Uberização não é, nem nunca será, um projeto nacional de desenvolvimento

A “escuta” dos trabalhadores pode orientar políticas sociais, mas não pode substituir uma estratégia baseada em ciência, tecnologia, reindustrialização e empregos de alta produtividade.

O artigo publicado no dia de ontem (23/7) pela Folha de São Paulo e assinado pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, em defesa das medidas anunciadas pelo governo do presidente Luís Inácio para motoristas e entregadores de aplicativos parte de um diagnóstico correto. A classe trabalhadora brasileira mudou profundamente nas últimas décadas. A desindustrialização, a financeirização da economia e o avanço das plataformas digitais empurraram milhões de brasileiros para formas extremamente precárias de inserção no mercado de trabalho. Entretanto, o texto revela uma limitação importante ao apresentar como estratégia de desenvolvimento aquilo que, na realidade, constitui apenas uma política de administração da precarização.

Segundo Guilherme Boulos, as medidas anunciadas pelo governo resultaram de um amplo processo de “escuta” dos trabalhadores. É perfeitamente plausível que isso tenha ocorrido, pois quem passa doze ou quatorze horas por dia dirigindo um automóvel ou uma motocicleta para conseguir pagar combustível, alimentação e a prestação do veículo dificilmente reivindicará uma política nacional de reindustrialização ou um programa de desenvolvimento tecnológico. O trabalhador pede aquilo que lhe permita continuar trabalhando no dia seguinte, mas um governo não pode limitar seu horizonte às urgências impostas pela sobrevivência cotidiana. Entretanto, governar exige responder às necessidades imediatas da população, mas também criar condições para que essas necessidades deixem de definir o futuro do país.

Esse é precisamente o ponto em que a proposta do governo do presidente Luís Inácio revela suas limitações. Quando a estratégia econômica passa a ser construída exclusivamente a partir das necessidades produzidas pela pobreza, pela informalidade e pela precarização do trabalho, o resultado não é a superação da dependência, mas sua administração. A política pública melhora marginalmente as condições de vida de milhões de trabalhadores, mas não altera os mecanismos econômicos que produziram sua inserção precária no mercado de trabalho.

O Brasil vive esse processo há pelo menos quatro décadas. A indústria perde participação na economia nacional, a pauta de exportações torna-se cada vez mais concentrada em commodities agrícolas e minerais, o conteúdo tecnológico da produção diminui e os empregos industriais de maior qualificação desaparecem. Em sentido inverso, cresce continuamente o número de brasileiros cuja única alternativa de renda consiste em trabalhar para plataformas digitais que não controlam, utilizando veículos próprios, assumindo todos os custos da atividade e permanecendo submetidos a algoritmos sobre os quais não exercem qualquer influência.

Essa realidade confirma, de maneira quase exemplar, a interpretação formulada por Ruy Mauro Marini acerca da superexploração da força de trabalho nas economias dependentes. Em vez de elevar a produtividade por meio da incorporação de ciência, tecnologia e inovação, essas economias preservam sua competitividade comprimindo salários e transferindo para os trabalhadores uma parcela crescente dos custos da produção. No trabalho por aplicativos, o motorista financia o veículo, paga combustível, manutenção, pneus, seguro e depreciação, enquanto a plataforma controla os preços, distribui as corridas e apropria-se de parcela significativa da renda gerada.

A partir dessa perspectiva, a política anunciada pelo governo do presidente Luís Inácio reduz alguns custos enfrentados pelos trabalhadores, mas não modifica a lógica econômica da qual decorre sua precarização. O crédito subsidiado para aquisição de automóveis e motocicletas facilita o acesso ao trabalho, mas também amplia a capacidade de reprodução de um modelo baseado justamente na transferência dos riscos e dos custos da atividade para o próprio trabalhador. Em outras palavras, melhora-se a forma de funcionamento da engrenagem sem questionar a natureza da máquina.

Essa análise torna-se ainda mais preocupante quando se observa aquilo que o artigo de Guilherme Boulos simplesmente deixa de mencionar. Não há qualquer referência à reindustrialização do país, à necessidade de reconstruir cadeias produtivas nacionais, ao fortalecimento da pesquisa científica ou ao desenvolvimento tecnológico. A ausência desses temas revela uma mudança importante na forma como parte da esquerda brasileira passou a pensar o desenvolvimento. Se durante grande parte do século XX a preocupação central consistia em construir capacidade industrial, infraestrutura, universidades, empresas nacionais e autonomia tecnológica, hoje o debate parece restringir-se às formas de tornar menos precária uma economia crescentemente marcada pela informalidade.

Esse deslocamento ajuda a compreender a atualidade das formulações de André Gunder Frank sobre o desenvolvimento do subdesenvolvimento. A economia de plataformas representa uma nova expressão da inserção dependente do Brasil na divisão internacional do trabalho. O país fornece trabalhadores, consumidores, infraestrutura urbana e uma enorme massa de dados produzidos diariamente pelos usuários, enquanto os algoritmos, a inteligência artificial, a propriedade intelectual, os sistemas financeiros e o comando empresarial permanecem concentrados nas economias centrais. Exportamos trabalho barato e importamos tecnologia sofisticada, reproduzindo uma dinâmica histórica que transfere riqueza para fora do país ao mesmo tempo que limita nossa capacidade de inovação.

O aspecto mais inquietante dessa estratégia reside justamente na naturalização desse processo. O artigo de Guilherme Boulos transmite a impressão de que a economia de plataformas constitui um dado permanente da realidade, cabendo ao Estado apenas reduzir seus efeitos mais perversos. Entretanto, a expansão da uberização não resulta de uma escolha espontânea dos trabalhadores, mas do esvaziamento da capacidade produtiva brasileira. Milhões de pessoas passaram a depender dos aplicativos porque desapareceram empregos industriais, reduziram-se oportunidades de trabalho qualificado e o país abandonou qualquer estratégia consistente de transformação estrutural da economia.

Esse diagnóstico torna ainda mais paradoxal a posição brasileira. Poucos países reúnem condições tão favoráveis para reconstruir uma política nacional de desenvolvimento baseada em ciência, tecnologia e inovação. O Brasil dispõe de universidades públicas de excelência, centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente, empresas estatais estratégicas, abundância de recursos naturais, enorme biodiversidade, crescente capacidade energética e um dos maiores mercados consumidores do planeta. Essas vantagens permitiriam estruturar cadeias produtivas em áreas como inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, indústria farmacêutica, equipamentos médicos, transição energética e mobilidade elétrica, gerando empregos de alta produtividade e reduzindo a dependência tecnológica externa.

Entretanto, o debate público parece conformado com um horizonte muito menos ambicioso. Em vez de discutir como reconstruir uma economia intensiva em conhecimento, inovação e produção industrial, o governo do presidente Luís Inácio age para facilitar o financiamento da motocicleta ou do automóvel que permitirá ao trabalhador continuar prestando serviços para plataformas controladas por empresas cujo centro decisório permanece localizado fora do  Brasil. Essa inversão de prioridades talvez constitua a evidência mais clara da pobreza estratégica que passou a marcar o debate sobre desenvolvimento  nacional.

Ouvir os trabalhadores constitui uma obrigação elementar de qualquer governo democrático. Contudo, um projeto nacional de desenvolvimento não pode ficar restrito às expectativas produzidas pela própria precarização do trabalho. A responsabilidade do Estado consiste precisamente em ampliar essas expectativas e criar condições para que as futuras gerações encontrem oportunidades de inserção produtiva baseadas em conhecimento, inovação tecnológica e empregos de elevada produtividade. Enquanto essa mudança de horizonte não ocorrer, continuaremos confundindo políticas sociais necessárias e legítimas com uma estratégia de desenvolvimento que, na prática, apenas administra a dependência e consolida a posição periférica do Brasil na economia mundial.

Bloqueio judicial no Rioprevidência expõe os riscos da captura financeira da previdência dos servidores fluminenses

Decisão da Justiça reacende o debate sobre investimentos de alto risco e reforça críticas ao uso dos recursos previdenciários pelo governo Cláudio Castro para financiar o pagamento da dívida pública, ampliando a insegurança de aposentados e pensionistas

A decisão da Justiça do Rio de Janeiro de bloquear R$ 135,1 milhões em contas e bens de empresas e executivos envolvidos em operações financeiras com recursos do Rioprevidência representa mais um capítulo de uma história marcada por sucessivas apostas de alto risco com o patrimônio previdenciário dos servidores estaduais. A medida decorre de uma ação proposta pelo próprio Governo do Estado e pelo Rioprevidência para tentar recuperar recursos perdidos após um investimento de R$ 150 milhões no fundo Texas I FIA, cuja carteira estava fortemente concentrada em ações da Ambipar e sofreu uma desvalorização superior a 90%.

Embora o bloqueio de bens possa representar um primeiro passo na tentativa de recuperar parte do prejuízo, ele não elimina a questão central: como um fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de centenas de milhares de servidores públicos foi exposto a operações financeiras de tamanho risco? A resposta exige uma investigação profunda sobre os critérios adotados para essas aplicações, os mecanismos de fiscalização existentes e as responsabilidades administrativas e políticas de quem autorizou tais investimentos.

O caso também reforça a necessidade de examinar a condução da política previdenciária durante o governo Cláudio Castro. Nos últimos anos, os recursos do Rioprevidência deixaram de cumprir exclusivamente sua finalidade previdenciária e passaram a servir, reiteradamente, como instrumento para atender às necessidades fiscais do governo estadual, inclusive por meio de operações destinadas ao pagamento da dívida pública com a União. Essa utilização recorrente do patrimônio previdenciário como mecanismo de ajuste das contas estaduais fragilizou ainda mais a sustentabilidade financeira do fundo e ampliou a insegurança de aposentados e pensionistas, justamente aqueles que dependem desses recursos para sua sobrevivência.

O episódio atual evidencia que o problema não se resume a um investimento malsucedido. Ele revela um modelo de gestão que transformou um fundo previdenciário em instrumento de engenharia financeira e de administração da crise fiscal do Estado. Quando isso ocorre, os riscos deixam de recair apenas sobre operadores do mercado e passam a ameaçar diretamente a renda de milhares de servidores que contribuíram durante décadas para garantir uma aposentadoria digna.

Por isso, a recuperação dos recursos eventualmente desviados ou perdidos constitui apenas uma parte da solução. O Estado precisa identificar e responsabilizar civil, administrativa e criminalmente todos aqueles que contribuíram para expor o patrimônio previdenciário a riscos incompatíveis com sua finalidade. Da mesma forma, torna-se indispensável impedir que futuros governos continuem tratando o Rioprevidência como uma reserva financeira disponível para solucionar problemas de caixa ou honrar compromissos fiscais de curto prazo. Um fundo de previdência existe para garantir segurança aos aposentados e pensionistas, não para financiar aventuras financeiras nem servir como colchão para políticas fiscais equivocadas.

Diante desse histórico, os servidores ativos, aposentados e pensionistas não podem permanecer como espectadores. Sindicatos e associações  ligados aos servidores precisam ampliar a pressão política e institucional para impedir que novos investimentos temerários coloquem em risco o patrimônio do Rioprevidência. Da mesma forma, essas entidades devem exigir o fim da utilização recorrente dos recursos do fundo para viabilizar o pagamento da dívida pública do Estado com a União, prática que desvirtua a finalidade da previdência e compromete sua sustentabilidade de longo prazo. È preciso lembrar que defender o Rioprevidência significa defender o direito dos servidores de receber, com segurança, os benefícios que financiaram ao longo de toda a sua vida como servidores públicos do Rio de Janeiro.

Quando a fumaça domina o horizonte, o problema já deixou de ser apenas ambiental

As imagens desta 5a. feira (23/7) em Campos dos Goytacazes mostram um horizonte praticamente encoberto por uma espessa camada de fumaça. O cenário impressiona pela perda de visibilidade, mas o que realmente preocupa é o que essa fumaça representa. Ela não é apenas um episódio passageiro de poluição atmosférica. Ela revela o acúmulo de problemas estruturais que o município ignorou durante décadas e que agora se tornam cada vez mais evidentes.

O primeiro desses problemas é o modelo de ocupação da paisagem. Campos dos Goytacazes transformou grande parte de seu território em uma vasta monocultura de cana-de-açúcar. Ao longo do tempo, esse processo eliminou praticamente toda a Mata Atlântica que originalmente cobria a região. Restaram apenas pequenos fragmentos florestais, incapazes de exercer plenamente suas funções ecológicas de regulação do clima, retenção de umidade e redução da propagação do fogo.

A simplificação extrema da paisagem tornou o município muito mais vulnerável às queimadas. Grandes extensões contínuas de vegetação seca, associadas ao inverno mais seco e às temperaturas cada vez mais elevadas, criam condições ideais para que pequenos focos de incêndio se transformem rapidamente em grandes queimadas. Quando isso ocorre, a fumaça não permanece restrita às áreas rurais. Ela invade bairros, avenidas, escolas, hospitais e residências, afetando diretamente a qualidade de vida da população.

As mudanças climáticas agravam ainda mais esse quadro. Períodos prolongados de estiagem, ondas de calor mais intensas e redução da umidade relativa do ar ampliam o risco de incêndios. O que antes poderia ser tratado como um evento excepcional passou a fazer parte de uma nova realidade climática, exigindo respostas completamente diferentes das adotadas até hoje.

Entretanto, o clima não explica tudo. A fumaça que hoje cobre Campos dos Goytacazes também evidencia a insuficiente preparação do poder público para prevenir e combater queimadas. A prevenção exige monitoramento permanente das áreas de risco, abertura e manutenção de aceiros, planejamento territorial, fiscalização rigorosa, campanhas educativas e equipes treinadas para atuar antes que os incêndios saiam do controle. Esperar que o fogo comece para então mobilizar recursos significa atuar quando boa parte do dano ambiental e sanitário já ocorreu.

As consequências recaem principalmente sobre a saúde pública. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias sofrem imediatamente com o aumento das partículas finas em suspensão. Crescem os casos de irritação nos olhos, crises de asma, bronquite e outros problemas cardiovasculares e pulmonares. Ao mesmo tempo, a fumaça reduz a visibilidade nas rodovias, aumenta o risco de acidentes e compromete as atividades econômicas.

O horizonte tomado pela fumaça deve servir como um alerta. Campos dos Goytacazes precisa abandonar a lógica de apenas reagir às emergências e construir uma política permanente de gestão da paisagem. Isso passa pela recuperação da Mata Atlântica, pela proteção das áreas úmidas, pela diversificação do uso do solo, pelo fortalecimento da prevenção e pelo investimento em estruturas de combate aos incêndios. Enquanto essas mudanças não ocorrerem, a fumaça continuará retornando a cada período seco, lembrando que a degradação ambiental não permanece confinada ao campo: ela invade a cidade, entra nas casas e chega aos pulmões de toda a população.

Livro sobre exposição humana a agrotóxicos é semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico

Por Karen Moraes para o “Portal da Faculdade de Ciêncas Médicas”

A obra Exposição humana a agrotóxicos: problema de saúde coletiva e atuação do SUS, de autoria de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, professor do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, foi indicada como semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026. O título concorre na categoria Enfermagem, Farmácia, Saúde Coletiva e Serviço Social.

A indicação foi anunciada em 15 de julho pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Publicado pela Pontes Editores em 2025, o livro está disponível em versão impressa e também como e-book gratuito. Os cinco finalistas serão divulgados em 27 de julho, durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), com anúncio simultâneo no site oficial do prêmio. A cerimônia de premiação ocorrerá em 11 de agosto.

Lançada em 2025 durante o Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, o Simpósio Internacional de Pesquisa em Enfermagem e um evento na Associação de Docentes da Unicamp (ADunicamp), a publicação reúne resultados de pesquisas, atividades de ensino e ações de extensão desenvolvidas pelo autor. “Os capítulos foram pensados para compor uma obra didática, mas também com nível técnico, voltada a profissionais da saúde e estudantes de graduação e pós-graduação”, afirmou Alonzo.

Exemplares empilhados do livro "Exposição Humana a Agrotóxicos: Problema de Saúde Coletiva e Atuação do SUS", de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, expostos sobre uma mesa.Exemplar impresso de obra indicada ao Jabuti Acadêmico

No capítulo central, Alonzo desenvolve a principal tese do livro: a de que o contato com essas substâncias deve ser compreendido como um problema de saúde coletiva. Segundo o autor, o crescimento do número de formulações e produtos comerciais disponíveis no mercado amplia os riscos para a população. “Quanto maior a utilização, aumentam a exposição, os danos ambientais, a presença de resíduos e o acesso da população a esses agrotóxicos, que também são usados em tentativas de suicídio.”

Alonzo explica que os impactos à saúde podem ser imediatos ou surgir anos após o contato com essas substâncias. “Há efeitos agudos e crônicos. Algumas pessoas adoecem, sofrem intoxicações e podem morrer. Outras, em decorrência da exposição prolongada aos resíduos, desenvolvem danos em diferentes órgãos e sistemas, como o nervoso (central e periférico), respiratório, cardiovascular, gastrointestinal, imunológico e endócrino, além do fígado, dos rins, da pele, das mucosas e de diversos tipos de câncer.”

Também podem ocorrer danos à saúde reprodutiva, como abortos, alterações na qualidade dos óvulos e do sêmen, malformações congênitas e baixo peso ao nascer. Em crianças e adolescentes, o pesquisador relaciona o contato com as substâncias a prejuízos cognitivos e de aprendizagem, além do aumento do risco de alguns tipos de câncer infantil, especialmente tumores cerebrais e leucemias, associados tanto à exposição dos pais quanto dos próprios filhos.

Um homem de barba e camisa listrada gesticula enquanto conversa com uma mulher de blazer vermelho e broche contra agrotóxicos, cercados por outras pessoas em uma feira ou evento.Lançamento do livro no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em Brasília

A disponibilização gratuita do e-book, segundo Alonzo, busca ampliar o acesso de estudantes e profissionais de saúde a um material didático ainda escasso sobre o tema. “A literatura disponível hoje sobre intoxicações é voltada principalmente para situações agudas e de pronto-socorro. O livro propõe uma abordagem diferente, com estratégias direcionadas aos profissionais da atenção primária.”

A estrutura da obra acompanha uma sequência didática. Os primeiros capítulos apresentam conceitos básicos e a classificação dos agrotóxicos; na sequência, são abordadas formas de identificar pessoas expostas na rotina dos serviços de saúde; por fim, o livro reúne orientações para a investigação clínica e o manejo desses casos.

“No primeiro capítulo, o livro explica de forma simples como os agrotóxicos são classificados e agrupados. Mais adiante, apresenta estratégias para que os profissionais de saúde identifiquem pessoas expostas na rotina das unidades. O último capítulo mostra como realizar a história clínica e a anamnese, além de abordar o diagnóstico, as orientações e as condutas para esses pacientes.”

Homem de camisa listrada e barba grisalha discursa com microfone ao lado de uma projeção do livro "Exposição Humana a Agrotóxicos", de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, com QR codes para acesso.

Herling Alonzo apresenta livro em sessão

 

Para Alonzo, a principal contribuição da publicação é oferecer um material voltado especificamente aos profissionais da atenção primária e aos estudantes da área da saúde, preenchendo uma lacuna na formação sobre os impactos da exposição aos agrotóxicos e o atendimento às pessoas expostas.

O autor e o prêmio

Formado em Medicina e Cirurgia pela Universidad Nacional Autónoma de Honduras, Alonzo fez pós-graduações em Toxicologia Clínica e Ambiental no Uruguai e em Saúde Ocupacional em Israel, antes de consolidar, no Brasil, sua carreira acadêmica na área de Saúde Coletiva.

Criado em 2024 com apoio da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da SBPC, e com participação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) a partir deste ano, o Prêmio Jabuti Acadêmico é uma iniciativa da CBL para reconhecer livros acadêmicos, científicos, técnicos, profissionais e didáticos nacionais. 


Fonte: Portal da Faculdade de Ciências Médicas

Data centers e o novo extrativismo digital: quando a inteligência artificial redefine a geografia da espoliação

Durante anos, a economia digital foi apresentada como uma alternativa limpa às atividades extrativas tradicionais. A imagem de uma “nuvem” imaterial ajudou a consolidar a percepção de que serviços digitais, inteligência artificial e computação em larga escala dependeriam muito mais de algoritmos do que de recursos naturais. Essa narrativa, contudo, começa a ruir à medida que a corrida global pela inteligência artificial exige uma expansão sem precedentes da infraestrutura física necessária para sustentar o processamento de dados.

O artigo de Lucas Zinet que foi publicado no Blog da Boitempo oferece uma contribuição importante para compreender esse fenômeno ao propor que os data centers constituem uma nova fronteira do extrativismo latino-americano. A analogia é particularmente pertinente porque revela que a economia digital não elimina a dependência de recursos naturais. Ao contrário, ela cria novas formas de apropriação intensiva de energia, água, terras e infraestrutura pública, frequentemente concentradas em países periféricos que assumem os custos ambientais enquanto capturam apenas uma parcela limitada dos benefícios econômicos.

Essa interpretação merece especial atenção no caso brasileiro. O país reúne exatamente os atributos mais cobiçados pelas grandes empresas globais de tecnologia: disponibilidade crescente de energia renovável, abundância relativa de água doce, extensas áreas para implantação de infraestrutura e uma posição geográfica estratégica para conexões internacionais por cabos submarinos. Não surpreende, portanto, que estados como Ceará, Bahia e Rio Grande do Sul disputem investimentos bilionários para atrair grandes centros de processamento de dados.

O problema reside na natureza dessa disputa. Os governos oferecem incentivos fiscais, infraestrutura energética subsidiada e facilidades regulatórias sob a promessa de geração de empregos e desenvolvimento regional. Entretanto, uma vez concluída a fase de construção, os data centers operam com um contingente relativamente pequeno de trabalhadores altamente especializados. Em outras palavras, trata-se de empreendimentos intensivos em capital, consumo energético e uso de recursos naturais, mas pouco intensivos em emprego.

Essa dinâmica guarda impressionantes semelhanças com outros enclaves de exportação que marcaram a história econômica latino-americana. Minas, monoculturas de exportação, grandes complexos portuários e agora data centers compartilham uma característica fundamental: organizam o território segundo as necessidades das cadeias globais de acumulação, deslocando para as populações locais os custos ambientais e sociais da atividade econômica.

No Brasil, essa lógica já pode ser observada na associação entre grandes projetos portuários, expansão da geração elétrica e instalação de infraestrutura digital. Não se trata apenas da construção de edifícios repletos de servidores, mas da reorganização de sistemas elétricos, redes de transmissão, disponibilidade hídrica e políticas públicas voltadas prioritariamente para atender às demandas das grandes plataformas digitais.

Outro aspecto particularmente relevante consiste no consumo crescente de água e eletricidade. Embora as empresas enfatizem avanços tecnológicos em eficiência energética e sistemas modernos de resfriamento, a expansão simultânea da inteligência artificial faz com que o consumo absoluto continue aumentando. Em regiões já sujeitas à insegurança hídrica ou à pressão sobre os sistemas elétricos, essa demanda adicional pode intensificar conflitos pelo acesso aos recursos naturais.

Há ainda uma dimensão geopolítica frequentemente negligenciada. Os dados tornaram-se um ativo estratégico comparável ao petróleo no século XX. Entretanto, enquanto muitos países latino-americanos fornecem energia, água e território para a instalação dessa infraestrutura, o controle das plataformas, dos algoritmos, da propriedade intelectual e da renda permanece concentrado nas grandes corporações sediadas nos Estados Unidos e na China. Assim, a promessa de inserção na economia digital pode reproduzir uma velha condição periférica: exportam-se recursos naturais e importam-se tecnologias e dependência.

Essa constatação não implica rejeitar a expansão da infraestrutura digital nem ignorar sua importância econômica. O desafio consiste em impedir que a transição para a economia da inteligência artificial repita os mesmos padrões históricos de espoliação que caracterizaram sucessivos ciclos extrativos na América Latina. Isso exige políticas públicas capazes de estabelecer contrapartidas efetivas, assegurar transparência sobre os custos ambientais, proteger os recursos hídricos, garantir tarifas energéticas socialmente justas e ampliar a apropriação local do conhecimento produzido.

O artigo publicado no Blog da Boitempo cumpre um papel importante justamente por deslocar o debate para além do fascínio tecnológico. Os data centers não representam apenas infraestrutura digital. Eles materializam uma nova etapa da disputa global por energia, água, território e soberania tecnológica. Em um momento em que governos disputam investimentos das gigantes da inteligência artificial, torna-se indispensável perguntar quem controlará essa infraestrutura, quem ficará com seus lucros e quem suportará seus custos ambientais e sociais.

Responder a essas perguntas talvez seja uma das tarefas mais urgentes para aqueles que pretendem construir uma economia digital que não reproduza, sob novas formas, as antigas veias abertas do extrativismo latino-americano.

Publicação reúne exemplos de políticas públicas que unem ciência e conservação do oceano

Persistem barreiras na participação de comunidades pesqueiras, ribeirinhas e tradicionais em espaços de decisão.

As políticas públicas são um instrumento essencial para transformar a relação da sociedade brasileira com o oceano – e as evidências científicas participam de todas as etapas de construção dessas políticas, desde a identificação dos problemas que exigem intervenção do Estado até o planejamento e a execução de ações que beneficiem a natureza e a população local. Para que o processo seja inclusivo e eficiente, é fundamental que o poder público assegure, ainda, a participação das comunidades impactadas na tomada de decisões. 

Exemplos dessa dinâmica são o Pagamento por Serviços Ambientais e o seguro-defeso. O primeiro instrumento remunera pessoas e grupos por ações de conservação e recuperação ambiental, incentivando a continuidade de modos de vida sustentáveis, sobretudo entre povos e comunidades tradicionais. Já o segundo é um benefício pago a pescadores durante períodos de restrição à atividade, definidos com base em dados científicos como épocas de desova, padrões de migração e importância ecológica das espécies.

Essa análise integra a publicação “Uma introdução às políticas públicas para o oceano no Brasil”, lançada na quarta (22) por pesquisadores da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano e do Programa de Políticas Públicas do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. O livro explica diferentes tipos de políticas públicas, principais atores envolvidos na sua implementação e exemplos de iniciativas voltadas à proteção do oceano no Brasil.

Segundo a oceanógrafa e pesquisadora Monique Torres Queiroz, uma das organizadoras, trata-se de um material didático pensado inicialmente para aproximar estudantes de graduação e pós-graduação em Oceanografia no Brasil de conceitos sobre gestão marinha. “Embora o curso seja tradicionalmente estruturado em quatro grandes áreas, biologia, física, geologia e química, sentimos falta de conteúdos que expliquem como o oceano e a zona costeira são governados e como as decisões sobre esses ambientes são tomadas”, contextualiza. Ao apresentar essa discussão em uma linguagem simplificada, porém, a equipe avalia que a publicação pode alcançar outros atores interessados no tema – de cientistas a gestores públicos.

Com um litoral de mais de 10 mil quilômetros e muitas atividades econômicas vinculadas ao mar, como turismo, pesca e transporte, o país ainda vê barreiras na participação de comunidades pesqueiras, ribeirinhas e tradicionais em espaços de decisão – ocupados por setores com maior capacidade de organização, recursos e influência, segundo avalia Torres.

Para a pesquisadora, é necessário ampliar o acesso à informação, além de incluir e empoderar esses grupos na implementação das políticas públicas. “São justamente essas populações que convivem diariamente com o ambiente costeiro e acumulam conhecimentos fundamentais para a construção de políticas públicas mais justas e eficazes, porque conhecem as problemáticas e sentem as consequências das políticas tomadas”, observa.

A publicação dialoga com a Década do Oceano, iniciativa da ONU realizada até 2030 para conscientizar a sociedade sobre a contribuição da ciência oceânica nas ações de desenvolvimento sustentável.

Torres explica que as políticas apresentadas no material já contam com participação consolidada da comunidade científica desde o diagnóstico de problemas até a avaliação dos resultados, passando pela elaboração e implementação. “Ainda assim, existe espaço para ampliar a incorporação do conhecimento científico, especialmente por meio de sistemas de monitoramento contínuo, indicadores socioambientais e da integração entre ciência e conhecimentos locais. Quando pesquisadores, gestores e comunidades trabalham de forma articulada, as políticas públicas tendem a ser mais bem fundamentadas e adaptativas”, finaliza a pesquisadora.


Fonte: Agência Bori

A tragédia silenciosa no sistema de saúde brasileiro

A saúde de milhares de brasileiros já não depende apenas de prescrições médicas, mas de decisões judiciais. Em A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista, livro a ser lançado brevemente, o advogado José Octávio Montesanti mostra que, além da própria doença, pacientes enfrentam um segundo sofrimento: a batalha na Justiça para conseguir tratamentos a que já têm direito

(São Paulo, 21/07/2026) – Conseguir uma cirurgia, um medicamento ou um tratamento deveria representar esperança. Para milhares de brasileiros, porém, esse é apenas o começo de mais sofrimento. Depois da primeira fila, no sistema de saúde, vem uma segunda fila: a batalha nos tribunais, onde uma decisão judicial pode definir o acesso ao tratamento prescrito pelo médico.

Essa realidade é o ponto de partida de A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista, livro do advogado José Octávio Montesanti, especialista em Direito da Saúde, que será lançado brevemente pela Editora Appris. Ao longo de treze capítulos, o autor sustenta uma tese contundente: a judicialização não é a causa da crise da saúde brasileira. É o sintoma mais evidente de um sistema que, cada vez mais, deixa de responder às necessidades da população.

“A saúde é um direito fundamental garantido pela Constituição. Ainda assim, milhões de brasileiros são obrigados a recorrer ao Poder Judiciário para conseguir consultas, medicamentos, cirurgias e tratamentos que deveriam estar disponíveis pelo SUS ou pelos planos de saúde”, afirma Montesanti.

Para o autor, cada ação judicial representa muito mais que um processo. Representa uma pessoa que não encontrou resposta no sistema de saúde. São pacientes que aguardam meses por uma cirurgia, famílias que enfrentam negativas de cobertura, pessoas obrigadas a interromper tratamentos ou recorrer a empréstimos para custear medicamentos enquanto aguardam uma decisão judicial.

O livro reúne dados que ajudam a dimensionar essa realidade. Atualmente, cerca de 160 milhões de brasileiros dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde, que enfrenta escassez de recursos, longas filas e dificuldades operacionais. Em pelo menos 16 Estados e no Distrito Federal, aproximadamente 500 mil pessoas aguardam por cirurgias eletivas, enquanto o prazo médio para uma consulta especializada chega a 50 dias.

Ao mesmo tempo, mais de 52 milhões de brasileiros mantêm planos de saúde privados na expectativa de obter atendimento mais rápido e maior segurança assistencial. Entretanto, o livro mostra que a realidade também preocupa na saúde suplementar. Em 2024, as operadoras registraram lucro líquido superior a R$ 10 bilhões, crescimento de 429% em relação ao ano anterior. No mesmo período, aproximadamente 300 mil ações judiciais foram movidas contra planos de saúde em razão de negativas de atendimento, cobertura ou procedimentos.

Para Montesanti, além de priorizar o lucro em detrimento da saúde de seus segurados, “as seguradoras cometem fraude ao classificar como planos coletivos, em vez de familiares, empresas com poucos participantes da mesma família”.

Para ele, esse contraste sintetiza uma das maiores contradições do sistema: “Quando milhares de pacientes precisam recorrer à Justiça para conseguir tratamentos garantidos por lei ou por contrato, o problema deixou de ser jurídico. Passou a ser uma questão de saúde pública.”

Ao longo da obra, o autor procura mostrar que a judicialização não pode ser compreendida apenas pela ótica do Direito. Ela revela um conjunto de falhas estruturais que envolve o SUS, operadoras de planos de saúde, órgãos reguladores, hospitais e políticas públicas.

Entre os temas abordados estão as negativas de cobertura para tratamentos oncológicos, medicamentos de alto custo, exames, internações e procedimentos cirúrgicos; a utilização de planos coletivos como alternativa para impor reajustes elevados; o impacto da judicialização sobre a gestão do SUS; o crescimento das ações por erro médico; e a necessidade de reformas capazes de reduzir os conflitos entre pacientes, operadoras e poder público.

Outro tema que recebe destaque é o aumento expressivo dos processos por erro médico. Segundo dados citados pelo autor, as ações judiciais cresceram 506%, revelando uma combinação preocupante de sobrecarga dos serviços, escassez de profissionais, falhas assistenciais e maior conscientização da população sobre seus direitos.

Mais do que analisar decisões judiciais, A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista convida a sociedade a refletir sobre um sistema que obriga pacientes a percorrer um caminho cada vez mais longo entre o diagnóstico e o tratamento. Um percurso que começa no consultório médico, passa pelas filas do sistema de saúde e, muitas vezes, termina nos tribunais.

Sobre o autor

José Octávio Montesanti é advogado, fundador do escritório Moraes Montesanti Advogados Associados e atua na advocacia há mais de seis décadas. Doutor e professor aposentado de Direito Comercial, construiu uma sólida trajetória nas áreas Empresarial, Civil, Comercial, Tributária e, mais recentemente, Direito da Saúde. Também é autor do livro Rumo aos 120 Anos de Idade (ou mais), dedicado aos temas da saúde e da longevidade. Em A Judicialização da Saúde – Um Caos à Vista, reúne a experiência acumulada ao longo de décadas de atuação profissional para analisar um dos fenômenos mais relevantes e desafiadores da saúde brasileira.

Quando a inteligência artificial encontra resistência: a revolta popular contra os data centers chega ao coração dos EUA

Durante muito tempo, as grandes empresas de tecnologia conseguiram vender a expansão da inteligência artificial como um processo inevitável, sinônimo de progresso, inovação e desenvolvimento econômico. Entretanto, uma reportagem de Pamela Ferdinand, publicada pelo The New Lede, mostra que essa narrativa começa a encontrar um obstáculo inesperado: a resistência organizada das populações locais que serão obrigadas a conviver com a infraestrutura física necessária para sustentar a chamada revolução da IA.

O caso descrito na reportagem ocorre no estado do Kansas, onde moradores passaram a questionar a instalação de enormes centros de processamento de dados (data centers) destinados principalmente ao treinamento e funcionamento de sistemas de inteligência artificial. Embora frequentemente apresentados como empreendimentos de alta tecnologia e baixo impacto ambiental, esses complexos exigem enormes quantidades de eletricidade e água, além de provocar ruído permanente, ocupar extensas áreas de terra e demandar novas linhas de transmissão elétrica. O que parecia uma infraestrutura invisível revela, na prática, uma pesada pegada territorial.

O aspecto mais interessante da reportagem talvez seja mostrar que a oposição não decorre de um movimento ideológico tradicional. Agricultores, moradores rurais, conservadores, ambientalistas e representantes de diferentes espectros políticos começam a compartilhar preocupações semelhantes. A questão deixa de ser simplesmente tecnológica para assumir uma dimensão profundamente territorial: quem suporta os custos ambientais e sociais da economia digital?

Esse fenômeno merece atenção especial no Brasil. Existe uma tendência recorrente de imaginar que a economia digital ocupa apenas o “mundo virtual”. Na realidade, a inteligência artificial depende de uma infraestrutura extremamente material: minas para extração de minerais estratégicos, fábricas de semicondutores, grandes sistemas de geração elétrica, redes de transmissão, cabos submarinos e gigantescos centros de dados funcionando ininterruptamente. Em outras palavras, o aparente caráter imaterial da IA repousa sobre uma base física que consome recursos naturais em escala crescente.

É justamente essa materialidade que começa a alimentar conflitos socioambientais. Nos Estados Unidos, comunidades locais passaram a perguntar por que deveriam aceitar aumentos na demanda por energia, maior consumo de água e alterações na paisagem para atender empresas globais cujos lucros dificilmente permanecerão no território. A promessa de geração de empregos também perde força quando se observa que, após a fase de construção, os data centers operam com um número relativamente reduzido de trabalhadores altamente especializados.

Essa situação lembra, em muitos aspectos, os conflitos provocados por grandes projetos extrativos e de infraestrutura observados há décadas em diferentes partes do mundo. Muda a mercadoria, muda a tecnologia, mas permanece a mesma lógica de concentração dos benefícios econômicos e distribuição desigual dos custos ambientais. Em vez de minas de carvão ou grandes barragens, surgem agora verdadeiras “fábricas digitais” cujo funcionamento depende de um fluxo contínuo de energia, água e capital.

Não por acaso, a resistência também cresce rapidamente em outros estados norte-americanos. Protestos simultâneos ocorreram recentemente em dezenas de estados, enquanto diversos projetos foram suspensos, adiados ou rejeitados por governos locais em razão da pressão popular. A expansão da infraestrutura da inteligência artificial começa, assim, a enfrentar um problema que seus promotores não anteciparam: a perda de sua licença social para operar.

No Brasil, esse debate ainda engatinha. Entretanto, seria um erro imaginar que permaneceremos à margem dessa corrida global. A crescente demanda por eletricidade, água e minerais estratégicos tende a ampliar a pressão sobre nossos sistemas ambientais, especialmente em regiões já marcadas pela expansão do agronegócio, da mineração e dos grandes projetos energéticos. Se nada mudar, a inteligência artificial poderá acrescentar uma nova camada à já extensa lista de conflitos territoriais produzidos pelo capitalismo contemporâneo.

Talvez a principal contribuição da reportagem de Pamela Ferdinand seja justamente desfazer uma ilusão bastante difundida: a de que a inteligência artificial habita apenas a nuvem. Na realidade, essa “nuvem” possui endereço, ocupa território, consome recursos naturais e produz impactos ambientais concretos. E, como demonstra o caso do Kansas, as comunidades diretamente afetadas começam a dizer que não pretendem pagar essa conta em silêncio.

Super El Niño, austeridade fiscal e a produção política da próxima tragédia climática

Projeções indicam que um Super El Niño poderá intensificar secas, incêndios, enchentes e deslizamentos no Brasil, enquanto a austeridade fiscal mantém a prevenção e a adaptação climática subordinadas ao pagamento da dívida e expõe a população trabalhadora a novas tragédias anunciadas

Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.

Por Marcos Pedlowski para “Jornal Nova Democracia”

A comunidade científica com crescente preocupação a evolução do atual ciclo do El Niño. As projeções elaboradas por diferentes centros internacionais de monitoramento climático, entre eles a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam que o aquecimento das águas do Pacífico poderá alcançar intensidade muito forte durante a primavera de 2026. Ao mesmo tempo, o Atlântico Sul continua registrando temperaturas excepcionalmente elevadas, criando uma combinação capaz de alterar profundamente os padrões atmosféricos sobre a América do Sul.

O Brasil ocupa uma posição particularmente vulnerável diante desse cenário. A interação entre um Super El Niño e um Atlântico Sul excepcionalmente aquecido deverá ampliar os contrastes climáticos em praticamente todo o território nacional. A Amazônia, parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderão enfrentar secas prolongadas, ondas de calor mais intensas, redução da disponibilidade hídrica e uma explosão no número de incêndios florestais. O Sul e parte do Sudeste, por sua vez, poderão registrar episódios extremos de precipitação, enchentes de grandes proporções e deslizamentos de encostas. Essa combinação também deverá comprometer a produção agrícola, reduzir a capacidade de geração hidrelétrica, pressionar os sistemas de abastecimento de água e acelerar a degradação de ecossistemas que já sofrem os efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas. Nenhum desses fenômenos constitui uma surpresa. A comunidade científica vem alertando há meses para essa possibilidade, enquanto os modelos climáticos refinam continuamente as projeções.

A verdadeira questão, portanto, não reside na existência ou não de avisos prévios. O problema reside na capacidade — ou, mais precisamente, na incapacidade — do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas capazes de proteger a população antes que a próxima emergência climática se instale. O Rio Grande do Sul oferece o exemplo mais dramático dessa incapacidade. As enchentes de 2024 destruíram cidades inteiras, desalojaram centenas de milhares de pessoas, interromperam cadeias produtivas, devastaram a infraestrutura estadual e deixaram marcas profundas na memória coletiva do país. A tragédia expôs o elevado grau de vulnerabilidade construído ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, de insuficiência dos investimentos públicos e de sucessivos adiamentos das obras de prevenção. As projeções atuais indicam que o estado poderá voltar a ocupar o centro da crise climática brasileira.

Essa situação revela um problema muito mais profundo do que uma simples demora administrativa, e revela uma forma de governar que reage aos desastres depois que eles já produziram destruição e mortes. Os governantes anunciam planos de reconstrução, liberam recursos emergenciais e organizam solenidades para apresentar novas iniciativas. Entretanto, eles raramente transformam essas respostas emergenciais em políticas permanentes de adaptação climática. O resultado dessa lógica aparece diante de nossos olhos: cada tragédia encerra seu ciclo sem produzir as transformações estruturais necessárias para impedir a seguinte.

No plano federal, o governo do presidente Luís Inácio reconhece formalmente a gravidade da emergência climática. A atual administração elaborou planos nacionais de adaptação, incorporou o tema ao planejamento estatal e ampliou o discurso oficial sobre sustentabilidade. Essas iniciativas possuem importância política e técnica, mas elas não alteram o principal problema enfrentado pelo país. Por outro lado, o presente governo optou por preservar a lógica central do ajuste fiscal ao substituir o antigo teto de gastos pelo novo arcabouço fiscal. Essa opção mantém a adaptação climática, a defesa civil, e a infraestrutura urbana dentro da mesma disputa orçamentária que caracteriza as políticas neoliberais adotadas nas últimas décadas. Assim sendo, o problema ultrapassa a simples existência de limites fiscais, e a questão central envolve a disputa pelo fundo público. Como resultado, o orçamento federal continua destinando centenas de bilhões de reais ao pagamento de juros e demais despesas financeiras associadas à dívida pública, enquanto trata os investimentos destinados à adaptação climática como despesas sujeitas a contingenciamentos, cortes e negociações.

Assim, quando a emergência finalmente chega, os governos recorrem aos créditos extraordinários, mobilizam operações de socorro e anunciam programas de reconstrução. Esse ciclo se repete há décadas porque a política econômica prefere financiar a resposta ao desastre em vez de investir sistematicamente na prevenção. Mais grave ainda, essa lógica distribui os riscos de maneira profundamente desigual. O capital financeiro permanece protegido pelas prioridades orçamentárias do Estado, enquanto a população trabalhadora permanece exposta às enchentes, aos deslizamentos, às ondas de calor, aos incêndios florestais e às sucessivas interrupções dos serviços públicos essenciais. A crise climática não produz essa desigualdade. O capitalismo brasileiro produz essa desigualdade. A crise climática apenas amplia suas consequências e torna mais visíveis as escolhas políticas que historicamente privilegiaram a acumulação privada em detrimento da proteção coletiva.

A distribuição desigual dos riscos climáticos revela outra característica fundamental da sociedade brasileira. As classes dominantes dispõem de recursos para reduzir sua exposição aos eventos extremos. Elas vivem em bairros dotados de melhor infraestrutura, contratam seguros privados, possuem acesso mais rápido aos serviços de saúde e, quando necessário, conseguem abandonar temporariamente as áreas atingidas. A classe trabalhadora enfrenta uma realidade completamente diferente, já que milhões de brasileiros vivem em periferias urbanas, encostas, margens de rios e áreas de ocupação precária onde o Estado nunca garantiu infraestrutura adequada, drenagem eficiente, saneamento básico ou políticas habitacionais compatíveis com a dimensão do problema. É por causa disso que quando chegam as enchentes, os deslizamentos, as ondas de calor ou os incêndios florestais, os trabalhadores pagam o preço de décadas de abandono das políticas públicas.

O professor Rob Nixon oferece uma chave importante para compreender esse processo em seu livro Violência lenta e o ambientalismo dos pobres. Nixon critica a falsa dicotomia entre desastres naturais e desastres humanos. Segundo ele, um furacão, uma inundação ou uma seca podem resultar de processos naturais, mas o número de mortos, de desabrigados e de perdas materiais depende fundamentalmente das decisões políticas tomadas antes da chegada do evento extremo. Governos que investem em prevenção, fortalecem a defesa civil, organizam sistemas de alerta, constroem infraestrutura resiliente e elaboram planos eficientes de evacuação reduzem significativamente os impactos sociais desses fenômenos. Já governos que negligenciam essas medidas transformam eventos climáticos previsíveis em tragédias humanas primeiro, e depois em oportunidades econômicas para os seus aliados.

O problema ultrapassa, portanto, a esfera de eventos meteorológicos. O Brasil não enfrenta apenas uma emergência climática. A verdade é que o nosso país enfrenta uma crise política produzida pela permanência de um modelo econômico que privatiza os ganhos do crescimento e socializa seus prejuízos ambientais. A lógica neoliberal não reduz apenas investimentos públicos, mas também redefine as prioridades do Estado, desloca recursos para a esfera financeira, enfraquece sua capacidade de planejamento e transforma a proteção da vida em uma variável subordinada às exigências do mercado.

A questão central, portanto, não consiste apenas em acompanhar os próximos boletins meteorológicos ou esperar que o governo anuncie novas medidas emergenciais. A sociedade brasileira precisa construir, desde já, uma ampla mobilização para enfrentar um cenário que a comunidade científica vem anunciando há meses. A população, os sindicatos, os movimentos sociais, as organizações populares, as universidades, as entidades científicas e os coletivos ambientais precisam pressionar os governos federal, estaduais e municipais para fortalecer a defesa civil, ampliar os sistemas de monitoramento e alerta, recuperar infraestruturas críticas, reconstruir plenamente os sistemas de proteção contra cheias, preparar os serviços públicos e direcionar recursos aos territórios mais vulneráveis. Essa pressão também precisa exigir o abandono da lógica de austeridade fiscal sempre que ela impedir investimentos indispensáveis para proteger vidas humanas.

O calendário climático já começou a impor seus prazos. Cada semana desperdiçada reduz a capacidade de resposta do Estado e amplia os riscos enfrentados pela população trabalhadora. O Brasil dispõe de pouco tempo para reduzir os impactos do que poderá ser um dos episódios climáticos mais severos de sua história recente, e esse tempo escasso não permite hesitações nem falsas prioridades. Desta forma, somente uma mobilização social ampla poderá impedir que um fenômeno climático amplamente previsto pela ciência se transforme, mais uma vez, em uma tragédia social produzida por escolhas políticas. Essa mobilização social precisa começar agora, antes que as primeiras chuvas ou os primeiros meses de seca extrema tornem irreversível aquilo que ainda pode ser evitado. 


Fonte: Jornal Nova Democracia

Estudante de medicina no Nepal está por trás de uma movimentada fábrica de artigos

Por Retraction Watch

Um estudante de medicina do segundo ano no Nepal está no centro de uma rede internacional de pesquisa que produz de tudo, desde revisões sistemáticas e meta-análises até relatos de casos e estudos de banco de dados, conforme apurado pelo Retraction Watch.

O estudante Raghabendra Kumar Mahato utiliza essa rede, que inclui quase mil membros conectados pelo WhatsApp, para produzir um grande número de resumos para conferências e artigos científicos em ritmo acelerado, de acordo com publicações e mensagens que analisamos. Seu trabalho foi apresentado ou aceito para apresentação em conferências organizadas pela American Heart Association (AHA), pela European Society for Medical Oncology (ESMO) e por muitas outras sociedades médicas, e foi publicado em periódicos de importantes editoras.

Mas uma análise de dezenas de mensagens do WhatsApp que obtivemos e uma entrevista com um membro desiludido da comunidade, chamada de “Consórcio Global de Pesquisa Clínica”, sugerem que a rede produz ciência de forma acelerada , inclui um conhecido produtor de papel e trata a autoria como uma mercadoria negociável.

“Temos estudos de alta qualidade de revisões sistemáticas e meta-análises (SRMA) e de bancos de dados do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) prontos para submissão”, escreveu Mahato em uma mensagem recente sobre o Simpósio de Qualidade em Cuidados da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que acontecerá em Boston neste outono. “Buscamos pessoas interessadas em participar como coautoras e, de preferência, apresentar os resumos aceitos.”

As conferências geralmente exigem a apresentação presencial de resumos, mas os custos de inscrição e viagem podem ser proibitivos para muitos no Sul Global, assim como as taxas de publicação em periódicos. Os materiais que obtivemos mostram que Mahato negociava a autoria com pessoas dispostas a apresentar a pesquisa da rede e arcar com as despesas associadas.

“É possível você apresentar-se fisicamente nos EUA?”, perguntou Mahato, dono da comunidade do WhatsApp, a um membro da rede em uma mensagem no início deste ano. Após receber uma resposta afirmativa, Mahato respondeu que, em troca, “Podemos oferecer a você os direitos autorais da nossa parte”.

Representantes da AHA e da ESMO confirmaram que vários resumos coescritos por Mahato foram aceitos para suas próximas conferências e, após nossa consulta, irão analisá-los mais detalhadamente.

Outras mensagens para a comunidade incluíram chamadas “urgentes” para apresentadores e colaboradores de conferências, solicitando resumos prontos para submissão, e em um caso, até mesmo um “artigo já aceito”. Mahato observou que pesquisadores “que desejam apresentar seus próprios trabalhos também são bem-vindos”. Em uma mensagem, ele prometeu “autoria garantida” para colaboradores que obtivessem isenção da taxa de publicação pelas editoras MDPI ou Frontiers.

Em um e-mail enviado para nós, Mahato, que já possui mais de 100 publicações em seu nome, negou que “a autoria seja trocada unicamente em troca de apresentação em conferências”.

Raghabendra Kumar Mahato

Ele afirmou que os apresentadores foram identificados com antecedência para “muitos projetos baseados em conferências” e que se esperava que eles “fizessem contribuições acadêmicas significativas”, como “revisar as diretrizes de submissão de trabalhos para conferências”, “analisar criticamente o conteúdo científico preparado por colaboradores” e “participar da curadoria de dados, quando apropriado”.

Não há indícios, no material que obtivemos, de que Mahato venda direitos autorais em troca de dinheiro. Ele rejeitou a caracterização de sua organização como uma fábrica de artigos científicos, acrescentando: “Nosso objetivo é facilitar a pesquisa acadêmica colaborativa envolvendo colaboradores com diferentes áreas de especialização.”

O Consórcio Global de Pesquisa Clínica pertence a um crescente setor de empresas e organizações que atendem estudantes de medicina e médicos recém-formados pressionados a publicar , muitas vezes na esperança de conseguir residências prestigiosas nos EUA. Algumas dessas organizações cobram por seus serviços , que podem ou não incluir algum tipo de treinamento em pesquisa, enquanto outras afirmam que não . Todas elas visam o mesmo objetivo: ajudar clientes ou membros a turbinar seus currículos.

Iniciativas como essas podem criar uma desconexão entre a autoria e a publicação e o propósito fundamental da pesquisa, afirmou Martina Linnenluecke, diretora do Centro de Risco Climático e Resiliência da Universidade de Tecnologia de Sydney. “O objetivo principal da pesquisa não deve ser simplesmente garantir a aceitação em uma conferência ou periódico para fins de carreira, mas sim responder a uma questão de pesquisa relevante por meio de análises rigorosas”, disse Linnenluecke, coautora do artigo de 2025 intitulado “A descaracterização da pesquisa”.

A organização de Mahato atua em diversas especialidades médicas, incluindo neurologia, cardiologia, pediatria e oncologia. Um de seus pontos fortes, segundo o material publicitário, é “Transformar Ideias em Publicações de Alto Impacto”. Com base nas postagens de Mahato no LinkedIn e em mensagens do WhatsApp, mais de 70 de seus resumos para conferências parecem ter sido aceitos para apresentação, e ele já submeteu, ou planeja submeter, dezenas de outros. Ele também possui mais de uma dezena de estudos completos e relatos de casos em periódicos como o Clinical Cardiology e o Clinical Case Reports, da Wiley, e o Journal of Cardiothoracic Surgery e o BMC Neurology , da Springer Nature .

Assim como outras organizações do mesmo tipo, o Consórcio Global de Pesquisa Clínica produz estudos que podem ser realizados em frente a um computador, como análises de conjuntos de dados abertos. Um recente aumento na ciência aberta sugere que os esforços estão sendo sentidos no nível das revistas científicas. Em particular, um preprint de janeiro constatou um crescimento exponencial nas publicações baseadas no banco de dados WONDER do CDC, com uma proporção crescente de autores do Paquistão e, em menor grau, da Índia. De acordo com o preprint, a maioria dos artigos apresentava indícios de “ter sido produzida a partir de um modelo, com títulos padronizados e métodos idênticos”.

A rede de contatos de Mahato pode ser uma fonte dessas publicações. A maioria de seus coautores está no Paquistão . Seu grupo de WhatsApp também é dominado por números paquistaneses, embora centenas sejam de outros países, incluindo Índia, Egito, Nigéria, Estados Unidos, Reino Unido, Geórgia, Peru e Coreia do Sul.

Até o momento, Mahato publicou um estudo do CDC WONDER com coautores no Paquistão e carregou mais dois em servidores de pré-impressão. Outros podem seguir. Em uma mensagem de WhatsApp deste verão, Mahato escreveu que precisava de “5 pessoas que possam escrever artigos para o CDC todo o trabalho já está feito, só preciso da redação e que consigam concluir um artigo para o CDC em 4 dias!”

Uma mensagem no WhatsApp indicava que “mais de 10 resumos” do grupo haviam sido aceitos para o encontro da ESMO de 2026.

Em sua página no LinkedIn, Mahato escreveu que “mais de 11 resumos de nossas pesquisas foram aceitos para apresentação” no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica de 2026, em outubro, e que cinco resumos foram aceitos pelas Sessões Científicas de Ciências Cardiovasculares Básicas da Associação Americana do Coração, que ocorreram de 13 a 16 de julho. 

Vanessa Pavinato, chefe de comunicação da ESMO, disse-nos que a sociedade não tinha conhecimento de quaisquer práticas questionáveis ​​por parte de Mahato ou da sua rede. Os responsáveis ​​da ESMO conseguiram encontrar sete resumos aceites com a coautoria de Mahato, principalmente ePosters, informou-nos Pavinato. A sociedade está agora a analisar os trabalhos submetidos, acrescentou.  

“Iniciamos imediatamente uma investigação interna, com base nas informações que você gentilmente compartilhou”, disse ela. “Levará algum tempo, porém, para chegarmos ao fundo da questão.”

Da mesma forma, um porta-voz da AHA confirmou que Mahato teve cinco resumos aceitos para a conferência recente da organização. “Como parte de nossa análise quando alegações são apresentadas, trabalharemos com nossos líderes voluntários para identificar a melhor ação para cada caso e/ou resumo”, disse o porta-voz. “Essa etapa está em andamento.”

Uma imagem enviada pelo WhatsApp solicitou que apresentadores e coautores enviassem resumos para a recente sessão científica da AHA.

Em larga escala, disse Linnenluecke, “práticas destinadas a garantir vagas em conferências ou a publicar artigos em periódicos exercem uma pressão significativa sobre os sistemas de revisão e de conferências, que já estão sobrecarregados, e contribuem para o crescente volume de pesquisas mal verificadas, o que torna muito mais difícil identificar resultados confiáveis”.

Omembro desiludido da rede que entrevistamos, Anit Sinha, forneceu mais detalhes sobre o funcionamento interno da rede. Sinha se formou recentemente na Faculdade de Medicina de Gandaki, em Pokhara, Nepal – a mesma faculdade que Mahato frequenta atualmente – e está se preparando para a residência. Ele se juntou à rede de Mahato para turbinar seu currículo, mas diz que começou a suspeitar de suas práticas depois de começar a trabalhar em um artigo de revisão em “um dos subgrupos”.

Após ver um esboço do manuscrito em tópicos, que parecia ter sido gerado por IA, Sinha disse que ele e outros sete membros da rede escolheram uma seção cada um para escrever “sob a direção de um administrador associado” cujo nome de usuário no WhatsApp era “SB”. 

“Nenhum dos administradores (incluindo Raghabendra Kumar Mahato) escreveu qualquer seção”, disse-nos Sinha. “O feedback deles consistiu inteiramente em instruções de formatação. Quando pedi feedback substancial sobre o conteúdo, não recebi nenhum.”

O número SB pertence a Shreya Singh Beniwal , uma médica empreendedora e conhecida empresária do ramo de papel na Índia. Beniwal foi a primeira autora de um artigo questionável anunciado para venda pela extinta iTrilon , como relatamos em 2024 em uma investigação para a revista Science . Descobrimos posteriormente que  ela também administrava uma organização no WhatsApp que vendia cotas de autoria em artigos científicos.

Beniwal, que continua a publicar amplamente , disse-nos que “não tinha conhecimento do grupo de WhatsApp [de Mahato] nem de nenhum dos seus subgrupos” e que “não conhecia nenhum dos administradores ou membros ativos dessa comunidade”. Ela pode ter sido “adicionada ao grupo por outra pessoa ou pode ter entrado por meio de um link compartilhado sem intenção”. 

Mas as capturas de tela que analisamos mostram que Beniwal era administradora de um subgrupo chamado “Novo tópico de Cardiologia”, juntamente com Mahato e outra pessoa na Índia. Ela gerenciava o trabalho do grupo em várias seções de um manuscrito sobre doenças cardíacas e frequentemente usava um tom autoritário com outros membros, incluindo Mahato. “Termine até o final da tarde”, disse ela a Mahato em certo momento. “Claro, me dê um tempinho”, ele respondeu. O proprietário do manuscrito no Google Docs era um e-mail que ela usou em vários artigos recentes.

Em 4 de junho, Beniwal perguntou ao subgrupo se alguém estava “interessado em juntar resumos conosco no 6º prazo da AHA, então estamos submetendo mais alguns tópicos”. E em 19 de julho, quatro dias depois de a contatarmos, ela anunciou em um subgrupo chamado “Comunidade de Projetos em Andamento 6” que começaria “apenas 3 a 4 tópicos este mês” devido a restrições de tempo, e que essas colaborações seriam “projetos acelerados”. 

Após entrarmos em contato com ela, o nome de usuário do WhatsApp de Beniwal mudou de “SB” para um asterisco, mas ela permaneceu no grupo de Mahato. Outro número no grupo também pertence a Beniwal.

Mahato, que figura como autor correspondente em quase todos os seus artigos, disse-nos que seu “papel vai muito além da gestão da comunicação” entre os membros da rede.

“Participo do planejamento de projetos, da coordenação de colaboradores, da redação de manuscritos, da edição científica, da integração de contribuições de múltiplos autores, da organização de revisões, da garantia da consistência em todo o manuscrito, do gerenciamento de submissões, da correspondência com editores, da resposta a comentários de revisores quando aplicável e da coordenação de projetos até a sua conclusão”, disse ele.

Mahato começou a publicar no ano passado, pouco depois de ingressar na faculdade de medicina em dezembro de 2024. Desde então, sua carreira de pesquisa tem sido meteórica. De acordo com seu perfil no Google Acadêmico , ele já acumulou quase 120 publicações – incluindo um resumo na revista Neurology, do qual Beniwal também é autor. O resumo afirma que os autores fizeram uma “análise comparativa retrospectiva de dados de ensaios clínicos e de extensão de estudo aberto”, mas simplesmente repete dados já publicados , como apontou Sinha. “Eles sequer fizeram uma análise independente”, disse ele.

Postagens em seu perfil no LinkedIn mostram que Mahato é revisor de vários periódicos de grandes editoras, incluindo o International Journal of Surgery , Annals of Medicine and Surgery e o International Journal of Surgery Case Reports , todos pertencentes a um problemático conjunto de títulos da Wolters Kluwer . E em breve, ele disse a Sinha em uma troca de mensagens pelo WhatsApp, ele se juntará ao conselho editorial de um periódico; ele não especificou qual.

A maioria das primeiras publicações de Mahato são comentários, mas recentemente ele adicionou várias revisões sistemáticas, estudos de banco de dados e relatos de casos à sua bibliografia. Seus numerosos resumos de congressos começaram a aparecer recentemente em suplementos de periódicos científicos.

Em vários de seus artigos, Mahato aparece com a sigla “MBBS” anexada ao seu nome, sugerindo que ele já havia obtido seu diploma de medicina. Alguns artigos também afirmam que ele fornecia “supervisão acadêmica sênior”. Mahato nos disse que o sufixo deveria indicar seu “programa de estudos acadêmicos” e “nunca teve a intenção de deturpar meu status acadêmico”.

Sinha afirmou que o comportamento antiético é “bastante comum” entre estudantes e pesquisadores no Nepal, “mas não na escala em que Raghabendra Mahato está operando”.

Com informações adicionais de Alicia Gallegos e Kate Travis.


Fonte:  Retraction Watch