Brasil: sem liderança e nem protagonismo na COP25

Estreia de governo Bolsonaro na Conferência do Clima, em Madrid, será marcada por cobrança sobre o desmatamento e pressão para incrementar as ambições

SPAIN-CLIMATE-ENVIRONMENT-COP25Começa hoje em Madrid a COP25, que seria no Chile, depois da desistência do Brasil. Foto de Gabriel Bouys/ AFP

Por Liana Melo para o Projeto Colabora

Onze meses foram suficientes para o Brasil perder seu protagonismo nas discussões climáticas. É na condição de coadjuvante, e não mais como uma liderança globalmente reconhecida, e respeitada, que o governo Bolsonaro fará sua estreia na Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, a COP25, que começa hoje em Madri. Não será novidade para as delegações do mundo inteiro que vão transitar pelo FIEMA Feria de Madrid, um dos oito maiores centros de convenção da Europa, até o próximo dia 13, o desprezo do presidente pela agenda ambiental – ele anunciou que não tinha interesse em ser anfitrião do encontro, antes mesmo de tomar posse. Em menos de um ano, o governo jogou no lixo um trabalho de décadas, que transformou o meio ambiente na melhor tradução do estilo soft power da diplomacia brasileira.

Sob o lema “Tempo de agir”, o secretário-geral da ONU, António Guterrez, tem dito que quer uma conferência com “ambição, ambição, ambição”. Não é para menos. Às vésperas da COP25 — penúltima antes do início da implementação das metas do Acordo de Paris –, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançou, em Genebra, seu último relatório: Emissions Gap. Para atingir a meta do Acordo de Paris e manter a temperatura da planeta em 1,5°C será necessário triplicar o corte de emissões de gases de efeito estufa (GEE), pulando de uma redução de 2,7% ao ano para 7,6% anualmente. O Brasil chegou a ameaçar sair  do Acordo de Paris, mas não cumpriu a promessa. Já os Estados Unidos saíram do tratado internacional no início de novembro.

“Do Acordo de Paris, só restou mesmo a assinatura do Brasil”, chama a atenção Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. Desde que assumiu, o governo Bolsonaro vem tripudiando sobre o meio ambiente. “O atual governo acabou com a governança do clima”, complementa, acrescentando que o Comitê Interministerial de Mudança Climática foi extinto – o órgão havia sido criado em 2007 e era subordinado à Casa Civil.

A representante do Brasil na parte de mitigação do setor de transporte do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), Suzana Kahn, está convencida de que, nesta COP, “teremos que ficar nos explicando sem parar, diante do que vem acontecendo, especialmente sobre os dados de desmatamento”. A imagem do Brasil está bastante arranhada e cresce um certo ceticismo quanto ao compromisso do governo com regras pré-estabelecidas: “Com esse discurso negacionista do aquecimento global, estamos virando palha”, conclui Suzana.

Os apelos da ONU não têm surtido efeito no país. “Não existe nenhuma estratégia em curso para implementar a INDC brasileira”, diz Rittl. A INDC, que na tradução para o português significa “Contribuições Pretendidas, Determinadas em Nível Nacional”, seriam justamente as tais metas mais ambiciosas de que tanto se fala na comunidade internacional.

Gado-4Imagem aérea de uma queimada no Mato Grosso, dentro de um território indígena. Foto Marizilda Cruppe/Anistia Internacional

A Comunidade Europeia saiu na frente – ainda que apenas simbolicamente. Recém eleita, a nova Comissão Europeia vem pressionando o parlamento europeu para declarar “emergência climática” na União Europeia – o termo entrou para o Dicionário Oxford, um dos principais de língua inglesa no mundo, como a sua palavra do ano de 2019. Divergências internas à parte, a pressão é aumentar as ambições para reduzir os gases de efeito estufa (GEE) de 40% para, pelo menos, 50%.

Mesmo sabendo que a COP25 tem uma agenda pré-estabelecida, o chefe da delação brasileira, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já avisou que vai à Madrid pedir dinheiro para combater o desmatamento. A agenda é clara: fechar o Livro de Regras do Acordo de Paris, a bíblia do tratado internacional assinado em 2015 e que não foi concluído em 2018 na COP24, em Katowice, Polônia, e definir o artigo 6 que trata dos mecanismos do mercado de carbono. “Esperamos que a racionalidade prevaleça e o governo brasileiro avance nas negociações para fechar as agenda da COP25”, torce Bruno Toledo, do Instituto ClimaInfo.

Justificando que o Brasil é um modelo em conservação ambiental, Salles vai cobrar pelo menos US$ 10 bilhões dos US$ 100 bilhões ao ano prometidos por países desenvolvidos a nações em desenvolvimento pelo Acordo de Paris. O pleito vem depois de o país ter esnobado o Fundo Amazônia e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) registrar um desmatamento recorde, com crescimento de 29,5% em 12 meses. Foram destruídos 9.762 quilômetros quadrados de floresta – duas vezes e meia a mais do que se comprometeu, em 2010, quando o Congresso Nacional aprovou uma lei que limita o desmatamento do país, em 2020, a uma área de 3.900 quilômetros quadrados.

Mesmo que venha a usar de frases de efeito e tente aparar as críticas à política ambiental do governo Bolsonaro, a expectativa é de que Salles exponha o Brasil a constrangimentos na COP25. Na Cúpula do Clima, que antecedeu a Assembleia Geral da ONU, em setembro, em Nova Iorque, por exemplo, o Brasil sequer pode discursar. Só subiram ao palco os países que haviam, de antemão, apresentado planos para aumentar as metas climáticas – além do Brasil, ficaram de fora os Estados Unidos, Austrália e Japão.

O desmatamento não passará despercebida pelos 25 mil delegados internacionais na Feria de Madrid, assim como outras novidades que vão marcar a estreia do governo Bolsonaro na Cop25. Será a primeira vez que o Brasil não terá um estande oficial, onde, costumeiramente,  apresenta os projetos e programas de combate às mudanças climáticas. Oficialmente, a justificativa foi a falta de tempo hábil para montar o estande, depois que a conferência foi transferida do Chile para Madrid – dado o histórico do governo na área ambiental, a explicação não tem convencido. Sem estante oficial, fica no ar a pergunta: onde Salles e sua equipe de negociadores ficarão e onde receberão representantes de outros governos para conversar? Restará a alternativa, por exemplo, de outros países, talvez a Espanha, anfitriã do encontro, fazerem a gentileza de oferecer um sala para o governo brasileiro.

Será no Brazil Climate Action Hub, organizado pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS) e o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que a sociedade vai promover encontros e debates com organizações não-governamentais (ONGs), academia, governos estaduais e prefeituras, e até representantes do setor privado e financeiro.

Outra novidade adotada pelo governo Bolsonaro foi tirar  do alto escalão do Itamaraty a agenda climática – o que mostra total coerência com a decisão de convocar um negacionista climático para o cargo de chanceler, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. O chefe da delegação brasileira na COP25,  Leonardo Cleaver de Athayde, é o primeiro-secretário. A estratégia de esvaziar o tema chegou, inclusive, à distribuição de credenciais. Se, no passado, a delegação brasileira já chegou a ser uma das mais expressivas na história das COPs, chegando a estar representada por 800 pessoas, entre representantes do governo e da sociedade civil; este ano, pela primeira vez em mais de 12 anos, a chancelaria brasileira não deu credenciais a ONGs, academia e setor privado.

Salles e a equipe de negociadores terão que se esforçar muito para voltar ao Brasil com alguma verba anti-desmate. Simplesmente porque o tema não está na pauta da COP25. Um ponto-chave da conferência é a discussão sobre os mercados de carbono e as suas regulações. Ou seja, como transformar emissões de carbono em créditos que possam ser comprados e vendidos – um sistema que só vai funcionar se todos os países concordarem em manter suas emissões de carbono abaixo de determinados preços. Chegar a este cálculo é uma tarefa hercúlea. As viagens de avião, por exemplo, estão entre os vilões da emissão de gás carbônico. Conhecido no  jargão da ONU como Artigo 6, esse é um assunto que vem desafiando muitos negociadores, de diferentes países. Sem falar no fato de ser uma discussão que vem se prolongando há vários anos, mas que precisa ser colocado um ponto final em Madrid.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].

O Brasil já perdeu investidores por causa da Amazônia. Vai perder ainda mais

Brazil's President Jair Bolsonaro, Environment Minister Ricardo Salles and Vice President Hamilton Mourao attend a swearing-in ceremony for the country's new army commander in BrasiliaO êxito de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles no retrocesso ambiental na Amazônia já custa caro ao Brasil. Vai custar ainda mais em 2020

O comentarista da GloboNews João Borges publicou uma nota em seu blog no portal G1 dizendo que o Brasil  “já paga o preço pelas queimadas na Amazônia e, de forma geral, pela política ambiental do governo Bolsonaro“. Borges acrescentou ainda que “gestores de grandes fundos de investimentos europeus informaram a autoridades brasileiras que seus cotistas não querem mais ter dinheiro aplicado aqui. Alguns não vão mais aplicar. Outros sinalizam que podem retirar o que já investiram“.

Imagem relacionadaJair Bolsonaro se gabou pelo aumento das queimadas na Amazônia. Investidores estrangeiros não acharam graça

Pois bem, eu particularmente acho que João Borges foi até comedido na forma com que divulgou a informação de que o Brasil, sob Jair Bolsonaro e seus ministros terraplanistas e céticos das mudanças ambientais, já é visto e tratado como uma pária ambiental até pelos grandes operadores do mercado financeiro global.

Esse é o preço do retrocesso na governança ambiental e no desmanche dos mecanismos de comando e controle que existiam para diminuir a sanha destruidora  de diferentes pilhadores dos ecossistemas amazônicos, cuja proteção interessa a todos os que se preocupam com as mudanças climáticas que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é um negacionista contumaz.

O problema é que fora do Brasil há pouca ou nenhuma paciência com a visão de “economia de fronteira” que Jair Bolsonaro almeja impor na Amazônia para atender interesses muitas vezes paroquiais de seus apoiadores “raiz” que estão na cabeça de ponte da pilhagem, a começar por garimpeiros e madeireiros ilegais que estão hoje causando uma ampla devastação em áreas proteção ambiental e terras indígenas.

Como já tenho escrito aqui, em que pesem a natureza intrínseca do Capitalismo de buscar incessantemente novas fronteiras de extração de recursos, as forças mais modernas do sistema querem que a apropriação se dê dentro de marcos que favoreçam os altos investimentos feitos em tecnologia extrativa, em vez de se favorecer aquelas formas mais antiquadas e ultrapassadas como as que parece favorecer Jair Bolsonaro.

Como as previsões para as taxas de desmatamento e números de queimadas são de alta para 2020 em função da inércia do governo Bolsonaro para brecar os piores elementos de sua pauta antiambiental, o mais provável é que tenhamos mais fuga de investidores, o que aumentará as dificuldades cambiais do Brasil. Com isso, teremos ainda um provável aumento na carestia dentro país, o que, por sua vez, aumentará a débâcle econômica do Brasil, que já não é pequena, diga-se de passagem.

Um elemento adicional neste cenário é que cedo ou tarde vão aparecer os números mais completos da degradação florestal na Amazônia, o que aumentará o grau de alarme em torno do destino do maior estoque de florestas tropicais do planeta. Com isso, as pressões sobre o presidente Jair Bolsonaro deverão aumentar ainda mais e, com isso, a crise política que a visão terraplanista de governar que ele representa.

Trincas forçam Vale a alertar mercado sobre suspensão de uso de barragem em Barão de Cocais (MG)

laranjeiras

Ao longo de 2019 abordei diversas situações de risco envolvendo barragens de mineração da Vale no estado de Minas Gerais. Entretanto, ao longo dos últimos meses, a coisa parecia menos dramática do que no início do ano, quando várias dessas estruturas construídas para receber rejeitos da mineração de ferro da Vale no território mineiro ameaçavam ruir.

Mas eis que hoje, a Vale emitiu um novo comunicado ao mercado dando conta da suspensão dos despejos de resíduos na barragem Laranjeiras vindos da mina Brucutu, localizada nos municípios de Barão de Cocais e de São Gonçalo do Rio Abaixo (ver imagem abaixo).

vale barragem

A Vale informa que a suspensão do despejo de rejeitos na barragem de Laranjeiras está se dando para que sejam conduzidas “avaliações sobre as características geotécnicas da barragem”. Entretanto, o Diário de Barão informou em sua página oficial na rede social Facebook que a interdição de Laranjeiras se deve à constatação da existência de duas trincas (ou seja, rachaduras) nas paredes da barragem Laranjeiras.

O jornal Estado de Minas já informou que a barragem de Laranjeiras tem capacidade de 5,8 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos, e que uma eventual inundação decorrente de sua ruptura se estenderia por 183 km a jusante no Rio Piracicaba, o que inevitavelmente levaria o material até a calha principal do Rio Doce, que já foi duramente atingido pelo Tsulama da Mineradora Samarco (Vale+ BHP) que eclodiu no Distrito de Bento Rodrigues em Novembro de 2015.

Há que se lembrar que a Barragem Laranjeiras havia sido paralisada pela Justiça em fevereiro  deste ano, junto com outras sete após ação civil pública movida pelo Ministério Público, processo que ainda que corre em segredo de Justiça. A mineradora havia conseguido voltar a operar, mas houve nova suspensão no dia 6 de maio, a qual foi novamente suspensa, o que permitiu despejar rejeitos em Laranjeiras até o dia de hoje.

Enquanto isso, os governos de Romeu Zema e Jair Bolsonaro assistem tudo como se não tivessem nada com os graves riscos que estão colocados sobre a população dos municípios localizados imediatamente a jusante da barragem Laranjeiras ou sobre os ecossistemas naturais da região, incluindo os do Rio Doce.

 

Indústria espacial ajuda no monitoramento de barragens

SurfaceMovementMonitoring-696x391Empresa de tecnologia geoespacial Hex é um exemplo no uso de sensoriamento remoto a favor dos acompanhamentos de barragens brasileiras

Sempre atenta às tendências, a Hex decidiu se debruçar nos últimos tempos no monitoramento de grandes barragens no que tange a detecção da movimentação da superfície dos terrenos. A empresa, especializada em investigações de manchas de óleo no mar, usa tecnologias de monitoramento remoto de imagens via satélite para acompanhar e vistoriar barragens nacionais.

“Executamos uma técnica específica de sensoriamento remoto destinada a identificar a movimentação da superfície do terreno, chamada de Interferometria. Trata-se de um trabalho realizado a partir de dados adquiridos por satélites de radar”, explica Leonardo Barros, diretor-executivo da empresa.

Segundos dados da Agência Nacional e Mineração (ANM), atualmente, 421 barragens de mineração estão inseridas na Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB) e estão obrigadas a entregar a documentação atestando a estabilidade.

Em outubro deste ano, a agência informou que 383 barragens tiveram sua estabilidade atestada. Já 23 barragens não atestaram sua estabilidade à ANM e mais 16 estruturas não enviaram suas DCEs até a metade daquele mês, sendo um total de 39 barragens. Como a barragem de Brumadinho saiu da contagem, a lista foi atualizada para 38 barragens interditadas.

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Fonte:  objetiva

Nota de associação ligada ao grande capital joga navio do governo Bolsonaro nas pedras

Gife736x341Congresso do GIFE em 2016

Uma nota emitida pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE), cuja existência eu desconhecia até o momento em que recebi o documento, é o maior sinal de que as coisas não andam bem para o presidente Jair Bolsonaro e sua equipe de ministros terraplanistas e céticos das mudanças climáticas. 

O GIFE se apresenta em sua página oficial como uma “associação dos investidores sociais do Brasil, sejam eles institutos, fundações ou empresa”, que teria “nascido como grupo informal em 1989, o GIFE – Grupo de Institutos Fundações e Empresas, foi instituído como organização sem fins lucrativos, em 1995“, e que “desde então, tornou-se referência no país no tema do investimento social privado“.

Mas basta olhar para alguns membros da lista de 141 associados e principais apoiadores para saber que no GIFE se reúnem os principais peso pesados da economia brasileira, a começar pela Fundação Lemann, pelo Instituto Unibanco e pelo Instituto C&A, incluindo ainda a Fundação Ford e a TV Globo, apenas para citar alguns dos mais notáveis (veja vídeo institucional abaixo).

A nota em questão é intitulada2019, Cidadania e Estado de Direitoque está centrada no que o GIFE considera “a ação voluntarista e nebulosa da Polícia Civil do Pará deflagrada  contra o Projeto Saúde e Alegria e outras organizações dedicadas à preservação ambiental e à provisão de serviços para a população do estado” é certamente o documento político mais significativo que já foi elaborado contra as práticas governamentais instaladas a partir da instalação de Jair Bolsonaro na cadeira de presidente.

A nota não é apenas particularmente sensível para o governo Bolsonaro e seus aliados que estão sentados na cadeira de governador quando afirma uma plena solidariedade “com o Projeto Saúde e Alegria e todos os demais agentes de cidadania vitimados por essa postura (antidemocrática) hoje no país”.   O problema para Jair Bolsonaro é que a nota também faz um convite generalizado para que haja o “empenho necessário para que possamos como sociedade defender nosso acúmulo democrático e construir de forma inclusiva e efetiva a partir dele, no rumo do país mais justo, dinâmico, sustentável e exitoso que precisamos e podemos ser“.

Indo para além da linguagem polida que caracteriza a nota, não é preciso dizer que o leite parece ter azedado nas relações entre o grande capital e o governo Bolsonaro, indo muito além do caso do Projeto Saúde e Alegria.  E é só olhar para os atuais indicadores econômicos e a incapacidade do todo poderoso ministro da Fazenda, Paulo Guedes, de oferecer saídas palpáveis para a recessão instalada no Brasil para enxergar parte da impaciência explicitada na nota do GIFE. 

As consequências desse desembarque do grande capital da rede de suporte político do governo Bolsonaro deverão ficar mais claras ao longo dos próximos meses, pois a pressão política por resultados palpáveis na economia só deverá aumentar, bem como a impaciência com gestos e ações que só isolem o Brasil de alguns de seus principais parceiros.

Nessa situação toda, o lamentável é que a reação mais palpável ao ataque a “professores, jornalistas, artistas, cientistas e outras vozes plurais” que está sendo realizado pelo governo Bolsonaro não esteja vindo dos partidos e movimentos sociais que se dizem de esquerda, mas de uma associação política financiada pelo grande capital.  Isto, mais do que qualquer outra coisa, é um sinal de que algo precisa mudar na forma com que o governo Bolsonaro vem sendo tratado pela esquerda. É que até o grande capital já parece ter entendido o desastre que este governo está sendo. E, pior, o grande capital está agindo para deixar isto claro, enquanto a esquerda permanece aparvalhada e centrada nas eleições de 2020.

Sobre injustiça e morte: a perseguição aos bailes funk

paraisopolisMoradores de Paraisópolis protestam contra ação da PM de São Paulo que resultou na morte de nove jovens por pisoteamento em baile funk.  Marlene Bergamo/FolhaPress

Por Luciane Soares da Silva*

O caso de Paraisópolis não pode ser visto isoladamente. As nove mortes no baile funk, fruto da deliberada ação com intenção de matar da Polícia Militar de São Paulo, unem-se as ações que já vitimaram mais de 9 crianças no Rio de Janeiro. Todas moradoras de periferia. Muitas delas, negras. Crianças mortas diretamente pela política que sugere “mirar na cabecinha”. A política de João Dória acompanha a de Wilson Witzel com foco no mesmo público.

As versões dos policiais nunca apresentam uma prova material do ataque a que dizem ter enfrentado e respondido. Já as imagens de pessoas encurraladas, apanhando sem a menor possibilidade de defesa, estão aí e não podem ser desconsideradas. Lamento que estes homens tenham de ter seu trabalho tão rebaixado no ofício de prover segurança. São o braço ativo de um governador covarde. Que encena como em dezenas de vezes … indignação e pedido de apuração dos fatos.

Iniciei minhas pesquisas com favelas no Rio de Janeiro em 2005 e perdi a conta do número de assassinatos, chacinas, comoções e injustiças vividas nestes anos. Dentre as situações mais insustentáveis da relação entre Estado e periferia, a proibição dos bailes funk sempre me pareceu estar entre as mais injustificáveis. Acompanhei a preparação dos bailes na Rocinha, Maré e Acari. E nunca foi razoável a justificativa de que estes eram espaços de consumo de drogas e de ação do tráfico. Em primeiro lugar, o consumo de drogas não precisa da realização dos bailes para existir e já faz algum tempo que sua forma de venda migrou para um formato muito mais capilarizado e discreto. Além disto, o baile funk não é realizado sob domínio do tráfico como os jornais de grande circulação gostariam de fazer crer.

Conheci evangélicos que vendiam balas na porta dos bailes. Conheci artistas que aferiam renda com as letras gravadas pela Furacão 2000, conheci dançarinas que sustentavam suas famílias com mais de cinco apresentações em fim de semana. A economia da favela sempre lidou muito bem com os bailes. A certamente os 174 milhões movimentados em 2008, segundo a FGV, mostravam a centralidade do fenômeno nestes locais. Não é uma questão de gosto…

Aqueles que em sua ignorância acusam estes moradores de “falta de vontade para empreender” não fazem a menor ideia das formas criadas na favela para complemento de renda. Os bailes nunca precisaram de patrocínio do Estado para existirem. Pelo contrário, cresceram de costas para o poder público que em seu punitivismo tacanho, apresenta exigência de banheiros químicos e segurança em territórios que se autogovernaram em muitos destes quesitos, sem a presença do Estado. O baile incomoda? Mas a falta de saneamento não. A falta de transporte não, nem de creches ou escolas. O baile incomoda? Mas crianças com os corpos no chão em busca de proteção contra os helicópteros do Estado não. O baile incomoda? Já o sumiço de Amarildo…

Na sessão da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) que discutiu o funk como patrimônio cultural, vi muitos deputados escondendo os relógios e rindo uns para os outros, enquanto guardavam as carteiras, apontando para uma plenária cheia de meninos com camisetas do Flamengo, tênis velhos, bonés e bermudas. Os deputados riam como se estivessem olhando um circo.

Os bailes funk são a única forma de lazer de territórios sem teatros, bibliotecas ou cinemas. Mas já faz uma quase duas décadas que este é o único segmento cultural perseguido pelo Estado. O problema dos comandantes e secretários de segurança, não é ritmo. Já tentaram justificar que o baile funk é a falência da segurança pública durante a curta vida das Unidades de Polícia Pacificadora. Já tentaram proibir o baile por alegar que ali se fazia apologia ao tráfico. Mas nada disto sustenta a ação policial em Paraisópolis.

A intensificação destas ações de extermínio sugere que atingimos o ápice de uma política sempre presente nas favelas: a das execuções sem julgamento.

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* Luciane Soares da Silva é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Podcast sobre a área central de Campos dos Goytacazes

ranulfo

A convite do economista Ranulfo Vidigal participei de um “podcast”  sobre vários assuntos, especialmente a situação em que se encontra o centro histórico de Campos dos Goytacazes. Esse podcast está sendo agora veiculado pelo site Ururau.

Entre as várias questões abordadas citei o desmanche silencioso que está ocorrendo no rico patrimônio arquitetônico que existe centro histórico onde centenas de edificações foram derrubadas para a instalação de estacionamentos que assumem o papel de espaços de reserva de valor. Tudo isso sob os olhares complacentes da Prefeitura Municipal e dos órgãos que deveriam estar protegendo o patrimônio histórico.

estacionamentosEstacionamentos instalados em terrenos que até recentemente abrigaram prédios com interesse para a preservação histórica.

Falei ainda dos efeitos da asfixia que foi criada pelo governo de Rafael Diniz no transporte público, o qual vem dificultando sobremaneira a circulação de pessoas entre as diferentes localidades existentes no município. Este processo tem de forma objetiva fechado o acesso ao centro histórico, resultando no fechamento de centenas de estabelecimentos comerciais. Esse processo de asfixia começou com a extinção do programa da passagem social, mas foi aprofundado pela proibição de acesso do transporte alternativo ao centro histórico.

Quem desejar a íntegra da conversa que tive com Ranulfo Vidigal, basta clicar (Aqui!).