Com 99% do Pantanal suscetível a perder espécies de anfíbios, são necessárias mais áreas de proteção

Somente 13,7% das áreas de proteção tiveram bom desempenho na proteção de anfíbios – a maioria são terras indígenas

Mais de 80% das espécies de anfíbios do Pantanal e região terão seus habitats reduzidos até 2100, como consequência das mudanças climáticas. A perda das espécies semiaquáticas deve ocorrer em 99% da Bacia do Alto Paraguai — estimativas preocupantes, agravadas pela falta de impacto de áreas protegidas (APs) existentes (unidades de conservação e terras indígenas). As APs cobrem 6% da região e protegem menos de 5% da distribuição geográfica dos anfíbios. As conclusões foram publicadas por pesquisadores das universidades federais da Paraíba (UFPB), de Mato Grosso (UFMT), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com outras instituições, na revista científica “Journal of Applied Ecology” nesta quinta (16).

A equipe chegou às estimativas a partir de registros de ocorrência de espécies de anfíbios da Bacia do Alto Paraguai, considerando dados climáticos e topográficos, modelos de distribuição de espécies e dados de 73 unidades de conservação da região. O estudo buscou analisar a capacidade das atuais áreas protegidas de abrigar a biodiversidade, além de aplicar ferramentas de planejamento sistemático de conservação — um algoritmo de busca inteligente — para identificar áreas prioritárias para expansão e maior proteção possível da fauna semiaquática.

Somente 13,7% das APs existentes tiveram desempenho acima de áreas escolhidas aleatoriamente na proteção de anfíbios, a maioria sendo terras indígenas. Além disso, a análise apontou que apenas 12% das áreas de proteção estão em locais com grande diversidade, conforme explica o primeiro autor do estudo, Matheus Oliveira Neves: “As demais áreas foram estabelecidas há muito tempo, quando ainda não havia estudos suficientes, sendo escolhidas por sua beleza ou ancestralidade. Não levaram em consideração as espécies que estavam protegendo”, explica.

Portanto, é necessário aumentar as áreas de conservação no Pantanal — e as regiões prioritárias, segundo o estudo, seriam suas porções norte e oeste, especialmente em regiões de altitude nas transições com o Cerrado brasileiro, e ao sul, próximo ao Chaco paraguaio.

Ampliar as áreas protegidas é, inclusive, uma das metas que compõem o Quadro Global de Biodiversidade Pós-2020, proposto pela Convenção sobre Diversidade Biológica, da qual o Brasil participa. O autor sênior, Mario R. Moura, ressalta: “É a Meta 30×30, que propõe expandir as APs de 17% para 30% das superfícies de terra, mar e águas interiores até 2030. Se implementada, poderia garantir a proteção de quase 50% da área de ocorrência dos anfíbios no Pantanal, um avanço 10 vezes superior à proteção oferecida pela rede atual de áreas protegidas”.


Fonte: Agência Bori

Queimadas em Florestas Não Destinadas da Amazônia cresceram 64% no último ano

Área de floresta pública atingida pelo fogo em 2024 foi equivalente ao território de El Salvador. Análise foi feita pelo IPAM

Queimadas na Amazônia se intensificam entre agosto e outubro. Foto: Greenpeace

Por Cristiane Prizibisczki para o “OECO” 

Análise divulgada nesta sexta-feira (17) pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) mostra que os incêndios em Florestas Públicas não Destinadas na Amazônia cresceu 64% em 2024, quando comparado com o ano anterior.

Segundo a análise, 2,4 milhões de hectares foram queimados dentro dessas porções florestais ainda preservadas que, por não terem destino ainda definido pelo governo – não foram transformadas em unidade de conservação, Terra indígena, Quilombola ou destinada à privatização – são os principais alvos de crimes como ocupação irregular, desmatamento e fogo.

A área queimada é equivalente ao território de El Salvador ou todo o estado de Sergipe. Setembro de 2024 foi o mês que mais concentrou o fogo, queimando 756,3 mil hectares – foi a maior área queimada já registrada em florestas públicas não destinadas em um único mês desde 2019 pelo Monitor do Fogo, iniciativa coordenada pelo IPAM na rede MapBiomas.

Os pesquisadores do IPAM reforçam a preocupação sobre a situação dessas áreas, que viram o fogo aumentar, mesmo com a redução de 20% no desmatamento registrado em 2024, em relação ao ano anterior.

“A grilagem de florestas públicas não destinadas ainda é o motor da destruição da Amazônia brasileira. O desmatamento e o fogo fazem parte do mesmo processo de ocupação ilegal de terras públicas. As áreas queimadas em 2024 já haviam sido desmatadas antes, e assim ocorre sucessivamente. É por isso que a redução do desmate deve ser acompanhada de políticas como a destinação destas florestas, para ser uma solução sustentada”, diz Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM.


Fonte: oeco

Uso intenso de agrotóxicos provoca crise silenciosa na saúde e meio ambiente no Oeste do Pará

Avanço da soja e do milho expõe populações de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos a problemas de saúde

Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado – Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Por Liege Costa para o Brasil de Fato 

oeste do Pará se tornou um dos grandes polos agrícolas do Brasil destacando-se na produção de soja e milho. Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado, mas o uso intenso de agrotóxicos traz consequências.

“A chegada da soja trouxe desenvolvimento econômico para a região, mas a um alto custo”, afirma a Dra. Annelyse Figueiredo, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “Esses cultivos dependem de agrotóxicos, como o glifosato, que não apenas eliminam ervas daninhas, mas também contaminam o meio ambiente e afetam a saúde humana”, afirmou.

Com o Brasil consolidado como o maior produtor de soja do mundo, a dependência de agrotóxicos cresce, e o glifosato, herbicida amplamente utilizado, torna-se símbolo de um problema que afeta desde o solo até as gerações futuras.

Os números da intoxicação: um alerta para a região

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinam) revelam, que desde os anos 2000, 92 casos de intoxicação aguda por agrotóxicos foram registrados em Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos ao longo de 24 anos. Belterra lidera as notificações, com 54 casos, enquanto Santarém e Mojuí dos Campos registraram 33 e 5 casos, respectivamente. No entanto, o número pode ser apenas a “ponta do iceberg.

“Esses números podem parecer baixos, mas sabemos que para cada caso registrado, outros 50 ficam fora das estatísticas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Isso significa que o problema é muito maior do que os dados mostram”, alerta Annelyse.

O aumento de casos em Belterra, que passou de 5 notificações em 2018 para 44 em 2023, é motivo de preocupação para especialistas. A situação é ainda mais grave quando se observa que mais de 60% das vítimas são jovens com menos de 19 anos, incluindo crianças e até mesmo bebês.

“Na Escola Municipal Vitalina Mota, localizada ao longo da BR-163, cercada por lavouras de soja, alunos e professores sofrem constantemente com os efeitos da pulverização de agrotóxicos. A exposição gera sintomas imediatos, como náuseas, vômitos e tontura, e frequentemente as aulas precisam ser suspensas”, detalha Annelyse.

Impactos crônicos e subagudos: um legado de doenças

Os impactos do uso de agrotóxicos vão além das intoxicações agudas. Pesquisas apontam para o aumento de casos de câncer, doenças neurológicas e malformações congênitas na região.

“Os agrotóxicos contêm substâncias químicas que podem causar mutações celulares, favorecendo o surgimento de diferentes tipos de câncer, como linfomas, leucemias e tumores de mama e próstata”, explica a Dra. Kalysta Borges, médica oncologista e hematologista do Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém.

Ela também alerta para os danos de longo prazo: “a exposição crônica pode levar a alterações hormonais, problemas neurológicos, danos ao fígado e rins, além de aumentar os riscos de doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Isso é especialmente perigoso para populações vulneráveis, como crianças, gestantes e idosos”.

Dados do Sistema Único de saúde (SUS) revelam um aumento de 123% nas mortes por neoplasias em Belterra entre 2000 e 2020. O aumento mais alarmante foi de 667% nas mortes por doenças do sistema nervoso no mesmo período.

“Esse aumento não é coincidência. Estamos falando de uma população exposta a agrotóxicos de forma contínua, muitas vezes sem saber. Esses números indicam um problema muito maior e com consequências que ultrapassam gerações”, reforça Annelyse Figueredo.

A visão das lideranças locais

Para Sileuza Barreto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Mojuí dos Campos, os agrotóxicos representam uma ameaça direta à saúde da população e à agricultura familiar.

“Os relatos de câncer, náuseas, dores de cabeça, alergias e problemas na gravidez são constantes. Já identificamos até glifosato na urina de moradores. Isso é muito grave”, denuncia Sileuza.

Ela também aponta para os impactos no meio ambiente: “a pulverização contamina o solo, a água e até as plantações dos pequenos agricultores. Muitas famílias perderam suas produções porque os agrotóxicos atingiram áreas de agricultura familiar. Isso afeta a alimentação, a renda e a qualidade de vida dessas pessoas”.

Apesar das dificuldades, Sileuza acredita na agroecologia como solução: “estamos fortalecendo a agroecologia nas comunidades. Ela é o caminho para uma produção sustentável e para proteger a saúde das pessoas. Nossa salvação é investir em alternativas que respeitem o meio ambiente”.

Deriva técnica e o alcance invisível dos agrotóxicos

A dispersão de agrotóxicos pelo vento ou pela água, conhecida como deriva técnica, é outro problema grave. Mesmo seguindo normas técnicas, é impossível evitar que os produtos químicos atinjam áreas próximas.

“Escolas, comunidades e corpos d’água estão constantemente expostos. A chuva pode carregar os produtos para igarapés, contaminando a água utilizada para consumo ou irrigação. Isso expõe a população a riscos invisíveis e constantes”, explica Annelyse.

A Dra. Kalysta reforça que a deriva amplia os danos: “Os sintomas de intoxicação crônica podem surgir anos depois, como fadiga constante, doenças autoimunes e, em casos graves, câncer. O consumo de água contaminada ou alimentos expostos ao agrotóxico intensifica esses riscos”.

Caminhos para um futuro sustentável

Especialistas e lideranças destacam a necessidade de ações integradas para enfrentar os impactos dos agrotóxicos: 

– Criação de zonas livres de agrotóxicos: Proteger áreas sensíveis, como escolas, comunidades e corpos d’água; 

– Fiscalização rigorosa: Monitorar o uso de agrotóxicos e proibir pulverizações em locais próximos a populações; 

– Incentivo à agroecologia: Promover práticas agrícolas sustentáveis e fomentar a agricultura orgânica; 

– Conscientização da população: Educar sobre os riscos dos agrotóxicos e os direitos de saúde e proteção ambiental; 

– Melhoria no registro e monitoramento: Criar sistemas públicos para rastrear o uso de agrotóxicos na região.

“Precisamos de políticas públicas eficazes e de um esforço coletivo para proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente. Sem isso, as consequências serão devastadoras”, alerta Annelyse.

Sileuza conclui com um apelo: “A agroecologia é a nossa esperança. Não é só sobre produzir alimentos, é sobre garantir que as próximas gerações tenham um futuro”.

Um legado para as futuras gerações

Este é um chamado urgente para que políticas públicas, conscientização coletiva e práticas sustentáveis sejam adotadas em defesa da vida e do meio ambiente no oeste do Pará.

A situação na região reflete os desafios de um modelo agrícola centrado na produção de commodities à custa do meio ambiente e da saúde pública.

“Sem uma mudança estrutural, os impactos do uso de agrotóxicos continuarão a se manifestar por gerações, comprometendo o futuro das crianças, das comunidades e do ecossistema da região”, conclui Annelyse.

* Liege Costa é jornalista da Rede de Notícias da Amazônia.


Fonte: Brasil de Fatos

MP/RJ indicia procurador e professor da UERJ por desvio milionário em projetos de extensão

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou à justiça o procurador Bruno Garcia Redondo e o professor Oswaldo Munteal Filho em função do que seria um esquema de desvio de verbas de projetos de extensão na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Essa situação já foi notada neste blog no ano de 2023 quando a situação veio a público em função de diversas reportagens assinadas pelos jornalistas Igor Mello e Ruben Berta sobre o emprego das chamadas verbas secretas enviadas pelo governador Cláudio Castro para execução de projetos “especiais” pela Fundação Ceperj e pela Uerj.

Com a denúncia contra Redondo e Munteal Filho e mais 17 pessoas que estariam envolvidas nesse esquema de desvio de verbas, a situação agora vai para a esfera judicial, após quase 2 anos de espera. Se por um lado, isso me parece tempo demais, a denúncia do MPRJ tem a capacidade de trazer essa situação de volta à atenção pública.

Particularmente sou crítico do uso de universidades públicas como veículos de terceirização de serviços que deveriam estar sendo prestados diretamente por órgãos públicos cuja função é mais afeita à execução de políticas sociais. As universidades deveriam ser preservadas desse tipo de atribuição, já que suas finalidades são muito mais específicas ao campo da pesquisa, do ensino e da extensão (aqui entendida como a distribuição do conhecimento acumulado por pesquisas científicas).

Resta dizer que a denúncia não representa necessariamente a designação prévia de culpa, pois quem decidirá isso será a justiça. Agora que a situação de Bruno Garcia Redondo e de Oswaldo Munteal Filho, e dos demais 17 denunciados, não é tranquila, isso não é. Até porque com tanto tempo para a preparação da denúncia, o MPRJ deve ter caprichado no fornecimento de provas para alicerçar a decisão judicial que virá.

Finalmente, não há como deixar de notar a ironia de ter um procurador da Uerj denunciado em um esquema de desvio milionário de verbas. É que quando foi criada, a Procuradoria da Urerj foi apontada como uma espécie de guardiã da lei dentro da universidade. Pelo jeito, a realidade não ficou à altura da propaganda feita na época em que a procuradoria foi criada à fórceps pelo então reitor Ricardo Lodi.

A polêmica do PIX foi muito útil para esconder a crise climática que se abateu sobre o Brasil

Ruas da cidade de Florianópolis (SC) foram inundadas após chuvas intensas

Toda a polêmica desatada pela decisão do governo federal de apertar minimamente o monitoramento das transações via PIX foi muito útil em vários sentidos. Um deles que creio ser merecedora de atenção foi que todas as milhões de visualizações de vídeos contendo fake news sobre a portaria do PIX caíram com um lençol de silêncio sobre a manifestação da crise climática em diferentes partes do território brasileiro.

Enquanto o governo Lula se enrolava para explicar o que nem precisaria ser explicado, pelo menos 4 estados brasileiros sofreram com eventos meteorológicos extremos: Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais e Santa Catarina. Nesses 4 estados o rastro de destruição causado por chuvas particularmente intensas deveria ter soado o alarme climático, mas até agora a repercussão tem sido inexplicavelmente abaixo daquilo que ocorreu em torno dos vídeos do PIX.

O fato é que está se tornando cada vez mais evidente que vivemos o princípio de um processo de intensificação de eventos meterológicos extremos, e que está pegando a maioria das cidades brasileiras totalmente despreparadas para fazer frente a essa situação extrema. De quebra, o fato de que inexiste qualquer esforço para reservar recursos orçamentários para dar conta de todos os problemas que estão se desenvolvendo torna a situação ainda mais complexa.

E o exemplo ruim vem de cima. Há que se lembrar que mesmo confrontado com evidências de que a crise climática está se agraando, o governo Lula decidiu reduzir em R$ 200 milhões o orçamento voltado para gerenciar e reduzir riscos de desastres ambientais. A verba reservada para o programa voltado a essas medidas prevê o repasse de R$ 1,7 bilhão em 2025, contra R$ 1,9 bilhão em 2024.  É o ajuste fiscal falando mais alto do que a necessidade de responder aos efeitos trazidos por grandes eventos meteorológicos.

Mas a realide nos estados e municípios não é nada diferente, o que causa um grau altíssimo de despreparo para fazer frente aos danos catastróficos trazidos pelos eventos extremos. Ao assistir cenas do que ocorreu nos últimos dias nas áreas mais atingidas, fica evidente o despreparo das estruturas governamentais para responder de forma eficiente ao avanço das águas. 

E quando a coisa se refere ao processo de adaptação climática, a coisa vai na mesma direção, pois o país do PIX continua ignorando a necessidade de que sejam tomadas decisões estruturais e estruturantes para responder ao agravamento dos problemas climáticos.  E com isso, a tendência de que passemos a ver cenários cada vez mais dramáticos.

Que ninguém se engane: a crise climática está aqui para ficar e vai se agravar.  Assim, urge dar a devida importância política às demandas por adaptação, especialmente para os segmentos mais pobres da população que são as vítimas preferenciais da inação governamental também na área climática.

A ciência climática deve desbloquear soluções em uma época de grandes desafios

À medida que 1,5 grau Celsius de aquecimento é alcançado, a ciência climática deve olhar para o futuro, escreve Aditi Mukherji, diretora da Plataforma de Ação de Impacto para Adaptação e Mitigação das Mudanças Climáticas do CGIAR e autora do IPCC

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Instalando sensores climáticos iButton em campos agrícolas na Tanzânia. Novas pesquisas devem preencher lacunas de evidências para reduzir emissões agrícolas e melhorar sistemas alimentares, diz Aditi Mukherji. Copyright: J.van de Gevel / Bioversity International (CC BY-NC-ND 2.0)

Por Aditi Mukherji para a SciDev

[NAIROBI] Quando os principais cientistas climáticos do mundo publicarem seu próximo relatório em 2028-29, o mundo provavelmente já terá ultrapassado 1,5 grau Celsius a mais de temperatura do que na era pré-industrial por alguns anos, e o prazo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU estará no horizonte.

O limite estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015 para reduzir os impactos das mudanças climáticas foi ultrapassado pela primeira vez em 2024, confirmou o serviço de mudanças climáticas da UE, Copernicus, na semana passada (10 de janeiro).

Então, conforme a próxima avaliação da ciência climática do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) começa, é vital que respondamos às perguntas que nos servirão no futuro. Navegar pelos desafios de amanhã requer ciência com visão de futuro hoje e nos próximos meses.

No centro da nossa missão de limitar as mudanças climáticas estão as comunidades e os setores mais vulneráveis ​​aos seus impactos, especialmente a agricultura e os pequenos agricultores, que desempenham um papel fundamental na alimentação do mundo, mas estão particularmente expostos aos efeitos das mudanças climáticas.

O próximo ciclo da ciência climática deve, portanto, preencher as lacunas em evidências e soluções que reduzam as emissões de gases de efeito estufa da agricultura e, ao mesmo tempo, garantir que a agricultura permaneça viável em um mundo mais quente e menos previsível.

Sabemos que os sistemas alimentares são um grande contribuidor para as mudanças climáticas, respondendo por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. O setor claramente precisa fazer a transição para meios mais sustentáveis ​​de produção, consumo e descarte de alimentos para dar suporte às reduções globais de emissões.

No entanto, os sistemas alimentares também são vulneráveis ​​aos impactos das mudanças climáticas. As perdas agrícolas por desastres relacionados ao clima totalizaram US$ 3,8 trilhões nos últimos 30 anos, com as maiores perdas relativas nos países mais pobres. Um aumento de 2 graus Celsius nas temperaturas piorará a já séria insegurança alimentar de longo prazo em muitos países, colocando até 80 milhões de pessoas em risco de fome até 2050.

Perguntas candentes

Este próximo ciclo de avaliações do IPCC deve responder a pelo menos três questões principais relacionadas aos sistemas agroalimentares e às mudanças climáticas para ajudar o mundo a passar da compreensão da crise climática para o enfrentamento dela com a máxima urgência.

A primeira questão para os cientistas do clima é como fazer melhor uso das tecnologias existentes que ajudam os agricultores a combater e lidar com as mudanças climáticas — e aumentar sua adoção e uso.

Inovações para ajudar os agricultores a se adaptarem a novas condições, como serviços digitais de informação climática e culturas resilientes ao clima, já existem, juntamente com desenvolvimentos como bombas de irrigação movidas a energia solar e forragens de baixa emissão, ou rações, que reduzem a pegada de carbono da agricultura. Mas elas não estão chegando aos agricultores na escala necessária para fazer a diferença.

Como canalizar de forma mais eficaz o financiamento, os recursos e o apoio climático dos países mais ricos para implementar essas inovações em países de baixa e média renda é uma questão científica.

Da mesma forma, também precisamos avaliar quais ferramentas e tecnologias permitirão que os agricultores se adaptem a condições mais quentes no futuro. Ciclos de pesquisa anteriores do IPCC mostraram que a capacidade de se adaptar às mudanças climáticas se torna cada vez mais difícil à medida que as temperaturas continuam a subir. Os cientistas precisam investigar quais adaptações de cultivo, gado ou pesca permanecerão viáveis ​​a 1,5 graus Celsius ou mais.

A segunda questão para os cientistas do clima é como tornar as tecnologias de baixa emissão acessíveis e econômicas.

Para que os agricultores tenham a melhor chance de se adaptar e evitar perdas futuras, é crucial que as temperaturas globais se estabilizem e isso exige que as emissões diminuam, incluindo as da agricultura.

No entanto, diferentemente do setor energético, que se beneficiou da pesquisa e inovação em fontes renováveis ​​como a energia solar, o setor agrícola ficou para trás em investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de baixa emissão.

Precisamos urgentemente identificar campos de pesquisa emergentes e promissores, bem como as políticas, infraestrutura e governança necessárias para tornar as tecnologias limpas acessíveis e amplamente disponíveis.

Por fim, os cientistas precisam abordar a questão de como acelerar a remoção de dióxido de carbono para complementar as reduções de emissões.

À medida que as temperaturas aumentam, a capacidade natural da terra e dos oceanos de sequestrar carbono enfraquece, intensificando a necessidade de remoção de dióxido de carbono (CDR) liderada pelo homem. No entanto, intervenções como o reflorestamento podem reduzir as terras agrícolas, particularmente em países de baixa renda, representando riscos à segurança alimentar. Os cientistas do clima devem mapear os impactos tanto das temperaturas mais altas quanto dos esforços de CDR em larga escala nos sistemas alimentares e meios de subsistência para traçar um curso que não coloque em risco a segurança alimentar .

Ciência voltada para o futuro

As decisões moldadas pelos relatórios do IPCC definirão como o mundo enfrentará os desafios sem precedentes de um planeta em rápido aquecimento, especialmente à medida que nos aproximamos do final desta década crucial.

Como autores do relatório do IPCC, nosso papel vai além de fornecer insights; devemos fornecer ciência acionável, baseada em evidências e voltada para o futuro para capacitar os governos a agir de forma decisiva e eficaz. Isso inclui equipar inovadores e formuladores de políticas para aproveitar o financiamento climático, adaptar soluções aos contextos locais e se preparar para futuros aumentos de temperatura.

Acima de tudo, não podemos esquecer a justiça climática como princípio orientador desta transição verde. Garantir que os mais vulneráveis ​​— muitas vezes também os menos responsáveis ​​— permaneçam na frente e no centro dos nossos planos pode ajudar a alcançar um futuro inclusivo, onde ninguém seja deixado para trás.

Este artigo foi produzido pela Global Desk do SciDev.Net.

Aditi Mukherji é diretora da Plataforma de Ação de Impacto para Adaptação e Mitigação das Mudanças Climáticas do CGIAR e colaboradora de relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).


Fonte: SciDev

População dos EUA está exposta a produtos químicos não regulamentados na água potável, segundo estudo

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Por Shannon Kellher para o “The New Lede”

Quase 100 milhões de pessoas nos EUA podem estar expostas a produtos químicos industriais não regulamentados em sua água potável, com comunidades compostas por negros e latinos, especialmente em risco, de acordo com uma nova análise de dados de monitoramento federal para sistemas de água em todo o país.

O estudo, publicado quarta-feira no periódico Environmental Health Perspectives , analisou dados coletados pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) de 2013 a 2015 para quatro tipos de produtos químicos não regulamentados, descobrindo que 27% desses quase 5.000 sistemas públicos de água tinham níveis detectáveis ​​de pelo menos um contaminante.

No geral, mais de 97 milhões de residentes dos EUA foram atendidos por um sistema público de água com níveis detectáveis ​​dos contaminantes examinados no estudo.

O solvente incolor e inflamável 1,4-dioxano foi o mais difundido, aparecendo em 22% dos sistemas públicos de água, de acordo com o estudo . Os pesquisadores também encontraram o refrigerante HCFC-22, bem como um solvente chamado dicloroetano usado na produção de plásticos, e substâncias tóxicas per- e polifluoroalquil (PFAS) em cerca de 4-6% dos sistemas de água. Os dados da EPA contabilizaram seis tipos de PFAS, uma categoria que inclui milhares de produtos químicos: ácido perfluorooctanoico (PFOA), ácido perfluorononanoico (PFNA), ácido perfluorohexano sulfônico (PFHxS), ácido perfluoroheptanoico (PFHpA) e ácido perfluorobutano sulfônico (PFBS).

Populações hispânicas e negras correm risco especialmente alto de exposição a produtos químicos não regulamentados em sua água potável, relataram os autores. Sistemas públicos de água com níveis detectáveis ​​dos contaminantes atendiam condados com maiores proporções de residentes hispânicos do que aqueles sem detecções, por exemplo, disseram os autores.

“Nossa análise encontrou detecções mais frequentes de contaminantes industriais não regulamentados em sistemas públicos de água que atendem maiores proporções de residentes hispânicos e negros não hispânicos”, afirma o estudo. “Embora algumas das associações entre raça, etnia e contaminantes não regulamentados possam ser explicadas pela localização desproporcional de instalações industriais, nossa análise sugere que outros fatores contribuem para disparidades nas exposições a contaminantes não regulamentados da água potável.”

O coautor do estudo Aaron Maruzzo, pesquisador do Silent Spring Institute, que estuda as ligações entre poluição ambiental e saúde feminina, disse que pesquisas anteriores se concentraram em contaminantes regulamentados, identificando disparidades raciais e étnicas na exposição a nitratos e arsênico.

Em 2021, mais de 6.500 sistemas públicos de água que atendem quase 20 milhões de pessoas nos EUA tiveram violações por exceder os níveis máximos de contaminantes, de acordo com dados da EPA . No entanto, as preocupações em torno da segurança da água potável são mais profundas – embora os padrões federais tenham sido definidos para cerca de 90 contaminantes, mais de 86.000 “potenciais contaminantes químicos” são usados ​​no comércio dos EUA, de acordo com o estudo.

As descobertas destacam “a necessidade de considerar contaminantes regulamentados e não regulamentados em futuras avaliações nacionais de saúde humana sobre água potável”, disse Kelly Smalling, uma hidrologista pesquisadora do US Geological Survey que não estava envolvida no estudo.

Desde que os autores começaram o estudo, a EPA reuniu novos dados, mas usar os dados mais antigos permitiu que os pesquisadores avaliassem as disparidades demográficas de pessoas expostas aos produtos químicos visados ​​em um momento anterior à regulamentação de qualquer um deles, disse Laurel Schaider, cientista sênior do Silent Spring Institute e outra coautora do estudo.

“Isso nos deu a chance de destrinchar quais são os fatores que influenciam a ocorrência de contaminantes na água potável, talvez separadamente da parte de fiscalização”, disse Schaider.

O estudo descobriu que contaminantes não regulamentados foram detectados com mais frequência em grandes sistemas de água potável, sistemas em áreas urbanas e sistemas que dependiam de águas subterrâneas ou de uma combinação de águas subterrâneas e superficiais.

Dados recentes coletados pela EPA usaram limites de detecção mais baixos e exigiram que as concessionárias de água testassem 29 tipos de PFAS, em comparação com apenas seis do conjunto de dados anterior, sugerindo que os dados mais antigos provavelmente subestimaram o número de pessoas expostas a esses chamados “produtos químicos eternos”, disseram os autores.

Enquanto o estudo Environmental Health Perspectives descobriu que apenas cerca de 4% dos moradores expostos a contaminantes não regulamentados tinham PFAS em sua água potável, os dados governamentais mais recentes relataram que mais de 143 milhões de pessoas foram expostas. Os autores do estudo disseram que planejam comparar ambos os conjuntos de dados da EPA em uma análise futura.

Em abril passado, a EPA anunciou os primeiros limites legalmente aplicáveis ​​para seis produtos químicos PFAS na água potável.

“Ficarei interessado em ver como pesquisas futuras sobre disparidades na água potável com base em dados de amostragem PFAS mais abrangentes (ou seja, amostras com limites de detecção mais baixos e amostras coletadas de pequenos sistemas de água adicionais) contribuem para nossa compreensão das associações avaliadas neste artigo”, disse Clare Pace, uma cientista que estuda questões de equidade hídrica na Universidade da Califórnia, Berkeley, e não estava envolvida no estudo.

Além do PFAS, as descobertas do estudo fornecem “um lembrete importante de que ainda há outros contaminantes industriais não regulamentados na água potável aos quais precisamos prestar atenção”, disse Schaider.

À medida que os sistemas de água potável implementam tratamentos para remover PFAS, eles podem ter o benefício adicional de filtrar outros produtos químicos nocivos, como produtos farmacêuticos, retardantes de chamas e produtos de cuidados pessoais, disse ela.


Fonte: The New Lede

Quáquá tenta operar mais uma ressurreição de Eike Batista. Por que isso é preocupante?

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Encontrei rapidamente o de novo prefeito de Maricá, Washington Quáquá, lá pelos idos de 1998 quando ele ainda pertencia à corrente petista “Articulação de Esquerda”. Naquela reunião ocorrida no diretório do Partido dos Trabalhadores (PT) de Campos dos Goytacazes, Quáquá tentava mobilizar mentes e corações para os enfrentamentos que ocorria com a corrente comandada pelo presidente Lula e pelo ex-deputado federal José Dirceu, a Articulação.

De lá para cá, Quáquá se tornou uma figura de relevância dentro do PT, seja no âmbito do Rio de Janeiro como no nacional, e hoje além de prefeito de Maricá, é também vice-presidente nacional do partido. Além disso, o Quáquá de hoje se notabilizou por alianças que deixariam o velho Quáquá rubro de vergonha, enveredendo até pela defesa de alianças eleitorais com a extrema-direita. Mais recentemente Quáquá causou alvoroço ao defender os irmãos Brazão da acusação de que são os mandantes (ou pelo parte deles) do assassinato da vereadora Marielle Franco.

Entretanto, para mostrar que o céu é o limite para tratativas envolvendo a cidade que novamente governa, Washington Quáquá resolveu dar uma de Lázaro para realizar uma espécie de ressurreição do ex-bilionáro Eike Batista. Para isso, Quáquá recebeu o “pai” do Porto do Açu para discutir ações e projetos (parcerias na palavra do prefeito de Maricá) para transformar Maricá em “um grande centro industrial e tecnológico” do Brasil.

Pois bem, quem conhece um pouco da trajetória de Eike Batista em São João da Barra vai sentir logo a sensação de que já viu essa conversa antes, pois foi com essa conversa que o filho de Eliezer conseguiu convencer Sérgio Cabral a embarcar no rumoroso processo de desapropriação de terras que deixou centenas de famílias de agricultores familiares sanjoanenses sem seu meio de sustento e, até hoje, sem nenhum tipo de ressarcimento financeiro pela tomada de suas terras pelo governo do Rio de Janeiro.

Seja o que for que a duplá Quáquá e Eike Batista estiver planejando, o certo é que boa coisa não é. Como Quáquá está tentando tentando tirar um projeto de porto da prateleira, o mais provável é que a converda dos dois esteja indo por aí.  E isso não é nada bom para a população de Maricá, pois se a história do Porto do Açu se repetir em Maricá, o mais certo é que coisa não virá.  Quem quiser ver o que aconteceu com o projeto anterior de Eike Batista em São João da Barra, basta ir na Barra do Açu, localidade que hoje está sendo engolida pela erosão causada pelas estruturas físicas do porto do Açu.

Cientista climático que teve casa queimada em Los Angeles fala da importância da ciência

Sinto que estou seguro em dizer que não estamos prosperando em nosso planeta em mudança – e não iremos nas próximas décadas

Uma vista de uma casa e um carro queimados em Los Angeles

‘Meus filhos agora tiveram a pré-escola inundada por um furacão e a casa deles foi queimada por um incêndio florestal na escola primária.’ Fotografia: Anadolu/Getty Images

Por Benjamin Hamlington para o “The Guardian” 

Minha casa em Altadena queimou nos incêndios florestais na quarta-feira. Tudo aconteceu rápido. Na terça-feira, por volta das 19h, minha esposa e minhas filhas foram para um hotel por precaução. Saí de casa com os cachorros quando a ordem de evacuação obrigatória chegou por volta das 3h. Da melhor forma que pude juntar a linha do tempo, nossa casa queimou quase na mesma hora em que o sol nasceu, e consegui dirigir até lá e ver os danos por volta das 14h.

Os vizinhos que entraram depois disseram que parecia uma “zona de guerra”. Felizmente, nunca estive em uma zona de guerra, mas não pensei assim. Não havia nada de violento ou caótico nisso. Ninguém me impediu de dirigir. Não havia sirenes. Fiquei sozinho – ninguém por perto – na frente da minha casa, que naquele momento era apenas uma lareira e uma chaminé. A casa do outro lado da rua estava quase na metade do incêndio, e a casa atrás da nossa tinha acabado de começar a queimar.

Não houve tentativas de lutar contra nada disso – nenhum caminhão de bombeiros que eu vi. Foi tranquilo e tudo muito definitivo. Não quero minimizar a devastação e a perda que foram vivenciadas por tantos descrevendo-o como pacífico, mas foi um momento que deixará uma marca em mim, não pela extensão da destruição, mas pela calma que senti e experimentei no meio disso.

Minha casa é uma das muitas que foram queimadas. Posso ver que todos estão lidando com isso de maneiras muito diferentes e em ritmos muito diferentes. Não tenho uma perspectiva especial ou única para compartilhar, principalmente porque a experiência das últimas 24 horas não é única ou especial. Esses eventos — muitas vezes muito mais devastadores em termos de perda de vidas do que este — estão acontecendo em todos os lugares e com mais frequência a cada ano que passa. Como um cientista climático observando esses eventos à distância, pode haver uma reação de concordar e dizer: “Sim, é isso que esperamos que aconteça e o que nossa ciência mostra”. Isso é verdade, claro. Este evento, para mim, destruiu qualquer limite entre meu trabalho e o resto da minha vida, minha família, meus amigos. Isso me faz refletir se as palavras que usamos com frequência para falar sobre as mudanças climáticas são consistentes com o que eu gostaria de ouvir neste momento. Eu realmente não tive tempo para sentar e fazer uma pausa até agora, e só tenho uma reflexão para compartilhar.

Recentemente no trabalho, tenho trabalhado com outros para considerar atualizações de um importante documento de orientação para a Nasa escrito em 2017 intitulado: Prosperando em Nosso Planeta em Mudança: Uma Estratégia Decadal para Observação da Terra do Espaço. Não importa realmente qual seja o documento agora, mas houve discussões sobre como o enquadramento deve mudar vários anos depois. Sinto que estou seguro em dizer que não estamos prosperando em nosso planeta em mudança. E não prosperaremos em nosso planeta em mudança nas próximas décadas. Mas não estou cheio de desespero ou fadiga ou pronto para desistir de tentar ajudar.

Mesmo que prosperar não seja possível (o que eu realmente não acho que seja), proteger o que é mais importante para nós, apoiar comunidades vulneráveis ​​ao redor do mundo e garantir uma vida decente para nossos filhos pode ser possível e vale a pena trabalhar para isso da melhor forma possível. Podemos ser realistas e esperançosos de encontrar uma solução positiva — uma que não realize tudo, talvez, mas que faça o suficiente.

Meus filhos agora tiveram sua pré-escola inundada por um furacão e sua casa queimada por um incêndio florestal na escola primária (OK, talvez eu seja um pai ruim e um cientista climático ruim…). Espero que eles não sejam tão diretamente impactados, mas a ocorrência desses eventos será a realidade de sua geração por um bom tempo. Mas talvez quando eles tiverem minha idade, eles pelo menos verão que uma solução foi colocada em prática e haverá uma crença maior de que seremos capazes de proteger o que é importante para nós.

Muitos de vocês que estão lendo isto são colegas meus trabalhando em direção a objetivos semelhantes. Obrigado por todo o trabalho que vocês fazem – é importante e importa. Digo isso não apenas na minha capacidade de trabalho, mas também como uma pessoa comum lidando com algo desafiador agora.

Benjamin Hamlington é um cientista pesquisador no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e um líder de equipe na equipe de Mudança do Nível do Mar da NASA.


Fonte: The Guardian

Paramilitares contra os sem-terra: contradições criadas pela distribuição desigual da terra no Brasil ficam evidentes em Tremembé

Após a tentativa de assassinato de ativistas do movimento MST, a Polícia Federal do Brasil também está investigando os agressores

O MST está lutando por uma distribuição justa da propriedade da terra no Brasil Foto: IMAGO/João Souza
Por Peter Steiniger para o Neues Deutschland

O governo brasileiro avalia o ataque armado da última sexta-feira a um assentamento de de reforma agrária ligado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) como uma ação dirigida contra a reforma agrária. Dois integrantes do MST foram assassinados e outros seis ficaram feridos no ataque ocorrido no município de Tremembé, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo. O ministro do Desenvolvimento Agrícola e da Agricultura Familiar do Brasil, Paulo Texeira, que compareceu ao funeral das duas vítimas no domingo, classificou o ataque como um sinal de alerta. Isto é também uma consequência do discurso de ódio com que a extrema direita criminaliza a reforma agrícola.

O assentamento foi atacado à noite por dez homens armados que entraram com dois carros e cinco motocicletas e abriram fogo contra pessoas presentes em um local de encontro. Os integrantes do MST Valdir do Nascimento (52), que recebeu vários tiros na cabeça, e Gleison Barbosa de Carvalho, de 28 anos, foram mortos. Nascimento fazia parte da gestão da filial do MST em Tremembé. Um homem ferido permanece em estado crítico no hospital e teve que ser colocado em coma artificial pelos médio.

O  assentamento de reforma agrária fica localizado na periferia da cidade de Taubaté, leva o nome da comunista e combatente da resistência Olga Benário, assassinada pelos nazistas alemães em 1942. Benário foi casada com o revolucionário brasileiro Luis Carlos Prestes e extraditada para a Alemanha de Hitler . A comunidade agrícola de Tremembé reúne cerca de 45 famílias. O projeto foi legalizado pela pelo INCRA há duas décadas.

Desde então, Gilmar Mauro, da direção nacional do MST, rejeitou as declarações do delegado de polícia de Taubaté. Ele explicou que o motivo exato do crime ainda está sendo investigado, mas que o ataque está relacionado a uma “disputa interna” pela venda de lotes de lotes pertencentes ao assentamento. A especulação por terrenos para construção floresce na região, também em conexão com o crescente turismo no Vale do Paraíba.

O líder do MST, porém, explicou que o responsável foi o capital imobiliário, que está ligado à política local e mira imóveis atrativos na periferia urbana para a construção de condomínios. Depois de penetrar nas reservas florestais, os caçadores de lucros passariam a assediar as famílias que aqui viviam. Milícias criminosas foram recrutadas para o massacre de Tremembé para intimidar as famílias e expulsá-las do país. Mauro enfatizou em mensagem de vídeo que só com sorte não teria havido mais vítimas devido ao ataque com armas pesadas.

O presidente do Brasil, Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda, e o Ministério da Justiça e Segurança Pública ordenaram que a Polícia Federal participasse da investigação para solucionar o crime. Isto foi justificado por um interesse público abrangente e pela violação dos direitos humanos.

Pouco depois do ataque, foi preso um homem de 41 anos que portava armas e, com base em depoimentos de testemunhas, é suspeito de ser o líder do esquadrão de ataque. No domingo, a polícia também prendeu um de seus supostos cúmplices. As acusações do Judiciário são homicídio, tentativa de homicídio e posse ilegal de armas.

Em nota, o MST, além de lamentar a morte de dois companheiros, manifestou indignação com a falta de uma política no estado de São Paulo para proteger suas comunidades agrícolas. O ataque é outro ato de conflito de terras aqui. Os territórios onde a Reforma Agrária se consolidou não foram protegidos pelas autoridades, apesar das repetidas exigências; As famílias que ali vivem estão expostas há muito tempo a ameaças e violência. Nas últimas décadas, as instituições e cooperativas do movimento também sofreram repetidos ataques e tentativas de assassinato contra ativistas em outras partes do Brasil.

Até hoje, a agricultura brasileira é caracterizada por uma distribuição extremamente desigual de terras, que tem suas raízes na era colonial. As estruturas semifeudais sobreviveram em muitos lugares, especialmente no interior. Mesmo sob governos progressistas, uma distribuição mais justa de terras não avançou suficientemente.

A organização de pequenos agricultores, fundada há quatro décadas no final da ditadura militar, tem um adversário poderoso no lobby dos grandes proprietários de terras e das empresas agrícolas, que é aliado do ex-presidente extremista de direita Jair Bolsonaro. O movimento de massas MST, que recorre repetidamente à ocupação de terras e é um importante produtor de alimentos produzidos organicamenteé rotulado como terrorista pelos latifundiários .

Durante sua visita à comunidade “Olga Benário”, o Ministro Texeira confirmou que o governo federal não permitiria ataques para dissuadi-lo de seu programa de reforma agrária . Pelo contrário, querem avançar com “a fixação de pessoas que garantam a produção de alimentos”. No caso Tremembé, disse o político do Partido dos Trabalhadores, “esperamos que a polícia investigue os autores e o verdadeiro mandante deste crime”.


Fonte: Neues Deutschland