A Springer Nature amplia seu portfólio de ferramentas de integridade em pesquisa

Shutterstock.com/Andrii Zastrozhnov

Por Research Information 

A Springer Nature lançou uma nova ferramenta para ser usada em submissões a seus periódicos e livros, com o objetivo de detectar frases não padronizadas em manuscritos submetidos.

A ferramenta funciona detectando frases incomuns, construídas de forma confusa ou excessivamente complexas, como por exemplo, “consciência falsificada” em vez de “inteligência artificial”. Essas frases indicam que os autores utilizaram ferramentas de paráfrase para burlar a detecção de plágio. Caso a ferramenta identifique diversas frases atípicas, o trabalho será retirado.

A ferramenta foi desenvolvida utilizando o catálogo público de frases problemáticas do  Problematic Paper Screener  (PPS), criado por Guillaume Cabanac, Cyril Labbé e Alexander Magazinov, e passou por múltiplas rodadas de testes e validação para fornecer uma avaliação confiável de trabalhos submetidos em diversas disciplinas acadêmicas.  

Tamara Welschot, Chefe de Integridade em Pesquisa e Prevenção da Springer Nature, comentou: “Pesquisas fraudulentas são um desafio que afeta a todos nós na indústria editorial e precisamos trabalhar juntos para combatê-las. O desenvolvimento desta ferramenta foi um projeto de longa duração que envolveu estreita colaboração entre o grupo de integridade em pesquisa e diversas equipes de tecnologia da Springer Nature, com base em importantes trabalhos de investigadores de integridade da comunidade acadêmica.

“Agradecemos a Cabanac, Labbé e Magazinov por seus esforços no desenvolvimento do Problematic Paper Screener e por destacarem artigos com frases confusas para a comunidade editorial em geral. Nossa ferramenta identifica esses artigos problemáticos no momento da submissão, impedindo sua publicação e economizando o valioso tempo de editores e revisores  .”

A ferramenta de detecção de frases não padronizadas é a mais recente adição ao conjunto de soluções de integridade científica da Springer Nature e complementa as ferramentas já existentes: um detector de textos sem sentido,   o Snappshot  (que identifica imagens duplicadas ou manipuladas) e uma  ferramenta de verificação de referências irrelevantes.   Essas ferramentas foram desenvolvidas internamente como parte do compromisso contínuo da Springer Nature em garantir a integridade do trabalho que publica. Esse compromisso inclui investimentos em uma equipe de especialistas em rápido crescimento e no desenvolvimento contínuo de tecnologia.

A Springer Nature também se comprometeu a colaborar com a comunidade editorial em geral, como uma organização contribuinte do STM Integrity Hub , que facilita a troca de conhecimento e dados e desenvolve ferramentas tecnológicas compartilhadas, e para o qual a Springer Nature  doou seu detector de textos sem sentido para uso em todo o setor.


Fonte: Research Information

A COP dos lobbies, o relatório

O observatório De Olho nos Ruralistas e a FASE – Solidariedade e Educação lançam o relatório “A COP dos Lobbies”, ontem, primeiro dia de COP30. O estudo mapeia a influência crescente de grandes corporações brasileiras e de multinacionais nas negociações e nos espaços de deliberação da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que começa hoje em Belém (PA).

A lista de empresas analisadas inclui as mineradoras Vale e Hydro, o frigorífico MBRF (Marfrig e BRF), a sucroalcooleira Cosan, a gigante do papel e celulose Suzano, a fabricante de agrotóxicos e sementes transgênicas Bayer e os bancos Itaú e BTG Pactual.

Quem desejar baixar o relatório “A COP dos lobbies”, basta clicar [Aqui!]. 

Audiência em praça pública debate avanço descomunal da erosão na Praia do Açu

Audiência em praça pública coloca em debate a erosão que consome a  Praia do Açu

Desde o início de 2014, venho usando espaço para abordar o avanço do processo erosivo que está consumindo a passos acelerados a outrora aprazível Praia do Açu, levando mar adentro dezenas de moradias e arrastando histórias e as casas dos moradores da pacata localidade da Barra do Açu. 

Curiosamente, e em acordo com a memória dos moradores mais antigos da Barra do Açu, um documento produzido por uma empresa do Grupo MMX, a Mineração, Pesquisa e Comércio Ltda   , publicou um relatório atestando que aquela parte da costa era bastante estável e não estaria, por isso, sujeita a processos erosivos como o que se assiste nos dias atuais (ver imagem abaixo).

Uma alma mais ingênua poderia então se perguntar sobre como uma área que era relativamente estável e não candidata a sofrer processos erosivos graves chegou ao estado atual.  Como já registrei neste blog em diversas ocasiões, o início do processo erosivo está diretamente ligado à construção do “molhe” que protege a entrada do Canal de Navegação do Porto do Açu e cuja existência alterou a dinâmica de movimentação de sedimentos naquela área (ver imagem abaixo).

É importante ainda lembrar que  no dia 2 de outubro de 2014 participei de uma audiência pública onde apresentei um relatório técnico onde mediu-se a quantidade de área erodida pelo avanço do mar na Praia do Açu (ver imagem abaixo).

Em que pese a presença de um especialista contratado pelo Porto do Açu que eximia a empresa de responsabilidades pelo processo erosivo ocorrendo na Praia do Açu, o então o Gerente Geral de Sustentabilidade na Prumo Logística S/A, Vicente Habib, garantiu que a empresa iria ser solidária e pariticiparia dos esforços em prol da cessação do processo.

Agora, mais de 11 depois daquela animada audiência, vê-se que o Porto do Açu não só não foi solidário, mas como está ganhando dinheiro com os sedimentos que são dragados e não retornados para a dinâmica costeira, contribuindo diretamente para a aceleração do processo erosivo (ver imagem abaixo).

É a famosa situação de ganha-perde (onde o Porto do Açu e a população perde), o que torna a situação ainda mais esdrúxula, demandando medidas urgentes para mitigar (a palavra sempre presente nos Estudos de Impactos Ambientais) os efeitos da alteração de dinâmica de sedimentos na Praia do Açu.

Assim, vejo como positiva a reunião pública que ocorreu ontem na Praça da Barra do Açu (a qual já dá sinais que não durar muito se nada for feito) e que reuniu moradores da Barra do Açu e um grupo composto por 4 vereadores sanjoanenses (Analiel, Junior Monteiro, Julinho Peixoto e Elísio Motos). Como fui informado que em São João da Barra não existe oposição à prefeita na Cãmara de Vereadores, é bom saber que 4 vereadores governistas foram até a Barra do Açu e se reuniram com a população aflita por respostas (ver vídeo abaixo).

O único problema é que as soluções urgentes não podem esperar muito mais tempo, já que as imagens mostram que a erosão está avançando de forma avassaladora e não há como esperar pela contratação de uma empresa que faça um projeto de engenharia para salvar a Barra do Açu. A ação teria que ser agora e precisaria envolver os responsáveis pela erosão, qual seja, o Porto do Açu.  Capacidade técnica e equipamentos o Porto do Açu tem. e basta querer usar que os efeitos serão imediatos. Resta saber quem vai apresentar essa fatura aos gestores do Porto do Açu.

Uma boa data para essa entrega será durante a audiência pública do hub ferro metálico que ocorrerá na próxima 4a. feira no Grussai Praia Clube.

Pesquisadores encontram elevada concentração de metais em alimentos cultivados no estuário do Rio Doce

Foto aérea da foz do Rio Doce

Sueli de Freitas   Edição: Thereza Marinho 

O estudo Dos rejeitos às mesas: avaliação de risco de elementos potencialmente tóxicos em culturas comestíveis cultivadas em solos impactados por rejeitos de mineração mostra a concentração elevada de elementos potencialmente tóxicos (PTEs) em solos agrícolas do estuário do Rio Doce, incluindo cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo. Esses PTEs foram encontrados em partes comestíveis de culturas locais como cacau, mandioca e banana. 

A pesquisa, publicada em outubro na revista Environmental Geochemistry and Health (Geoquímica Ambiental e Saúde), foi realizada no ano de 2021 por um grupo interdisciplinar composto por pesquisadores da Ufes, da Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), e recebeu financiamento das fundações de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Espírito Santo (Fapes) por meio do projeto Rede Solos e Bentos Rio Doce.

O grupo investigou os efeitos da crônica contaminação por rejeitos de mineração ricos em ferro no estuário – zona de transição entre o rio e o mar. Desde 2015, o Rio Doce sofre os impactos do rompimento da barragem de Fundão no município de Mariana (MG). O rompimento da barragem, sob a gestão da Samarco Mineração S/A, ocorreu em 5 de novembro daquele ano, ou seja, há exatos dez anos.

Segundo os pesquisadores, a quantidade de cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo encontrados em solos agrícolas do estuário do Rio Doce excede os valores de referência adotados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). “Isso levanta a preocupação quanto à segurança alimentar a partir do consumo de produtos cultivados na região mais próxima à foz do Rio Doce”, afirma o professor Angelo Bernardino, do Departamento de Oceanografia e do Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Ambiental da Ufes, que participou da pesquisa. 

Avaliações de risco

O estudo utilizou avaliações que sugerem um possível risco não cancerígeno para crianças ao consumirem bananas. Para adultos, os índices calculados permaneceram abaixo de limiares de risco. O chumbo foi o principal responsável pelo risco alto observado para crianças.

Segundo a pesquisadora da USP Tamires Patrícia de Souza, doutora e enfermeira coautora do estudo, os resultados são um alerta claro para a necessidade de proteção à exposição infantil a esses elementos: “A exposição crônica ao chumbo está associada a danos ao desenvolvimento neurológico irreversíveis, como redução de QI (coeficiente de inteligência), déficits de atenção e alterações comportamentais. Crianças de zero a 6 anos de idade absorvem e retêm mais chumbo que adultos, tornando-as especialmente vulneráveis mesmo a baixas concentrações. Por isso, o estudo aponta a necessidade de medidas urgentes de monitoramento, estudos de bioacessibilidade e intervenções de saúde pública para reduzir a exposição contínua e proteger as populações mais sensíveis”.

O estudo também reconhece que seria necessário ampliar a amostragem de áreas ao longo do Rio Doce para melhor compreender o potencial risco para a população atingida pelo desastre. Porém, os resultados oferecem um sinal de alerta, pois dependendo da quantidade de alimentos ricos em metais consumidos, assim como de fontes adicionais de contaminação (solo, ar e água), existe a possibilidade de risco para crianças. “Esse estudo reforça dados anteriores publicados que sugerem a biodisponibilidade de muitos elementos potencialmente tóxicos na região estuarina e a natureza crônica dos impactos do desastre de Mariana sobre as comunidades afetadas”, afirma a pesquisadora Amanda Ferreira, da Esalq/USP, que liderou o estudo.

Ferreira ganhou o Prêmio USP de Tese 2025 na área de sustentabilidade ambiental e o Prêmio Capes de Tese 2025 na área de Ciências Agrárias com a pesquisa intitulada Iron biochemistry in mine tailing impacted soils: from risk assessment to enhanced bioremediation strategies (Bioquímica do ferro em solos impactados por rejeitos de mineração: da avaliação de riscos a estratégias aprimoradas de biorremediação), desenvolvida na Esalq/USP, sob orientação do professor Tiago Ferreira, em parceria com o professor Bernardino.

Foto: Angelo Bernardino/Ufes


Fonte: UFES

Professores paralisados para exigir o novo PCV da Uenf

Nesta segunda-feira (10/11) ocorre mais uma paralisação das atividades dos professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense. A mobilização de hoje é mais um passo no processo de luta contra o descaso do governo de Cláudio Castro que há mais de quatro anos se nega a enviar o novo Plano de Cargos e Vencimentos da Uenf para ser analisado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Esse claro descaso do governo Castro compromete não apenas a vida dos servidores que levam o projeto criado por Darcy Ribeiro adiante, beneficiando milhares de famílias que enviam seus filhos para Uenf para serem preparados para alçar voos profissionais.  O descaso de Cláudio Castro repercute na capacidade de ampliação das atividades da Uenf, criando dificuldades para que mais estudantes possam seguir a trilha exitosa que tantos outros já adentraram.

O fato é que a Uenf hoje paga salários corroídos em mais de 50% pela inflação, e seus novos servidores não possuem mais benefícios como o dos triênios e da licença especial. Com isso não se tornou apenas difícil manter um quadro mais jovem de servidores, mas de atrair profissionais qualificados por meio de concursos públicos.  Há que se lembrar que em sua implantação a Uenf pagava um adicional de interiorização e salários muito vantajosos com o intuito de contratar os melhores profissionais disponíveis no mercado. Foi essa política salarial que possibilitou que a Uenf se tornasse rapidamente uma referência nacional.

Para marcar essa paralisação, uma delegação de professores está se dirigindo ao Rio de Janeiro para participar de uma audiência pública promovida pela Alerj sobre a reforma administrativa que ameaça dar um golpe duríssimo nas condições de trabalhadores em todas as esferas de governo. Se consumada, a reforma administrativa será uma verdadeira pá de cal na Uenf.  Mas os professores também estarão na Alerj para dialogar com os deputados que estão apoiando a luta em prol do novo PCV.  É que, objetivamente, a luta contra a reforma administrativa e a aprovação do PCV são duas faces da mesma moeda. 

E nunca é demais lembrar que sem organização e mobilização, nenhum governo se sente obrigado a conceder direitos a seus servidores. E no caso do governo Castro isso é particularmente verdadeiro.

Em pleno colapso climático: Brasil, Argentina e México estão expandindo suas reservas de petróleo e gás

Em preparação para a COP30, a Urgewald apresenta novos dados sobre seus projetos. 41% do financiamento planejado para o mundo todo está destinado à América Latina

Protesto contra leilão de petróleo em frente a uma plataforma petrolífera no Rio de Janeiro
Por Nina Glatzer para “Amerika21”

Berlim/Belém. Pouco antes da COP30, a Conferência Mundial do Clima, a organização ambiental alemã Urgewald apresentou, na semana passada, suas bases de dados globais atualizadas sobre a indústria de combustíveis fósseis. Trata-se da Lista Global de Desativação do Carvão (GCEL 2025) e da Lista Global de Desativação do Petróleo e Gás (GOGEL 2025). A COP30 começa hoje em Belém, Brasil.

Embora a China, a Índia e os EUA liderem a expansão global dos combustíveis fósseis, os bancos de dados mostram que a América Latina também desempenha um papel central na expansão da produção de carvão, petróleo e gás – desde o gás de xisto na Argentina até a perfuração em alto-mar na costa brasileira.

Segundo o relatório GOGEL 2025, 30 empresas de energia estão a desenvolver projetos de expansão da produção a curto prazo na América Latina, cuja concretização é previsível, uma vez que já foram aprovados ou estão em construção. Em conjunto, estes projetos têm um volume de produção planeado de aproximadamente 30 554.8 milhões de barris de óleo equivalente (mmboe)*. Isto significa que quase 11.3 % da produção mundial total planeada de petróleo e gás, estimada em 270 708.8 mmboe, é atribuível à América Latina. A região não só está, portanto, envolvida, como é um dos principais polos de expansão global dos combustíveis fósseis.”

Os maiores volumes adicionais de produção provêm do Brasil, Argentina e México, seguidos pela Venezuela e Colômbia. No Brasil, diversos novos projetos em águas profundas estão atualmente em desenvolvimento na chamada região do pré-sal, incluindo campos como Búzios e Mero, operados pela Petrobras. Na Argentina, a expansão concentra-se na produção de gás de xisto em Vaca Muerta, um dos maiores depósitos de fraturamento hidráulico do mundo. O México contribui tanto com projetos offshore no Golfo do México quanto com perfuração em terra.

A expansão da produção de combustíveis fósseis é frequentemente acompanhada por novos oleodutos, terminais de GNL e usinas termelétricas a gás. De acordo com o relatório “The Money Trail: Behind Fossil Fuel Expansion in Latin America and the Caribbean” (O Rastro do Dinheiro: Por Trás da Expansão dos Combustíveis Fósseis na América Latina e no Caribe), da Urgewald e organizações parceiras como FARN, Arayara e Amazon Watch, uma onda de novas infraestruturas de petróleo e gás está sendo construída na região, abrangendo mais de 8.800 quilômetros de novos oleodutos e gasodutos, 19 terminais de exportação de GNL planejados e mais de 54.000 megawatts de capacidade adicional de usinas termelétricas a gás. Esses projetos são concebidos para uma vida útil de 30 a 50 anos e criam efeitos de dependência de combustíveis fósseis a longo prazo.

O banco de dados de carvão da Urgewald, GCEL 2025, também aponta para a continuidade da atividade de combustíveis fósseis na região. O banco de dados lista 27 empresas com sede na América Latina. Destas, 20 são empresas matrizes independentes e sete são subsidiárias de corporações internacionais. Juntas, elas operam aproximadamente 12,5 gigawatts de usinas termelétricas a carvão e extraem cerca de 87 milhões de toneladas de carvão anualmente, principalmente da Colômbia e do Brasil. Isso representa apenas 1% da produção global. Mesmo assim, a região tem uma importância acima da média nas exportações. A Colômbia, em particular, está entre os cinco maiores exportadores de carvão do mundo, exportando mais de 90% de sua produção. Isso significa que a Colômbia fornece 5,4% do volume de carvão comercializado globalmente. Embora o uso de carvão esteja estagnado em muitos países, a Colômbia permanece uma exceção como nação exportadora – novas áreas de mineração continuam sendo desenvolvidas no país, às vezes com investimento estrangeiro, como o Grupo Yildirim da Turquia ou a Ronin Resources da Austrália.

Com esses novos bancos de dados, as organizações ambientais pretendem deixar claro: a América Latina não é uma região periférica da indústria de combustíveis fósseis, mas sim uma área central de sua expansão global. Em vez de se afastar dos combustíveis fósseis, a região está passando por um processo de “diversificação fóssil”.

* Nota metodológica: O cálculo do volume de produção planejado baseia-se em uma estimativa: como as empresas individuais no banco de dados GOGEL gerenciam projetos em vários países, o volume relatado foi distribuído uniformemente entre todos os países listados na coluna “Países de expansão”. 


Fonte: Amerika21

Quando Raul Seixas encontrou Alejandro González Iñarritu: ou a (inesperada) benção da ignorância

Por Douglas Barreto da Mata

Quem me conhece mais de perto sabe, sou um apaixonado por cinema. Queria ter uma formação cultural mais sólida, que me aproximasse do teatro, e reconheço a grandeza de todos que se aventuram a se expor a um público que reagirá imediatamente, sem truques, edições ou tecnologias.  Porém, confesso que esse gosto cultural não me foi ofertado e quando pude buscar, nunca o fiz.

Talvez por isso tenha me apaixonado há anos pelo filme Birdman ou A Inesperada Virtude Da Ignorância, do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu, de quem já conhecia alguns filmes, como 21 Gramas, Amores Perros, Biutiful, O Regreso e Babel. Ele trabalha temas insistentemente existenciais, mas com um ritmo acelerado e policromático, quase uma vertigem, ao contrário da narrativa mais lenta e de planos arrastados de Terrence Malick, outro conhecido por essas “viagens interiores”.  Não dá para resumir a obra de ninguém em poucas linhas, mas posso, no entanto, definir o que me atrai em Birdman.

Primeiro é a ousadia e genialidade de fazer um filme sobre uma peça de teatro, que é baseada em um livro de Raymond Carver, de nome De Que Falamos Quando Falamos de Amor.  De maneira corriqueira, o eixo central do filme é descrito como uma reflexão entre autenticidade e fraude, relevância e irrelevância, prestígio e popularidade, enfim, cultura sofisticada e bens culturais de massa.

Simultaneamente, a peça e o filme se entrelaçam quando se percebe que os contos de Carver adaptados pelo “diretor/ator” Riggs (Keaton) também buscam definir o que é o amor, passeando por linguagem, narrativas, compreensões e incompreensões. Na peça encenada no filme, há a cena derradeira, onde o “ator” Riggs (Keaton) descobre sua condição e decide seu destino…mas isso vai se conectar lá no fim do texto.

Nessa direção, o ambiente claustrofóbico de um teatro na Broadway foi uma sacada sensacional, e a escolha do elenco, com papel principal para Michael Keaton, acompanhado de Ed Norton, Emma Stone, Naomi Watts, Zach Galifianakis, etc, mostrou a enorme capacidade do diretor de misturar bons “ingredientes”, que deram a trama um sotaque de comédia, afastando a inclinação ao sufocamento previsível de bastidores de um teatro ou de um minúsculo bar.

Ao mesmo tempo, Iñarritu inverte essa lógica de lugar pequeno/claustrofobia quando nos brinda com uma cena fantástica de Michael Keaton ao ar livre e exposto em situação desconfortável, aí sim, sufocado pela reação da multidão.

Uma perfeita metáfora para o “sucesso”.  Porém, não é nada disso que torna o filme sensacional e faz Alejandro González Iñarritu encontrar Raul Seixas, que lá atrás nos ensinou em uma de suas músicas: “pena não ser burro, assim não sofria tanto” .

Raul sabia, e Iñarritu também, que a ignorância é benção, mas o cineasta capturou com exatidão o momento do “aprendizado”, “do saber”, e aí está, em minha opinião, o que fez de Birdman um clássico.  Como aquelas bonecas russas, que saem umas de dentro das outras, as camadas do filme pulam de dentro umas das outras. Os dois papéis (um dentro do outro) vividos por Keaton no filme se “libertam” do sofrimento da plena consciência sobre si mesmos.

Do ponto de vista existencial, penso que imaginado pelo diretor, pouco importa definir categorias, ter ou não relevância, a questão central é não perder todo seu tempo de vida em busca de algo que, quando alcançado, se mostrará inútil ou bem menos fundamental do que você imaginava.

É uma baboseira psicológica?  É…mas é muito bem contado e filmado. Valem cada minuto.

Evento climático extremo destrói cidade no Paraná e mostra a urgência das respostas para uma adaptação justa

Rio Bonito do Iguaçu: antes (esquerda) e depois (direita) depois da passagem do tornado

Há alguns anos cruzei pela estrada que leva a Rio Bonito do Iguaçu e não imaginei que aquela região seria palco de um evento climático extremo de imenso poder destrutivo ( ver vídeo abaixo) cujos efeitos se espalharam por dezenas de outras cidades.

Se ainda precisássemos de mais provas de que caminhamos para um processo agudo de transformação do clima da Terra, o tornado avassalador que varreu a pequena Rio Bonito do Iguaçu com velocidades acima dos 200 kim/hora é mais uma delas.

O poder destrutivo desse tornado, evento tão extremo quanto singular, revela que estamos entrando em uma fase em que o “tempo raivoso” diagnosticado pela física e filósofa alemã Friederike Otto saiu do campo das hipóteses teóricas para se mostrar com intensidade na nossa realidade cotidiana.

Enquanto o tempo literalmente fecha sobre nossas cabeças, as elites globais continuam seu processo de negacionismo climático usando governos que elas capturam para continuar pisando no acelerador do consumo de combustíveis fósseis que emitem giga toneladas de gases estufa para a atmosfera da Terra  todos os anos. Ao mesmo tempo, essas mesmas elites continuam construindo seus bunkers para sobreviver ao dia do juízo final que elas próprias criando.

Não há como se enganar: para parar esse esquema de sacríficio da maioria da Humanidade em benefício da acumulação exponencial de riqueza por uma minoria será preciso mais do que reuniões alegóricas como a COP30 que se inicia amanhã em Belém. Será preciso que superemos o sistema econômico que alimenta a destruição da Terra em nome do lucro de poucos.

Por isso é fundamental que haja o engajamento em atividades e mobilizações que coloquem a questão do colapso climático nos únicos termos que poderão gerar as soluções que realmente trarão alguma chance de adaptação ao “tempo raivoso” que já está entre nós. A saída para o colapso climático, meus amigos, terá de ser pela esquerda que não se ajustou aos limites impostos pela ordem capitalista.  Como a já citada Friederike Otto escreveu em seu livro mais recente, a crise climática possui reverberações que envolvem gênero, raça e classe. Quanto mais cedo entendermos o papel dessa tríade, mais cedo nos livraremos das receitas limitadas que o mercado capitalista nos oferece.

Aditivos plásticos no oceano podem afetar organismos marinhos mesmo em baixas concentrações

Bisfenol-A, presente em itens plásticos do cotidiano desde os anos 1950, é um dos compostos mais estudados. Foto: Naja Bertolt Jensen / Unsplash 

Agência BORI

A maioria dos aditivos comuns em plásticos de uso doméstico e industrial apresenta alta toxicidade para organismos marinhos, mostra artigo publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências na sexta (7). A partir da revisão de literatura científica, pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) verificaram que essas substâncias, usadas para conferir aos produtos plásticos características como flexibilidade ou resistência ao calor, apresentam um potencial tóxico mesmo em concentrações baixíssimas.

O estudo analisou 25 artigos científicos que investigaram efeitos tóxicos de substâncias como bisfenol-A (BPA), alquilfenóis e ftalatos em organismos marinhos. Para quantificar a toxicidade, os pesquisadores analisaram parâmetros como a Concentração de Efeito Mais Baixa Observada (LOEC) e a concentração que causa efeitos ou morte em 50% dos organismos testados (EC50/LC50). O estudo identificou padrões preocupantes, com limiares de efeito na ordem de microgramas por litro (µg/L).

O bisfenol-A (BPA) foi um dos compostos mais estudados. Comum desde os anos 1950 em recipientes domésticos reutilizáveis, por exemplo, seus efeitos tóxicos começam a partir de 0,1 µg/L, atingindo organismos sensíveis como o mexilhão e a bolacha-do-mar. Ele é encontrado em concentrações medianas de 0,022 µg/L em ambientes costeiros, mas algumas regiões estudadas chegam a registrar até 4,8 µg/L, valor 4700% acima do limiar tóxico.

Segundo Denis Moledo de Souza Abessa, pesquisador do Instituto de Biociências da Unesp e coautor do trabalho, a presença do BPA nos ambientes marinhos se dá principalmente pelo esgoto, pois não é removido completamente em estações de tratamento.

Outro composto, o BPAF, criado como alternativa ao BPA, mostrou toxicidade semelhante, com alterações comportamentais em peixes a partir de 0,61 µg/L. Os alquilfenóis, como o nonilfenol (NP) e o octilfenol (OP), usados na fabricação de detergentes, cosméticos e produtos agrícolas, também se destacam pela alta toxicidade e tendência a se acumular nos tecidos animais. Concentrações máximas de NP de 4,1 µg/L foram relatadas em regiões estuarinas, áreas de transição entre rios e o mar. Esse valor é mais de quatro vezes superior ao nível considerado tóxico para embriões de ouriços-do-mar, que é de 0,937 µg/L.

As substâncias per e polifluoroalquil (PFAS), amplamente utilizadas em utensílios de cozinha antiaderentes, foram os únicos aditivos revisados com efeitos tóxicos em concentrações mais elevadas, na faixa de miligramas por litro. Ainda assim, são motivo de preocupação devido à sua persistência ambiental, ou seja, pela dificuldade de biodegradação.

Segundo Abessa, boa parte desses compostos é desreguladora do sistema endócrino. “Em locais contaminados por esgoto ou próximos a lixões, as concentrações ambientais já podem ser suficientes para causar desregulação hormonal em organismos aquáticos”, diz o pesquisador. Ele alerta ainda para riscos à saúde humana. Como os plásticos tendem a se acumular no fundo do oceano, a liberação e concentração desses químicos no sedimento marinho com antibióticos e outros compostos tóxicos criam um ambiente propício à seleção de superbactérias.

Além disso, muitos dos químicos podem se acumular em tecidos e chegar aos humanos. “Os alquilfenóis, por exemplo, têm afinidade por gorduras e tendem a se acumular nos tecidos de organismos marinhos, passando pela cadeia alimentar até chegar a predadores maiores, como atuns, robalos e tubarões, espécies que o ser humano consome”, explica Abessa.

Os autores concluem que as evidências disponíveis já indicam um potencial de risco ambiental significativo, mas destacam que os dados ainda são insuficientes para definir limites seguros de exposição. “Mesmo com poucos estudos, já se observa que as concentrações ambientais de alguns desses compostos podem atingir níveis capazes de causar alterações biológicas. Isso reforça a urgência de novas investigações e de políticas mais rigorosas de controle e regulação”, finaliza o pesquisador.


Fonte: Agência Bori

O Festival Doces Palavras, as viúvas do Livro Verde e o cinema do absurdo

Por Douglas Barreto da Mata

Tive notícias de que a audiência do referido festival gastro literário foi pífia…algo como o abraço no “corpo” da “terceira mais antiga livraria” que fechou… Sou campista do Parque Leopoldina, neto de ferroviários pelos dois lados, e confesso, tem coisa que só quem é daqui compreende. Nenhum outro lugar, senão Campos dos Goytacazes, tem um arremedo de “elite intelectual” com tamanha frustração existencial, talvez resultado direto de um processo histórico onde os ricos da terra massacraram com rara eficiência os pobres que os serviam. Este recalque talvez os livre do peso de consciência, caso possuam alguma.

Essa plêiade de janotas (desculpem os maneirismos paranasianos, mas são propositais) cultiva mitos de grandeza enquanto permanece de costas para seu povo. Assim, a livraria que dizem que era longeva, foi na maior parte de seu funcionamento uma tabacaria, e depois uma papelaria que vendia livros didáticos…uma fraude a estória. 

Com a distribuição gratuita de material escolar na rede pública, e com a digitalização das metodologias pedagógicas nas escolas da classe alta, o negócio faliu, mas antes tentou se vender como “patrimônio cultural”, um local de leitura que nunca foi, em, uma cidade onde os filhos dos pretos e pobres chegaram à escola após a década de 80 e 90 do século XX.

Alheio a tudo isso, esse “pessoal que sabia o javanês” (ver o conto de Lima Barreto, O Homem Que Sabia Javanês) seguiu firme na tarefa de “culturalizar” (ou colonizar ?) uma cidade “por cima”, pregando para convertidos (pouquíssimos), no meio do deserto social onde se auto exilaram. 

Lá, debaixo do sol escaldante da arrogância, gritam em uníssono, somos a primeira cidade a ter luz elétrica, somos a maior geografia do estado do Rio, aqui dormiu o Imperador, aqui tivemos o Cine Trianon, somos o espelho do Brasil…e claro, não poderia faltar a já citada livraria/tabacaria/papelaria. Com esse calor desesperador, surgem as alucinações e miragens, como um Festival de Cinema, que pode ser resumido a…a…a o quê mesmo?

Promessas de legado, de revolução e inovação das artes cinematográficas, surgimento de uma cadeia produtiva, impulso aos tratos acadêmicos da sétima arte, enfim, o paraíso na terra e…? Exibições de filmes em um mesmo lugar, sem nenhuma replicação pelos rincões da cidade, nenhum “cinema na praça”, seja em Custodópolis, seja no Parque Rosário ou Jockey Club. Matadouro ou Aldeia? Deuzolivre.

Lá na ponta, o Poder Público Municipal, espremido pelas pressões de sempre, vindas de uma mídia anacrônica, com forte sotaque cacofônico, que se acostumou a dar voz aos “Cabeças de Papelão” (ver o conto de João do Rio), acaba por patrocinar ou ajudar nesses eventos esvaziados, carentes de forma e conteúdo. 

Ao menos, ninguém dirá que o Prefeito Wladimir Garotinho não foi generoso com esse pessoal.  Fica a sugestão, apenas uma sugestão, não me levem a mal: a produção de cultura com um bem imaterial e público tem que ser elaborada com um viés claro de classe, em outras palavras, das periferias para o centro, nunca o contrário.

Esses movimentos têm que manter um “afastamento de respeito”, mas “uma proximidade de comprometimento e generosidade”.  Falar com quem quiser e necessitar ouvir, e aprender com quem quiser ensinar.  Dialogar, ao invés desses “monólogos em grupo”. Já chegou a hora desse pessoal ouvir amargas palavras: parem de encher a (nada santa) paciência e gastar dinheiro público por nada!