Brasil precisa fortalecer ações de proteção de florestas para cumprir metas internacionais, aponta estudo

Em artigo publicado em Perspectives in Ecology and Conservation, pesquisadores do Inpe e do Cemaden discutem desafios e soluções para a redução das emissões de CO2 do país

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Desmatamento registrado em região próxima à Floresta Estadual do Antimary, no Acre (foto: Beatriz Cabral/Inpe) 

Luciana Constantino | Agência FAPESP

Sede da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) em 2025 – a primeira a ser realizada na Amazônia –, o Brasil está em um momento crucial. Ainda tem a possibilidade de cumprir suas metas internacionais de redução de emissão de gases de efeito estufa, mas precisa ajustar as ações socioambientais e fortalecer políticas focadas na salvaguarda das florestas e na restauração dos biomas. Esse é um dos principais apontamentos de pesquisa publicada na revista Perspectives in Ecology and Conservation.

Liderado por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o estudo ressalta a necessidade de controlar o desmatamento ilegal e a degradação dos biomas, incorporando um olhar para florestas secundárias – que crescem após a remoção da cobertura original.

Sugere ainda reforçar e expandir políticas que mantenham os serviços ecossistêmicos. Esse processo deve vir acompanhado de mecanismos consistentes de atração de investimentos para financiar atividades de restauração e pagamentos por serviços ambientais em todos os biomas, incentivando iniciativas de bioeconomia e criando novas áreas de proteção ambiental.

“A pesquisa foi um trabalho conjunto visando mostrar o panorama de desmatamento, degradação e restauração dos biomas e suas relações com as metas globais do Brasil. Destacamos pontos importantes nesse processo para que o país busque o desenvolvimento sustentável”, explica a doutoranda no Inpe e primeira autora do artigo Débora Joana Dutra, bolsista da FAPESP.

Para a bióloga Liana Oighenstein Anderson, orientadora de Dutra e pesquisadora no Cemaden, mesmo quando há medidas preventivas, ainda assim elas têm sido insuficientes frente ao desafio das mudanças climáticas. “É o caso dos incêndios florestais registrados neste ano na Amazônia e no Pantanal. A prevenção não foi suficiente para conter os números alarmantes. Quando fazemos estimativas como na pesquisa, temos a sensação de sermos extremamente conservadores frente ao que a realidade está mostrando e aos desafios enfrentados”, diz Anderson à Agência FAPESP.

O Brasil vem registrando neste ano recordes de queimadas. Entre janeiro e 4 de agosto, foram 65.325 focos de calor detectados no país, o maior número em quase 20 anos – o mais alto até então havia sido em 2005 (69.184 no mesmo período), segundo dados do Inpe. Os biomas Amazônia e Cerrado são os mais atingidos (28.396 e 22.217, respectivamente).

De janeiro a julho, o Pantanal teve 4.756 focos, o maior desde 1998, início da série histórica. Para o bioma, até o momento, 2020 teve o pior total anual de focos de queimadas.

“Em 2020, os incêndios no Pantanal chamaram a atenção do mundo e levaram a uma série de reações. O Ministério da Ciência e Tecnologia criou, por exemplo, a Rede Pantanal e, em escala local, o Estado de Mato Grosso do Sul instituiu um plano de manejo integrado do fogo. Em 2023, o governo federal lançou um plano de manejo para o bioma e, em abril, Mato Grosso do Sul decretou estado de emergência. Ou seja, houve um conjunto de ações de gestão, de governança, de regulamentação para tentar evitar os incêndios, mas, infelizmente, não foi suficiente. Tivemos avanços. Porém, há necessidade de aperfeiçoamentos na governança, nas estratégias adotadas e no financiamento das ações. É preciso acelerar o passo”, completa Anderson.

Coautor do artigo e pesquisador do Inpe, Luiz Aragão diz que a pesquisa é um alerta para a sociedade sobre questões relacionadas às emissões. “A sociedade tem de encarar o problema não só do ponto de vista ambiental, mas sim socioeconômico. Está tudo ligado. Isso porque o desmatamento, por exemplo, é indutor do fogo, que por sua vez traz problemas de saúde para a população e degrada a floresta. A floresta desmatada e degradada tem menor potencial de prover serviços ecossistêmicos, como a ciclagem de água e a biodiversidade, que garantem a qualidade de vida das populações locais e têm influência muito grande em atividades econômicas.”

As mudanças no uso e na cobertura da terra (por exemplo, o desmatamento para o uso agropecuário e a degradação florestal) são as principais fontes de emissões do Brasil. Como um dos mais de 190 signatários do Acordo de Paris, firmado em 2005, o país assumiu o compromisso de ajudar a conter o aumento da temperatura média global em até 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais (anos 1850-1900) – marca que já tem sido ultrapassada nos últimos meses.

O acordo, que deve passar por revisão na COP30, prevê que os países definam metas de redução de emissões até 2030, tendo o Brasil se comprometido a diminuir em 53% (comparado aos níveis de 2005). Apesar disso, as emissões de dióxido de carbono (CO2) líquidas (descontadas as remoções) por mudanças no uso e na cobertura da terra dobraram entre 2017 e 2022, segundo o Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (Seeg). Em relação à restauração, o Brasil tem a meta de restaurar 12 milhões de hectares de florestas nativas, o que corresponde a quase a área territorial de Portugal.

Dificuldades

A pesquisa aponta que um dos desafios é conter a alta do desmatamento em todos os biomas. Os cientistas destacam o crescimento da remoção de vegetação nativa desde que o país submeteu, em 2016, suas metas do Acordo de Paris, atingindo taxas próximas ou superiores a 2 milhões de hectares ao ano (considerando os seis biomas).

Somente em 2022, foram 2,8 milhões de hectares desmatados, a maior taxa desde 2008, impulsionada principalmente pela destruição da Amazônia e do Cerrado. Isso representaria 23% da meta de restauração do país. Aliado a isso, há um déficit de aproximadamente 16 milhões de hectares em áreas de reserva legal em propriedades rurais que precisam de restauração florestal. Desse total, mais da metade está na Amazônia e outros 25% no Cerrado.

Outro dado destacado pelo estudo é o crescimento de áreas de florestas secundárias, que têm alta capacidade de sequestrar carbono da atmosfera, mas não contam com legislação específica de proteção. De acordo com a pesquisa, 5,46 milhões de hectares de florestas secundárias cresceram no Brasil entre 2017 e 2022 fora de terras públicas – 40% na Amazônia e 36% na Mata Atlântica. Apesar de esse total representar quase metade da meta de restauração do Brasil, a manutenção do sequestro de carbono das florestas secundárias corre risco, já que elas estão suscetíveis a novos desmatamentos e incêndios.

Caminhos

No trabalho, os pesquisadores sugerem medidas a serem adotadas, entre elas o combate ao desmatamento ilegal – fortalecendo o arcabouço legal, ampliando a fiscalização e a responsabilização. Há destaque para a necessidade de medidas de prevenção e a implementação de programas para restaurar áreas de vegetação nativa em larga escala, com a criação de incentivos financeiros para proprietários rurais por meio de pagamentos por serviços ambientais.

Esses incentivos serão importantes, inclusive, para garantir que áreas passíveis de serem desmatadas legalmente permaneçam em pé. De acordo com o estudo, o Cerrado e a Caatinga têm as maiores áreas de vegetação nativa passíveis de desmatamento legal. Para garantir que as florestas secundárias consigam contribuir a longo prazo com o sequestro de carbono, a pesquisa aponta a necessidade de uma legislação nacional que aumente a proteção delas fora das áreas de reserva legal ou de preservação permanente.

“O que está sendo feito atualmente não é suficiente para que nós consigamos mudar. O clima global está diferente. Não será possível resolver problemas ambientais, pressionados pelas mudanças climáticas, usando pensamento do passado. Temos de pensar no futuro”, avalia Aragão.

Por meio da assessoria de imprensa, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informou que tem adotado medidas para cumprir o compromisso de “desmatamento zero em todos os biomas até 2030”. Entre elas está o programa “União com Municípios”, lançado em abril como parte do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), com R$ 785 milhões destinados a 70 municípios prioritários (até o momento 48 assinaram o termo de adesão). Outras ações incluem alterações de regras do Conselho Monetário Nacional – como a restrição de crédito rural para proprietários com Cadastro Ambiental Rural (CAR) suspenso, com embargos e imóveis sobrepostos a Terras Indígenas, Unidades de Conservação e florestas públicas não destinadas.

Além disso, o ministério destaca a retomada do Fundo Amazônia, com novos contratos que somam R$ 1,4 bilhão e doações anunciadas que devem chegar a R$ 3,1 bilhões. Para o Cerrado, foi lançado um Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento. Em relação à restauração de florestas, cita o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, com o objetivo de ampliar e fortalecer políticas públicas, incentivos financeiros, mercados, tecnologias de recuperação e boas práticas agropecuárias, que deve passar por atualização neste ano.

Futuro

Segundo Dutra, os próximos passos da pesquisa estão direcionados para levantar perdas e impactos econômicos da destruição das florestas, aprofundando os dados do trabalho atual.

“Vemos com extrema relevância a valoração dos impactos. Quantificar esses valores vai demonstrar que é muito mais barato prevenir do que reconstruir. O Brasil trabalha com a resposta aos eventos extremos e desastres, mas precisa investir em prevenção”, diz Aragão.

Para Anderson, é importante aprimorar o diálogo entre instituições – federais, estaduais, municipais, do terceiro setor e comunidades locais –, além da necessidade de responsabilização frente à inação ou omissão no desenvolvimento dos planos. “Nossa capacidade de diálogo ainda é muito limitada, esbarrando em vieses políticos que estão muito aquém do que tecnicamente poderíamos fazer para avançar rapidamente.”

O estudo recebeu apoio da FAPESP por meio de seis projetos (20/15230-5; 20/08916-8; 22/11698-8; 19/25701-8; 23/03206-0; e 20/16457-3).

O artigo Challenges for reducing carbon emissions from Land-Use and Land Cover Change in Brazil pode ser lido [Aqui!].


Fonte: Agência Fapesp

Os Fuzis de Brecht e o teatro em Campos

“Nós somos gente pobre e gente pobre não pode meter-se em guerra”: teatro e transformação social na experiência da peça Fuzis da Cia de Arte Persona

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Por Luciane Soares da Silva

A arte pode embrulhar o estômago. Causar perplexidade, desconforto. Pode produzir engajamento e pode mesmo servir como estopim de levantes populares. Pode divertir e proporcionar a desejada distinção aos que a consomem em palácios de mármore e luzes intensas. Pode servir para tudo e para muito pouco.

Fazer arte em Campos dos Goytacazes, uma cidade que investe parcos recursos na área de cultura já devia ser motivo de respeito. Escolher o teatro para discutir regimes totalitários e as diferentes formas de violência e resistência no cotidiano é motivo de admiração. Afinal, nada causa mais repulsa a elite local do que a lembrança de seu passado escravista.

É possível encenar uma peça no palco pequeno de uma escola pública, no meio de uma plantação de algodão, para cortadores de cana, presos. São muitos os caminhos  mas sabemos quais são visitados pela censura e quais são agraciados com premiações. O teatro pode ser fantasia, inquietação, experimento. Mas e quando ele possibilita ao homem comum, que reconheça seu lugar no mundo?

Cada leitura ganha a urgência de seu tempo. Recuperar a Guerra Civil Espanhola entrelaçando Brecht e nossas cotidianas lutas é desafiador. E encaminha uma das questões mais desconfortáveis de nosso século: é possível ser neutro diante do autoritarismo? É possível ser indiferente à morte de milhões nas guerras urbanas? É possível seguir em silêncio sob democracias que se parecem cada vez mais a Estados de Exceção?

A peça “Fuzis” da Cia de Arte Persona é ambientada em uma aldeia de pescadores, Nesta vila, a vida dos pobres segue a busca pela sobrevivência. Mas não sem conflitos! Já poderíamos criar o primeiro laço de aproximação com nossos pescadores no Farol, Atafona e na extensão do Paraíba. Acontece que a vida lá é interrompida pela guerra, pela morte. A vida aqui, é atravessada pelo Complexo Logístico Industrial do Porto do Açu. São tempos diferentes, são formas de resistência diferentes, muito material para pensar arte de forma crítica.

Cia. de Arte Persona apresenta "Fuzis", neste final de semana, em Campos  Folha1 - Cultura & Lazer

É possível manter a indiferença diante do desaparecimento forçado de pessoas? Diante da intolerância religiosa, da morte de mulheres, do racismo e da perseguição a comunidades Lgbtqiapn+? Diante da luta pela terra, pela água e por alimento, é preciso nesta cidade, que recuperemos as lições do Teatro do Oprimido, uma pedagogia crítica da passividade social por meio da arte. Campos dos Goytacazes teve seus palacetes e sua gente distinta, afeita ao bom gosto europeu. Mas vive há décadas sob o jugo da enxada e da fome.

Como animar o corpo daqueles que seguem passivos em ônibus lotados as seis da tarde e ouvem passivos a voz de sacerdotes tão pouco praticantes do Evangelho? Como lembrá-los de que esta terra pertence a quem nela trabalha?

Saudemos a coragem da Cia de Arte Persona por animar nosso espírito. E todos e todas que ousam fazer teatro em terra tão árida ao fomento concreto de políticas públicas favoráveis aos fazedores de cultura.

O mercado negro de citações: esquemas de venda de referências falsas alarmam cientistas

As maneiras pelas quais os pesquisadores podem inflar artificialmente suas contagens de referências estão crescendo

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Citações por dinheiro: pesquisadores identificaram serviços onde acadêmicos podem comprar citações para seus artigos em massa. Crédito: Vergani_Fotografia/Getty

Por Dalmeet Singh Chawla para a Nature 

Os observadores da integridade da pesquisa estão preocupados com as crescentes maneiras pelas quais os cientistas podem falsificar ou manipular as contagens de citações de seus estudos. Nos últimos meses, práticas cada vez mais ousadas surgiram. Uma abordagem foi revelada por meio de uma operação secreta na qual um grupo de pesquisadores comprou 50 citações para preencher o perfil do Google Acadêmico de um cientista falso que eles criaram.

Os cientistas compraram as citações por US$ 300 de uma empresa que parece vender citações falsas em grandes quantidades. Isso confirma a existência de um mercado negro para referências falsas sobre o qual os detetives de integridade de pesquisa há muito especulam, diz a equipe.

“Começamos a notar vários perfis do Google Acadêmico com tendências de citação questionáveis”, diz Yasir Zaki, um cientista da computação da Universidade de Nova York (NYU) Abu Dhabi, cuja equipe descreveu sua operação de picada em uma pré-impressão de fevereiro 1 . “Quando um manuscrito adquire centenas de citações em poucos dias de publicação, ou quando um cientista tem um aumento abrupto e grande nas citações, você sabe que algo está errado.”

Essas práticas são problemáticas porque muitos aspectos da carreira de um pesquisador dependem de quantas referências seus artigos reúnem. Muitas instituições usam contagens de citações para avaliar cientistas, e os números de citações informam métricas como o h -index, que visa medir a produtividade dos acadêmicos e o impacto de seus estudos.

A manipulação de citações pode ter consequências reais. Em junho, o jornal espanhol El País relatou que o Comitê de Ética em Pesquisa da Espanha instou a Universidade de Salamanca a investigar o trabalho de seu reitor recém-nomeado, Juan Manuel Corchado, um cientista da computação acusado de aumentar artificialmente suas métricas do Google Scholar. (Corchado não respondeu ao pedido de comentário da Nature .)

Referências à venda

Observadores da integridade da pesquisa já suspeitavam que as citações estão à venda em fábricas artigos científicos , serviços que produzem estudos de baixa qualidade e vendem slots de autoria em artigos já aceitos, diz Cyril Labbé, um cientista da computação na Universidade Grenoble Alpes, na França. “As fábricas de papel têm a capacidade de inserir citações em artigos que estão vendendo”, ele diz.

Em novembro de 2023, a empresa de análise Clarivate, na Filadélfia, Pensilvânia, excluiu mais de 1.000 pesquisadores de sua lista anual de pesquisadores altamente citados por medo de jogos de citação e “hiperpublicação”.

Em sua operação secreta, Zaki e seus colegas criaram um perfil no Google Acadêmico para um cientista fictício e enviaram 20 estudos fictícios que foram criados usando inteligência artificial.

A equipe então abordou uma empresa, que eles encontraram ao analisar citações suspeitas vinculadas a um dos autores em seu conjunto de dados, que parecia estar vendendo citações para perfis do Google Acadêmico. Os autores do estudo contataram a empresa por e-mail e depois se comunicaram pelo WhatsApp. A empresa ofereceu 50 citações por US$ 300 ou 100 citações por US$ 500. Os autores optaram pela primeira opção e 40 dias depois, 50 citações de estudos em 22 periódicos — 14 dos quais são indexados pelo banco de dados acadêmico Scopus — foram adicionadas ao perfil do pesquisador fictício no Google Acadêmico.

A equipe não compartilhou o nome da empresa com a Nature , citando preocupações de que revelá-lo poderia chamar a atenção para seu site, ou para o perfil falso do Google Acadêmico que eles criaram, porque isso poderia revelar as identidades dos autores dos estudos que plantaram as citações falsas. Questionado pela Nature se o Google Acadêmico está ciente de que perfis falsos podem ser criados em seu site, Anurag Acharya, engenheiro distinto da empresa, disse: “Embora o mau comportamento acadêmico seja possível, é raro porque todos os aspectos são visíveis — artigos indexados, artigos incluídos por um autor em seu perfil, artigos citando um autor, onde os artigos que citam estão hospedados e assim por diante. Qualquer pessoa no mundo pode chamá-lo para isso.”

Em outra demonstração de manipulação de citações, no mês passado pesquisadores criaram um perfil falso do Google Acadêmico para um gato chamado Larry listando uma dúzia de artigos falsos com Larry como único autor. Os pesquisadores postaram mais uma dúzia de estudos sem sentido no site de rede social acadêmica ResearchGate que citavam os artigos de Larry. Mais ou menos uma semana depois que a identidade de Larry foi revelada, o Google Acadêmico removeu os estudos do gato, aqueles que citavam Larry e as citações acumuladas. O ResearchGate também removeu os estudos falsos que citavam Larry.

Pré-impressões falsas

A operação de Zaki e colegas nasceu de um esforço mais amplo para avaliar a escala do problema de citações falsas. Eles usaram software para examinar cerca de 1,6 milhão de perfis do Google Acadêmico que tinham pelo menos 10 publicações. Eles procuraram perfis com mais de 200 citações e instâncias nas quais as citações dos pesquisadores aumentaram 10 vezes ou mais a cada ano ou quando o aumento representou um salto de pelo menos 25% de sua contagem total de citações. A equipe encontrou 1.016 desses perfis.

Zaki diz que muitas citações dos artigos nesses perfis são de artigos pré-impressos que não foram revisados ​​por pares e que normalmente são listados nas bibliografias dos artigos, mas não são citados no corpo principal dos manuscritos.

“As citações podem ser facilmente manipuladas pela criação de pré-impressões falsas e por meio de serviços pagos”, diz o coautor Talal Rahwan, cientista da computação da NYU Abu Dhabi.

Os autores também entrevistaram 574 pesquisadores trabalhando nas 10 universidades mais bem classificadas do mundo. Eles descobriram que, das universidades que consideram contagens de citações ao avaliar cientistas, mais de 60% obtêm esses dados do Google Scholar.

Padrões de peixes

Labbé não está convencido pela alegação da pesquisa de que o Google Acadêmico é amplamente usado para obter métricas de citação de pesquisadores. Alegações de manipulação de citações no Google Acadêmico surgiram no passado, ele diz, e acadêmicos há muito suspeitam que há fornecedores oferecendo esse tipo de serviço. Mas a operação secreta para revelar um vendedor de citações é a primeira do tipo, ele diz.

Guillaume Cabanac, um cientista da computação da Universidade de Toulouse, na França, que criou uma ferramenta que sinaliza artigos fabricados que contêm frases estranhas adicionadas para driblar softwares de detecção de plágio, diz que muitos estudos estão surgindo com citações de trabalhos que não têm nada a ver com o tópico do estudo.

A equipe de Labbé está criando uma ferramenta que sinaliza automaticamente padrões de citação suspeitos que podem indicar manipulação.

Para ajudar com isso, a equipe de Zaki propõe uma métrica chamada índice de concentração de citações, projetada para detectar casos em que um cientista recebe muitas citações de poucas fontes. Tal atividade é frequentemente um sinal de um “círculo de citações”, no qual cientistas concordam em citar uns aos outros para inflar as métricas uns dos outros. “Os suspeitos tendem a ter citações massivas originadas de apenas algumas fontes”, diz Rahwan.

Um medo entre os detetives de integridade é que os fraudadores concebam práticas mais sutis para evitar serem descobertos. Por exemplo, uma maneira de evitar ser detectado pelo índice de concentração de citações, observa Labbé, é comprar algumas citações por vez e não em massa.

Para Labbé, a maneira de lidar com o jogo de citações é mudar os incentivos na academia para que os cientistas não fiquem sob pressão para acumular o máximo de citações possível para progredir em suas carreiras. “A pressão por publicação e citação é prejudicial ao comportamento dos cientistas”, ele diz.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-024-01672-7

Referência

  1. Ibrahim, H., Liu, F., Zaki, Y. & Rahwan, T. Pré-impressão em arXiv https://doi.org/10.48550/arXiv.2402.04607 (2024).


Fonte: Nature

Agro é tech, mas não é pop: as polêmicas da produção de algodão no Brasil

Enquanto as atenções do mundo se voltam para a destruição das florestas da Amazônia, o bioma do Cerrado vem sofrendo uma devastação galopante com a agricultura e o cultivo de algodão

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Colheita de algodão na Fazenda Horita, na propriedade Estrondo, Bahia, Brasil, junho de 2023

Por Yamê Reis para a “Carta Capítal” 

Recentemente, o agronegócio comemorou ter alcançado pela primeira vez a liderança da exportação mundial de algodão, superando os Estados Unidos. Desde os tempos coloniais essa liderança vem sendo disputada, num mercado que inclui a Índia e China, como grandes produtores e exportadores globais dessa commodity.

Esse resultado é fruto de um esforço conjunto dos produtores de algodão e da indústria agro-química para conquistar benefícios financeiros para investimentos em tecnologia, isenções fiscais e apoio institucional, que facilitassem sua expansão e consolidação no bioma do Cerrado nos últimos 25 anos.

Tal como a soja e o milho, o algodão é um dos motores de crescimento e rentabilidade do agronegócio, e adquire um status especial e diferenciado dos outros produtos pela “sustentabilidade” a ele atribuída
pelos seus produtores e certificações nacionais ABR e a internacional Better Cotton, com sede na Suíça.

Entretanto, um cultivo em monocultura com uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos, com expulsão do trabalhador do campo e sem beneficiar as comunidades locais não pode ser chamado de sustentável, inúmeros estudos acadêmicos nos últimos anos, revelando que o Movimento Sou de Algodão, criado pelos produtores para disseminar a cultura do algodão do agro, é mais um caso de Greenwashing da indústria da Moda.

O caso do algodão brasileiro tomou contornos graves em abril deste ano quando a ONG internacional com sede em Londres, Earthsight, publicou um relatório chamado “Crimes da Moda”. O documento demonstra que as maiores marcas varejistas de moda do mundo, Zara e H&M, usam algodão brasileiro certificado Better Cotton ligado a grilagem de terras, desmatamento ilegal, violência, violações de direitos humanos e corrupção. Por meio de vasta documentação, a investigação rastreou o algodão desde as fazendas SLC e Grupo Horita no oeste da Bahia, passando pelas fiações e confecções asiáticas, até chegarem às lojas da Europa.

Enquanto as atenções do mundo se voltam para a destruição das florestas da Amazônia, o bioma do Cerrado vem sofrendo uma devastação galopante e sistemática desde o começo dos anos 2.000. A agricultura em escala industrial já destruiu metade da vegetação nativa e temos visto o problema se agravar nos últimos anos com taxas de desmatamento aumentando em 43% em 2023 em comparação ao ano anterior.

A empresa investigada pela Eartsight, SLC, é o maior produtor de algodão do Brasil, e tanto ela quanto o Grupo Horita, um dos seis maiores produtores, têm sua produção ligada a uma série de ilegalidades. Ambas as famílias têm origem no Sul do Brasil e estão entre as mais ricas do país. Líderes da sociedade civil local relataram que é raro encontrar fazendas de soja ou algodão no oeste da Bahia que não sejam resultado da grilagem de terras, e isso pode ser constatado pelos inúmeros registros de processos de disputa de territórios desde o inicio da ocupação do Cerrado em 1970-1980,  desmatamento ilegal, casos de corrupção, violência e negligência do governo estadual.

Apesar das evidências dos fatos revelados no relatório da Earthsight, a Better Cotton certificou a produção do algodão de ambas as empresas e o produto contaminado pela violência e destruição do Cerrado é vendido no exterior como “sustentável”. A conclusão inevitável é de que os processos de certificação são extremamente falhos e ineficientes, não se preocupando com atestados de propriedade legal, monitoramento de desmatamento, e quantidades usadas de agroquímicos e contaminação das comunidades no entorno das áreas cultivadas.

E para piorar ainda mais o caso, a ONG mostrou, nas últimas semanas, revelações surpreendentes de um exfuncionário da Better Cotton sobre a manipulação de dados na plataforma online da certificadora, onde constam mais de 13.000 usuários em todo o mundo. De acordo com a fonte, a  ausência de verificação dos dados e as manipulações são de tal ordem que é possível que algumas quantidades de algodão convencional não auditados sejam inseridas na plataforma como“algodão sustentável certificado”.

Além disso, a Better Cotton raramente verifica as empresas da cadeia de suprimentos quanto à conformidade com suas diretrizes, bastando a autodeclaração dos produtores. Ao que tudo indica, a Better Cotton tem agido preocupada com seu crescimento e resultado financeiro, já que as taxas cobradas de seus clientes e associados são proporcionais aos volumes comprados, ou seja, quanto mais algodão, melhor.

Certificações são uma ferramenta essencial de garantia de rastreamento de origem de produtos sustentáveis, trazem confiança aos consumidores de que a cadeia produtiva é ética, respeita os Direitos Humanos e o trabalho digno. Porém, o que estamos vendo é que no caso da Better Cotton o rigor com os protocolos de auditoria e aprovação de registros de  produtores vem sendo afrouxados em prol do lucro da empresa, em não em nome de fomentar e incentivar cadeias produtivas éticas na indústria da Moda.

Para nós no Brasil, fica o alerta de que, enquanto clientes número um e consumidores de 100% de algodão brasileiro, estamos também submetidos ao descontrole e as fragilidades das certificações ABR e BCI. As marcas de moda associadas ao Movimento Sou de Algodão devem começar a exigir que as fazendas certificadas obtenham aprovação das comunidades para as atividades que os afetam, que o algodão cultivado não esteja ligado a áreas desmatadas antes de 2019, e que as auditorias sejam conduzidas por agentes imparciais.

Marcas de moda comprometidas com a sustentabilidade e a responsabilidade socioambiental devem perguntar de onde vem o algodão brasileiro e como ele foi produzido, mesmo que ele tenha a certificação Better Cotton ou ABR. Vamos fazer a nossa parte e subir a régua da sustentabilidade na Moda.

Yamê Reis é Mestre em Sociologia Política, Coordenadora de Design de Moda no Instituto Europeu de Design-Rio e Docente Embaixadora do Fashion Revolution Brasil.


Fonte: Carta Capital

Relatório científico revela ineficácia da lavagem de frutas contra agrotóxicos

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Por Terra Brasil

Um novo relatório científico reforça as preocupações dos consumidores sobre resíduos de agrotóxicos em alimentos. As evidências apontam que lavar as frutas antes de comê-las não remove vários produtos químicos tóxicos comumente usados na agricultura.

Os pesquisadores publicaram o artigo sobre a ineficácia da lavagem de frutas na quarta-feira no periódico Nano Letters da American Chemical Society. Segundo o documento, as tradicionais “operações de limpeza de frutas não conseguem remover totalmente os agrotóxicos”.

Penetração Profunda dos Pesticidas nas Frutas

Os resultados da pesquisa são preocupantes. Utilizando uma técnica especializada para examinar uma maçã, os cientistas descobriram que os agrotóxicos penetram não apenas na camada da casca, mas também na camada da polpa. Esta penetração torna a simples lavagem ineficaz para a remoção completa dos produtos químicos.

Segundo os pesquisadores, “os resultados de imagem provam que os agrotóxicos penetram na camada da casca e na camada da polpa”. Isso significa que, mesmo após uma lavagem meticulosa, muitos resíduos podem ainda estar presentes dentro da fruta.

Os Riscos dos Agrotóxicos são reais?

Essa descoberta levanta uma preocupação importante: quão esses agrotóxicos afetam nossa saúde? Diversos estudos documentam os riscos à saúde relacionados aos agrotóxicos, mas a maioria das pesquisas foca na exposição ocupacional, ao invés da exposição dietética.

As principais agências de saúde mundial afirmam que resíduos de agrotóxicos em alimentos, quando dentro dos limites legais, não são geralmente uma preocupação para a saúde. No entanto, essa nova pesquisa poderia motivar uma revisão desses limites e práticas de segurança alimentar.

Como Minimizar a Exposição a Agrotóxicos?

Embora a remoção da casca da maçã tenha mostrado diminuir a contaminação por agrotóxicos, essa solução pode não ser prática ou desejável para todos, dado que a casca de muitas frutas contém nutrientes importantes.

  • Opte por alimentos orgânicos: Os alimentos orgânicos geralmente contêm menos pesticidas.
  • A utilização de soluções de lavagem específicas: Produtos de limpeza próprios para frutas podem ser mais eficazes do que a água simples.
  • Investigue métodos alternativos: Métodos como imersão em soluções de vinagre ou bicarbonato de sódio podem ajudar, mas exigem mais estudo para determinação de eficácia.
  • Consuma variedades de frutas: Diversificar os tipos de frutas consumidas pode ajudar a minimizar o risco de exposição a um único tipo de agrotóxico.

Higienização de Frutas Ainda É Necessária?

Enquanto a higienização não pode eliminar completamente os pesticidas, ela é fundamental para a segurança alimentar em geral. A lavagem com água corrente e a utilização de soluções apropriadas ajudam a remover a sujeira e microorganismos, como bactérias e vírus, que são prejudiciais à saúde.

Portanto, é importante continuar a higienizar bem todas as frutas e vegetais antes do consumo. Além disso, considerar a compra de produtos orgânicos e diversificar a dieta pode ajudar a reduzir ainda mais a exposição a pesticidas.

Em resumo, enquanto a lavagem não é a solução completa para os agrotóxicos, continuar com boas práticas de higienização e fazer escolhas informadas ao comprar frutas pode melhorar nossa saúde e bem-estar.


Fonte: Terra Brasil Notícias

Em meio à tormenta, o PT Campos está sem bússola, lenço ou documento

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Por Douglas Barreto da Mata

Seguindo nossas reflexões recentes sobre o PT de Campos, aqui (Aqui!) e (Aqui!), eis que emergiu uma dúvida.  E se, em um cenário bem pouco provável, é verdade, houvesse um segundo turno entre o atual Prefeito Wladimir Garotinho, favorito à reeleição e a oposição da extrema-direita, representada na delegada candidata?

Como o PT orientaria seus eleitores, e mais, como se comportaria o partido neste improvável cenário?  É uma pergunta importante, apesar da pouca chance de que ela venha a ser feita, pelos motivos que já declinamos, isto é, o amplo favoritismo do atual prefeito.  No entanto, não é uma questão que deve ser desprezada para o day after tomorrow, ou, o dia depois de amanhã.

Encerradas as eleições, como se encaixa o PT de Campos dos Goytacazes neste futuro recente?  Afinal, há contingentes históricos importantes se aproximando, como a necessidade de Lula ter um  palanque forte no Estado, tudo indica com Eduardo Paes, além das demandas do partido em ampliar suas bancadas na Câmara Federal e no Senado. E aí?

A estratégia e as táticas da coordenação de campanha do “Professor Jefferson”, que parecem meio deslocadas da direção partidária e dos interesses de médio prazo do partido, a nível estadual e sim, no nível nacional também, parecem apontar para uma hostilidade flagrante contra o candidato que, hoje, se apresenta como centro-direita.  Ao se unir com a extrema-direita campista, o PT de Campos indica que está sem rumo. Perdido. 

Uma campanha acidentada, marcada pela estupidez de esperar alguém que não poderia ser candidata, e um candidato que parece desconhecer as reais chances que tem, que não são de vitória, mas sim de demarcar um campo progressista, estabelecendo as diferenças com a centro-direita representada no atual prefeito, porém, acima de tudo, execrando e isolando tudo o que significa a extrema-direita local.

A campanha atual me faz lembrar do ridículo : “Sou PT, voto Feijó”, uma passagem vergonhosa, onde, como de costume, para embarcar em um anti garotismo cego e tetraplégico, o partido se uniu ao que havia de pior no cenário local. Por estranha ironia, aquele que veiculava impropérios, foi cooptado.

O ressurgimento da Ku Klux Klan no ano de seu 150º aniversário - BBC News  Brasil

Já os petistas de antanho, os “feijoadas”, defendem atualmente a linha de adesão ao esforço da Ku Klux Klan local.  Burrice não é errar, burrice é cometer os mesmos erros e esperar resultados diferentes.

No país da COP 30, rios de chuva viraram corredores de fumaça

fumaça poa

Fumaça vinda da Amazônia asfixia população de Porto Alegre

Em 2025 o Brasil deveria sediar na cidade de Belém, capital do Pará, a 30a. Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30) onde supostamente tomadas decisões para conduzir o devido enfrentamento à crise climática.

O problema é que o país terá de recorrer a algo muito diferente para impedir que no exato momento da realização da COP 30, os participantes não sejam obrigados a utilizar máscaras de proteção contra a poluição oriunda das queimadas de áreas agrícolas e incêndios ocorrendo no interior de florestas, como está ocorrendo em 2024.

A situação é alarmante, mas está sendo colocada para debaixo dos  panos,  não apenas pelo governo Lula e pelos governos estaduais da Amazônia, mas também pela mídia corporativa nacional.  A ocorrência recorde de queimadas e incêndios florestais decorre de uma combinação de fatores climáticos e de manejo da terra que se retroalimentam para conduzir a situação de calamidade pública.

As imagens abaixo mostram a ocorrência de um fenômeno climático que é causado pela ocorrência de incêndios na Amazônia que, por sua vez, geram o transporte de fumaça para o sul do Brasil.

fogo fumaça

O que temos diante de nossos olhos é a transmutação dos rios de chuva (ou rios voadores) em corredores de fumaça, fato que exemplifica os efeitos dramáticos do avanço das franjas de desmatamento e degradação florestal para áreas anteriormente intocadas da bacia Amazônica.

Diante dessa catástrofe, o que faz o governo Lula para ativar os mecanismos de comando e controle na Amazônia? Absolutamente nada. 

Por isso não é que não podemos nos deixar enganar com os anúncios governamentais em prol da tomada de posição em prol de compromissos climáticos durante a COP 30. Esse evento deverá ser apenas mais aonde se fala muito e se faz nada para mudar o processo de destruição da Amazônia.  E isso se dá porque a reprimarização da economia brasileira avança a passos largos, sob o beneplácito de Lula e Marina Silva.

A crise político-financeira na Uerj como um sinal para a Uenf: eu sou você amanhã

Estudantes da Uerj protestam contra mudanças nas regras para auxílios

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) vem sendo palco de uma revolta estudantil contra a reitoria da instituição que resolveu fazer um corte profundo na distribuição dos recursos destinados à chamada “assistência estudantil”. A alegação da reitoria da Uerj para tal corte é de que a Uerj simplesmente não tem recursos orçamentários para continuar atendendo nos limites estabelecidos por administrações anteriores.

Os estudantes da Uerj, que contam com a simpatia dos sindicatos de servidores e docentes, partiram para um modelo clássico enfrentamento que inclui a ocupação física de prédios e manifestações de rua. A intenção declarada é fazer a reitoria retroceder e continuar praticando o modelo anterior de distribuição de recursos. Por sua vez, a reitoria da Uerj também se mantém em uma posição clássica de para conter a o movimento dos estudantes, com o uso até aqui de seguranças patrimoniais para conter a revolta estudantil.

Enquanto isso, o governador Cláudio Castro (PL) se mantém completamente à vontade para, entre outras coisas, sair pelo estado fazendo campanha por seus candidatos a prefeito e vereador, a despeito do fato de que a educação fluminense afunda em crise profunda, ocupando o penúltimo lugar nos índices do IDEB que acabam de ser divulgados pelo MEC.  É como se Cláudio Castro sapateasse sorridente sobre a educação fluminense enquanto asfixia escolas e universidades para continuar praticando uma injustificada política bilionária de isenções fiscais.

Candidata do grupo Bacellar, Madeleine lança campanha à Prefeitura de Campos  - Campos 24 Horas | Seu Jornal Online.

Enquanto o Rio de Janeiro ocupa o penúltimo lugar no IDEB, um Cláudio Castro sorridente faz campanha para sua candidata em Campos dos Goytacazes

O curioso é que até agora o quadro conflagrado da Uerj não está se repetindo na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Alguém mais distraído poderia achar que Cláudio Castro está sendo mais benevolente com a Uenf por causa de sua localização estratégica em Campos dos Goytacazes, onde o ainda governador do Rio de Janeiro esteve fazendo campanha pela sua candidata a prefeita, em companhia de uma numerosa delegação de deputados estaduais que chegaram na cidade em uma espécie de revoada de aviões de carreira.

O meu diagnóstico é que a situação de paz aparente na Uenf não tem nada a ver com uma suposta benevolência de Cláudio Castro. A coisa na Uenf se explica mais pela indisposição de seus sindicatos, especialmente os dos estudantes (DCE e Associação de Pós-Graduandos) e dos servidores técnicos (Sintuperj) de se comportarem como representantes não dos interesses de seus dirigentes, mas daqueles que dizem representar. 

Agora, como o torniquete que aperta a Uerj também arrocha e asfixia a Uenf, o corte de bolsas que começou nos projetos de extensão, ceifando ações estratégicas para beneficiar a população, poderá em um futuro não muito distante chegar à outras modalidades de bolsas estudantis e também nos auxílios que deram um refresco na penosa situação causada pela corrosão inflacionária dos salários.

E aí pode ser que a paz aparente reinante na Uenf se transmute nas cenas de enfrentamento que estão ocorrendo na Uerj em uma espécie de “eu sou você amanhã”.  Curioso vai ser acompanhar a reação da reitoria da Uenf que, ao contrário do que ocorreu na Uerj, se elegeu com o apoio explícito de dirigentes sindicais de estudantes e servidores técnico-administrativos. 

O IDEB separa a Califórnia da Louisiana, mas aproxima o PT da extrema-direita em Campos

ideb 2024

Ministério da Educação divulga dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – (crédito: Mila Ferreira/DA/CBPress)

Por Douglas Barreto da Mata

A corrida eleitoral já começou, e confesso que imaginei que nada mais me surpreenderia.  Engano meu.

Desde 1982, já me chamava a atenção o jornal “O Nacional”, que o PDT de Leonel Brizola editou, na época, com a logomarca do seu correspondente francês progressista, o Libération.  Ali comecei a me interessar pela política, para, finalmente, passar a militar no PT, a partir de 1986.

Achava que o pleito deste ano não traria novidades, e dado o favoritismo do atual prefeito de Campos dos Goytacazes, que concorre à reeleição, e a pouca densidade eleitoral e política de sua oposição, parecia que não haveria novidade.

Como já disse, errei feio.

Na última semana, houve a divulgação dos índices do IDEB, com a cidade campista revelando uma recuperação inédita, alcançando índice jamais registrado, de 5,4.  Enquanto isso, o Estado do Rio de Janeiro alcançou apenas 3,3, e se consolidou como o pior da região Sudeste, sendo o responsável pelo rebaixamento da média da região, e pior, colocando os fluminenses na penúltima colocação no Brasil, algo que retrocede a 2011, quando o estado apresentou os mesmos índices.

Ideb: estados não bateram meta — Foto: Editoria de arte com dados do Inep

Pois bem, mas em relação às eleições, qual foi a novidade?

Para meu espanto, consolidou-se uma estranha aliança na cidade de Campos dos Goytacazes, onde o PT e a extrema-direita se uniram para atacar os dados positivos do município, formando um estranho e impensável coro.

Todos sabemos que índices estatísticos, ou índices de avaliação são referências, importantes sim, mas referências que indicam aspectos que não podem ser levados como a totalidade dos processos aos quais se referem, e nem resumem toda a complexidade dos objetos que são avaliados.

Em outras palavras, sim, é preciso avançar mais e manter o foco na melhoria das condições da rede de ensino, investimento em pessoal, modernização e acesso às novas plataformas, etc.

Aqui um parêntese:

Há um outro componente que a “esquerda” desprezou, que reside no aspecto simbólico de um índice positivo na educação, que motiva alunos, pais, e profissionais a apostarem na forma pública de gestão, quebrando o nefasto argumento de que os esforços estatais são sempre ineficientes. Em suma, quando se aliou à extrema-direita, a “esquerda” ajudou a consolidar o discurso de que o que é público, não presta.

Foi como se o PT desse um sonoro tapa na cara de alunos, pais e profissionais de ensino.  Não foi só isso.

Esconder o fato de que a cidade não apresentou dados à avaliação anterior, simplesmente porque a gestão de Rafael Diniz destroçou o sistema educacional que existia, parece adequado ao modelo fascista de fazer política.

Mas não combinaria muito com o PT.  Não combinaria, é verdade, se não fosse o fato de que PT de Campos dos Goytacazes e esta mesma extrema-direita estiveram juntos no governo Rafael Diniz.

Isto é, olhando com de uma perspectiva histórica mais ampla, o PT de Campos dos Goytacazes sempre serviu como linha auxiliar de um tipo de conservadorismo macabro, justificando essa posição como combate ao “populismo da família Garotinho”.

Aqui um mea culpa, não me eximo de ter compartilhado, em algum tempo, essa noção.  A atual “aliança” do PT com a extrema-direita é como se o partido unisse a Família Manson (Aqui!).

O PT e a extrema-direita pretendem não ver o rotundo fracasso (licença, Brizola) do Estado do Rio de Janeiro, que deu marcha à ré até 2011, quando o Rio obteve o mesmo índice, 3,3.  13 anos de volta para o passado.

Enquanto isso, no Nordeste, muito mais pobre e muito menos glamoroso que o Rio Mil Maravilhas, as maiores notas de matemática, as cidades com maiores notas no Brasil, e as maiores médias estaduais se concentram, em um prenúncio virtuoso de que a região poderá reforçar uma tendência mundial: As empresas de alta tecnologia caçam locais com níveis de excelência em matemática para instalarem suas plantas e seus investimentos. 

Pois é.

Mal comparando, tipo a Califórnia e o Vale do Silício, que surfa na onda de um progressismo educacional e cultural, iniciado lá na década de 50/60, do século anterior, que afastou por completo o ressentimento e violência cultural e política, comum nos estados do sul dos EUA e do meio oeste.

Resultado?

O sul dos EUA patina, mesmo rico em petróleo, e desperdiça a vocação multicultural de cidades como New Orleans, dentre outras, e confina as chances de aproveitamento desse capital social riquíssimo em redutos de fascistas brancos de pouca ou nenhuma instrução.

Parece familiar? Copacabana? Pelinca? Pois é.

No entanto, eu imagino que com todas as semelhanças desses locais, e guardadas as enormes diferenças também, a verdade é que parece inimaginável que os setores mais progressistas da política no sul dos EUA se aproximem, ou se unam, aos neonazistas da Ku Klux Klan (a famigerada KKK).

kkk

Pois é justamente, o que acaba de acontecer em Campos dos Goytacazes.

Para uma crítica do identitarismo

No frigir dos ovos, ele atrela-se à dinâmica do “não há alternativas”, pois é reativo e nichado. O encontrar em-si de si trava os sentidos de pertencimento e da luta comum, o que convém ao capitalismo – em especial, no século XXI. Além disso suas bandeiras podem ser muito lucrativas…

Imagem publicada no site Disparada

Por Douglas Barros

É evidente que o colonialismo, enquanto constituição imaginária, se perpetuou nas formas que organizam a vida contemporânea. Durante o século XX, porém, inúmeras apostas se deram no sentido de que a modernização seria capaz de suplantar a desigualdade racial, ou de gênero, curando as feridas abertas pela tragédia colonial. Hoje, século XXI, já se pode dizer que essas promessas tornaram-se ilusões perdidas.

Com o desenvolvimento do capitalismo, o caráter excludente da máquina do mundo moderno só se tornou maior. Para legitimar a exclusão, a noção racial tornou-se o onipresente azeite a lubrificar a máquina de um inconsciente que naturalizou a separação humana entre raças. Basta olhar o levante de extrema direita no Reino Unido, ocorrido na semana passada, para entender como a noção racial é sempre a alavanca privilegiada dos fascismos.

Não bastasse isso, o capitalismo do século XXI aprendeu que, distante da tensão do senhor e do escravo, o trabalhador podia ser conduzido à colaboração. Para tanto, sequestrar sua demanda atrelando-a ao consumo seria fundamental ao passo que na gestão da vida social era preciso um reconhecimento unilateral das demandas de pertencimento de grupos que serviriam para encobrir a dimensão concreta das lutas.

Talvez para dar resposta a esse quadro seja importante lembrar uma crítica dialética, ocorrida desde pelo menos metade do século passado, na qual se percebia que racialismo e racismo formavam um todo dinâmico. O próprio racialismo não apenas gera a sua contraparte – como Stuart Hall dizia; é a raça que produz o racismo – como ele depende do racismo para garantir a manutenção de seu sentido. Foi assim, me parece, que o tema da identidade, sequestrado pela lógica neoliberal, sofreu uma deflação ao se adequar aos limites necessários dessa gestão. Aqui temos problemas centrais e não podemos fugir de discuti-los. Começo pelo seguinte:

  1. Se não podemos duvidar que a identidade, tomada como finalidade última do sujeito, é uma objetificação de si mesmo, não podemos também deixar de observar que o horizonte histórico da modernidade promoveu a identificação de diversos grupos humanos. Isso estabeleceu a noção racial no colonialismo.
  2. É nessa terrível contradição que a história moderna é constituída: numa dialética em que a afirmação singular, por ter sido excluída dos processos de organização do status quo, tem a potencialidade de destituir a lógica social que organiza a relação de reprodução da vida responsável por essa exclusão.

O problema atual é que os impactos da gestão neoliberal precisam ser observados, pois, a noção da identidade baseada na ideia de encontrar um em-si de si mesmo totalmente transparente é uma violência objetificadora que serve como uma luva numa sociedade nichada como se tornou a nossa. Nichada?

Não é absurdo afirmar que na forma de gestão do capitalismo do século XXI a identidade passou a ser referendada como algo privado; uma reserva de mercado na qual se impôs as formas corretas para se expressar. Podemos reclamar de nossas dores desde que ela não se globalize no tecido social, desde que ela permaneça algo de grupos específicos. E, assim, o outro é somente a identificação que há do eu consigo porque expressa de maneira fantasiosa aquilo que sou e esse encontro é mediado pela nossa relação no mercado e sua competição.

Tudo se reduz ao campo da jurisdição e assim a identidade é sequestrada no campo da gestão e reativada como modo de pertencimento organizado pelo mercado. Mas, o mais problemático é que a mobilização identitária se torna profundamente reativa porque elimina não só a necessária mutação subjetiva, cabível na experiencia humana, mas repõe o status quo ao organizar uma competição de todos contra todos delimitada pelo mercado.

Para ter uma dimensão desse processo basta observar o antirracismo identitário que não busca a superação definitiva da racialização. O curioso é que não faz isso por uma escolha consciente, mas porque o racismo tornou-se o motivo de sua sobrevivência. Quer dizer é aquilo que possibilita sua própria existência como sentido e ação – isso sem falar que a pauta racial se tornou bem lucrativa… Por isso, trata-se de um antirracismo racialista, totalmente atrelado à dinâmica do “não há alternativas”. Para ele resta tão somente a disputa da gestão interna aos pressupostos lógicos do capitalismo contemporâneo.

Como mostra Haider: a expressão “política identitária” partiu de um grupo de militantes negras e lésbicas que tinham como horizonte o socialismo revolucionário1. Na argumentação que o Combate River tece – coletivo negro e feminista – fica explícita a marcação da identidade como uma construção e não simplesmente como uma descoberta.

Nele se trata de identificações que, apesar de não evocarem nenhuma essência, nem por isso deixam de dar sentido à pratica política do coletivo: “não são apenas mulheres, não são unicamente negras, não são apenas lésbicas” se lê no manifesto que continua, “não são apenas da classe trabalhadora”. O que são? “pessoas que incorporam todas essas identidades2”. Se nenhuma identificação determina a essência de um sujeito, pois, aquilo que o sujeito é, reside na sua capacidade de transitar por todas as identificações3, o coletivo reivindica tais identificações para dar materialidade à transformação que propõe.

Como essa posição rica e complexa foi transfigurada no seu contrário? Como a transformação social do capitalismo tornou a noção de identidade um fim em si mesmo? Esse é um problema que não deixa de ser fundamental. Apesar de sua fantasia, a identidade designa um problema concreto cujas implicações na vida subjetiva são centrais. Na sociedade atual, porém, existe uma falsa percepção de que o racismo e o sexismo são problemas que remetem única e exclusivamente à identidade/diferença.

A conclusão, que se esconde nessa ideia, é a de que a resolução dos conflitos da diferença se dê na gestão do próprio capitalismo. Temos nessa crença a manutenção do imaginário que garante o status quo neoliberal; esquece-se que o problema do negro está na injustiça racial necessária à desigualdade social – ou seja, a raiz do seu problema repousa na radical exploração a que foi submetido – para atrelá-lo à negridão e as formas de reconhecimento estatal.

Contra essa perspectiva – uma resolução do “conflito social” no nível da identidade excluída dos processos sociais e históricos – está o paradigma fanoniano que não se reduz à ideia de uma analítica na qual a opressão gera a resistência. O martinicano vai além; a resistência é só um momento da reorganização simbólica do racializado que lhe fornece uma identidade evanescente, é a ponte que ele atravessa para superar de maneira radical a própria estrutura social que divide a humanidade em raças. A identidade é só uma passagem rápida que consolida a experiência da subjetividade e torna o indivíduo um sujeito capaz de dar sentido a suas ações.

No espaço ideológico atual, entretanto, o sofrimento, com causas materiais e simbólicas, é reduzido à noção narcísica individual. O identitarizado o experimenta como algo exclusivo e a gestão desse sofrimento opera uma estetização política ligada às noções de competência e meritocracia. Na engenharia social atual, é preciso que a identidade tenha um caráter essencialista. Ela é alardeada diuturnamente numa sociedade hiperconectada em que a imagem aparece imediatamente como a verdade. A voz que humaniza esse sofrimento passa então a ser objetificada e reduzida à defesa do seu lugar.

No interior da operacionalização do lugar, como um lugar protegido, espera-se passivamente a gestão do sofrimento encarnada no representante como um vencedor que se mostra como uma exceção. Trata-se de uma redução à ideologia da eficácia que abafa a obscenidade da violência que sustenta a ordem através de alguns negros que venceram. E assim se oferece à lógica da ideologia do capitalismo as ferramentas necessárias: a ideia de que o problema é da gestão e que, portanto, é preciso se criarem espaços e ferramentas para a absorção da diferença.

Criam-se espaços livres da hostilidade do contraditório, propaga-se uma transgressão, estatisticamente calculada, e se fornecem elementos para a satisfação de não se ver negado. O corpo se torna algo no qual se exprime uma fantasiada divindade e a gestão identitária se torna a neutralização de movimentos potencialmente revolucionários em nome da nomeação dos gestores e representantes do grupo específico.

Para compreender essa engenharia social é preciso voltar ao colonialismo. É nisso que o identitarismo, inventado pelos colonizadores, se balizou: o fechamento da identidade numa identificação externa para controlar o processo escravagista de colonização de vários territórios. Que esse fechamento seja necessário à gestão atual diz muito sobre aquilo que Mbembe chama, com muita razão, de neoescravismo. A novidade é que esse processo tem tanta sutileza que quase passa sem ser observado criticamente.

O fechamento da identidade, narcisicamente apoiada na identificação de si através de um grupo, sem a necessidade da diferença como mediação do eu, expressa de maneira radical como a ideologia identitária se apossou de formas de lutas que partiam da identidade para questionar o todo social. O identitarismo, portanto, mais do que uma opção, trata-se na verdade de um modelo de gestão, ele nos atravessa de cabo a rabo.

Assim, os grupos, historicamente subalternizados, tornam-se reféns dessa lógica que é, acima de tudo, uma lógica de sobrevivência dramática numa crise permanente e em meio à eterna vigilância de câmeras, algoritmos e ponto 40 do policial. A perversidade do processo é tornar parte dos identitarizados (negros, latinos, muçulmanos, LBGTQIA+, etc.,) não só engajados no processo de identificação como muitas vezes nas suas formas de controle.

Importa lembrar que o identitarismo é o assassinato da alteridade desde que a Europa construiu identidade para todas as populações de além-mundo no início da modernidade. Na contemporaneidade, o esvaziamento das potencialidades transformadoras da identidade foi se consolidando de maneira vagarosa com o capitalismo do século XXI ao reidentitarizar as identidades para geri-la. Apostar no identitarismo como saída dos problemas atuais, que envolvem o massacre em nome da raça, mais do que ingenuidade, trata-se de colaboração ao que está posto.

Contra essa posição está Fanon que nos impõe a necessidade de pensar sobre o negro, não para reduzi-lo àquele organizado pelo identitarismo colonial, mas para entender de maneira radical a fonte dos sofrimentos e das agruras mantidas pela herança colonial afim de superá-las ao superar a forma como reproduzimos nossa vida social. Essa posição só pode ser assumida pensando o que há de dialético na lógica da identidade tendo em vista que, além de uma fantasia, ela precisa ser ruida.

Felizmente, muitos antes de nós se debruçaram nessa questão, não é um problema novo. Asad Haider, por exemplo, demonstra uma singular conversa de Malcom X na qual ele teria dito em 1964: “não se pode ter capitalismo sem racismo”. O desnudamento da estrutura que organiza o racialismo como gestão da racialidade, propicia a Malcom se orientar para a saída da identidade ofertada pela reprodução social que organiza os espaços raciais.

Malcom X foi morto justamente porque queria ir além dos limites identitários. Retornar à sua resposta é mais do que necessário, é urgente num mundo no qual o futuro do capitalismo ameaça nos levar à extinção. Se o racismo será superado com uma nova forma de sociabilidade… Isso eu não sei. O que sei, com toda certeza, é que nessa forma que vivemos, ele nunca será porque é parte fundante do sistema e nesse momento ele tece um genocídio horripilante em Gaza. Aliás, esse é o local onde o identitarismo se mostra em toda sua potencialidade catastrófica.


Notas:

1 HAIDER, A. Armadilha da identidade: raça e classe nos dias de hoje. Tradução Leo Vinicius Liberato. São Paulo: Veneta, 2019, p.31

2 HAIDER, 2012, p.32

3 BEAUVOIR, S. O segundo sexo: fatos e mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016

Douglas Barros é psicanalista e Doutor em Ética e Filosofia Política pela Unifesp