Indignação em centro científico europeu após demissão de diretor devido a estudo sobre glifosato

Dr. Daniele Mandrioli served as director of the Ramazinni Institute’s Cesare Maltoni Cancer Research Center from 2020 until his recent termination 

Por Carey Gillam para “The New Lede”

O Dr. Daniele Mandrioli ingressou  no Instituto Ramazzini  em Bolonha, Itália, em 2012 e dirige o Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto desde 2020. O centro de pesquisa realiza estudos toxicológicos em uma variedade de substâncias ambientais para determinar sua carcinogenicidade e outras possíveis implicações para a saúde.

O trabalho do instituto tem sido usado para fundamentar a tomada de decisões regulatórias e a elaboração de políticas sobre diversos produtos químicos, incluindo cloreto de vinila, benzeno e formaldeído, e o grupo  afirma colaborar com o Programa Nacional de Toxicologia dos EUA, bem como com o Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental dos EUA. Em seu site, o instituto destaca   50 ANOS DE PESQUISA INDEPENDENTE” e lista a Organização Mundial da Saúde como parceira.

Saiba mais sobre o Estudo Global do Glifosato aqui .

Mas a demissão de Mandrioli e a suspeita de que esteja ligada ao seu trabalho com o glifosato agitaram os círculos científicos.

Em uma  carta de 21 de janeiro endereçada  à presidente do Instituto Ramazzini, Loretta Masotti, o Dr. Philip Landrigan, epidemiologista ambiental e pediatra americano que lidera o programa de saúde pública global do Boston College e também preside o Comitê Consultivo Científico Internacional do Instituto Ramazzini, descreveu Mandrioli como um “cientista excepcional” e reclamou que o comitê não havia sido consultado sobre a demissão. A decisão parece ter sido motivada por pressão da indústria, alega a carta.

“O Dr. Mandrioli… tem sido alvo de ataques virulentos por parte da indústria química porque as descobertas da pesquisa independente do Instituto custaram dinheiro a essas empresas e prejudicaram seus resultados financeiros”, escreveu Landrigan. “Os ataques ao Dr. Mandrioli aumentaram de intensidade nos últimos meses, desde a publicação dos resultados do Estudo Global sobre o Glifosato, que constatou que o glifosato causa aumentos dose-dependentes no câncer em múltiplos locais anatômicos em animais de laboratório, principalmente aumentos na leucemia.”

“Estamos profundamente preocupados com o fato de sua decisão poder sinalizar o fim da independência da pesquisa do Instituto Ramazzini”, afirma a carta.

Questionada sobre as preocupações, Masotti afirmou que “a relação com o Dr. Mandrioli foi encerrada de comum acordo” e não por pressão da indústria química. Ela disse que os estudos sobre o glifosato continuarão.

“Nossos valores de pesquisa independente nunca foram questionados. O Centro de Pesquisa do Câncer do Instituto Ramazzini é um centro de excelência reconhecido internacionalmente, renomado por suas inúmeras e excepcionais contribuições para a pesquisa ambiental, e reconhecido por sua integridade e independência científica”, disse Masotti.

Sob a liderança de Mandrioli, o centro de pesquisa tem se concentrado recentemente no estudo dos múltiplos impactos potenciais do glifosato na saúde. O glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo. Ele é conhecido como o principal ingrediente dos produtos Roundup, popularizados pela Monsanto, empresa agora pertencente ao conglomerado alemão Bayer.

Ao longo dos anos, muitos estudos científicos associaram o glifosato e o Roundup ao câncer, e a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial da Saúde  classificou o agrotóxico  como provavelmente cancerígeno para humanos em 2015.

Quase 200 mil pessoas processaram a Monsanto e a Bayer nos EUA, alegando que seus cânceres foram causados ​​pela exposição a herbicidas à base de glifosato.

Mas a Monsanto e, posteriormente, a Bayer,  sustentam que não há nenhuma base científica válida  que ligue o glifosato ao câncer e têm combatido veementemente cientistas e outros que contestam essa posição, incluindo aqueles da Organização Mundial da Saúde.

No verão passado, Mandrioli e o centro de pesquisa  publicaram os resultados  de um estudo de dois anos que,  segundo Mandrioli, apresentou  “evidências científicas sólidas e independentes da carcinogenicidade do glifosato e de herbicidas à base de glifosato”. O estudo constatou, entre outras coisas, que os coadjuvantes em produtos herbicidas à base de glifosato podem aumentar a carcinogenicidade do glifosato, particularmente no caso da leucemia.

A pesquisa fez parte de um “Estudo Global sobre Glifosato” que envolveu cientistas do Boston College, da George Mason University, do King’s College London, da Icahn School of Medicine no Mount Sinai, do Centro Científico de Mônaco, da Universidade de Bolonha, do Instituto de Biologia Agrícola e Biotecnologia do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, do Instituto Nacional de Saúde da Itália e do Comitê Nacional de Segurança Alimentar do Ministério da Saúde da Itália.

Em 2022, o grupo  publicou  resultados anteriores que mostravam efeitos adversos do glifosato em doses atualmente consideradas seguras.

A Bayer respondeu acusando o Instituto Ramazzini de ter “um longo histórico de fazer alegações enganosas sobre a segurança de vários produtos”. A empresa não respondeu a um pedido de comentário sobre a demissão de Mandrioli.

Mandrioli afirmou em entrevista que foi alvo de “uma quantidade incrível de ataques” por causa do estudo sobre o glifosato.

“Infelizmente, minha experiência é semelhante à que muitos cientistas independentes estão passando”, disse ele.

O centro de pesquisa está atualmente finalizando quatro novos manuscritos sobre testes de pesticidas. Não está claro quando eles serão publicados.

Membros do  Collegium Ramazzini,  uma academia científica composta por médicos e cientistas de 45 países,  afirmaram em comunicado  que o processo de demissão de Mandrioli foi “pouco transparente” e “secreto”, sem oferecer qualquer explicação racional além de dizer que fazia parte de uma “reorganização”.

O grupo afirmou que o estudo de 2025 sobre o glifosato foi “o maior estudo toxicológico internacional já realizado sobre o glifosato e herbicidas à base de glifosato” e que “os ataques e campanhas difamatórias” contra Mandrioli “aumentaram drasticamente” após a divulgação do estudo de 2025.

Os ataques visavam “minar sua credibilidade e a credibilidade das conclusões da pesquisa independente de sua equipe sobre a toxicidade de produtos químicos perigosos”, escreveu o grupo.

Francesco Forastiere , cientista do Conselho Nacional de Pesquisa em Palermo, Itália, e professor visitante do Imperial College de Londres, afirmou que a demissão “carecia de justificativa e foi abrupta”.

“Não houve transparência alguma na operação”, disse Forastiere, que faz parte de um conselho consultivo do Instituto. “Estou estarrecido.”


Fonte: The New Lede

Situação de alto risco em Congonhas do Campo reafirma descaso socioambiental da Vale em Minas Gerais

Prefeituras e Vale se reúnem após rompimento de estrutura entre Congonhas e  Ouro Preto

Depois de exatos 7 anos do incidente de Brumadinhol, uma situação de alto risco envolvendo estruturas da mineradora Vale está causando apreensão e grandes danos ambientais no município de Congonhas do Campo (MG). Mais uma vez a mineradora Vale está envolvida em um incidente que poderá se tornar ainda mais grave, caso o caso passe do extravazamento de estruturas para a situação de rompimento.

Mas como informam fontes locais, o extravamento inicial de uma represa localizada entre Congonhas e Ouro Pretoque, despejou cerca de 220 mil m³, o equivalente a 88 piscinas olímpicas,no rio Maranhão . Segundo o prefeito de Congonhas do Campo, Anderson Cabido , o primeiro vazamento “trouxe um impacto significativo por conta da água que saiu e foi carregando todo o material que se encontrava pelo caminho.”  O prefeito ainda acrescentou que “foi observado um aumento do volume da água no rio e aumento significativo da turbidez do rio. Então, isso mostra que esse material de fato chegou ao córrego”.

O problema foi agravado pelo extravazamento de material de outra mina da Vale, a Mina da Viga, que agora atingiu o Rio Paraopebas, o mesmo que foi fortemente contaminado pelo incidente que ocorreu em Brumadinho. Em outras palavras, mais uma vez a Vale é responsável por contaminar um dos principais rios de Minas Gerais.

Pelo que pude acompanhar na cobertura que está sendo feita pelo jornal “O Tempo”, a reação inicial dos governantes, desde o nível municipal até o federal, é de um certo pasmo paralisante, pois apesar dos riscos de um acidente de grande monta e que pode afetar também o gigantesco reservatório que a CSN possui logo acima da área urbana de Congonhas do Campo, não me parece estar havendo o nível de mobilização que já deveria estar ocorrendo para garantir que o pior aconteça em termos de vidas e estruturas urbanas; além é claro do espectro de um novo tsulama em vários rios mineiros.

A Vale, como sempre, está minimizando os riscos e suas próprias responsabilidades, pois conta com a costumeira complacência do Estado brasileiro em todas as suas esferas de governo.  Mas é importante que se trate a situação com a importância que ela requer. 

Navios-bomba: propostas para acordo visam mitigar – e não evitar – possíveis acidentes e explosões no porto de Santos    

Planos em análise pelo Ministério Público não incluem a transferência do polêmico terminal de regaseificação para um local seguro, fora do canal. Empresa sugere navios-bombeiros contra incêndios 

Por Cida de Oliveira*

Maran Gas deixa canal após entregar 80 mil toneladas de gás natural liquefeito. Foto: Youtube/Drone Cubatão

A preocupante localização do Terminal de Regaseificação São Paulo (TRSP), no estreito e movimentado canal de navegação do porto de Santos e próxima a área densamente povoada, está no centro de uma Ação Civil Pública do Ministério Público. Com base em estudos e pesquisas técnicas, promotores apontam riscos de acidentes e explosões, com impacto social, que também ficaram de fora do licenciamento aprovado apesar das falhas e omissões.  

Tratativas em andamento para um acordo no âmbito da ação, em segunda instância, incluem alternativas compensatórias, em desacordo com princípios da prevenção e precaução. Segundo a reportagem apurou, no início de dezembro último o TRSP propôs a permanência na região de navios equipados para o combate a incêndios. Representantes chegaram a se oferecer para procurar grandes estaleiros nacionais para esse fim. Na prática, navios-bombeiros para apagar incêndios que podem ser causados pelos navios-bomba. Essa e outras propostas ainda estão sendo estudadas, assim como documentos com parâmetros técnicos para criação de núcleos comunitários de defesa civil em assentamentos precários, voltados à prevenção e combate de princípios de incêndios. São esperadas contribuições do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil de Santos, Guarujá e Cubatão, e das áreas de saúde quanto a serviços de resposta a emergências decorrentes de acidentes ou sinistros na área portuária.

Em busca de mais informações sobre as propostas que apresentou, o Blog contatou a empresa Edge, do grupo Cosan, controladora do TRSP. Como não foram recebidas até o fechamento da reportagem, o espaço fica aberto para as manifestações.

“Um acordo que precisamos é aquele voltado para um novo local para instalação do terminal, em áreas marítimas externas ao estuário de Santos. E não mantê-lo no canal do porto, como convém à empresa”, disse ao Blog Paulo Ferraz, advogado da Associação de Combate aos Poluentes (ACPO) que atua como amicus curiae na ação. Conforme lembrou, as alternativas locacionais apresentadas durante o licenciamento ambiental se referem a pontos distintos, mas todos dentro do próprio estuário. “Normas aplicadas internacionalmente, como nos Estados Unidos, determinam instalações do tipo a mais de 3 milhas da costa. Isso equivale a 4,8 quilômetros”.

Mas o aspecto econômico prevaleceu sobre a segurança no maior porto da América Latina, conforme lembrou. “A única razão apresentada para a escolha do local é essencialmente econômica, de que o custo de implantação seria maior em outro local. A perícia judicial sequer se atentou a esse fato, não tratou especificamente sobre a segurança de todos”, disse Ferraz.

Na avaliação da Frente Ambientalista da Baixada Santista (FABS), a proposta apresentada pelo TRSP ao MP não contempla nem minimiza os riscos de uma possível explosão no terminal de regaseificação. “Nas diversas oportunidades em que abordamos esse tema junto ao MP, ao poder executivo e na Câmara dos Vereadores, apresentamos material suficiente para provar a gravidade dos danos que incidiriam sobre a população da região, com a possibilidade de elevado número de vítimas fatais, além dos incontáveis danos materiais”, disse ao Blog a engenheira agrônoma Mari Polachini, coordenadora da Frente.

Em sua avaliação, um empreendimento com alto potencial explosivo, situado no entorno de silos de armazenamento de fertilizantes e diversos outros materiais de alta combustão poderia provocar, em um eventual desastre, um colapso em todo o sistema portuário.

“Diante disso, é uma irresponsabilidade reduzir a questão da segurança à criação de embarcações de combate a incêndio e organização de ‘núcleos comunitários de defesa civil em assentamentos precários voltados à prevenção e combate de princípios de incêndios’. Assim como considerar que isso seja suficiente para garantir a mínima segurança da população e seu território”, disse a coordenadora.

Mapa mostra grande parte do estuário de Santos e da ocupação urbana no entorno. E no destaque, no centro do círculo branco, o navio FRSU, que regaseifica o GNL. Foto: Google Earth

Mari criticou também posicionamento do Ministério Público, de que o acordo deveria “eliminar os riscos do empreendimento ou ao menos mitigar”. “Uma proposta que se mostra dissociada de uma efetiva preocupação em zelar pela salvaguarda das comunidades do entorno, da população da Baixada Santista e da zona portuária. Afinal, uma explosão na magnitude do potencial apresentado por esse terminal de regaseificação não pode ser combatido com uma brigada de incêndios.”

A única solução aceitável, conforme a coordenadora, é levar o terminal para uma distância segura da costa, como é comum em empreendimentos do tipo. “Como já foi amplamente discutido entre os representantes da sociedade civil e o poder público, o que realmente afastará esse perigo inimaginável de nossas vidas é a mudança do terminal para uma distância para longe da costa”. Ela lembrou que o projeto de termelétrica Verde Atlântico, proposto em 2017 para a cidade de Peruíbe, na Baixada Santista. Nele, o terminal de regaseificação seria construído a 10 quilômetros da praia (confira imagem). O empreendimento, que traria danos catastróficos para a população, meio ambiente e a terra indígena Piaçaguera, foi barrado pela grande mobilização popular.

No círculo azul, a localização prevista para os navios-bomba da termelétrica de Peruíbe. Projeto foi derrotado pela população. Foto: Reprodução EIA RIMA

 

“Dessa forma, entendemos que aceitar uma proposta que não contempla a prevenção e não atende minimamente os critérios para ser classificada como mitigação é tripudiar com a vida dos moradores da Baixada Santista, obrigados a conviver com os riscos de uma explosão que destruirá nossas cidades e nossa economia em proporções inimagináveis”, destacou.

Jato de fogo, nuvem incandescente

A literatura internacional sobre o potencial inflamável do gás natural aponta que vazamentos em equipamentos desses navios e em seus sistemas de transferência de gás podem resultar em diversos desfechos. E que, caso a dispersão na atmosfera encontre fontes de combustão pelo caminho, o resultado será jato de fogo, nuvem incandescente, bola de fogo e até explosões, com intensa propagação de radiação térmica e sobre pressão. Um cenário catástrofico com elevado potencial de riscos à saúde humana e ao meio ambiente, com possibilidades de causar grande número de vítimas fatais dependendo dentre outros aspectos magnitude do incidente e do contingente populacional situado na região.

Para se ter uma ideia, uma explosão do navio regaseificador (FSRU), ou o transportador, tem potência equivalente a 50 bombas de Hiroshima, segundo alerta em seu livro Power Brittle  o físico estadunidense Amory Bloch Lovins. A energia de um único navio metaneiro GNL padrão, com capacidade de 125 mil metros cúbicos, equivale a sete décimos de um megaton de TNT, ou cerca de 55 bombas de Hiroshima.

Como o TRSP não fez estudos e projeções sobre o impacto social à populosa área urbana do entorno, e nem a Cetesb exigiu, a assessoria técnica do MP projetou “quantidades significativas de fatalidades, além de prejuízos às atividades portuárias e em bairros próximos ao canal de Santos, conforme mapa a seguir. Essa região toda corresponde aos distritos da Ponta da Praia, Estuário, Macuco, Vila Mathias, Vila Nova, Paquetá, Centro e Valongo, situados em Santos. E Jardim São Manoel/Vila Santa Rosa, Jardim Conceiçãozinha, Itapema e Vicente de Carvalho, no Guarujá.

Mapa mostra impactos previstos para o caso de acidentes e explosões. Foto: Reprodução/Ministério Público

Controlado pela Edge, empresa do grupo Cosan, o terminal entrou em atividade em abril de 2024, antes da licença de operação da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), concedida três meses depois e com a condição de a Edge não injetar o gás no gasoduto Subida da Serra, de propriedade da Comgás, do mesmo grupo. Isso foi no início da disputa entre a agência estadual paulista Arsesp e a ANP, quanto à regulação quanto à esfera administrativa. A agência federal multou o TRSP devido à operação apressada, com auto de interdição. E tudo foi parar na Justiça. A Edge obteve liminar que suspendeu a interdição, mas manteve a multa de R$ 85 mil. A disputa pela regulamentação do gasoduto entre as esferas federal e estadual, com implicações em tarifas mais altas para o consumidor, está agora no Supremo Tribunal Federal. O terminal segue a todo vapor. Dados da Edge apontam regaseificação e distribuição diária de 14 milhões de metros cúbicos pela Comgás na Baixada Santista, na capital e em outras regiões do estado.


Cida de Oliveira é jornalista

Avaliação e produtivismo na universidade

A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica

Neoliberalism, Mental Health, & Academia – Dr Nadine Leese

Por  *Danichi Hausen Mizoguchi  para “A Terra é Redonda” 

No dia 12 de janeiro de 2026, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) divulgou os resultados preliminares de sua avaliação quadrienal. Trata-se de um marco relevante para o sistema de pós-graduação brasileiro, já que influencia diretamente no reconhecimento dos cursos de mestrado e doutorado e, consequentemente, das universidades.

O processo mensura o desempenho dos programas a partir de critérios como produção científica, formação de novos pesquisadores, impacto social e internacionalização, dentre outros, e, a partir disso, atribui notas que vão de 1 a 7.

Porém, a avaliação não é apenas um diagnóstico técnico: é um ritual de consagração e exclusão em que programas sobem ao altar enquanto outros são empurrados para a penumbra administrativa. Apenas programas com nota igual ou superior a 4, por exemplo, estão aptos à formação de doutores.

Programas com nota mais alta – entre 6 e 7 – tendem a ter mais recursos, bolsas, visibilidade e parcerias, enquanto programas com nota mais baixa enfrentam menos financiamento, menor atratividade e maior pressão por reestruturação. A avaliação decide quem respira, quem agoniza, quem merece existir – define hierarquias, condiciona verbas e orienta carreiras. Sob a retórica da excelência e o suposto ascetismo dos indicadores, distribui-se prestígio como quem distribui oxigênio.

Como não poderia deixar de ser, a comunidade acadêmica reagiu à divulgação com ansiedade – em alguns casos com frustação, em outros com euforia e, em quase todos, com uma pontinha de servilismo institucional. O rito se repetiu sem surpresas: assim que os resultados foram publicizados, universidades e programas bem-sucedidos correram às redes para exibir suas notas como se fossem medalhas.

Nas postagens, os avatares institucionais celebraram orgulhosamente a própria qualidade acadêmica. O aplauso defronte ao espelho ecoou alto, talvez para abafar o barulho do desmonte.

Pouco menos de um mês antes, em 19 de dezembro de 2025, o Congresso Nacional aprovava a Lei Orçamentária Anual para 2026, amputando quase meio bilhão de reais das universidades federais: o orçamento da educação encolheu, a assistência estudantil foi mutilada e as agências de fomento perderam recursos destinados a bolsas e pesquisa. Em outras palavras: menos estudantes pobres poderão permanecer na universidade, menos pesquisas poderão ser feitas, menos ciência será produzida.

O contraste é obsceno: enquanto se comemoram notas e rankings quase individualmente, a base material da universidade pública é sistematicamente corroída – e a recomposição orçamentária assinada por Lula no dia 20 de janeiro não é capaz de alterar o roldão histórico. Celebra-se a avaliação enquanto se aceita com naturalidade o estrangulamento: a festa acontece no convés de uma embarcação cujo casco faz água. A festa acontece sob luz artificial – e, do lado de fora, o madeirame range.

Em janeiro de 2021, sob o pseudônimo de Benamê Kamu Almudras, um professor identificado apenas como docente de uma universidade pública de São Paulo publicou na revista Piauí um ensaio intitulado “Parece revolução, mas é só neoliberalismo”A peça causou certa polêmica – e uma série de réplicas foi publicada na sequência.

Partindo de um punhado de situações concretas ocorridas em salas de aula de graduação e pós-graduação em diversas regiões do Brasil, o texto argumenta que muitos discursos e práticas apresentados como revolucionários deslocam a ideia de transformação estrutural para o plano individual – empreendedor, autônomo, inovador – e, assim, mesmo que sob um verniz transformador, apenas e tão somente reforçam a lógica neoliberal: menos evidente, mais sedutora, mais palatável – mas, ainda assim, e quiçá ainda mais, neoliberal.

Benamê Kamu Almudras apontava duas virulentas ofensivas neoliberais simultâneas contra a universidade pública. À direita, o ataque frontal: cortes de verbas, demonização do serviço público, hostilidade à inclusão social realizada em especial com a implementação da política de cotas. À esquerda, a transformação do estudante em consumidor, da sala de aula em espaço de satisfação mercadológica, do professor em prestador de serviços, da educação em distribuição de diplomas.

Dentre outras coisas, o artigo talvez tenha incomodado por dizer algo quase indizível: que parte significativa da universidade que compreende a si mesma como crítica já não resiste ao neoliberalismo – ela o atualiza com gosto e gozo narcísico e midiático. Para usar um termo freudiano, o texto operava uma ferida narcísica: a denúncia de que parte significativa do discurso crítico universitário não apenas convive com o neoliberalismo, mas funciona como sua versão mais sofisticada, em nova maquiagem, novo vocabulário e nova estética que contribuem para uma universidade crítica perfeitamente adaptada à lógica privativista do mercado.

Pierre Dardot e Christian Laval definiram o neoliberalismo como uma racionalidade política global que reorganiza o Estado, a economia, as instituições e, sobretudo, as formas de subjetivação. Como disse Margaret Thatcher em uma de suas frases mais célebres, economics are the method: the object is to change the soul. Nesta chave de leitura, o neoliberalismo não se limita a privatizar empresas ou cortar direitos, mas também conduz os sujeitos a pensarem-se como empreendimentos que devem constantemente valorizar a si mesmo no mercado – seja ele qual for.

Ou seja, na leitura dos Pierre Dardot e Christian Laval, mas também de Margaret Thatcher, o neoliberalismo não governa apenas economias — governa almas sob uma norma concorrencial universal.

Assim, cada indivíduo torna-se uma empresa portátil que carrega seu CNPJ subjetivo, calcula seus investimentos e administra seus fracassos. O trabalhador metamorfoseia-se em capital humano, a vida vira portfólio e os direitos tornam-se performance. Byung-Chul Han descreveu com precisão essa mutação: o sujeito neoliberal não precisa mais ser oprimido, pois explora a si mesmo voluntariamente.

Em A Muralha da China, Franz Kafka descreve uma obra monumental construída em fragmentos intervalados e separados por longas distâncias. Gilles Deleuze e Felix Guattari viram nela o retrato de um poder que já não se apresenta como unidade, mas como rede de microcomandos. Para a dupla de franceses, a muralha deve ser entendida como um dispositivo político que revela a fragmentação do poder imperial – e é nessa astúcia que está sua força.

O imperador não é uma autoridade plenamente presente, mas uma figura distante, quase inexistente, que opera mais como um significante vazio do que como um soberano efetivo. O poder não se concentra no topo, mas se espalha em uma rede burocrática que atravessa os corpos e as práticas cotidianas.

Assim, a obediência não decorre de ordens claras, mas de uma adesão difusa a um sistema incompreensível – fato que reforça a dimensão imanente e impessoal do poder. O império não domina por uma presença forte, e sim por uma organização difusa que captura os indivíduos em um trabalho interminável e sem sentido totalizável.

Sob o neoliberalismo, a universidade se parece cada vez mais com essa muralha. A coletividade política se transforma em um conjunto de indivíduos-consumidores e se perde a ideia de que a universidade é um serviço público dedicado ao ensino, à pesquisa e à extensão. A educação pública passa a funcionar como uma empresa mal disfarçada, e produz produtividade compulsiva, avaliações permanentes, comparação generalizada e culpa constante.

Karl Marx já havia diagnosticado essa condição em sua gigantesca cartografia do capitalismo:  trabalho alienado é aquele em que o trabalhador já não se reconhece no que produz. Academicamente, a alienação assume um verniz elegante e intelectual: publica-se em série artigos que ninguém lê, pesquisas que ninguém debate, participa-se de congressos que ninguém lembra – mas que contam para deixar o lattes mais parrudo e o perfil nas redes com mais engajamento.

Tudo vira post, nada permanece: o paper vira mercadoria, o currículo vira fetiche, o pesquisador vira gerente– e a solidez se desmancha no ar da lógica competitiva de mercado em sua mais radical pureza.

No final de novembro de 1998, quando a greve dos docentes das universidades federais completava quase cem dias, Fernando Henrique Cardoso afirmou: “Se a pessoa não consegue produzir, coitada, vai ser professor. Então fica a angústia: se vai ter um nome na praça ou se vai dar aula a vida inteira e repetir o que os outros fazem”. A frase não foi um deslize: foi um sintoma.

A separação retórica entre o professor e o pesquisador era o início de uma era em que nunca se exigiu tanto que o professor produzisse em vastas quantidade e nunca se ofereceu tão pouco tempo para pensar. No enunciado do presidente da república, nenhuma crítica às condições estruturais da universidade brasileira e a dificuldade que impunham à pesquisa – e, assim, também à formação de um pensamento acadêmico nacional consistente apto a disputar com os centros mais ricos do mundo.

À guisa de contraexemplo, veja-se as regras do Collège de France, onde lecionaram nomes como Michel Foucault, Claude Lévi-Strauss, Georges Canguilhem e Roland Barthes. De acordo com o regulamento da instituição os docentes devem expor a cada ano uma pesquisa nova e original, o que os obriga a sempre renovar o conteúdo do seu ensino, que não pode se repetir de um ano para o outro.

Todavia, os professores têm a obrigação de dar apenas 26 horas de aula por ano. De praxe, nas universidades federais brasileiras, a obrigação é de 8 horas semanais – o que totaliza quase dez vezes mais do que a parisiense.

Aqui, ao contrário, demanda-se produção sem dispor institucionalmente de tempo. Assim, a imaginação é reduzida a performance mensurável das quantidades. O professor pesquisador passa a ter como matéria-prima de sua labuta a autopromoção asseverada em formulários online, repositórios, assinaturas digitais, editais.

Citações-moeda, relatórios-capital simbólico, o tempo quadrienal em que livros valem menos que artigos e ideias só importam se indexada na lógica estatística– indexação e estatística, pasmem, saudados pela própria maquinaria universitária.

Houve um tempo em que, ao menos por parte das fileiras progressistas, o produtivismo acadêmico era criticado abertamente. “Capestalismo” era o neologismo utilizado para relacionar a agência do Estado à lógica extrativista do capital. Hoje, o que se vê, em boa parte destas mesmas fileiras, é adesão entusiasmada. Com seus avatares exibicionistas, a universidade converte a própria submissão em capital simbólico. Talvez esse seja o sinal mais claro da derrota.

Quando a crítica vira performance, quando a avaliação vira festa, quando a muralha é saudada como conquista, já não se trata apenas e tão somente de falta de recursos ou de políticas equivocadas. Trata-se de algo mais grave: a incorporação alegre da própria servidão – mensurada, sorridente e postada em alta resolução.

*Danichi Hausen Mizoguchi é professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).


Fonte: A Terra é Redonda

Agrotóxicos são a nova face do complexo de vira-latas de um Brasil transformado na lixeira química do mundo

Por  Sonia Corina Hess*

Em 2025 foram aprovados 914 novos agrotóxicos para uso no Brasil. Desses, 152 (16%) continham ingredientes ativos biológicos, incluindo microorganismos, óleos e extratos vegetais, e 140 (92%) de tais pesticidas naturais eram fabricados por empresas instaladas no Brasil. Por outro lado, dentre os 762 agrotóxicos químicos registrados (83% do total), 666 (73%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China. Além disso, em 393 desses 762 agrotóxicos (51%) havia pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia (banidos, ou sem registro, ou com registro pendente).

Somando-se os números relativos ao atual governo, de 2023 a 2025, foram aprovados 2.135 novos agrotóxicos, sendo 346 (16%) produtos biológicos e 302 deles (87%) fabricados no Brasil. Dentre os 1.789 agrotóxicos químicos aprovados naquele período, 1.511 (84%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China e 867 (48%) continham pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia.

No período de 2019 a 2022, no governo anterior, foram aprovados 2.170 novos agrotóxicos, sendo 278 (13%) produtos biológicos, dos quais 254 (91%) eram fabricados no Brasil. Dentre os 1.892 agrotóxicos químicos, 1.465 (77%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China, e 1.056 (49%) continham pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia.

A maioria dos 1.419 agrotóxicos formulados aprovados entre 2023 e 2025 tinha uso autorizado em plantações de soja (895/63%), algodão (671/ 47%), milho (639/45%) e cana-de-açúcar, (404/28%). Também no período de 2019 a 2022, a maioria dos 1.014 agrotóxicos formulados aprovados tinha uso autorizado em plantações de soja (614/ 61%), algodão (443/44%), milho (428/42%) e cana-de-açúcar (336/33%). Tais proporções são compatíveis com as estimativas do uso de agrotóxicos naqueles cultivos industriais no Brasil, 52% do total sendo aplicados em plantações de soja, 10% no milho, 10% na cana-de-açúcar e 7% no algodão.

Os dados apresentados revelam uma realidade que tem perdurado mesmo com a mudança de governos no Brasil. O país depende da China para produzir os ingredientes ativos presentes em torno de 80% dos agrotóxicos químicos autorizados, e metade dos produtos químicos aprovados contém pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia. Além disso, a maioria dos agrotóxicos aprovados tem uso direcionado a plantações de soja, algodão, milho e cana-de-açúcar, que não são alimentos direcionados a seres humanos, mas sim, à alimentação de animais, bioenergia e outros usos.

Até quando aceitaremos que o Brasil figure como a maior lixeira química do mundo, onde as multinacionais vendem a preços elevados os agrotóxicos que foram banidos em outros países, sendo considerados lixo por lá? Até quando teremos que beber, respirar e comer esse lixo que contamina os nossos corpos, os animais, as águas, o ar e o solo? Até quando aceitaremos essa situação vexatória, nos comportando como vira-latas simpáticos, enquanto que as muiltinacionais químicas atuam com a truculência típica dos cães furiosos, insistindo em ferir a nossa dignidade e a nossa saúde?

Fontes dos dados podem ser conhecidas [Aqui!].


* Sonia Corina Hess é professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina

Hyatt e Marriott: estudo liga hotéis de luxo a extração ilegal de madeira na Amazônia

Relatório da organização Environmental Investigation Agency (EIA) mostra como a madeira extraída ilegalmente no Pará pode ‘contaminar’ a cadeia produtiva de importadores na Europa e Estados Unidos; Um dos exportadores brasileiros citados no estudo já comprou de madeireiras abastecidas por fazendas flagradas com trabalho escravo, revela a Repórter Brasil

 

Por Poliana Dallabrida/ Edição Juliano Barros para “Repórter Brasil” 

Importadores de madeira brasileira na Europa e Estados Unidos compram produto com “alto risco de ilegalidade”, aponta novo estudo da EIA (Environmental Investigation Agency), organização especializada na investigação de crimes ambientais. 

O relatório “Contrabandistas, Corretores e Compradores” (disponível apenas em inglês), publicado na última terça-feira (20), revela como toras extraídas ilegalmente de áreas protegidas no Pará, como territórios indígenas e reservas ambientais, podem ter virado decks em hotéis de luxo nos EUA e calçadões em praias da Riviera Francesa. 

A investigação reuniu documentos de transporte de mais de 25 mil metros cúbicos de madeira – o suficiente para encher 830 contêineres – extraídos de três áreas do Pará que até tinham autorização para retirada de madeira, mas apresentaram indícios de ilegalidade, segundo a organização. 

A EIA mapeou 11 serrarias que forneceram madeira para oito exportadores. Estes, por sua vez, forneceram decks de madeiras Ipê e Cumaru para outros 11 importadores nos Estados Unidos, Portugal, França e Alemanha. 

Uma das citadas pela EIA é a Global Forest Lumber Company, importadora dos Estados Unidos. Segundo registros de redes sociais listados no relatório, uma das empresas do grupo forneceu madeira de Ipê a empreiteiros americanos que realizaram reformas em unidades das redes de hotéis Marriott e Hyatt, ambos na Flórida, e na área VIP do Grand Prix da Fórmula 1 em Miami em 2023 e 2025. 

“No entanto, como já foi documentado em múltiplos relatórios da EIA, nenhuma das grandes marcas ou clientes pode garantir que toda a madeira tenha vindo de uma área legal”, aponta a EIA no estudo. 

A Repórter Brasil entrou em contato com os hotéis Marriott e Hyatt e com a assessoria de imprensa da Fórmula 1, mas não obteve respostas até o fechamento deste texto. A reportagem não localizou o contato da Global Forest Lumber Company. O espaço segue aberto para manifestações futuras. 

Madeira da Terra Indígena Munduruku

O relatório da EIA destaca a devastação ilegal para extração de madeira na Terra Indígena Munduruku, localizada na borda oeste do chamado Arco do Desmatamento na Amazônia. 

A EIA, em parceria com a organização Munduruku Associação de Mulheres Wakoborũn, identificou uma operação ilegal de extração de madeira dentro do território entre 2023 e 2024. 

Com base em imagens de satélite, a EIA mapeou cerca de 60 km de estradas abertas no período, conectadas a uma área de garimpo e a uma pista clandestina no Parque Nacional do Rio Novo, unidade de conversação vizinha à TI. As imagens (ver abaixo) indicam centenas de toras estocadas ao longo das vias e em pontos de carga – a EIA estima a carga em 1,2 mil metros cúbicos de madeira. 

Via imagens de satélite, a EIA identificou uma operação de extração ilegal de madeira em grande escala no Território Indígena Munduruku entre 2023 e 2024. (Reprodução/Imagens de satélite fornecidas por CNES; mapa e localizações identificados pela EIA)
Via imagens de satélite, a EIA identificou uma operação de extração ilegal de madeira em grande escala no Território Indígena Munduruku entre 2023 e 2024. (Reprodução/Imagens de satélite fornecidas por CNES; mapa e localizações identificados pela EIA)

“A atividade teria cessado em novembro de 2024, quando o governo intensificou a repressão ao garimpo, mas já havia afetado cerca de 5 mil hectares de floresta intacta”, aponta a organização. “Há suspeitas de que madeira de alto valor, como Ipê e Cumaru, tenha sido ‘lavada’ na cadeia produtiva e possivelmente exportada para mercados como EUA e União Europeia”, complementa o relatório.

Verniz de legalidade

Para a EIA, a madeira extraída em áreas não autorizadas pode ser facilmente “lavada” e inserida no comércio nacional e internacional usando documentos oficiais de áreas formalmente licenciadas. No Pará, aponta a organização, grandes volumes de madeira não são originários das áreas declaradas nas licenças de exploração madeireira. 

Um dos casos detalhados no relatório é o da Fazenda Odila, localizada no município paraense de Óbidos, próximo à TI Munduruku. 

Entre junho de 2021 e junho de 2022, a propriedade obteve a autorização da Semas-PA (Secretaria do Meio Ambiente do Pará) para a extração de 16,9 mil metros cúbicos de madeira – volume que poderia encher um trem de carga de 3 km. A autorização foi concedida mesmo após multa do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), registrada em 2018 em nome do dono declarado da propriedade por apresentar informações falsas em documentos de exploração madeireira. 

Guias de transporte de madeira acessadas pela EIA indicam que, entre novembro de 2021 e junho de 2022, 16,3 mil metros cúbicos de madeira teriam saído do local. No entanto, ao analisar imagens de satélite, a organização não identificou sinais de exploração madeireira em escala industrial. “Apenas uma pequena estrada de acesso surgiu em outubro de 2021, insuficiente para justificar esse volume”, diz trecho do relatório. 

A madeira da Fazenda Odila alcançou mercados globais. A produção da área foi adquirida por 11 serrarias – dez delas com multas registradas pelo Ibama ou pela Semas-PA. 

“Entre 2022 e 2025, dez dessas serrarias revenderam para seis exportadoras brasileiras – todas também multadas pelo Ibama em casos diferentes – que, por sua vez, embarcaram para quatro importadoras nos EUA e três na União Europeia”, detalha a EIA.

Repórter Brasil não localizou contatos de representantes da Fazenda Odila. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Fornecedor flagrado com trabalho escravo

Uma das exportadoras brasileiras citadas no caso da Fazenda Odila é a Amazon Comércio Atacadista e Exportação de Madeira. Uma investigação adicional realizada pela Repórter Brasil identificou que a empresa já foi abastecida, em 2023, por duas madeireiras que compraram o produto de fazendas flagradas com trabalho escravo. 

A primeira é a Fazenda Sipasa, onde 16 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em junho de 2023 em Moju (PA). Os trabalhadores haviam sido contratados para realizar a derrubada de 477 hectares de vegetação nativa dentro de uma área da fazenda, como mostrou a Repórter Brasil em reportagem publicada em fevereiro de 2024. Pelo flagrante, a dona da propriedade, Sipasa Seringa Industrial do Pará S/A, entrou em abril de 2025 na chamada Lista Suja do trabalho escravo, cadastro oficial do governo federal com os dados dos empregadores responsabilizados pelo crime.

Dias após o flagrante de trabalho escravo, a Sipasa forneceu toras de Ipê para a DAB Madeiras e Empreendimentos Florestais, em Tailândia (PA), segundo guias de transporte de madeira acessadas pela reportagem. Dois meses depois, a DAB forneceu toras da mesma espécie de madeira para a Amazon.

A exportadora brasileira também foi abastecida por outra madeireira que comprou o produto de uma fazenda flagrada com trabalho escravo. No mesmo período da fiscalização na Fazenda Sipasa, auditores fiscais do Trabalho resgataram outros 17 trabalhadores na Fazenda Citag, em Moju (PA).

A propriedade está registrada em nome de Wilson Fabricio Campos de Sá, conforme descrito pela Repórter Brasil em matéria publicada em outubro do ano passado. A empresa terceirizada que contratou os trabalhadores é quem foi responsabilizada pela prática de trabalho escravo e entrou na Lista Suja em abril de 2025.

Guias de transporte de madeira acessadas pela reportagem mostram que Wilson de Sá forneceu, em setembro de 2023, toras de Ipê-amarelo para a Madeireira Barreto, de Tailândia (PA). Dias depois, a madeireira forneceu o mesmo produto para a exportadora Amazon.

Estudo identificou que áreas no Pará com autorização para retirada de madeira apresentaram indícios de ilegalidade (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)
Estudo identificou que áreas no Pará com autorização para retirada de madeira apresentaram indícios de ilegalidade (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)

“O trabalho escravo é outra faceta da convergência de crimes associados ao desmatamento ilegal e destaca a importância das leis da UE e dos EUA que exigem que as empresas que compram commodities de alto risco, como madeira da floresta amazônica, realizem a devida diligência na cadeia de abastecimento”, avalia Rick Jacobsen, Gerente sênior de Política de Commodities da EIA.

À época da publicação da reportagem sobre o caso de trabalho escravo, a defesa da Sipasa Seringa Industrial do Pará afirmou que os trabalhadores foram contratados por uma empresa terceirizada, responsável pela contratação de mão de obra, que não foram submetidos à jornada excessiva de trabalho e que os alojamentos eram “condizentes com as condições de abrigo e de vida dos habitantes da própria Região Norte”. 

Procurado pela Repórter Brasil, o advogado de defesa de Wilson de Sá, da Fazenda Citag, disse que as vendas de madeira da propriedade foram realizadas “ao rigor da lei, com todas as licenças emitidas à época”, e que não tem nada mais a declarar sobre o caso.

As madeireiras DAB e Barreto e a exportadora Amazon também foram procuradas, mas não responderam aos questionamentos enviados pela reportagem até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Regras mais rígidas

Para a EIA, o setor madeireiro brasileiro apresenta um “padrão contínuo de crimes e impunidade”. A organização também ressalta limitações atuais do sistema de rastreabilidade da madeira e dos esforços de fiscalização no país, “que ainda permitem a circulação de grandes volumes de madeira ilegal nas cadeias de suprimentos nacionais e internacionais, causando danos irreparáveis aos povos indígenas e à Amazônia”. 

A Semas-PA foi procurada pela Repórter Brasil para comentar o relatório e as informações sobre o caso da Fazenda Odila, mas não respondeu até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

A EIA sugere rastreabilidade em tempo real, com validação em campo, combinada com maior transparência de dados públicos. “O Ministério Público do Pará já começou a enfrentar a situação ao recomendar uma série de medidas que melhorariam significativamente o sistema – e que deveriam ser apoiadas e implementadas em nível nacional”, diz o relatório.

A organização sustenta ainda que os casos apresentados no estudo indicam um “descumprimento generalizado” do EUTR (Regulamento da União Europeia sobre a Madeira) e da Lei Lacey, que proíbe a importação de madeira ilegal para os EUA. “Para compradores dos EUA e da UE, os casos apresentados nos dois relatórios da EIA levantam sérias questões sobre suas práticas de devida diligência”, aponta a organização.

Para a EIA, requisitos mais rigorosos de devida diligência do Regulamento da UE sobre Desmatamento (EUDR), que substituirá o EUTR, são “urgentemente necessários” para interromper o fluxo de madeira ilegal da Amazônia para o mercado da União Europeia. No caso americano, a organização espera que os EUA “façam sua parte para aplicar de forma efetiva o Lacey Act”.

“Em conjunto, essas soluções podem ajudar a reduzir de maneira eficaz o crime florestal e proteger uma das últimas florestas tropicais remanescentes do mundo”, afirmam.


Fonte: Repórter Brasil

Aumento drástico da violência relacionada à água registrado desde 2022

Especialistas afirmam que a crise climática, a corrupção e a falta ou o uso indevido de infraestrutura estão entre os fatores que impulsionam os conflitos hídricos

Vista aérea de casas submersas em Kherson

Casas submersas em Kherson, Ucrânia, após a destruição da barragem de Kakhovka em 2023. Fotografia: AP

Por Rachel Salvidge para “The Guardian” 

A violência relacionada à água quase dobrou desde 2022 e pouco está sendo feito para entender e lidar com essa tendência e prevenir riscos novos e crescentes, disseram especialistas.

Segundo o Pacific Institute, um centro de estudos com sede nos EUA, foram registrados 419 incidentes de violência relacionados à água em 2024, um aumento em relação aos 235 registrados em 2022.

O instituto compilou evidências de centenas de anos de conflitos relacionados à água, incluindo casos em que a água foi um fator desencadeador de violência, uma arma de conflito ou uma vítima de conflito.

“Estamos vendo mais conflitos, e eles são multicausais”, disse o Dr. Peter Gleick, cofundador e pesquisador sênior do instituto. “A crise climática e os eventos climáticos extremos contribuem para isso, mas há muitos outros fatores, como falhas do Estado, governos incompetentes ou corruptos, e a falta ou o uso inadequado de infraestrutura.”

Exemplos recentes incluem tensões entre a Índia e o Paquistão sobre um tratado de compartilhamento de água do rio Indo após um ataque terrorista, ataques da Rússia a barragens hidrelétricas na Ucrânia, destruição dos sistemas de água de Gaza por Israel e protestos sobre o abastecimento de água na África do Sul.

“Em Gaza, Israel sistematicamente transformou a água em arma”, disse Trevor. “Eles atacaram deliberadamente sistemas de água e usinas de dessalinização e bloquearam os reparos. A água potável foi contaminada por esgoto devido à destruição da infraestrutura de esgoto e drenagem pluvial, e pessoas foram atacadas enquanto esperavam ou faziam fila para pegar água.”

“Na África Oriental e no Sahel, a água está se tornando cada vez mais insegura e as pessoas estão se deslocando para novas áreas em busca de água, o que por si só pode desencadear competição e conflito com a população local.”

A política intensificou situações já frágeis em alguns lugares. Gleick afirmou: “O Rio Colorado e o Rio Grande, nos EUA, tornaram-se cada vez mais controversos politicamente nos últimos anos. Existem tratados que datam de 1944 que regem ambos os rios, exigindo que os EUA forneçam água do Rio Colorado ao México e que o México forneça água do Rio Grande aos EUA. Mas, com a intensificação da política fronteiriça durante o governo Trump, essas questões se tornaram mais controversas. Várias pessoas foram mortas no México durante um protesto em uma barragem usada para fornecer água aos EUA, após agricultores se oporem à liberação de água.”

Gleick afirmou que existem algumas disputas menos conhecidas na Ásia Central que podem se agravar. “No Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão, há tensões relacionadas à água há algum tempo, e o Afeganistão está construindo um canal muito grande, o canal Qosh Tepa, para desviar água do rio Amu Darya, o qual, se entrar em operação, reduzirá significativamente o fluxo para as repúblicas da Ásia Central.”

Os institutos das Nações Unidas estão soando o alarme e a ONU prevê que a demanda global por água doce excederá a oferta em 40% até 2030. Na terça-feira, o Instituto Universitário das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde declarou que o mundo entrou em uma era de “falência hídrica”.

A Unesco afirma que, embora aproximadamente 40% da população mundial viva em bacias hidrográficas transfronteiriças de rios e lagos, apenas um quinto dos países possui acordos transfronteiriços para compartilhar recursos de forma equitativa.

Trevor afirmou: “Com o aumento da insegurança hídrica, é necessário implementar tratados transfronteiriços mais transparentes e responsáveis ​​que atendam a todas as pessoas, garantindo seu direito humano à água. É preciso reconhecer mais a necessidade de uma melhor partilha da água, que vá além dos atuais acordos de partilha, muitas vezes voluntários e, portanto, totalmente dependentes da boa vontade.”

Gleick afirmou: “Podemos resolver nossos problemas hídricos – não estou dizendo que vamos resolvê-los ou que faremos isso em breve, mas podemos. Isso inclui os impactos das mudanças climáticas na água, o atendimento às necessidades humanas básicas e aos direitos à água, a resolução dos problemas dos ecossistemas e a redução dos riscos de conflitos por recursos hídricos.”


Fonte: The Guardian

Biodiversidade em perigo: agrotóxicos causam diminuição na quantidade de aves

En route pour les alternatives aux pesticides - Natura Sciences

Por Ulrike Bickel para “Amerika21”

Paris. Um novo estudo da França mostra o declínio das populações de aves com o uso frequente de agrotóxicos. O resultado é particularmente relevante para a América Latina, já que a região consome mais agroquímicos do mundo. Somente entre 2000 e 2020, a participação da região no consumo global de pesticidas aumentou de 44 para 51%, segundo a Organização das Nações Unidas para as Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Isso foi apontado pelo estudo “Eles nos envenenam” do Center for Reproductive Rights.

Na América Latina, a conexão entre o uso de agrotóxicos e a extinção de espécies também é conhecida há anos, não apenas desde o relatório da Plataforma Intergovernamental de Ciência-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) sobre polinizadores, serviços ecossistêmicos e produção de alimentos em 2016. O uso de agrotóxicos sintéticos tem sido associado ao declínio das populações de insetos, aves e outros animais benéficos na América Latina há décadas.

O novo estudo francês, publicado em 14 de janeiro na revista Proceedings of the Royal Society B, compara dados sobre vendas de agrotóxicos com observações de espécies comuns de aves na França. Para 84% das espécies estudadas, quanto mais pesticidas eram vendidos, menor a população. O estudo demonstra o papel direto e indireto dos pesticidas no declínio da biodiversidade, como destacado pelo jornal Le Monde e por agências europeias.

Diversos estudos já mostraram que agrotóxicos podem ter efeitos prejudiciais em uma ampla variedade de espécies, incluindo abelhas, minhocas e aves, bem como na saúde humana. Já em 2021, um estudo documentou que a população de aves de campo e urbanas na França havia diminuído 30% nas últimas três décadas.

O estudo traz novas percepções sobre as causas: a análise conecta dois bancos de dados sobre a venda de agrotóxicos na França e a observação de aves comuns. Segundo a primeira autora Anne-Christine Monnet, pesquisadora do Centro de Ecologia e Ciências da Conservação do Museu Nacional de História Natural da França, a correlação é negativa para 84,4% das espécies estudadas: quanto mais agrotóxicos são vendidos, menor a abundância da espécie e de sua população. O efeito é muito forte, e muitas espécies são afetadas.

O estudo examina pela primeira vez os efeitos de 242 diferentes ingredientes ativos de agrotóxicos em toda a França. Foca em todos os tipos de aves comumente encontradas em áreas agrícolas, incluindo rouxinolos, pintassilgos e falcões. Além disso, os pesquisadores separaram o efeito direto dos agrotóxicos de outros fatores relacionados à intensificação da agricultura, como tamanho das parcelas, diversidade paisagística, sebes, tipo de cultura e uso de arado.

Os cientistas do Museu Nacional de História Natural da França e da Universidade de Poitiers utilizaram dados de 2017 do Registro Nacional de Vendas de Pesticidas por Distribuidores Autorizados por CEP.

Para confirmar que o volume de vendas refletia a poluição local, os pesquisadores compararam os dados com outro banco de dados de resíduos de agrotóxicos em águas superficiais. Eles encontraram muitas correlações positivas: quanto mais substâncias tóxicas eram aplicadas, mais resíduos eram encontrados na água.

Os dados foram cruzados com o monitoramento em tempo real de aves comuns, um programa científico que captura variações na biodiversidade na França. Das 64 espécies de aves que utilizam regularmente os habitats agrícolas estudados, 54 foram estatisticamente significativas ou quase significativamente menos comuns nas regiões onde os pesticidas eram mais vendidos. A contaminação dos campos afeta todas as espécies de aves.

De acordo com a Fundação para Pesquisa em Biodiversidade, que não participou do estudo, os resultados são muito significativos. A maioria das espécies estudadas reagiu negativamente ao aumento do uso de pesticidas. Os agrotóxicos afetam as aves tanto diretamente quando comem sementes tratadas ou insetos ou plantas contaminadas, quanto indiretamente ao reduzir as fontes de alimento disponíveis, como insetos.

O estudo, portanto, comprova descobertas da América Latina, onde os efeitos negativos do uso de agrotóxicos na saúde e no meio ambiente são há muito tempo documentados em regiões agrícolas intensivas (relatou o Amerika21).


Fonte: Amerika21

Segurança alimentar abrangente: a ofensiva dos lobbies agroquímicos para vender cada vez mais agrotóxicos

Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia apresentou sua proposta abrangente sobre segurança alimentar. Sob o pretexto de simplificação, esse texto desmantela as regras que regem a comercialização de agrotóxicos e define uma nova categoria de substâncias, supostamente mais ecológicas, denominadas “produtos de biocontrole”. Isso representa uma excelente oportunidade para o greenwashing por parte dos fabricantes de agrotóxicos e seus lobistas, que participaram ativamente da elaboração da definição mais ampla e permissiva possível de biocontrole

L'offensive de l'agrochimie pour vendre toujours plus de pesticides

Por Pollinis 

Desmantelar todas as regras que regem a comercialização de agrotóxicos para acelerar o desenvolvimento de produtos “mais ecológicos” . Por mais paradoxal que pareça, essa é a intenção declarada da Comissão Europeia ao apresentar sua proposta abrangente sobre segurança alimentar em 16 de dezembro.

Por trás dessa fachada de discurso, o texto propõe principalmente inúmeras medidas de desregulamentação com consequências catastróficas para a biodiversidade e a saúde humana : autorizações vitalícias para agrotóxicos, limitação da consideração de dados científicos recentes na avaliação dos riscos dos agrotóxicos, extensão do prazo de utilização de certos produtos após a sua proibição, priorização sistemática dos interesses econômicos em detrimento do princípio da precaução.

As corporações químicas atacam a Comissão Europeia

Este conjunto de propostas faz parte de uma agenda de simplificação regulamentar que se tornou uma obsessão para a Comissão Europeia, apresentada como uma forma de impulsionar a competitividade das empresas em todo o continente. Desde o início do seu segundo mandato, em fevereiro de 2025, Ursula von der Leyen apresentou cerca de dez propostas abrangentes. Todas elas propõem revisões à legislação europeia já adotada, particularmente no que diz respeito ao Pacto Ecológico Europeu, resultando em retrocessos sociais e ambientais significativos.

Isso representa uma grande vantagem para a indústria e seus lobistas , que veem essa nova agenda política como uma oportunidade para revogar regulamentações que poderiam prejudicar suas operações e lucros. O relatório abrangente sobre segurança alimentar não é exceção. Desde o início de 2025, a CropLife Europe – que representa os interesses dos fabricantes de agrotóxicos no continente – vem realizando inúmeras reuniões com a Comissão. Em um ano, o grupo de lobby se reuniu com os gabinetes de diversos Comissários 18 vezes, mais do que durante todo o mandato anterior da Comissão, de 2019 a 2024.1Um terço das reuniões agendadas para 2025 menciona explicitamente o projeto de simplificação de normas em sua pauta.

As empresas agroquímicas também enviaram seus próprios lobistas para pressionar a Comissão, em um ritmo muito mais acelerado do que nos anos anteriores. A Bayer, por exemplo, garantiu 34 reuniões em 2025 – em comparação com 20 durante todo o mandato anterior da Comissão (2019-2024). Destas, dez reuniões deste ano se concentraram explicitamente em questões agrícolas.2, oito mencionam a simplificação como um objetivo.

Biocontrole, um cavalo de Troia para agrotóxicos em Bruxelas

Essa intensa pressão parece ter surtido efeito, como demonstra o desmantelamento das regulamentações que regem a comercialização de agrotóxicos, proposto no projeto de lei abrangente, mas também a introdução no texto de uma nova categoria de substâncias: produtos de biocontrole . Esse conceito, cujos contornos ainda são um tanto vagos, é agora utilizado por diversos atores (cientistas, industriais, políticos, etc.) para se referir tanto a técnicas agroecológicas quanto a produtos de diferentes tipos, associados a uma imagem mais ambientalmente amigável. 

De que substâncias estamos falando exatamente? Elas realmente representam menos riscos do que os agrotóxicos? Todas essas questões essenciais permanecem sem resposta por enquanto, mas podem encontrar respostas no relatório abrangente sobre segurança alimentar, que propõe a primeira definição europeia de biocontrole. Nesse contexto de criação de uma nova categoria de produto e aproveitando-se da persistente ambiguidade legal em torno desse conceito, os grupos de pressão da indústria agroquímica estão trabalhando com a Comissão Europeia para impor sua definição ideal : a mais ampla possível, abrangendo o máximo de produtos possível.

A redação atualmente proposta pela Comissão no documento abrangente, que é muito vaga, deixa ampla margem para que a indústria a interprete em seu benefício . “Substâncias de biocontrole são definidas como: microrganismos; substâncias inorgânicas encontradas na natureza, com exceção de metais pesados ​​e seus sais; ou substâncias de origem biológica ou sintética que sejam funcionalmente idênticas e estruturalmente semelhantes a estas.”3 

Longe de permitir apenas produtos de origem natural, essa terminologia também abre as portas para substâncias “produzidas sinteticamente” em laboratório, desde que sejam “funcionalmente idênticas e estruturalmente semelhantes” a moléculas existentes na natureza. A definição, portanto, coloca em pé de igualdade práticas agroecológicas comprovadas ao longo de décadas, como o sabão preto para o controle de pulgões, e novas biotecnologias sobre as quais ainda temos pouca experiência, como os pesticidas genéticos.

Para os fabricantes, influenciar a própria definição de biocontrole tornou-se uma questão crucial. Ao explorarem a imagem supostamente mais ecológica dessas substâncias, eles exigem que os produtos dessa nova categoria se beneficiem de um quadro regulatório significativamente mais flexível para acelerar sua entrada no mercado europeu. O rótulo de biocontrole se tornaria, portanto, uma oportunidade altamente lucrativa de greenwashing para as empresas , permitindo-lhes continuar comercializando produtos potencialmente tóxicos, apresentando-os como alternativas ecológicas aos agrotóxicos. Diversas medidas no projeto de lei omnibus refletem essa abordagem. Por exemplo, o texto propõe a concessão de autorizações de comercialização temporárias para esses produtos por um período de cinco anos, mesmo antes de a União Europeia concluir sua avaliação da toxicidade de seus princípios ativos.

1Fonte: Transparência Internacional UE Dados para 2025 e 2019-2024.2A Bayer também é um grupo farmacêutico. Das 34 reuniões solicitadas à Comissão, algumas dizem respeito, portanto, a questões não agrícolas.3A tradução foi realizada pela POLLINIS; a Comissão ainda não publicou nenhuma tradução francesa do seu texto.

Uma definição de biocontrole ditada por lobistas

Diante da potencial oportunidade econômica apresentada por essa nova categoria de pesticidas, os lobistas vêm preparando o terreno para essa questão há vários anos. De acordo com documentos obtidos pela POLLINIS, a CropLife contatou a Comissão logo no início para defender sua própria definição de biocontrole , a mais ampla possível. Em 23 de setembro de 2024, a pedido do grupo de lobby, membros da Direção-Geral da Saúde da Comissão Europeia (DG Saúde)4 Eles conversaram com 13 especialistas da CropLife – metade empregados diretamente pelo grupo de lobby, os demais provenientes de empresas associadas, incluindo gigantes como Syngenta, Bayer, BASF e Corteva. Isso proporcionou ao grupo de lobby a oportunidade de compartilhar sua definição de biocontrole, bem como seus pontos de vista sobre os protocolos que deveriam ser usados ​​para avaliar os riscos desses produtos.

Um memorando, encaminhado à Direção-Geral da Saúde após esta reunião, revela a terminologia que o grupo de pressão deseja favorecer. A CropLife expressa a esperança de que a definição adotada seja “suficientemente ampla para permitir e incentivar a inovação”. Os produtos de biocontrole são descritos como substâncias ativas “derivadas da natureza, sejam elas naturais ou sintetizadas”. Para as moléculas sintetizadas em laboratório, especifica-se que elas devem ser “estruturalmente semelhantes e funcionalmente idênticas às encontradas na natureza”.5Termos muito próximos da definição de biocontrole divulgada pela Comissão em dezembro de 2025 , como parte do acordo abrangente sobre segurança alimentar.

4O atual Comissário Europeu para a Saúde, Olivér Várhelyi, é o relator do relatório abrangente sobre segurança alimentar para a Comissão Europeia.5Citação completa em inglês: “Os biopesticidas são substâncias ativas, conforme definidas pelo Regulamento (CE) n.º 1107/2009, derivadas da natureza, seja por ocorrência natural ou por síntese, desde que sejam estruturalmente semelhantes e funcionalmente idênticas às suas contrapartes naturais.”

Este memorando demonstra claramente a intenção de influenciar os debates futuros sobre o biocontrole . O corpo do e-mail contendo o documento, enviado pelo grupo de pressão em 25 de setembro de 2024, indica que se destina a membros do SCoPAFF (Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações), antes da reunião agendada para o início de outubro de 2024. Este comitê técnico opaco, que a POLLINIS já investigou , reúne representantes dos Estados-Membros da UE e desempenha um papel fundamental na tomada de decisões agrícolas da Comissão Europeia, particularmente em questões relacionadas à regulamentação de pesticidas.

A ata da reunião da SCoPAFF de outubro de 2024 também menciona a infame nota enviada pela CropLife à Comissão . ” A Comissão compartilhou uma nota da indústria na qual saudava o fato de que certas propostas de emendas se alinhavam claramente com a definição desejada de biocontrole, o que não era o objetivo da Comissão “, enfatiza a ata, antes de acrescentar: ” embora essa ideia provavelmente seja incorporada em propostas futuras “. Nesse ponto, a SCoPAFF estava certa: com a definição de biocontrole atualmente proposta pela Comissão no documento abrangente, os lobbies da indústria de pesticidas têm motivos para estar satisfeitos.

Tudo ainda pode mudar.O projeto de lei abrangente sobre segurança alimentar está apenas no início de sua jornada legislativa; ele ainda precisa ser examinado no primeiro semestre de 2026 pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia.


Fonte:  Pollinis

Povos originários ocupam porto da Cargill em Santarém para defender o Rio Tapajós

Hoje, 22 de janeiro de 2026, nós povos indígenas do Baixo Tapajós iniciamos  a ocupação na Cargill., Essa ocupação é em defesa do nosso Rio Tapajós,  contra a privatização, a dragagem, a especulação ...
Na 5a. feira (22/1),   membros dos povos originários do Baixo Tapajós ocuparam o porto da Cargill, em Santarém, no Pará, em defesa do Rio Tapajós e da vida que nele existe. Eles afirmam que a luta não é apenas contra um empreendimento específico, mas contra um projeto que tenta transformar o Tapajós em rota de exportação, em corredor de escoamento de soja, ignorando quem vive, cuida e existe nesse território há gerações. O Tapajós não é só um rio, é morada de peixes, animais, plantas, pessoas e dos encantados, é território vivo, ancestral e sagrado.

Os povos originários afirmam que interferir no Tapajós fere profundamente a vida que habita em suas águas visíveis e invisíveis, abalando corpos, espírito e a forma deles de existir no mundo e que, por isso, estão resistindo.

É importante dizer que defender o Tapajós é defender o espírito  e o território dos povos originários.  Mais informações estão disponíveis no perfil do Instagram do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Aqui!)