Criticada por Bolsonaro, Alemanha divulga vídeo em resposta

Após presidente dizer que chanceler deveria ‘reflorestar’ o país, embaixada no Brasil diz que Alemanha ‘é um dos países mais florestados da Europa’

Por André Borges

A Embaixada da Alemanha publicou um vídeo nesta quinta-feira, 15, para divulgar seus principais parques florestais no País e convidar as pessoas a conhecerem a natureza preservada pelo país europeu. O vídeo, com mensagens em português, foi divulgado na conta do Facebook da embaixada.

A divulgação ocorre um dia depois de o presidente Jair Bolsonaro dizer que a chanceler alemã, Angela Merkel, deve “pegar a grana” bloqueada para preservação ambiental no Brasil e reflorestar a Alemanha. “Eu queria até mandar um recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu US$ 80 milhões para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”, disse Bolsonaro.

“Você sabia que a Alemanha é um dos países mais florestados da Europa? As florestas alemãs são destinos turísticos imperdíveis”, afirma a embaixada no vídeo, que contém imagens de diversas florestas protegidas do país. As mensagens afirmam que a área das florestas alemãs cresceu em mais de 1 milhão de hectares nas últimas cinco décadas e que cobrem um terço do território nacional.

“Hoje a Alemanha é um dos países mais densamente florestados Europa. Partiu visitar a natureza alemã?”, convida a embaixada.

Em 3 de julho, reportagem do Estado revelou que a Alemanha havia decidido reter uma nova doação de 35 milhões de euros, o equivalente a mais de R$ 155 milhões, para o Fundo Amazônia. O bloqueio foi confirmado pelo governo alemão no último sábado, 10. O país já repassou R$ 193 milhões para o programa.

Nesta quinta-feira, 15, foi a vez de a Noruega anunciar a suspensão de um repasse de R$ 133 milhões ao fundo. Juntos, os dois países já doaram R$ 3,4 bilhões para o programa.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Portal Terra [Aqui!].

 

Desmatamento na Amazônia: depois da Alemanha, Noruega suspende repasse de recursos por “quebra de contrato”

bolsonaro-salles-coletivaAlta explosiva do desmatamento na Amazônia causada pelas políticas anti-ambientais de Jair Bolsonaro e Ricardo Salles ameaça a viabilidade do agronegócio brasileiro.  Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O desprezo demonstrado pelo presidente Jair Bolsonaro em relação à decisão do governo alemão de suspender o financiamento de projetos de preservação na Amazônia por causa do aumento explosivo das taxas de desmatamento agora deverá ser também dirigido à Noruega. É que a mídia norueguesa está informando que o governo norueguês decidiu suspender o repasse de R$ 134 milhões por causa de uma suposta quebra de contrato em relação à proteção das florestas tropicais localizadas na porção brasileira da bacia Amazônica.

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Manchete do “Dagens Næringsliv” informa que a Noruega suspende envio de recursos para a preservação de florestas no Brasil

Em reportagem publicada pelo jornal “Dagens Næringsliv” , o ministro norueguês do Clima, Ola Elvestuen (V), declarou que a Noruega decidiu reter os recursos financeiros prometidos financiar medidas de controle de desmatamento. 

Além disso,  Elvestuen teria afirmado que “o Brasil rompeu o acordo com a Noruega e a Alemanha desde que o país fechou a diretoria do Fundo Amazônia e o Comitê Técnico, o que o não poderia ter sido feito sem acordo com a Noruega e a Alemanha“.

Outra declaração significativa do ministro do Clima da Noruega seria no sentido de que o Brasil está mostrando “que eles não querem mais parar o desmatamento“, o que seria “muito sério para toda a luta em prol do controle das mudanças climáticas“.

É provável que o presidente Jair Bolsonaro venha novamente a público para desdenhar da decisão norueguesa, e ainda deverá sugerir que a Noruega invista estes recursos na preservação de suas próprias reservas florestais.  

O problema, na verdade, repousará nas mãos do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, que foi quem deu a munição necessária para os noruegueses suspenderem o envio dos recursos destinados a fundo perdido para uso na proteção das florestas amazônicas, quando tentou interferir no funcionamento do Fundo Amazônia.

Aos que não entenderam o real problema que está sendo colocado na mesa por alemães e noruegueses, sugiro a leitura da entrevista dada pelo ex-ministro e latifundiário Blairo Maggi ao jornal Valor Econômico ele apontou para o risco do agronegócio nacional voltar à estaca zero por causa da retórica anti-ambiental do governo Bolsonaro. O fato é que a decisão norueguesa de suspender o repasse dos recursos do Fundo Amazônia é provavelmente apenas um primeiro passo para um amplo boicote aos produtores brasileiros associados ao desmatamento da Amazônia. Se isso acontecer, os latifundiários que apoiarem e ajudarem a eleger Jair Bolsonaro só terão a si mesmos para culpar.

 

 

MP gaúcho quer suspensão de agrotóxico que levou ao extermínio de abelhas

Proibido na Europa justamente por ser letal aos polinizadores, o fipronil obteve três novos registros junto ao governo Bolsonaro

 

abelha-mortaEntre outubro passado e março deste ano foram mortas 400 milhões de abelhas em 32 municípios gaúchos

Por Cida Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo – A Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre pediu nesta quarta-feira (14) que o governo do Rio Grande do Sul suspenda o fipronil do Cadastro Estadual de Registro de Agrotóxicos. O ofício enviado à Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam) e às secretarias da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural e de Meio Ambiente e Infraestrutura é desdobramento do inquérito civil instaurado para apurar as causas do extermínio de abelhas no estado.

Entre outubro passado e março deste ano foram exterminadas 400 milhões em colmeias de 32 municípios gaúchos.  De acordo com o promotor de Justiça Alexandre Saltz, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, “a necessidade é de prevenir novos danos ambientais irrecuperáveis derivados da aplicação do produto”.

Não bastasse a crueldade contra os insetos, o extermínio põe em risco a produção de alimentos. Segundo a organização Bee or not to Be?, idealizada pelo professor titular aposentado da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto Lionel Segui Gonçalves, as abelhas são os maiores polinizadores do planeta. Atuam diretamente na reprodução de mais de 85% das plantas com flores das matas, florestas e áreas verdes, conferindo importante equilíbrio aos ecossistemas. E de mais de 70% das culturas agrícolas, garantindo a ampliação da produtividade no campo e a melhoria na qualidade de frutos e sementes. Na busca por alimento, coletam também o pólen produzido pelo órgão masculino da flor e o carregam para a parte feminina. É nesse processo de polinização que a planta se reproduz.

Banido

O fipronil que está na mira do MP gaúcho foi banido da União Europeia em 2017. Pesquisas realizadas pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, constataram que a substância matou milhares de abelhas na França entre 1994 e 1998. E que as mortes ocorreram logo que o produto foi lançado.

A devastação de colmeias inteiras de apicultores gaúchos, porém, não parece preocupar o Ministério da Agricultura do governo de Jair Bolsonaro (PSL). Desde o início da gestão foi concedido registro – que permite a produção e venda – para mais 290 produtos. Desse total, dois são para a substância pura e outros dois para misturas com o acetamiprido, da classe dos neonicotinoides.

Das novas liberações, pelo menos 21 são nocivas às abelhas. São 12 da classe dos neonicotinoides, três da fenilpirazol e seis sulfoxaminas. “Os piores são o fipronil, do segunda classe, e o sulfoxaflor, da terceira, estes todos produzidos pela Dow Chemical. Aparentemente são mais perigosos que os neonicotinoides. Embora não haja mocinhos nessa película, é bom lembrar que alguns neonicotinoides estão liberados na União Europeia, enquanto os dois outros grupos estão proibidos. O fipronil está praticamente banido até nos Estados Unidos, onde é usado apenas em casos extremos”, avalia o professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski, que monitora as liberações de agrotóxicos.

Seja como for, a classe dos neonicotinoides está diretamente associado ao extermínio de abelhas em todo o mundo. Estudo financiado por 28 países da União Europeia concluiu que tais inseticidas representam grande risco para diferentes tipos de abelhas. Tanto que esses países proibiram o imidaclopride e a clotianidina, da Bayer, que comprou a Monsanto, e o tiametoxam, da Syngenta. Porém, coerente com a via de sentido contrário que escolheu para trafegar, o Brasil deu sinal verde também para seis pedidos para fabricar imidaclopride e dois para tiametoxam.

Com sequela

No último dia 6, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina (DEM-MS), a “musa do veneno”, juntou o diretor da Anvisa, Renato Porto, e a diretora do Ibama, Carolina Mariani, entre outros, para tentar explicar à imprensa as principais questões envolvendo os agrotóxicos no país.

Os gestores foram enfáticos na defesa da tese de que o Brasil aparece na 44ª posição em um ranking do Fundo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) sobre uso de defensivos agrícolas. E não na primeira. Na perspectiva adotada pelo governo, o consumo foi de 4,31 quilos de agrotóxicos por hectare cultivado em 2016. E que entre os países europeus que utilizam mais defensivos que o Brasil aparecem a Holanda (9,38 kg/ha), Bélgica (6,89 kg/ha), Itália (6,66 kg/ha), Montenegro (6,43 kg/ha), Irlanda (5,78 kg/ha), Portugal (5,63 kg/ha), Suíça (5,07 kg/ha) e Eslovênia (4,86 kg/ha).

Uma tese contestada pela pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da USP. Conforme explicou no final de junho à Agência Pública, quando se divide o consumo brasileiro de agrotóxico pela área plantada há diluição desse volume gigantesco. Isso porque é considerada área cultivada regiões como pastos, que são terras improdutivas. “Uma conta faz com que o Brasil fique lá embaixo no ranking”.

O esforço da equipe da musa do veneno veio da pressão dos próprios ruralistas diante da repercussão negativa de uma paródia apresentada no programa Zorra, na noite de 3 de agosto. Na esquete em formato de desenho animado, o ruralista pulveriza agrotóxico na goiaba em um sítio em que os agrotóxicos e os transgênicos alteraram profundamente a vida e a saúde das pessoas. A inconsequente – e prevista – farra dos agrotóxicos no governo Bolsonaro foi criticada em horário nobre, pouco depois da venda de imagem pop do agro.

Confira a crítica aos agrotóxicos em O Sítio do Pica Pau com Sequela:

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Rondônia: desmatamento, fogo e fumaça

rondonia

Uma parte significativa da minha produção científica foi desenvolvida a partir de quase duas décadas de pesquisas de campo no estado de Rondônia. Ao longo desse tempo vi a paulatina e cada vez mais rápida substituição da florestal tropical por imensos campos de pastagem e, no último período, por uma combinação delas com “plantations” de soja. O resultado vinha sendo uma devastação paulatina, mas em ritmo constante, que já produziu mudanças detectáveis no clima daquela parte da Amazônia brasileira.

Entretanto, os relatos que venho tendo de colegas pesquisadores que estão ou estiveram em Rondônia é que em 2019 o ritmo do desmatamento se acelerou tremendamente, ameaçando principalmente unidades de conservação e terras indígenas, principalmente a que abriga o povo Uru-Eu-Wau-Wau.

Agora, graças à disseminação acelerada de imagens, tive acesso ao vídeo abaixo que foi postado por um praticante de voo livre que vive em Rondônia.  O vídeo mostra toda a região central de Rondônia completamente tomada por fumaça que, como o seu produtor e narrador informa, é oriunda de milhares de pontos de queimadas o que pode parecer exagerado, mas parece ser correto em função do volume de material particulado no ar.

Quando essas imagens circularem pelo mundo toda a retórica de acobertamento do avanço agressivo da franja de desmatamento que o governo Bolsonaro pôs em campo, e que resultou na demissão do físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), irá ser totalmente desacreditada.

E como já declarou em entrevista ao jornal Valor Econômico o ex-ministro da Agricultura e latifundiário Blairo Maggi, toda essa situação levará o agronegócio brasileiro à estaca zero.  Mas aparentemente parece que vai ser preciso um boicote internacional às commodities brasileiras para que as piadas de botequim do presidente Jair Bolsonaro sejam substituídas por políticas responsáveis que combinem os interesses econômicos com a preservação ambiental.

“Pegue essa grana e refloreste a Alemanha”, diz Bolsonaro a Merkel

Presidente volta a minimizar congelamento de financiamento alemão a projetos de proteção da Amazônia. Debate entre Brasília e Berlim se intensificou após divulgação de dados do Inpe sobre o desmatamento no Brasil.

bolso“Lá tá precisando muito mais do que aqui”, diz Bolsonaro sobre dinheiro da Alemanha. Reuters/ A.Machado

O presidente Jair Bolsonaro voltou a criticar a Alemanha nesta quarta-feira (14/08), após o país europeu anunciar o congelamento de financiamentos de projetos de proteção à Floresta Amazônica.

“Eu queria até mandar recado para a senhora querida [chanceler federal da Amazônia] Angela Merkel, que suspendeu 80 milhões de dólares para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok? Lá tá precisando muito mais do que aqui”, disse o presidente a jornalistas enquanto comentava o processo de escolha do novo procurador-geral da República

No último sábado, a ministra alemã do Meio Ambiente, Svenja Schulze, afirmou que o governo decidiu suspender o financiamento de projetos para a proteção da floresta e da biodiversidade uma vez que “a política do governo brasileiro na Região Amazônica deixa dúvidas se ainda se persegue uma redução consequente das taxas de desmatamento”.

Inicialmente, a verba suspensa é de 35 milhões de euros (cerca de 155 milhões de reais), proveniente da iniciativa para proteção climática do Ministério do Meio Ambiente em Berlim.

Após a declaração da ministra, Bolsonaro reagiu, dizendo que “a Alemanha não vai mais comprar a Amazônia, vai deixar de comprar a prestações a Amazônia. Pode fazer bom uso dessa grana. O Brasil não precisa disso”.

Na segunda-feira, a ministra alemã rebateu a declaração de Bolsonaro. “Isso mostra que estamos fazendo exatamente a coisa certa”, disse Schulze. “Apoiamos a região amazônica para que haja muito menos desmatamento. Se o presidente não quer isso no momento, então precisamos conversar. Eu não posso simplesmente ficar dando dinheiro enquanto continuam desmatando”, afirmou a ministra à DW.

A verba congelada não faz parte dos financiamentos do governo alemão ao Fundo Amazônia, no qual o Ministério alemão da Cooperação Econômica injetou até agora 55 milhões de euros (por volta de 245 milhões de reais). Com um volume de quase 800 milhões de euros (por volta de 3,5 bilhões de reais), a maior parcela do Fundo é financiada pela Noruega e, uma pequena parte dele, pela Alemanha. O dinheiro se destina a projetos para reflorestamento, contenção do desmatamento e apoio à população indígena.

O debate entre Berlim e Brasília sobre a proteção ambiental em terras brasileiras vem se intensificando nas últimas semanas. Em junho, Merkel expressou preocupação com as questões dos direitos humanos e do meio ambiente no Brasil. Bolsonaro reagiu acusando a Alemanha de abusar dos recursos naturais ao utilizar combustíveis fósseis para gerar energia e de já ter desmatado suas próprias florestas.

As tensões se acirraram após os dados mais recentes do Instituto nacional de Pesquisas Espaciais(Inpe) apontarem um aumento no desmatamento da Amazônia de 278% em julho, em comparação ao mesmo mês do ano anterior. Um grande aumento do desmatamento já havia sido apontado em junho, quando a devastação da floresta cresceu 88% em relação ao mesmo mês de 2018.

A divulgação desses números causou uma crise entre o Inpe e o governo brasileiro, que culminou com a demissão do presidente do instituto Ricardo Galvão. O anúncio de Schulze sobre o congelamento de verbas para o Brasil também veio após o Inpe divulgar os dados.

Repercussão na imprensa alemã

Assim como suas declarações anteriores, a fala de Bolsonaro desta quarta-feira repercutiu na imprensa alemã.

O jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) afirmou que o “presidente direitista Bolsonaro, que começou a governar no início de 2019, não quer identificar novas áreas de proteção na região amazônica e visa permitir mais desmatamento”.

O portal de internet do jornal Die Welt qualificou a declaração como um ataque a chanceler alemã, destacando que o brasileiro chamou de “senhora querida”, e destaca que a Amazônia é considerada o “pulmão verde” do mundo.

Ao mencionar a declaração de Bolsonaro, diversos veículos de imprensa alemães destacaram que a Alemanha possui 11,4 milhões de hectares de floresta, o que corresponde a 32% do território do país, e que nos últimos dez anos as áreas de floresta tiveram um leve aumento.

RC/dpa/kna/ots

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Ministério da Agricultura engana a população com dados falsos sobre agrotóxicos

consumo agrotóxicos

Nosso consumo de agrotóxicos por hectare fica em 7kg/ha, e não 4,3kg/ha como afirma a FAO e o MAPA / Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

 

Imagem de perfil do ColunistaCampanha Contra os Agrotóxicos

No último 6 de agosto, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) publicou um release de imprensa intitulado “Esclarecimentos sobre Registros de Defensivos Agrícolas“. Em relação a este documento, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida declara que:

A publicação deste texto é claramente uma resposta à indignação crescente na sociedade brasileira em relação ao ritmo exorbitante de liberações de agrotóxicos após o início do governo Bolsonaro. Ao torcer e distorcer os dados para tentar se defender, como mostraremos a seguir, o governo tenta esconder que sua única missão é privilegiar as multinacionais fabricantes de agrotóxicos, facilitando a venda de agrotóxicos em detrimento da saúde da população;

O release afirma que, entre os agrotóxicos liberados este ano, há apenas duas substâncias novas. Esta afirmação contradiz, por si só, o mesmo release, que mais à frente afirma que “o objetivo de fazer a fila andar no Brasil é justamente aprovar novas moléculas, menos tóxicas e mais ambientalmente corretas, e assim substituir os produtos antigos”. Ou as novas liberações estão trazendo novidades, ou não estão. Os dois ao mesmo tempo não é possível.

Este discurso contraditório tem sido adotado também pela Ministra Tereza Cristina, por exemplo em matéria publicada pelo MAPA no mesmo dia: “Fazer a fila de registros andar traz defensivos mais eficientes e menos tóxicos, explica ministra“. Ora, se entre 290 agrotóxicos liberados em 2019 apenas 2 são novos, onde estão os agrotóxicos menos tóxicos e mais eficientes? Cabe lembrar que uma das duas “novidades” é o Sulfoxaflor, comprovadamente danoso às abelhas. Por sinal, 42% dos agrotóxicos registrados em 2019 são Extremamente ou Altamente Tóxicos. Isso, é claro, antes da mudança promovida pela Anvisa, que fará com que estas mesmas substâncias ganhem uma “roupa nova” e passem ser inofensivos.

A publicação afirma que “Não é correto comparar todos os defensivos que são utilizados na Europa, por exemplo, com os produtos usados no Brasil”, afirmando que os produtos que são proibidos por lá na verdade não são necessários na Europa, por conta das diferenças de culturas e temperatura. Este é um argumento muito usado pelo agronegócio, mas que não se sustenta.

Em excelente artigo recente, a professora Larissa Bombardi cita o exemplo de duas culturas plantadas tanto no Brasil quanto na Europa: uva e laranja, em condições climáticas similares. Entretanto, afirma a pesquisadora, dos 71 agrotóxicos autorizados para a uva no Brasil, 13 são proibidos na União Europeia, e, no caso da laranja, são autorizados 116 agrotóxicos no Brasil, dos quais 33 não são autorizados na União Europeia. A grande maioria dos agrotóxicos hoje banidos na União Europeia foram desenvolvidos por empresas europeias, e eram usados por lá até serem proibidos, ou até que alterações no marco regulatório fizeram com que o registro lá não fosse mais viável.

Prosseguindo na sua saga de incorreções, o MAPA afirma que, “Apesar do aumento do número de registros de defensivos agrícolas que vem ocorrendo nos últimos anos no país, a venda desses produtos registrou redução no período”. O título auspicioso esquece-se de mencionar “o período”. Ao longo do texto, vemos que se refere aos anos de 2016 e 2017, em que, segundo o Ibama, com base em dados informados pelas empresas (e frequentemente revisados para cima após inspeções nestas empresas), as vendas de agrotóxicos caíram de 541.861,09 toneladas para 539.944,95.

O texto não lembra que esta é a primeira queda desde 2009. E ora, qualquer pessoa com um mínimo de compreensão de matemática pode entender que uma redução de 0,3% não pode ser chamada de redução, especialmente se comparada ao aumento de 3,9% de 2015 para 2016, ou de 13,6% de 2012 para 2013, ou de 18,5% de 2009 para 2010. Inclusive, é importante que a variação do consumo de agrotóxicos seja observada à luz do crescimento econômico: em 2015 e 2016, o PIB brasileiro teve queda de -3%, e em 2017 houve um tímido aumento de 1%. Ainda assim, o ritmo de vendas de agrotóxicos seguiu em alta, ficando estável de 2016 para 2017. Ou seja: afirmar que houve redução do consumo de agrotóxicos no Brasil é uma grande mentira.

Finalmente, a grande distorção: “Segundo a FAO, o uso relativo de defensivos no Brasil é menor que o de muitos países da Europa”, e o Brasil estaria em 44º lugar num ranking de uso de agrotóxicos por área. Importante notar como agora se torna válido comparar a produção agrícola do Brasil com a Europa. No caso dos agrotóxicos banidos, o MAPA diz que a comparação não é possível. De todo modo, há dois grandes problemas na afirmação: (1) os dados da FAO estão errados. Eles contradizem os dados do Ibama, que o próprio MAPA utilizou. Para a FAO, o Brasil usou 377.176 toneladas de agrotóxicos em 2016. Mas como vimos acima, na conta feita pelo MAPA, o uso em 2016 foi 541.862 toneladas, um pequeno erro de 44%. A FAO já foi notificada sobre o equívoco. Mas também há um erro no denominador: segundo a FAO, utilizamos os agrotóxicos numa superfície de 87,5 milhões de hectares, quando a soma de lavouras temporárias e permanentes segundo o IBGE em 2016 foi de 76,7 milhões de hectares.

Assim, com estes dois “erros”, nosso consumo de agrotóxicos por hectare fica em 7kg/ha, e não 4,3kg/ha como afirma a FAO e o MAPA. Isto sem contar com os agrotóxicos contrabandeados, que segundo o Sindiveg representam 20% do total comercializado. Considerando os contrabandeados, o índice sobre para 8,5kg/ha.

No entanto, há um segundo problema grave com esta comparação: não é possível comparar o perfil do uso de agrotóxicos em países com práticas agrícolas totalmente distintas. Monocultivos de larga escala como soja, milho e algodão utilizam de fato menos agrotóxicos por hectare em relação à verduras como tomate, pimentão, e outros. Isso não significa, no entanto, que 60 kg de agrotóxicos utilizados em 10 hectares de soja sejam menos nocivos à saúde e ao meio ambiente do que a mesma quantidade de veneno utilizada em 1 hectare de tomate, por exemplo. No primeiro caso, por significar uma área maior, temos inclusive um maior potencial de exposição de pessoas e cursos d’água aos agrotóxicos.

Para citar ao menos um ponto positivo, aplaudimos o fato de que, segundo o documento, “Em menos de uma década, o número de produtores rurais orgânicos registrados no Brasil triplicou”. De fato, este é um grande feito. Porém, considerar o aumento da produção orgânica de responsabilidade do MAPA é mais fraude contida no documento. Este resultado se deve à luta dos movimentos sociais, que conquistaram. durante os governo Lula e Dilma. Políticas públicas como o PNAE, PAA, a certificação orgânica participativa e a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. A luta dos movimentos e a conquista destas políticas (que atualmente estão sendo destruídas), resultaram no significativo aumento da produção orgânica no Brasil, que, no entanto, ainda necessita de muita vontade política para se desenvolver. No mínimo, a mesma vontade política que se tem para liberar novos agrotóxicos.

Edição: Daniela Stefano

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato”  [Aqui!].

“Bolsonaro ignora o meio ambiente e o que a ciência diz”

Entrevista com Thomas Lovejoy

Mapas ProdesTerra Brasilis / INPE

Por IHU

Conselheiro de três ex-presidentes americanos e estudioso da Amazônia desde 1965, o biólogo Thomas Lovejoy alerta para efeitos irreparáveis do desmatamento. Em entrevista, ele classifica o trabalho do Inpe de impecável.

Conselheiro ambiental dos ex-presidentes americanos Ronald ReaganBill Clinton e George W. Bush e ex-conselheiro-chefe do Banco Mundial para biodiversidade, o biólogo Thomas E. Lovejoy estuda a Amazônia desde 1965. Conhecido como o “padrinho da biodiversidade” por popularizar o termo na década de 1980, Lovejoypreocupa-se com o futuro da floresta em meio ao avanço do desmatamento.

Em fevereiro, o especialista assinou um editorial na revista científica Science Advances, ao lado do climatologista brasileiro Carlos Nobre, no qual fazem um alerta. Eles afirmam que o desmatamento na Amazônia está caminhando para o que chamam de ponto de inflexão, a partir do qual os padrões biológicos e climáticos são afetados de modo irreparável.

Em entrevista à DW Brasil, o pesquisador classifica os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento de impecáveis e sugere formas sustentáveis de usar os recursos da floresta para desenvolver a economia.

Lovejoy afirma que, assim como o líder americano, Donald Trump, o presidente JairBolsonaro está ignorando o meio ambiente e deveria ouvir cientistas experientes sobre a Amazônia.

A entrevista é de Cristian Edel Weiss, publicada por Deutsche Welle, 12-08-2019.

Eis a entrevista.

Você começou a pesquisar a Amazônia na década de 1960. O que mudou na floresta desde então?

Cheguei à Amazônia pela primeira vez em junho de 1965 e imediatamente decidi que queria fazer o meu PhD lá [pela Universidade de Yale]. Era o sonho dos biólogos. Desde então, a Amazônia passou de 3% para mais de 17% desmatada […] Passou de [uma região com] uma rodovia para dezenas de rodovias, de nenhum projeto hidrelétrico para dezenas deles, e de uma população na Amazônia inteira de cerca de 3 milhões para 30 milhões. Isso está avançando até o ponto em que o ciclo hidrológico que alimenta a floresta tropical está perto de um ponto de inflexão.

A boa notícia é que em 1965 havia um parque nacional, na Venezuela, e uma reserva indígena demarcada. Agora, no Brasil e em todos os países da Amazônia, há cerca de 25% em áreas de conservação e outros 25% de áreas indígenas demarcadas, o que é uma conquista extraordinária.

Em fevereiro, você e o climatologista Carlos Nobre publicaram um editorial no qual afirmam que desmatamento, mudança climática e queimadas contribuem para que a Amazônia alcance o que vocês chamam de ponto de inflexão, a partir do qual deixaria de existir um ecossistema de floresta tropical, afetando o regime de chuvas. Como você avalia a situação tendo em conta os dados divulgados recentemente pelo Inpe?

Acredito que Carlos e eu concordamos que o ponto de inflexão está muito próximo. Penso que o dado revelador é que tivemos secas históricas em 2005, 2010, 2015 e 2016, e essa é, na nossa opinião, a primeira oscilação para o ponto de inflexão. Então, esses são o alerta e a má notícia, mas sempre é possível restabelecer uma margem de segurança por meio do reflorestamento.

E como vocês chegaram à essa conclusão?

Nos anos 1970, o cientista brasileiro Eneas Salati demonstrou que a Amazônia produzia metade da sua própria chuva. Antes disso, o dogma era que a vegetação é simplesmente consequência do clima e não tem qualquer influência sobre ele. O que Salati foi capaz de demonstrar, numa pesquisa que quebrou paradigmas, é que, quando a umidade vem do Atlântico tropical, numa massa de ar em direção ao oeste, e derrama sua chuva perto da costa atlântica, até 75% dessa umidade volta para a atmosfera por meio da evaporação ou transpiração através das folhas. Você pode ver isso acontecendo com a umidade saindo do topo da floresta, após uma tempestade. Assim, tudo está disponível para se tornar chuva mais para o oeste. A conclusão foi que a umidade se recicla cinco ou seis vezes até chegar à parede alta dos Andes. A massa de ar sobe, esfria e libera uma enorme quantidade de chuva, que abastece os 20% de água doce do mundo, que é o sistema fluvial do Amazonas. Essa foi a base de tudo.

Desde o início, havia a pergunta óbvia de quanto desmatamento poderia causar a degradação desse ciclo. Porque quando a chuva cai, e quando não há floresta, ela escorre e não fica disponível para reciclagem. Carlos conseguiu alguém para fazer um modelo relacionado a pergunta há uns dez ou 15 anos. E a conclusão foi que provavelmente cerca de 40% a 50% [de desmatamento degradaria o ciclo natural de chuvas de modo irreversível]. Isso é muito longe de onde as coisas estavam na época e até mesmo de onde estamos agora. Mas outras coisas têm acontecido. O uso extensivo do fogo, que seca a floresta ao redor, não só destrói o que queimou, como penetra e seca a floresta. Assim, no ano seguinte, ela está mais vulnerável ao fogo. Outra coisa, é claro, é a crescente presença da mudança climática. A discussão que Carlos e eu tivemos e que levou ao artigo na Science Advances é que os fatores estão agindo juntos numa espécie de energia negativa. E quando você olha para essas secas históricas, é muito difícil não concluir que essas são as primeiras oscilações do que poderia ser um ponto de inflexão na região amazônica.

O que poderia ser feito para melhorar a economia na região sem avançar para a floresta?

A maioria do que está acontecendo dá algum ganho imediato, mas o custo no longo prazo é enorme. Então, a pergunta é: quais são as alternativas? E uma das mais claras é a aquacultura, porque nos rios amazônicos há uma série de grandes espécies de peixes que dependem das florestas de várzea durante os meses em que os rios estão altos. A floresta é inundada e tem cadeias alimentares curtas. Os peixes vegetarianos com cadeias curtas como esta são altamente desejáveis. Há um enorme potencial na aquacultura para que não haja apenas a extração florestal, mas que se esteja usando algum recurso da biodiversidade nativa para construir retorno econômico.

Outra coisa realmente importante é como criar cidades relativamente sustentáveis na AmazôniaManaus tem uma espécie de benefício em ter um tipo de zona livre de impostos à sua volta. Ao visitá-la, ouço: “À medida que a produção econômica de Manaus aumenta, o desmatamento diminui”. E essa é uma relação real. Mas a questão é: qual é essa atividade econômica? É proveniente principalmente de fábricas de montagem, que proporcionam oportunidades de emprego montando coisas, geralmente, com materiais que não saem da floresta. Mas há possibilidades novas e interessantes em torno de cidades sustentáveis. Há um forte potencial de ecoturismo, que também cria mercados para artesanato. E artesanato pode ser realmente maravilhoso e não muito barato. Juntando as duas coisas, todas elas se tornam únicas para o lugar em particular que os produz. A maior oportunidade de todas gira em torno de estudar a biodiversidade da Amazônia e tentar descobrir o seu potencial para criar retorno e benefício econômico.

O que pode ser feito a partir da biodiversidade?

Um exemplo interessante seria estudar as formigas cortadeiras. O que é elas fazem de bom é levar pedaços de folhas para o subsolo e usá-los como matéria orgânica para uma fazenda de fungos, que é a fonte da dieta delas. Assim, o que poderia ser feito, e ainda não foi, é estudar as formigas cortadeiras e descobrir quais árvores elas não atacam, pois elas têm fungicida natural, e obviamente as formigas não querem fungicida em sua fazenda de fungos. Assim poderia haver um mercado enorme para fungicidas naturais, que podem ser revelados por esse tipo de pesquisa. Então, se você começar a pensar sobre a biodiversidade na Amazônia, todas essas espécies que representam soluções para problemas biológicos são apenas um potencial para desenvolver o retorno econômico. A chave para o futuro é abraçar essa diversidade biológica na Amazônia. E fazer pesquisa e parceria com a indústria para tentar descobrir novos potenciais.

Você foi conselheiro nos governos de Clinton, Reagan e George W. Bush. Agora, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro se orgulha de ser chamado de “Trump dos Trópicos”. Que paralelo você traça entre os EUA e o Brasil quanto à atual política ambiental?

Não há dúvida de que ambos [Bolsonaro e Trump] estão ignorando o meio ambiente. Eles estão ignorando o que a ciência diz sobre o meio ambiente. Acho tudo isso muito estranho porque, no fim das contas, a raiz da palavra ciência é conhecer. Sem dúvida, isso é muito infeliz, e esperemos que seja um fenômeno de curto prazo.

Que conselho você daria a Bolsonaro na área ambiental?

Ele deveria juntar alguns cientistas experientes para pensar sobre o conteúdo que acabamos de falar e identificar oportunidades.

Bolsonaro criticou os dados divulgados recentemente pelo Inpe, afirmando que estes não condizem com a verdade e prejudicam a imagem do Brasil. Como você vê isso?

Permita-me colocar desta forma: os dados do Inpesempre estiveram entre os melhores do mundo e acima de reprovação. E é um erro dele [Bolsonaro] pensar o contrário.

Os dados e a metodologia do Inpe são realmente confiáveis?

Sim, eles têm uma longa história fazendo um trabalho impecável.

Há uma forma de medir o desmatamento de maneira mais assertiva?

sensoriamento remoto melhora ao longo do tempo. Por isso, provavelmente há formas de obter dados mais precisos. Mas falo apenas sobre pontos decimais aqui, e não sobre o conjunto de dados gerais. Tenho certeza de que a capacidade de sensoriamento remoto em outras partes do mundo trará resultados semelhantes [aos do Inpe].

Bolsonaro tem entrado em atrito com países desenvolvidos devido à política ambiental. O que essas nações podem fazer para impedir o desmatamento na Amazônia?

Minha esperança é de que tudo possa ser melhorado por meio do bom diálogo entre nações. A questão realmente infeliz é que após sediar a Cúpula da Terra (Eco92), em 1992, o Brasil foi líder global em meio ambiente por anos, isso quase se tornou parte da marca do Brasil. Espero que tanto o Brasil quanto os Estados Unidos retomem logo esse tipo de liderança.

(EcoDebate, 14/08/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]