Meta, a dona dos algoritmos e das regras que ninguém consegue questionar

A charge satiriza a postura da Meta diante das publicações políticas do Blog do Pedlowski. Enquanto a multinacional comunica a rejeição de dois anúncios e recomenda que o responsável adapte seus conteúdos às regras da plataforma, permanece a questão fundamental: quais critérios justificam impedir a ampliação da circulação de charges baseadas em reportagens jornalísticas?

A imagem contrapõe a tranquilidade de uma empresa que controla os mecanismos de distribuição de informações à perplexidade de quem vê seu trabalho submetido a decisões pouco transparentes. O problema não é apenas o impedimento do impulsionamento, mas a concentração de poder nas mãos de uma corporação capaz de influenciar a visibilidade do debate político.

Afinal, quem controla os controladores dos algoritmos?

Meta aperta o cerco às charges políticas no final da campanha eleitoral

Entre bloqueios geográficos, restrições ao impulsionamento e denúncias sem explicações, a multinacional amplia seu poder sobre o que os brasileiros podem ver às vésperas da votação  

A poucos dias da eleição presidencial, a Meta parece empenhada em demonstrar que não precisa apagar uma publicação para limitar sua circulação. Depois de impedir o impulsionamento de duas charges políticas produzidas pelo Blog do Pedlowski, a empresa restringiu no Brasil a visualização de uma terceira, baseada em reportagem da revista piauí sobre a participação atribuída a Flávio Bolsonaro em uma festa numa lancha no Lago Paranoá, durante a pandemia da COVID-19, envolvendo garotas de programa e pessoas ligadas à comercialização de vacinas.

A justificativa apresentada pela Meta mencionou reclamações cujos fundamentos específicos não foram esclarecidos. Quem reclamou? Qual regra foi violada? Por que uma charge baseada em informações publicadas por um veículo jornalístico estaria impedida de circular no país onde seu conteúdo possui maior relevância política? Há que se enfatizar que as três charges foram elaboradas a partir de reportagens publicadas na imprensa, sem recorrer à exposição sexual explícita, e respeitaram os limites de conteúdo estabelecidos pela OpenAI durante sua produção. Isso não representa uma certificação jurídica automática, mas demonstra a preocupação em exercer a sátira política dentro de parâmetros éticos e legais.

O problema é que a Meta dispõe de um verdadeiro arsenal de mecanismos para limitar o alcance de publicações: veto ao impulsionamento, bloqueios geográficos, exclusão de recomendações e redução da distribuição algorítmica. Nem todos esses mecanismos foram comprovadamente aplicados ao Blog do Pedlowski, mas sua existência revela como uma empresa privada pode controlar a visibilidade de manifestações políticas sem necessariamente excluí-las.

E o caso está longe de ser isolado. O Tribunal Superior Eleitoral já cobrou explicações da Meta sobre restrições à circulação de conteúdos da campanha de Lula. Reportagem da Folha de S.Paulo revelou mensagens internas reconhecendo problemas que prejudicaram contas ligadas ao presidente, enquanto o próprio Comitê de Supervisão da empresa apontou falhas na aplicação das regras de integridade eleitoral. A Meta nega favorecimento político e atribui parte das restrições a problemas técnicos. É necessário reconhecer que limitações gerais ao impulsionamento de propaganda eleitoral também decorrem de determinações da Justiça Eleitoral. Entretanto, isso não explica automaticamente o bloqueio territorial de uma charge política. Tampouco elimina a necessidade de demonstrar que as regras são aplicadas de maneira uniforme.

O aspecto mais preocupante é que todas as charges atingidas do Blog do Pedlowski apresentam críticas a Flávio Bolsonaro ou a integrantes de seu campo político. Isso não comprova uma operação deliberada da Meta para favorecer sua candidatura, mas levanta uma questão incontornável: por que manifestações críticas a um dos candidatos estão enfrentando obstáculos tão significativos justamente quando sua circulação pode influenciar o debate eleitoral?  A charge política existe para incomodar os poderosos, expor contradições e provocar reflexão. Quando uma multinacional pode restringir sua circulação com justificativas genéricas e mecanismos pouco transparentes, o problema deixa de ser apenas a liberdade de expressão de um blogueiro. Passa a envolver o próprio funcionamento da democracia.

A Meta precisa explicar suas decisões, identificar as regras supostamente violadas e assegurar mecanismos efetivos de contestação. Afinal, uma publicação bloqueada nos últimos dias de campanha pode perder sua relevância política antes mesmo que um recurso seja analisado.  A questão central é simples: a Meta não precisa declarar apoio a Flávio Bolsonaro para produzir efeitos que possam beneficiá-lo eleitoralmente. Basta restringir, ainda que sob o pretexto de uma moderação neutra, a circulação de críticas que poderiam prejudicá-lo.  Não se trata de afirmar uma intenção ainda não demonstrada, mas de exigir transparência sobre consequências políticas concretas. Em uma democracia, nenhuma empresa privada deveria exercer tamanho poder sobre o debate público sem prestar contas à sociedade.

E se a Meta pretende continuar se apresentando como uma plataforma neutra, que comece demonstrando essa neutralidade com fatos, critérios transparentes e tratamento efetivamente igualitário. Porque, na reta final de uma eleição presidencial, controlar quem pode ser visto também pode significar influenciar quem será ouvido — e, consequentemente, quem terá melhores condições de disputar o voto.

A Meta está decidindo quem pode ser ouvido: a censura econômica à charge política

Ao impedir o impulsionamento de duas charges depositadas no meu perfil do Instagram, a gigante das redes sociais expõe o poder das plataformas digitais de limitar a circulação da crítica política sob o argumento de proteger o processo eleitoral

Hoje tentei impulsionar duas charges publicadas no meu perfil oficial do Instagram (@marcospedlowski). A primeira abordava a contradição entre o apoio político do ex-prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho, a Flávio Bolsonaro e a importância do Bolsa Família para aproximadamente 150 mil campistas. A segunda ironizava a produção de uma narrativa sobre a pobreza no Nordeste pelo deputado federal Nikolas Ferreira. Em ambos os casos, a Meta, empresa proprietária do Instagram e do Facebook, recusou o impulsionamento sob a justificativa de que as publicações continham conteúdo eleitoral.

O episódio levanta uma questão que vai muito além dessas duas charges: desde quando uma corporação privada, sediada nos Estados Unidos, passou a deter tamanho poder sobre a circulação da crítica política no Brasil?

É importante esclarecer que as publicações não foram removidas. A restrição atingiu especificamente a possibilidade de ampliar seu alcance mediante pagamento. Entretanto, em plataformas nas quais a visibilidade é profundamente condicionada por algoritmos e mecanismos comerciais de distribuição, impedir o impulsionamento de uma publicação pode significar restringir sua capacidade de alcançar novos públicos.

O problema não está simplesmente na existência de regras para publicidade política. Afinal, a transparência sobre quem financia anúncios eleitorais é necessária. A questão é saber se essas regras estão sendo aplicadas de maneira proporcional, coerente e transparente, sem transformar a moderação comercial em instrumento de limitação do debate público.

Quando denunciar a pobreza vira conteúdo eleitoral

A charge envolvendo Wladimir Garotinho e Flávio Bolsonaro procurava explicitar uma contradição concreta: como justificar o apoio a um projeto político que questiona programas de transferência de renda em um município onde dezenas de milhares de famílias dependem do Bolsa Família?

Trata-se de uma questão social, econômica e política absolutamente legítima. A existência de um período eleitoral não elimina o direito de jornalistas, professores e cidadãos de questionar propostas que possam afetar diretamente as condições de sobrevivência da população.

Já a charge sobre Nikolas Ferreira questionava a construção de representações políticas sobre a pobreza nordestina. Seu objetivo era estimular uma reflexão crítica sobre a utilização de imagens e narrativas da realidade social como instrumentos de disputa política.

Nos dois casos, estamos diante de manifestações de opinião por meio da sátira, uma forma tradicional de crítica ao poder. Se a simples presença de figuras públicas ou a discussão de políticas sociais bastar para impedir a ampliação dessas manifestações, corre-se o risco de transformar praticamente todo debate sobre assuntos relevantes em conteúdo sujeito a restrições comerciais.

A contradição de uma empresa que promete defender a liberdade de expressão

A Meta afirma que suas políticas de publicidade política buscam assegurar transparência e integridade eleitoral. A empresa exige procedimentos de identificação e avisos sobre o responsável pelo financiamento de anúncios envolvendo eleições, figuras políticas e temas sociais.

Mas há uma contradição que não pode ser ignorada: a mesma empresa que apresenta a liberdade de expressão como um de seus compromissos fundamentais controla mecanismos capazes de ampliar ou limitar a visibilidade das manifestações políticas de milhões de usuários.

Essa preocupação não é meramente teórica. Em 20 de outubro, a Agência Brasil noticiou que o próprio Comitê de Supervisão da Meta apontou falhas recorrentes na aplicação das regras da plataforma durante as eleições brasileiras, incluindo restrições excessivas que podem prejudicar a circulação do discurso político.

Mais grave ainda, uma investigação da Anistia Internacional divulgada em agosto identificou inconsistências na avaliação de anúncios eleitorais no Brasil, incluindo a aprovação de peças com desinformação e a rejeição de outras por questões relacionadas à classificação política.

Esses episódios não demonstram, por si mesmos, que as duas charges do Blog do Pedlowski tenham sido alvo de discriminação ideológica. Entretanto, reforçam a necessidade de questionar a consistência dos critérios utilizados pela empresa.

O novo poder dos porteiros digitais

Durante décadas, a circulação das ideias políticas foi condicionada pelo controle dos grandes meios de comunicação. Hoje, parte significativa desse poder está concentrada nas mãos de corporações tecnológicas que administram redes sociais utilizadas por bilhões de pessoas.

A diferença é que essas empresas não apenas distribuem conteúdos: elas estabelecem regras de visibilidade, administram sistemas de recomendação e comercializam a possibilidade de ampliar audiências.

Forma-se, assim, uma espécie de pedágio digital sobre a circulação das ideias, no qual a capacidade de alcançar novos públicos depende de decisões tomadas por sistemas automatizados e estruturas empresariais pouco transparentes.

Quando uma charge política tem seu impulsionamento recusado, o conteúdo continua existindo, mas perde uma via importante de circulação. Não se trata necessariamente de censura no sentido jurídico estrito, mas de uma restrição econômica à difusão de opiniões que merece escrutínio público.

O problema se torna ainda mais preocupante quando não há explicações suficientemente específicas sobre os motivos da decisão, nem procedimentos acessíveis para contestá-la.

Quem fiscaliza os novos donos da praça pública?

O Blog do Pedlowski existe desde 2011 como um espaço independente de análise crítica da realidade política, econômica, social e ambiental. Não representa partidos políticos nem funciona como instrumento de propaganda eleitoral. Seu compromisso é com a divulgação de informações, a reflexão crítica e o debate público.

As charges são parte dessa atividade editorial. Sua função é provocar, ironizar e revelar contradições que frequentemente escapam ao discurso político convencional.

Não reivindico qualquer privilégio diante das regras das plataformas. Reivindico, isto sim, que essas regras sejam claras, proporcionais e aplicadas de maneira consistente, distinguindo publicidade eleitoral, manifestação de opinião e produção jornalística independente, sem ignorar as exigências legais aplicáveis a cada modalidade.

A Meta precisa esclarecer se a recusa ao impulsionamento decorreu exclusivamente de exigências de identificação e rotulagem, de alguma restrição eleitoral específica ou de uma avaliação sobre o conteúdo das charges. Estas são situações diferentes, com implicações igualmente distintas.  Afinal, proteger a democracia não pode significar entregar a uma empresa privada o poder de definir, sem transparência suficiente, quais críticas políticas merecem maior circulação.

Se a charge é uma das formas mais antigas de questionar o poder, talvez o verdadeiro problema não esteja no seu conteúdo, mas no desconforto que ela provoca ao expor as contradições daqueles que pretendem governar.

E, enquanto as grandes plataformas tentam administrar os limites da circulação do debate político, continuaremos exercendo o direito de produzir, publicar e compartilhar nossas críticas.  Porque a liberdade de expressão não pode depender exclusivamente da autorização comercial dos novos donos da praça pública.

O segundo turno será a última chance para a Amazônia?

Sob Flávio Bolsonaro haveria a aceleração do desmatamento, militarização e carta branca para a mineração na Amazônia

Enorme reservatório de carbono, flora e fauna impressionantes e lar de muitas pessoas: a floresta amazônica é de enorme importância. Quais seriam as implicações de eleger Flávio Bolsonaro como presidente do Brasil?  Fonte:Alexey Yakovlev/Wikimedia Commons Licença:CC-BY-SA-2.0 

Por Ulrike Bickel para Amerika21

O segundo turno presidencial brasileiro em 25 de outubro de 2026 será o foco dos debates ambientais internacionais porque o resultado tem consequências de longo alcance para a Amazônia e para a política climática global. Candidato conservador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, promete retomar as medidas anti ambientais do seu pai. Ele quer acelerar o desmatamento da floresta amazônica e incluir o Brasil na iniciativa US‑ “Escudo das Américas”, cujo objetivo é garantir cadeias de abastecimento de terras raras e outros minerais críticos, necessário para a transição energética e para sistemas de defesa,  e para reduzir a dependência da China.

Segundo Flávio Bolsonaro, a cooperação com os EUA e a abertura ao investimento estrangeiro no setor de mineração devem ser uma prioridade. Com o segundo maior depósito de terras raras, o Brasil é considerado um parceiro-chave em todo o mundo depois da China. A partir de 2022, começou um boom de aplicação de concessões mineiras. Cerca de metade dos pedidos provêm de subsidiárias de empresas estrangeiras na Austrália, nos EUA e no Canadá. A degradação está associada ao alto consumo de água e energia, bem como ao uso de produtos químicos tóxicos que poluem solos e corpos d’água.

No Brasil, os pedidos de autorização para explorar depósitos de terras raras se sobrepõem em grande parte às áreas de assentamento rural de pequenos agricultores: que há muito se caracterizam por conflitos sobre apropriação de terras, mineração de ouro, pecuária extensiva, cultivo de soja e uso de pesticidas. Se Flávio Bolsonaro vencer, os projetos extrativistas seriam acelerados e mais capital estrangeiro seria atraído para investimento. O presidente e candidato Inácio Lula da Silva também tem como alvo a mineração, mas com o objetivo de fortalecer as indústrias locais de processamento de terras raras para que as empresas estrangeiras por si só não se beneficiem.

O futuro da Amazônia está em jogo no segundo turno presidencial do Brasil. As eleições já resultaram em uma mudança significativa no equilíbrio de poder no Congresso, com facções fortalecidas defendendo a mineração em terras indígenas e diluições da proteção territorial e ambiental.

Vários deputados eleitos nos estados amazônicos manifestaram-se a favor da mineração, inclusive nas terras indígenas, e a favor do enfraquecimento mais uma vez da proteção ambiental: Fernando Maximo, um senador eleito do Partido Liberal (PL) de Rondônia rejeitou as descobertas científicas sobre a poluição por mercúrio da mineração ilegal de ouro como “falsidades” Tais posições vão além do partido de Bolsonaro. O senador Plínio Valério, do Partido Social Democrata, de centro-direita, que foi reeleito no estado do Amazonas, pediu a legalização da mineração.

Dinâmica ilegal de mineração e desmatamento

Sob o governo de Jair Bolsonaro (2019 – 2022), as taxas de desmatamento na Amazônia atingiram níveis recordes. O controle foi severamente enfraquecido por cortes nas autoridades ambientais. A situação melhorou sob o atual governo de esquerda de Lula. Apesar disso, a mineração ilegal de ouro e o desmatamento e a agricultura de corte e queima para a pecuária continuaram a avançar, de acordo com um recente  análise pelo instituto de pesquisa sem fins lucrativos Amazon, a mineração de ouro em áreas indígenas quase aumentou sete vezes entre 2016 e 2024. Os preços recordes do ouro provocaram um novo boom mineiro na Amazónia nos últimos anos, levando a um aumento da desflorestação e da poluição por mercúrio entre os vizinhos dos rios e as comunidades indígenas.

O programa de monitoramento por satélite‑ para a área andina ‑Amazon‑ (Maap) para 2024 mostra que incêndios recordes que devastaram cerca de 2,8 milhões de hectares e aumentaram as taxas de desmatamento em 34 por cento.2025 viu uma recuperação parcial, com a área desmatada caindo para seu nível mais baixo na última década. No geral, cerca de 13% do bioma Amazon( foi destruído desde o início do programa Maap )2015‑. Flávio Bolsonaro levantaria as restrições anteriores.

Paralelos regionais

Atualmente, grande parte do bioma Amazon‑ é controlada por governos que priorizam a exploração de recursos em detrimento da conservação. Governos de direita foram estabelecidos em muitos países da Amazônia nos últimos anos, com chefes de Estado se manifestando contra a proteção ambiental e a favor da militarização, da mineração e da expansão da indústria agrícola.

 

Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz aboliu o Ministério do Meio Ambiente em 2026 e relaxou o controle sobre os projetos de mineração. O Peru é liderado desde julho por Keiko Fujimori, que quer combater as atividades ilegais de mineração com força militar, mas rejeita o Acordo Ambiental Escazú. A Colômbia escolheu como presidente o ultradireitista Abelardo de la Espriella, que enfatiza a militarização da Amazônia e cortou pela metade o orçamento para investimentos ambientais. No Equador, o Environment‑ e o Ministério da Energia foram fundidos e novas leis para facilitar os projetos de mineração‑ e petróleo foram aprovadas. No caso da eleição de Flávio, até 95%  da região amazônica seria governada por governos de direita, incluindo Bolívia, Equador, Peru, Colômbia e Venezuela.

Se a conservação deixasse de ser uma prioridade regional, o futuro das organizações intergovernamentais que trabalham para o desenvolvimento sustentável e os direitos dos povos indígenas também seria posto em causa, como a organização do Tratado de Cooperação Amazônica (Otca). Por outro lado, os projectos de infra-estruturas transamazónicas, que têm sido fortemente criticados pelos efeitos nocivos sobre o ambiente e os povos indígenas, poderão ganhar impulso, medos Márcio Astrini, diretor executivo do Observatório do Clima do Brasil (OC), uma coalizão de organizações não governamentais de defesa das mudanças climáticas.

Direitos indígenas e violência contra ativistas ambientais e de direitos humanos: mulheres

Como mencionado acima, uma análise do Ipam, que a mineração de ouro está se expandindo mais rapidamente nas áreas da população indígena da Amazônia brasileira. A área ocupada pela mineração de ouro nos territórios indígenas (TI) na região amazônica cresceu 562% entre 2016 e 2024, tornar esta categoria de terras proporcionalmente a mais afetada pela mineração ilegal.

De acordo com a legislação brasileira, qualquer mineral‑ ou atividade de mineração em terras indígenas requer consulta às comunidades afetadas e aprovação do Congresso. O novo parlamento (Congreso), que tomará posse em 2027, decidirá sobre a futura concepção destes regulamentos. Facções de extrema-direita no parlamento já anunciaram que vão relaxar as leis que permitem a mineração em territórios indígenas. Organizações indígenas alertam que uma vitória de Flávio abre um precedente em que a própria terra não é mais claramente atribuída aos povos indígenas, mas a empresas privadas de mineração.

Entretanto, a violência contra os defensores do ambiente e dos direitos humanos: as mulheres estão novamente a atingir níveis recorde em vários países da América Latina. De acordo com o novo relatório do Testemunha Global a partir de 2026, dos 124 assassinatos documentados de ativistas ambientais: 39 cometidos na Colômbia em todo o mundo, seguidos por 26 no Brasil. O crescente Militarização  da Amazônia sob Bolsonaro também incentivou o comércio ilegal de madeira e o tráfico de drogas, em vez de proteger a floresta.

Perspectiva

Desde a sua eleição em 2023, Lula da Silva reduziu a taxa de desflorestação para o mínimo de dez anos no seu terceiro mandato, criou um ministério para os povos indígenas e reestruturou a autoridade para os assuntos indígenas. No entanto, algumas das suas promessas, como a demarcação clara das terras indígenas, bem como as reformas agrárias das terras abandonadas em favor das famílias sem terra, estavam longe de ser plenamente concretizadas. As organizações indígenas apoiam Lula apesar das críticas porque o vêem como o menor perigo em comparação com um possível governo Bolsonaro‑.

O resultado das eleições brasileiras será crucial para saber se o progresso provisório de Lula na conservação da natureza será revertido. Uma vitória de Flávio Bolsonaro aceleraria as tendências de aumento do desmatamento, expansão da mineração, enfraquecimento das leis ambientais e militarização da Amazônia. Ao mesmo tempo, a integração na estratégia de terras raras dos EUA aumentaria os incentivos económicos para a exploração de mercadorias.

Mesmo que Lula seja reeleito, os desafios continuarão grandes: a limitada margem de ação do governo, a presença contínua de atores ilegais e o crescente poder político das facções de direita dificultam a proteção sustentável da Amazônia e dos direitos dos povos indígenas. Um sinal claro da comunidade internacional, apoiar o meio ambiente‑ e as organizações de direitos humanos, bem como incorporar dados atualizados dos programas de monitoramento, são necessários, segundo a sociedade civil brasileira, para combater a regressão iminente.


Fonte: Amerika21

Presidiário ou presidente? Essas são as duas opções que Flávio Bolsonaro tem diante de si

O senador Flávio Bolsonaro vive uma daquelas situações muito bem definidas pela expressão inglesa “Catch-22”, que descreve uma situação ilógica, paradoxal ou sem saída, da qual não se pode escapar porque a solução depende de condições mutuamente contraditórias. O fato é que o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro saiu do primeiro turno das eleições presidenciais como franco favorito para ser o próximo presidente brasileiro.

O problema é que, nas últimas três semanas, emergiram tantos casos nebulosos que agora colocam Flávio Bolsonaro em uma situação que considero inédita na turbulenta história da República brasileira. Atualmente, seu nome aparece associado a suspeitas de irregularidades financeiras, tráfico de influência, relações políticas controversas e episódios que levantam sérios questionamentos sobre sua conduta pública e suas relações privadas.

Um dos episódios mais constrangedores foi revelado pela revista piauí, que apurou a participação de Flávio Bolsonaro em uma festa realizada em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, em julho de 2020, durante a pandemia de COVID-19. Segundo a reportagem, o encontro reuniu lobistas, empresários interessados em negociar vacinas com o governo de Jair Bolsonaro e prostitutas levadas de São Paulo. A revelação ganha contornos ainda mais graves quando se considera que, naquele momento, milhares de brasileiros morriam em decorrência da pandemia, enquanto empresários buscavam aproximação com integrantes da família presidencial para realizar negócios com o governo federal.

Outro episódio foi detalhado pelo UOL e envolve a disputa por uma propriedade na Ilha Comprida, em Angra dos Reis. O jogador Richarlison acusa Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz de participação em uma manobra que teria resultado na perda de um imóvel no qual afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões. Flávio nega envolvimento na disputa, da qual não foi parte processual, enquanto a empresa de Willer Tomaz detém atualmente a posse do imóvel. Ainda assim, o episódio acrescenta mais uma controvérsia à trajetória do candidato presidencial.

Como se isso não bastasse, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que a Polícia Federal encontrou um compartimento oculto em um hangar utilizado por empresas de aviação de Willer Tomaz, advogado e amigo próximo de Flávio Bolsonaro. No local, os investigadores localizaram uma máquina de contar dinheiro e estruturas destinadas à guarda de valores. Outra máquina já havia sido apreendida no escritório do advogado. Embora não tenha sido encontrado dinheiro no compartimento e Tomaz sustente que a estrutura atendia a atividades legais de transporte de valores, a descoberta ganha relevância diante das investigações sobre movimentações financeiras envolvendo o advogado e suas conexões com Flávio Bolsonaro.

A situação se torna ainda mais delicada porque a própria revista piauí revelou indícios de vínculos financeiros entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, inclusive em operações relacionadas à empresa de apostas Best Bet. A Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e a possível existência de uma sociedade oculta, hipóteses que ainda precisam ser esclarecidas. O que parece cada vez mais difícil é sustentar que a relação entre os dois seja politicamente irrelevante.

Com isso, Flávio Bolsonaro vai chegar ao segundo turno não apenas com uma margem mínima de vantagem nas pesquisas eleitorais, mas também espremido pela possibilidade de que, caso não seja vencedor, tenha de enfrentar as consequências jurídicas das investigações que cercam seu nome. Evidentemente, uma eventual prisão dependeria de provas, fundamentos legais e decisões judiciais, mas o acúmulo de suspeitas já representa um problema político de grandes proporções.

Tivesse a mídia corporativa brasileira atuado com um mínimo de imparcialidade, é muito provável que Flávio Bolsonaro nem tivesse chegado ao segundo turno nas condições em que chegou. Mas o que se viu foi que o primogênito de Jair Bolsonaro parece ter sido coberto por uma espessa camada de teflon pelos barões da mídia brasileira. O problema é que a quantidade de informações que circulam pela mídia alternativa e, agora, também por veículos importantes da própria mídia corporativa torna sua situação bastante incerta.

E aí é que está o drama para Flávio Bolsonaro: qual dos dois destinos já vividos por seu pai ele seguirá primeiro — presidiário ou  presidente?

Um espectro ronda o mundo: a juventude se levanta contra o desmonte do Estado social

Da França à Espanha, da Índia ao Chile, uma nova onda de mobilizações populares revela o esgotamento das políticas que sacrificam serviços públicos, empregos e direitos sociais em nome da austeridade fiscal. No centro dessa insatisfação está uma juventude que se recusa a aceitar a precariedade como destino

Da França à Espanha, da Índia ao Chile, uma nova onda de mobilizações populares revela o esgotamento das políticas que sacrificam serviços públicos, empregos e direitos sociais em nome da austeridade fiscal. No centro dessa insatisfação está uma juventude que se recusa a aceitar a precariedade como destino.

Há quase 180 anos, Karl Marx e Friedrich Engels abriram o Manifesto Comunista anunciando que um espectro rondava a Europa. Em outubro de 2026, uma imagem semelhante parece ganhar atualidade, mas agora ultrapassando amplamente as fronteiras europeias. Das ruas de Paris e Madri às manifestações em Nova Délhi e Santiago, milhares de jovens estão protagonizando mobilizações que, apesar de suas particularidades nacionais, revelam um denominador comum: a crescente rejeição a um modelo econômico que subordina necessidades sociais aos interesses do mercado e transforma direitos fundamentais em despesas que precisam ser reduzidas.

A juventude ocupa o centro dessas manifestações porque é justamente ela que começa a perceber que o futuro prometido pelas políticas neoliberais não está sendo entregue. Em vez de educação pública de qualidade, encontra escolas deterioradas e universidades submetidas a restrições orçamentárias. Em vez de empregos estáveis, enfrenta desemprego, precarização e salários insuficientes. Em vez de acesso universal à saúde e à moradia, descobre que necessidades essenciais estão cada vez mais condicionadas à capacidade individual de pagamento. O que se apresenta como responsabilidade fiscal para os governos aparece, para parcelas crescentes da população, como uma política de transferência dos custos da crise para aqueles que menos condições possuem de suportá-los.

Na França, as manifestações começaram em escolas de bairros populares da periferia parisiense, impulsionadas pela falta de professores, pela deterioração das instalações escolares e pela perspectiva de novos cortes orçamentários. Rapidamente, entretanto, ultrapassaram os limites do sistema educacional e assumiram dimensões nacionais. Segundo a Al Jazeera, aproximadamente 550 mil pessoas participaram das manifestações de 17 de outubro, de acordo com o Ministério do Interior francês. O que começou como uma reivindicação por melhores condições de ensino converteu-se em expressão de uma crise política mais profunda, alimentada pelo custo de vida e pela percepção de que as instituições já não respondem às necessidades da população.

Na Espanha, o processo assume contornos igualmente reveladores. A explosão dos preços dos aluguéis e a especulação imobiliária tornaram a moradia praticamente inacessível para parcelas importantes da juventude. Entretanto, as mobilizações não se limitam à questão habitacional. Em Madri, a defesa da educação e da saúde públicas passou a integrar um movimento mais amplo de contestação à privatização dos serviços essenciais. Reportagem do jornal espanhol Público, publicada em 18 de outubro, identifica precisamente essa convergência entre as lutas por moradia, educação e saúde, mostrando que a crítica à mercantilização dos direitos sociais está se transformando em um eixo de articulação das mobilizações.

No Chile, país historicamente associado à implantação das experiências neoliberais mais radicais da América Latina, o movimento estudantil voltou a ocupar as ruas contra os cortes previstos no orçamento de 2027 do governo de José Antonio Kast. Em 1º de outubro, mais de 20 mil manifestantes participaram de uma mobilização em Santiago, convocada pela Confederação de Estudantes do Chile, com a participação de professores e organizações sociais. A defesa da educação pública voltou a demonstrar que, décadas depois da ditadura de Augusto Pinochet, permanece aberta a disputa sobre quem deve financiar os direitos sociais e qual deve ser o papel do Estado na sua garantia.

Na Índia, as manifestações possuem características distintas, mas não menos significativas. A juventude protesta contra o desemprego, a falta de oportunidades e problemas no acesso à educação e aos concursos públicos, ao mesmo tempo que questiona a transparência eleitoral e a atuação das instituições políticas. Reportagem da Reuters, publicada em 16 de outubro, aponta que o crescimento das mobilizações representa um dos maiores desafios enfrentados pelo governo de Narendra Modi. Nesse caso, a insatisfação econômica se combina com reivindicações democráticas, mostrando que a expansão do produto interno bruto, por si só, não garante que seus benefícios sejam distribuídos entre a população.

O que une essas manifestações é a recusa de um futuro privatizado

Seria equivocado afirmar que todos esses movimentos possuem uma direção política única ou que suas reivindicações são idênticas. Na Índia, a defesa da transparência eleitoral ocupa posição central; na Espanha, a crise habitacional constitui um dos principais motores da mobilização. Entretanto, essas diferenças não eliminam a existência de uma contradição estrutural compartilhada: o aprofundamento da distância entre o crescimento da riqueza e a capacidade da maioria da população de acessar os benefícios desse crescimento.

A questão central é que o neoliberalismo não representa simplesmente a redução do Estado. Na prática, ele frequentemente reorganiza a atuação estatal, restringindo recursos destinados às necessidades coletivas enquanto preserva mecanismos de sustentação da acumulação privada. O Estado considerado excessivamente caro quando precisa financiar escolas, hospitais e políticas habitacionais pode se mostrar bastante generoso quando se trata de garantir condições favoráveis aos grandes grupos econômicos.

É justamente essa contradição que parece estar chegando às ruas. Para milhões de jovens, o discurso de que a austeridade constitui um sacrifício necessário para assegurar a prosperidade futura perdeu credibilidade. Afinal, que prosperidade é essa que exige aceitar escolas sem professores, serviços de saúde insuficientes, empregos precários e moradias cujos aluguéis consomem parcelas crescentes dos salários?

Há também um componente geracional que merece atenção. Diferentemente de seus pais e avós, muitos desses jovens cresceram em sociedades nas quais a precarização dos serviços públicos e a flexibilização dos direitos trabalhistas já eram apresentadas como condições naturais da vida econômica. Entretanto, a experiência cotidiana está produzindo uma percepção diferente: a precariedade não é uma fatalidade histórica, mas o resultado de escolhas políticas que podem e devem ser contestadas.

É nesse ponto que as mobilizações assumem uma dimensão potencialmente transformadora. Ao defender a educação, a saúde, a moradia e o emprego, os manifestantes estão recolocando no centro do debate uma questão que décadas de hegemonia neoliberal tentaram deslocar para a periferia: a responsabilidade do Estado na garantia das condições materiais necessárias a uma vida digna.

O espectro que ronda o mundo é a exigência de justiça social

As manifestações que hoje sacodem diferentes países ainda não constituem um movimento internacional organizado, tampouco permitem concluir que estamos diante de uma ruptura iminente com a ordem neoliberal. Contudo, seria igualmente equivocado tratá-las como explosões isoladas de descontentamento. A simultaneidade das mobilizações, a participação expressiva da juventude e a recorrência de reivindicações relacionadas aos direitos sociais sugerem que estamos diante de uma crise mais ampla de legitimidade das políticas de austeridade.

A própria imprensa internacional começa a reconhecer essa conexão. Reportagens recentes da Associated Press, do The Guardian e do Common Dreams identificam uma onda de protestos juvenis que atravessa continentes, articulando reivindicações por melhores escolas, moradia acessível, oportunidades econômicas e mudanças políticas.

Para o Brasil, essas mobilizações oferecem uma advertência particularmente importante. Em um país marcado por desigualdades sociais profundas, qualquer projeto que proponha reduzir drasticamente os investimentos públicos em nome do equilíbrio fiscal precisa responder a uma pergunta elementar: quem pagará a conta? Para a maioria da população brasileira, que depende diretamente do SUS, das escolas e universidades públicas e dos programas de proteção social, o encolhimento dessas políticas não representa uma abstração contábil. Representa a perda concreta de condições de sobrevivência e de oportunidades de ascensão social.

O espectro que hoje ronda não apenas a Europa, mas diferentes partes do mundo, não é necessariamente o de uma revolução nos moldes imaginados no século XIX. É, antes de tudo, o da recusa crescente de uma ordem econômica que exige sacrifícios permanentes da maioria enquanto concentra os benefícios do crescimento em parcelas cada vez mais restritas da sociedade.

E talvez a mensagem mais importante que vem das ruas de Paris, Madri, Nova Délhi e Santiago seja precisamente esta: uma geração inteira começa a perceber que não existe futuro digno quando o Estado abandona sua responsabilidade de garantir direitos sociais.

O neoliberalismo prometeu prosperidade pela expansão dos mercados. A juventude que ocupa as ruas está cobrando a conta dessa promessa.

Flávio Bolsonaro, a Best Bet e a indústria que transforma o vício em jogo em lucro privado

Reportagem da revista piauí aponta indícios de que o candidato presidencial teria sido sócio oculto de uma empresa de apostas e expõe as relações entre interesses empresariais, poder político e os prejuízos sociais provocados pelas bets no Brasil

A revelação feita pela revista piauí, nesta terça-feira (20), de que Flávio Bolsonaro teria sido sócio indireto da Best Bet, empresa do setor de apostas online, acrescenta um ingrediente particularmente incômodo à trajetória empresarial e política do candidato à Presidência da República. Afinal, enquanto milhões de brasileiros estão expostos aos riscos de endividamento e dependência associados às apostas, o mercado das bets se transformou em uma extraordinária oportunidade de acumulação privada de riqueza.

A reportagem, assinada por Allan de Abreu, Breno Pires, Felícia Cabrita e Mário Gouveia, apresenta documentos obtidos no Brasil e em Portugal que apontam conexões entre Flávio Bolsonaro, o advogado Willer Tomaz e empresas sediadas na Ilha da Madeira. Entre os elementos mais relevantes está a informação de que o senador teria figurado como usuário com elevados privilégios administrativos de uma conta bancária da Alcazar, empresa vinculada à Cathedral Holdings, controladora da Best Bet. Essas conexões levaram a Polícia Federal a solicitar ao Supremo Tribunal Federal a abertura de uma investigação sobre a suspeita de participação societária oculta do candidato.

É importante distinguir os fatos documentados das suspeitas sob investigação. A reportagem apresenta indícios de uma possível sociedade indireta, mas não comprova definitivamente que Flávio Bolsonaro fosse proprietário da Best Bet ou que tenha recebido pessoalmente milhões de reais em lucros. O senador e Willer Tomaz negaram as informações relativas à conta bancária, enquanto Flávio sustenta que sua relação com o advogado era de amizade. Entretanto, as conexões empresariais e financeiras descritas pela piauí exigem esclarecimentos que ultrapassam a simples alegação de amizade.

Outro aspecto especialmente relevante envolve a Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). A Best Bet recebeu autorização para operar durante o governo de Cláudio Castro, por meio de um órgão então presidido por Hazenclever Cançado, cuja indicação teria contado com a influência de Flávio Bolsonaro. Posteriormente, a empresa passou a explorar apostas em escala nacional, embora sua licença tivesse origem estadual. Essa expansão acabou sendo restringida no contexto da regulamentação federal do setor. O episódio levanta questões sobre a proximidade entre decisões administrativas, interesses empresariais e relações políticas.

Mas existe uma dimensão ainda mais perturbadora nessa história: a contradição entre a prosperidade proporcionada pelo mercado de apostas e os prejuízos sociais que essa mesma atividade pode produzir.

O crescimento das bets no Brasil trouxe consigo um problema que já não pode ser tratado como uma simples questão de escolhas individuais. O vício em jogo pode comprometer a renda familiar, alimentar ciclos de endividamento, provocar sofrimento psicológico e destruir relações pessoais. Seus efeitos são especialmente perversos entre aqueles que enxergam nas apostas uma possibilidade de escapar das dificuldades econômicas, mas acabam encontrando nelas um caminho para aprofundar a própria precariedade.

É precisamente nesse ponto que a revelação da piauí ganha sua dimensão política mais relevante. Enquanto os prejuízos das apostas recaem sobre indivíduos e famílias, os ganhos econômicos do setor se concentram nas mãos dos proprietários e investidores. Trata-se de uma dinâmica em que o sofrimento social pode conviver perfeitamente com a prosperidade empresarial. E, quando surgem indícios de que um candidato à Presidência esteve associado a esse mercado, torna-se indispensável investigar a natureza dessas relações e seus possíveis benefícios econômicos.

A questão, portanto, não é apenas saber se Flávio Bolsonaro teria participado indiretamente de uma empresa de apostas, mas compreender o que essa eventual participação revela sobre seus interesses econômicos e políticos. Um candidato que pretende governar o Brasil precisa esclarecer como pretende enfrentar os efeitos do vício em jogo, quais limites considera necessários para a atuação das bets e como administraria eventuais conflitos entre interesses empresariais e a proteção da população.

A participação societária em uma empresa legalmente constituída não representa, por si só, uma irregularidade. Entretanto, a legalidade de uma atividade econômica não elimina a necessidade de discutir suas consequências sociais, tampouco dispensa agentes políticos de prestar esclarecimentos sobre seus interesses privados. No caso da Best Bet, a existência de empresas no exterior, os vínculos bancários relatados e a proximidade com autoridades responsáveis pela regulamentação do setor tornam essa exigência ainda mais relevante.

Há também uma pergunta que merece ser feita: como um candidato que pretende representar os interesses dos brasileiros pretende convencer a população de que colocará o combate ao vício em jogo acima dos interesses econômicos de um setor com o qual, segundo a investigação jornalística, pode ter mantido relações empresariais?

No caso de Flávio Bolsonaro, a reportagem da piauí abre uma discussão que ultrapassa os limites da Best Bet. Ela coloca em evidência uma questão central para a democracia brasileira: a quem deve servir o poder político — à proteção da sociedade ou à preservação de negócios que podem prosperar mesmo quando parte da população acumula prejuízos?

No mundo das apostas, costuma-se dizer que a casa sempre ganha. A revelação da piauí torna ainda mais pertinente perguntar quem são os verdadeiros beneficiários desse mercado, de onde vêm seus lucros e quais compromissos assumem quando pretendem ocupar a Presidência da República.

Porque, enquanto alguns brindam aos lucros, muitas famílias brasileiras continuam pagando a conta. E o mínimo que se pode exigir de quem pretende governar o país é que esclareça de que lado dessa mesa esteve sentado.

Bolsa Família na mira de Flávio Bolsonaro: Wladimir Garotinho precisa explicar o que será de quase 150 mil campistas

Com 58.818 famílias atendidas pelo Bolsa Família, Campos dos Goytacazes pode enfrentar graves consequências sociais e econômicas caso a proposta de “faseamento” defendida pela equipe de Flávio Bolsonaro resulte na retirada de benefícios sem alternativas reais de renda. Enquanto isso, Wladimir Garotinho faz campanha pelo 22, mas precisa explicar essa contradição

Campos dos Goytacazes é um município marcado por uma contradição histórica: apesar das riquezas geradas pela exploração do petróleo e dos bilhões de reais recebidos em royalties, uma parcela expressiva de sua população continua dependendo de programas de transferência de renda para sobreviver. Segundo dados oficiais de 2024, o Bolsa Família atendia 58.818 famílias, alcançando aproximadamente 148.498 pessoas, o equivalente a quase um terço da população campista.

É nesse contexto que a proposta da equipe econômica de Flávio Bolsonaro de promover um suposto “faseamento” do Bolsa Família, mediante a transição dos beneficiários para o empreendedorismo e o emprego formal, precisa ser examinada com rigor. Embora a campanha negue a intenção de extinguir o programa, ainda precisa demonstrar como garantirá que essa transição não se transforme em perda de renda para famílias vulneráveis.

Afinal, não se substitui uma política concreta de proteção social por promessas de prosperidade. Empregos não surgem por decreto, assim como empreendedores não aparecem simplesmente porque o Estado decide reduzir sua responsabilidade na sustentação dos mais pobres. Sem investimentos produtivos, qualificação profissional, crédito acessível e expansão efetiva do mercado de trabalho, o chamado faseamento pode se transformar em um mecanismo de aprofundamento da pobreza.

Em Campos dos Goytacazes, os efeitos de uma eventual extinção dos benefícios ultrapassariam as famílias diretamente atingidas. Os recursos do Bolsa Família movimentam supermercados, farmácias, feiras, mercearias e pequenos estabelecimentos comerciais, especialmente nos bairros populares. Assim sendo, retirar parte dessa renda sem substituição efetiva significaria também enfraquecer a economia local, criando um círculo perverso de redução do consumo, queda nas vendas e maior vulnerabilidade social.

E onde entra Wladimir Garotinho nessa história?  O ex-prefeito de Campos, agora deputado federal eleito, está nas ruas pedindo votos para Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma escolha política pessoal, mas que carrega uma contradição evidente. Afinal, Wladimir Garotinho conhece profundamente a realidade social do município que administrou e sabe que dezenas de milhares de famílias dependem do Bolsa Família para garantir sua sobrevivência.  Por isso, algumas perguntas são inevitáveis: Wladimir concorda com o faseamento proposto pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro? Onde estão os empregos que substituirão os benefícios aqui em sua cidade natal? Quais garantias existem de que nenhuma família campista ficará sem renda durante essa transição?

Mais importante: como justificar o apoio a uma candidatura que propõe alterar profundamente um programa essencial para a economia de sua cidade natal sem antes apresentar respostas convincentes sobre suas consequências? O Bolsa Família não elimina as desigualdades estruturais, mas impede que milhões de brasileiros sejam lançados em situações ainda mais graves de pobreza e insegurança alimentar. Sua superação deveria resultar da criação de empregos dignos e da elevação sustentada da renda, jamais de uma aposta econômica feita às custas dos mais vulneráveis. Existe uma diferença gigantesca entre retirar as pessoas da pobreza e retirar dos pobres a renda que lhes permite sobreviver.

Wladimir Garotinho precisa explicar de que lado dessa diferença está. Afinal, antes de pedir votos para Flávio Bolsonaro, deveria dizer aos campistas como pretende proteger as 58.818 famílias que dependem do Bolsa Família caso a prometida transição não produza os resultados anunciados.  Porque fazer campanha pelo 22 é uma escolha política. Mas assumir as consequências dessa escolha diante de quase 150 mil campistas é uma responsabilidade da qual Wladimir Garotinho não deveria fugir.

Lula desafia Flávio Bolsonaro e coloca em xeque o monopólio do discurso anticorrupção da extrema-direita

Ao desafiar Flávio Bolsonaro a abrir seus sigilos bancário e telefônico, Lula procura inverter o jogo político e colocar o bolsonarismo diante de uma contradição: quem exige transparência dos adversários está disposto a praticá-la?

O desafio lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Flávio Bolsonaro para que abra seus sigilos bancário e telefônico possui um significado político que ultrapassa a disputa eleitoral imediata. Ao anunciar a abertura de seus próprios sigilos e dos seus cinco filhos, Lula procura realizar um movimento estratégico: retirar das mãos da extrema-direita brasileira o controle do discurso de combate à corrupção, que foi uma das principais armas utilizadas pelo bolsonarismo para conquistar e manter influência política.

Durante anos, Jair Bolsonaro e seus seguidores transformaram a denúncia da corrupção em uma espécie de patrimônio exclusivo da direita radical. Sob o argumento de combater os privilégios e a suposta degeneração moral da política tradicional, construíram uma narrativa na qual seus adversários eram permanentemente colocados sob suspeita, enquanto os integrantes do próprio campo político apareciam como representantes de uma moralidade superior. O problema é que essa pretensão de superioridade moral nem sempre resistiu ao confronto com os fatos, as investigações e as controvérsias envolvendo personagens do próprio bolsonarismo.

É precisamente nesse terreno que o desafio de Lula pode produzir seus efeitos mais importantes. Em vez de permanecer na posição defensiva, respondendo às acusações que historicamente alimentaram a propaganda bolsonarista, o presidente procura inverter os papéis e transferir ao adversário o ônus político da transparência. A pergunta deixa de ser apenas o que Lula tem a explicar e passa a incluir aquilo que Flávio Bolsonaro está disposto a revelar.

A situação é particularmente delicada para Flávio Bolsonaro porque sua trajetória política já foi marcada por controvérsias relacionadas às movimentações financeiras de seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, incluindo o conhecido caso das chamadas rachadinhas. Embora investigações, acusações e decisões judiciais não possam ser confundidas com comprovação de culpa, esses episódios tornam ainda mais relevante a cobrança pública de coerência entre o discurso anticorrupção e as atitudes concretas de quem pretende governar o país.

Caso Flávio Bolsonaro se recuse a aceitar o desafio, a contradição política será evidente. Afinal, como justificar que um candidato que se apresenta como herdeiro de um movimento supostamente comprometido com a moralização da vida pública não esteja disposto a adotar a mesma medida de transparência que exige de seus adversários? O velho bordão tão utilizado pela direita brasileira poderá, então, retornar como um bumerangue: quem não deve, não teme.

Evidentemente, a recusa em abrir sigilos protegidos por lei não constitui prova de irregularidade. Entretanto, no terreno da disputa política, a diferença entre defender publicamente a transparência e resistir a praticá-la pode representar um desgaste considerável, sobretudo para quem construiu parte de sua identidade eleitoral na suspeição permanente dos adversários.

O movimento de Lula também revela uma compreensão importante sobre a disputa de narrativas. Não basta denunciar o uso seletivo da pauta anticorrupção pela extrema-direita. É necessário demonstrar que o compromisso com a integridade pública não pertence a nenhuma corrente ideológica e que todos os agentes políticos devem estar submetidos aos mesmos padrões de fiscalização, responsabilidade e prestação de contas.

Nesse sentido, o desafio a Flávio Bolsonaro pode representar uma tentativa de desarmar um dos instrumentos mais eficazes da propaganda bolsonarista: a ideia de que a corrupção é um problema exclusivo dos adversários e nunca daqueles que se apresentam como seus combatentes.  A questão agora é saber se Flávio Bolsonaro aceitará o desafio ou se seus apoiadores terão de explicar por que a transparência, tão exigida quando se trata de Lula, deixaria de ser necessária quando o personagem cobrado pertence à própria família Bolsonaro.

Afinal, se a regra é que quem não deve não teme, por que ela não deveria valer também para Flávio Bolsonaro? Eis uma pergunta que o bolsonarismo poderá encontrar dificuldades para responder sem expor suas próprias contradições.

Fim do Bolsa Família? Flávio dá prazo à pobreza, mas não explica a tesoura de R$ 250 bilhões

Proposta de transição no Bolsa Família exige esclarecer como a promessa de prosperidade será conciliada com um ajuste bilionário

A pobreza não acaba quando termina um prazo administrativo. Essa constatação deveria orientar a discussão sobre a proposta apresentada por Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, de uma transição de dois anos no Bolsa Família, com desligamento e promessa de retorno automático caso a tentativa de conseguir emprego ou abrir um negócio fracasse. Falta esclarecer o essencial: a saída dependeria de melhora comprovada da renda ou simplesmente do calendário?

Flávio parece confundir sua própria experiência de prosperidade com as condições em que vivem os pobres brasileiros.  Lembremos que ele foi sócio de uma loja de chocolates cujas movimentações em dinheiro vivo foram questionadas pelo Ministério Público — ele negou irregularidades — e comprou uma mansão de aproximadamente R$ 6 milhões em Brasília. Esses fatos não provam ilícitos, mas evidenciam a distância entre sua trajetória patrimonial e a realidade de quem precisa escolher entre comprar comida e pagar a conta de luz. Para  as famílias da classe trabalhadora brasileira, autonomia econômica exige mais que uma palestra sobre empreendedorismo.

Conseguir emprego não garante renda suficiente, assim como abrir um negócio não assegura compradores ou estabilidade. Crédito pode financiar uma atividade produtiva, mas também gerar endividamento quando faltam condições para sustentá-la. Estabelecer dois anos de transição não cria vagas, não eleva salários nem resolve os obstáculos que mantêm famílias na pobreza.

A contradição aumenta diante do ajuste de até R$ 250 bilhões discutido pela equipe econômica. Segundo a Folha de S.Paulo, foram avaliadas mudanças em despesas previdenciárias e nos pisos de saúde e educação; a campanha nega oficialmente essas propostas. Afinal, quais setores seriam enxugados? Como produzir o dinamismo prometido se os cortes atingirem investimentos, serviços e a renda que movimenta o comércio? O pequeno negócio apresentado como saída também precisa de consumidores com dinheiro.

Vão começar pelo Bolsa Família? A declaração sobre o desligamento coloca essa pergunta sobre a mesa, embora não permita afirmar que o programa já tenha sido escolhido como fonte do ajuste. Marques promete preservar os programas sociais e cortar privilégios e desperdícios. Cabe apresentar rubricas, valores e garantias que demonstrem como essas promessas se sustentam. Também é preciso explicar o que o anunciado retorno automático acrescentaria aos mecanismos de proteção e retorno já existentes no programa.

O sucesso de uma política social deve ser medido pela melhora sustentada das condições de vida, e não apenas pela redução do número de beneficiários. Há um contraste revelador nessa proposta: anuncia-se um prazo para quem recebe proteção social, mas permanece indefinido o mapa dos bilhões que se pretende cortar. O calendário pode encerrar um pagamento. Sozinho, jamais encerrará a pobreza.