Moeda, uma cidade contra a mineração da Gerdau

Moeda, município próximo a Belo Horizonte, luta contra o avanço de mina de ferro da Gerdau

Serra-da-Moeda-protesto

Por Lara Machado para a Piauí

Quem vai de Belo Horizonte ao município de Moeda passa por oito áreas de mineração ativas em uma viagem que dura menos de uma hora. É a região do centro-sul mineiro conhecida como Quadrilátero Ferrífero, com a maior produção nacional de minério de ferro bruto. A economia de Moeda, porém, não depende do minério. Seus 5 125 moradores vivem sobretudo do turismo ecológico. A cidade está próxima de uma área de preservação ambiental rica em cachoeiras, nascentes e espécies nativas: o Monumento Natural Estadual (Monae) Serra da Moeda.

Desde 2012, o Plano Diretor de Moeda proíbe a mineração. O município é o único dos 34 da Região Metropolitana de Belo Horizonte em que não se extrai minério. Apesar disso, os limites de Moeda estão sendo afetados pela Mina Várzea do Lopes, explorada pela Gerdau, a maior produtora de aço do país, na cidade vizinha de Itabirito. Em seu plano de expansão, a empresa quer explorar 8,86 hectares (equivalente a oito campos de futebol) de uma área que pertence a Moeda.

Os planos dos moradores, no entanto, não incluem a empresa. “A população da cidade tem o maior pavor de falar em mineração”, diz o ambientalista Cléverson Vidigal. “A vocação do município é para o turismo e para a agricultura familiar. É uma área conservada ambientalmente, rica em história e cultura, que atrai os turistas para a região.”

Desde 2013, Vidigal, agrônomo aposentado de 67 anos, vem armazenando dados em um mapa topográfico da Serra da Moeda para documentar o crescimento da mineração. “Hoje eu tenho mais de 20 mil coordenadas lançadas aqui. Tem hora que fica até difícil de encontrar as coisas”, brinca, enquanto mostra a área disputada pela Gerdau no mapa. É possível verificar que o avanço da Mina Várzea do Lopes ameaça um espaço de intersecção entre dois territórios protegidos – o Monae e a Reserva Biológica Sul – e os limites municipais de Moeda. Nessa região, há ainda sete nascentes que podem secar, caso a extração de minérios avance.

Quando se vê a Serra da Moeda do alto, é possível observar um ponto em que o contraste entre preservação e devastação é didaticamente óbvio: uma face da montanha é coberta pela Mata Atlântica; a outra face está rasgada pela cava de onde a Gerdau retira por hora 624 mil litros de água do lençol freático, usada para a extração do minério. O lado preservado pertence a Moeda; a cava fica em Itabirito.

A topografia da serra funciona como uma divisora de bacias hidrográficas marcadas pela destruição. A Leste fica a Bacia do Rio das Velhas, poluída pelos rejeitos das mineradoras. A Oeste fica a Bacia do Rio Paraopeba, que foi destruída pelo desastre de Brumadinho, em 2019, quando uma barragem da Vale se rompeu, liberando uma onda de 12 milhões de m3 de rejeitos de mineração que contaminou a água, destruiu 297 hectares de Mata Atlântica e matou 272 pessoas.

A Mina Várzea do Lopes começou suas atividades em Itabirito em 2006, quando recebeu do governo estadual a Autorização Ambiental de Funcionamento. Em 2008, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais suspendeu a autorização a pedido do Ministério Público de Minas Gerais, pois a Gerdau ainda não havia realizado o Estudo de Impacto Ambiental da exploração de cerca de 1,5 milhão de toneladas de minério por ano. A empresa fez o estudo e se comprometeu a atualizá-lo a partir de 2009. Assumiu outras 28 obrigações, como a de não solicitar novas licenças de exploração na Serra da Moeda. Em 2013, a Gerdau assinou um novo termo de ajuste para negociar o aumento da produção da mina para 13 milhões de toneladas de minério por ano, o que demandou novos estudos de impacto.

O município de Moeda só entrou na batalha judicial em 2017, quando o Instituto Estadual de Florestas (IEF), responsável pelo Monae, constatou que a ampliação da cava havia impactado o território protegido – e alcançado os limites do município onde a mineração é proibida por lei.

Em 2019, a Gerdau fez um novo pedido de licença ambiental à Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Queria expandir a mina e implantar uma nova pilha de rejeitos. Na área que seria afetada por essas atividades existe, conforme o termo assinado pela mineradora em 2009, um corredor ecológico entre duas unidades de conservação, Monae e a Estação Ecológica de Arêdes, em Itabirito.

Além das batalhas judiciais, outra frente de defesa dos interesses da mineradora foi aberta no Legislativo mineiro. O projeto de lei nº 1822/2020, de autoria do deputado estadual Antonio Carlos Arantes (PSDB, hoje no PL), previa que 12,8 hectares da Serra da Moeda fossem retirados da área protegida. Sob forte pressão de ambientalistas, o projeto foi arquivado em setembro de 2020.

Dois anos depois, durante a pandemia, o deputado Thiago Cota (MDB, hoje no PDT) apresentou uma proposta similar, incluída como jabuti em um projeto de lei sobre apreensão de veículos. A proposta foi aprovada em três comissões em menos de 24 horas, mas acabou retirada de tramitação a pedido do próprio autor.

Não terminou aí: em 2023, o deputado Noraldino Júnior (ex-PSC, hoje no PDB) propôs incorporar ao Monae uma porção de terra de 62,65 hectares na parte mais baixa da serra, em troca da liberação dos 12,8 hectares disputados pela Gerdau no cume da serra. O projeto ainda aguarda o parecer da Comissão de Constituição e Justiça. A troca pode até parecer favorável, mas Vidigal diz que não é bem assim: a área maior, na parte baixa, já estava destinada para reserva ambiental no termo de 2009. E o terreno no cume tem maior valor ambiental. “Desculpa a expressão, mas isso é uma tremenda safadeza”, diz o ambientalista. À piauí, a empresa disse: “A Gerdau opera a Mina Várzea do Lopes, em Itabirito-MG. A mi­na não opera no município de Moeda-­MG. A possível continuidade das operações da mina, que está no fim da sua vida útil, dependeria de mudanças legislativas que hoje não estão sendo discutidas.”

Apaixonado pela cidade onde vive e seu entorno, Cléverson Vidigal criou, em 2008, a ONG Abrace a Serra da Moeda, dedicada à preservação do patrimônio ambiental do município. Em 2013, uma procuradora aposentada de Belo Horizonte, Rosângela Maciel, de 60 anos, fundou a ONG Serra Viva, também em Moeda. “O município tem uma população que ama essa serra e sabe o tanto que ela é importante para a cidade”, diz Maciel. “O poderio da Gerdau é muito forte e a política dividiu todo mundo, mas a serra une as pessoas.”


color compass
Este texto foi originalmente publicado pela revista Piauí [Aqui!].

Justiça condena Vale, BHP e Samarco ao pagamento de R$ 47,6 bilhões pela tragédia em Mariana

O valor deverá ser corrigido com juros desde a data da tragédia; ainda cabe recurso contra a decisão

Brumadinho,_Minas_Gerais_(47021723582)

No intuito de garantir a reparação aos atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), a Justiça Federal determinou, nesta quinta-feira (25), que as empresas Samarco, Vale e BHP Billiton paguem indenização no valor de R$ 47,6 bilhões por danos morais coletivos, em razão da violação de direitos humanos das comunidades atingidas.

A DPU assinou o pedido de julgamento antecipado do mérito. A instituição acompanha o caso desde o início, por meio das Defensorias Regionais de Direitos Humanos de Minas e do Espírito Santo e do Comitê Temático Especializado Rio Doce/Brumadinho da DPU.

O valor da condenação é destinado a um fundo previsto por lei e administrado pelo governo federal. O montante deverá ser empregado, exclusivamente, em projetos realizados nas áreas impactadas pelo rompimento.

O defensor regional de direitos humanos do Espírito Santo, Frederico Aluísio Carvalho Soares, explica que a população será beneficiada pela decisão em diferentes áreas. “A decisão é fundamental para a efetiva reparação coletiva do desastre nos eixos ambiental, de saúde e indenizações”. Ainda cabe recurso contra a decisão e o pagamento só deverá ser realizado após o trânsito em julgado.

A tragédia

Considerado o maior crime ambiental do país e um dos mais graves do mundo, o rompimento da barragem deixou 19 mortos, 329 famílias desabrigadas e despejou 40 bilhões de litros de rejeitos de minério sobre os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, no município de Mariana (MG), e Gesteira, em Barra Longa (MG).

Atuação da DPU

Desde 2020, por meio do Comitê Temático (CT) Bacia do Rio Doce/Brumadinho, a instituição acompanha a situação das pessoas e grupos vulneráveis vítimas dos danos provocados pelos rompimentos das barragens do Fundão, em Mariana, e da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, e defende seus direitos.

O comitê tem atuado em várias frentes, em Minas Gerais e Espírito Santo, com o objetivo de proteger e preservar os direitos humanos. São exemplos: a assistência direta às vítimas, os estudos de avaliação de risco, a recuperação de danos coletivos e de danos ambientais, a garantia de auxílios emergenciais, as audiências e estudos técnicos, além de alertas e recomendações quanto à violação dos direitos humanos na região.

Briga à toa pela LOA

brigaatoa

Por Douglas Barreto da Mata

Um extraterrestre que pousasse em Campos dos Goytacazes nos dias que antecederam a votação da Lei Orçamentária Anual de 2024, a LOA, se questionaria como um Poder Republicano, neste caso personificado na pessoa do seu Presidente da Mesa Diretora, conseguiu levar às últimas consequências a obstrução, não da votação da referida lei, mas sim do seu devido processo legislativo, em descumprimento daquilo que é o Manual a Lei Maior entre seus pares, ou seja, o Regimento Interno da Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes.

Se fosse convidado a ficar mais um tempo na planície goytacá, para assistir o desfecho desse conflito, com certeza o extraterrestre voltaria aos seus dizendo:

“Olha, façam o que fizerem, se forem à Campos dos Goytacazes, nunca confraternizem com uma parcela de vereadores da Câmara de Vereadores, liderados pelo seu Presidente…Não há possibilidade de interlocução eficaz ali.”

Novamente ressalto que tais constatações independem de preferência por este ou aquele grupo político, embora não seja crime em democracias ter opções políticas, e isso não invalida nossas opiniões.

Essa baboseira de neutralidade ou isenção é só anestésico vendido pela mídia comercial para que faça defesa de vários interesses, posando de vestal da moralidade.

Não cola mais.

Bem, voltando ao assunto principal, o certo é que, sejam lá quais forem os motivos que o grupo que rasgou o Regimento Interno da Câmara de Vereadores temos certeza de uma coisa:

  • Não foi para inserir emendas que ampliassem direitos deste ou daquele segmento da sociedade, até porque, esse movimento (ou “briga política” – e legítima, diga-se) se daria dentro do processo legislativo “abortado” pela minoria liderada pelo Presidente da Casa.

Se ele ainda vai ter que responder pelos atos perante a Justiça, só a Justiça dirá.

Mas politicamente ficou explícito que nunca foi pelo bem estar da cidade e dos cidadãos e cidadãs.

Não é à toa que a Casa de Leis municipais goza de tão pouco prestígio junto à comunidade, fato refletido em várias pesquisas de opinião.

Sim, sabemos que os parlamentos nunca são muito bem vistos, e isso, em parte, é um efeito da injusta criminalização da política, e da hipocrisia de um eleitor que parece querer se isentar da responsabilidade por más escolhas.

Na votação da LOA 2024, infelizmente, é corretíssima a percepção de que o Parlamento municipal abusou do seu mandato e da confiança outorgada pelo eleitor, através da intransigência “inexplicável” de sua atual minoria de 08 vereadores. 

Como os justos pagam pelos pecadores, é possível dizer que a Câmara Municipal, como um todo, saiu bem menor do que entrou nesse dissenso.

A cereja do bolo foi a abstenção dos 08 vereadores que pactuaram a votação, em cláusulas firmadas com a intermediação corretíssima do MPRJ.

Mais ou menos como a noiva que briga para ter um anel de 32 brilhantes pelo noivo, diz que não casará sem o mimo, e no momento do SIM, percebe que há 30 e não 32 brilhantes, como exigiu, diz, para espanto de todos os convidados, padrinhos e familiares na Igreja que se absterá da pergunta do celebrador.

No caso recente da LOA, como dizem os antigos, “briga” foi  “à toa”.

Por que o pacto da COP28 não será suficiente para prevenir os piores impactos das mudanças climáticas

A conferência da ONU sobre o clima (COP28) no Dubai chegou a acordo sobre um plano para manter o aquecimento global a 1,5 graus C e atingir emissões líquidas zero até 2050. Mas os investigadores alertam que estas promessas não se baseiam em ciência sólida e não conseguirão prevenir os piores impactos do clima.

Metling-Arctic-Ice_Getty-Small

Derretimento do gelo marinho no Ártico em julho de 2022. KEREM YÜCEL/AFP VIA GETTY IMAGES

Por Fred Pearce para a Yale Environment 360 

Os negociadores climáticos reunidos no Dubai no mês passado comprometeram-se a traçar um rumo para a estabilização do sistema climático recorrendo à boa ciência. Mas muitos cientistas dizem que estas promessas são, na melhor das hipóteses, mal definidas e, na pior, uma paródia da boa ciência – vagas e cheias de lacunas.

A conferência da ONU sobre o clima, no Dubai, acordou num plano de acção para dois objectivos principais: manter o mundo no caminho certo para limitar o aquecimento global a 1,5 graus C (2,7 graus F) e permanecer abaixo deste limiar, alcançando emissões líquidas zero de gases com efeito de estufa. até 2050. Os negociadores  prometeram que ambos os objectivos seriam prosseguidos “de acordo com a ciência”.

Mas nenhum dos objectivos tem definições acordadas que permitam avaliar se foram alcançados. Dois estudos publicados durante o evento do Dubai expuseram o problema e revelaram grandes lacunas entre as metas de 1,5 graus e de zero emissões líquidas, expondo as tensões entre a conveniência política e a probidade científica.

Relativamente ao objectivo de 1,5 graus, meteorologistas britânicos  relataram  na revista  Nature que a falta de acordo sobre como medir as temperaturas médias globais poderá atrasar o reconhecimento formal de que o limite foi excedido em até uma década. O resultado, alerta o principal autor Richard Betts, do Hadley Centre do Met Office do Reino Unido, será “distração e atraso justamente no ponto em que a ação climática é mais urgente”, resultando em “ultrapassagem” de temperatura e na necessidade de soluções altamente caras – e não comprovadas –. ações posteriores para reverter o aquecimento.

Entretanto, um  estudo  liderado por Matthew Gidden, modelador climático do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) na Áustria, descobriu que as regras que regem a forma como os países podem declarar que atingiram emissões líquidas zero são fixadas para que os governos possam afirmar conformidade anos antes da realidade científica.

Estas questões técnicas críticas têm estado em grande parte fora do radar até agora – em parte, dizem os investigadores preocupados, porque os cientistas não quiseram confundir ou negar os decisores políticos que procuram obter apoio público para a acção climática. Mas as discrepâncias levantam sérias questões sobre se os governos estão realmente empenhados em respeitar a ciência. “Os políticos estão a tentar encontrar uma forma fácil de cumprir as suas promessas”, disse o ecologista florestal do IIASA, Dmitry Shchepashchenko.

No entanto, a urgência em resolver as incertezas está a aumentar. O ano passado viu o sistema climático entrar no que os investigadores chamam de  “território desconhecido”. Cerca de um terço dos dias em 2023 ultrapassaram o limite de 1,5 graus e setembro foi 1,8 graus mais quente do que nos tempos pré-industriais. As estatísticas brutas traduziram-se em incêndios florestais recordes no Canadá e na perda de gelo marinho em torno da Antártida, ondas de calor de verão sem precedentes do Arizona ao sul da China e inundações extremas em regiões normalmente desérticas do Norte de África.

A meta de limitar o aquecimento global a 1,5 graus C acima dos níveis pré-industriais entrou pela primeira vez na elaboração de políticas climáticas internacionais através do inovador Acordo de Paris de 2015. Como parte do acordo, os governos prometeram manter o aquecimento “bem abaixo dos 2 graus”, ao mesmo tempo que “prosseguiram esforços” para limitá-lo a 1,5 graus.

Desde então, os cientistas alertaram que qualquer aquecimento sustentado acima de 1,5 graus corre o risco de agravar o clima perigoso e causar mudanças fundamentais e irreversíveis no sistema climático. Assim, na conferência do Dubai, esse objectivo tornou-se inequívoco.

Mas como saberemos se nos mantivemos abaixo ou ultrapassamos?

A Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas calcula que há dois terços de hipóteses de um único ano exceder o limiar até 2027. Tal situação única não violaria, por si só, o objectivo acordado, que se refere às temperaturas médias a longo prazo. Mas nem o Acordo de Paris nem os seus sucessores estabeleceram como essa média de longo prazo deveria ser calculada.

Os cientistas do clima têm tradicionalmente avaliado as tendências de temperatura médias ao longo das três décadas anteriores. O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, que avalia a ciência climática para a comunidade internacional, favorece agora duas décadas. Mas, em qualquer dos casos, os cálculos baseados em temperaturas passadas recentes significam que a média estará sempre aquém da realidade, mantida baixa pelos primeiros anos mais frios do período. Os resultados não refletirão a situação atual, afirma Betts no  artigo da Nature  publicado durante a conferência de Dubai.

Na prática, uma média de 20 anos refletirá as temperaturas no meio desse período, diz Betts. “O aquecimento de 1,5 seria confirmado… uma década depois de ultrapassar o nível de 1,5 graus C.”

Assim, se o aquecimento médio atingir 1,5 graus em 2030, os registos só serão alcançados no final do período de 20 anos em que 2030 foi o ponto médio – 2040, por outras palavras. Nos anos seguintes, diz Betts, haveria “uma década ou mais” de reivindicações e reconvenções, com os cientistas climáticos dizendo que o mundo quase certamente ultrapassou o limiar, mas os políticos seriam capazes de negar isso e alegar que têm mais tempo para reduzir as emissões. .

Este ritual de negação já estava em evidência no Dubai, segundo Piers Forster, da Universidade de Leeds, principal autor de vários relatórios do IPCC. Ele salienta que o acordo de balanço global da conferência, que resumiu os planos de acção para cumprir os compromissos de Paris, afirmou que houve até agora 1,1 graus de aquecimento, com base numa média retrospectiva, enquanto a média real actual é de cerca de 1,3 graus. Os governos estão “jogando um jogo político para fazer com que 1,5 pareça mais viável”, disse Forster à  Yale Environment 360 .

Betts quer que o IPCC acabe com o subterfúgio adoptando um “indicador mais instantâneo”. Seu artigo sugere o cálculo da temperatura média combinando 10 anos de temperaturas históricas com 10 anos de previsões de modelos de temperaturas futuras. Isso seria controverso. Mas, por enquanto,  diz ele , “sem uma métrica acordada, não pode haver consenso sobre quando o nível de 1,5ºC foi alcançado”.

O segundo desafio à integridade científica das negociações climáticas da ONU é como avaliar o progresso nas promessas feitas pelos governos de alcançar zero emissões líquidas até 2050. Os compromissos exigem que quaisquer emissões contínuas de gases com efeito de estufa sejam compensadas até essa data por ações humanas. para capturar quantidades equivalentes, nas florestas ou em outros lugares. Mas existe uma grande preocupação entre os cientistas de que o sistema acordado pelos negociadores para calcular estas “compensações” seja contraditório e amplamente aberto a abusos.

A  meta líquida zero  foi proposta pela primeira vez pelo IPCC. Foi amplamente adoptado há dois anos na conferência climática de Glasgow, quando 74 nações se comprometeram a alcançá-lo, e consagrado no acordo do Dubai como objectivo principal da política climática. Mas existem duas metodologias muito diferentes em utilização para calcular o zero líquido: um método científico utilizado pelos cientistas do IPCC para medir o carbono no mundo real, e um método muito mais flexível, adoptado pelos negociadores e agora incorporado nos acordos climáticos da ONU.

Gidden e outros cientistas climáticos alertam que esta fórmula flexível da ONU para calcular as compensações não conseguirá travar o aumento das concentrações de gases com efeito de estufa, levando ao aumento contínuo das temperaturas.

A maioria das compensações consideradas pelos governos envolve a gestão florestal – muitas vezes apelidada de soluções baseadas na natureza para as alterações climáticas. Mas decidir que absorção de carbono nas florestas é antropogénica – e, portanto, potencialmente qualificada como uma compensação contra as emissões – e que absorção é natureza é difícil, porque o carbono é constantemente capturado e libertado naturalmente pelas florestas.

Cientistas e negociadores da ONU concordam que apenas as florestas geridas diretamente devem ser qualificadas como potenciais compensações. Mas além disso, há desacordo.

De acordo com a abordagem do IPCC, apenas o carbono capturado por ações humanas diretas em florestas manejadas, como o plantio de árvores ou a redução da exploração madeireira, deveria ser qualificado. O carbono capturado no interior de florestas geridas como resultado de processos naturais não deve ser contabilizado, uma vez que faz simplesmente parte do ciclo natural do carbono entre os ecossistemas e a atmosfera.

Mas os negociadores do clima adoptaram uma abordagem diferente. Dizem que à escala local pode ser quase impossível distinguir claramente entre o que é natural e o que é antropogénico. Assim, resolveram o problema ao permitir que todo o carbono capturado dentro das florestas geridas se qualificasse para compensação de emissões.

Os resultados das duas abordagens podem ser muito diferentes, concluiu o estudo de Gidden. Muitas das grandes florestas do mundo estão actualmente a capturar carbono em grande escala, através de um crescimento adicional impulsionado por condições mais quentes e húmidas e pelo efeito fertilizante do dióxido de carbono extra na atmosfera. De acordo com as regras da ONU, esta absorção natural aumenta a quantidade de carbono que os países podem compensar com as suas emissões, o que acelera o seu caminho para poderem afirmar ter alcançado o zero líquido.

O estudo de Gidden concluiu que as regras da ONU permitem que os governos compensem colectivamente entre 4 e 7 mil milhões de toneladas de CO2 anualmente provenientes de processos naturais que não se enquadram na abordagem do IPCC. Isto representa entre 10 e 18 por cento do total atual de emissões de combustíveis fósseis, um número que ele espera que aumente ainda mais até 2050.

É justo, alguns podem dizer. Se a captura de carbono for real, não importa se os processos por detrás da captura são naturais ou antropogénicos. “A atmosfera não se importa de onde vem o dióxido de carbono”, concorda Giacomo Grassi, investigador do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia e co-autor do artigo de Gidden. Mas, acrescenta, “a forma como o afundamento de terras é contabilizado como antropogénico ou natural ainda é importante para avaliar o progresso [político]”.

Também é importante porque a tarefa de reduzir as emissões deve ser partilhada de forma justa, em vez de dar uma oportunidade a alguns países com boas florestas. E porque, argumenta Grassi, os processos naturais de captura de carbono são quase sempre temporários e passíveis de retrocesso, especialmente à medida que as alterações climáticas continuam a acelerar.

As alterações climáticas podem actualmente estar a impulsionar a captura em muitos locais, mas as secas, as altas temperaturas e os incêndios poderão em breve transformar estes sumidouros de carbono novamente em fontes de carbono. Na verdade, dizem os cientistas, isso é extremamente provável. Gidden espera que, depois de meados do século, as florestas que atualmente capturam carbono comecem a libertá-lo novamente em grandes quantidades, criando um enorme défice no cumprimento do carbono zero.

O impacto global das regras flexíveis da ONU permitirá à ONU “declarar que as emissões líquidas zero globais foram alcançadas vários anos antes do que seria o caso de acordo com a definição do IPCC”, diz Chris Jones, analista do ciclo do carbono no UK Met Office, que revisou o artigo de Gidden. Pior ainda, podem declarar sucesso e nunca atingir o verdadeiro zero líquido.

Outros especialistas no ciclo do carbono vão mais longe, dizendo que a metodologia da ONU é uma bola de demolição que destruirá as esperanças de alcançar um verdadeiro zero líquido. Trata-se “essencialmente de preencher um cheque em branco para os países com florestas que pretendem continuar a queimar combustíveis fósseis”,  diz  Wolfgang Knorr, ecologista da Universidade de Lund, na Suécia. Ele chama-lhe um “truque contabilístico [que] acabará por aparecer como dióxido de carbono adicional na atmosfera e aquecimento adicional. Mas quando todos perceberem isso, nenhum dos responsáveis ​​agora estará no cargo.”

A diferença entre os dois métodos de contabilização do carbono é enorme em alguns países. A Rússia, que abriga mais de um quinto das árvores do mundo, está actualmente a assistir a um rápido crescimento florestal como resultado de temperaturas mais altas. A maioria dos conservacionistas afirma que as suas vastas florestas em toda a Sibéria estão próximas do seu estado natural. Eles argumentam, como diz Shchepashchenko, que nesses locais “os processos naturais não podem ser considerados como resultado do manejo florestal”.

Mas Moscovo vê as coisas de forma diferente. Declarou que a maior parte destas florestas remotas são “geridas” e, portanto, que a sua acumulação de carbono é válida para compensar as emissões de carbono do país. A mais recente declaração da Rússia publicada pela ONU   sobre emissões subtrai um sumidouro de carbono florestal de 540 milhões de toneladas das emissões globais do país de 2,12 mil milhões de toneladas, reduzindo as suas emissões “líquidas” declaradas em um quarto. Os ministros falaram do desejo de alargar ainda mais a definição de florestas geridas para “maximizar” a sua contribuição para a compensação de emissões.

Os EUA não são tão diferentes. Algumas florestas orientais, especialmente nos Apalaches, estão a absorver carbono a um ritmo rápido, através de uma combinação de regeneração natural após desflorestação histórica e do efeito de fertilização do aumento de CO2 na atmosfera. Aproveitando isto, as submissões da Agência de Protecção Ambiental à ONU compensaram 11,9 por cento das emissões de gases com efeito de estufa do país contra a absorção de carbono nas florestas e outras terras geridas. Mas um estudo do ano passado realizado por William Anderegg, da Universidade de Utah e colegas, destacou uma “impressionante incerteza” sobre como este número poderá mudar no futuro devido às alterações climáticas, incluindo “riscos substanciais de perdas de carbono… em regiões onde os projectos de compensação de carbono florestal são atualmente localizado.”

Os modeladores de carbono e os negociadores climáticos estão aparentemente em desacordo. Apesar da sua evidente importância, Gidden afirma que “o impacto desta discrepância nos parâmetros de referência de mitigação nacionais e globais ainda não é bem compreendido”. Mas precisa de ser resolvido, diz ele, para que o zero líquido seja realmente alcançado “de acordo com a ciência”. E assim por diante.

compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Yale Environment 360 [Aqui!].

Otimismo seca na Amazônia enquanto Lula se afasta das prioridades climáticas (e se aproxima do agronegócio e da mineração)

O presidente do Brasil inspirou esperança há um ano, mas a aprovação de uma nova rodovia mostra que ele continua sendo um construtor estatal de concreto e petróleo

homem águaUm homem carrega um recipiente de água ao lado do leito seco de um rio em Careiro da Várzea, no estado do Amazonas, Brasil, em outubro. Fotografia: Bruno Kelly/Reuters

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

Que diferença um ano faz na Amazônia brasileira. No início de 2023, escrevi sobre os brotos verdes da estação chuvosa e os sentimentos de esperança inspirados pelo novo presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que prometeu fortalecer os direitos indígenas e almejar o desmatamento zero. Doze meses depois, tanto a vegetação como o otimismo político estão a secar.

A seca mais severa de que há memória foi finalmente quebrada, mas as chuvas são tardias e fracas em comparação com os anos anteriores. O Rio Xingu está bem abaixo do normal para janeiro. A pulsação do crescimento da floresta também é mais fraca – a nova vegetação não se estende tanto para a estrada como em janeiro passado. As pastagens vizinhas estão ainda pior. As gramíneas forrageiras, conhecidas como capim , foram tão queimadas que não voltaram a crescer, deixando as encostas marrons e as vacas emaciadas. Vários dos pobres animais esqueléticos escaparam de seus campos e vagaram em direção à nossa comunidade em busca de comida. A população local diz que mais de uma dúzia de vacas morreram de fome nesta fazenda e em inúmeras outras em outros lugares.

Menos óbvia, mas em muitos aspectos mais preocupante, é a escassez de formigas cortadeiras. Esses insetos de mandíbulas grandes geralmente estão por toda parte, cortando e carregando a vegetação em colunas para criar jardins de fungos em seus ninhos, que se espalham por dezenas de metros em torres e montes no estilo Gaudí. Os entomologistas dizem que estas formigas têm a segunda sociedade mais complexa da Terra, depois dos humanos, e são os herbívoros dominantes nos trópicos sul-americanos, cortando cerca de um sexto de todas as folhas produzidas na floresta. Isso estimula o crescimento de novas plantas e enriquece o solo. Não é à toa que essas formigas foram descritas como engenheiras de ecossistemas.

Duas formigas cortadeiras carregando folhas

Os entomologistas dizem que as formigas cortadeiras têm a segunda sociedade mais complexa do planeta. Fotografia: Redmond O Durrell/Alamy

Todos os dias, passo por três grandes ninhos de cortadeiras em minha caminhada diária com os cachorros. Há pouco mais de um ano, aventurei-me demasiado perto durante a revoada anual , quando as fêmeas aladas iniciam os seus voos nupciais seguidas por nuvens de machos. É um momento delicado para os insetos e as formigas soldados estavam em modo de proteção feroz. Fui levado embora com o pé ensanguentado e uivando de dor. Apesar disso, nunca deixei de admirar estas criaturas minúsculas e poderosas, por isso fiquei consternado ao descobrir que todos os quatro ninhos estão aparentemente sem vida. Os montes parecem murchos, não há solo recém-escavado nas entradas e nem uma única formiga cortadeira à vista. Isto é bizarro, pois uma colónia saudável pode ter 3,5 milhões de membros e nunca antes pararam de funcionar. Os entomologistas dizem-me que podem ter-se deslocado ou sido exterminados pela prolongada estação seca. É um lembrete alarmante de que o enfraquecimento da resiliência florestal assume muitas formas e o impacto da seca continua incalculável.

O aquecimento global causado pelo homem e o desmatamento estão secando a floresta – e não apenas durante o último ano. Os cientistas descobriram que a estação seca na Amazônia está ficando mais quente, mais seca e mais longa. Há cinquenta anos, durou quatro meses. Agora são cinco. Isto está acausando a morte de árvores e outras espécies que estão a ser empurradas para além dos seus limites de sobrevivência. Um colapso de todo o ecossistema que transformaria a Amazônia numa savana está cada vez mais próximo.

Lula sabe disso. Num discurso na Cop28 no Dubai, em Novembro passado, ele disse ao mundo que estava chocado com o facto de os rios da região, que são a maior fonte de água doce do mundo, estarem no seu nível mais baixo em mais de 120 anos. Ele disse que este era um problema climático global e apelou a outros países para que fizessem um esforço maior. “Mesmo que não cortemos mais árvores, a Amazônia poderá chegar a um ponto sem volta se outros países não fizerem a sua parte.”

Uma área desmatada e queimada da floresta amazônica na região de Lábrea, estado do Amazonas, norte do Brasil, em 2 de setembro de 2022O desmatamento da Amazônia diminuiu cerca de 50% no ano passado. Fotografia: Douglas Magno/AFP/Getty Images

Mas os esforços do seu próprio governo para proteger a floresta e a sua população têm sido mistos. Um boletim do primeiro ano de Lula mostraria progressos em comparação com o baixo valor de referência estabelecido pela anterior administração de extrema-direita de Jair Bolsonaro , mas também promessas falhadas, fraqueza política e sinais preocupantes de regressão.

Primeiro, as boas notícias muito importantes. O desmatamento na Amazônia diminuiu cerca de 50% no ano passado. Pela primeira vez desde 2018, a taxa de desminagem foi inferior a 10.000 km2 nos 12 meses até 31 de julho. Ainda mais encorajador, a perda de cobertura arbórea nos territórios indígenas caiu 73%.

A má notícia é que, mesmo com essa desaceleração, em média cerca de 1 milhão de árvores ainda são derrubadas ou queimadas todos os dias na Amazônia. Um número incontável de pessoas morreu por causa da seca e isso agravará a degradação da floresta. No geral, não há dúvida de que a Amazónia terminou 2023 em piores condições do que começou, embora, infelizmente, tenha sido assim em todos os anos do último meio século.

Existem outras causas de preocupação. O vizinho sul da Amazônia, a savana do Cerrado, sofreu a maior devastação desde 2016 como resultado da expansão das plantações de soja e da pecuária. Isto repete o estratagema de relações públicas dos anteriores governos Lula, que reduziram a desflorestação na Amazónia, que é o centro das atenções a nível mundial, ao mesmo tempo que davam luz verde à destruição do importante mas menos conhecido Cerrado.

É uma história semelhante para os direitos indígenas. Lula foi um verdadeiro pioneiro na criação de um ministério separado para isto e o seu governo reconheceu seis novos territórios, que numerosos estudos demonstraram ser a forma mais rentável de conservar florestas e sequestrar carbono.

No entanto, ele foi superado por um congresso hostil, que aprovou uma nova lei, conhecida como Marco Temporal , para limitar a aprovação de terras indígenas.

Este não é o único desafio à autoridade do presidente. Há um ano, Lula enfrentou uma tentativa de golpe de apoiadores de Bolsonaro , incluindo elementos da polícia. O exército ficou em cima do muro, o que dificilmente foi um voto de confiança. Desde então, os militares têm negligenciado o apoio aos esforços do governo para remover milhares de garimpeiros ilegais do território Yanomami. Como resultado, a administração Lula perdeu o controle sobre essas terras e não conseguiu aliviar um desastre humanitário. Embora o governo tenha gasto 200 milhões de dólares (155 milhões de libras) e mobilizado 2.000 profissionais de saúde para a região, 308 Yanomami morreram de doenças evitáveis ​​entre janeiro e novembro – pouco diferente do número de vítimas durante o último ano de mandato de Bolsonaro.

Entretanto, uma nova e ainda maior ameaça está a emergir na forma de uma auto-estrada pavimentada que atravessa o coração da Amazónia Ocidental. A planejada atualização da BR-319 de Manaus a Porto Velho devastaria uma das últimas grandes áreas relativamente intocadas da floresta tropical porque as estradas sempre foram precursoras da extração ilegal de madeira, mineração, desmatamento e invasões de terras indígenas. O projeto sofreu resistência durante muitos anos com base em pareceres científicos especializados. Mas no mês passado, os legisladores – com o apoio dos lobbies da construção e do agronegócio – aprovaram um projeto de lei para diluir os requisitos de licenciamento ambiental para a estrada, que declararam uma “infraestrutura prioritária necessária para a segurança nacional”. Lula efetivamente deu sinal verde ao criar um grupo de trabalho BR-319 e marginalizar o Ministério do Meio Ambiente no processo. 

Dois homens em uniformes de estilo militar, segurando rifles, conversam com um homem sentado em um tronco

Integrante de grupo especial de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​conversa com garimpeiro ilegal detido durante operação na Terra Indígena Yanomami no mês passado. Fotografia: Ueslei Marcelino/Reuters

Num exemplo notável da novilíngua orwelliana, o seu ministro dos Transportes, Renan Filho, diz que o projeto construirá a “estrada mais sustentável e mais verde do planeta”. Ele também procura financiamento de projetos no fundo Amazon, de 1,2 mil milhões de dólares, criado pela Noruega, com compromissos adicionais da Grã-Bretanha, da Alemanha e dos EUA, para reduzir a desflorestação e promover a sustentabilidade. A BR-319 é ​​uma flagrante contradição com esses objetivos. Fazer tal pedido zomba do fundo internacional e da credibilidade ambiental do governo brasileiro. É uma piada de mau gosto, até porque um dos objetivos da nova estrada é facilitar a exploração de petróleo e gás nas profundezas da floresta, além da exploração existente perto da foz do Amazonas. É a mesma corrida míope para lucrar com o petróleo que se verifica nos EUA, no Reino Unido, no Canadá, na Rússia, na Noruega e noutros países produtores de petróleo.

Lula parece não conseguir decidir que tipo de líder quer ser. Para um público global, ele fala da necessidade moderna de acção climática e promete desflorestação zero. Mas para o seu eleitorado nacional, ele continua a ser um antiquado construtor de Estado, baseado no aslfato e no petróleo. Em comparação com o ano passado, não há dúvida de que ele está a afastar-se – ou a ser empurrado – cada vez mais para longe da ciência e dos direitos indígenas, e cada vez mais para perto do agronegócio e do extrativismo capitalista. Dada a fraca posição política e os instintos ideológicos de Lula, não é difícil compreender porquê. Mas, como resposta a secas recordes e a fenômenos meteorológicos cada vez mais mortíferos, parece mais uma rendição do que um compromisso.

Na Amazônia, a crise climática está atingindo fortemente. Por mais bem-vinda que tenha sido a desaceleração do desmatamento, ela não é suficiente e mesmo isto está ameaçado por novas estradas e projetos petrolíferos. Se a tendência política continuar, não serão apenas as árvores, as vacas e as formigas que começarão a morrer.


color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Final bisonho da disputa da LOA 2024 me faz ter saudades de Ruço Peixeiro

audiencia-LOA-2024

No dia 08 de janeiro publiquei neste blog um texto escrito por Douglas da Mata analisando  a situação envolvendo as disputas em torno da Lei Orçamentária de 2024 do município de Campos dos Goytacazes. Nesse texto Douglas da Mata apontou para o que seriam perspectivas nada animadoras para o futuro do presidente da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, o honorável Marquinhos Bacellar.

Pois bem, ontem com a aprovação da LOA 2024 com um placar de 16 votos a favor e 8 abstenções, o que salta aos olhos é a solidão política em que os vereadores da “oposição” deixaram o presidente da Câmara, na medida em que a votação havia sido negociada por ele diretamente com o prefeito Wladimir Garotinho. Assim, ao se absterem de votar algo que foi acordado, os vereadores da “oposição” parecem indicar que o acordo foi feito sem sua permissão.

Por outro lado, ao analisar as concessões feitas pelo prefeito Garotinho para viabilizar a votação da LOA 2024, o que se percebe é que elas abrangem itens que até podem ser importantes, mas que deixam intacta a proposta apresentada pela executivo municipal. Se era para ter esse final, convenhamos que era mais eficiente que se tivesse votado o orçamento ainda em 2023.

Mas como Douglas da Mata apontou o objetivo nunca foi obter um melhor uso da dinheirama que compõe o orçamento municipal, mas desgastar a imagem do prefeito. E está claro que tal objetivo ficou longe de ser alcançado, apesar das encenações burlescas que ocorreram no plenário da Câmara de Vereadores.

Ah, sim. O que eu espero dessa situação é que a parte mais organizada da população possa se mobilizar para eleger uma bancada de vereadores que seja mais útil no sentido de resolver os problemas graves que afetam a vida da cidade. 

Finalmente, depois dessa situação toda senti saudade dos tempos em que o ex-vereador Ruço Peixeiro fazia das suas dentro da Cãmara de Vereadores. Pelo menos ele era autêntico e comprometido com causas que, pelo menos, eram óbvias.

Ensino à distância coloca em risco formação de dentistas e atendimento a pacientes

ead não

Por Juliano do Vale, presidente do Conselho Federal de Odontologia (CFO)

A possível autorização de cursos de ensino à distância (EAD) para graduação em Odontologia, que vem sendo discutida no país desde 2022, vai levar a retrocessos na saúde bucal no Brasil. É temerário que se autorize a formação de cirurgiões-dentistas sem que passem pela vivência clínica, fundamental para o exercício prático da profissão, sob pena de colocar-se em risco a saúde e o bem-estar dos pacientes.

Como órgão fiscalizador e responsável por ações de proteção da população na área, o Conselho Federal de Odontologia (CFO) se posicionou publicamente contra a ideia, desde o primeiro momento em que foi lançada pelo Ministério da Educação (MEC). Desde então, juntaram-se à causa diversas outras entidades representativas da classe odontológica, também preocupadas com a má qualidade dos atendimentos a serem realizados por esses profissionais formados por meio de cursos à distância.

Habilidades práticas, como manipulação de instrumentos específicos, não podem ser dominadas sem a supervisão de professores. O aprendizado presencial possibilita que os alunos recebam orientações imediatas, contribuindo para o aprimoramento de suas habilidades.

Além disso, a comunicação eficaz das necessidades dos pacientes não podem ser plenamente desenvolvidas sem a exposição regular a situações clínicas reais. O ambiente presencial proporciona aos estudantes a oportunidade de lidar com uma variedade de casos, preparando-os para os desafios emocionais e práticos que encontrarão em suas carreiras.

O aprendizado colaborativo e a construção de redes profissionais são elementos cruciais que o ensino presencial promove. A troca de experiências entre estudantes, professores e profissionais do setor é fundamental para a formação de uma comunidade coesa e bem informada. Essa rede de contatos não apenas enriquece o aprendizado, mas também serve como suporte ao longo da carreira profissional.

Nos estudos para a autorização do EAD na Odontologia, o MEC realizou uma consulta pública, lançada em novembro do ano passado pela Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) e que contou com mais de 15 mil participações. O resultado levou o ministro Camilo Santana a suspender por 90 dias os processos de autorização de cursos à distância de diversas áreas do conhecimento, incluindo a odontologia.

Embora bem-vinda, a suspensão não significa o encerramento do assunto, pois ainda está pendente pelo MEC a conclusão da proposta de regulamentação de oferta de diversos cursos de graduação EAD. O CFO vai se manter vigilante enquanto essa possibilidade ainda for minimamente aventada. 

Por isso, o Conselho vai colocar o assunto em debate durante o 41º Congresso Internacional de Odontologia (CIOSP), que ocorrerá em São Paulo entre os dias 24 e 27 de janeiro. O evento é considerado o maior da América Latina em infraestrutura e maior do mundo em número de participantes, tendo chegado a 100 mil visitantes em 2023. Ele é, portanto, o ambiente ideal para que, mais uma vez, possamos reafirmar a posição contrária à implantação dos cursos de EAD.

Estamos certos de que não é esse tipo de alteração que vai melhorar o panorama de uma população em que 89% das pessoas não realiza a higienização bucal mínima, de duas vezes ao dia, de acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde realizada pelo Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE).

As novas tecnologias podem ser exploradas para complementar a formação profissional, como com simulações e recursos online, mas não para substituir a experiência presencial. A inovação deve buscar fortalecer os fundamentos que garantem profissionais preparados para os desafios do nosso país, além de manter a odontologia brasileira como a maior e melhor do mundo.

Seca devastadora na Amazônia é resultado da crise climática, mostra estudo

Condições climáticas extremas ameaçam o maior reservatório de carbono do mundo, pois a floresta tropical já está perto do ponto de inflexão

droughtCasas flutuantes e barcos encalhados no leito seco do lago Puraquequara, no Brasil, em meio a uma forte seca em outubro de 2023. Foto: Edmar Barros/AP

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

A crise climática transformou a seca que atingiu a floresta amazónica em 2023 num acontecimento devastador, concluiu um estudo.

A seca foi a pior registada em muitos locais e atingiu o nível máximo “excepcional” na escala científica. Sem as emissões que aquecem o planeta provenientes da queima de petróleo, gás e carvão, a seca teria sido muito menos extrema, concluiu a análise.

Também mostrou que a probabilidade de ocorrência da seca era 30 vezes maior devido ao aquecimento global. O regresso do fenómeno climático natural El Niño está associado a condições mais secas, mas desempenhou apenas um pequeno papel, disseram os cientistas.

crise climática está a sobrecarregar condições meteorológicas extremas em todo o planeta, mas a seca extrema na Amazónia é um exemplo gritante e preocupante porque já se pensa que a floresta tropical está perto de um ponto de inflexão para um estado mais seco. Isto resultaria numa morte em massa de árvores que constituem a reserva terrestre de carbono mais importante do mundo, libertando grandes quantidades de CO2 e elevando ainda mais as temperaturas globais.

Milhões de pessoas na Amazônia foram afetadas pela seca , com alguns rios em seus níveis mais baixos há mais de um século. Houve escassez de água potável, colheitas fracassadas e cortes de energia, à medida que as centrais hidroeléctricas secaram. A seca também agravou os incêndios florestais e as altas temperaturas da água foram associadas a uma mortalidade em massa da vida fluvial, incluindo a morte de mais de 150 botos cor-de-rosa ameaçados de extinção numa única semana.

“A Amazônia pode fazer ou quebrar a nossa luta contra as mudanças climáticas”, disse Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, e parte da equipe da World Weather Attribution que fez a análise.

“Se protegermos a floresta, ela continuará a funcionar como o maior sumidouro de carbono terrestre do mundo”, disse ela. “Mas se permitirmos que as emissões induzidas pelo homem e a desflorestação a empurrem para o ponto de viragem, serão libertadas grandes quantidades de CO2 . Precisamos proteger a floresta tropical e abandonar os combustíveis fósseis o mais rápido possível.”

Simphiwe Stewart, pesquisadora do Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho na Holanda e também parte da equipe, disse: “Muitas comunidades que vivem na Amazônia simplesmente nunca viram uma seca como esta antes. As pessoas foram forçadas a fazer grandes viagens, arrastando barcos por trechos secos do rio, para ter acesso a alimentos, remédios e outros bens essenciais. É fundamental que as intervenções governamentais sejam orientadas para apoiar as comunidades a prepararem-se para a intensificação da seca à medida que o clima aquece.”

A análise utilizou métodos revistos por pares para comparar as secas no clima actual, que é 1,2ºC mais quente, com aquelas que teriam ocorrido num clima mais frio e pré-industrial. Os investigadores analisaram em particular a “seca agrícola”, que é responsável tanto pela baixa pluviosidade como pela evaporação da água dos solos e das plantas provocada pelas altas temperaturas.

Eles descobriram que o aquecimento global está diminuindo as chuvas e aumentando o calor na Amazônia, tornando a seca de junho a novembro de 2023 cerca de 30 vezes mais provável. O El Niño foi responsável por parte da redução das chuvas, mas as altas temperaturas foram quase inteiramente devidas às alterações climáticas, tornando-o o principal factor da seca.

A seca extrema de 2023 seria esperada cerca de uma vez a cada 50 anos no clima atual, estimou a análise. Mas se o aquecimento global atingir os 2ºC, seria de esperar uma seca tão severa a cada 13 anos.

Os cientistas disseram que a destruição em grande escala da floresta tropical para a produção de carne bovina e soja nas últimas décadas piorou a seca porque o desmatamento da vegetação significa que a terra retém menos água.

Dados recentes mostram que a floresta amazónica está se aproximando de um ponto de viragem, após o qual a floresta tropical seria perdida, com profundas implicações para o clima e a biodiversidade globais. Mais de 75% da floresta intocada perdeu estabilidade desde o início dos anos 2000, mostrou o estudo, o que significa que leva mais tempo para se recuperar após secas e incêndios florestais.

Gareth Redmond-King, da Unidade de Inteligência Energética e Climática do Reino Unido, disse: “A floresta amazónica é fundamental para regular o clima do nosso planeta, mas esta área da América do Sul também é crítica para o Reino Unido num sentido ainda mais imediato”.

“Cerca de metade das nossas importações de alimentos provém de pontos críticos de impacto climático, incluindo o Peru, a Colômbia e o Brasil, que são os nossos principais fornecedores de bananas, abacates, melões e outras frutas, bem como de soja para alimentação do gado britânico”, disse ele. “Portanto, os efeitos devastadores das alterações climáticas sobre os agricultores da América do Sul no ano passado podem muito bem traduzir-se em lacunas nas prateleiras dos nossos supermercados e em preços mais elevados para os nossos alimentos.”


compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Mulheres têm maior risco de recorrência de AVC associado à Doença de Chagas

maos

Mulheres têm mais chance de AVC, principalmente se desenvolvem doença de Chagas; contraceptivos podem aumentar riscos

bori conteudo

O gênero pode ser um dos fatores de risco para a recorrência de Acidente Vascular Cerebral (AVC) em pacientes com Doença de Chagas. Além dele, idade, uso de anticoagulantes e cardiopatias estão entre os fatores que podem influenciar a relação entre as duas condições médicas. As informações refletem análises feitas ao longo de oito anos por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e instituições parceiras, publicadas na última semana na revista científica “Cerebrovascular Diseases”, da editora Karger.

O grupo analisou exames e históricos médicos de 499 pacientes com mais de 18 anos de janeiro de 2009 a dezembro de 2016 para entender e descrever a ligação entre a infecção pelo parasita Trypanosoma cruzi, causador da Doença de Chagas, e o AVC isquêmico com causa cardioembólica. Esse tipo de AVC acontece quando um coágulo de sangue parte do coração e bloqueia uma artéria cerebral. Os pacientes observados tinham as duas condições.

A presença de fatores de risco vascular tradicionais é um forte indício para a ocorrência de AVC em pacientes com Doença de Chagas. A hipertensão foi diagnosticada em 81% dos pacientes com ambas as doenças. Metade dos pacientes (56%) tinha altos níveis de gordura no sangue e 25%, diabetes. “A Doença de Chagas causa um acometimento cardíaco que pode levar à formação de trombos ou arritmias que, por sua vez, geram o AVC por um mecanismo conhecido como cardioembolia. Essa é uma das principais consequências da doença”, explica Vinicius Vian Abreu Montanaro, autor do estudo e pesquisador da UFF.

Ao analisar o histórico clínico dos pacientes, os pesquisadores verificaram que as mulheres tiveram 83% mais chance de ter recorrência do AVC, ou seja, mais de um acidente do tipo. “Essa associação pode ser devido ao maior risco cardiovascular que as mulheres têm em comparação com os homens”, destaca o pesquisador, que também acrescenta a possibilidade de que reposições hormonais e contraceptivos possam aumentar o risco de eventos isquêmicos.

A idade dos pacientes também está entre os motivos do AVC. Durante o estudo, pessoas mais jovens com a doença de Chagas tiveram chances reduzidas de eventos de AVC relacionados aos problemas no coração, mostrando que o envelhecimento favorece acidentes cardíacos por embolismo. O uso de anticoagulantes – medicamentos que evitam entupimentos das veias – também é uma fonte de proteção contra o AVC. Neste sentido, o trabalho incentiva a discussão clínica sobre o uso desses medicamentos em pacientes acometidos por ambas as doenças como estratégia para evitar um novo AVC.

Para Montanaro, o próximo passo é fazer uma comparação entre diferentes anticoagulantes em pacientes com Chagas e AVC isquêmico embólico sem fonte definida. “Pretendemos ajudar a sanar duas dúvidas: primeiro, se devemos aplicar anticoagulante nos pacientes que não têm causa determinada, mas que o AVC parece ser embólico. Segundo, se podemos usar os novos anticoagulantes para prevenção ainda maior em pacientes com Doença de Chagas e AVC isquêmico”, encerra o autor.


Fonte: Agência Bori

A Rosa de Hiroshima uenfiana…. daí florescerá algo?

rosa

Por Douglas Barreto da Mata

Sempre fui um crítico ácido das publicações da Drª Luciane Soares da Silva.

Digamos que ela é portadora de uma ingenuidade antropológica antiga e típica da esquerda, refratária ao marxismo, e seduzida a um tipo de “behaviorismo de ciência social”, que não raro desemboca em identitarismos, culturalismos e outras bobagens comportamentais.

São passagens  como esta abaixo que me fizeram tão cético ao que ela escreve, bem como as suas tentativas de analisar contextos complexos, como segurança pública, com jargões antropológicos e morais….

Eis o resumo do texto da Doutora Luciane, que em seu preâmbulo, apresenta suas “armas”:

“Importante esclarecer que não estudo economia, sistemas bancários, transações globais, golpes dados por grandes bancos ou inflação. O que me interessa é o aspecto antropológico da circulação de pessoas, mercadorias e crenças sociais sobre valor. Estudo mudança social e trânsitos. Em alguns momentos podem ser possessões e transes dependendo da ótica adotada.”

Porém, como ela mesmo disse lá no fim do texto dela, às vezes, da terra arrasada brota alguma coisa…

Se em terra arrasada pode nascer algo, teremos de observar. Por aqui o terreno recente foi arado para plantar um estranho tipo de negacionismo. (…)”

 É o caso…

Pois o seu texto (Aqui!) atinge com precisão a tarefa de descrever o processo eleitoral recente da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), mergulhada no maior lodaçal institucional desde sua criação, e infelizmente, resultante de um processo de acúmulos de iniquidades, como cabe a todo caminhar histórico…

Uma fresta de luz da Idade das Trevas da Uenf? Tomara…

Apesar do desconhecimento e/ou da rejeição (que no fim, dão no mesmo) da Professora Doutora sobre economia, e que tais, é bom avisar:

É Marx, Doutora, é Marx…

A suposta desintegração do mundo, literal e metaforicamente, naquilo que chamam de distopia ou liquidez, ou pós realidade, nada mais é que o momento que todos da esquerda esperamos, quer dizer, pelo menos os verdadeiramente de esquerda:

– O fim do capitalismo!

O problema, Doutora, é que o fim não veio pela esquerda, mas pela  reciclagem do capitalismo em um modelo ainda mais excludente, ainda mais cruel, e pasme, que não tem mais na mais valia (a verdade do Capital) sua mola mestra…

Não há mais acumulação pela expropriação do trabalho, que se vende ao capitalista, mas apenas reprodução simulada (pós verdade?) de capitais (anti-valores), que para acontecer não precisa, de forma central, de uma sociedade estruturada institucionalmente para garantir o ambiente produtivo e a propriedade privada, com separação de poderes constitucionais, modelos representativos, estruturas de mídia corporativas e sujeitas à regulação…

Se eu fosse chegado a neologismos (e eu sou) diria que estamos a caminho do anarco-liberal-comunismo, passando agora pela ditadura digital do rentismo…

Se as universidades, via de regra, no arranjo e ideário capitalista, tão caro a certos círculos acadêmicos que hegemonizaram tais entidades, eram estuários científicos para associação com o capital e reprodução de novas tecnologias e avanços de produtividade, o que fazer quando a Era Industrial (Capitalismo) acaba, e pior, em uma zona de periferia ainda sub industrializada?

É isso, Doutora, que atropelou sua universidade, e vai atropelar tantas outras, diante da completa incapacidade de ler e enxergar os sinais, que já estavam aí há muito…

Enquanto os anarco-liberal-comunistas estudaram Marx até a medula, nos importamos com as perfumarias antropológicas…

Este texto da Doutora, como disse, é um tratado, um libelo que descortina e que clareia pontos obscuros, até certo ponto, ou até onde a antropologia e os “transes e possessões” permitem…

Assim, em uma alegoria “literária”, temos o ex reitor, um dos que criou enormes dificuldades (sabe-se lá porquê) para reforma do Arquivo Público Municipal, e agora é o fiscal da obra…

Como uma inversão ou uma adaptação d’O Processo, de Franz Kafka, outro clássico que tenho sérias reservas políticas (e não estéticas, por favor), que junto com George Orwell, é um dos precursores da crítica anti marxiana via “costumes” e “liberdades individuais”, os donos d’Processo da Uenf ou os Grandes Irmãos da Uenf não querem convencer ninguém da veracidade das suas versões da realidade, para eles, a realidade sequer importa, muito menos uma versão dela…

As eleições foram o apogeu do “pós existencialismo pragmático uenfiano”, para agradar a Academia que adora esse prefixo “pós”…

Mergulhemos em outra obra-prima conservadora, o conto Cabeça de Papelão, João do Rio, para ilustrarmos como andam as coisas na Uenf…

E olhem que por lá já tivemos quem “falasse javanês”…

A realidade atual, Doutora, é real sim, apesar da Uenf e, porque não dizer, também por ela, não há uma pós verdade ou uma ilusão…há, sim, distopia, mas é a distopia de sempre, que agora é distopia pós capitalista, ou, como dissemos, ditadura digital do rentismo…

Não é economia, não é transe, não são possessões, é a História, e seu inexorável materialismo dialético…

Vivemos agora no estado da arte da fetichização (da riqueza), que se antes era um meio para que o capital ideologicamente convencesse que todo mundo poderia ser bem sucedido, ao mesmo tempo que convertia todas as sócio reproduções em coisas (bens), em hoje nos convence a todos que vale a pena não sermos nada além de um clique, um “láique”, uma lacração, todas monetizáveis…

Será que dessa hecatombe florescerá a Rosa de Hiroshima?

Tenho cá minhas dúvidas….