Agricultura familiar perde espaço para monoculturas no Centro-Oeste, mostra pesquisa

Agricultura familiar perde espaço para monoculturas no Centro-Oeste, mostra pesquisa

Estudo analisa dados socioeconômicos e ambientais de 466 cidades de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

Se por um lado o Centro-Oeste brasileiro é notoriamente reconhecido como eixo do agronegócio no país, por outro é uma região marcada pela baixa prevalência da agricultura familiar. A maioria das cidades de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul têm até 10% da área produtiva dedicada à atividade. Em Goiás, o total de terras destinadas aos pequenos produtores rurais sobe para até 40%. Além da desigualdade de distribuição de terras, a concentração de renda e dificuldade de acesso a recursos dificultam a agricultura familiar na região, revela estudo da Universidade de São Paulo (USP) publicado na revista Food Security na quarta (10).

Os dados vêm de análise de 466 cidades de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A equipe aplicou técnicas de regressão espacial para associar a proporção de terras destinadas à agricultura familiar com fatores socioeconômicos e ambientais. Entre os fatores considerados estavam densidade populacional, PIB per capita, índice de concentração fundiária, valor da produção de milho e de soja, além das emissões de gases de efeito estufa ligadas à agricultura e ao uso da terra.

Como resultado, a pesquisa revela que a agricultura familiar está positivamente associada à maior densidade populacional, por favorecer a fixação de moradores no campo, e à produção de milho, cultura mais voltada à alimentação quando comparada à soja. Por outro lado, a presença da agricultura familiar tende a diminuir à medida que o PIB per capita aumenta nos municípios.

O artigo também mostra que, em regiões de maior expansão da soja, a agricultura familiar foi menos presente. Nessas áreas, dominadas por monoculturas, observou-se maior emissão de gases de efeito estufa.

Para Lucas de Almeida Moura, pesquisador no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome (FSP/USP) e autor principal do artigo, a presença dos agricultores familiares nas regiões contribui para a fixação dos moradores no campo e para um menor impacto ambiental, sendo um importante indicativo de garantia da segurança alimentar da região. “A agricultura familiar possui extrema importância para as cadeias locais de abastecimento e para a alimentação da população. Isto a enfatiza como essencial para a garantia do direito humano à alimentação adequada e da segurança alimentar da população, tendo em vista que a emergência climática impacta diretamente os sistemas alimentares, sobretudo em áreas já vulneráveis, o que compromete o acesso à alimentação”, destaca.

O artigo destaca a importância de políticas públicas para fortalecer a agricultura familiar, que no Brasil representa a base da economia local de 90% dos municípios com até 20 mil habitantes e é a principal responsável por alimentos consumidos pela população, como milho, mandioca, laticínios e hortaliças.

Segundo Moura, a escolha do Centro-Oeste como estudo de caso se deve às características marcantes da produção agrícola da região e ao desempenho já observado em análises anteriores. “Isto pode ser tomado como ponto de partida para investigações mais aprofundadas, considerando dados e características ainda mais localizadas, o que contribui para gerar evidências mais robustas para a tomada de decisão sobre a presença da agricultura familiar nestes territórios e o fortalecimento desse modelo de produção”, conclui Moura.

A pesquisa foi realizada em parceria com o Sustentárea e com apoio da World Wildlife Fund Brasil e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).


Fonte: Agência Bori 

Coisa de Prosa

Mula-Sem-Cabeça | Dana Social

Por José Luis Vianna da Cruz

– Senta aqui, compadre, vem trocar um dedo de prosa!

– Tá bem, compadre, mas preciso seguir meu rumo antes do escurecer!

– Ué, o compadre tem medo de escuro?

– Não, compadre…bem, quer dizer…medo, não, né!

– Ué, como assim? O compadre não tem medo do Curupira, do Saci Pererê, do Lobisomen, do Boitatá, do Caipora?

– Não…medo, não…tenho respeito. E olha que já vi todos eles…e, também, o Ururau e a Loira do Banheiro!

– Tô sabendo kkkkkk…o compadre viu e não correu, certo?

– Certo, segui meu caminho…com todo respeito…não tenho medo dessa turma, não, cumpadre!!! Só não brinco nem mexo com eles.

– O compadre, então, não tem medo de nada hihihihihi…!

– Tenho sim…mas, como dizia meu avô…”eu não tenho medo de alma do outro mundo, não tenho medo dos mortos, tenho medo é dos vivos…”

– Então, o compadre não tem medo do Capeta, do Satanás, do Lúcifer, do Cão?

– Aí, sim…do Coisa Ruim eu tenho medo!

– Ué, o compadre acabou de falar que não tem medo de coisa do outro mundo…te peguei, compadre!!!

– Tem diferença, compadre! Já viu ou conheceu, de verdade, ao vivo, alguém que foi agredido ou comido, pelo Saci Pererê, pelo Curupira, pela Caipora, pela Mula Sem Cabeça, pelo Boitatá? Eu não acredito nem desacredito! Mas, existindo ou não, eles enchem nossas ideias, colorem nossa imaginação, mostram quem é medroso e quem tem coragem, dá assunto prá gente fazer troça dos amigos e, melhor ainda, dos inimigos kkk… No fundo o medo ajuda a gente a correr do Mal e viver no Bem. Eles encantam a gente, cumpadre! Eles existem pra modo da gente levar uma boa prosa, de noite, de preferência, pra mexer com nossos medos, na companhia de uma boa Marvada, da branquinha! Vai dizer que o compadre não gosta de uma boa prosa em noite bem escura, no seguro da casa, de porta fechada, escutando as estórias das gentes que juram que já viram essa turma?

– Não desvia do assunto, não compadre! E o medo do Tinhoso, compadre, de onde procede?

– Ora, compadre, o Tinhoso costuma encarnar numa gente ruim, bem vivinha, que faz maldade com todo mundo, que mata e esfola gente do bem, gente que não faz mal a ninguém, gente que labuta no dia a dia, presse país ser bom pra todo mundo! Viu só o Coisa Ruim que foi nosso presidente, antes desse que tá aí, quanta gente morreu e morre por causa dele, que espalha as maldades contra pobre, negro, mulher, gente de gênero diferente de homem e mulher, contra criança, trabalhador? Que desgraçou nosso país e que vive chamando o coisa ruim dos isteitis pra modo de fazer dele e da sua capangada uns ditadores? Viu a cambada que tá junto dele, tudo filho do capeta! Umas gentes dos militares, das igrejas, das leis, da política, das polícias, dos bandidos, uma gente saída de tudo quanto é lugar! Ainda bem que não é a maioria, compadre e que muitos deles estão indo pro xilindró!

– O compadre quer dar um nó na minha cabeça…me enrolou tanto que escureceu e o compadre nem percebeu… Agora que eu quero ver! Boa noite, compadre, boas andanças até a casa kkkkkk

– Você vem comigo, compadre?

– Ué, compadre…riririri…tá com medo do escuro? Você num disse que não tem medo da turma do outro mundo, da floresta e da escuridão?

– Tô não, cumpadre. Eles assustam mas não fazem maldade. Tenho medo é de algum filho do capeta ter escutado nossa conversa e me pegar na primeira curva da estrada, compadre? Você me acompanha, compadre?

– Sim, mas com uma condição: se aparecer um capeta vivo desses, eu boto ele pra correr, que não tenho medo de vivo…mas, se aparecer um daqueles do outro mundo – esconjuro! – você vai ter que me proteger, que o cumpadre é cumpincha deles, né??? Combinado?

– Combinado, compadre!…eta prosa boa, né, cumpadre?…só faltou a Marvada! O compadre é que me enrolou, esticando a prosa! Lá vamos nós de novo, pra casa, se melando pelas perna abaixo…viver é muito perigoso, né, compadre? ririririri…

Prosa dedicada ao Coronel Ponciano, ao Chicó, ao Riobaldo…e ao meu pai,

que viu e teve uma prosa rápida com a Mula Sem Cabeça.


Tarde/noite de 11 de setembro de 2025, glorioso dia da

condenação da camarilha dos oito pelo STF

Glifosato encontrado em ovos e frango vendidos em supermercados é rastreado até ração transgênica para aves

Glyphosate residues in feed adversely impact avian species, particularly those in poultry production, as shown in a review of literature.

Por Sustainable Pulse

Uma revisão científica publicada no  World’s Poultry Science Journal  destaca os efeitos adversos à saúde das espécies aviárias decorrentes da exposição ao herbicida  glifosato (Roundup), amplamente utilizado durante o processo de produção avícola. O herbicida entra no sistema de produção avícola por meio de resíduos em rações geneticamente modificadas, informou a Beyond Pesticides .

Um artigo anterior na  Scientific Reports  concluiu que a “ampla aplicação do glifosato (GLP) em culturas forrageiras deixa resíduos na ração”, enquanto  resíduos  são “comuns em ovos convencionais adquiridos em supermercados”.

Ao analisar os impactos bioquímicos, toxicológicos e ecológicos do glifosato em aves, especialmente frangos, os autores encontram um amplo conjunto de evidências que ligam o glifosato e seu metabólito (produto de degradação) ácido aminometilfosfônico (AMPA) a riscos debilitantes que vão além da mortalidade.

Esses efeitos subletais incluem perturbação do microbioma intestinal e doenças gastrointestinais; diminuição da produtividade e diminuição da saúde reprodutiva; toxicidade hepática e renal; impactos no crescimento e desenvolvimento, incluindo teratogenicidade e embriotoxicidade; perturbação endócrina e estresse oxidativo; e comprometimento das funções imunológicas.

Os efeitos do glifosato, como há muito documentados na literatura científica, variam de impactos negativos à biodiversidade e ao meio ambiente a riscos à segurança alimentar e implicações à saúde humana.

Resíduos de glifosato e AMPA “foram detectados no solo, plantações, ração animal, aves e fontes de água, o que levou à análise de seus efeitos a longo prazo”, afirmam os autores.

Eles continuam:

“Estudos indicam que o glifosato interrompe as vias enzimáticas, particularmente ao inibir o sistema do citocromo P450, levando ao estresse oxidativo, à desregulação endócrina e à disfunção mitocondrial.

“Ele tem sido associado à toxicidade hepática e renal, alterações na microbiota intestinal, danos reprodutivos, defeitos de desenvolvimento e possível carcinogenicidade, embora as agências reguladoras permaneçam divididas sobre sua classificação como cancerígeno.”

A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, parte da Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato como tendo propriedades cancerígenas, assim como estudos científicos independentes revisados ​​por pares.

A natureza onipresente dos resíduos de glifosato no meio ambiente e dentro dos organismos é resultado da ampla aplicação desse produto químico tóxico na silvicultura, agricultura, paisagismo e jardinagem.

Mais de 750 herbicidas contêm glifosato como ingrediente ativo, e ele também desempenha um papel importante na produção de culturas geneticamente modificadas (GM), “com aproximadamente 80% das culturas GM criadas especificamente para tolerância às BPL”.

Formulações de herbicidas à base de glifosato contêm não apenas glifosato, mas também outros ingredientes inertes (não divulgados), como adjuvantes que aumentam a toxicidade.

Um adjuvante comum em produtos herbicidas à base de glifosato é a amina de sebo polietoxilada (POEA), que pesquisadores descobriram que pode matar células humanas, particularmente células embrionárias, placentárias e do cordão umbilical.

Efeitos em aves

Resíduos de glifosato na ração animal, bem como na água e por outras vias de exposição, representam riscos à saúde animal e humana, pois esses resíduos podem se bioacumular e biomagnificar ao longo da cadeia alimentar.

Com uma alta dependência de milho e soja na dieta das aves, as culturas geneticamente modificadas são uma fonte significativa de exposição para esses animais.

“A presença de resíduos de GLP na ração para aves levanta preocupações sobre potenciais efeitos na saúde das aves, incluindo perturbações na microbiota intestinal, estresse oxidativo e produtividade geral”, escrevem os autores.

Eles continuam:

Globalmente, aproximadamente 57% da produção de grãos de milho e 85% da produção de soja são destinados à alimentação animal. Diversos estudos investigaram os efeitos da alimentação de diversas espécies de animais com culturas transgênicas tolerantes ao glifosato.

“A pesquisa incluiu vacas leiteiras, gado e galinhas, destacando o impacto potencial dos resíduos de glifosato no desempenho do crescimento das aves, na função imunológica e na saúde reprodutiva.”

Toxicidade hepática e renal

Estudos mostram que os rins e o fígado estão entre os primeiros órgãos a serem afetados por intoxicações alimentares/doenças transmitidas por alimentos. Pesquisas adicionais mostram que resíduos de glifosato nos alimentos podem impactar vários sistemas em animais, incluindo fígado, intestino, rins e pulmões, além de alterar a atividade enzimática.

Em um  estudo com frangos recém-nascidos  expostos apenas ao glifosato e ao Roundup, foram observadas “alterações histopatológicas nos rins e no fígado, juntamente com desequilíbrios nos parâmetros séricos e diversas alterações bioquímicas nesses órgãos, o que poderia potencialmente prejudicar sua função”.

Estresse oxidativo

A exposição ao glifosato pode induzir estresse oxidativo e danos aos lipídios, proteínas e DNA. Pesquisas anteriores mostram como o glifosato e o AMPA são genotóxicos e estão associados a danos oxidativos.

Um estudo  mostra que o glifosato aumenta a geração de espécies reativas de oxigênio no fígado e no intestino delgado de frangos. A exposição crônica a produtos que contêm glifosato em matrizes de corte (frangos de corte) enfraquece a casca dos ovos e retarda o crescimento dos órgãos embrionários, sendo o estresse oxidativo a causa.

Toxicidade gastrointestinal

O glifosato diminui a biodisponibilidade das enzimas citocromo (CYP), cruciais para o metabolismo, nos órgãos das galinhas. Um estudo mostra que o glifosato inibe especificamente as enzimas CYP P450 no fígado e intestino delgado das galinhas.

Os pintinhos expostos ao glifosato também apresentam função hepática comprometida e metabolismo lipídico alterado, causando ainda mais estresse oxidativo e depósitos de gordura no sangue e nos tecidos do fígado devido à expressão aumentada de genes relacionados à lipogênese, como resultado de seu efeito disruptivo nas enzimas do citocromo P450.

Estudos adicionais mostram a perturbação do microbioma intestinal em gado e aves, onde o glifosato reduz bactérias benéficas e aumenta a resistência em cepas patogênicas.

Esses impactos podem levar ao surgimento de doenças gastrointestinais crônicas. Em um estudo sobre a  estrutura intestinal de pintinhos , o glifosato demonstrou prejudicar os intestinos, reduzir a capacidade antioxidante, induzir inflamação e causar a regulação negativa de genes no intestino delgado.

Impacto na reprodução

Pesquisas anteriores mostram que  a exposição crônica a herbicidas contendo glifosato pode afetar a sobrevivência, o crescimento, a atividade e a reprodução de organismos, incluindo galinhas.

Um  estudo com galos  com exposição crônica e subtóxica ao glifosato mostra redução de testosterona plasmática e um declínio no pico reprodutivo.

Outro estudo  encontra “efeito significativo nas características histopatológicas [do tecido doente] dos testículos do galo, bem como na motilidade dos espermatozoides, o principal determinante da qualidade do esperma do galo”.

Pesquisas adicionais mostram  espermatozoides alterados em galos  quando alimentados com uma dieta contendo glifosato, o que leva a “distúrbios metabólicos na prole, provavelmente devido a  efeitos epigenéticos ”.

Implicações do glifosato para produtividade e desempenho

Vários estudos classificaram formulações de herbicidas à base de glifosato como teratogênicas, causando anormalidades no desenvolvimento do feto ou embrião, e embriotóxicas, causando danos ou morte aos embriões durante o desenvolvimento.

Em  um estudo com codornas , constatou-se que o glifosato se acumulava dentro dos ovos, causando danos aos lipídios (gorduras) no cérebro dos embriões em desenvolvimento. Este estudo também revela que resíduos de glifosato nos alimentos também retardam o desenvolvimento da plumagem e permanecem nos ovos, músculos e fígados das aves.

Outro estudo com galinhas mostra que  a exposição ao GLP  levou a uma redução significativa na expressão de genes-chave relacionados à produtividade”.

A exposição direta dos ovos de galinhas a herbicidas à base de glifosato induz efeitos teratogênicos com efeitos negativos no crescimento e desenvolvimento embrionário, bem como na mortalidade embrionária.

Alterações nos parâmetros sanguíneos, efeitos adversos no desenvolvimento do trato digestivo e redução do peso corporal são observados em  galinhas expostas ao glifosato .

Os impactos reprodutivos e de desenvolvimento relacionados à qualidade da casca do ovo e ao desenvolvimento do embrião também estão associados aos níveis de  glifosato e AMPA  na gema do ovo.

Outro estudo mostra que a  queda na eclodibilidade  está associada a níveis mais altos de resíduos de glifosato na ração de matrizes de frangos de corte.

Deficiências regulatórias e a solução orgânica

Apesar das crescentes evidências científicas que continuam a vincular o glifosato a efeitos adversos em uma ampla gama de espécies, as regulamentações atuais não protegem a saúde e o meio ambiente.

Os processos regulatórios, como os utilizados pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), também ignoram fatores que aumentam a toxicidade desses produtos químicos já nocivos, como sinergia, misturas e ingredientes inertes.

“As avaliações de segurança atuais concentram-se principalmente no glifosato de forma isolada, ignorando os efeitos tóxicos sinérgicos das formulações comerciais e sua capacidade de bioacumulação nos tecidos adiposos”, apontam os autores.

Eles continuam:

“Além disso, a toxicidade elevada das formulações comerciais de glifosato, influenciada por coformulantes como POEA, em conjunto com a interferência do glifosato na microbiota intestinal, nas enzimas do citocromo P450 e nas funções endócrinas, enfatiza a necessidade de avaliações de risco cumulativo e estudos de longo prazo que levem em conta a variabilidade das espécies, a bioacumulação e os efeitos sinérgicos.”

Essas inadequações na regulamentação de pesticidas petroquímicos e fertilizantes sintéticos reforçam a necessidade urgente de adoção generalizada de alternativas mais seguras.


Fonte: Sustainable Pulse

COP 30 no Brasil: guia explica o Acordo de Paris e seus desafios

Em novembro de 2025, Belém recebe o maior evento climático do planeta: a COP 30, a conferência das Nações Unidas sobre mudança do clima. Para compreender o que está em jogo nas negociações internacionais, o Observatório do Clima e o Instituto LACLIMA lançam a segunda edição do guia “Acordo de Paris  Um guia para os perplexos”.

A publicação revisita a história da Convenção do Clima da ONU, apresenta os principais artigos do Acordo de Paris e explica, de forma clara, como funcionam os mecanismos de mitigação, adaptação, financiamento climático, perdas e danos, mercados de carbono, entre outros. Nesta edição, foram abordados os resultados da SB 62, a reunião preparatória para a COP que acontece todos os anos em Bonn, na Alemanha.

Com glossário de siglas, perfis dos atores-chave e resumos sobre as COPs anteriores, o guia que tem uma linguagem simples e acessível, é leitura indispensável para jornalistas, ativistas e todos que buscam entender os rumos da diplomacia climática e o futuro do planeta.

“Existem poucas coisas mais chatas e mais importantes que a negociação de clima. Nós buscamos no guia uma linguagem que deixasse interessante o que é importante, sem contornar a complexidade do tema, mas tentando fazer o leitor rir um pouco”, diz Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima.

“Este guia é uma ferramenta essencial para quem quer entender a importância das COPs, os interesses que estão em jogo, o impacto direto dessas negociações no nosso dia a dia e o processo das negociações climáticas com os grupos de países organizados para negociar conforme seus respectivos interesses. O manual mostra por que a COP 30 será um momento decisivo para o Brasil e para o mundo”, afirma Flávia Bellaguarda, diretora presidente do Instituto LACLIMA.

🔗 Baixe gratuitamente: https://lnkd.in/dsYQcJuw

Observatório dos Agrotóxicos: tsunami de venenos avança no governo Lula com a liberação de 43 registros adicionais

O leitor deste blog poderá até achar que é notícia velha, mas não é.  Vinte e quatro horas depois de liberar 42 registros de agrotóxicos do tipo Produto Técnico (a forma concentrada dos produtos), eis que o Diário Oficial da União desta 3a. feira (09/09) trouxe a liberação de mais 43 agrotóxicos, agora na modalidade formulada que é aquela pronta para uso.

O Ato nº 43, de 5 de setembro de 2025 traz um museu de velhas novidades, já que a maioria dos registros liberados serão usados nas culturas de soja e cana de açúcar, que já concentram o uso de agrotóxicos na agricultura brasileira. 

Além disso, outro padrão mantida é a hegemonia das fabricantes chinesas que respondem pela maior da produção dos produtos que tiveram seus registros liberados.  Com isso, temos um aprofundamento da processo de trocas desiguais, já que o preço das commodities agrícolas, a soja por exemplo, tende a ser menor do que a dos agrotóxicos. Como a China é o principal comprador da soja brasileira, e o principal fornecedor de venenos agrícolas usados nessa cultura no Brasil, temos aí um padrão de perdas contínuas para a economia brasileira.

Quanto ao presidente Lula, a manutenção dessa enxurrada de agrotóxicos representa uma quebra do compromisso de que seu governo começaria um giro em prol de um modelo agroecológico e de eliminação da dependência de agrotóxicos para a produção agrícola.

Florestan Fernandes, suas análises sobre a condição do negro na sociedade brasileira e a prisão por racismo de um dirigente do PT Campos

Florestan Fernandes: 100 anos de um pensador brasileiro – Associação dos  Amigos da ENFF

Não sei quantos leram algo sobre a vida do fundador da Sociologia brasileira, Florestan Fernandes, mas sua trajetória de vida parece ter saído de um daqueles livros do surrealismo, tamanha são suas façanhas ao longo de seus 75 anos de vida. No meu caso, li duas biografias excelentes e passei por uma parte pequena de sua obra para poder escrever um capítulo de livro sobre a relação de Florestan Fernandes com o MST.  Com base nas minhas leituras sobre Florestan, eu sempre digo para os meus alunos na Uenf que ele mereceria uma disciplina  só sobre ele para que os futuros cientistas sociais formados na instituição pudessem ter a devida apreciação não apenas pela grandeza da sua obra, mas pela sua incrível contribuição ao entendimento da persistência, resistência e generosidade que um cientista deve ter para ser realmente capaz de contribuir com a sociedade onde vive.

Uma das obras mais centrais para o entendimento da sociedade brasileira que foi escrita por Florestan Fernandes tem o título de “A integração do negro na sociedade de classes“,  e nela ele analisa a dificuldade histórica da integração do negro na sociedade capitalista brasileira após a abolição da escravatura. A tornar evidente, a persistência da desigualdade e a falta de preparação para uma nova realidade. Florestan demonstrou que, sem acesso a trabalho, prestígio e segurança em condições de igualdade, o negro foi relegado a posições inferiores, sem ter suas aptidões plenamente aproveitadas. Para ele, somente uma transformação social profunda e a luta pela superação das desigualdades de classe e raça poderiam garantir uma democracia real.  Como sabemos bem, a transformação social profunda mencionada por Florestan ainda está longe de acontecer neste país e, principalmente, nesta cidade.

Florestan Fernandes me veio à mente após pensar mais um pouco e conversar com quem entende do riscado sobre a prisão do dirigente do Partido dos Trabalhadores  de Campos,  Gilberto Gomes, pela acusação de racismo.  A primeira coisa que se pode dizer da acusação e prisão de Gilberto Gomes é que ele provavelmente passará à história como uma das primeiras pessoas a passarem por essa situação nesta pobre/rica cidade.  Eu diria que quem procurar os registros policiais e os processos em andamento no Fórum Juiza Maria Tereza Gusmão Andrade por motivo de racismo deverá sair com as mãos vazias. E sabemos que atos de racismo devem ocorrer todos os dias. 

Mas então por que essa situação envolvendo um dirigente do PT que estava participando do “Grito dos Excluídos” (e me digam qual é a cor da pele mais excluídos entre os excluídos desta cidade?). Me parece que ao colocar a pecha de racismo em quem objetivamente estava em uma manifestação que explicita a necessidade de transformação sugerida por Florestan Fernandes é uma das formas mais eficientes de se desviar a atenção da realidade que ele descreveu em 1964; justamente o ano em que sofremos um golpe civil-militar que foi desenhado para impedir qualquer avanço social em prol dos mais pobres no Brasil.  Aliás, há que se dizer que Florestan Fernandes foi um dos primeiros cassados pelo Ato Institucional nº 1 que foi implementado em 9 de abril de 1964, tendo sido expulso da sua cadeira de professor na Universidade de São Paulo (USP), lugar para o qual nunca mais voltou, mesmo depois do fim do regime militar.

Então, o que fica disso é que o enfrentamento do racismo e de suas repercussões no sistema político e social brasileiro passa por entender, ao meu ver, a que e a quem ele serve.. E no caso da prisão de Gilberto Gomes, me parece que serve mais a quem mandou reprimir, mais uma vez, o “Grito dos Excluídos”. 

Por mais Florestan Fernandes em nossas vidas, essa é a minha conclusão.

Circulação de águas do Atlântico pode enfraquecer de modo inédito até 2100 e impactar chuva na Amazônia

Combinando dados de pesquisa de campo com projeções de modelos climáticos, estudo reconstituiu a atividade da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – um dos principais motores do clima terrestre – ao longo de todo o Holoceno. Cenários projetados para o futuro não têm precedentes nos últimos 6.500 anos

Equipe reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil: efeitos mais graves podem ocorrer no norte da Amazônia, com redução drástica do regime de chuvas (imagem: CEN/Universität Hamburg)

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP  

A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – conhecida pela sigla em inglês Amoc (Atlantic Meridional Overturning Circulation) – é um dos principais “motores” do clima terrestre. Ela funciona como uma esteira oceânica que transporta calor e nutrientes, conectando águas superficiais da porção tropical com águas profundas da região norte. Alterações nesse sistema sempre estiveram associadas a mudanças abruptas do clima global, como as que marcaram a última era glacial.

Um novo estudo mostra que, nos últimos 6.500 anos, a Amoc se manteve estável, após um período de oscilações durante o início do Holoceno. Mas que essa estabilidade se encontra agora ameaçada. Combinando dados de pesquisa de campo com projeções dos melhores modelos climáticos, o trabalho indica que as mudanças causadas pela ação humana podem levar a um enfraquecimento da circulação sem precedentes no período recente da história da Terra. O norte da Amazônia, justamente a parte mais preservada da floresta, pode ser fortemente afetado, com uma drástica redução do regime de chuvas.

Os resultados foram publicados no periódico Nature Communications.

A equipe internacional que realizou o estudo reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil. Utilizando testemunhos de sedimentos marinhos coletados em diferentes pontos do Atlântico Norte e análises de elementos radioativos – tório-230 e protactínio-231 –, os pesquisadores reconstruíram quantitativamente a intensidade da Amoc ao longo de todo o Holoceno – os últimos 12 mil anos.

“Esses elementos radioativos são produzidos de forma constante na coluna d’água a partir do urânio. Como o tório se fixa rapidamente em partículas, enquanto o protactínio permanece mais tempo em circulação, a razão protactínio-tório registrada nos sedimentos fornece um ‘proxy’ da intensidade da circulação oceânica. Valores mais altos indicam enfraquecimento, e valores mais baixos, intensificação”, explica Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coautor do estudo.


Representação esquemática da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (seta em azul claro e vermelho), que transporta, perto da superfície, águas quentes do sul para o norte; e, em profundidades intermediárias, águas frias do norte para o sul. O desenho também mostra uma outra célula (seta em azul escuro), que transporta águas em grande profundidade (imagem: croqui de Cristiano Mazur Chiessi a partir de informações de Voigt et al., 2017)

Para transformar os dados de campo da razão protactínio-tório em valores de fluxo de água, a equipe utilizou o Bern3D, um modelo do sistema terrestre desenvolvido na Universidade de Berna, na Suíça, que simula oceanos, atmosfera e ciclos biogeoquímicos, permitindo converter registros de sedimentos em estimativas quantitativas da circulação oceânica. Isso permitiu estimar a intensidade da circulação em Sverdrups (Sv) – 1 Sv equivalente a 1 bilhão de litros por segundo.

Os resultados mostraram que, após o fim da última glaciação, a Amoc levou cerca de 2 mil anos para se recuperar do estado enfraquecido. Entre 9,2 mil e 8 mil anos atrás, sofreu novo declínio, associado ao aporte de água doce no Atlântico Norte decorrente do derretimento de geleiras e lagos glaciais, como o Lago Agassiz, no Canadá e nos EUA. Esse período incluiu o chamado “evento 8,2 ka”, registrado em testemunhos de gelo da Groenlândia como um dos episódios de resfriamento mais intensos do Holoceno. A partir de 6,5 mil anos atrás, no entanto, a circulação se estabilizou em torno de 18 Sv. E manteve essa intensidade até o presente.

“Reconstituímos o avanço das águas profundas do Atlântico Norte rumo ao Atlântico Sul ao longo de 11.500 anos. E, nos últimos 6.500 anos, não detectamos nenhuma oscilação maior, minimamente próxima daquilo que está projetado para 2100”, afirma Chiessi. “O cenário futuro é muito preocupante. E deve ser levado a sério tanto pelos governos quanto pela sociedade civil, incluída a comunidade científica.”

Segundo o pesquisador, o enfraquecimento projetado vai causar mudanças nas chuvas de todo o cinturão tropical do planeta, especialmente na América do Sul e na África, mas também afetando o sistema de monções da Índia e do Sudeste Asiático.

Impacto sobre a Amazônia

Um dos impactos mais importantes deverá ocorrer na Amazônia. “Projetamos uma marcante diminuição das chuvas no norte da Amazônia, justamente a região mais preservada da floresta. Esse efeito poderá ocorrer porque as chuvas equatoriais tenderão a se deslocar para o sul com o enfraquecimento da circulação do Atlântico. Com isso, o norte da Amazônia, abrangendo áreas do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e das Guianas, poderá enfrentar reduções significativas na pluviosidade”, projeta Chiessi.

O pesquisador enfatiza que a gravidade desse cenário é ainda maior porque se trata da porção mais preservada da floresta. Diferentemente do sul e do leste amazônicos, onde o desmatamento e a degradação já avançaram fortemente, o norte tem funcionado como um “porto seguro” de biodiversidade. “É justamente nessa região, até agora menos impactada, que a mudança climática poderá impor uma vulnerabilidade nova e dramática”, observa.


Coleta de coluna sedimentar do fundo do Mar de Labrador, no Atlântico Norte, entre o Canadá e a Groenlândia. A coluna sedimentar coletada nesse local serviu como base para o artigo científico (foto: Stefan Mulitza)

Estudo anterior, publicado em 2024 por Thomas Kenji Akabane e colaboradores, entre eles o próprio Chiessi, já havia alertado para essa possibilidade. Por meio de registros de pólen e carvão microscópico em sedimentos marinhos, os cientistas mostraram nesse trabalho que enfraquecimentos passados da Amoc levaram à expansão de vegetação sazonal em detrimento das florestas úmidas do norte amazônico. E os modelos indicam que um enfraquecimento semelhante no futuro produziria impactos ainda maiores, uma vez que seriam agravados pelo desmatamento e pelas queimadas em outras partes da bacia.

Ponto de não retorno?O arrefecimento da Amoc poderá configurar um ponto de não retorno no sistema climático global. Se confirmadas as projeções, ocorrerá uma ruptura sem precedentes na circulação oceânica que sustenta o equilíbrio do clima do planeta. Há consenso entre os pesquisadores especializados de que o enfraquecimento constitui uma clara tendência. Mas os dados ainda não permitem saber se já está ocorrendo ou não. “Os monitoramentos diretos começaram apenas em 2004 e o oceano responde mais lentamente do que a atmosfera. Por isso, os registros são ainda insuficientes para uma resposta conclusiva. Porém, apesar dessa incerteza, a urgência de agir é inegociável. Ainda existe tempo, mas nossas ações precisam ser robustas, rápidas e conectadas, envolvendo governos e sociedade civil”, alerta Chiessi.

Como já foi dito em evento realizado na FAPESP, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro deste ano em Belém, no Pará, constitui uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada (leia mais em: agencia.fapesp.br/54611 e agencia.fapesp.br/55727).

Os dois estudos contaram com apoio da FAPESP por meio dos projetos 18/15123-419/19948-0 21/13129-8.

O artigo Low variability of the Atlantic Meridional Overturning Circulation throughout the Holocene pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-025-61793-z.


Fonte: Agência Fapesp

Estamos perdendo a cabeça?

Um novo documento de posicionamento alerta contra a adoção acrítica da IA ​​no meio acadêmico

Por Kent Anderson para o “The Geyser” 

Vale a pena ler um recente documento de posicionamento de um grupo internacional composto por especialistas da Holanda, EUA, Alemanha e Dinamarca como um antídoto ao exagero em torno da Inteligência Artificial (IA) ​​— que parece estar perdendo força por muitos dos motivos explorados no trabalho, outro sinal de que “ o inverno da IA ” pode estar chegando.

O público-alvo do artigo é o meio acadêmico, incluindo cientistas e profissionais da ciência, um grupo que inclui editores científicos:

Neste documento de posicionamento, explicamos por que as universidades devem levar a sério seu papel de a) combater o marketing, o exagero e os danos da indústria de tecnologia; e b) proteger o ensino superior, o pensamento crítico, a expertise, a liberdade acadêmica e a integridade científica.

Tópicos pesados, mas esses são os dias em que vivemos.

Os autores sabem o que fazem e começam com uma citação surpreendentemente boa de 1985:

A cultura da IA ​​é imperialista e busca expandir o reino da máquina.

Sim, isso definitivamente ainda é verdade…

No entanto, os autores têm bastante munição própria:

IA sempre foi uma frase de marketing que corrói a integridade científica e a discussão acadêmica por natureza, deixando a porta aberta para pseudociência, exclusão e vigilância.

Eles lançam luz sobre os problemas de definição da expressão “inteligência artificial”, observando que um coração artificial bombearia sangue, fazendo a função que imita. A IA não faz isso. Eles também observam que o termo “inteligência” é vago e carregado de um histórico de eugenia, racismo e capacitismo, portanto, quando aceitamos as alegações antropomórficas da IA, estamos nos tornando suscetíveis a sermos enganados por um sistema que tem problemas em sua essência.

Termos como “frames falsos” e “software lixo” me fizeram querer comemorar lendo o artigo, já que este último foi um que usei outro dia para responder a um entusiasta de IA — afinal, IAs não conseguem somar de forma confiável, jogar xadrez sem quebrar as regras do próprio sistema de armazenamento e assim por diante. Um lixo completo.

Descrevendo a IA como uma “tecnologia colonizadora” — o que significa que ela busca dominar qualquer campo em que seja usada — os autores rejeitam a “degradação e o desmantelamento da expertise e a desumanização dos acadêmicos”, observando que os proponentes da IA ​​rejeitam tacitamente a “autodeterminação livre das forças da indústria”.

Quanto ao uso da IA ​​como uma muleta, eles escrevem: “Os LLMs não melhoram a capacidade de escrita de alguém, assim como pegar um táxi não melhora a capacidade de dirigir de alguém”.

  • Em uma nota relacionada, um autor gracejou sobre Bluesky: “Correlação não é cognição”.

Os autores também sabem que precisamos seguir em frente, então eles oferecem cinco princípios para um futuro melhor com a IA ainda viável, mas colocada em seu lugar:

  • Honestidade  não use IA secretamente e não faça afirmações sobre ela que você não pode provar
  • Escrupulosidade  usar a IA apenas de formas científicas bem especificadas e validadas
  • Transparência  tornar toda a IA de código aberto e computacionalmente reproduzível
  • Independência garantir que qualquer pesquisa seja imparcial em relação às agendas das empresas de IA
  • Responsabilidade  não use produtos de IA que prejudiquem animais, pessoas ou o meio ambiente

Com o ceticismo em relação à IA aumentando desde o lançamento do GPT-5 e como ele caiu com um estrondo apesar do enorme hype, é ótimo ler um artigo de posicionamento escrito por pessoas que tratam isso como tecnologia, uma tecnologia que deve ser avaliada a todo momento como uma tecnologia — e não como uma tecnologia particularmente boa, compatível, eficiente, inevitável ou segura.

Para a academia, a IA é parte de um ataque tecno-utópico a todo o sistema. Não é uma ótima tecnologia nova projetada para nos ajudar a evitar tarefas domésticas. Como escreve uma de suas fontes: “Quando você terceiriza o pensamento, terceiriza o aprendizado”.

Espero que este documento sirva como um alerta.


Fonte: The Geyser

Como espécies introduzidas pela ação humana desequilibram ecossistemas

Estudo do Laboratório de Ecologia e Conservação do Departamento de Engenharia Ambiental da UFPR aponta que animais inseridos no ambiente por ação humana têm mais chances de sobreviver do que os nativos, podendo levar a catástrofes ecológicas

Como espécies introduzidas pela ação humana desequilibram ecossistemas Estudo do Laboratório de Ecologia e Conservação do Departamento de Engenharia Ambiental da UFPR aponta que animais inseridos no ambiente por ação humana têm mais chances de sobreviver do que os nativos, podendo levar a catástrofes ecológicas

Florestas destruídas por castores na Patagônia Argentina, em Tierra del Fuego. Foto: denisbin/Flickr

Por Lívia Inácio para o Ciência UFPR 

Em 1946, o governo argentino introduziu dez pares de castores canadenses na Tierra del Fuego, província no extremo sul do país. A ideia era fomentar a produção de casacos de pele, mas a população desses animais cresceu acima do esperado, o que levou à destruição de florestas inteiras. Situações assim, em que espécies introduzidas pela ação humana (as chamadas espécies exóticas invasoras) desequilibram ambientes sem preparo para recebê-las, são comuns no mundo todo. E um estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que analisou pesquisas sobre o tema, concluiu que as espécies colocadas no novo ecossistema são mais eficazes em consumir recursos em comparação às nativas, causando desequilíbrio a longo prazo.

Essa hipótese já vinha sendo debatida por diversos autores, mas, pela primeira vez, foi testada com base em evidências quantitativas globais. A metanálise de estudos experimentais comparativos entre espécies nativas e exóticas foi conduzida pela bióloga Larissa Faria, doutoranda do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR, orientada pelo professor Jean Vitule, do Departamento de Engenharia Ambiental.

O estudo, financiado pelo CNPq e Fulbright, contou ainda com a colaboração dos pesquisadores Jonathan Jeschke e James Dickey, associados à Freie Universität Berlin, da Alemanha; Ross Cuthbert e Jamie Dick, da Queen’s University Belfast, do Reino Unido; e Anthony Ricciardi, da McGill University, do Canadá.

(Clique para ampliar | Baixe em pdf)

Para ser considerada invasora, uma espécie precisa estar aumentando sua população e causando algum impacto, explica Faria. Em alguns casos, a introdução delas é intencional para cultivo, pesca, caça esportiva ou ornamentação, mas há situações acidentais, como ocorre no vazamento de água de lastro de navios ou em escapes de cultivos. Em todas elas, existe interferência humana.

“As espécies invasoras representam risco pois são elementos novos em um ecossistema que evoluiu sem a presença delas. Isso causa um desequilíbrio ecológico, que pode ter impactos ambientais, sociais e econômicos”, diz a pesquisadora.

Faria exemplifica o fenômeno com a introdução da perca-do-Nilo no Lago Vitória, na África. O animal foi inserido para aumentar a produção pesqueira, mas, por ser um predador de grande porte, levou à devastação de diversas espécies nativas de peixes. Muitas foram extintas por serem vulneráveis a esse novo predador e não estarem preparadas para se defender dele.

Outro exemplo foi a introdução de javalis para corte de carne exótica no Brasil. Hoje, o animal está presente nos seis biomas brasileiros e em 2010 munícipios, causando impactos à saúde pública.

Domínio das espécies nativas é maior entre animais de água doce

O estudo da UFPR descobriu que as espécies nativas geralmente levam mais tempo para consumir suas presas e, consequentemente, consomem menos presas do que uma espécie exótica em um mesmo intervalo. Essa diferença na eficiência em consumir recursos pode explicar o impacto das espécies exóticas invasoras.

“O estudo mostra que as taxas máximas de consumo das espécies não nativas são, em média, 70% superiores do que as taxas das espécies análogas nativas”, diz o professor Vitule.

A pesquisa constatou também um desequilíbrio especialmente intenso entre moluscos, herbívoros e animais de água doce e há duas hipóteses para isso: a primeira tem a ver com o fato de que estudos com invertebrados e em ambientes de água doce são mais comuns porque podem ser realizados em pequenos aquários, sendo facilmente operacionalizados. Por isso, são necessários mais estudos em ecossistemas maiores, e com maior realismo, como em mesocosmos (sistemas experimentais projetados para simular um ecossistema sob condições controladas) e experimentos naturais.

Outra hipótese vem do fato de que ambientes aquáticos são isolados uns dos outros e, por isso, têm uma fauna específica que evoluiu adaptada às condições daquele local, com poucos mecanismos de defesa para lidar com ameaças externas.

“O que não sabemos ainda é se a superioridade das espécies exóticas pode ser explicada por algo intrínseco a elas ou se está mais relacionada a uma ingenuidade das presas que não conseguem escapar de maneira eficaz dos predadores até então desconhecidos”, diz Faria.

Ecólogos defendem maior fiscalização e divulgação do tema

Mas existe uma forma totalmente segura de inserir uma nova espécie em um ambiente? Segundo a pesquisadora, não. Isso porque é difícil prever os desdobramentos possíveis no novo local. Nesse sentido, ecólogos defendem a adaptação de espécies nativas para o cultivo intensivo em vez da inserção de novas espécies.

O problema é tão sério que o Brasil possui ao menos 85 instrumentos legais sobre esse tema na esfera federal, entre leis, decretos e instruções normativas, e legislações específicas de cada estado. Além disso, a introdução de espécies exóticas sem autorização é crime ambiental, de acordo com a Lei de Crimes Ambientais 9605/1998.

Apesar disso, especialistas pedem mais esforços em prol dessa pauta, como uma maior fiscalização e divulgação do tema. “Não adianta haver uma lei proibindo, se as pessoas não sabem o que é uma espécie exótica invasora e soltam o estoque excedente de tilápias do seu pesque-pague no riozinho mais próximo da sua propriedade, por exemplo”, diz Faria.

Nesse sentido, o estudo da UFPR pode contribuir com o desenvolvimento de novas políticas públicas e protocolos que previnam desastres ambientais decorrentes da introdução de espécies exóticas invasoras, segundo Vitule.

Os próximos passos envolvem aplicar ainda mais o método experimental comparativo para investigar os impactos de espécies exóticas invasoras, a influência das mudanças climáticas e múltiplas invasões nesses movimentos. Cientistas pretendem ainda aumentar a quantidade de estudos em diferentes tipos de habitat e com grupos taxonômicos variados, para trazer mais robustez às evidências obtidas.

“A metodologia que estudamos poderia ser aplicada em protocolos oficiais de avaliação de impacto de espécies exóticas invasoras no país, auxiliando na prevenção de novas introduções ou na erradicação rápida das espécies já introduzidas que forem avaliadas como mais problemáticas do ponto de vista do consumo de recursos”, diz Faria.

➕ Leia o artigo Non-native species have higher consumption rates than their native counterparts“, publicado no periódico Biological Reviews (aberto; em inglês)

➕ Leia o artigo “Biological invasions: a global assessment of geographic distributions, long-term trends, and data gaps“, também publicado na Biological Reviews (aberto; em inglês)

➕ Leia o capítulo “Invasive species policy in Brazil: a review and critical analysis, publicado no livro Environmental Conservation, da editora Cambridge University Press (fechado; em inglês)


Fonte: Ciência UFPR

Algo coerente aconteceu em Campos dos Goytacazes: em uma terra de exclusão, excluiu-se o “Grito dos Excluídos”

Manifestação do “Grito dos Excluídos” em Campos dos Goytacazes/2025:  reprimida como sempre é

O chamado “Grito dos Excluídos” é uma iniciativa que nasceu há exatos 30 anos como resultado de ações organizadas em prol dos pobres pela  Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ao longo dessas três décadas, organizações sociais do campo e da cidade se utilizam das celebrações do Dia da Independência para lembrar que somos uma sociedade extremamente desigual e demandar que mudam sejam feitas para gerar uma sociedade mais justa para a maioria dos brasileiros pobres.

Obviamente o “Grito dos Excluídos”  nunca foi bem visto pelos governantes que organizam os atos oficiais do 7 de Setembro que preferem cerimônias militarizadas nas quais os pobres são, quando muito, expectadores passivos de desfiles que reforçam aquilo que o “Grito” demanda que seja mudado.

Aqui em Campos dos Goytacazes, a recepção nunca foi boa.  Na última vez que participei, o “Grito” foi barrado nos portões do CEPOP e só pode entrar quando o desfile oficial já tinha sido encerrado e as arquibancadas esvaziadas rapidamente. E o resultado foi que não tinha mais ninguém para ver as faixas e ouvir os gritos do “Grito”.  Eis que ontem, além de se impedir a entrada do Grito, usou-se da violência que é ensaiada todos os anos no momento em que os ativistas e populares participando da manifestação tentam exercer o direito democrático de serem ouvidos. 

 Soube hoje que até sobrou denúncia de um ato de racismo para um dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT) que foi preso e enviado para ser encarcerado na Casa de Custódia Dalton Crespo de Castro. Esse caso me parece um exemplo de como se pode punir o mensageiro, deixando a razão da mensagem intacta: foi denunciar a desigualdade e as injustiças sociais e demandar equidade, e acabou preso por racismo.  

Mas, convenhamos, em uma cidade que exala exclusão e injustiça social por todos os seus becos e avenidas, excluir o Grito dos Excluídos faz todo sentido. Impossível mesmo seria, pelo menos no governo Wladimir Garotinho, permitir que o Grito dos Excluídos abrisse as festividades da independência para que possamos começarmos a construir uma sociedade melhor para a maioria pobre que compõe a população brasileira.  Afinal, Wladimir, mesmo com o seu jeito “clean”, não esconde o lado que ocupa no espectro ideológico brasileiro.

Ah, sim, espero estar vivo e saudável o suficiente para participar do Grito dos Excluídos de 2026. É que as condições objetivas para a manutenção da realização do Grito certamente serão mantidas intactas por quem grita “Semiárido”, e reprime quem ousar gritar contras injustiças que castigam os pobres desta pobre cidade rica.