COP 16: Ativismo e Greenwashing

A conferência da ONU sobre proteção da biodiversidade em Cali, Colômbia, é um símbolo de conflitos ambientais

cali cop16Esperança pela proteção das espécies? Ativistas manifestam o seu ceticismo à margem da cimeira da ONU. Foto: Agência EL UNIVERSAL/Estrella

Por Sarah Meyer para o Neues Deutschland

A Colômbia – o país que tem o maior número de ativistas ambientais assassinados no mundo e é o lar de uma das maiores biodiversidades – acolhe a Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Ameaçadas de Extinção (COP 16) deste ano em Cali. O lema da conferência é “Paz com a Natureza” e o seu objetivo é um plano para implementar os 23 objetivos da ONU da COP 15 em Montreal para conter a destruição ambiental e a extinção global de espécies até 2030.

Cali, conhecida como a “Cidade dos Pássaros”, serve como símbolo das tensões do país: a biodiversidade encontra a monocultura, a pobreza extrema encontra a riqueza e o protesto social encontra indústrias poderosas. A conferência deste ano enfatiza pela primeira vez as perspectivas indígenas e afro-colombianas, mas destaca os conflitos profundos entre a população local e a política.

Em Cali, os participantes da conferência estão espacialmente separados: representantes dos quase 200 estados participantes reúnem-se na “zona azul”, a área protegida para negociações políticas e delegações de alto escalão. A população indígena e afro-colombiana encontra-se predominantemente na “zona verde” aberta ao público – simbolicamente distante dos processos de tomada de decisão. Luis Acosta, porta-voz da Guarda Indígena e da Organização Nacional dos Povos Indígenas da Colômbia, critica duramente esta separação. “Basta de ser explorado”, explica. “Queremos ter uma palavra a dizer em pé de igualdade.”

Esta representação das minorias étnicas é promovida pelo governo de esquerda do presidente Gustavo Petros – por exemplo, elas são consultadas sobre determinados temas na “zona azul”. Mas a exclusão estrutural da “zona azul” permanece.

Petro tenta dar espaço ao seu compromisso com as minorias no evento de abertura da conferência. Ele critica a crescente monocultura da cana-de-açúcar que domina a área a redor de Cali e expulsa as minorias étnicas. Sua afirmação de que as comunidades estão migrando para as favelas por causa da grande propriedade de terras é recebida com aprovação. O prefeito de Cali, Alejandro Eder, e a governadora Dilian Francisca Toro – ambos ligados à indústria açucareira – são vaiados.

Povos indígenas de todas as regiões da Colômbia também protestam em torno da COP 16 pela proteção de suas áreas e pelo financiamento direto que deveria beneficiar a natureza. Eles estão pedindo o afastamento das indústrias extrativas. Estes não só ameaçaram o seu ambiente, mas também a sua saúde.

Enquanto os representantes indígenas e afro-colombianos na “zona verde” esperam o apoio da sociedade civil, as grandes empresas estão a aproveitar o palco para o greenwashing, ou seja, para criar uma imagem sustentável. O grupo cervejeiro da Baviera e empresas de comunicação social como El Tiempo, por exemplo, declaram o seu apoio à protecção ambiental.

Um colombiano mais velho que observa os estandes das grandes empresas na “zona verde” resume o estado de espírito de muitos dos presentes: “É absolutamente ridículo o que estão fazendo aqui. Para os ativistas ambientais no local, isto é um exemplo”. de como os interesses económicos são colocados acima das preocupações da natureza e das populações marginalizadas.

Os conflitos entre interesses econômicos e proteção ambiental são visíveis não só em torno de Cali, mas também no norte da Colômbia. Há greves em Guajira durante a COP 16. Os grevistas culpam a mina de carvão El Cerrejón, operada pela empresa suíça Glencore, pelos problemas de saúde e pela escassez de alimentos entre a população indígena. A mina também abastece a Alemanha com carvão.  Petro anunciou que iria eliminar completamente o carvão e, em vez disso, construir parques eólicos na região com parceiros alemães. No entanto, a população local permanece cética.

De acordo com o Juiz Especial para a Paz, a mineração ilegal, a guerra civil que já dura mais de 50 anos e os conflitos de drogas são fatores importantes na destruição ambiental. A natureza é reconhecida como uma “vítima silenciosa” do conflito armado. O Painel para a Paz defende a avaliação e punição dos combates armados.

Na COP 16, os movimentos sociais que fazem campanha contra diversas outras injustiças também querem fazer ouvir a sua voz. Mães cujos filhos foram assassinados nas ruas pelas forças de segurança do Estado durante os protestos de 2019 e 2021 fizeram campanha por informação. Indivíduos como uma antiga empregada doméstica que escondeu o seu filho de um político que a violou também estão a tentar chamar a atenção para si próprios com sinais de protesto.

Muitos ativistas da COP 16 não acreditam nos grandes acordos que serão celebrados na “zona azul”. Em vez disso, esperam que as suas vozes na “zona verde” sejam pelo menos ouvidas na sociedade e desencadeiem um repensar. O radialista Camilo Adolfo Mayor, da estação Oriente Estéreo, explica a esperança emergente com a presidência do Petro desde 2022: “Com o primeiro governo de esquerda, abriu-se um lugar para a base”.


Fonte: Neues Deutschland 

Bomba climática em Valência: após a catástrofe das inundações, população se organizam em face da inação dos governantes


paraportaPrincípio da autoajuda: Os voluntários tomam a reparação dos danos com as próprias mãos (Paiporta, 1 de novembro de 2024)

Por Carmela Negrete para o JungeWelt

Milhares de pessoas, incluindo muitos jovens, organizaram-se para apoiar os residentes nas zonas mais gravemente danificadas da região espanhola de Valência. Com vassouras, latas de água e mochilas cheias de comida e remédios, eles se deslocam pelas ruas, que muitas vezes só são transitáveis ​​a pé por quilômetros. As autoridades espanholas alertaram contra o uso de carros nas áreas do desastre, especialmente nas muitas aldeias onde as chuvas torrenciais causaram os piores danos na terça-feira. Relatos da mídia e pedidos de ajuda nas redes sociais confirmam que muitas pessoas ainda estão presas em suas casas.

Embora a ajuda institucional demore a chegar, os refeitórios sociais estão a ser improvisados ​​com o que ainda pode ser encontrado. Sem eletricidade, sem água. Particularmente pérfido: em locais onde ainda não chegou nenhum apoio e onde já não existem oportunidades de compras, os residentes ainda recebem avisos se, por exemplo, retirarem água ou alimentos em lojas fechadas.

Foi a pior tempestade que a Espanha sofreu em cem anos. A verdadeira extensão dos danos ainda é desconhecida. O número de pessoas desaparecidas está na casa dos milhares. Segundo fontes oficiais, 202 mortes foram registradas até a tarde de sexta-feira. Ao mesmo tempo, as redes sociais estão repletas de mensagens de vizinhos alegando que os corpos ainda estão debaixo de escombros, em caves e garagens inundadas, ou mesmo em casas que precisam de ser recuperadas.

Na quinta-feira, o presidente regional Carlos Mazón, membro do conservador Partido Popular (PP), anunciou que o exército seria utilizado para trabalhos de limpeza. O Ministério da Defesa enviou então 1.700 soldados dos cerca de 120.000 que compõem o exército espanhol – um número que parece ridículo tendo em conta a destruição e que faz pouca diferença, como relatam numerosas testemunhas oculares. O partido de esquerda Podemos apela ao governo para que declare o estado de emergência, mobilize todas as forças disponíveis e confisque temporariamente hotéis e outros alojamentos. À medida que as pessoas procuram ajuda desesperadamente, os preços dos hotéis em Valência disparam.

O próprio Mazón é cada vez mais criticado. Governando junto com o partido negacionista do clima Vox, ele aboliu a unidade de resgate de desastres naturais durante seu mandato e enganou a população no pior momento da terça-feira, quando anunciou às 18 horas que a chuva iria parar em breve – exatamente no momento em que a tempestade realmente começou. Ironicamente, as autoridades receberam permissão para voltar para casa mais cedo para evitar serem apanhadas pela tempestade.

Houve avisos: o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) tinha publicado uma previsão cinco dias antes que previa o que aconteceria então de uma forma muito semelhante, explicou Antonio Turiel, especialista em clima do Conselho Superior de Investigação Científica ( CSIC), na quinta-feira o canal Canal Red . “Se eventos com intensidade e destrutividade equivalentes a um furacão são iminentes”, diz Turiel, “medidas como evacuações” devem ser ordenadas.


Fonte: JungeWelt

PT, direita volver!

pt direita volver

Passados alguns dias do segundo turno das eleições municipais já é possível afirmar, lendo declarações de alguns dos seus principais dirigentes, que o PT está inclinando-se para a direita, com uma firmeza que não deveria deixar mais dúvidas. Uma hora é o deputado federal (PT/SP) que afirma que o PT deveria ter feito um esforço maior para se aproximar do prefeito recém-eleito da capital paulista. De forma quase sincrônica, o (de) novo prefeito de Maricá, Washington Quaquá, classificando o apoio dado a Guilherme Boulos (PSOL) como uma espécie de morte anunciada, pois, para o falante vice-presidente nacional do PT, o certo seria fazer alianças mais à direita com partidos como PP, PSD e Republicanos que garantiram a vitória apertada em Fortaleza. E a chamada “esquerda” do PT, essa até onde se sabe permanece muda, sem mostrar capacidade ou, pior, disposição de combater a narrativa de próceres do calibre de Tatto e Quá quá.

O que sabe até agora é que foi disparada uma disputa pelo comando nacional do PT, e que deverá  contrapor membros da mesma tendência interna, a “Construindo um Novo Brasil” (CNB), que, apesar de discordâncias pontuais, quer fixar o partido em uma posição de centro (direita) a partir da qual se poderá continuar apoiando as medidas recessivas retiradas do mais puro caldo neoliberal pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Aliás, falando em Haddad, ele após visitar os banqueiros da Faria Lima está preparando um pacote de maldades dignas de terem sido engendradas por Paulo Guedes. que está sendo escondido pelo singelo nome de “pacote de revisão de gastos”.  Mantido até agora sob uma cortina de fumaça, esse pacote deverá atingir os mais pobres, começando por limitar via reformas da constituição federal gastos com saúde e educação.  Mas de forma prática, os cortes deverão afetar o chamado Benefício de Prestação Continuada (BPC), o seguro-desemprego e outros direitos essenciais.

O fato é que com a aplicação desse pacote, o que deverá ocorrer será uma concentração ainda maior dos recursos públicos nas mãos dos banqueiros, e um aumento ainda maior  das dificuldades dos trabalhadores brasileiros de terem acesso a serviços públicos essenciais. E aí que o PT e o governo da frente ampla se dão as mãos para abraçarem os partidos da direita e da extrema-direita, seja na aprovação do pacote de maldades de Fernando Haddad, seja na formação de alianças para as eleições de 2026.

Esclareço que essa é uma análise muito preliminar do que eu estou chamando de uma inexorável e firme marcha do PT para a direita.  A lição que fica, até para militantes sinceros do PT, é que não é possível ficar apostando em uma suposta guinada para a esquerda, que sempre se espera em nome da memória afetiva do que o PT já foi ou de que poderia ter sido.  A verdade crua e nua é que há que se apostar na construção de outros instrumentos de luta, partidária e ´para além dela, para fazer frente às políticas neoliberais que continuam sendo impostas sobre os trabalhadores brasileiros.

Essa guinada para a esquerda deve começar por abandonar as ilusões no PT, rejeitar as teses neoliberais e de contrapor esse programa de destruição do Estado e da coisa pública com a construção de uma nova direção política que seja capaz de mobilizar a classe trabalhadora em defesa de seus direitos.  Um bom exemplo desse esforço de construção, é o abaixo-assinado que está circulando para obter apoio para a luta contra o que está sendo chamado de “Pacote Antipovo” de Fernando Haddad. Quem se interessar em ler e apoiar, esse movimento em defesa dos direitos trabalhadores, basta clicar [Aqui!].

Negacionismo científico em torno da existência do sistema de recifes do Amazonas revela a existência de um “bolsonarismo de esquerda”

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O grande sistema de recifes do Amazonas virou um alvo preferencial de uma peculair de Bolsonarismo, o “bolsonarismo de esquerda”

O portal Brasil 247  repercutiu no dia de hoje uma entrevista do professor aposentado da UFPA, Luís Ercílio Faria Junior, que foi feita pela Associação de Engenheiros da Petrobras que é um primor no sentido de mostrar que, na busca de se justificar a arriscada empreitada de explorar petróleo e gás na região da foz do Rio Amazonas, negar a ciência não é algo restrito ao que se convencionou chamar de “Bolsonarismo”.

Ao tentar enterrar evidências científicas sérias, as quais foram levantadas por cientistas que possuem produções acadêmicas altamente cientificas atribuindo a existência de um sistema recifal na foz do Amazonas, que foi denominado de “Great Amazon Reef System” (GARS)“, o que se faz é aumentar a campanha anti-científica que tem sido conduzida pela extrema-direita no Brasil e no resto do mundo, especialmente no que se refere à existência de uma grave crise climática.

E isso para quê? Para justificar a ampliação da participação do Brasil na exploração de combustíveis fósseis, inclusive em áreas de grande importância ecológica e social, como é o caso da região da foz do Rio Amazonas.

Como esses ataques estão vindo de setores que se dizem de esquerda, o que me parece ficar demonstrado é que quando se trata da ideologia negacionista, podem chamar de Bolsonarismo se quiserem, fica claro que ela não está estabelecida e operada pela chamada extrema-direita. Curiosamente, oq que os ataques à integridade ecológica do GARS em nome da exploração de petróleo e gás é que há sim uma variante de esquerda no Bolsonarismo.

Na busca de um lar para Spock

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Raramente uso o espaço deste blog para questões que não seja ciência, educação e política, mas vou abrir uma exceção para fazer um pedido bastante pessoal aos leitores deste blog. Há uns dias resgastei um filhote de gato (de no máximo 2 meses de idade) no meu quintal e até pensei em aumentar a família felina, mas um exame de sangue detectei que o Spock (nome dado por causa das orelhas pontiagudas) deu positivo para FIV, um vírus que afeta o sistema imunológico dos felinos. 

Como eu já hospedo uma gata que é FIV negativa, se tornou impossível adotar o Spock. Por isso, peço aos leitores do blog para que me ajudem a encontrar outro lar para Spock. Qualquer contato sobre essa procura de um lar para o Spock, por favor entrar em contato no endereço eletrônico do blog.

JBS quebrou suas próprias regras ao comprar gado criado em áreas desmatadas ilegalmente no Pantanal

Fornecedores da JBS desmataram ilegalmente grandes áreas de vegetação do Pantanal, mostra reportagem

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O Pantanal é a maior área úmida do mundo. Localizado no Brasil, Bolívia e Paraguai, ele cobre mais de 170.500 km² e abriga mais de 4.000 espécies de plantas e animais. Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP via Getty Images 

Por Naíra Hofmeister e Fernanda Wenzel para o “Unearthed”

A maior empresa de carne do mundo comprou gado mais de 100 vezes de uma fazenda que foi sancionada e multada em quase £ 2 milhões por destruir ilegalmente áreas úmidas únicas e vulneráveis ​​no Brasil, conforme revelado  pela Unearthed .

A gigante brasileira da carne bovina JBS, que fornece para KFC, McDonalds, Walmart e Tesco , tem sido repetidamente associada à destruição em larga escala da Amazônia. As compras de gado da JBS parecem estar em violação direta de suas promessas de manter sua cadeia de suprimentos limpa. 

As descobertas vêm como parte de uma investigação mais ampla sobre o crescente impacto da indústria de carne bovina do Brasil nas áreas úmidas do Pantanal, um hotspot de biodiversidade que está cada vez mais ameaçado por incêndios florestais e agronegócios. Nossa investigação, baseada em uma análise encomendada pelos especialistas em imagens de satélite da AidEnvironment, descobriu que fornecedores diretos e indiretos dos três maiores frigoríficos do Brasil desmataram uma área de pelo menos sete vezes o tamanho de Manhattan no Pantanal nos últimos cinco anos . 

A grande maioria disso, 93%, estava ligada à JBS. A Unearthed então investigou os 10 maiores desmatadores na análise e encontrou fornecedores diretos da JBS envolvidos com desmatamento ilegal e conflito de terras indígenas. 

A JBS precisa ser responsabilizada tanto pela destruição imprudente do ecossistema quanto pela lavagem verde enganosa

A JBS vem promovendo recentemente seus controles de desmatamento e credenciais verdes antes de uma tentativa de listar ações na Bolsa de Valores de Nova York . Ela diz que está reprimindo o desmatamento em sua cadeia de suprimentos, mas está expandindo significativamente a produção no Pantanal, com planos de criar o maior matadouro da América Latina . O pantanal listado como Patrimônio Mundial da UNESCO acaba de ter uma de suas piores temporadas de incêndios florestais .  

“É chocante descobrir que a JBS continua a ser uma das principais causas do desmatamento flagrante, enquanto engana os clientes com alegações de que está reduzindo o desmatamento em sua cadeia de suprimentos”, disse o senador dos EUA Cory Booker em resposta à nossa investigação. “A JBS precisa ser responsabilizada tanto por sua destruição imprudente do ecossistema quanto por sua lavagem verde enganosa.”

Em nota, a JBS disse: “As fazendas mencionadas estão bloqueadas pela JBS e, portanto, automaticamente impedidas de fazer negócios com a empresa. Bloqueios causados ​​por embargos são realizados assim que há visibilidade nos sistemas alimentados pelas instituições públicas responsáveis.” 

Gado pasta em área queimada de vegetação do Pantanal após os incêndios florestais de 2020, os piores que a região já viu. Foto: Mauro Pimentel / Getty

A JBS não comentou a escala de desmatamento ligada aos seus fornecedores descoberta pela investigação e acrescentou que as fazendas foram bloqueadas antes que a Unearthed contatasse a empresa.

O diretor da Mighty Earth no Brasil, João Gonçalves, disse: “Para alimentar suas enormes operações de carne, a JBS demonstrou, mais uma vez, que tem pouca consideração pelas pessoas ou pelo planeta ao continuar a obter gado, mais de 100 vezes, de uma fazenda proibida, responsável pelo desmatamento no vulnerável Pantanal.

“Uma guerra contra a natureza está sendo travada pela indústria da carne no Pantanal e a JBS está na linha de frente”, acrescentou .

O Pantanal é um mosaico único de pântanos, florestas e rios. Ele inunda sazonalmente, seus córregos e rios são inchados por chuvas torrenciais que viajam para o sul da floresta amazônica. Até relativamente pouco tempo, era um refúgio para a vida selvagem, lar da maior concentração mundial de onças-pintadas , centenas de espécies de pássaros e grandes mamíferos, como antas e tamanduás-bandeira. 

Danos causados ​​por incêndios no Pantanal, no estado do Mato Grosso do Sul. A área úmida listada como Patrimônio Mundial da UNESCO acaba de ter sua segunda pior temporada de incêndios florestais já registrada. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

Embora permaneça alto, o desmatamento na Amazônia caiu desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou à presidência em 2023. Mas continuou a aumentar em seu vizinho menos conhecido, o Pantanal, de acordo com uma análise do MapBiomas colaborativo de mapeamento . As secas, agravadas pelas mudanças climáticas e pelo desmatamento na Amazônia, tornam mais fácil que os incêndios provocados por fazendeiros para limpar a vegetação queimem fora de controle. Este ano, os satélites detectaram 10.956 incêndios de junho a setembro, tornando esta a segunda pior temporada de incêndios desde o início dos registros . Apenas 2020 foi mais intenso, matando mais de 17 milhões de vertebrados e queimando quase 30% do bioma . 

“Estamos enfrentando uma das piores situações já vistas no Pantanal”, disse Marina Silva, ministra do Meio Ambiente do Brasil, aos jornalistas . 

Açougueiros do Brasil

Desde sua criação, há 70 anos, como um açougue familiar no estado de Goiás, a JBS se expandiu e se tornou a maior produtora de carnes do mundo, com interesses comerciais nos cinco continentes. 

Essa ascensão meteórica exigiu a transformação em larga escala de grandes áreas de florestas tropicais e savanas do Brasil em fazendas de gado . Nos últimos anos, sob crescente escrutínio internacional por seu papel no desmatamento da Amazônia, e buscando listar nos EUA, a JBS disse que eliminará todo o desmatamento de sua cadeia de suprimentos na Amazônia brasileira até 2025 e em todo o país, incluindo o Pantanal, até 2030 . 

A JBS tem uma política de “tolerância zero ao desmatamento” e bloqueou 16.000 fazendeiros que não estavam em conformidade, disse o CEO da JBS, Gilberto Tomazoni, ao The New York Times no ano passado .

O Pantanal abriga a maior concentração de onças-pintadas do mundo. Mas o bioma está cada vez mais ameaçado pelo desmatamento para agronegócio em larga escala, seca e incêndios. Foto: Leandro Cagiano / Greenpeace

“Colocamos [em] um blockchain para obter informações dos fornecedores indiretos. Até agora, temos cerca de 50% dos fornecedores indiretos no blockchain, e quando estivermos totalmente neste blockchain, podemos rastrear 97% da nossa carne bovina.” 

Mas no Pantanal, a JBS está expandindo sua pegada. No início deste ano, a empresa disse que dobraria a capacidade de seu frigorífico Campo Grande II, que recebe gado de muitos dos fornecedores identificados nesta investigação, permitindo-lhe abater 4.400 vacas todos os dias .

Em fevereiro , o frigorífico Campo Grande II recebeu duas remessas de gado da Fazenda Querência, no município de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, segundo a plataforma de transparência da JBS . 

De acordo com as próprias regras da cadeia de suprimentos da JBS , essa compra não deveria ter sido possível. A agência ambiental brasileira, IBAMA, havia colocado um embargo por desmatamento ilegal em mais de 1 km² da fazenda no mês anterior , e a JBS alega que seus sistemas a bloqueiam automaticamente de comprar gado de quaisquer fazendas embargadas . 

Embargos são o mecanismo do Brasil para punir fazendeiros por destruir vegetação sem permissão, ou em áreas que são legalmente supostamente protegidas . Eles impedem que terras desmatadas ilegalmente sejam usadas, permitindo que a vegetação se recupere enquanto impõe uma penalidade financeira. Comprar gado desta fazenda viola diretamente os compromissos ambientais da JBS.

Este embargo foi cancelado no final de outubro por uma decisão judicial preliminar. Mas estava longe de ser a única vez que a JBS parece ter comprado gado de Querência enquanto estava sob sanção. De 2018 a 2023, a plataforma de transparência da JBS lista 112 compras de gado pelos frigoríficos Campo Grande I e II da JBS da Fazenda Querência em Aquidauana . Os registros do IBAMA mostram que a Fazenda Querência teve dois embargos ativos do IBAMA durante este período. Um desses embargos, imposto em 2016, cobria 28 km², aproximadamente metade do tamanho de Manhattan, e incluía uma multa de quase £ 2 milhões .  

Os embargos foram levantados recentemente, mas em ambos os casos os fazendeiros admitiram o desmatamento ilegal da vegetação do Pantanal . 

(A plataforma da JBS lista apenas nomes de fazendas e municípios, mas apenas uma fazenda em Aquidauana chamada Fazenda Querência aparece no registro nacional de terras do Brasil .)

A JBS se recusou a dizer quando Querência ou as outras propriedades foram bloqueadas, apenas que as “aquisições seguiram a Política de Compras da JBS de acordo com as informações disponíveis na época”.

No total, segundo análise da AidEnvironment, a Fazenda Querência desmatou um total de 50 km² de vegetação natural entre 2019 e 2023 – destruindo uma área do Pantanal equivalente à metade do tamanho de Paris . 

Em resposta às nossas perguntas, André Ribeiro Corrêa, um membro da família proprietária da Querência, disse que eles contestaram o embargo de 2024. Ele enviou um documento mostrando uma ordem judicial para suspender o embargo enquanto o Ibama toma uma decisão final. Corrêa não quis fazer mais comentários . 

De 2018 a 2023, enquanto comprava regularmente gado de uma fazenda embargada, a JBS exportou 83 remessas de carne bovina ou subprodutos bovinos do município de Campo Grande para o Reino Unido, totalizando 1.350 toneladas, sugerem dados comerciais coletados pela Panjiva, embora os dados não detalhem de qual matadouro os produtos se originaram. As exportações da JBS para os EUA de Campo Grande totalizaram 46.600 toneladas, e para a Itália, que importa couros bovinos da JBS para sua indústria de couro, mais de 24.000 toneladas . Os dados da Panjiva também sugerem que a JBS exportou carne bovina para a Alemanha e Holanda de Campo Grande durante esse período. 

“Os frigoríficos que operam no Pantanal são os mesmos da Amazônia, mas aplicam menos controles aos fornecedores lá”, disse Luciano Furtado Loubet, promotor estadual do Mato Grosso do Sul que trabalha com fiscalização ambiental. “As empresas não realizam auditorias para verificar se seus controles e sistemas estão funcionando corretamente”, acrescentou.

Bombeiros combatem incêndios no Pantanal, Mato Grosso do Sul, este ano. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

A análise da AidEnvironment rastreou o desmatamento recente em uma amostra de fazendas que forneceram direta ou indiretamente os maiores frigoríficos do Brasil – JBS, Marfrig e Minerva – de 2018 a 2019. Usando GTAs de 2018 a 2019 – documentos que rastreiam o gado entre fazendas e matadouros, originalmente projetados para evitar a propagação de doenças – e dados de satélite, descobriu que 190 fazendas desmataram um total de 426 km² do bioma Pantanal de 2019 a 2023. 

É provável que esse número seja subestimado, já que a AidEnvironment só teve acesso a uma amostra não abrangente de GTAs, e os frigoríficos podem ter estabelecido novos relacionamentos de fornecimento desde então . 

A Marfrig informou que, de 2018 a 2019, comprou gado de 46 propriedades no Pantanal e, posteriormente, bloqueou 17 delas por descumprimento de algum compromisso da empresa.

“A empresa reafirma seu compromisso de não adquirir animais de áreas desmatadas, unidades de conservação, terras indígenas, territórios quilombolas, áreas embargadas e propriedades ou proprietários na lista suja de trabalho análogo ao escravo em todos os biomas onde atua”, disse a Marfrig em nota, acrescentando que já monitora 100% de seus fornecedores diretos e 93% de seus fornecedores indiretos no Pantanal .

A Minerva disse que se comprometeu a monitorar todos os seus fornecedores diretos e indiretos na América do Sul até 2030. Atualmente, ela está monitorando todos os seus fornecedores diretos no Brasil, que estão sujeitos a auditorias anuais, disse a empresa.

“A cada nova venda de animal, toda propriedade passa por uma análise de conformidade, de acordo com os critérios adotados pela Companhia”, diz o comunicado. “Caso sejam identificadas irregularidades em relação aos critérios, o fornecedor é bloqueado no sistema, impedindo novas negociações até que a situação seja regularizada. Nesse contexto, as auditorias mais recentes mostram que todas as compras realizadas atingiram 100% de conformidade.” 

Do total de desmatamento vinculado às três empresas, 394 km², ou 93%, foram associados à JBS – uma área maior que a Ilha de Wight .

Um filhote de tamanduá resgatado das queimadas do Pantanal deste ano recebendo cuidados veterinários. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

A grande área de desmatamento da Fazenda Querência é responsável por 13% do desmatamento encontrado na amostra de fornecedores da JBS analisada pela AidEnvironment entre 2019 e 2023. 

O segundo maior desmatador na análise, a Fazenda Tupaceretã, converteu 17 km² de vegetação nativa entre 2019 e 2023 . 

A JBS parou de comprar gado da fazenda enquanto um embargo de 2018 em 5,8 km² estava ativo . De fato, o representante do fazendeiro reclamou ao IBAMA que o produtor estava “incapaz de vender gado ou acessar crédito” como resultado do embargo . A negociação com a JBS foi retomada em 2020 após o proprietário de Tupaceretã pagar “taxas de reposição florestal” e uma multa ao IBAMA pelo desmatamento ilegal. 

Mas entre setembro de 2021 e abril de 2022 — período em que a Tupaceretã vendeu três lotes de gado para a JBS — especialistas em uso da terra do MapBiomas encontraram novos desmatamentos em áreas da fazenda que deveriam ser preservadas por lei . 

“O alerta mostra que o desmatamento foi feito para plantio de pastagem”, disse Eduardo Rosa, da equipe do Pantanal do MapBiomas.

O sistema de conformidade da JBS usa dados do satélite PRODES, que são divulgados anualmente pela agência espacial brasileira INPE. Mas o MapBiomas publica novos alertas de desmatamento semanalmente, verificados pela equipe e acompanhados de relatórios detalhados e imagens de alta resolução.

A propriedade foi vendida em dezembro. Imagens de satélite do Planet Labs de julho e agosto mostram uma vasta área de 145 km² na Fazenda Tupaceretã que parece ter queimado durante a temporada de incêndios deste ano. Os satélites captaram mais de 91 incêndios queimando na propriedade este ano . Um advogado dos novos proprietários disse que eles não venderam gado desde que compraram a fazenda. Eles não ofereceram uma explicação para o incêndio. 

As regras da cadeia de suprimentos da JBS não excluem fazendas que usam fogo para limpar terras, apesar de uma investigação do Greenpeace de 2021 ter vinculado os incêndios recordes no Pantanal em 2020 aos fornecedores de gado da JBS.

Um advogado do antigo proprietário da Fazenda Tupaceretã, Linneu Rondon, que morreu em abril, disse que o espólio de Rondon assinou um acordo com o Ministério Público do Mato Grosso do Sul para reparar os danos ambientais encontrados na fazenda e pagou uma multa ao IBAMA para encerrar o embargo de 2018.

Os embargos são apenas uma das regras da cadeia de suprimentos da JBS; outra afirma que a empresa “não compra de pessoas envolvidas com invasão de terras indígenas” .

Um tamanduá-bandeira resgatado de incêndios florestais no Pantanal do Brasil. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

Mas os promotores acusaram os proprietários de outro fornecedor da JBS no Pantanal em nossa análise, a Fazenda Touro Peru, no município de Porto Murtinho, estado do Mato Grosso do Sul, de cultivar em território indígena. A Touro Peru foi uma fornecedora regular da JBS de 2018 a 2022 , e desmatou 4,4 km² nos últimos cinco anos 

Os promotores alegaram que seus proprietários registraram uma fazenda de gado diferente, chamada Baía da Bugra, na Terra Indígena Kadiwéu, também em Porto Murtinho . 

De acordo com uma decisão judicial de 2021 , a família buscou anular o reconhecimento oficial do território indígena, argumentando que sua propriedade da fazenda é anterior à demarcação do território Kadiwéu na década de 1980. O conflito é antigo; em 2013 e 2017, membros do grupo étnico Kadiwéu ocuparam a fazenda em protesto. 

Outras fazendas pertencentes à família, Fazenda Santa Lucia e Fazenda Sapucay, também são fornecedoras da JBS na análise da Aidenvironment, totalizando mais 1,7 km² de desmatamento . Cerca de 60% do território Kadiwéu foi queimado durante os  incêndios deste ano 

Um advogado da família proprietária da Fazenda Touro Peru não respondeu a um pedido de comentário. 

Agricultura tradicional ameaçada

Por gerações, o Pantanal permaneceu como um reduto para a vida selvagem , ao mesmo tempo em que ainda apoiava a agricultura tradicional de baixa intensidade compatível com a preservação: o gado pasta nas pastagens nativas naturais e se move com as inundações sazonais. Consequentemente, cerca de 85% da vegetação nativa do Pantanal permanece . As vacas pastam ao lado de espécies que estão ameaçadas em outros lugares, como veados-do-pantanal, queixadas e tamanduás-bandeira . 

Mas agora o bioma está sob pressão do agronegócio em larga escala no bioma vizinho Cerrado, onde as plantações de grãos, especialmente a soja, estão causando o desmatamento. 

“Ao redor do Pantanal, a soja tomou conta. Então a pressão para criar gado está crescendo no Pantanal porque fora do bioma não tem mais espaço para isso”, disse o biólogo Gustavo Figueiroa, da ONG SOS Pantanal .

Uma anta ferida pelos incêndios florestais no Pantanal recebeu atendimento veterinário no Mato Grosso do Sul. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

Todos os fornecedores da JBS que a Unearthed investigou — os 10 maiores desmatadores na análise da AidEnvironment sobre os fornecedores do frigorífico — estão situados nos cinco municípios com a maior área queimada em 2024. Um estudo recente da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostrou que esses também estavam entre os locais mais desmatados no Pantanal em 2023 .

“Os pecuaristas querem produzir mais por hectare e o caminho é substituir o campo nativo por pastagem de braquiária”, disse Rafael Chiaravalloti, professor especialista em manejo de recursos naturais do Pantanal.

Os embargos do IBAMA impostos às fazendas Querência e Tupaceretã apontam que áreas desmatadas foram semeadas com capim braquiária, uma espécie invasora que compete com gramíneas nativas e é altamente inflamável .

Com a expansão do frigorífico Campo Grande II da JBS, especialistas dizem que a demanda por gado no Pantanal vai aumentar.

“Qualquer expansão das operações de carne da JBS levará o bioma ao ponto de ruptura, impactando a Amazônia e o Cerrado”, disse Gonçalves, da Mighty Earth. “A JBS deve obter controle total de suas cadeias de fornecimento de carne bovina e suspender urgentemente todos os fazendeiros empenhados nessa destruição da natureza para obter lucro.”

Como uma área úmida, o bioma também é particularmente sensível à seca que atualmente afeta todo o continente. Um estudo recente do WWF Brasil prevê que este ano pode ser o mais seco do bioma desde que os registros começaram — pior ainda do que 2020, quando uma seca histórica levou a incêndios sem precedentes, muitos deles iniciados em fazendas de gado . 

“É considerada seca quando o Rio Paraguai cai abaixo de quatro metros. Nas cheias de 2024, essa medida não passou de um metro”, disse Helga Correa, especialista em conservação do WWF-Brasil .

Agora, alguns cientistas temem que as zonas úmidas possam estar se aproximando de um ponto crítico, quando o Pantanal perderia sua capacidade de recuperação natural, sofrendo uma perda abrupta de espécies . 

“O Pantanal é uma das áreas úmidas mais biodiversas do mundo”, disse Correa. “É uma herança que precisamos conservar.”


Fonte: Unearthed

A revitalização do Centro de Campos: diga-me com quem e como fazes, e te direi qual será o resultado

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O monumental edifício que abrigava o Hotel Flávio em chamas:  uma rica história arquitetônica virando fumaça

Por Douglas Barreto da Mata

Ao contrário do que diz a maioria, o abandono dos centros das cidades médias e grandes no Brasil e no resto do mundo não é só resultante de processos de drenagem econômica destas áreas, geralmente associado à criação de shoppings e bairros mais afastados.  Estes fatores impactam esse fenômeno, mas não respondem a todas as questões implicadas.

Em Campos dos Goytacazes há um nítido esforço da prefeitura, personalizado no prefeito Wladimir, de tratar desse tema. Atitude louvável.  Eu temo apenas que ele se reúna, justamente, com os que deram causa ao problema (as elites comerciantes locais e suas entidades), e que agora posam de solução.

Primeiro e antes de mais nada, não há um só modelo, por óbvio, nem todos funcionam, e sim, há modelos que beneficiam mais a alguns e menos a outros.  Foi o que aprendi com Raul Juste Lores, jornalista que tem um programa muito legal sobre o tema no YouTube: São Paulo Nas Alturas.

Há boas pistas ali, que merecem ser consideradas, apesar das particularidades de cada processo histórico. Porém, há princípios básicos, vamos a eles.  O olhar da elite falida campista é um só: da valorização imobiliária em si, do maior emprego de verbas públicas, e claro, com o menor esforço deles. Foi justamente isso que trouxe a cidade a esse ponto, a especulação e concentração imobiliária, a elisão e evasão fiscais, e a apropriação do espaço público pelo setor privado, naquilo que chamo de mini grilagem urbana, com os empreendimentos avançando sobre calçadas, hegemonia de carros sobre pedestres e transportes públicos, enfim, a privatização dos centros.

Como avançam como gafanhotos sobre o espaço da cidade, e matam toda vida possível, agora reclamam mais e mais recursos para salvarem a si mesmos dos males que eles mesmos se infligiram.  Mentalidade parecida com a do agronegócio, que destruiu todo um ecossistema nacional, e exige ajuda para se livrar daquilo que “plantou”. 

Nas cidades europeias e nas colônias, as cidades se erigiam em volta de uma praça (núcleo central), onde estavam a igreja, câmara e a cadeia, e outras instalações públicas.  Destes pontos derivaram as ruas e os bairros.  Mesmo com a modernização capitalista do automóvel, e outras que aumentaram a pressão sobre os centros, as cidades mais inteligentes mantiveram seus sistemas de transportes públicos, o acesso ao centro por equipamentos públicos de mobilidade, e principalmente, tentaram conter a especulação imobiliária, que empurrava as pessoas para as franjas da cidade, o que nem sempre se conseguia, mas eram compensados pela eficiente circulação de pessoas em modais coletivos.

Qualquer medida a ser considerada para revitalizar centros urbanos, como o campista, tem que considerar primeiro o essencial: gente.  Há modelos como o da zona portuária do Rio, e de Porto Madero, em Buenos Aires (este já definido), que privilegiaram aspectos imobiliários.  Em Buenos Aires a aposta em um altíssimo padrão resultou em um bairro parecido com os Alphavilles no Brasil (em BA, com enormes torres), porém, no modelo portenho, há amplo acesso aos pedestres e os imóveis não se isolam das vias públicas, pois há muitos com lojas, cafés e restaurantes, e tanto que anda vê quem está dentro, como vice versa. Isso aumenta a segurança. 

Ideia central em qualquer projeto desse tipo é a de que as pessoas vejam, e se protejam.  Ainda que as ruas de Porto Madero não sejam essa explosão de gente, o fato é que ali há calçadas enormes, parques e etc.  Não sei se no Rio de Janeiro isso vai dar certo, até porque a realidade da violência na capital fluminense e na capital portenha são abissais.

Já nas outras áreas centrais recuperadas, as diretivas foram parecidas, com combate à especulação e concentração fundiária urbana, aumento dos impostos para imóveis ociosos, transferência de serviços públicos para as áreas degradadas, transporte público acessível, e claro, intervenções no domínio das propriedades, no quesito da arquitetura dos imóveis, dando ênfase aos edifícios que se integrem a paisagem, e não se exilem dela atrás de muros, grades e canteiros.

Por fim, as praças, parques e todo tipo de espaço de convivência que possa ser criado e mantido com eficiência.  Menos estacionamentos e mais praças.  Como eu disse, lá no começo, tenho pouca fé de que o prefeito sozinho consiga mover a carcomida e obtusa elite comercial da cidade na direção oposta ao que pensam.

Andar pelo centro campista e ver “espaços reservados” para veículos de “clientes” ou “donos”, quando algumas dessas restrições de espaço são feitas com cones e pedaços de madeiras ilegais, ao arrepio das autoridades, ou assistir ao lamentável espetáculo proporcionado por essa gente, quando da adoção de ciclofaixas, eu diria que o prefeito Wladimir Garotinho já teria muito trabalho. 

Porém, ao delegar a um bando de parasitas sociais uma tarefa que deveria ser pública e do público todo (não apenas os comerciantes) torna, no meu modesto entender, impossível a missão. Afinal de contas,  não se pode cometer os mesmos erros e esperar resultados diferentes.

Ondas de calor podem provocar colapso dos ecossistemas e ameaçar novas gerações, afirma relatório

amazonia desmatamentoAmazônia está à beira de um ponto de inflexão, passando de sumidouro de carbono para fonte de carbono para a atmosfera. Future Earth/Divulgação

bori conteudo

O aumento das temperaturas globais torna nosso planeta cada vez mais inabitável e está perturbando processos vitais nos oceanos, levando a Amazônia ao limite de um colapso em grande escala e colocando em risco uma geração ainda não nascida, aumentando as chances de complicações na gravidez e até mesmo de perdas. Essa é uma das conclusões do relatório anual ‘10 Novos Insights em Ciência Climática’, lançado na  última segunda-feira (28) pela The Earth League, um consórcio internacional de cientistas e especialistas em clima.

O trabalho revela o impacto avassalador das mudanças climáticas, que podem reverter décadas de progresso em saúde materna e reprodutiva, contribuir para eventos de El Niño mais extremos e causadores de prejuízo, além de ameaçar a Amazônia, um dos mais importantes sumidouros naturais de carbono, juntamente com outros sete insights climáticos cruciais.

O relatório abrange uma gama de pesquisas climáticas e foi elaborado para subsidiar os formuladores de políticas com o conhecimento mais recente disponível. As informações científicas foram sintetizadas para destacar as implicações políticas que podem orientar as negociações na COP29, que ocorre em novembro, no Azerbaijão, e direcionar as políticas nacionais e internacionais.

“O relatório confirma que o mundo enfrenta desafios em escala planetária, desde o aumento das emissões de metano até a vulnerabilidade de infraestruturas críticas. Ele mostra que o aumento do calor, a instabilidade dos oceanos e a possível virada da Amazônia podem empurrar partes do nosso planeta além dos limites habitáveis. No entanto, também oferece caminhos claros e soluções, demonstrando que, com ação urgente e decisiva, ainda podemos evitar resultados incontroláveis”, diz Johan Rockström, co-presidente da The Earth League e diretor do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático, na Alemanha.

“O relatório revela o alcance dos impactos da mudança do clima em diferentes sistemas ecológicos, econômicos e sociais. Com menos ambientes habitáveis, a migração de populações pode se intensificar. Também existe um impacto importante na saúde materna, que pode perdurar por gerações”, afirma Mercedes Bustamante, professora da UnB (Universidade de Brasília) e membro do conselho editorial da publicação.

Segundo ela, no Brasil, há uma articulação entre as ações do país para reduzir o desmatamento e a degradação da Amazônia e as iniciativas internacionais para diminuir as emissões de gases de efeito estufa, que afetam o bioma de forma sinérgica. Apesar dos desafios globais em intensificação, ela ressaltou que há um conjunto de políticas e soluções que podem ser implementadas para enfrentar as mudanças climáticas de maneira eficaz. Diante das ameaças à saúde materna, essas soluções integram, por exemplo, ações de equidade de gênero e justiça climática.

O relatório também destaca dois grandes desafios para o mundo natural. O aquecimento dos oceanos persiste e os recordes de temperatura da superfície do mar continuam a ser quebrados, levando a eventos de El Niño mais severos do que se compreendia anteriormente. Segundo o relatório, as perdas econômicas globais adicionais projetadas devido ao aumento na frequência e intensidade do El Niño, resultante do aquecimento global, podem chegar a quase 100 trilhões de dólares ao longo do século 21.

A série ‘10 Novos Insights em Ciência Climática’, lançada com a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas) nas COPs desde 2017, é uma iniciativa colaborativa da Future Earth, da The Earth League e do Programa Mundial de Pesquisa Climática, sintetizando os principais desenvolvimentos recentes na pesquisa sobre mudanças climáticas. O relatório deste ano representa o esforço coletivo de mais de 80 pesquisadores de destaque, provenientes de 45 países.

Veja os 10 insights:

Metano: Desde 2006, os níveis de metano aumentaram drasticamente. Já existem soluções econômicas, mas políticas rigorosas são necessárias para reduzir suas emissões nos setores de combustíveis fósseis, resíduos e agricultura.
Poluição do ar: A redução da poluição atmosférica melhora a saúde pública, mas afeta o clima de forma complexa, exigindo que as estratégias de mitigação e adaptação levem isso em consideração.
Calor extremo: Temperaturas e níveis de umidade crescentes estão tornando partes do planeta inabitáveis. Planos de ação contra o calor precisam priorizar os grupos mais vulneráveis.
Saúde materna e reprodutiva: Extremos climáticos estão prejudicando a saúde materna, ameaçando décadas de progresso. Soluções precisam integrar equidade de gênero e justiça climática.
Mudanças nos oceanos: O aquecimento dos oceanos agrava eventos de El Niño e ameaça a estabilidade de sistemas marinhos, podendo causar perdas econômicas globais massivas.
Resiliência da Amazônia: A diversidade biocultural ajuda a Amazônia a resistir às mudanças climáticas, mas essas ações locais precisam ser complementadas por reduções globais de emissões.
Infraestruturas críticas: Infraestruturas estão cada vez mais vulneráveis a desastres climáticos. Ferramentas de IA podem ajudar a torná-las mais resilientes.
Desenvolvimento urbano: Poucas cidades integram mitigação e adaptação em seus planos climáticos. Uma abordagem que combine fatores sociais, ecológicos e tecnológicos pode ajudar no desenvolvimento resiliente.
Minerais de transição energética: A demanda por minerais de transição está aumentando, assim como os riscos na cadeia de suprimentos. Melhor governança é essencial para uma transição justa.
Justiça climática: A aceitação pública das políticas climáticas depende de sua percepção de justiça. A exclusão dos cidadãos no processo de formulação pode gerar resistência.


Fonte: Agência Bori

Espanha e o sistema de recifes da Amazônia: distância que a crise climática aniquila

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A região leste da Espanha, especialmente a cidade de Valência, ainda tenta se recuperar dos efeitos devastadores das maiores tempestades em décadas que deixaram um visível rastro de destruição e mortes (até agora o número está na casa de uma centena, mas promete aumentar), um claro sinal de que a crise climática é algo que continuará a se manifestar globalmente, desconhecendo as fronteiras artificiais traçadas pela sociedade humana (ver imagens abaixo).

Enquanto isso no Brasil, segue a pressão para que a Petrobras seja autorizada a perfurar na região do foz do Rio Amazonas onde se acredita existirem reservas de petróleo e gás cuja exploração justificaria a destruição de um ecossistema de alta importância ecológica conhecido cientificamente como “Great Amazon Reef System (GARS) ” (ou em bom português, Grande Sistema de Recifes da Amazônia). No caminho da sanha exploratória apenas um grupo de técnicos do IBAMA que se nega a emitir licenças ambientais necessárias para iniciar a destruição daquele ecossistema tão singular quanto importante. Sobre eles está recaindo um pesado ataque que se assemelha muito ao que sofreram há pouco tempo pelas mãos do governo de Jair Bolsonaro, em viés explícito de Macarthismo de esquerda ( ver imagem abaixo).

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Algo que precisa ser lembrado, após a quase total da privatização total da Petrobras pelo governo Bolsonaro, é que a empresa hoje é praticamente uma para-estatal, cujos beneficiários principais são seus acionistas estrangeiros que residem a milhares de distância do GARS, e não poderiam se preocupar menos com sua destruição em nome de uma quantidade maior de dividendos.

O fato é que o embate entre os que querem proteger o GARS e os que querem destruí-lo (começando por sua negação como fez recentemente a diretora executiva de exploração e produção da Petrobras, Sylvia Anjos.  O buraco aqui é muito mais embaixo, pois, para justificar a exploração do GARS, há que se negar a própria existência da crise climática e as responsabilidades do Brasil na sua ocorrência, tanto pelas emissões oriundas da destruição acelerada das nossas florestas, mas também pela própria exploração de combustíveis fósseis.

Por isso é que há um esforço para apagar as conexões existentes entre o que está ocorrendo na Espanha (e já ocorreu recentemente aqui mesmo no Brasil) e a aposta no avanço da fronteira extrativa dos combustíveis fósseis, como é o caso da tentativa de abrir poços sobre o sistema de recifes amazônicos. Desta forma, não adianta nada o presidente Lula e a emudecida ministra Marina Silva fazerem seus discursos de sensibilidade climática em banquetes realizados para os convidados das Conferência entre as Partes (COP), ou Conferência do Clima (COPs), enquanto aqui mesmo o que vale é o ronco incessante das motosserras e o barulho das brocas de perfuração nos poços de petróleo.

O problema é que a crise climática é real e é devastadora, especialmente para os mais pobres. Isso torna a aposta no combustíveis fósseis algo que só faz sentido para os detentores de grandes lotes de ações das petroleiras, a Petrobras inclusa.  Reagir às pressões por mais extração de petróleo e gás se tornou uma das principais necessidades pelos defensores do clima da Terra. E essa reação começa pela defesa dos técnicos do IBAMA que estão cumprindo o seu dever com grande coragem como servidores públicos que são.

Agronegócio financia lobby para patrulhar livros didáticos

De Olho No Material Escolar tem entre seus líderes um ex-executivo da indústria de agrotóxicos, nega o impacto do desmatamento da Amazônia causado pela pecuária e vê até poemas de autores como Ferreira Gullar como conteúdos negativos sobre o agro

lobby livros didáticos

Por Hélen Freitas | Edição Paula Bianchi e Diego Junqueira para a Repórter Brasil

“O que as crianças e os adolescentes estão aprendendo que vai ser bom para o mundo do trabalho?”, perguntou Christian Lohbauer, vice-presidente da associação De Olho No Material Escolar, a uma plateia de políticos e empresários reunidos na capital paulista, no início de outubro. Ele discursava durante evento do Lide, grupo criado pelo ex-governador de São Paulo João Dória.

“Ela não pode aprender, todos os dias, em todos os materiais, há 30 anos, que tem trabalho escravo na cana-de-açúcar. Ela não pode aprender que o alimento brasileiro está envenenado com agrotóxicos. Ela não pode aprender que a pecuária é responsável pela destruição da Amazônia, porque não é verdade”, o próprio Lohbauer respondeu. 

Cientista político e um dos fundadores do Partido Novo, ele lidera uma organização que se apresenta como um grupo de pais e mães apartidários preocupados com o ensino dos filhos. Na prática, porém, trata-se de um movimento financiado por empresas do agronegócio com um objetivo: alterar materiais didáticos para retratar o setor de forma mais positiva.

Christian Lohbauer (à direita) e Letícia Jacintho se reuniram com o presidente do Senado Rodrigo Pacheco (ao centro) no início deste ano para falar do Plano Nacional da Educação. (Foto Reprodução/Redes Sociais)
Christian Lohbauer (à direita) e Letícia Jacintho se reuniram com o presidente do Senado Rodrigo Pacheco (ao centro) no início deste ano para falar do Plano Nacional da Educação. (Foto Reprodução/Redes Sociais)

Com apenas três anos, a De Olho No Material Escolar, conhecida como Donme, cresceu e vem ganhando espaço em instituições públicas. Já fechou parceria com a Universidade de São Paulo (USP), tem portas abertas nas secretarias de Educação e de Agricultura do estado e mantém diálogos com a cúpula do Congresso, em Brasília, na tentativa de influenciar o novo Plano Nacional de Educação (PNE) – que vai estabelecer as diretrizes da educação na próxima década. 

Por trás desta atuação, porém, está o financiamento de dezenas de empresários e corporações do agronegócio. A organização declara 70 empresas entre os membros, mas não diz quem são. Um estudo ainda inédito, de pesquisadoras da Faculdade de Educação da USP e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mostra que na lista estão grandes associações, como a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que representa companhias como a JBS, a Cargill, o Itaú BBA e a Cosan.

A associação também é financiada pela Croplife Brasil, representante das maiores fabricantes multinacionais de agrotóxicos e que era presidida por Christian Lohbauer até 2023, quando ele deixou o cargo para assumir como vice-presidente da Donme.

“Somos uma entidade que busca a atualização do material escolar com base em conteúdo científico, equilibrado e que gere perspectivas positivas para os estudantes”, afirma a Donme em seu site.

Em conjunto com a USP, por exemplo, a organização criou a “Agroteca”, uma biblioteca virtual com publicações sobre o agronegócio. Nela, é possível encontrar conteúdos que negam que o Brasil seja o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, tema frequente nas falas da Donme. 

No entanto, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o Brasil lidera com folga o ranking de consumo de pesticidas, quando considerados os dez países com as maiores áreas de lavoura no mundo. A média aqui é de mais de 12 kg aplicados por hectare. Na sequência estão Indonésia (6,5 kg/ha), Argentina (5,9 kg/ha) e Estados Unidos (3 kg/ha).

Negar a responsabilidade da pecuária pelo desmatamento na Amazônia e a existência de trabalho escravo na cana-de-açúcar também fazem parte desta estratégia – ainda que diversos estudos apontem a criação de gado como o principal vetor da destruição na Amazônia, e mesmo que a cana seja um dos setores que mais empregam mão-de-obra escrava, com 1.105 trabalhadores resgatados nos últimos quatro anos. 

Especialistas em educação pública ouvidos pela Repórter Brasil classificam a organização como uma versão atualizada do “Escola Sem Partido”, que há uma década passou a fiscalizar o material didático e promover perseguições a professores para impedir uma suposta “doutrinação ideológica” nas escolas. 

Para o professor da pós-graduação em Educação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Rodrigo Lamosa, que pesquisa políticas públicas de educação, o posicionamento da organização é, muitas vezes, “absolutamente ideológico e nada científico”.

“Os livros didáticos são produzidos por autores diversos, são avaliados no interior das editoras e depois no Programa Nacional do Livro Didático, que é um dos maiores programas de distribuição de livros públicos e gratuitos do mundo”, afirma Lamosa. “Então, por mais que a gente possa ter divergências e críticas a alguns livros, isso é parte do processo que constitui a diversidade do campo educacional”, complementa

Um dos objetivos do movimento é ir contra essa diversidade para impor uma visão única, opina o professor da Faculdade de Educação da USP Daniel Cara. “O agronegócio considera que a educação é uma esfera importante para disputa da hegemonia das ideias na sociedade, para disputa da formação de opinião pública”, afirma ele, que é membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE).

Lobby da associação mira plano nacional de educação

Inicialmente batizada de “Mães do Agro”, a Donme foi fundada em 2021 pela pecuarista Letícia Jacintho, atual presidente da associação.

Ela faz parte de uma família influente no agronegócio, com empresas e fazendas em São Paulo e Goiás, nos ramos de pecuária, cana-de-açúcar e soja. Letícia é considerada uma das mulheres mais poderosas do agro pela revista Forbes, juntamente com a sua sogra, Helen Jacintho. Também fundadora da Donme, Helen é membro do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). 

Em três anos, a organização conquistou associados em 17 estados e 129 cidades. Entre suas ações, a entidade realiza palestras, treinamentos e análise de materiais escolares. Organiza reuniões com editoras de livros didáticos, além de excursões a feiras do agronegócio para alunos, professores e profissionais das editoras. Atua também no lobby em Brasília. 

Apenas neste ano, a organização já se reuniu pelo menos duas vezes com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), para debater o Plano Nacional de Educação (PNE). O documento deve ser votado em 2025, com validade para os próximos dez anos.

O documento de referência do plano, divulgado em dezembro, foi alvo de críticas da De Olho No Material. A associação diz que a proposta é pouco plural, carece de “base técnico-científica na abordagem do conteúdo” e apresenta “postura refratária à iniciativa privada”. 

As críticas foram apresentadas em uma nota assinada conjuntamente por outras associações do agro, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Sociedade Rural Brasileira (SRB).

Desde então, a Donme realizou diversas investidas em Brasília. Além dos encontros com Pacheco e Lira, reuniu-se com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), presidente da Comissão de Educação da Câmara. Em março, o deputado apresentou os resultados de um estudo da Donme, que avaliou as menções ao agro no material escolar, durante uma reunião da Frente Parlamentar Agropecuária. 

O deputado corroborou a visão da associação de que os livros didáticos supostamente trazem uma visão distorcida do agro, e prometeu pautar a Comissão de Educação. “Afinal de contas, o agro é que sustenta, e é locomotiva deste país”, justificou.

Já em abril, quando o Senado realizou uma sessão temática para debater o PNE, a Donme indicou vários nomes para discursar. A sessão foi solicitada pela senadora Damares Alvares (Republicanos-DF) a pedido da associação, segundo apurou a Repórter Brasil.

O PNE, porém, só deve avançar quando for analisado o requerimento do deputado federal Rafael Brito (MDB-AL) e de outros 13 parlamentares, para que seja criada uma comissão mista de análise do plano, composta por deputados e senadores. Desde julho o pedido está parado na Câmara.

donmeEm encontros com os presidentes da Câmara Arthur Lira e do Senado Rodrigo Pacheco, a De Olho no Material Escolar apresenta suas propostas para o Plano Nacional da Educação (Fotos: Reprodução Redes Sociais)

Para a coordenadora da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Andressa Pellanda, a Donme está atuando junto com a bancada ruralista em torno do novo PNE, e pode impedir avanços em temas como as mudanças climáticas.

Procurada, a De Olho No Material Escolar disse em nota que trabalha para a melhoria da qualidade do conteúdo didático sobre o agronegócio oferecido às escolas, independentemente do tema. “Nosso principal ponto é que a ciência esteja presente nos livros didáticos com dados e informações técnicas e reais, por isso a parceria com institutos de pesquisas e instituições de ensino especializadas no setor”. Leia a resposta completa.

Movimento influencia escolas particulares

Embora já tenha alcançado a cúpula do Congresso, o movimento teve início com uma simples carta enviada a uma escola particular de Barretos, interior de São Paulo.

Letícia Jacintho e outros pais escreveram para um colégio na cidade que utilizava o material didático do sistema Anglo, para criticar como temas como desmatamento e povos indígenas eram abordados. Segundo a carta, “as crianças são incentivadas a manifestar piedade aos índios e repudiar a cultura da cana-de-açúcar [por retirar as terras dos indígenas]”.

Página enviada pelo grupo de pais questionando a abordagem do livro didático. (Foto: Reprodução)
Página enviada pelo grupo de pais questionando a abordagem do livro didático. (Foto: Reprodução)

O protesto viralizou quando o agrônomo e político Xico Graziano, ex-secretário de Meio Ambiente no governo de José Serra e voz influente no agro, divulgou a história. “Tem coisa errada [nos livros], tem coisa doutrinária, esquerda, esquerdismo”, disse Graziano.

Na carta ao Anglo, os pais afirmavam que a realidade do campo é “totalmente” diversa da retratada nos livros. “A cana-de-açúcar é responsável por uma parcela importantíssima de nossos empregos e renda”, escreveram. 

Após o episódio, Letícia decidiu realizar um estudo sobre materiais didáticos, mas faltava o financiamento. Foi quando entrou em cena a Croplife Brasil, associação das fabricantes de agrotóxicos, que era então presidida por Christian Lohbauer. 

“A gente [Croplife] foi um dos principais financiadores do estudo, junto com todo um pessoal que eu ajudei a angariar das associações do agro. A pecuária, os exportadores de carne, os exportadores de frango e suínos, açúcar e etanol, que são setores muito afetados [pelos livros escolares]”, lembrou Lohbauer em uma entrevista recente.

Em janeiro de 2023, Lohbauer deixou a presidência da Croplife para embarcar na Donme. Chamado de “professor”, o executivo passou boa parte da carreira em empresas, como a Bayer, e associações ligadas ao agronegócio, como a Abag. Ainda foi candidato a vice-presidente do Brasil pelo partido Novo em 2018. 

Ele também é comentarista da Brasil Paralelo, produtora conhecida pela veiculação de conteúdo audiovisual de extrema-direita, em um programa ao lado do deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP).

O estudo financiado pela Croplife – o mesmo apresentado pelo deputado Nikolas Ferreira à FPA – identificou que a maior parte das menções ao agro em 94 livros didáticos tinham tom negativo. Um dos exemplos apresentados é um poema de 1991 de Ferreira Gullar, que trata das condições precárias dos trabalhadores de cana-de-açúcar. Os resultados da pesquisa são utilizados pela associação em palestras, entrevistas e no lobby.

“Homens que não sabem ler e morrem de fome/ aos viente e seta anos/ plantaram e colheram a cana /que viraria açúcar”, diz poema de Ferreira Gullar, apontado pelo movimento como exemplo negativo (Foto: Reprodução/Estudo Donme)
“Homens que não sabem ler e morrem de fome/ aos viente e seta anos/ plantaram e colheram a cana /que viraria açúcar”, diz poema de Ferreira Gullar, apontado pelo movimento como exemplo negativo (Foto: Reprodução/Estudo Donme)

O discurso da Donme sensibilizou ao menos um representante do sistema Anglo, Mario Ghio, ex-presidente e atual conselheiro da Somos Educação, dona das marcas Anglo, Mackenzie, Ática e Saraiva. Ele se lembrou da carta de Letícia durante o evento do Lide neste mês.

“A gente se conheceu num momento duro, a Letícia veio me dar uma ‘paulada na cabeça’. Ela veio me criticar, e eu falei: ‘você tem razão’. Nós temos autores metropolitanos que viveram uma vida urbana e que acham que o mundo agropecuário é o Jeca Tatu do Monteiro Lobato ou é o destruidor da Amazônia, que eles leem em alguns meios de comunicação. A gente precisou reconhecer o problema, andar pra trás, educar todo mundo”, declarou.

Atualmente, a Somos Educação mantém parcerias com a Donme para a elaboração de vídeoaulas e treinamento para autores e editores. A reportagem não conseguiu confirmar se o material do sistema Anglo é alterado sob orientação da Donme. 

Questionada, a Somos Educação declarou que “todo o material didático é atualizado anualmente, seguindo as orientações curriculares do Ministério da Educação (Base Nacional Comum Curricular e Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental), com todo o rigor técnico-pedagógico”. “A Somos Educação se pauta pela pluralidade de ideias e busca manter seus materiais em constante atualização”, finalizou.

Parceria com a USP e aproximação do governo de SP

Não foi apenas o Anglo que abriu as portas para a De Olho No Material. Em Piracicaba (SP), a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, decidiu colocar sua produção acadêmica à disposição da associação em um projeto de divulgação científica. 

Assim nasceu em 2022 a “Agroteca”, uma biblioteca virtual com conteúdo do agronegócio. No repositório, porém, não há menções a fatos como  a responsabilidade do agronegócio por queimadas ou desmatamento.

Procurada, a Esalq não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

O governo paulista também abriu as portas para a Donme. “O primeiro estado que passou a adaptar os seus materiais próprios, os escritos, até por orientação do [ex-governador João] Dória, foi o estado de São Paulo junto com o movimento De Olho No Material, justamente porque a gente concorda que não dá para demonizar aquilo que nos sustenta”, declarou no evento do Lide o ex-secretário de educação do estado, Rossieli Soares. Ele já foi secretário de Educação do Amazonas, ministro da Educação do governo Michel Temer e é o atual chefe da pasta no Pará.

Repórter Brasil questionou a secretaria de educação paulista sobre mudanças no material didático e parcerias envolvendo a Donme, mas não houve retorno. Já a Donme declarou que não tem qualquer acordo com o governo de São Paulo, apesar de a sua presidente já ter dito em entrevista recente que está negociando com a pasta um treinamento para professores, que se chamará “Mestres do Agro”.

A Secretaria de Agricultura do estado também recebeu a Donme este ano, em reunião em fevereiro sobre materiais escolares. “Precisamos promover conteúdos com embasamento científico e vivência real para os jovens brasileiros”, afirmou após o encontro o secretário da agricultura Guilherme Piai, que também vem de uma família de produtores rurais. 

Em setembro, a secretaria anunciou a criação do programa Agro Jovem, “que prevê políticas públicas para integrar as novas gerações ao campo”, iniciativa celebrada pela De Olho No Material.

Para Lamosa,  a Donme utiliza-se de uma estratégia ideológica de disputa de espaço ao criar campanhas afirmando que os livros didáticos e a escola estão de costas para o agronegócio. “É uma falácia dizer que o agro não está dentro da escola. Todas as pesquisas sobre ações que eles vêm produzindo [dentro e fora da escola] mostram que eles estão lá. A questão é que eles querem o monopólio da escola”, finaliza.


Fonte: Repórter Brasil