Monocultura da soja desmata e polui no Brasil para baratear consumo de carnes e laticínios na União Europeia

soja-6Avanço da monocultura da soja resultam em desmatamento explosivo e aumento exponencial do uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.

No última 3ª. feira (18/06) postei um artigo sobre a dependência da União Europeia em relação à soja brasileira, dando ênfase a um relatório produzido pela seção francesa da organização não-governamental Greenpeace sob o título de “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“.

Passados alguns dias resolvi dar um mergulho nas informações que constam desse relatório, e compartilho a seguir alguns dos elementos que considero principais para um entendimento mais sólido dos altos custos ambientais, econômicos e sociais da hegemonia da monocultura da soja no Brasil, bem como dos usos preferenciais da produção brasileira na União Europeia que desmentem a falácia de que o Brasil é uma espécie de celeiro agrícola do planeta.  É que, quando muito, o Brasil se transformou numa espécie de garantidor do barateamento da produção animal europeia e, por extensão, da chinesa.

Um primeiro dado interessante é a evolução da produção mundial da soja entre 1997 e 2017 que mostra a evolução do Brasil e a aparente estagnação da produção vinda de seus principais concorrentes, que são os EUA e a Argentina. Enquanto isso, o resto do mundo continua com  produção relativamente estável, até porque com a expansão da produção brasileira restou pouco espaço para competição.

pProdução mundial de soja 1997-2017: foco nos três produtores principais.

Um segundo aspecto é a evolução espacial dos monocultivos da soja, a qual está intrinsecamente ligado no Brasil ao avanço do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, como bem mostra o mapa abaixo. Aqui é o elemento de interpretação é simples: a expansão da soja é um vetor fundamental no aumento do desmatamento no Brasil, o que desmente a falácia de que não havia plantios de soja em áreas de desmatamento novo. Essa tese já havia sido refutada em um artigo da qual sou co-autor e que foi publicado pela revista Acta Amazônica, mas o mapa feito corrobora o que havíamos indicado a partir do caso do estado de Rondônia.

mapa soja

Mapa com áreas com monoculturas de soja e o acompanhamento do processo desmatamento (áreas em vermelho).

Um aspecto particularmente interessante é o papel que a soja cumpre na alimentação dos rebanhos animais que estão estabelecidos na União Europeia (EU),  com um amplo uso em diferentes tipos de rebanhos, ainda que a dependência maior seja na alimentação de galinhas e porcos (74% do total).

repartição soja

Discriminação das necessidades da soja na EU de acordo com diferentes tipos de produção animal.

Entretanto, um dos resultados que mais me chamou a atenção foi o destino final da soja importada pela EU, pois, ao contrário do que difundem os latifundiários agroexportadores que vendem a ideia falaciosa de que o Brasil alimenta o mundo, quase 90% da soja importada pela EU é usada para alimentação animal.

uso final

Uso final da soja na UE: A principal finalidade é servir como comida animal.

Por outro lado, as atuais negociações entre o MERCOSUL e  a EU que parecem ir ao largo das graves transgressões nos direitos sociais e dos esforços para desmontar as estruturas de governança ambiental que estão sendo empreendidos pelo governo Bolsonaro ficam mais fáceis de entender quando se verifica que o Brasil fornece 37% da soja consumida pelos países europeus.

origem soja eu

Em conjunto o que o conjunto desses dados mostra é que a hegemonia da monocultura da soja na produção brasileira acaba servindo, como bem alerta o aludido relatório do Greenpeace, para baratear o consumo de carnes e produtos lactéos na União Europeia, enquanto que para o Brasil (e para a Argentina) sobram os altos custos sociais, altos níveis de consumo hídrico, e uma pesada herança associada ao uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos que estão banidos na própria EU. 

E sem falar que os alimentos que efetivamente consumimos no Brasil acabam sendo direta ou indiretamente contaminados pelos agrotóxicos que são abundantemente despejados nos grandios plantios de soja. 

Os arquivos da Lava Jato e os riscos da tentação autoritária

1984

Após as revelações feitas pelo site “The Intercept” sobre o subterrâneos da chamada “Operação Lava Jato” já existem sinais de que existe a possibilidade de que haja uma investida para punir supostos “hackers” que estariam por detrás dos vazamentos. Nesse sentido, a revista “Isto é” já está circulando uma matéria dando conta de que apurações realizadas pela Polícia Federal já teriam encontrado o rastro de um grupo que supostamente acessou ilegalmente os telefones do ex-juiz e atual ministro da (in) Justiça Sérgio Moro e dos procuradores federais da Lava Jato.

Se isto for verdade, é provável que estejamos diante da antessala de uma investida contra jornalistas e veículos de mídia, o que afrontaria o direito de informar e de ser informado, o que representaria grave atentado à liberdade de imprensa.

Mas se essa investida contra a liberdade de imprensa se confirmar, o principal perdedor será o próprio ministro Sérgio Moro, pois ficaria ainda mais consolidada a imagem de que de justiceiro independente ele pouco ou nada tem.

O pior é que se o caso de Edward Snowden servir para algum paralelo prático para o caso  atual é de que quando os órgãos de inteligência decidirem fazer algum movimento, o mega pacote de documentos sobre as estrepolias de Sérgio Moro e dos procuradores federais da Lava Jato que estão nas mãos dos editores do “The Intercept” já terão sido guardados em diversas partes do mundo e com veículos ávidos para continuar sua publicação.

Em outras palavras, a estas alturas do campeonato não há mais como parar a marcha das revelações. A única dúvida real seria sobre a língua em que as matérias continuariam a ser publicadas no evento de um assacada autoritária contra o “The Intercept”. Simples assim!

 

Brasileiros estão comendo alimentos contaminados por agrotóxicos em um voo cego

agrotoxicos

Uso intensivo, e muitas vezes abusivo, de agrotóxicos contamina principais alimentos consumidos pelos brasileiros.

Em meio à enxurrada de aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, os brasileiros estão totalmente desinformados sobre o montante de resíduos que estão sendo consumidos a partir da ingestão de alimentos produzidos no território nacional. É que desde 2016 está suspensa a divulgação de resultados do chamado “Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos” (PARA) que era feita regularmente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Em seu último relatório, o PARA nos ofereceu dados assombrosos sobre a contaminação de alimentos que os brasileiros colocam diariamente em suas mesas, incluindo alface, pimentão, repolho, tomate, cebola, mamão e morango, apenas para citar os que apresentaram índices mais significativos de contaminação, e também pela multiplicidade de resíduos de diferentes tipos de agrotóxicos.

agrotox

Dentre as razões citadas no relatório do PARA que deveriam estar gerando grande alarme nos consumidores brasileiros estão a presença de agrotóxicos que já foram diagnosticados como causadores como doenças graves, o uso incorreto de produtos em relação ao que foi aprovado pelos órgãos reguladores, e ainda a aplicação de dosagens que extrapolam os limites de risco. Quando colocados juntos, todos esses fatores explicam a presença de vários agrotóxicos em uma mesmo alimento e com limites excedendo o estabelecido na legislação.

O fato é que o povo brasileiro está ingerindo alimentos contaminados por resíduos de agrotóxicos de uma forma que equivale a voar em um avião desprovido de aparelhos de navegação. E, pior, por causa da suspensão do PARA, sequer sabemos qual é o nível de contaminação dos itens que são consumidos de forma mais rotineira. Ou seja, estamos nos alimentando como se estivéssemos em um voo cego.  Desta forma, toda a cantilena que os pais usam para convencer seus filhos a consumirem salada pode não ser apenas propaganda enganosa, mas também uma fonte de envenenamento crônico para nossas crianças.

veneno está na mesa

O interessante é que neste momento, a União Europeia está negociando um amplo comercial com o Mercosul, do qual o Brasil é o principal membro em termos de exportação de alimentos para os países europeus.  O curioso é que na Europa, não apenas os níveis aceitáveis de resíduos de agrotóxicos são muito mais rígidos no que se refere ao que pode ser aplicado pelos agricultores europeus, mas também no que pode ser detetado nos alimentos.  

pesticide

Até agora a União Europeia passou ao largo do problema da contaminação da produção brasileira por agrotóxicos ao não permitir a alimentação direta a humanos, permitindo apenas o uso como ração. Mas com o aumento acelerado da aprovação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, muitos deles já banidos na União Europeia, fica a dúvida de até quando essa permissão continuará.

Para complicar a situação ainda há a campanha de boicote iniciada pela rede sueca Paradiset contra alimentos produzidos no Brasil por causa da aprovação desenfreada de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro (197 apenas nos primeiros 5 meses de 2019) parece estar se disseminando para fora da Suécia, apesar dos apelos em contrário da embaixada brasileira em Estocolmo. Se mais redes de outros países europeus aderirem ao boicote, é bem possível que haja mais pressão por mais transparência sobre o nível de contaminação dos alimentos que os próprios brasileiros estão ingerindo todos os dias.

Johannes CullbergJohannes Cullberg, fundador e CEO da rede sueca de supermercados Paradiset é o principal incentivador do boicote a alimentos produzidos no Brasil por causa da contaminação com agrotóxicos.

Mas o fato é que o problema da contaminação de alimentos por agrotóxicos não pode ser mais ignorado, pois efetivamente já se tornou um grave problema de saúde coletiva no Brasil.  A primeira demanda que devemos fazer neste momento é pela retomada da divulgação dos relatórios do PARA, pois é um direito de todos os brasileiros quais alimentos estão contaminados e por quais tipos de agrotóxicos. Ignorar o problema da contaminação dos nossos alimentos não é uma opção aceitável. Simples assim!

Sérgio Moro teme eficiência do seu método “conta gotas” e pede que Intercept libere tudo de uma vez

moro olheiras

As olheiras de Sérgio Moro são indicadoras de que o método “conta gotas” do “The Intercept” está afetando o seu sono.

A audiência a que o ex-juiz e atual ministro da (In) Justiça, Sérgio Moro, no dia de ontem no Senado Federal foi quase um jogo de compadres, salvo as manifetações de uns poucos senadores que resolveram dizer a ele como as coisas devem funcionar para que as ações de um juiz não resultem na anulação de processos. Cito aqui a fala do senador capixaba    Fabiano Contarato (Rede) que do alto de sua condição de ex-delegado da Polícia Federal lembrou a Moro de alguns procedimentos básicos para manter a devida separação entre as partes durante o transcorrer de um processo (ver vídeo abaixo).

Mas os problemas de Sérgio Moro, e por extensão do governo Bolsonaro, estavam longe do ambiente confortável das dependências do Senado Federal onde a audiência ocorreu. A verdade é que, como o próprio Moro sinalizou, a raiz dos problemas que hoje abalam a antes impoluta imagem de justiceiro que o juiz de Maringá arrumou para si graças a contínuos vazamentos de informações que deveriam nos autos dos processos que ele julgava, é o volumoso arquivo de mensagens, documentos, vídeos e áudios que o site “The Intercept” diz ter nas mãos.

Mas mais do que o volumoso arquivo, o que parece estar realmente incomodando é a estratégia de liberação “conta gotas” das partes selecionadas para publicação pelos editores do “The Intercept”.  É que Moro sabe bem que este é um método bastante eficiente para destruir imagens e para empurrar a maioria da opinião pública para um determinado lado da equação. E ele bem disso porque foi exatamente esse o método que ele usou enquanto esteve à frente da 13a. Vara Federal de Curitiba.

E é esse reconhecimento de que está sendo ferido com o próprio veneno que deve estar tirando o sono de Moro, a ponta de ele dizer que “se quiserem publicar tudo, publiquem“. Na verdade, diferente de parecer um desafio racional aos editores do “The Intercept”, Moro parece implorar para que soltem tudo de uma vez para que ele mesmo pare de sentir as dores impostas por um método de sua própria lavra e que, repito, é altamente eficiente.

A questão é que Glenn Greenwald é um jornalista altamente capacitado e que já passou por situações em que  a mesma combinação entre jornalismo investigativo e jogos de guerra estava envolvida. E Greenwald parece determinado a não cair em tentações ou, tampouco, a atender a súplicas de Sérgio Moro. Daí que deveremos continuar a ver a liberação metódica e segmentada das matérias que estão desmontando o mito que foi construído em torno de Sérgio Moro. Assim se trata de esperar e ler os próximos capítulos, quer dizer, as próximas matérias.

Agroquímicos acima de tudo, agrotóxicos acima de todos

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Enquanto isso, dona Tereza Cristina, a ministra sinistra, dificulta os registros dos produtos biológicos no Ministério da Agricultura

Por Rui Daher para a “Carta Capital”

As armas biológicas sempre existiram como forma de exterminar inimigos, paz ou guerra. São milhares os microrganismos e toxinas, desenvolvidos em laboratórios, capazes de matarem seres vivos. Felizmente, ainda são poucos os relatos confirmados de sua utilização. Os mais notórios remontam à Segunda Guerra Sino-Japonesa, entre as décadas de 1930 e 1940, utilizadas pelos nipônicos.

Criação e armazenamento foram proibidos em 1972 e ratificados em 1997 pela Convenção sobre Armas Biológicas, assinada por 150 países, inclusive o Brasil. Seu uso ainda é temido em ações de bioterrorismo.

O mesmo temor se repete com as armas químicas, quando em conflitos. É de fácil memória o Iraque de Saddam Hussein (1937-2006) e seu arsenal, até hoje procurado e não encontrado pelos norte-americanos. As secretas armas de destruição em massa que motivaram a destruição de um país.

Com as químicas o busílis é outro. Predomina a utilização de gases tóxicos. Já na Primeira Guerra Mundial aparecem usadas pelos alemães, em fosgênio, cianureto e gás mostarda. Os mesmos germânicos as repetem no Holocausto, em câmaras de gás usando Zyklon B, um pesticida à base de ácido cianídrico, cloro e nitrogênio.

Seguem-se ataques químicos em 1988, no Curdistão iraquiano; em 2002, pelos chechenos, em Dubrovka, Moscou; ano 2013, no ataque do governo sírio, arredores de Ghouta, próxima a Damasco, que matou mais de 1.500 pessoas.

Mais cinicamente, nos vinte anos de Guerra do Vietnã (1955-1975), em bombardeios de napalm contra populações civis vietnamitas. Se quiserem, peço os testemunhos do escritor Joseph Conrad (“Coração das Trevas”) ou do cineasta Francis Ford Coppola (“Apocalypse Now).

Pois é, caridosos leitores e leitoras (“obrigado por lerem até aqui”), tematizamos conflitos, guerras, morticínios, futuros tecnológicos com potencial para destruir enormes parcelas da vida no planeta.

Mas só?

Na agricultura, os agroquímicos e agrotóxicos dominaram a produção e o consumo de insumos. Necessários? Em países tropicais e semitropicais, em parte, sim, mas não na intensidade em que são usados, se é que, realmente, em diversas culturas, sejam imprescindíveis.

Creio que não, pelos testes e experimentos que acompanho em campo com produtos naturais e orgânicos que resultam em produtividades semelhantes aos plantios convencionais, sem comprometerem o meio ambiente e a microbiota dos solos.

É fácil deduzir: se os produtos biológicos, quando para o mal, são capazes de exterminar vidas humanas e a fauna terrestre, por que não teriam o mesmo efeito se estudados e adaptados a matar pragas e doenças das plantas sem o uso de agroquímicos e agrotóxicos?

Vocês poderão conhecê-los, caseiros ou não, e verificar sua efetividade. Um problema: Dona Tereza Cristina, a ministra sinistra, dificulta seus registros no Ministério da Agricultura, o que não faz com os químicos e tóxicos.

Vejam a insanidade e, talvez, a podridão. Na edição de outubro de 2018 da revista Globo Rural, matéria de Vinícius Galera, pinço o seguinte trecho: “segundo o ministério da Agricultura (MAPA), o mercado de biológicos é composto de biofertilizantes sem registro (…) registrados como fertilizantes ou caseiros”.

Verdade. E por quê? Porque o MAPA faz desses registros uma insanidade burocrática e financeira. Mentira. E por quê? Várias multinacionais, ricas em recursos e massa de divulgação, partem para dominar esse irreversível futuro, enquanto startups e pequenas empresas nacionais, inovadoras, têm funeral anunciado.

Aos que lutam, boa sorte.

Inté.

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Este artigo foi originalmente publicado pela revista “Carta Capital” [Aqui!]

Miguel Nicolelis debate destruição da soberania e da ciência no Brasil

nicolelis calé

Neurocientista mundialmente reconhecido, Miguel Nicolelis visita o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo, na próxima terça-feira (25). Em debate, a destruição da soberania nacional e do futuro dos brasileiros. A atividade ocorre no auditório da entidade, situado na Rua Rego Freitas, 454, sala 83, próximo ao metrô República. Nicolelis contará com a companhia de Flávia Calé, presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).

Professor titular da Duke University (EUA), Nicolelis foi considerado um dos 20 maiores cientistas em sua área pela revista Scientific American e pela revista Época. Também foi o primeiro cientista a receber dois prêmios dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) no mesmo ano, além de ser o primeiro brasileiro a ter um artigo de capa na revista Science. Na Duke University, atua como pesquisador do Instituto Internacional de Neurociências Edmond & Lilly Safra (IIN-ELS). Nicolelis lidera o consagrado projeto Walk Again – “Andar de novo”.

Apesar do eixo “Ciência e Tecnologia”, o bate-papo com Nicolelis e Calé deve abranger não somente os ataques ao setor, mas também ao desmonte institucional, a destruição e o entreguismo praticados pelo governo Bolsonaro. A entrada é livre, bastando preencher o formulário através deste link: clique aqui.

Para quem não puder comparecer, haverá transmissão online na página do Barão de Itararé (clique aqui).

Com informações da assessoria de imprensa do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo [Aqui!].

Agrotóxicos deixam um rastro de doenças e mortes pelo Brasil

Diversos agrotóxicos proibidos em outras partes do mundo, inclusive países de origem dos fabricantes, foram liberados pelo governo Bolsonaro. Pesquisas apontam que o consumo de agrotóxicos gira em torno de cinco litros por pessoa/ano e que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por esses agentes.

avião agrotoxicos

Imagem por Agência Brasil

Por  Frederico Rochaferreira para o LeMonde Diplomatique Brasil

O governo Bolsonaro liberou 197 agrotóxicos em cinco meses. Neste pacote estão produtos considerados cancerígenos, como o paraquat, da Syngenta (nome comercial Gramoxone 200) e o glifosato, da Monsanto/Bayer.

O paraquat – proibido em mais de 50 países e em todo território europeu desde 2007, inclusive em seu país de origem, a Suíça –  é um agrotóxico associado não só a casos de câncer, mas também ao mal de Parkinson, fibrose pulmonar e danos genéticos, sendo um dos agentes químicos mais vendidos no Brasil.

Em setembro de 2017, a Anvisa proibiu o uso do paraquat. Mas, dois meses depois, voltou atrás, ante a pressão dos ruralistas e do lobby da fabricante Syngenta. A empresa levou políticos para uma viagem à Suíça para “conhecer aspectos da capacidade de inovação suíça” e fazer uma visita à multinacional. Uma das  convidadas da empresa foi a então deputada Teresa Cristina, hoje ministra da Agricultura.

O veneno suíço continua liberado por aqui, contaminando o arroz, a banana, a batata, o café, a cana-de-açúcar, o feijão, a maçã, o milho, a soja, a maçã e o trigo, para citar alguns. Mas a Syngenta não é a única fabricante de agrotóxico que tem seu produto proibido à venda no próprio país. Nesse rol, encontra-se também a norte-americana FMC Corp., a dinamarquesa Cheminova A/S e a Helm AG, da Alemanha, cujos agentes químicos não são permitidos em seus mercados domésticos, mas são livremente comercializados no Brasil.

Outro produto utilizado em larga escala pela indústria agrícola brasileira é o glifosato, um composto químico desenvolvido pela Monsanto, também, considerado cancerígeno. Recentemente a Bayer, que absorveu a Monsanto, sofreu uma pesada derrota na justiça federal dos EUA, em um processo envolvendo a utilização do glifosato. O fato abriu precedente para milhares de processos semelhantes de pessoas que alegam que o uso do herbicida lhes causou câncer. No total, são 11.200 ações em todo o país.

No Brasil não há um estudo definitivo que aponte para o número de doenças e mortes em função do consumo de alimentos contaminados. Temos conhecimento de que o consumo de agrotóxicos gira em torno de cinco litros por pessoa/ano  e que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por esses agentes. Além disso, pesquisas como as desenvolvidas pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e Fundação Oswaldo Cruz relacionam diversas doenças com o consumo de agrotóxicos. Entre elas, o mal de Parkinson, distúrbios de comportamento, problemas na produção de hormônios sexuais, infertilidade, má formação fetal, aborto, endometriose e câncer de diversos tipos, além de estatística de mortes em uma determinada região.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, o câncer passou a ser a primeira causa de morte em 140 municípios. Isso ocorreu logo depois que as lavouras do Estado receberam cerca de 100 mil toneladas de veneno, entre os anos de 2012 e 2014. Na região Noroeste do país, a média é de dez agricultores diagnosticados com câncer por dia. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 80% dos casos de câncer no mundo, vem da exposição aos agentes químicos. Por outro lado, a intoxicação pelo uso de agrotóxicos no território brasileiro tem dados consistentes, como é possível ver nos mapas produzidos pela pesquisadora da USP, Larissa Mies Bombardi.

Em uma sequência cartográfica, Larissa Mies mostra que mais de 25 mil intoxicações causadas por agrotóxicos foram registradas no período de 2007 a 2014. O que dá 3.125 casos de intoxicações por ano ou oito casos por dia, com 1.186 mortes, sendo 343 bebês. Isto é, uma morte a cada dois dias e meio. Contudo, os números podem ser bem maiores. Segundo pesquisadores, para cada caso registrado,  outros 50 não são notificados, mesmo entendimento de especialistas em saúde pública, que aponta ser o número de mortes relacionadas ao envenenamento por agrotóxicos maior que o registrado, em função do rastreamento ser incompleto.

A dura realidade é que o Brasil se tornou o celeiro de pesticidas proibidos ou eliminados em países desenvolvidos  e de forma irresponsável, vem permitindo sua utilização e o envenenamento da agricultura, do trabalhador rural em particular e da população.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo LeMonde Diplomatique Brasil [Aqui!].