Dançando enquanto o colapso não vem: Hegemonia do modelo agroquímico mineral causa atraso na adaptação climática no Brasil

Solidariedade real e radical entre os povos para enfrentar o colapso  climático - Brasil de Fato

As últimas semanas têm sido marcadas pela ocorrência de eventos tão extremos como díspares. As cenas de grandes tempestades, grandes oscilações de temperatura, e destruição de bens e propriedades têm ocupado parcelas cada vez mais maiores dos noticiários. Somado à confirmação de um novo normal climático, o que se vê é a discrepância já existente na capacidade de adaptação a essa situação, com países do capitalismo dependente ficando cada vez mais para trás na aplicação de medidas que representem algum tipo de esforço de preparação para as situações extremas que estão se tornando cada vez mais frequentes.

Um aspecto que sempre é negligenciado é que não falta ciência e cientistas para informar melhor a tomada de decisões. Uma voz que alerta frequentemente para os problemas climáticos é o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo, que sendo um dos maiores experts em mudanças climáticas no Brasil sempre se manifesta sobre a necessidade de preparar nossas cidades para o novo normal climático. Um dos elementos que Artaxo destaca é o fato de que a adaptação terá de ser ajustada localmente, na medida em que os extremos climáticos se manifestarão de forma diferenciada, dependendo de fatores locacionais.  Em outras palavras, não haverá uma receita única para o processo de adaptação.

Como venho me interessando há algum tempo pela questão da adaptação climática ao nível das cidades, usando a cidade de Campos dos Goytacazes como ponto privilegiado de observação, o que posso dizer é que ainda não há o mínimo interesse por partes dos governantes em discutir seriamente a necessidade de preparação para o aprofundamento dos problemas associados ao clima.  Em Campos dos Goytacazes, inexistem medidas de mudança na paisagem urbana. Aliás, pelo contrário. O que se tem é a persistência de práticas de remoção da parca vegetação urbana existente, como ficou claro recentemente com a remoção de dezenas de árvores de grande porte, apenas para tornar a marca de um supermercado mais visível. Além disso, não temos ainda nenhuma medida para ajustar materiais de construção que possam ser mais afeitos aos extremos de temperatura que estão se tornando uma das marcas do padrão climático.  Para colar a cereja no bolo, ainda inexiste orçamento para instalar as estruturas que deveriam apoiar e viabilizar as decisões de governo em momentos de ocorrência de eventos meteorológicos extremos.

O problema é que Campos dos Goytacazes não é uma exceção insólita, mas uma espécie de vanguarda do atraso. A verdade é que a maioria, senão a totalidade, das cidades brasileiras não deu ainda os passos iniciais para a adaptação climática que poderia evitar o colapso das cidades com locais viáveis para a existência humana.  Um dos fatos essenciais para isso é a hegemonia das forças políticas que controlam e se beneficiam do modelo agroquímico e mineral que ditam os investimentos públicos no Brasil. Essas forças determinam grandes investimentos na produção de commodities agrícolas e minerais de exportação, bem como a instalação de infraestruturas de escoamento (chamam isso de logística) do que é produzido a partir deste modelo. E nunca é demais dizer que esse modelo contribui diretamente para a crise climática, o que explica porque a hegemonia desse modelo inibe qualquer discussão séria sobre adaptação. 

Como é a classe trabalhadora quem sofre e sofrerá cada vez mais os efeitos da crise climática, já que seus membros estarão expostos a um agravamento das temperaturas enquanto trabalham e terão de voltar para locais de moradia que serão os mais atingidos pelos extremos meteorológicos, é necessário colocar essa discussão no centro do debate político. No caso brasileiro, me parece evidente que não serão as forças políticas que apoiam o modelo agroquímico e mineral que farão isso. Esta tarefa terá que ser abraçada pelos segmentos de esquerda que não se limitam a gerenciar o capitalismo dentro dos limites aceitos por quem realmente controla o status quo agroquímico mineral.  O problema é se essas forças de esquerda vão acordar antes que o colapso se torne inevitável.

Aqui um um aviso é importante: o tempo para a tomada de posições está se esgotando.

Porto do Açu: depois da grilagem de terras públicas, agora é a vez do aquífero Emboré

Concessão de água e terras levanta suspeitas e questionamentos legais

Denúncia aponta grilagem de terras públicas e exploração do aquífero Emboré no Porto do Açu, enquanto moradores ficam sem água / Foto: Reprodução 

Por Redação Ururau

Publicamos (Aqui!) uma denúncia sobre a grilagem de terras públicas no Porto do Açu, com vantagem indevida recebida por Sérgio Cabral quando foi governador do Estado do Rio de Janeiro. Os proprietários rurais jamais receberam as indenizações devidas, em meio a um constante troca-troca de peritos judiciais. Muitos processos sequer possuem sentença. Tudo caminha em direção ao favorecimento escandaloso dos interesses do Porto do Açu.

Como uma cidade do porte e da importância de São João da Barra está há mais de 200 dias sem juiz titular? Além disso, não há servidores suficientes do Tribunal de Justiça atuando na comarca. Mesmo assim, o Porto do Açu vendeu quase todas as áreas, sob o argumento de cessão de direitos de superfície. Até fundos de pensão da Faria Lima, investigados na Operação Carbono Oculto, aparecem como donos das terras.

Agora surge uma nova empresa, chamada “Águas do Porto do Açu” (Falamos da exploração do Aquífero Emboré (Aqui!). Essa empresa recebeu do Instituto Estadual do Ambiente (INEA) uma concessão para explorar águas subterrâneas do aquífero Emboré. A partir daí, passou a vender água para todas as empresas já instaladas ou que venham a se instalar no Porto, embora a concessionária oficial de abastecimento em São João da Barra e na localidade do Açu seja a CEDAE.

Quem, dentro do INEA, assinou essa concessão? Inicialmente, foram perfurados 44 poços com profundidade superior a 200 metros. Não há fiscalização. O que a diretoria da CEDAE está fazendo que não reivindicou essa exploração, já que a concessão do serviço é da própria CEDAE?

Enquanto isso, a cidade de São João da Barra e o balneário de Atafona ficaram sem água nesta semana. Nesses locais, sequer é permitido abrir poços, por determinação do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. É a chamada república do Leblon mandando em tudo.

No caso do Porto do Açu, ninguém sabe ao certo quem é o verdadeiro dono após a saída de Eike Batista. Alguns CPFs aparecem formalmente, mas o controlador real permanece desconhecido.

E quem pensa que a história termina aí está enganado. A empresa Águas do Porto do Açu vendeu o controle do negócio para a Ambipar, que, por sua vez, encontra-se em recuperação judicial. O advogado da empresa é filho de um influente ministro do STJ. Esse mesmo escritório teria ligações com um perito do Rio de Janeiro conhecido como Salomão, apontado como alguém que domina com extrema habilidade a indicação de perícias relacionadas ao Porto.

Dessa forma, após a grilagem de terras públicas, foi grilado também o aquífero Emboré, agora explorado pela Ambipar. As terras continuam pertencendo a proprietários que nunca foram indenizados, os processos não têm avaliação concluída, e a água, que é da CEDAE, está sendo comercializada por agentes estranhos à concessão.

Até agora, apenas Sérgio Cabral e Eike Batista foram condenados por propina. A mídia, porém, nunca tratou desse conjunto de fatos com a devida profundidade. O Porto do Açu e suas práticas permanecem blindados.


Fonte: Ururau

Pecuária brasileira sob pressão: China impõe tarifas adicionais às importações de carne para proteger produção interna

Bifes de carne são preparados na cozinha do restaurante Wolfgang's Steakhouse, em Pequim.

Bifes de carne sendo preparados em um restaurante em Pequim, China, em 8 de setembro de 2021. REUTERS/Carlos Garcia Rawlins.

Por Daphne Zhang Ella Cao Liz Lee para “Reuters”

Pequim/São Paulo, 31 de dezembro (Reuters) – A China imporá uma tarifa adicional de 55% sobre as importações de carne bovina que excederem as cotas de fornecedores importantes, incluindo Brasil, Austrália e Estados Unidos, em uma medida para proteger sua indústria pecuária nacional.

O Ministério do Comércio da China afirmou na quarta-feira que a cota total de importação para 2026 para os países abrangidos pelas suas novas “medidas de salvaguarda” é de 2,7 milhões de toneladas métricas, valor praticamente em linha com o recorde de 2,87 milhões de toneladas importadas no total em 2024.

Os novos níveis de quotas anuais são inferiores aos níveis de importação para os primeiros 11 meses de 2025 para o Brasil, o principal fornecedor, e para a Austrália.

“O aumento na quantidade de carne bovina importada prejudicou seriamente a indústria nacional da China”, disse o ministério ao anunciar a medida após uma investigação iniciada em dezembro passado.

A medida entra em vigor em 1º de janeiro por um período de três anos, com a quota total prevista para aumentar anualmente.

As importações de carne bovina pela China caíram 0,3% nos primeiros 11 meses de 2025, para 2,59 milhões de toneladas.

As importações chinesas de carne bovina diminuirão em 2026 como resultado das medidas, afirmou Hongzhi Xu, analista sênior da Beijing Orient Agribusiness Consultants.

“A pecuária bovina na China não é competitiva em comparação com países como o Brasil e a Argentina. Isso não pode ser revertido a curto prazo por meio de avanços tecnológicos ou reformas institucionais”, disse Xu.

Volume da quota (1.000 toneladas) 2026 2027 2028 Importações reais de janeiro a novembro de 2025
Brasil 1.106 1.128 1.151 1.329
Argentina 511 521 532 436
Uruguai 324 331 337 188
Nova Zelândia 206 210 214 110
Austrália 205 209 213 295
Estados Unidos 164 168 171 55
Outros países/regiões 172 175 179
Total 2.688 2.742 2.797
Tarifa adicional 55% 55% 55%

Em 2024, a China importou 1,34 milhão de toneladas de carne bovina do Brasil, 594.567 toneladas da Argentina, 243.662 toneladas do Uruguai, 216.050 toneladas da Austrália, 150.514 toneladas da Nova Zelândia e 138.112 toneladas dos Estados Unidos.

Nos primeiros 11 meses deste ano, o Brasil exportou 1,33 milhão de toneladas de carne bovina para a China, de acordo com dados da alfândega chinesa, número superior às 1,1 milhão de toneladas estabelecidas pelas novas medidas de Pequim.

Este ano, as exportações australianas para a China aumentaram consideravelmente, ganhando participação de mercado em detrimento da carne bovina americana, após Pequim ter permitido, em março, o vencimento das licenças de centenas de frigoríficos americanos e com o presidente Donald Trump tendo iniciado uma guerra tarifária de retaliação. As exportações americanas totalizaram apenas 55.172 toneladas até novembro, menos da metade dos níveis de 2024.

As exportações australianas de carne bovina para a China atingiram 294.957 toneladas nos primeiros 11 meses de 2025.

“Deixamos claro para a China que a carne bovina australiana não representa um risco para o setor deles e que esperamos que nosso status como um parceiro valioso do Acordo de Livre Comércio seja respeitado”, disse o ministro do Comércio australiano, Don Farrell, à Reuters na quinta-feira, classificando a decisão da China como “decepcionante”.

O governo australiano e a indústria da carne bovina estavam trabalhando em estreita colaboração para determinar todas as implicações da medida, disse a ministra da Agricultura, Julie Collins, em resposta por e-mail à Reuters.

Escassez de carne bovina

A medida da China surge em um momento em que a escassez global de carne bovina eleva os preços em muitas partes do mundo, inclusive a níveis recordes nos EUA.

Em resposta ao anúncio de Pequim, Mark Thomas, presidente da Western Beef Association na Austrália, disse: “Há muitos outros países que comprarão nosso produto.”

Luis Rua, secretário do Ministério da Agricultura do Brasil, afirmou que não há motivo para pânico, dizendo à Reuters que o governo pode negociar medidas compensatórias com a China para atenuar o impacto das novas tarifas.

Em entrevista por telefone, Rua também mencionou a capacidade do Brasil de redirecionar as exportações de carne bovina para outros países.

Por outro lado, grupos industriais brasileiros manifestaram preocupação.

Em 2025, as importações chinesas de carne bovina brasileira totalizaram aproximadamente 1,7 milhão de toneladas, o equivalente a cerca de 48% do volume exportado pelo Brasil em geral, afirmou a Abiec, associação que representa o setor de carne bovina, em comunicado.

“Diante desse cenário, ajustes serão necessários em toda a cadeia de suprimentos, da produção à exportação, para evitar impactos mais amplos”, observou Abiec.

Outro importante grupo de lobby da carne bovina brasileira, o Abrafrigo, afirmou que o impacto potencial das medidas de salvaguarda da China pode significar uma perda de até US$ 3 bilhões em receita de exportação para o Brasil em 2026.

A Abrafrigo afirmou que, neste ano, a receita total das exportações de carne bovina do Brasil está estimada em US$ 18 bilhões.

Proteção Doméstica

A China fez o anúncio após duas prorrogações de sua investigação sobre a importação de carne bovina, que, segundo autoridades, não tem como alvo nenhum país em particular.

As tarifas ajudarão a conter o declínio no rebanho bovino da China e darão tempo para que as empresas nacionais de carne bovina façam ajustes e melhorias, disse Zengyong Zhu, pesquisador do Instituto de Ciência Animal da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas.

Pequim intensificou o apoio político ao setor de carne bovina este ano e afirmou, no final de novembro, que a pecuária tem sido lucrativa por sete meses consecutivos.

Reportagem de Liz Lee, Shi Bu, Daphne Zhang e Ella Cao; reportagem adicional de Helen Clark em Perth e Christine Chen em Sydney, Gabriel Araujo e Ana Mano em São Paulo e Rodrigo Viga Gaier no Rio de Janeiro. Edição de Tony Munroe, Gareth Jones e Jan Harvey.


Fonte: Reuters

Traição acadêmica, explorando o absurdo: os melhores ensaios pessoais da Science em 2025

Ilustração de pessoas ao redor de computadores de diferentes tamanhos.

Robert Neubecker 

Por Katie Langin para “Science”

“Sou um pesquisador financiado pelo NIH, afogado em incertezas.”

Esse foi o título de um impactante ensaio que publicamos em fevereiro, algumas semanas depois do início do segundo mandato do presidente dos EUA, Donald Trump. O ensaio foi escrito por uma professora em início de carreira que compartilhou a dificuldade de observar as mudanças que estavam ocorrendo nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), sem saber como elas afetariam seu laboratório, suas pesquisas e sua carreira. “Será que meus pedidos de financiamento serão avaliados algum dia? O que poderei pesquisar?”, questionou ela.

Ao longo do ano, publicamos outros ensaios angustiantes de pesquisadores que enfrentavam as mudanças no cenário político e de financiamento dos EUA, bem como questões que podem ser aplicadas independentemente do tempo ou lugar — incluindo ensaios que exploraram as vantagens de ser você mesmo no trabalho, as semelhanças entre andar de bicicleta e a pós-graduação e a desvantagem de se concentrar demais no prestígio.

Todos os artigos foram publicados como parte da série Working Life da revista Science , que explora as principais lições aprendidas por cientistas ao longo de suas carreiras. Aqui estão, em ordem cronológica, os ensaios mais lidos da série Working Life do ano.

Como encontrei satisfação profissional ao ajustar minha definição de sucesso

Como professor em uma universidade focada no ensino, Salahuddin Mohammed percebeu que o sucesso não se resume apenas a publicações de alto impacto ou bolsas de pesquisa prestigiosas.

Sou um pesquisador financiado pelo NIH, afogado em incertezas

Violeta J. Rodriguez escreveu que continuaria “fazendo o que pudesse para levar minha pesquisa adiante. Mas eu, e muitos outros, não podemos fazer isso indefinidamente.”

A ciência costumava ser meu refúgio. Mas quando entrei em depressão, abandonei meu doutorado

Em meio a desafios significativos de saúde mental, Eric Martiné escreve que “fracassar na vida acadêmica foi o maior alívio que já experimentei”.

Após ser demitida do cargo de pós-doutoranda, recorri a um trabalho paralelo e encontrei uma nova carreira

Para complementar seu salário de pós-doutorado, Gertrude Nonterah começou a escrever como freelancer. Isso se tornou sua tábua de salvação.

Eu achava que a síndrome do impostor era a causa das minhas dificuldades no doutorado. Estava enganada

Quando Andrea Lius descobriu sua verdadeira paixão, finalmente entendeu por que se sentia como um peixe fora d’água no mundo acadêmico.

Minha oferta de emprego acadêmico foi rescindida. Vou continuar tentando, mas os pesquisadores americanos estão ficando sem opções

Apesar de um futuro incerto, a pós-doutoranda Na Zhao planeja “continuar fazendo a ciência que amo enquanto ainda tiver um espaço para trabalhar”.

Como um doutorado se compara a andar de bicicleta

Ehsan Hamzehpoor teve dificuldades na pós-graduação até que a encarou como um período de aprendizado.

Como uma traição acadêmica me levou a mudar minhas práticas de autoria

“Cada conjunto de dados limpo, script depurado e figura refinada merece reconhecimento”, argumentou o pós-doutorando Hari Ram CR Nair.

Como confrontei meu crescente cinismo em relação ao meio acadêmico — e reacendei meu senso de propósito

O professor Easton R. White ingressou na vida acadêmica com esperança e otimismo, mas esses sentimentos se dissiparam com o tempo.

Eu pensava que a ciência dependia do prestígio. Mudar-me para o exterior fez-me reavaliar as minhas prioridades

Após se mudar para a Dinamarca, o estudante de doutorado Henry C. Henson se apaixonou por uma sociedade igualitária que valoriza o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.


Fonte: Science

Ano da Ciência 2025: O sol nasce em outro lugar

O Ano da Ciência de 2025 foi marcado por cortes financeiros e censura por parte da nova administração dos EUA

Painéis solares destruídos pelo furacão Ian em 2022.

Painéis solares destruídos pelo furacão Ian em 2022. Foto: imago/Pond5 Images 
Por Jutta Blume para o “Neues Deutschland”

Here Comes the Sun” – esse é o título da edição deste ano da renomada revista “Science”, que destaca as descobertas científicas do ano. Mas, apesar do tom otimista, a matéria gira em torno da ascensão de uma nova política anticientífica nos EUA e de uma indiferença sem precedentes à saúde de milhões de pessoas em todo o mundo.

A revista publicada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) celebra o fato de que as energias renováveis, principalmente a eólica e a solar, geraram mais eletricidade do que o carvão pela primeira vez em 2025. No entanto, isso ainda não significa que os combustíveis fósseis como um todo tenham sido ultrapassados. “A situação chegou muito perto do ‘pico do carbono’, o ponto em que as emissões de combustíveis fósseis em todo o mundo atingem seu pico e então começam a declinar”, escreve o editor-chefe da Science, H. Holden Thorp, em seu editorial. Para atingir as metas climáticas do Acordo de Paris , porém, esse pico teria que ter sido atingido há muito tempo, e não apenas estar ao alcance – de uma perspectiva de proteção climática, o otimismo da Science não é totalmente compreensível.

A tão celebrada “ascensão das energias renováveis” pouco tem a ver com o conhecimento científico atual. Como escreve Thorp, as bases foram lançadas décadas atrás, incluindo as células solares desenvolvidas em 1954 nos Laboratórios Bell, nos EUA, e as baterias de lítio desenvolvidas por empresas como a corporação americana Exxon. Atualmente, os principais beneficiários da ascensão das energias renováveis ​​são as empresas chinesas , que produzem 80% das células solares do mundo, 70% das turbinas eólicas e 70% das baterias de lítio. Portanto, reconhecer as energias renováveis ​​agora é, principalmente, uma declaração política contra a redução do uso de combustíveis fósseis promovida pelo governo dos EUA.

Contra a pesquisa climática e a diversidade

A revista “Science” posicionou-se desde o início contra as políticas retrógradas e anticientíficas do governo Trump. Com razão, pois, desde o princípio, o governo Trump confrontou as instituições científicas do país com cortes orçamentários e censura sempre que a diversidade, a igualdade e a inclusão (DEI) surgiam nos programas de pesquisa. Isso foi agravado pelo fato de Donald Trump negar as mudanças climáticas causadas pelo homem. Assim, uma das primeiras vítimas do recém-criado e agora extinto Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) foi a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), que demitiu mais de 800 funcionários em março.

Pouco antes do Natal, Russell Vought, chefe do Escritório de Orçamento da Casa Branca, anunciou em uma publicação no serviço online X que o Centro Nacional de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas (NCAR, na sigla em inglês) também seria fechado, o qual Vought chamou de “uma das maiores fontes de alarmismo climático no país”. Tarefas essenciais seriam transferidas para outras instituições. Vought e Trump operam sob a falsa premissa de que previsões meteorológicas podem ser feitas sem pesquisas sobre mudanças climáticas de longo prazo. No entanto, o fechamento do NCAR não afetaria apenas pesquisadores nos EUA, mas também representaria uma grande perda para a pesquisa climática internacional, que também utiliza conjuntos de dados e modelos climáticos desenvolvidos no NCAR.

Os ataques da administração Trump à pesquisa climática ocorrem em paralelo aos ataques aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA, responsáveis ​​pela pesquisa em saúde. Conforme relatado na revista médica “The Lancet”, um em cada 30 estudos médicos do NIH foi descontinuado em 2025, e cortes orçamentários de até 40% são esperados em 2026. O CDC teria reduzido seu monitoramento da segurança alimentar e de doenças.

A renomada revista “Nature” destaca Susan Monarez, diretora do CDC por um curto período , entre as dez pessoas que moldaram a ciência no ano passado. Isso porque ela se recusou a deixar que a direção científica — ou melhor, não científica — da agência fosse ditada de cima para baixo. No entanto, a microbiologista e imunologista Monarez foi forçada a deixar o cargo após apenas um mês. “Fui demitida porque defendi a integridade científica”, disse Monarez em uma audiência no Congresso em setembro.

Céticos em relação às vacinas na comissão de vacinação

O Secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., nomeou céticos em relação às vacinas para a comissão de vacinação, que já retirou recomendações de vacinação — por exemplo, contra hepatite B para recém-nascidos. O site do CDC afirma falsamente: “A alegação de que ‘vacinas não causam autismo’ não é baseada em evidências”. A Organização Mundial da Saúde (OMS) rejeita a afirmação do CDC. Enquanto isso, os EUA enfrentam a pior epidemia de sarampo em 30 anos. A revista The Lancet acredita que os EUA podem perder novamente seu status de país livre de sarampo em 2026.

Mais significativos do que o “avanço” do ano são provavelmente os eventos descritos pela revista “Science” como “colapsos”. Estes incluem os ataques do DOGE à pesquisa, os ataques do governo às universidades e a revogação de vistos para estudantes e pesquisadores estrangeiros. O risco de perder repentinamente as autorizações de residência leva a uma maior incerteza no cenário da educação e da pesquisa, resultando em perdas de receita para as universidades. Assim como no campo das energias renováveis, a China pode emergir como a vencedora nesse cenário — suas universidades estão atraindo um número crescente de estudantes internacionais.

Mas 2025 não foi apenas um ano de graves contratempos para a comunidade científica; foi também um ano de retrocessos significativos para a saúde pública global, em grande parte atribuíveis aos Estados Unidos. De acordo com a revista “Science”, dez bilhões de dólares americanos desapareceram depois que o governo dos EUA congelou a ajuda ao desenvolvimento em janeiro e, posteriormente, dissolveu a agência de desenvolvimento USAID .

Mas, no geral, as doações para a saúde global diminuíram em cerca de 21%. Tudo isso tem consequências para a luta contra doenças disseminadas e potencialmente mortais como o HIV/AIDS e a malária, mesmo que, teoricamente, medidas preventivas estivessem disponíveis. No ano passado, a revista Science celebrou uma nova forma de profilaxia pré-exposição (PrEP) para proteção contra a infecção pelo HIV como a descoberta de 2024. Mas, se faltar financiamento para o uso generalizado, mesmo o desenvolvimento dos melhores medicamentos será inútil.

Um novo medicamento contra a gonorreia está na lista de descobertas científicas da revista Science para 2025. O desenvolvimento de novos medicamentos tornou-se urgentemente necessário após o último antibiótico eficaz contra a infecção sexualmente transmissível ter apresentado crescente ineficácia. Esta é uma boa notícia para os 80 milhões de pessoas que contraem gonorreia anualmente, especialmente porque a doença também aumenta o risco de infecção pelo HIV. No entanto, como acontece com muitas outras, essa boa notícia só será verdadeiramente benéfica se todos os afetados tiverem acesso ao tratamento.

A edição genômica amplia os limites

Outros dois avanços médicos que a revista “Science” destaca como revolucionários ainda não são acessíveis ao público em geral: a primeira edição genômica bem-sucedida em um bebê e o aumento do transplante de órgãos de porcos geneticamente modificados em pacientes humanos.

Um bebê nascido na Filadélfia com uma doença rara foi tratado pela primeira vez com edição genética personalizada. O bebê, que de outra forma poderia ter precisado de um transplante de fígado ou não ter sobrevivido por muito tempo, recebeu alta do hospital após pouco mais de 300 dias. O tratamento teve como alvo um defeito genético que impede a produção de uma enzima hepática específica, o que, por sua vez, leva ao envenenamento por amônia no organismo.

Para pessoas com doenças raras causadas por um defeito em um único gene, a história do bebê KJ Muldoon oferece esperança – no entanto, o tratamento personalizado custa milhões. Mesmo que se espere que essas terapias se tornem mais baratas com o uso mais frequente, a questão ética no futuro será quem terá que pagar por elas e quem não terá.

“Fui demitido porque defendi a integridade científica.”

Susan Monarez, 
ex-diretora do CDC

Embora ainda longe de ser um padrão médico, os chamados xenotransplantes, nos quais órgãos de animais – geralmente porcos geneticamente modificados – são transplantados para humanos, estão se mostrando cada vez mais promissores. Os porcos são geneticamente modificados para tornar menos provável a rejeição de seus órgãos pelo corpo humano. A esperança é que os órgãos de porco possam um dia suprir a escassez de órgãos humanos para transplante.

Este ano, dois pacientes, um nos EUA e outro na China, sobreviveram graças a um rim de um porco geneticamente modificado. Este é um novo recorde para “órgãos doados” desta espécie em humanos. Em comparação, após um transplante renal em humanos, 90% dos pacientes sobrevivem ao primeiro ano. Mas o progresso na área de xenotransplantes é enorme.

Diversas empresas estão trabalhando para alcançar o objetivo de, um dia, produzir comercialmente órgãos geneticamente modificados para transplante em humanos. Duas dessas empresas receberam aprovação da Food and Drug Administration (FDA) em 2025 para realizar ensaios clínicos com tais órgãos. Assim como ocorre com os órgãos humanos, espera-se que as taxas de sobrevida aumentem no futuro. No entanto, permanece a questão de saber se a criação e o manejo de porcos como doadores de órgãos humanos são eticamente justificáveis. Os animais provavelmente teriam que ser mantidos em condições estéreis – ou seja, em isolamento, o que está longe de ser apropriado para a espécie.

A ciência, e especificamente a edição genômica nos casos mencionados, está ultrapassando limites, e as consequências continuarão sendo debatidas publicamente; regulamentações eticamente aceitáveis ​​precisam ser encontradas.

O escândalo do Ano da Ciência 2025 é e continua sendo a campanha contra descobertas já consolidadas, como as da pesquisa climática, bem como a falha na assistência médica e na prevenção de doenças para os mais pobres.


Fonte:  Neues Deustchland

Um robô, desaparecido durante 9 meses, reaparece com uma mensagem alarmante

⚠️ Um robô, desaparecido durante 9 meses, reaparece com uma mensagem alarmante

Um robô, desaparecido durante 9 meses, reaparece com uma mensagem alarmante

Por Cédric Depond para “MSN.com” 

A missão começou como uma análise de rotina num glaciar. Transformou-se numa expedição imprevista ao coração das regiões mais inóspitas do continente branco.

Um simples flutuador oceanográfico, usado para estudar o glaciar Totten, derivou durante dois anos e meio sob o gelo antes de reaparecer a centenas de quilómetros dali, carregado de dados inéditos. A sua viagem imprevista sob as plataformas de gelo de Denman e Shackleton oferece uma oportunidade única de descobrir os processos ainda desconhecidos que esculpem o futuro da calota polar.

Estas observações acidentais têm um valor científico considerável. Provêm de uma zona onde as medições diretas eram até então praticamente inexistentes, devido à espessura do gelo e ao afastamento. O instrumento, um perfilador autónomo do tipo Argo, recolheu perfis de temperatura e salinidade durante nove meses sob a banquisa, revelando a presença de águas com características diferentes sob estas duas estruturas principais.

Esta epopeia realça como o acaso e a robustez de tecnologias comprovadas podem por vezes revelar-nos zonas ainda desconhecidas da investigação climática.

A preciosa deriva de um instrumento perdido

O instrumento na origem desta descoberta é um flutuador Argo, um robô oceanográfico concebido para derivar livremente. Programados para mergulhar até dois quilómetros de profundidade e subir periodicamente, estes engenhos transmitem habitualmente os seus dados por satélite a cada dez dias. Este, colocado para monitorizar as águas em torno do glaciar Totten, rapidamente saiu da zona prevista, arrastado por correntes. Os investigadores julgaram-no então perdido, antes de ele reaparecer muito mais a oeste, perto das plataformas de Denman e Shackleton.

O seu longo silêncio de nove meses explica-se pela presença permanente do gelo acima dele, impedindo-o de comunicar com os satélites. Durante este período, continuou o seu programa de medições, registando a temperatura e a salinidade da água desde o fundo marinho até à base do gelo, a intervalos regulares. Cada tentativa de subida resultava num contacto com a carapaça de gelo, fornecendo assim, de maneira involuntária, uma medição preciosa da sua espessura naquele local preciso.

A análise destes dados exigiu uma engenhosidade particular. Privados de posições GPS, os cientistas cruzaram as medições de espessura do gelo recolhidas pelo robô com os mapas estabelecidos por satélite. Esta comparação permitiu-lhes reconstituir o percurso mais provável do flutuador sob a plataforma, como se traça um percurso a partir de pistas dispersas. Esta metodologia, descrita na Science Advances, validou o percurso do instrumento e a origem geográfica de cada amostra.

Dois glaciares, dois destinos contrastantes

Os dados transmitidos desenham um quadro contrastante da estabilidade do gelo nesta parte da Antártida Oriental. Sob a plataforma de Shackleton, a mais setentrional, as medições indicam uma ausência de água quente capaz de provocar uma fusão basal significativa. Esta estrutura aparece, portanto, por enquanto, relativamente protegida das incursões oceânicas mais destrutivas. Esta situação oferece uma trégua, mas necessita de uma vigilância contínua para detetar qualquer evolução futura.

A descoberta é mais alarmante para o glaciar Denman. O perfilador identificou claramente a presença de uma camada de água mais quente a circular sob a sua parte flutuante. Esta água já está a provocar uma fusão na base. Os cientistas estimam que a configuração é precária: um ligeiro aumento da espessura desta camada de água quente poderia acelerar consideravelmente o processo de desintegração, envolvendo o glaciar num recuo potencialmente irreversível.

O desafio é grande. O glaciar Denman contém por si só uma quantidade de gelo suficiente para elevar o nível global dos mares em cerca de 1,5 metros se viesse a derreter completamente. Acompanhado pelo glaciar Totten, cujo potencial é estimado em 3,5 metros, estes dois gigantes da Antártida Oriental representam uma grande ameaça a longo prazo. A sua vulnerabilidade confirmada à água oceânica quente obriga a integrar estes novos parâmetros nos modelos de previsão da subida do nível do mar.

Para ir mais longe: O que é esta água “quente” que derrete o gelo na Antártida?

É preciso entender que “quente” é um termo relativo. Na Antártida, a água da superfície está geralmente gelada. A água dita “quente” provém das camadas oceânicas mais profundas e circula na plataforma continental. A sua temperatura pode ser apenas de alguns graus acima do ponto de congelação (que é baixado pela pressão e pela salinidade sob o gelo).

Mesmo a +1°C ou +2°C, esta água possui uma energia térmica suficiente para derreter a base do gelo ao contato. O processo é constante e massivo, pois vastas superfícies de gelo estão em contato com o oceano. A circulação desta água é portanto o principal motor do derretimento das plataformas glaciares por baixo, muito antes de o ar ambiente ter um efeito.

Para quem quiser ter acesso ao artigo completo a que esta matéria se refere, basta clicar [Aqui! ].


Fonte: MSN.com

Balanço anual do Blog do Pedlowski e as perspectivas para 2026

Este espaço existe há 15 anos e, desde então, o Blog do Pedlowski busca oferecer informações sobre uma gama de temas para os quais inexiste cobertura abrangente nas mídias tradicionais. Entre os tópicos abordados estão as questões relacionadas ao colapso climático, ao processo de alteração da cobertura vegetal na Amazônia, aos impactos do uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos e às transformações que têm afetado a capacidade de se produzir ciência de qualidade.

O blog também tem servido como espaço de disseminação de informações sobre os impactos de grandes empreendimentos portuários sobre o ambiente e sobre as populações que vivem nas áreas escolhidas para sua implantação. Um dos focos permanentes de atenção — e uma das razões centrais para a criação do Blog do Pedlowski — é o Porto do Açu. Implantado em terras que outrora abrigavam formas singulares de relação entre sociedade e natureza, esse empreendimento tem produzido alterações profundas. No momento, o impacto mais visível é a destruição associada ao avanço da erosão na Praia do Açu.

Posso adiantar que todos esses temas continuarão a ser tratados em 2026. Apesar das pressões que se buscam impor para que o Blog do Pedlowski deixe de existir, sigo convicto de que este espaço mantém sua relevância e cumpre plenamente o propósito para o qual foi criado.

Aproveito para agradecer aos milhares de leitores espalhados por diferentes regiões do mundo, cuja atenção e acompanhamento têm garantido ao Blog do Pedlowski a visibilidade necessária para a continuidade de seu trabalho. Agradeço ainda os colaboradores do blog que enriqueceram este espaço com suas ideias e informações, tornando-o mais plural e abrangente.

Ao longo de seus 15 anos de existência, o Blog do Pedlowski se consolidou como um espaço crítico e independente de produção e circulação de informações sobre temas socioambientais negligenciados pela grande mídia. Ao articular ciência, política e território, o blog reafirma seu compromisso com a denúncia dos impactos de modelos predatórios do Capitalismo, com a defesa das populações afetadas e com a valorização do conhecimento científico como ferramenta essencial para a compreensão e a transformação da realidade.

Jogo combinado: Governo Lula e congresso criam grave sufoco financeiro nas universidades federais

Protesto: Estudantes voltam às ruas contra o bloqueio do Orçamento de  universidades | Brasil | EL PAÍS Brasil

A mídia brasileira vem divulgando com algum alarde a informação de que o congresso nacional cortou quase R$ 500 milhões do orçamento proposto pelo governo federal para o orçamento das universidades federais em 2026.  A informação é correta e revela uma postura do mesmo congresso que aprovou um total de R$ 61 bilhões para as chamadas “emendas parlamentares” que serão distribuídas em pleno ano eleitoral.  Em outras palavras, senadores e deputados federais terão para si uma fortuna para azeitarem seus eleitores e sob a capa completamente legal de dinheiro liberado por eles mesmos e para si mesmos.

Essa informação, no entanto, é incompleta. É que nos primeiros três anos do atual mandato do presidente Lula, parte substancial do orçamento liberado pelo congresso para as mesmas universidades federais tem sido retido pelo Ministério da Fazenda, coisa que tem deixado as universidades federais em condição pré-falimentar.  

Em 2025, por exemplo, o Ministério da Fazenda reteve de cara 31% do orçamento aprovado pelo congresso, fato que motivou uma manifestação conjunta da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) sobre como este corte ameaçava a sobrevivência das universidades federais.

Ainda que ainda faltem dados sobre quanto foi efetivamente retido do orçamento de 2025, eu tenho a desconfiança que este montante é superior ao que já está sendo cortado do valor nominal aprovado pelo congresso para 2026.  Com isso, o que temos é um cenário dificílimo para  as universidades fedeais, que são os principais de produção científica do Brasil, e que já se encontram debilitadas por pelo menos 9 anos de seguidos cortes orçamentários. 

Obviamente tudo isso será escamoteado pela equipe da campanha eleitoral  para reeleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva.  E a manobra de culpabilização do congressa pela situação de penúria imposta às universidades federais já deve estar pronta para ser transformada em uma peça publicitária em2026. Mas a verdade é que o governo Lula é tão ou mais culpado do que os congressistas que aceitarão o mote de inimigos das universitárias em troca da liberação dos recursos para implementar suas emendas.  

Esse é um jogo mais do que combinado, é preciso que se deixe bem claro,

Fóssil e elétrico: Dois caminhos para a catástrofe climática

O Ocidente se apega aos combustíveis fósseis, enquanto a China busca o “capitalismo elétrico”. Nenhum dos dois resolverá os problemas ambientais

Mineração de minério de vanádio no estado da Bahia, Brasil. O metal raro é necessário para a produção de aço, mas sua extração está associada a significativas consequências ambientais.

Mineração de minério de vanádio no estado da Bahia, Brasil. O metal raro é necessário para a produção de aço, mas sua extração está associada a significativas consequências ambientais. Foto: AFP/YASUYOSHI CHIBA 

Por Birgit Mahnkopf para “Neues Deutschland”

Estamos testemunhando um colapso climático global que era quase inimaginável até recentemente. De acordo com dados atuais da ONU, o aumento dos gases de efeito estufa continua desenfreado, mesmo no ano da 30ª Conferência Mundial sobre o Clima. Os oceanos estão aquecendo, as fontes de água doce estão desaparecendo e as florestas tropicais estão sendo destruídas. Em grande parte despercebida pela maioria das pessoas, está ocorrendo a sexta extinção em massa da história da Terra. Esses desenvolvimentos catastróficos são acompanhados pela disseminação imparável dos chamados “químicos perenes”, as substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS), encontradas em inúmeros produtos de uso diário que utilizamos em massa e que são extremamente persistentes.

Quase todos os limiares ou pontos de inflexão para ecossistemas que os cientistas determinaram com relativa precisão já foram atingidos ou ultrapassados. Se o primeiro estabilizador do sistema terrestre como um todo entrar em colapso, as interações com outros estabilizadores serão inevitáveis, resultando em ciclos de retroalimentação que não podem ser anulados por nenhuma ação humana. As descobertas científicas mais recentes indicam que pelo menos um ponto de inflexão, a saber, a morte dos corais tropicais, já foi ultrapassado. Outros sistemas terrestres estão à beira do colapso: as calotas polares, a floresta amazônica e a circulação oceânica (especialmente a troca de massas de ar quente e frio sobre o Atlântico).

Nesse contexto, é definitivamente uma afirmação falsa – ou, nas palavras de Hannah Arendt, uma “mentira organizada” – quando políticos, a mídia, organizações de lobby da oligarquia financeira e todas as empresas que têm o maior interesse em manter o capitalismo industrial moderno disseminam a suposição de que as “mudanças climáticas” ainda podem ser interrompidas pela expansão das tecnologias de geração de energia renovável.

Mesmo dentro do movimento climático, há muitos atores que preferem disseminar esse otimismo contrafactual. Às vezes, eles até se envolvem ativamente na propagação desses mitos, principalmente quando promovem “Acordos Verdes” ou “Acordos Limpos”. A principal mensagem desse mito é: na verdade, não seria preciso mudar muita coisa em nosso modo de produção, nossa comunicação, nossos padrões de consumo, nossa mobilidade e hábitos de moradia e, claro, nem nas relações de propriedade existentes, se apenas — com subsídios públicos maciços e investimento privado voluntário — a produção, o transporte, a habitação e até mesmo partes da guerra fossem movidas a eletricidade proveniente de fontes de energia renováveis.

As críticas que identificam a dinâmica da acumulação capitalista e a produção de valor como motores da catástrofe ecológica são sistematicamente bloqueadas pela “mentira organizada” de uma suposta “transformação” em curso do nosso sistema energético rumo ao uso de fontes de energia renováveis. De fato, essa narrativa fabricada é considerada indispensável – por todos os partidos políticos – em nome da “paz social”.

A produção de um único quilograma de vanádio gera nada menos que nove toneladas de “resíduos”

É preciso enfatizar, no entanto, que o que vem sendo descrito com o termo enganoso “transição energética” também tem consequências devastadoras. A produção e operação de usinas de energia solar e eólica, a eletrificação planejada dos transportes, o aquecimento e resfriamento de residências, o uso crescente de robôs na indústria, os serviços digitais de saúde e educação, a segurança cibernética, a biotecnologia e a nanoeletrônica continuarão a exigir todos os metais sem os quais o capitalismo industrial moderno é impossível: ferro, ouro, prata, cobre e alumínio. Além disso, quantidades inimaginavelmente grandes dos chamados elementos de terras raras também serão necessárias para a modernização tecnológica.

No caso do vanádio, por exemplo, o mineral azul-prateado “divinamente belo” — usado na produção de aço particularmente durável e valorizado por sua alta condutividade elétrica — a produção de apenas um quilograma gera nada menos que nove toneladas de “resíduos”. Isso se refere ao solo e aos organismos que ele contém. Dados da Agência Internacional de Energia indicam que a extração de apenas um quilograma de gálio, essencial para a indústria de semicondutores, muitos dispositivos eletrônicos, a produção de células solares e as comunicações militares por satélite, exige que 50 toneladas de solo sejam dinamitadas e “descartadas”.

Além disso, a produção dessas “terras raras” requer um processo de refino que consome muita energia e água e emite grandes quantidades de gases prejudiciais ao clima. As nações industrializadas ocidentais agora terceirizam ambas as etapas — a extração e o refino das matérias-primas — para empresas chinesas, evitando assim ter que prestar contas pelos danos ambientais associados à produção desses recursos tão procurados. Mais de 90% das atividades poluentes envolvidas na produção de vanádio, gálio e outras “terras raras” são realizadas na China ou por empresas chinesas em outros países.

Sob as condições da nova geopolítica do século XXI, em que tanto os EUA quanto a potência mundial emergente, a China, precisam de enormes quantidades de energia adicional em sua luta pela hegemonia para alcançar a liderança tecnológica em inteligência artificial e computação em nuvem, a escassez de recursos minerais e/ou o acesso economicamente viável a eles também ameaçam levar a conflitos armados.

O Ocidente continua dependente de combustíveis fósseis

No entanto, seria um erro atribuir o fim de facto de todos os esforços sérios em prol de uma “política climática” coordenada e com partilha de responsabilidades à vitória eleitoral de Donald Trump. Tal interpretação desvia a atenção do fracasso de todos os partidos que detiveram a responsabilidade governamental em ambos os lados do Atlântico na década de 2000. A mudança de poder do democrata Joe Biden para o republicano Donald Trump não “acabou com a liderança dos EUA na proteção climática”, como alguns comentadores afirmam. Porque essa liderança nunca existiu — nem sob o governo do presidente Barack Obama, nem sob o de Biden.

Este último deixou isso inequivocamente claro em seu discurso sobre o “Estado da União” em fevereiro de 2023: “Precisaremos de petróleo e gás por um tempo… pelo menos uma década”, e então, assim como Trump, defendeu a “perfuração de mais poços” — ou seja, o desenvolvimento de mais reservas de petróleo. Tanto sob Obama quanto sob Biden, os EUA também se concentraram em produzir o máximo possível de petróleo e gás não convencionais para reduzir a dependência dos Estados do Golfo (especialmente do parceiro de longa data, a Arábia Saudita) e influenciar o preço do petróleo e do gás — e garantir que o pagamento continuasse sendo feito em dólares americanos.

Mas mesmo na Europa, a catástrofe climática recebe pouca atenção. Políticos de (quase) todos os partidos estão interessados ​​apenas em suas perspectivas eleitorais individuais; a grande maioria dos eleitores está preocupada principalmente com o aumento do custo de vida e se sente ameaçada pela (drasticamente reduzida) migração para a Europa. Eles tentam ignorar as consequências das “mudanças climáticas” e estão cada vez menos convencidos pelas metas de emissões líquidas zero da Comissão Europeia.

Embora o amplamente divulgado Pacto Ecológico Europeu já fosse uma cortina de fumaça destinada a obscurecer os interesses comerciais das empresas europeias, essa cortina de fumaça se transformou, nos últimos anos, em um verdadeiro autoengano. O chamado Regulamento Omnibus de 2025 da Comissão Europeia pretende facilitar “tudo” para “todas” as empresas: suas obrigações de reporte, de acordo com as (já brandas) normas de reporte de sustentabilidade, serão implementadas com a máxima flexibilidade. Isso significa que as normas provisórias para a proteção do meio ambiente e dos trabalhadores — cuja negociação levou muitos anos — evaporarão em questão de semanas. Também estão em debate a proteção florestal, a planejada eliminação gradual dos motores de combustão interna até 2035 e outras normas que, embora não resultem em uma “transição verde”, ao menos tornariam a intenção de alcançá-la mais crível.

Ao mesmo tempo, a OTAN aprovou um acordo de reforço de armamentos amplamente aclamado, comprometendo a UE a gastar 5% de sua produção econômica (atualmente equivalente a cerca de 800 bilhões de euros) em despesas militares dentro de dez anos; isso representaria aproximadamente 500 bilhões de euros a mais do que em 2024. Para a Alemanha, isso significaria que um terço de toda a receita estatal futura que o orçamento federal poderia esperar teria que ser alocado exclusivamente para a manutenção da prontidão militar. A situação para medidas necessárias nas políticas sociais, de saúde ou educação provavelmente pioraria em relação à atual.

Menos ainda se pode esperar de uma resposta minimamente adequada às consequências previsíveis da catástrofe climática, quanto mais de medidas que possam ao menos retardá-la – absurdamente, nem mesmo na Europa, o continente que está aquecendo mais rapidamente do que outros.


Fonte: Neues Deustchland

Monsanto, a ghoswritter: Artigo atestando segurança do glifosato é despublicado 8 anos depois, após revelação de que empresa redigiu artigos em nome de terceiros

Por Retraction Watch 

Um artigo de revisão que concluía que o herbicida Roundup “não representa um risco para a saúde humana” foi retratado oito anos depois de documentos divulgados em um processo judicial revelarem que funcionários da Monsanto, empresa que desenvolveu o herbicida, escreveram o artigo, mas não foram citados como coautores. 

A segurança do glifosato, o ingrediente ativo do Roundup, é alvo de intenso debate e está atualmente sob revisão na Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que faz parte da Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou em 2015 que o glifosato é “possivelmente cancerígeno”. 

O artigo, agora retirado de circulação, foi publicado na revista Regulatory Toxicology and Pharmacology , da editora Elsevier, em 2000. Gary Williams, então patologista no New York Medical College em Valhalla, Robert Kroes , toxicologista na Universidade de Utrecht, na Holanda, e Ian C. Munro , toxicologista na Cantox Health Sciences International em Ontário, Canadá, constavam como autores. O artigo foi citado 614 vezes, segundo o Web of Science da Clarivate. 

Três artigos sobre glifosato, nos quais Williams era um dos autores, receberam manifestações de preocupação e extensas correções em 2018 porque os autores não divulgaram completamente seus vínculos com a Monsanto ou o envolvimento da empresa nos artigos. 

Em 2017, documentos internos da Monsanto , incluindo e-mails entre funcionários discutindo publicações científicas sobre a segurança do glifosato, foram divulgados no decorrer de um processo judicial que alegava que a exposição ao glifosato causava o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin em algumas pessoas. Em um dos e-mails, um funcionário da Monsanto propôs “reduzir os custos” na produção de um artigo científico com cientistas externos, “nós escreveríamos o artigo e eles apenas editariam e assinariam, por assim dizer. Lembre-se de que foi assim que lidamos com o caso Williams Kroes & Munro, 2000.” (O e-mail está na página 203 do documento cujo link está aqui e acima.)

Apesar da revelação de autoria fantasma por parte de funcionários da empresa, o artigo continuou sendo citado em pesquisas e documentos de políticas públicas sem qualquer crítica, bem como em artigos da Wikipédia, segundo acadêmicos que analisaram seu impacto. Os pesquisadores, Alexander Kaurov, da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, e Naomi Oreskes, historiadora da ciência da Universidade Harvard, em Cambridge, Massachusetts, publicaram suas descobertas em setembro em outro periódico da Elsevier, o Environmental Science & Policy . Eles também escreveram aos editores do Regulatory Toxicology and Pharmacology para solicitar formalmente a retratação do artigo, conforme descreveram em editoriais publicados na Science e na Undark . 

O pedido deles “foi, na verdade, a primeira vez que uma reclamação chegou diretamente à minha mesa”, disse Martin van den Berg, coeditor-chefe da revista, ao Retraction Watch. O artigo foi publicado muito antes de ele assumir o cargo, disse van den Berg, toxicologista da Universidade de Utrecht, na Holanda, e “simplesmente não chegou ao meu conhecimento” até o artigo de Kaurov e Oreskes. A retratação “poderia ter sido feita já em 2017, mas é claramente um caso de duas fontes de informação paralelas que não se conectaram antes”, afirmou. 

Kaurov e Oreskes escreveram aos editores em 25 de julho, contou-nos Kaurov. A reação dos editores “foi exemplar e profissional”, disse Kaurov. Eles responderam prontamente, afirmou, e conduziram a investigação em um mês, o que ele considerou “um prazo razoável”. 

O comunicado , com mais de mil palavras, foi publicado online em novembro. Nele, van den Berg detalhou “diversas questões críticas que comprometem a integridade acadêmica deste artigo e suas conclusões”. A maioria das preocupações estava relacionada ao que van den Berg descreveu como “as aparentes contribuições de funcionários da Monsanto como coautores deste artigo”, sem o devido reconhecimento como tal. Ele também criticou a dependência dos autores em estudos não publicados da Monsanto para chegar à conclusão de que a exposição ao glifosato não causa câncer, embora existam outros estudos sobre o assunto.

“As preocupações aqui especificadas tornam necessária esta retratação para preservar a integridade científica da revista”, escreveu van den Berg. 

Van den Berg entrou em contato com Williams, o único autor ainda vivo, mas não obteve resposta, segundo o comunicado. Williams, agora professor emérito do New York Medical College, não respondeu ao nosso pedido de comentário. Uma investigação institucional não encontrou “nenhuma evidência” de que Williams tenha violado uma política contra a autoria de artigos escritos por terceiros, informou a faculdade à revista Science em 2017. Kroes faleceu em 2006 e Munro em 2011. 

Um porta-voz da Bayer, que comprou a Monsanto, divulgou uma declaração afirmando que a empresa “acredita que o envolvimento da Monsanto foi devidamente citado nos agradecimentos, que declaram claramente: ‘agradecemos aos toxicologistas e outros cientistas da Monsanto que deram contribuições significativas para o desenvolvimento das avaliações de exposição e por meio de muitas outras discussões’, e ainda identificam vários ‘funcionários-chave da Monsanto que forneceram suporte científico'”.

“O consenso entre os órgãos reguladores de todo o mundo que realizaram suas próprias avaliações independentes com base no conjunto de evidências é que o glifosato pode ser usado com segurança conforme as instruções e não é cancerígeno”, afirmou a empresa em comunicado. 

O artigo escrito por um autor fantasma estava entre os 0,1% dos artigos mais citados sobre glifosato, descobriram Kaurov e Oreskes em sua análise. Retratar o artigo “não apagaria vinte e cinco anos de influência”, concluíram eles, “mas enviaria uma mensagem clara e há muito esperada de que a autoria fraudulenta é inaceitável e que o registro acadêmico será protegido — não importa quão antigo, citado ou lucrativo seja o periódico”.


Fonte: Retraction Watch