

Ainda no mês passado, imagens de drones realizadas em Formosa do Rio Preto mostraram grandes incêndios queimando na Fazenda Parceiro, fazenda administrada pela SLC Agrícola, fornecedora da Cargill. Dados de satélite mostram que os incêndios queimaram 65 km2 da fazenda. Mais de 210 km2 foram limpos nas terras da SLC Agrícola nos últimos cinco anos, de acordo com a análise da Aidenvironment. A Cargill disse que não quebrou regras, nem suas próprias políticas, ao comprar produtos da fazenda em questão e deixou claro que não se abastece de terras desmatadas ilegalmente. A SLC Agrícola foi procurada para comentar, mas não quis se pronunciar.

Apesar dessa destruição, os produtos dessas áreas podem ser rotulados como legais e sustentáveis ​​no Brasil. Isso destaca as deficiências de um sistema de comércio internacional que depende de padrões locais, que muitas vezes são influenciados por fazendeiros focados no lucro econômico de curto prazo, ao invés do bem global de longo prazo, que incorporaria o valor dos sistemas de água, sumidouros de carbono e vida selvagem habitats.

chicken 4Os agricultores podem cortar e queimar legalmente uma proporção maior de árvores na savana do Cerrado em comparação com sua vizinha, a Amazônia. Fotografia: Jim Wicken / Cortesia da Mighty Earth

O governo brasileiro tem relaxado constantemente os controles sobre o desmatamento – e às vezes o encoraja tacitamente – ao longo da última década, principalmente com o relaxamento do Código Florestal em 2012.

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Isso é particularmente verdadeiro no Cerrado, o segundo maior bioma do Brasil, que está sendo sacrificado para aumentar as exportações, manter baixos os preços globais dos alimentos e reduzir o impacto sobre seu vizinho, a Amazônia. Os agricultores podem cortar e queimar legalmente uma proporção maior de árvores nesta savana em comparação com a Amazônia examinada internacionalmente .

Muitos biólogos acreditam que essa política é míope. As árvores, arbustos e solo do Cerrado armazenam o equivalente a 13,7 bilhões de toneladas de dióxido de carbono – significativamente mais do que as emissões anuais da China. É a origem de tantos rios que é conhecida como “o berço das águas” e abriga 1.600 espécies de pássaros, répteis e mamíferos (incluindo onças, tatus e tamanduás) e 10.000 tipos de plantas, muitas não vistas em nenhum outro lugar do mundo.

chicken 6Lobo-guará, que vive principalmente nas regiões do Cerrado e Chaco e é considerado quase ameaçado. Fotografia: Nando Bomfim

Os cientistas dizem que será difícil – senão impossível – salvar a Amazônia sem conservar o Cerrado. Mas este último sofreu o dobro do desmatamento, embora tenha metade do tamanho. Entre 50% e 80% do bioma original foi substituído por fazendas de gado e fazendas de soja, tornando esta fronteira do agronegócio que se expande mais rapidamente e uma das áreas da natureza que mais encolhe.

Independentemente de o Brasil considerar legal ou não a soja dessa área, muitos consumidores não querem comprar produtos associados ao desmatamento.

chicken 7O Reino Unido abate um bilhão de frangos por ano, muitos dos quais são engordados com ração à base de soja. Fotografia: John Eveson / FLPA / REX / Shutterstock

O Reino Unido importa 700.000 toneladas de grãos de soja in natura a cada ano, muitos do Cerrado. Também compra quase três vezes essa quantidade de ração de soja processada, a maioria da Argentina. O impacto ambiental varia enormemente de país para país. Mas os compradores não têm como saber se seu peito de frango ou hambúrguer contribuíram para o problema do Cerrado porque os rótulos fornecem informações insuficientes sobre as origens, as safras de fontes sustentáveis ​​e desmatadas podem ser misturadas e muitas empresas dependem de compensações.

As empresas envolvidas dizem que estão trabalhando para reduzir o impacto ambiental de suas ofertas, mas o progresso varia.

O McDonald’s e o Nando’s cobrem os volumes de soja que usam para ração de galinhas com “certificações” de sustentabilidade, que incluem a compra de “créditos” – semelhantes à compensação de carbono. Os créditos apoiam os agricultores que produzem de forma sustentável, mas a soja real na cadeia de abastecimento não é necessariamente desses produtores e pode vir de fazendas desmatadas.

O McDonald’s disse que visa eliminar o desmatamento de suas cadeias de abastecimento globais até 2030. Um porta-voz disse: “Estamos orgulhosos do progresso que fizemos, mas reconhecemos que há mais a fazer e continuaremos a trabalhar duro para progredir em direção ao nosso metas.”

A Nando’s não forneceu uma data-alvo para eliminar completamente o desmatamento de sua cadeia de abastecimento, mas disse que estava procurando alternativas à soja. “Reconhecemos que há mais trabalho a fazer e é por isso que também estamos investindo em pesquisas visando alternativas de alimentação mais sustentáveis ​​e esperamos poder compartilhar os resultados o mais rápido possível.”

chicken 8Várias empresas apoiam um novo acordo para impedir o desmatamento para o plantio de soja no Cerrado, mas a oposição a esta posição no Brasil significa que nenhuma ação foi tomada. Fotografia: Peter Caton

Asda e Lidl disseram que estavam trabalhando para comprar apenas soja sustentável “certificada fisicamente” até 2025, mas isso pode significar coisas diferentes. Asda entende que significa soja “segregada” livre de desmatamento – o que significa que o produto real em sua cadeia de abastecimento deve ser sustentável para atingir seu objetivo – mas Lidl esclareceu que estava incluindo um esquema em que grãos sustentáveis ​​podem ser misturados com produtos do desmatamento fazendas. Lidl disse que é atualmente o maior comprador de créditos para compensar sua pegada de soja.

A Tesco disse que estabeleceu para si mesma uma meta “líder do setor” para que sua soja venha de “áreas” comprovadamente livres de desmatamento até 2025. “Deve-se parar de fazer fogueiras para limpar terras para plantações”, disse um porta-voz. “Desempenhamos um papel de liderança ao reunir a indústria e o governo para proteger o Cerrado, incluindo o compromisso de £ 10 milhões para proteger a biodiversidade da região. Precisamos de nossos fornecedores, indústria, ONGs e governos para trabalhar conosco para acabar com o desmatamento e proteger nosso ambiente natural. ”

A Avara, joint venture da Cargill, disse que está na vanguarda dos compradores de soja no Reino Unido, cobrindo todas as suas compras de soja com certificação e trabalhando para alcançar uma transparência muito maior na cadeia de abastecimento. “Saudamos a proposta de legislação do governo do Reino Unido que visa o desmatamento ilegal, pois está alinhada com esses objetivos e é um primeiro passo importante.” A Avara faz parte da Declaração de Apoio ao Manifesto do Cerrado e faz parte do grupo gestor dessa iniciativa.

McDonald’s, Nando’s e os três supermercados citados expressaram publicamente seu apoio a um novo acordo, semelhante à moratória na Amazônia, para impedir o desmatamento para soja no Cerrado, mas a oposição no Brasil significou que nada se materializou.

chicken 9Um protesto do Greenpeace em frente à sede da Tesco, apresentando um vídeo da líder indígena Sônia Guajajara falando sobre os incêndios devastadores na Amazônia. Fotografia: Chris J Ratcliffe / Greenpeace

A Cargill – um dos atores mais importantes na cadeia de abastecimento – disse publicamente que se opõe a uma moratória do Cerrado. Na época, anunciou US $ 30 milhões (£ 22,6 milhões) em esforços de financiamento para lidar com o desmatamento, mas não especificou onde isso seria gasto. O Guardian perguntou à Cargill por que ela havia rejeitado uma moratória, mas a empresa não fez comentários sobre o assunto.

No entanto, expressou seu compromisso com uma cadeia de suprimentos sem desmatamento e com o apoio aos agricultores que trabalham de forma sustentável. Dizia: “A Cargill estima que 95,68% dos nossos volumes de soja no Brasil para a safra 2018-19 foram livres de desmatamento e conversão.” A empresa continua expandindo seu programa de certificação no Brasil e no Paraguai, mas aposta no ordenamento jurídico brasileiro. “A Cargill – junto com nossa indústria, agricultores, governos locais e clientes – é responsável pela transformação da cadeia de abastecimento de alimentos e estamos interagindo com as partes interessadas todos os dias para fazer progresso”, disse o documento. “O desmatamento naquele bioma é, na maioria das vezes, crime pela legislação brasileira. Deve ser tratado dessa forma. ”

A investigação mostra, porém, que não basta tratá-la como uma questão brasileira.

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Esta reportagem foi originalmente escrita em inglês e publicada pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: novo pacote de liberações mostra que o governo Bolsonaro rejeita 5G e vacina, mas ama agrotóxicos “Made in China”

Em 2018 pelo menos 30% dos agrotóxicos consumidos no Brasil tiveram origem na China, cuja influência deve ser ainda maior por causa do uso de produtos chineses por empresas de outros países que terminam vendendo seus produtos no mercado brasileiro.

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Workshop promovido pela China para ampliar a exportação de agrotóxicos  contou com representantes de empresas sediadas no Brasil que têm se beneficiado da  onda de aprovações de agrotóxicos realizada pelo governo Bolsonaro

As recentes manifestações do presidente Jair Bolsonaro e do seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, um sobre a “coronavac” e o outro sobre a compra da tecnologia 5G colocaram o Brasil à beira de uma séria crise diplomática com a China. Pelo menos é o que mostra uma dura resposta da Embaixada da China no sentido de que os responsáveis pelas declarações desairosas ao principal parceiro comercial brasileiro “vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil“.

O curioso é que o aparente desgosto por produtos “Made in China” não alcança a compra de venenos agrícolas, visto que no novo pacote de liberações de agrotóxicos levado a cabo por meio do Ato No. 64 de 18 de Novembro, os 21 agrotóxicos que tiveram sua venda autorizada são produzidos inteiramente na China, envolvendo 12 empresas diferentes.

Neste nova rodada de liberações, a “estrela” dos produtos agora livres para comercialização no Brasil foi o “Dibrometo de Diquate”, um herbicida  que foi proibido em 2018 pela União Europeia por causar efeitos deletérios em trabalhadores que manuseiam, além de causar danos às populações de pássaros. O Dibrometo de Diquate  também tem sido relacionado a problemas de contaminação de solos e do lençol freático. 

Originalmente produzido pela Syngenta, corporação suíça que foi adquirida em 2017 pela estatal chinesa ChemChina, agora chega no Brasil pelas mãos da Dezhou Luba Fine Chemical Co., Ltd, localizada na província de Shandong.

O curioso é que em toda essas manifestações que afrontam a presença e a importância fundamental da China no funcionamento da economia brasileira nunca vi nenhuma que colocasse em questão o papel central das empresas chinesas no abastecimento de agrotóxicos para o latifúndio agro-exportador.  Enquanto isso, se sucedem ataques ao fornecimento de vacinas contra a COVID-19, especificamente a Coronavac produzida pela empresa Sinovac, e contra a entrada da tecnologia 5G produzida na China, principalmente pela Huawei. O interessante é quem ambos os casos, está ficando óbvio que os produtos chineses são de melhor qualidade em relação àqueles produzidos por empresas europeias e estadunidenses.

Também considero curioso o silêncio da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS), que, como representante dos interesses do latifúndio agro-exportador brasileiro e das empresas vendedoras de venenos agrícolas no Brasil, deve estar sendo muito pressionada por seus pares para impedir que os interesses estratégicos do setor continuem sendo colocados em xeque por declarações estapafúrdias, que hoje nem servem aos interesses do aliado Donald Trump que está lentamente preparando suas malas para sair da Casa Branca. 

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Jones Yasuda, CEO da CCAB, uma das empresas que mais aprovaram agrotóxicos no governo Bolsonaro, apresenta a legislação do “Pacote do Veneno”. o famigerado PL 6299/02, em um evento de fabricantes de agrotóxicos realizado em 2019 na China

Quem desejar baixar o arquivo contendo a lista dos 21 agrotóxicos “Made in China” liberados pelo Ato No. 64, basta clicar [Aqui!]. Já quem quiser baixar a base contendo os 401 agrotóxicos liberados apenas nos primeiros onze meses de 2020, basta clicar [Aqui!].

👨🏿‍🌾🚩 12ª Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes!

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✅ Estão abertas as encomendas de Cesta da Reforma Agrária no Rio de Janeiro e Niterói! Receba em casa ou no Armazém do Campo RJ nos dias 4 e 5 de dezembro.

🥬📦 Peça já: Aqui!

☎️ Qualquer dúvida entre em contato (21) 99702-9303 (Armazém do Campo/RJ)

🚩 O circuito da Feira Cícero Guedes começa na capital carioca nos dias 4 e 5 de dezembro, e seguirá nas regionais Norte Fluminense, Sul Fluminense, Lagos e Baixada Fluminense nos dias 8 a 12 de dezembro.

📲 Acompanhe a programação da Feira nas redes sociais:
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Agronegócio e pandemias mortais: uma mistura virulenta

Há pouco tempo recebi da Editora Elefante, a minha cópia do livro “Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, Capitalismo e ciência” que reúne uma série de artigos do epidemiologista evolutivo estadunidense Rob Wallace, mas só agora estou tendo a chance de começar a lê-lo.

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Sem me alongar no conteúdo, pois isso sempre desanima as pessoas de querer comprar a sua própria cópia, eu diria que a leitura de apenas dois dos trinta artigos que compõe a obra me forneceu mais informação sobre as origens, interações e caminhos percorridos pelo SARS-Cov-2, gerador da pandemia da COVID-19, do que meses de matérias e aparições de outros especialistas em programas da mídia corporativa.

É que Wallace nos apresenta uma visão muito bem conectada do papel jogado pelo grande capital e o seu forte controle sobre os meios de produção na criação das condições para a mobilização e interação de diferentes vírus e seus vetores, incluindo os seres humanos, no estabelecimento de um cenário propenso a uma ocorrência de apenas uma, mas de múltiplas pandemias que ocorrem de forma concomitante, sem que possamos sequer nos aperceber disso.

Na raiz do problema está o modelo de agricultura intensiva que reduz o campo a uma forma não natural de produção de alimentos em número de variedades cada vez mais restrito. Com isso, ocorre o aumento do desmatamento e a destruição de equilíbrios sensíveis entre vírus, seus habitats e hospedeiros.  Para Wallace entender essa combinação é mais importante do que cair na crença de que a COVID-19 tem mais a ver com “aquele famoso mercado em Wuhan” do que com a forma pela qual o capital financeiro globalizado controla o processo de produção e circulação da comida.

Mas para não estragar a surpresa, sugiro que quem quiser sair da redoma criada para nos isolar de um entendimento mais completo das causas e trajetórias da COVID-19 que se dirija ao site da Editora Elefante e adquira a sua própria cópia do livro de Rob Wallace.  Como o próprio Wallace avisa, essa é uma obra virulenta, mas essencial para que possamos entender o tamanho do buraco em estamos metidos.

Com mais 21 agrotóxicos liberados, governo Bolsonaro continua com sua corrida pró-veneno

Observatório dos agrotóxicos: com mais 21 agrotóxicos liberados por meio do Ato 64 de 18 de Novembro, o governo Bolsonaro chega a 401 produtos liberados em 2020, totalizando 904 desde o início do mandato de Jair Bolsonaro.

Mais detalhes sobre essa nova rodada de aprovações amanhã aqui no Blog do Pedlowski!

“Volta Grande”, filme que narra a luta dos ribeirinhos expulsos por Belo Monte, no Pará, tem estreia global no Videocamp

A partir de 24/11, plataforma disponibiliza o curta-metragem que aborda um processo inédito na história da construção de hidrelétricas na Amazônia: a garantia do direito de retorno dos ribeirinhos para a beira do rio

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Cinco anos após o recebimento da licença para a operação da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, o reassentamento das famílias que foram removidas da beira do Rio Xingu ainda não foi realizado. Com o intuito de propor reflexão sobre o tema e ressaltar a luta dos ribeirinhos para que tenham os seus direitos respeitados, principalmente, na reconstituição de seu modo de vida, a plataforma Videocamp estreia, globalmente, o curta-metragem “ Volta Grande “, que pode ser assistido como, onde e quando o usuário da plataforma desejar, a partir do dia 24 de novembro.

Com produção do Conselho Ribeirinho e Rede Xingu+, e direção de Fábio Nascimento, o filme conta a história da violenta remoção de 300 famílias ribeirinhas para a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, até sua organização e a conquista do direito ao retorno para as margens do rio Xingu. O curta também narra o processo inédito na história da construção de hidrelétricas na Amazônia: o retorno dos ribeirinhos para a beira do rio, na área do reservatório principal da usina. E para que o assunto não fique só nas telas, no dia 26 de novembro, às 18h, haverá um debate online sobre o filme no canal do Youtube do Instituto Socioambiental.

“Estamos muito felizes com o lançamento global do filme ‘Volta Grande’ em nossa plataforma, sobretudo porque ele aborda uma questão tão urgente que é o reassentamento dos ribeirinhos e a garantia da recomposição do modo de vida deles, por meio de seus direitos territoriais. Para gente é uma alegria e um compromisso apoiar produções nesse momento desafiador, em que o não estar juntos fisicamente não deve ser um impedimento para que a gente acesse a potência de histórias como essa e promova debates urgentes”, ressalta Josi Campos, coordenadora do Videocamp.

“A trajetória do Conselho Ribeirinho é um exemplo para as demais populações impactadas por grandes obras de infraestrutura que enfrentam violações aos direitos e o apagamento de suas identidades e modos de viver. É importante que essa história seja conhecida e vista pelo maior número de pessoas”, diz Ana De Francesco, antropóloga que faz parte do grupo de apoio ao Conselho Ribeirinho.

Sobre o Videocamp

O Videocamp é uma plataforma online que reúne filmes com potencial de impacto que podem ser exibidos por qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo e de forma gratuita. A missão do Videocamp é criar caminhos para democratizar o acesso à cultura e à informação, que são direitos universais. Para os realizadores, a plataforma potencializa a formação de público e atua como ferramenta de promoção dentro da estratégia de lançamento do filme.

Relacionamento com a imprensa
 
2PRÓ Comunicação, alana@2pro.com.br
 
Belisa Barga / Elisabete Machado / Juliana Oliveira / Myrian Vallone

Entidades da sociedade civil lançam manifesto em defesa da Convenção sobre a Diversidade Biológica

Biodiversidade

Considerando que a Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB) representa um acordo global visando à concretização do desenvolvimento sustentável;

Considerando que a CDB apresenta como objetivos a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável de seus componentes e a repartição justa e equitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos;

Considerando que a CDB, assinada em 1992, foi aprovada no Brasil pelo Decreto Legislativo nº 2, de 3 de fevereiro de 1994, e promulgada pelo Decreto Federal nº 2519, de 16 de março de 1998;

Considerando que a CDB ressalta o valor da diversidade biológica e de seus componentes em sua amplitude ecológica, genética, social, econômica, científica, educacional, cultural, recreativa e estética;

Considerando que a CDB reconhece a importância da diversidade biológica para a evolução e para a manutenção dos sistemas necessários à vida da biosfera, que é uma preocupação comum à humanidade, sendo os Estados responsáveis pela conservação de sua diversidade biológica e pela utilização sustentável de seus recursos biológicos;

Considerando que a CDB demonstra preocupação com a sensível redução da diversidade biológica causada por determinadas atividades humanas; que é vital prever, prevenir e combater na origem as causas da sensível redução ou perda da diversidade biológica; que diante de ameaças de redução ou perda da diversidade biológica a falta de plena certeza científica não deve ser usada como razão para postergar medidas para evitar ou minimizar essa ameaça; que a exigência fundamental para a conservação da diversidade biológica é a conservação in situ dos ecossistemas e dos habitats naturais e a manutenção e recuperação de populações viáveis de espécies no seu meio natural;

Considerando que a CDB reconhece que investimentos substanciais são necessários para conservar a diversidade biológica e que há expectativa de um amplo escopo de benefícios ambientais, econômicos e sociais resultantes desses investimentos, que a conservação e a utilização sustentável da diversidade biológica é de importância absoluta para atender as necessidades de alimentação, de saúde e de outra natureza da crescente população mundial, para o que são essenciais o acesso e a repartição de recursos genéticos e tecnologia;

Considerando que a conservação e a utilização sustentável da diversidade biológica fortalecerão as relações de amizade entre os Estados e contribuirão para a paz da humanidade, sendo necessário fortalecer e complementar instrumentos internacionais existentes para a conservação da diversidade biológica e a utilização sustentável de componentes, com a finalidade de conservar e utilizar de forma sustentável a diversidade biológica para benefício das gerações presentes e futuras;

Considerando que ao estabelecer o efetivo compromisso com um conjunto de premissas, como aquelas evidenciadas acima, dentre as quais destaca explicitamente ser vital prever, prevenir e combater na origem as causas da sensível redução ou perda da diversidade biológica, o Brasil se comprometeu internacionalmente com a conservação da diversidade biológica, bem como com a utilização sustentável de seus componentes;

Considerando que a CDB, como convenção internacional, encontra referendo no Sistema Jurídico Brasileiro; que o Direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado consiste em direito humano fundamental, a ser protegido e defendido não só para as presentes, como também para as futuras gerações;

Considerando que a CDB traça princípios e regras a serem observados e imediatamente aplicados como forma de implementar o direito humano fundamental estabelecido na Constituição Federal de 1988, sendo, portanto, regras protetivas do direito humano fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, portanto a CDB tem status de norma constitucional, já que:

A Constituição Federal referenda a preservação da diversidade biológica como dever do poder público:

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
§ 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao poder público:
I – preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas;
II – preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético;
III – definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção;
VII – proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.
§ 4º A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais.

Considerando que, mesmo diante de todas as obrigações reconhecidas e assumidas pelo Brasil no âmbito da CDB, acrescidas das obrigações constitucionais, no momento o Brasil é o único país, dentre 196 países que fazem parte da Convenção, que se opõe a aprovação de um documento que autoriza o orçamento de 2021 para o secretariado da Convenção de Diversidade Biológica da ONU, implicando em paralização dos seus trabalhos, incluindo o preparo da conferência sobre o tema prevista para acontecer no final de 2021;

Considerando ainda que a diplomacia brasileira não demonstra respeitar seu próprio compromisso como signatário da Convenção, assim como não demonstra respeitar os deveres, princípios e objetivos estabelecidos em sua própria Constituição Federal;

Considerando que as posturas adotadas pela diplomacia brasileira neste contexto despontam com uma quebra de contrato, que além de ensejar possíveis responsabilizações, entre suas consequências específicas, configuram prejuízo à continuidade e progresso nas discussões e acordos no âmbito da própria Convenção, e desta forma, aos seus propósitos, tais como a expectativa de aprovar como meta global a conservação de 30% do planeta, através da criação e manutenção de áreas protegidas;

Considerando que as posturas adotadas geram uma péssima imagem do país, afetando negativamente suas relações comerciais, a exemplo das commodities agrícolas (agronegócio);

Diante destes fatos, vimos solicitar ao Governo da República Federativa do Brasil que reveja imediatamente sua postura nas negociações diplomáticas, em conformidade com suas obrigações como país membro e signatário, no sentido de prover apoio integral aos trabalhos desenvolvidos no âmbito da Comissão da Diversidade Biológica da ONU.

Carlos A. H. Bocuhy
Proam – Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental

Vilázio Lelis Junior
Coletivo de Entidades Ambientalistas do Estado de São Paulo

Mauro F. Wilken
SESBRA – Sociedade Ecológica de Santa Branca – SP

Clemente Coelho Junior
Instituto BiomaBrasil – Recife – PE

Yara Schaeffer-Novelli
Professor Sênior do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo

Lisiane Becker
Instituto MIRA-SERRA – Porto Alegre e São Francisco de Paula – RS

Luiz Ernesto Borges de Mourão Sá
IDA – Instituto de Desenvolvimento Ambiental – Brasília – DF

Bruno Lucio Scala Manzolillo
Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza – FBCN – RJ

José Procópio de Castro
Instituto Guaicuy – SOS Rio das Velhas – Belo Horizonte – MG

Silvana Iervolino Bocuhy
Campanha Billings, Eu te quero Viva! – São Paulo – SP

Yara Rezende de Toledo
SOS Manancial – São Paulo – SP

Patrícia Bianchi
Instituto Oikos de Agroecologia – Lorena – SP

Katia Del Monte
SODEMAP – Sociedade para a Defesa do Meio Ambiente de Piracicaba – Piracicaba – SP

Yara Rezende de Toledo
SOS Manancial do Rio Cotia – Cotia – SP

Heitor Marzagão Tommasini
Movimento Defenda São Paulo – MDSP – São Paulo – SP

Jonas Santa Rosa
Instituto Beira Rio de Piracicaba – SP

Dilma Ferreira
Sociedade Amigos da Lagoa – Piracicaba – SP

Jonas Santa Rosa
GRUDE – Grupo de Defesa Ecológica da Bacia do Piracicaba e de Americana – SP

Cláudia Maria Ferreira Perencin
Associação Cultural e Ecológica Pau-Brasil – Ribeirão Preto – SP

Syllis Flávia Paes Bezerra
ECOPHALT – Cidadania e Sustentabilidade, Ecologia com Praticidade – Praia Grande – SP

Ricardo Palamar Menghini
Universidade Paulista – UNIP

Rodrigo Cella
AGA – Associação do Grupamento Ambientalista – Birigui – SP

Rodolfo Almeida
Sociedade Ecologica Amigos do Embu – Embu das Artes – SP

Arnaldo Domingues de Oliveira
Preservar Itapecerica da Serra – SP

Vanessa Aderaldo de Souza
Casa de Cultura Santa Tereza de Embu das Artes

Heitor Marzagão Tommasini
Associação dos Moradores do Jardim da Saúde – São Paulo – SP

Renato Vital dos Santos Pinho
Vivacidade – Ribeirão Preto – SP

APEDeMA – Assembléia Permanente das Entidades em Defesa do Meio Ambiente – RS

Francesca Werner Ferreira
AIPAN – Associação Ijuiense de Proteção ao Ambiente Natural – Ijuí, RS

Luana Silva da Rosa
Movimento Roessler para a Defesa Ambiental – Novo Hamburgo – RS

Antonio Soler
Centro de Estudos Ambientais (CEA) – Rio Grande e Pelotas, RS

Luis Fernando Stumpf
Núcleo Socio Ambiental Araçá-piranga – Sapiranga – RS

Bernardo Teixeira
APASC – Associação para Proteção Ambiental de São Carlos – São Carlos – SP

Mauro Scapinratti
Espaço de Formação Assessoria e Documentação – São Paulo – SP

Dionil Machado
União Pedritense de Proteção ao Ambiente Natural – UPPAN – Dom Pedrito – RS

Marcus Andrey Vasconcellos – Presidente
Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação CO2 Zero – Brasília DF

Renato de Almeida
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – BA

Elaine Bernini
Laboratório de Ecologia Costeira e Oceânica
Universidade Federal da Paraíba, Litoral Norte – Rio Tinto – Paraíba – Brasil

Robin Le Breton, Assessor de Políticas Públicas
Associação Amigos de Iracambi – Rosário da Limeira – MG

Alexsander Araujo Azevedo
Instituto Biotrópicos – Diamantina – MG

Clóvis Borges
Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental – SPVS – Curitiba – PR

Juliana Marcondes Bussolotti
Associação Cunhambebe da Ilha Anchieta – Ubatuba – SP

Sueli Abad
MDPS Movimento de Defesa de Porto Seguro – BA

Eraylton Moreschi Junior
JUNTOS SOS ES Ambiental – Vitória -ES

Juliana Gatti Pereira Rodrigues
Instituto Árvores Vivas para Conservação e Cultura Ambiental – São Paulo – SP

Flavio Eduardo Krollmann
Associação para a Proteção Ambiental do Vale do Mutuca – Promutuca – Nova Lima – MG

Silvana Lima dos Santos
GEBIO Grupo de estudos em proteção à biodiversidade – Naviraí – MS

Edivan Lima
Associação Andiroba – Rio Branco – AC

Mario Luiz Augelli Barreiros
Mountarat – São Paulo – SP

Vicente de Moraes Cioffi
Fórum Permanente em Defesa da Vida – S.J.Campos – SP

Vicente de Moraes Cioffi
Nucleo Regional do Plano Diretor Participativo do Vale do Paraiba, Serra da Mantiqueira e Litoral Norte – S.J.Campos – SP

Luis Felipe Cesar
Crescente Fértil – Resende-RJ

Milena Franceschinelli
Rede Brasileira de Conselhos – RBdC – São Paulo – SP

Tercio Vellardi
Associação Amigos do Recicriança – Canoa-Quebrada – Aracati – Ceará – Brasil

Cleveland M. Jones
ABAL – Academia Brasileira Ambientalista de Letras – Petrópolis – RJ

Elena Almeida de Carvalho
Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade – SEMAS/PA

Rafael José Altenhofen
União Protetora do Ambiente Natural – UPAN – São Leopoldo – RS

Cláudia Câmara do Vale
Departamento de Geografia da Universidade Federal do Espírito Santo – ES

Dionil Machado Pereira
União Pedritense de Proteção ao Ambiente Natural-UPPAN – Dom Pedrito – RS

Eduardo Raguse Quadros
Ama-Guaíba – Guaíba – RS

Clemente Coelho Junior
Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Pernambuco – Recife – PE

A COVID-19 avança no Brasil em meio a um silêncio sepulcral

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O crescimento das internações por covid-19 em alguns hospitais privados de São Paulo já ligou o sinal de alerta sobre uma possível segunda onda da pandemia

A tabela abaixo mostra os números para o comportamento da pandemia da COVID-19 após quase 8 meses desde que a mesma foi declarada oficialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS).  Ao contrário do que parece indicar o desaparecimento da pandemia das manchetes principais dos jornais, o Brasil continua em uma condição bastante precária, estando entre os 3 países como mais casos de infecção e mortes pela COVID-19, tendo chegado a quase 170 mil mortos e mais de 6 milhões de infectados pelo coronavírus.

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Enquanto isso, uma simples caminhada pelas ruas da maioria das cidades brasileiras vai mostrar que apenas uma minoria das pessoas está portando máscaras corretamente, levando a vida em uma aparente normalidade. Além disso, aparecem todos dias, principalmente nas mídias sociais, informações de festas clandestinas para onde ocorrem membros de todas as classes sociais, mas principalmente por segmentos mais jovens e ricos da população.

Essa  situação aponta para o inevitável prolongamento e um novo período de alto número de novas infecções e mortes.  A chamada segunda onda que está agora correndo solta na Europa não está ocorrendo ainda no Brasil, simplesmente pelo fato de que ainda não conseguimos sequer sair da primeira.

O governo Bolsonaro é a origem do descontrole sanitário que permitiu a manutenção da pandemia em níveis altos e que está causando uma nova fase de superlotação de unidades de saúde. Mas o governo liderado por um negacionista convicto não é o único culpado, pois os governos estaduais e municipais em sua maioria decidiram passar a priorizar os interesses do empresariado, deixando principalmente para os pobres o maior peso desse novo ascenso da pandemia no Brasil.

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Da forma que está se prolongando, a pandemia da COVID-19 ainda ceifará milhares de vidas no Brasil (que hoje tem 1 em cada 6 mortos por COVID-19 no mundo) até que se comece a fazer a aplicação em massa de uma ou mais vacinas contra o SARS-Cov-2. 

Para aqueles que não querem fazer parte das estatísticas oficiais de contaminados e mortos pela COVID-19 resta adotar medidas estritas de autocontrole pessoal que deve se estender para todo o círculo familiar mais próximo. É que se for depender da ação do Estado, a coisa ainda vai ficar muito pior antes que comece a melhorar.