Com seu ataque ao Ibama, Lula chancela que a COP30 será (mais uma) COP das petroleiras

O ataque de nervos do presidente Lula em relação à cuidadosa análise técnica que os técnicos do Ibama estão realizando no processo de licenciamento ambiental feito a pedido da Petrobras já garante pelo menos uma coisa sobre a  30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) que deverá ser realizada na cidade de Belém entre os dias 10 e 21 de novembro: esta será mais uma COP que será controlada pelas empresas de petróleo, com a benção direta do presidente do Brasil.

Ao atacar a capacidade técnica dos servidores do Ibama porque estão fazendo o que deveriam estar fazendo e somar a isso um discurso claramente pró-combustíveis fósseis, o presidente Lula faz claramente o jogo das grandes multinacionais que hoje controlam a exploração da camada Pré-Sal. E, pior, usa a Petrobras como uma espécie de espantalho nacionalista que visa pressionar os servidores do Ibama para não fazerem corretamente o seu trabalho.

Além disso, Lula tenta disfarçar seu compromisso com a continuidade da exploração do petróleo, seja onde for, com o discurso de que o óleo e gás que saírem dos eventuais poços instalados na Margem Equatorial irá financiar a transição energética brasileira. Esse é um discurso que não resiste a um exame mínimo de realidade.  A verdade nua e crua é que Lula acredita piamente na continuidade da exploração do petróleo como fonte de geração de crescimento econômico, independente dos danos ambientais e sociais que isso causa.

Assim, aos que já perceberam que beiramos o colapso climático e que vivemos as evidências disso a partir de temperaturas cada vez mais altas, o melhor a fazer é não cair na ideia de que algo de positivo saíra da COP30. O máximo que vai acontecer é a produção de mais documentos protelatórios, enquanto se assista ao circo literalmente pegando fogo.

E o que fazer então? Eu diria é que precisamos concentrar esforços na produção de uma massa crítica que seja capaz de explicar a gravidade do momento a quem mais tem a perder com as mudanças drásticas no clima da Terra.

E Lula no meio disso tudo? Ele certamente fará algum discurso bonito na abertura da COP30, mas que terá o mesmo valor de uma nota de 2 dólares.

Projeto em discussão Comissão Europeia promete regras comerciais rígidas sobre agrotóxicos e carne bovina

As promessas ecoam a retórica crescente do chefe agrícola da UE, Christophe Hansen, e do comissário de Saúde e Bem-Estar Animal, Olivier Várhelyi

Por Maria Simon Arboleas e Sofia Sánchez Manzanaro  para a Euractiv

Um rascunho da visão da Comissão Europia para o setor agroalimentar da União Europeia (UE) adota uma posição dura sobre o comércio de alimentos e promete impor padrões mais rigorosos a países terceiros no que diz respeito a agrotóxicos e ao bem-estar animal.

Em 2025, o executivo da UE quer apresentar um plano ambicioso para fortalecer a reciprocidade nos padrões de produção, de acordo com um rascunho do roteiro para a UE e alimentos, que será revelado em 19 de fevereiro e analisado pela Euractiv.

De acordo com fontes familiarizadas com o assunto, a parte sobre padrões comerciais é a que está levantando mais suspeitas na discussão interna em andamento da Comissão, pois significaria encontrar um novo equilíbrio em um momento em que o executivo da UE está tentando expandir sua rede de parcerias comerciais.

“A Comissão buscará, em consonância com as regras internacionais, um alinhamento mais forte dos padrões de produção aplicados aos produtos importados, principalmente em relação a agrotóxicos e bem-estar animal”, diz o texto.

A Comissão promete garantir que os agrotóxicos mais perigosos proibidos na UE “não sejam permitidos de volta” por meio de importações. Ela também promete impedir que substâncias proibidas sejam produzidas no bloco para exportação para outros lugares.

As promessas ecoam a retórica crescente do chefe da fazenda da UE, Christophe Hansen , e do comissário de Saúde e Bem-Estar Animal, Olivier Várhelyi, que recentemente sinalizaram uma abordagem mais rígida aos padrões de produção para alimentos importados. Os ministros da agricultura da UE se juntaram ao esforço no mês passado, instando o executivo da UE a reprimir as importações que contêm resíduos de agrotóxicos proibidos.

O plano também propõe uma “força-tarefa dedicada” para fortalecer os controles de importação com verificações maiores, uma medida há muito exigida pelo Parlamento Europeu.

Sobre bem-estar animal, a Vision também busca usar uma revisão de regras há muito adiada para garantir que produtos importados atendam aos padrões de pecuária da UE. “A revisão direcionada da legislação de bem-estar animal será uma oportunidade de aplicar isso de forma compatível com a OMC”, diz o texto.

O documento também sugere estender a rotulagem de origem obrigatória a mais produtos agrícolas e pesqueiros.

Para frente e para trás na sustentabilidade

Para dar aos agricultores mais alternativas aos agrotóxicos sintéticos, a Comissão diz que apresentará uma proposta em 2025 “que acelera o acesso aos bioagrotóxicos”, incluindo um procedimento rápido para sua autorização.

Banir produtos químicos também pode se tornar mais difícil. A Comissão irá “considerar cuidadosamente qualquer proibição adicional de agrotóxicos se alternativas não estiverem disponíveis dentro de um prazo razoável e a um custo razoável”, exceto onde a saúde humana ou habitats agrícolas importantes estejam em risco.

O documento reconhece o setor pecuário como “uma parte essencial da agricultura da UE” que mantém altos padrões, mas nem sempre é recompensado pelo mercado. A Comissão lançará um “fluxo de trabalho sobre pecuária” para desenvolver caminhos de políticas que abordem a pegada climática do setor, ao mesmo tempo em que destaca seu papel na manutenção ambiental.

Embora o documento não priorize proteínas vegetais em detrimento de proteínas animais, conforme recomendado pelo Diálogo Estratégico, ele descreve planos para construir “um sistema de proteínas da UE mais autossuficiente e sustentável”.

Comida e preços

Com o poder de barganha dos agricultores na cadeia de fornecimento de alimentos em evidência, o roteiro promete não tolerar práticas “onde os agricultores são sistematicamente forçados a vender abaixo dos custos”.

A Comissão disse que revisaria a Diretiva sobre Práticas Comerciais Desleais (UTPs) para abordar essa questão, uma medida que deve ocorrer após a avaliação das regras em novembro deste ano.

Do lado da oferta, a nova legislação para compras públicas terá como objetivo fornecer incentivos para promover o consumo de “produtos locais e sazonais” e alimentos produzidos com altos padrões ambientais, como os orgânicos.

Angelo Di Mambro contribuiu para a reportagem .

[DE]


Poluição por microplásticos está disseminada de forma ampla na neve do Pólo Sul, mostra estudo

Por Douglas Main para o “The New Lede”

Uma nova pesquisa encontrou níveis significativos de minúsculos microplásticos na neve da Antártida em vários locais da região selvagem mais remota do mundo, descobertas que reforçam as preocupações de que nenhuma parte do planeta está a salvo da poluição plástica.

artigo , publicado este mês na Science of the Total Environment , fornece evidências de que estudos anteriores subestimaram a extensão da contaminação por microplásticos na região.

O primeiro estudo desse tipo sobre o assunto, publicado em 2022 , encontrou uma média de 29 partículas por litro de neve amostrada. O novo estudo, que usou técnicas que permitem maior detecção de materiais minúsculos, descobriu que “os microplásticos eram generalizados” em mais de 3.000 partículas por litro, com uma média de cerca de 800 partículas. Cerca de 95% desses pedaços tinham menos de 50 mícrons, um pouco menores do que a largura média de um fio de cabelo humano.

Os pesquisadores agora sabem que os microplásticos estão essencialmente em todos os lugares — na remota Amazônia, dentro do cérebro humano , nas raízes das plantas, nas nuvens — mas encontrá-los em tais níveis na região selvagem mais remota do mundo ainda foi um choque.

“Foi surpreendente ver concentrações tão altas de microplásticos em áreas com pegada humana limitada”, disse a coautora do estudo Emily Rowlands, pesquisadora do British Antarctic Survey.

As amostras foram retiradas da neve perto de três bases de pesquisa remotas em diferentes partes do continente, conhecidas como Union Glacier, Schanz Glacier e o Polo Sul. Para obter a neve, os pesquisadores cavaram de oito a 16 polegadas abaixo, examinando plástico provavelmente depositado no último ano ou dois.

Poliamida, um tipo de plástico usado em tecidos, cordas, equipamentos para atividades ao ar livre e outros produtos, foi o tipo de plástico mais prevalente encontrado nos dois primeiros locais. Polietileno tereftalato (PET), comumente usado em roupas e embalagens para atividades ao ar livre, foi o polímero mais abundante no Polo Sul.

O polietileno (PE), o plástico mais comumente usado no mundo, frequentemente usado na fabricação de garrafas plásticas, foi o terceiro tipo de plástico mais prevalente detectado.

Esses materiais provavelmente estão chegando à neve de fontes locais, mas também de transporte de longo alcance na atmosfera, disse Sedat Gündoğdu , um pesquisador não envolvido com o artigo I que estuda microplásticos na Universidade Cukurova, na Turquia. As partículas também podem estar vindo de lixo plástico carregado no oceano e, em seguida, fazendo seu caminho na própria neve.

“Isso mostra que qualquer pedaço de terra pode ser contaminado com microplásticos, mesmo sem qualquer atividade humana [nas proximidades]”, disse Gündoğdu.

O tamanho minúsculo dessas partículas é particularmente preocupante, ele acrescentou, já que qualquer coisa menor que 100 mícrons pode entrar nos corpos de muitos organismos, incluindo animais tão diversos quanto krill, pinguins e humanos.

Quando ingeridas, essas partículas podem obstruir a alimentação, limitar o crescimento e prejudicar a saúde e a capacidade de reprodução, disse Rowlands.

Essa poluição equivale a um “fator de estresse adicional em um ecossistema já estressado”, disse Rowlands, provavelmente impactando a capacidade das espécies polares de lidar com as mudanças climáticas e outras pressões relacionadas aos humanos.

O fato de que a atividade humana está deixando uma “pegada considerável de microplásticos na neve da Antártida” fornece ainda mais motivos para agir nessa “emergência global”, disse Gündoğdu. “Devemos limitar a produção de plástico para deixar a Terra menos poluída para as gerações futuras e para a vida selvagem”, ele acrescentou.


Fonte: The New Lede

A inauguração da ponte do “rio que cai”: um perfeito retrato do estado da política fluminense

O governador Cláudio Castro e o presidente da Alerj Rodrigo Bacellar na inauguração da “ponte do rio que cai”.  Foto: Silvana Rust

Um dos quadros mais famosos do extinto “Programa do Faustão” era a “Ponte do rio que cai” na qual intrépidos figurantes tentavam atravessar uma ponte em meio a obstáculos e tiros de canhão para invariavelmente caírem de forma estrepitosa dentro do “rio”.   Sabe-se lá por quais cargas do destino, lembrei desse quadro ao ver ontem cenas vindas do trecho sanjoanense do Rio Paraíba do Sul.

É que, pouco mais de 24 horas depois de ter ameaçado usar ilegalmente a Polícia Militar para retirar 400 famílias que ocupavam pacificamente uma propriedade que já deveria estar passando pelo processo de reforma agrária, o governador Cláudio Castro esteve na nossa região para inaugurar a chamada “ponte da integração” que deverá ligar os municípios de São João da Barra e São Francisco de Itabapoana, e ainda impactar o trânsito de veículos pesados em Campos dos Goytacazes.

Um detalhe nada glorioso sobre esta inauguração é que passadas mais de quatro décadas entre o planejamento e a entrega, essa ponte ainda não possui vias pavimentadas para dar celeridade ao inevitável fluxo de veículos que sua existência criará.  A saída escolhida pelo presidente da Alerj, o campista Rodrigo Bacellar foi culpar os técnicos do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE) por fazerem o que se espera deles: garantir a lisura de todos os processos licitatórios que são realizados com o dinheiro público no estado do Rio de Janeiro, gostem ou não seus governantes.

Em sua forma cândida e característica de se pronunciar, Bacellar teria dito que “Só não entregamos as duas RJs porque, novamente, o Tribunal de Contas fez aquela palhaçada de paralisar a licitação por quase um ano, assim como fez na ponte. Se não a gente estaria hoje inaugurando não só a ponte, mas concluindo todo o asfaltamento e urbanização dessas duas rodovias“. Pois é, deve ser duro não poder fazer licitações que não atendem critérios técnicos e legais.

Mas o que mostra a inauguração da “Ponte João Peixoto”, além do inconformismo de Rodrigo Bacellar? Para mim, o simples fato de se inaugurar uma ponte tão estratégica sem que as vias de circulação estejam pavimentadas é um excelente retrato do estado de coisas que grassam na política fluminense. Fossem os nossos políticos minimamente sérios, essa inauguração aconteceria sem nenhuma pompa ou circunstância, na medida em que ela reflete uma evidente incompetência.  

Mas vá lá, a maioria desses políticos é aliada de Jair Bolsonaro, um presidente que em 2021 teve a capacidade de gastar mais R$ 700 mil em despesas de viagens para inaugurar uma ponte de madeira de 18 metros de extensão por 6 metros de largura em uma comunidade indígena no estado do Amazonas que havia custado apenas R$ 255 mil.  Assim, para inaugurar uma ponte que não liga nada a qualquer coisa é um pulo.

Ascema responde declarações de Lula em relação à atuação do Ibama no licenciamento da exploração de petróleo na Foz do Amazonas

Resposta às declarações do presidente Lula em relação à atuação do Ibama no processo de licenciamento da exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas

A Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (ASCEMA Nacional) vem a público manifestar sua preocupação com as recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a respeito da atuação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no processo de licenciamento ambiental para exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas.

O Ibama é um órgão de Estado, cuja missão é a proteção do meio ambiente e dos recursos naturais do Brasil, e todas as suas decisões são baseadas em critérios técnicos, científicos e legais. O processo de licenciamento ambiental é conduzido de maneira rigorosa, transparente e responsável, levando em consideração a proteção da biodiversidade e o bem-estar das populações que dependem diretamente dos ecossistemas afetados, mas também o desenvolvimento econômico do país.

Entendemos que há interesses por parte do governo em acelerar a análise, mas há um limite do que o Ibama pode fazer diante do sucateamento da Gestão Socioambiental que a ASCEMA Nacional vem denunciando há tempos. Isso ficou bem claro na mobilização do ano passado, cobramos do governo melhores condições e pessoal para dar conta de todas as necessidades. Ainda assim, a análise técnica de grandes projetos submetidos ao licenciamento ambiental federal, especialmente aqueles a serem desenvolvidos em áreas socioambientalmente sensíveis, com número reduzido de estudos científicos e onde não há experiências prévias da atividade em questão, demandam imensa dedicação das servidoras e servidores e, inevitavelmente, consomem tempo. O tempo necessário para garantir que os impactos previstos sejam evitados, mitigados ou compensados, caso o empreendimento ocorra.

É fundamental destacar, ainda, que desde 2012 o Estado brasileiro tem a possibilidade de realizar uma Avaliação Ambiental de Área Sedimentar – AAAS na Bacia da Foz do Amazonas, o que permitiria identificar áreas aptas e não aptas à exploração de petróleo na região, auxiliaria no planejamento estratégico e econômico, e reduziria as incertezas do licenciamento ambiental de empreendimentos avulsos. Porém, não se tem notícias de pressão do Palácio do Planalto para que a AAAS saia do papel.
Nesse sentido, é inadmissível qualquer tipo de pressão política que busque interferir no trabalho técnico do órgão, especialmente quando se trata de uma decisão que pode resultar em impactos ambientais irreversíveis. As declarações que desqualificam o Ibama e seus servidores desrespeitam o papel fundamental da instituição na defesa do interesse público, que é seu objetivo final, independente do governo da vez.

O Ibama precisa ser reconhecido como órgão de Estado, motivo pelo qual propusemos uma emenda parlamentar para que passe a ter esse status e não fique sujeito a interferências políticas como a que o presidente Lula tenta implementar. Os servidores públicos dos órgãos de meio ambiente federais fizeram o possível para impedir retrocessos ambientais durante o governo Bolsonaro e continuarão atuando neste ou em qualquer outro governo que contrarie as necessidades de conservação socioambiental no Brasil.

É contraditório que um país que sediará a COP-30, um evento de relevância global para o enfrentamento das mudanças climáticas, adote posturas que fragilizam a governança ambiental e colocam em risco compromissos assumidos internacionalmente. O Brasil tem a oportunidade de se consolidar como potência ambiental e no desenvolvimento sustentável, e isso só será possível com o fortalecimento das instituições ambientais e o respeito aos seus processos técnicos.

A ASCEMA Nacional reforça seu compromisso com a proteção ambiental e a defesa de um serviço público independente, que atue com base na ciência e na legalidade, sem subordinação a interesses político-econômicos.

Brasília, 12 de fevereiro de 2025.

ASCEMA Nacional

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O Brasil sob o Lula III: uma economia fóssil e fortemente (agro) tóxica

Quem ouviu o discurso da terceira posse do presidente Lula ficou com a impressão que haveria algum nível de ruptura com o período de Jair Bolsonaro, fosse na pauta de costumes ou na ancoragem da economia brasileira. Passados pouco mais de dois anos, aquele discurso jaz abandonado nas práticas e costumes das ações práticas do governo Lula.

E, pior, o que se vê é o reforço do apoio às ações do latifúndio agro-exportador e sua agricultura envenenada, e ainda pressões explícitas para o avanço das explorações petrolíferas na região da foz do Rio Amazonas, uma área tão biodiversa quanto perigosa para a instalação das estruturas que tratam da extração de petróleo e gás.

Pouca gente nota, mas no Lula III até o discurso neodesenvolvimentista foi jogado para escanteio, e ninguém no atual governo faz sequer menção à ideia de que precisamos desenvolver o Brasil e não simplesmente correr atrás de superávits na balança comercial.  Vivemos uma época de realismo trágico, pois o que parece importar mesmo é garantir que Lula III vire Lula IV, sem que isso nos ofereça qualquer janela para um futuro menos poluído, quente e catastrófico como se antevê com o aprofundamento da crise sociambiental que as mudanças no clima da Terra estão trazendo.

O presidente Lula sequer nos aponta para o simulacro de utopia que seu discurso de posse sinalizou. Lula agora é uma versão garoto-propaganda da economia fóssil que se cala com os crimes cometidos contra os povos originários que são a nossa última barreira de defesa contra a perda das florestas tropicais. Há ainda que se lembrar que ao insistir na pavimentação da BR-319, Lula fornece a justificativa ideológica que todos os tipos de aventureiros existentes na Amazônia avancem de forma decidida para destruir o último grande bloco de reservas relativamente intacto que ainda escapou da sanha devastadora dos desmatadores. Mais ainda, fornece uma via de acesso fácil para que a destruição se espalhe, em que pesem todas as evidências científicas do que a destruição da floresta amazônica traz para o Brasil.

Curiosamente quem se arrisca a falar o óbvio sobre as ações práticas do Lula III ainda corre o risco da demissão sumária como foi o caso do economista David Deccache que foi demitido do posto de assessor da bancada federal do PSOL por ousar criticar o viés neoliberal do ministro Fernando Haddad.  Esse caso é uma expressão de como a visão fóssil e (agro) tóxica está enraizada na esquerda institucional que parece ter capitulado sem nenhuma vergonha a um modelo econômico que apenas reforça as profundas desigualdades historicamente existentes no Brasil.

Mas em meio a essa situação tão desafiadora é preciso dizer que não há tempo para lamentações. As tarefas postas pela perpetuação pela economia fóssil e (agro) tóxica precisam ser enfrentadas de forma urgente, até porque esse modelo é garantia de que continuaremos caminhando para um cenário climático catastrófico para a classe trabalhadora brasileira.  É preciso informar, dialogar e mobilizar todas as forças sociais que se opõe ao modelo neoliberal que controla o Estado brasileiro neste momento, independente de quem esteja no controle da máquina federal.  A verdade é que as consequências para a inação são fortes demais para que deixemos tudo como está, como se não houvesse outra saída. A verdade é que as saídas existem, mas não será com a continuidade de Lula como garantidor de um futuro melhor que isso vai acontecer. E quanto antes entendermos isso, mais fácil será iniciar a construção dos instrumentos que a crise social e climático nos demanda nesta conjuntura histórica.

Ah, sim, quando acenarem com o espantalho da extrema-direita, lembrem que tanto Hugo Motta quanto David Alcolumbre foram eleitos por uma aliança cada vez mais corriqueira entre o PT de Lula com o PL de Jair Bolsonaro.

ADUENF apoia realização da reforma agrária na Fazenda Santa Luzia

A diretoria da Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Aduenf) emitiu no início da tarde de hoje (11/02), uma nota de apoio à realização da reforma agrária na Fazenda Santa Luzia que compõe os bens da massa falida da Usina Sapucaia.

A nota da diretoria da Aduenf diz o seguinte:

A reforma agrária é um instrumento essencial para a promoção da justiça social e da distribuição equitativa da terra no Brasil. Em um país onde a concentração fundiária histórica perpetua desigualdades, garantir acesso à terra para aqueles que nela querem e precisam trabalhar é um passo fundamental para combater a pobreza, fortalecer a produção de alimentos e consolidar a cidadania no campo.
Nesse contexto, manifestamos nosso total apoio ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e às famílias que, na última segunda-feira (10/02), ocuparam a Fazenda Santa Luzia, na Usina Sapucaia, em Campos dos Goytacazes.
A ocupação das terras não foi um ato de conflito, mas sim um clamor por justiça, pelo cumprimento da função social da propriedade e pelo direito fundamental de viver do próprio trabalho.
Lamentavelmente, o governador Cláudio Castro preferiu tratar essa questão social como caso de polícia, mobilizando um grande contingente policial com o objetivo de expulsar os trabalhadores, mesmo sem nenhuma ordem judicial a favor da desocupação. Temendo atos de violência, as famílias preferiram se retirar das terras de forma pacífica.
Desejamos que as autoridades competentes reconheçam essa luta legítima e concluam nos próximos meses o processo de adjudicação da Fazenda Santa Luzia. Esta solução contemplará os princípios constitucionais da reforma agrária, garantindo às famílias o acesso à terra e promovendo um modelo de desenvolvimento rural mais justo e sustentável.”

Microplásticos podem bloquear vasos sanguíneos em cérebros de ratos, descobrem pesquisadores

Cientistas observam diminuição da função motora em roedores expostos a microplásticos

Microplásticos em um dedo

Microplásticos em um dedo. Pesquisadores disseram que o acúmulo de pedaços de plástico atrás de um bloqueio nos vasos sanguíneos do cérebro se assemelhava a um “acidente de carro”. Fotografia: Kinga Krzeminska/Getty Images

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

Microplásticos podem se mover através do cérebro de ratos e bloquear vasos sanguíneos, essencialmente imitando coágulos sanguíneos que podem ser fatais ou prejudicar a função cerebral.

As descobertas são detalhadas em um artigo revisado por pares publicado pela Science Advances para o qual os pesquisadores usaram pela primeira vez imagens em tempo real para rastrear pedaços de plástico enquanto eles se moviam e se acumulavam nos vasos sanguíneos do cérebro. Quando um pedaço de plástico ficava preso, outros se acumulavam atrás dele, como um “acidente de carro”, relataram os autores .

Os autores então encontraram diminuição da função motora nos camundongos expostos a microplásticos, sugerindo impactos no cérebro. Embora evidências crescentes tenham vinculado microplásticos à neurotoxicidade, a pesquisa é a primeira a sugerir como – provavelmente reduz o fluxo sanguíneo.

“Esta revelação oferece uma lente através da qual podemos compreender as implicações toxicológicas dos microplásticos que invadem a corrente sanguínea”, escreveram os autores da Universidade de Pequim.

Microplásticos são pequenos pedaços de plástico adicionados intencionalmente a bens de consumo ou que são produtos de plásticos maiores se decompondo. As partículas contêm qualquer número de 20.000 produtos químicos plásticos, dos quais milhares, como BPA, ftalatos e Pfas, apresentam sérios riscos à saúde .

A substância foi encontrada em todo o corpo humano e pode atravessar as barreiras placentárias e cerebrais . Pesquisas recentes descobriram que microplásticos estão se acumulando em cérebros humanos em níveis muito mais altos do que há oito anos. A substância está ligada a um risco aumentado de ataque cardíaco e câncer , e é considerada um neurotóxico que pode causar múltiplas formas de disfunção cerebral, como a doença de Parkinson.

Até agora, muito pouco se sabe sobre como os pedaços de plástico se movem através do cérebro e por que eles podem causar algumas doenças e neurotoxicidade.

Para rastrear o plástico nos cérebros dos camundongos em tempo real, os pesquisadores deram a eles água cheia de poliestireno revestido com fluorescência, um material comum encontrado em produtos domésticos e embalagens. Usando uma técnica de imagem chamada microscopia de dois fótons, eles conseguiram observar como, em apenas algumas horas, os bits fluorescentes começaram a aparecer no cérebro.

Pesquisadores suspeitam que células imunes tinham, de fato, absorvido os pedaços de plástico, criando células de formato irregular. Conforme as células viajavam pelos minúsculos vasos do córtex cerebral, onde geralmente há mais curvas e mais fechadas, elas às vezes ficavam alojadas. Pedaços maiores de plástico eram mais propensos a ficarem presos.

Quando as células se alojavam, mais células se acumulavam, imitando o efeito de carros em um acidente de engavetamento. Os bloqueios reduziam o fluxo sanguíneo e às vezes se rompiam após alguns dias ou semanas, mas alguns persistiam além do fechamento do período de observação de quatro semanas do estudo.

Em avaliações comportamentais após exposição ao microplástico, os ratos expostos percorreram distâncias mais curtas e mais lentas do que aqueles que não foram expostos, e tiveram um desempenho ruim em um teste de labirinto que avalia a função da memória.

No entanto, os autores enfatizaram que não estava claro se os mesmos efeitos aconteceriam em um cérebro humano porque os vasos não são tão pequenos quanto os de camundongos, e o volume e a taxa de fluxo sanguíneo são maiores. Ainda assim, isso apontou fortemente para sérios riscos à saúde cardiovascular e cerebral, e “o aumento do investimento nessa área de pesquisa é urgente e essencial para compreender completamente os riscos à saúde representados pelos microplásticos no sangue humano”, escreveram os autores.


Fonte: The Guardian

Terras ocupadas pelo MST em Campos dos Goytacazes sofrerão adjudicação para serem usadas para reforma agrária

Mobilização teve a capacidade de fazer o governo Lula para acelerar o processo de reforma agrária da área – Foto: divulgação

Em um desdobramento bastante peculiar para os tempos que vivemos onde falta ousadia e coragem para enfrentar os descalabros cotidianos, a ocupação organizada pelo MST em uma fazenda de propriedade da falida Usina Sapucaia, o governo Lula decidiu usar o instrumento da adjudicação para criar mais um assentamento de reforma agrária em Campos dos Goytacazes.

Para quem nunca ouviu falar de adjudicação, este termo serva para designat “um ato judicial ou extrajudicial que consiste na transferência de bens de um devedor para um credor. O objetivo é quitar a dívida do devedor“. 

A boa nova foi publicizada em vídeo pela deputada estadual Marina do MST (PT/RJ) que se manifestou no início da noite de ontem sobre o resultado das negociações realizadas pelo movimento social com o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira (ver abaixo).

O que me parece interessante nesse desdobramento tão rápido para algo que já se desenrolava há décadas, é que foi necessário que 400 famílias que demandam a execução da reforma agrária ocupassem uma das fazendas da Usina Sapucaia para que um ato que devia ser rotineiro, mas não é, fosse colocado em marcha para entregar terra para quem quer produzir alimentos.

O mais curioso é que neste município tão rico mas que possui uma massa de pessoas vivendo abaixo da linha da miséria, o que não falta é terra pronta para ser “adjudicada” em função das dívidas bilionárias que o setor sucro-alcooleiro possui com o Estado brasileiro. 

Não vamos nem falar nas dívidas tributárias e trabalhistas que as usinas falidas ainda devem para a União e seus ex-empregados. Afinal, apenas no caso da Usina Sapucaia, dados do portal Lista de Devedores do governo federal, apontam que a empresa acumula dívidas superiores a R$ 208 milhões, incluindo mais de R$ 90 milhões em débitos previdenciários não pagos aos trabalhadores.   No caso de Campos dos Goytacazes, bastaria dar uma olhada no estoque de dívidas existentes pela tomada de empréstimos milionários com o Fundo de Desenvolvimento do Município de Campos (Fundecam) que certamente já se identificariam milhares de hectares prontos para ser “adjudicados” e entregues para famílias pobres implantarem sistemas agrícolas voltados para a produção de alimentos.

Aliás, falando nas dívidas milionárias do Fundecam, talvez esse fosse o momento perfeito para os vereadores que assinaram a nota de repúdio contra a ocupação da Fazenda Santa Luzia decidirem criar uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para apurar de forma ampla, geral e irrestrita, o montante das dívidas existentes pelo setor sucro-alcooleiro com o município de Campos dos Goytacazes.  É que pau que bate em Chico, precisa bater primeiro nos Franciscos que devem bilhões aos cofres municipais.  Com a palavra os vereadores campistas, especialmente os que se dizem de oposição, mas valendo também para os que são claramente da situação!

Uma dica para começo da apuração é o caso da Usina Paraíso que em 2021 mereceu uma série de reportagens no Portal Viu que apurou uma situação para lá de estranha que envolvia personagens bem conhecidos na nossa cidade.

Em tempo: quem estuda a reforma agrária como eu estudo sabe que a sua realização representaria um salto para frente sem precedentes na história do Brasil.  Por isso, que o exemplo das famílias lideradas pelo MST possa resultar em muitas outras adjudicações. É que dívida para ser paga é o que não falta por estas bandas.

A ocupação do MST tira o véu das dívidas milionárias da Usina Sapucaia e reforça urgência da reforma agrária

A reforma agrária continua sendo o único mecanismo capaz de trazer paz e justiça no campo

A rápida reação do chamado setor (im) produtivo combinada com uma rara unanimidade na Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes (ver imagens abaixo) tem como objetivo ocultar um fato que a ocupação liderada pelo MST deixa escancarado: as dívidas milionárias que a Usina Sapucaia possui com o governo federal e com os seus antigos trabalhadores.

A ação do governo de Cláudio Castro para forçar a retirada dos trabalhadores sem terra da Fazenda Santa Luzia, que pertence à massa falida da Usina Sapucaia, é uma espécie de coroamento de uma aliança anti-reforma agrária. Tal aliança nada santa busca apenas impedir que seja feita justiça com centenas de famílias que vivem na mais completa miséria, enquanto dívidas milionárias continuam, como diria Bob Dylan, “blowing in the wind“.

Grande efetivo da Polícia Militar está impedindo entrada de água e alimentos no acampamento de trabalhadores rurais sem terra na Fazenda Santa Luzia

É importante lembrar aos vereadores que assinaram a nota de repúdio à ocupação da Fazenda Santa Luzia que a única forma de garantir um efetivo compromisso com o desenvolvimento sustentável, defender o direito dos trabalhadores e manter a legalidade seria cobrar do governo Lula a rápida desapropriação das terras da Fazenda Santa Luzia e sua transformação em uma assentamento de reforma agrária.

O resto, me perdoem, é tampar o sol com a peneira.  Fato que nessa planície tão ensolarado é um grande nada.