À espera do pico do El Niño

temperatura

As altas temperaturas dos últimos dias deveriam estar despertando um senso de urgência em todos os governantes brasileiros, mas a maioria deles parece estar entretida com outras coisas.  Já as pessoas que não governam, mas são governadas por eles, tenta sobreviver do jeito que dá, especialmente aqueles que compõe a imensa maioria pobre da população brasileira que não dispõe das condições financeiras para sequer ventilar suas casas.

A questão que esses dias quentes atualizam é a da necessidade de que comecemos um urgente processo de adaptação climática nas nossas cidades, pois a situação ainda vai piorar muito em face da indisposição de se controlar a emissão de combustíveis fósseis que estão na raiz dos problemas climáticos que estamos atravessando.

Tenho me interessado pela questão da adaptação climática, pois já está apontado pela comunidade científica que uma das facetas da crise climática é que ela será sentida de forma diferenciada e se abaterá mais pesadamente sobre os pobres. Basta pensar na capacidade de pagar as contas de eletricidade e água que vão encarecer ainda mais no futuro, ou no espaço reduzido que os pobres têm comparativamente aos ricos dentro de suas casas.  Com casas menores e densamente povoadas, os efeitos das alterações climáticas serão muito mais sentidas pelos pobres.

Mas o que significa adaptação climática?

Mas falando em adaptação climática, o que significaria em um país de características tropicais como o Brasil se tornar mais adaptado? A primeira coisa seria considerar a necessidade de inserir ferramentas de ajuste climático nos chamados planos diretores para que o principal instrumento de gestão municipal possa refletir as demandas de adaptação a um clima em transição para mais quente.

Muitos não conhecem, mas existe uma iniciativa chamada “Programas Cidades Sustentáveis” (PCS) que se apresenta, entre outras coisas, como uma ferramenta para gerir alternativas de adaptação. Ao verificar quantos municípios brasileiros já aderiram, verifiquei que dentre os 5.568 existentes, apenas 290 já se tornaram signatários (ou seja, apenas 5,3%), e 145 concentrados na região Sul (exatos 50%). 

Ainda que se possa considerar que o PCS seja apenas uma das muitas iniciativas do gênero, essa baixa adesão me parece refletir bem o estado da arte da compreensão da maioria dos governantes brasileiros sobre a necessidade de começarmos a internalizar nos planos diretores municipais as prioridades que a mudança climática está impondo de forma inexorável.

Campos dos Goytacazes: um exemplo que combina extrema segregação social, problemas climáticos e despreparo para a adaptação

Agora pensando em Campos dos Goytacazes, cidade onde vivo há quase 26 anos, o que chama a atenção é o fato de que apesar de se ter um prefeito “jovem” no comando do executivo municipal, há uma completa ignorância sobre os problemas que já estão por aqui.

Assim é que a simples análise do atual Plano Diretor Municipal apontará que não há qualquer menção à adaptação climática. Não bastasse isso, o que se assiste nas ruas é a remoção tresloucada das poucas árvores existentes nos espaços públicos, a aplicação de camadas asfálticas escuras, e a imposição de um modelo de cidade segregada que coloca os mais pobres isolados em áreas desprovidas de elementos essenciais como água e esgoto, enquanto que os ricos se isolam em condominados de alto luxo nos quais o governo municipal destina a infraestrutura que é negada aos pobres.

Há ainda que se considerar que sendo a água um dos elementos mais afetados pelo aquecimento global,  uma concessionária privada continua exercendo um controle férreo sobre quem recebe ou não o líquido precioso para suprir necessidades básicas.  Aí já se sabe como fica a situação, pois os mais pobres são aqueles que ficam na ponta de lança de formas draconianas de distribuição e de cobrança.

Não se pode esquecer que um dos primeiros atos do prefeito Wladimir Garotinho foi extinguir a secretária municipal de Meio Ambiente, tornando um mero apêndice de um hipertrofiada secretária municpal de Planejamento Urbano, Mobilidade e Meio Ambiente. Não surpreende então que não haja atual qualquer vislumbre de que estamos evoluindo em termos de planejamento urbano, mobilidade ou, pior ainda, meio ambiente.

Assim, é que chegamos a uma condição em pleno século XXI em que o município de Campos dos Goytacazes continua completamente estagnado no tocante a um ajuste cada vez mais urgente na forma de tratar a questão ambiental.

E o pico do El Niño ainda vai chegar….

Sendo habitante de Campos dos Goytacazes ou de qualquer um dos 5.278 em que os prefeitos continuam alienados da necessidade de adotar políticas de ajuste climático, uma coisa é certa: o atual ciclo de altíssimas temperaturas só deverá se encerrar no primeiro trimestre de 2024, e pior ainda está por vir porque o atual episódio do El Niño ainda nem chegou ao seu pico. 

Assim, ainda que não parece, a questão climática precisa ser pautada de forma direta e inexorável por todos os que se preocupam com a capacidade de nossas cidades de estarem minimamente adaptadas para os impactos mais duros das mudanças climáticas que deixaram definitivamente o domínio do debate teórico dos cientístas para se tornar um elemento central no planejamento urbano.

 

Starbucks: fazendas de café certificadas são flagradas com trabalho escravo e infantil em Minas Gerais

café

Investigação exclusiva revela casos de descontos ilegais em salários e falta de banheiro e equipamentos de proteção em propriedades que ostentam o selo de ‘aquisição ética’ da multinacional. Representantes dos trabalhadores apontam falhas em auditorias

Maior e mais famosa rede de cafeterias do mundo, com 35 mil pontos de venda em 83 países, a Starbucks mantinha em seu programa de “aquisição ética” produtores flagrados com trabalho escravo e infantil, além de cafeicultores autuados por descontos ilegais nos salários, falta de fornecimento de água potável e de equipamentos de proteção básicos para a colheita do grão.

Ao menos quatro propriedades foram palco de problemas assim enquanto ainda eram fornecedoras da multinacional americana. Os casos são retratados no relatório “Por trás do café da Starbucks”, publicado pela Repórter Brasil (disponível em português e em inglês).

Fazendas no Brasil são origem de parte do café usado pela rede de cafeterias americana, que afirma comprar 3% do grão produzido no mundo

O documento mostra que fazendas de café em Minas Gerais onde a fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego flagrou violações trabalhistas possuem – ou possuíram até recentemente – o selo C.A.F.E. Practices, sigla para Coffee and Farmer Equity, o programa de certificação que, segundo a Starbucks, avalia fornecedores em mais de 200 indicadores ligados à transparência, qualidade, responsabilidade social e ambiental. É mais uma situação que expõe as limitações do mercado certificador.

“Independente da certificadora, o modelo é frágil, pouco transparente. Todos os anos mostramos casos de fazendas certificadas com trabalhadores sem registro, que não recebem férias, 13º”, observa o coordenador da Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais (Adere), Jorge Ferreira dos Santos Filho.

As irregularidades trabalhistas no setor não se resumem à cadeia de fornecimento da Starbucks. A Repórter Brasil já mostrou problemas semelhantes entre fornecedores da Nestlé, McDonald’s e outras grandes empresas compradoras de grãos.

Em 2022, o cultivo de café foi um dos cinco setores com maior volume de denúncias de exploração de trabalhadores no Brasil. Ao todo, 39 propriedades de café foram fiscalizadas e 159 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão.

Safrista resgatado tinha 15 anos

Um dos casos destacados é o da Fazenda Mesas, em Campos Altos, onde 17 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em agosto de 2022. No grupo havia um adolescente de 15 anos e outros dois jovens de 16 e 17 anos.

O trabalho exposto ao sol ou à chuva e que exige manuseio de cargas pesadas – a saca de café pesa 60 quilos – está enquadrado na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil e é proibido para jovens de 16 a 18 anos. Já o trabalho de menores de 16 é proibido em qualquer circunstância, com exceção da categoria aprendiz, com requisitos como frequência escolar e tutoria.

A Mesas é administrada por Guilherme de Oliveira Lemos, que também comanda a Fazenda Ourizona e a torrefadora Café Ourizona, em Córrego Danta, e a Fazenda Bom Jesus e Pedras, em Santa Rosa da Serra.

O Café Ourizona ostenta o selo C.A.F.E. Practices, da Starbucks. Entrou no programa um mês antes do flagrante de trabalho escravo na Mesas, mostra um post no Instagram de julho de 2022. Além disso, as propriedades são certificadas pela Rainforest Alliance, selo renovado em março deste ano, mesmo após o resgate dos trabalhadores.

Evidências indicam a administração conjunta das propriedades. Trabalhadores da Fazenda Mesas que estavam na informalidade tiveram suas carteiras registradas em nome da Ourizona depois da operação dos auditores fiscais do Trabalho.

Conforme o relatório de fiscalização, o empregador não fornecia nem as ferramentas básicas para a colheita, como rastelo, bolsa e pano para armazenar grãos. Uma trabalhadora contou que precisava comprar luva nova a cada quatro dias para proteger as mãos ao colher os grãos. Os R$ 5 por luva saíam de seu bolso, assim como o valor do chapéu, de botinas, da comida e do alojamento – tudo em desacordo com as leis trabalhistas.

Descontos irregulares para pagamento de equipamentos, como a máquina derriçadeira (acima), são comuns em fazendas de café, dizem representantes de trabalhadores

Na lavoura não havia local montado para o almoço. No chão ou dentro de um ônibus, trabalhadores consumiam uma comida fria ou aquecida numa lata com álcool. Sem banheiro químico, as necessidades eram feitas no mato ou no cafezal.

Por meio de seu advogado, Lemos afirmou que não responderia à reportagem. A Starbucks admitiu que a Mesas é certificada, mas não explicou se será suspensa. “Nossos registros não mostram queixas trabalhistas ativas, litígios ou reclamações abertas contra Guilherme de Oliveira Lemos”, afirmou a empresa. A Rainforest Alliance confirmou a certificação e informou que duas auditorias foram feitas no local. “De acordo com os relatórios da Entidade Certificadora enviados à Rainforest Alliance para a auditoria de maio de 2023, não havia informações sobre essas inspeções em agosto de 2022”, alegou. Leia a íntegra das respostas aqui.

‘Erro do RH’

Outro caso de adolescente trabalhando irregularmente é o da Fazenda Cedro-Chapadão, em Ilicínea, administrada juntamente com a Fazenda Conquista por Sebastião Aluísio de Sales, esposa e filhos.

Em julho de 2022, um jovem de 17 anos foi resgatado de condições análogas à escravidão nos cafezais da família. Ele e outros 25 haviam saído de Irecê (BA), a 1.500 quilômetros de distância, para colher café nas duas fazendas. A fiscalização identificou outras 11 violações trabalhistas.

Selos de certificação e placas de “Atenção” não foram suficientes para prevenir irregularidades trabalhistas em fazendas do grupo Cedro-Chapadão, em Ilicínea (MG)

Segundo Rodrigo Sales, filho de Sebastião, a contratação do jovem de “17 anos e 9 meses” ocorreu por “erro do nosso departamento contábil de RH [Recursos Humanos]”. Documentos acessados pela fiscalização trabalhista apontam que outro adolescente, de 16 anos, havia sido contratado para colher café naquele ano.

O resgate do jovem ocorreu na Fazenda Conquista e não na Cedro, que tem o selo C.A.F.E. Practices. Mas as práticas eram as mesmas nas duas propriedades, e os trabalhadores também haviam sido contratados para atuar na Cedro. “As Fazendas Reunidas Cedro-Chapadão são um grupo, portanto a administração é feita de forma conjunta, os trabalhadores safristas estão cientes do cronograma de trabalho para colheita, que se inicia na Fazenda Conquista e segue para as demais fazendas conforme a maturação do café”, admitiu Rodrigo Sales.

Alojamento de trabalhadores temporários do grupo Cedro-Chapadão; em 2022, um jovem de 17 anos foi resgatado de condições análogas à escravidão na colheita da empresa

A fiscalização diz que o empregador não disponibilizava água potável e equipamentos de proteção, como luvas, chapéus e botas. No alojamento não havia roupas de cama, armários nem local apropriado para refeição. O grupo ainda precisou pagar pelas passagens de ônibus desde Irecê, o que era obrigação do contratante. Em depoimento, o jovem resgatado disse que lhe foram descontados R$ 400 da passagem, além de despesas de alimentação.

Sebastião Sales pagou cerca de R$ 6 mil em rescisões e danos morais. Rodrigo Sales se defende: “As Fazendas Reunidas Cedro-Chapadão jamais submeteram qualquer trabalhador a condições degradantes, trabalho forçado ou condições análogas à escravidão”. Segundo ele, a Cedro foi certificada pela C.A.F.E. Practices em 2021, mas só participou do programa em 2022 e não houve comercialização com a Starbucks no período. Já a multinacional se limitou a dizer que a propriedade não está mais ativa no programa, sem informar quando saiu e o porquê. Leia a íntegra dos esclarecimentos aqui. 

Reincidentes

Também detentora do C.A.F.E. Practices, a empresa familiar Bernardes Estate Coffee, dona de duas fazendas em Patrocínio, é reincidente em violações.

Em 2019 foram nove multas por não oferecer equipamentos de proteção individual (EPIs) nem material para primeiros socorros gratuitos, não fornecer papel higiênico, nem chuveiros em quantidade suficiente, não garantir local adequado para refeições e tampouco uma caixa d’água protegida contra contaminação. Três anos depois, José Eduardo Bernardes foi autuado por 16 infrações, entre elas não possuir os recibos de pagamento de empregados, não oferecer treinamentos exigidos por lei e não garantir banheiros na frente de trabalho.

Repórter Brasil esteve na fazenda neste ano e testemunhou a repetição de problemas. Constatou que nem todos utilizavam EPIs. Trabalhadores relatam que são recrutados em cidades distantes, mas o contrato só é assinado quando chegam, estratégia usada para burlar o pagamento do transporte. Contam também que os patrões cobram aluguel dos que se hospedam num alojamento da família.

Colheita na Bernardes Estate Coffee, em Patrocínio (MG). Trabalhadores colhem o café, jogam os frutos na lona, separam os galhos e enchem sacos de 60 kg

A Bernardes Estate Coffee não respondeu às perguntas enviadas por e-mail. A Starbucks confirmou que a empresa é certificada, disse que passa por investigações, mas se negou a compartilhar detalhes. Leia a íntegra.

Outro caso de reincidência é o do produtor Carlos Augusto Rodrigues de Melo, presidente da Cooxupé, maior cooperativa de cafeicultores do país e principal fornecedora da Starbucks, segundo dados de exportações acessados pela Repórter Brasil. Propriedades da família Melo foram autuadas por descumprimento de regras trabalhistas em 2021 e em 2022.

Em 2021, uma fiscalização constatou descontos ilegais em salários para aquisição de máquinas derriçadeiras e combustível para a colheita na Fazenda Pedreira, em Cabo Verde (MG). No ano seguinte, outra fazenda da família, a Palmital, recebeu 16 autos de infração por não pagar direitos trabalhistas, como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e a multa de 40% em demissão sem justa causa.

Os problemas persistem. Neste ano, a Repórter Brasil encontrou no local trabalhadores provenientes do Vale do Jequitinhonha, norte de Minas, que dizem trabalhar nas lavouras por falta de outras oportunidades. “Gostar, a gente não gosta, mas a necessidade faz o trabalho ficar maravilhoso”, afirmou um rapaz de 24 anos que já tinha perdido dez quilos em um mês.

O aspecto dos pequenos alojamentos (quarto, cozinha e banheiro) denota descuido com a limpeza. A reportagem constatou paredes de banheiro encardidas do chão ao teto. Não há área para refeições, preparadas em um fogão de duas bocas comprado pelos trabalhadores. Os empregados dizem que o gás de cozinha também sai do bolso deles, assim como cobertores e travesseiros, o que contraria a lei. A água de consumo e de banho é armazenada em um antigo tanque de combustível.

Alojamento de trabalhadores da Fazenda Pedreira, ao fundo, e antigo tanque de gasolina utilizado para armazenar a água consumida pelos safristas

Em nota, a Fazenda Pedreira se limitou a dizer que “cumpre a legislação trabalhista” e que segue “as determinações exigidas para obtenção de certificações internacionais”. A propriedade não negou relação com a Starbucks, mas não esclareceu quando foi certificada. A Starbucks afirmou que o selo da Pedreira está “expirado”, sem informar quando isso ocorreu. Já a Cooxupé afirmou que garante a rastreabilidade de seus produtos e que respeita normas ambientais, sociais e legais. Todos os esclarecimentos podem ser lidos, na íntegra, aqui.

Sem surpresa

As violações ocorrem num setor que está em quarto lugar em receita no ranking de receita da balança comercial do Brasil. Em 2022, foram 52,8 milhões de sacas colhidas, o que garante ao país o posto de maior exportador mundial do produto. Na ponta da cadeia, a Starbucks Corporation, que compra cerca de 3% do café produzido no mundo, registrou lucro líquido de US$ 3,2 bilhões em 2022.

Nesse cenário, não há “desculpas” para não garantir a contratação formal de safristas e seus direitos trabalhistas, diz Gustavo Ferroni, da Oxfam Brasil: “Isso não depende de uma articulação de políticas públicas, mas do próprio setor”.

A Starbucks Corporation registrou lucro líquido de US$ 3,2 bilhões em 2022. Fazendas fornecedoras da rede são certificadas por programa próprio de aquisição ética (Foto: Asael Peña/Unsplash)

Em 2020, a organização calculou em 41% a lacuna entre o salário médio nas lavouras em Minas e um salário digno, que é aquele capaz de contemplar gastos com alimentação, moradia, educação, saúde, vestuário e outras necessidades essenciais, conforme parâmetros dGlobal Living Wage Coalition (Coalizão Global de Salário de Bem Estar).

Para Ferroni, a C.A.F.E. Practices seria mais efetiva se inspeções ocorressem durante a safra, se as auditorias fossem verdadeiramente surpresas (as visitas são avisadas com antecedência) e se houvesse diálogo com atores de fora das fazendas, como sindicalistas.

A opinião é compartilhada por Jorge Ferreira dos Santos Filho, coordenador da Adere. “Se os produtores são avisados que a fazenda será auditada, não existe auditoria-surpresa”, conclui o representante dos trabalhadores.


color compass

Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Ao unir a luta pela justiça climática à defesa dos palestinos, Greta Thunberg mostra porque é a personagem da hora

greta gaza

Ao abraçar a causa palestina, Greta Thunberg mostra que a luta pela justiça climática vai além das mudanças climáticas

A ativista política sueca Greta Thunberg ascendeu meteoricamente à cena política mundial em agosto de 2018 quando iniciou um protesto inicialmente solitário contra a inação de governos e corporações frente às mudanças climáticas causadas pelo uso de combustíveis fósseis. Desde então, apesar de ser extremamente jovem, Greta se tornou uma figura de proeminência global tendo, inclusive,  liderado várias edições da chamada “Greve Climática Global“, a partir das quais ela se tornou uma voz a ser ouvida, inclusive em diversas conferências multilaterais que debatem as questões climáticas.

Por causa dessa proeminência, Greta Thunberg não é necessariamente uma figura popular tanto à direita como à esquerda. Curiosamente é da esquerda que Thunberg tem recebido acusações de ser uma espécie de agente infiltrada das corporações, muito em parte por causa das alegações não provadas de que ela seria financiada pelo megaespeculador George Soros ou até que seria neta dele.

A minha suspeita é que Thunberg gera esse tipo de rejeição, especialmente na América Latina, porque parte substancial da esquerda ainda vê a exploração de combustíveis fósseis como uma espécie de caminho necessário para o processo de desenvolvimento. Disso decorre que a mobilização exatamente contra o uso deste tipo de combustível que está associado ao aquecimento global é visto como uma espécie de colonialismo climático.

Mas agora Greta resolveu se meter em um vespeiro tão dramático quanto a questão das mudanças climáticas ao se colocar em defesa do direito dos palestinos de ter seu próprio Estado.  Além disso, Greta tem usado sua participação em atos em prol da justiça climática para defender a suspensão da agressão israelense em Gaza.  Essa adesão de Greta Thunberg tem gerado críticas dentro e fora do movimento climático, a ponto de suas manifestações serem alvo de tentativas de censura como ocorreu no domingo passado (12/11) em Amsterdam (ver vídeo abaixo).

O curioso é que no caso de Amsterdam, Greta Thunberg não apenas se negou a ser interrompida pela pessoa que invadiu o palco, como também puxou uma palavra de ordem que deve ter deixado muita gente incomodada que foi a consígnia “não há justiça climática em terra ocupada”. 

Aparentemente, o que muita gente ainda não entendeu (ou não quer entender) é que Thunberg é apenas a figura mais pública de uma geração que entende perfeitamente a gravidade da questão climática, mas que não se resume a ver o problema de forma excludente de outras questões políticas que se relacionam ao direito dos povos, como é a questão do direito à terra e à agua.

Por essas e outras, é que gostando-se ou não, Greta Thunberg é a figura da hora, e não parece pronta a sair facilmente de cena. 

Academia Brasileira de Ciências promove mesa sobre El Niño e Crise Climática

crise hidrica

No dia 16 de novembro, às 10, na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC), será realizada a mesa-redonda “Crise climática e desastres como consequência do El Niño 2023-2024: impactos observados e esperados no Brasil. A atividade terá participantes presencialmente no auditório e transmissão pelo YouTube da ABC.

O evento é promovido pela ABC, pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas Fase 2 (INCT MC2).

Na mesa-redonda serão discutidos diferentes aspectos do El Niño 2023-2024, sendo destacadas semelhanças e diferenças em relação a outros eventos do El Niño, bem como os impactos já observados em 2023 e aqueles esperados para o verão e outono de 2024. O foco da atividade está nas possíveis consequências das anomalias climáticas resultantes do El Niño 2023-2024 em temas como desastres (secas, risco de incêndios, inundações e deslizamentos de terras provocados por extremos de chuva), segurança hídrica, alimentar e energética, infraestrutura, entre outros. Também serão considerados possíveis cenários do El Niño como resultado das mudanças climáticas e ações que possam levar a medidas de adaptação para enfrentamento da crise climática. 

Inscrições gratuitas pelo link.

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Divulgando a programação da XVI Feira Responsabilidade Social Empresarial Bacia de Campos

Qual é o mundo que queremos? E qual é a programação que teremos na XVI Feira RSE da Bacia de Campos? 

Nessa edição, teremos uma programação afinada com o tema “O mundo que queremos, novos desafios e possíveis soluções.” Vamos conhecer quais são as tendências de inovação na economia do Conhecimento e dos modelos de negócios emergentes, com foco no desenvolvimento sustentável.

PROGRAMAÇÃO XVI FEIRA RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL BACIA DE CAMPOS

Dia 21 de Novembro – terça-feira

14h Solenidade de Abertura

16h às 17h- Palestra “Do Mundo Que Temos Ao Mundo Que Precisamos”

Professor Aristides Soffiatti – Licenciado em história, Pós-graduado em história moderna e contemporânea, Mestre e Doutor em História Ambiental.

17h às 18h20 Painel Baía Viva

Sérgio Ricardo, o ecologista e diretor do Movimento Baía Viva fará um balanço socioambiental da região.

Conflitos Reais da CDRU (Concessāo de Direito Real de Uso) na Reserva Extrativista Marinha de Arraial Do Cabo: Fábio Fabiano, ex-chefe da Resex de Arraial do Cabo, ex-chefe do Centro Nacional de Populações Tradicionais (CNPT/RJ – IBAMA), atualmente Diretor de Projetos do Movimento Baía Viva.

Painel 1 NUPEN/UFRJ – O mundo que queremos tem cheiro de terra

18h30 às 19h20 – Jovana Azevedo – Quilombo Machadinha; Carlos Renato da Silva –

Agricultor Familiar, Sítio Três Poderes; Paula Dodde – Bióloga, doutoranda em Ciências

Ambientais e Conservação.

19h30 – Pesca fantasma no âmbito do projeto Maré Limpa

João Pedro Sá – mestrando de Ciências Ambientais e Conservação na UFRJ, e integrante

do projeto Maré Limpa.

De 14h às 17h – Mostra de Filmes Ambientais

Dia 22 de Novembro – quarta-feira

14h às 15h – Sistemas Agroflorestais: a melhor solução para a produção e preservação.

João Carlos Flores- Eng.agrônomo, Especializado em, Agricultura Orgânica e Biodinâmica, Agroecologia, Agricultura Sintrópica e S A F ‘s Sistemas Agroflorestais.

15h – Botânica Econômica 

Thièrs Wilberger – Biólogo especialista em Flora, consultor em Meio Ambiente, Analista Ambiental, e Sérgio Oliveira e convidado especial.

16h às 18h – Palestras

Tema 1 – As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) a humanização do cuidado e a conexão com a Natureza.

Moisés Marinho, prof. de Bioquímica da UFRJ Macaé/Instituto de Ciências Farmacêuticas, trabalha com pesquisa e extensão no campo das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS).

Tema 2 – “Saúde Integrativa e Natureza, o novo que emerge da ancestralidade

Raphael Paz, enfermeiro Pós-Graduado em Medicina tradicional chinesa, homeopata popular, Coordenador das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) em Arraial do Cabo.

Painel 2 NUPEN /UFRJ – Consequência do Aquecimento

18:30 às 20h30 – Gláucia Valente Valadares.- Prof UFRJ, Juliana Lopes – Mestranda em Ciências Ambientais e Conservação da UFRJ, e Yasmim Alvarenga – Mestranda em Ciências Ambientais e Conservação da UFRJ.

De 14h às 17h – Mostra de Filmes Ambientais e apresentações artísticas culturais nos estandes das XVI Feira RSE

23 de Novembro – quinta-feira

De 14h – Palestra “ ODS, o que tenho a ver com isso? ”

Maria de Lourdes Havvalet do Amaral – Professora e líder dos produtores rurais, graduada em Gestão Ambiental, Mestre em Ensino Profissionalizante de Saúde e Meio Ambiente.

15h05 ÀS 16h- Palestra “Inteligência Natural”

Aristóteles José Riani Costa – Tecnólogo em Saneamento/Sustentabilidade, especialista em Educação Ambiental, e pós graduado em Análise Ambiental.

16h às 17h30 Painel Emergência climática e as evidências ao longo da história de vida na terra!

Thièrs Wilberger – Biólogo especialista em flora, consultor em Meio Ambiente e analista ambiental.

18h às 19h Desenvolvimento humano “Supere desafios cotidianos e domine sua vida”

Antônio Múcio é master coach, escritor, treinador de Inteligência emocional e especialista em Neurociência, Golden Belt e em Inteligência emocional.

A XVI Feira de Responsabilidade Social Empresarial da Bacia de Campos contará com Mostra de Cinema Ambiental, lançamentos de livros e apresentações artísticas culturais.

A Mostra de Filmes Ambientais da XVI FRSE acontece nos dias 21, 22 e 23 de Novembro, das 14h às 17h.

Os curtas

A idade da Terra em medidas que você consegue entender – Duração: 07m20s

A Terra – Duração: 05m47s

Curtas de animação da semana do meio ambiente 2015 – Duração 20m43s

A Cura – Duração 01m28s

O homem – Duração 03m36s

One Earth – Duração: 04m26s

Verde – Duração 06m13s

O amanhã é hoje – Duração 23m

Os longas…

Título Original: Brave Blue World – 12 anos – Gênero: Documentário

Título Original: Kiss the Ground (Solo Fertil) – 12 anos – Gênero Documentário

Título Original: Saneamento Básico, O Filme – 12 anos – Direção: Jorge Furtado – Gênero: Comédia

Título Original: Ainbo: Spirit Of The Amazon – Livre – Direção: Jose Zelada, Richard Claus -Gênero: Animação

Serviço

XVI Feira de Responsabilidade Social Empresarial Bacia de Campos

Dias 21, 22 e 23 de Novembro de 2023 – das 14h às 20h

Av. Aluizio Silva Gomes, 50 – Glória

Cidade Universitária, Macaé, RJ

ANM interdita pilhas da Vale em Mariana; povoado pode ser evacuado

Pilhas de estéril são estruturas que integram a Mina de Fábrica Nova

fabrica nova

Por Léo Rodrigues – Repórter da Agência Brasil – Rio de Janeiro

A Agência Nacional de Mineração (ANM) determinou a interdição das atividades de três pilhas de estéril da mineradora Vale. São estruturas que integram a Mina de Fábrica Nova, situada em Mariana (MG). A decisão foi tomada na última sexta-feira (10). A necessidade de uma evacuação em áreas do entorno que seriam atingidas em caso de uma tragédia ainda será avaliada. A mineradora diz que há nenhum risco iminente.

De acordo com nota divulgada pela ANM nessa segunda-feira (13), uma equipe foi destacada para fazer um vistoria no local nesta semana e definir a medidas a serem impostas à Vale. A visita será realizada junto com agentes da Defesa Civil de Minas Gerais. “As pilhas interditadas são a PDE Permanente I, PDE Permanente II e PDE União Vertente Santa Rita”, diz a nota.

Pilhas de estéril são formadas a partir da disposição de materiais obtidos com a atividade de mineração que, na maioria dos casos, não tem valor comercial agregado. Diferentemente das barragens, elas não estão sujeitas a processos de liquefação, que ocorrem quando resíduos sólidos se convertem em fluido, assim como ocorreu nas tragédias de 2015 em Mariana e de 2019 em Brumadinho. No entanto, as pilhas podem atingir grandes alturas e gerar outros tipos de preocupações.

No ano passado, problemas ocorreram na Mina Pau Branco, mantida pela mineradora francesa Vallourec em Nova Lima (MG). No local, há uma pilha de rejeitos. Parte do material empilhado deslizou para um dique e esse, por sua vez, transbordou. O episódio ocorreu em meio a tempestades que atingiram o estado. O dique havia sido construído para captar a água da chuva que passa pela pilha. O transbordamento gerou danos ambientais e a Vallourec pagou R$ 73 bilhões para compensar os impactos.

Na Mina de Fábrica Nova, a Vale também tem um dique junto às três pilhas de estéril. A situação foi pauta de uma reunião entre agentes da ANM e da Defesa Civil de Minas Gerais na semana passada. Conforme a ata, preocupações foram levantadas levando em conta um laudo de avaliação de estabilidade produzido em 2020 por uma empresa de consultoria externa contratada pela própria mineradora. Ele traz uma avaliação sobre a pilha PDE Permanente I. Somente em setembro deste ano, o documento foi apresentado pela Vale à ANM. “A estrutura apresenta valores de fator de segurança abaixo do preconizado em norma”, registra a ata.

A Mina de Fábrica Nova fica próximo ao povoado de Santa Rita Durão, distrito pertencente a Mariana. Segundo dados apresentados pela Defesa Civil na reunião, existem 123 moradores na área que seria atingida em cerca de 30 minutos, caso ocorresse algum problema com o dique localizada junto às pilhas. Pela legislação, a ausência de um lado que garanta a estabilidade da estrutura leva automaticamente à elevação do seu nível de emergência. Caso a ANM entenda ser preciso acionar o nível 2 ou 3, as pessoas que vivem no entorno deverão ser retiradas de suas casas.

Conforme obriga a legislação, as mineradoras devem elaborar um Plano de Ação de Emergência para cada barragem. No caso desse dique da Mina de Fábrica Nova, o documento produzido pela Vale projeta que, em uma eventual ruptura, seria preciso retirar 295 pessoas da área atingida: 147 residentes, seis transeuntes (transitórios), 137 empregados próprios e terceirizados e cinco funcionários de outro empreendimento situado na região.

Em nota, a Vale sustenta que não há necessidade da remoção das famílias. “Importante esclarecer que o dique de pequeno porte localizado a jusante de uma das pilhas tem declaração de condição de estabilidade positiva. A Vale reitera que a segurança é valor inegociável e que cumpre todas as obrigações legais. A Vale continuará colaborando com as autoridades e fornecendo todas as informações solicitadas”, diz o texto.

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A determinação da interdição também levantou o alerta do Ministério Público Federal (MPF), que encaminhou à ANM nessa segunda-feira (13) pedido de esclarecimentos. Foi dado um prazo de 48 horas para a resposta.

Edição: Graça Adjuto


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Brasil [Aqui!].

Número de dias com ondas de calor passou de 7 para 52 em 30 anos

Dados fazem parte do estudo do Inpe que analisou dados climáticos dos últimos 60 anos, a pedido do MCTI

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Fonte: Inpe Anomalia WSDI (onda de calor) é um dos indicadores de extremos climáticos observados nos últimos 60 anos. No período referência, entre 1961 e 1990, o número de dias com ondas de calor (WSDI) era de sete e ampliou para 52 dias no período entre 2011 e 2020

Como o clima está mudando no Brasil? Para responder a essa pergunta, os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) avaliaram os dados sobre as mudanças do clima observadas no Brasil nos últimos 60 anos. O estudo permite reconhecer as tendências nas séries de precipitação, temperatura máxima e mais três índices derivados que são considerados extremos climáticos: dias consecutivos secos (CDD), precipitação máxima em 5 dias (RX5day) e ondas de calor (WSDI).

O estudo foi realizado a pedido do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para subsidiar as discussões para a atualização do Plano Clima – Adaptação. De acordo com os especialistas, conhecer as mudanças climáticas é fundamental para caracterizar a ameaça e, por consequência, analisar os possíveis impactos, vulnerabilidades e adaptação. Os dados corroboram com o exercício executado para a Quarta Comunicação Nacional do Brasil à Convenção do Clima.

Os cálculos foram efetuados para todo o território brasileiro e consideraram o período de 1961 a 2020. Os especialistas estabeleceram 1961 a 1990 como período de referência, e efetuaram análises segmentadas sobre o que aconteceu com o clima para três períodos: 1991-2000, 2001-2010 e 2011-2020.

Entre 1991 e 2000, as anomalias positivas de temperatura máxima não passavam de cerca de 1,5°C. Porém, atingiram 3°C em alguns locais para o período de 2011 a 2020, especialmente na região Nordeste e proximidades. No período de referência, a média de temperatura máxima no Nordeste era de 30,7°C e sobe, gradualmente, para 31,2°C em 1991-2000, 31,6°C em 2001-2010 e 32,2°C em 2011-2020.

As anomalias de precipitação acumulada também são observadas nos três períodos avaliados, contudo destacam-se duas regiões contrastantes entre 2011 e 2020. Enquanto houve queda na taxa média de precipitação, com variações entre –10% e –40% do Nordeste até o Sudeste e na região central do Brasil, foi observado aumento entre 10% e 30% na área que abrange os estados da região Sul e parte dos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Extremos climáticos

O aumento e a redução nos índices de precipitação repercutem na ocorrência de extremos climáticos que são estabelecidos por dois indicadores: dias consecutivos secos (CDD) e pela precipitação máxima em 5 dias (RX5day).

No período de referência, entre 1961 e 1990, os valores de CDD eram, em média, de 80 a 85 dias. O número subiu para cerca de 100 dias para o período de 2011 a 2020 nas áreas que abrangem o norte do Nordeste e o centro do país.

Os mapas demonstram que a região Sul vem sendo a mais afetada pelas chuvas extremas ao longo das últimas décadas. No período de referência, a precipitação máxima em cinco dias era de cerca de 140 mm. O número subiu para uma média de 160mm.

Ondas de calor (WSDI)

Os dados indicam que houve aumento gradual das anomalias de ondas de calor ao longo dos períodos analisados e para praticamente todo o Brasil. Exclui-se a região Sul, a metade sul do estado de São Paulo e o sul do Mato Grosso do Sul. No período de referência, o número de dias com ondas de calor não ultrapassava sete. Para o período de 1991 a 2000 subiu para 20 dias; entre 2001 e 2010 atingiu 40 dias; e de 2011 a 2020, o número de dias com ondas de calor chegou a 52 dias.

“Essas informações são a fonte que podemos reportar como fidedignas daquilo que está sendo sentido no dia a dia da sociedade. Estamos deixando de perceber para conhecer. Esse é um diferencial de termos essa fonte de dados robusta”, afirmou o diretor do Departamento para o Clima e Sustentabilidade do MCTI, Osvaldo Moraes. “São dados relevantes para fazer a ciência climática dar suporte à tomada de decisão. Estamos deixando a percepção de lado para aprofundar o conhecimento”, complementou.

Para o estudo, foram considerados dados observacionais de 1.252 estações meteorológicas convencionais, sendo 642 estações manuais e 610 automáticas para construir as séries de temperatura máxima, e um total de 11.473 pluviômetros para os dados de precipitação.

A partir dessas informações críticas foram analisados três extremos climáticos. O número de dias consecutivos secos (CDD) foi calculado estimando-se o número de dias seguidos com precipitação inferior a 1mm. O RX5day registra a maior quantidade de precipitação em 5 dias. O WSDI representa a soma de dias de ondas de calor no ano. Caracteriza-se como onda de calor o mínimo 6 dias consecutivos em que a temperatura máxima superou um limiar de ao menos 10% do que é considerado extremo, comparado ao período de referência.

Os pesquisadores destacam a importância de observar o conjunto das informações e não apenas indicadores isolados. De acordo com os dados, o clima já está mudando e afeta o país de múltiplas formas, dado que o Brasil tem dimensões continentais. Enquanto em algumas regiões há aumento de temperatura, em outras observa-se aumento da precipitação ou ocorrência de seca.

“O mais recente relatório do IPCC destacou que as mudanças climáticas estão impactando diversas regiões do mundo de maneiras distintas. Nossas análises revelam claramente que o Brasil já experimenta essas transformações, evidenciadas pelo aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos em várias regiões desde 1961 e irão se agravar nas próximas décadas proporcionalmente ao aquecimento global”, ressaltou o pesquisador do Inpe Lincoln Alves, que coordenou os estudos.

Mais uma barragem da Vale ameaça desmoronar em Mariana (MG) causando temor e remoção de habitantes

Segundo documento da Agência Nacional de Mineração (ANM), mancha da lama pode atingir parte do distrito de Santa Rita Durão em até 30 minutos

Vale Mariana tsu2023Imagem anexada em documento da ANM mostra a mancha da onda de lama caso a estrutura se rompa — Foto: ANM/DIVULGAÇÃO

Por José Vítor Camilo e Lucas Gomes  para “O TEMPO”

A Agência Nacional de Mineração (ANM) determinou a interdição de três Pilhas de Estéril (PDE) após a mineradora Vale não comprovar a estabilidade das estruturas da Mina de Fábrica Nova, que estão localizadas acima de uma barragem de rejeitos. Por conta do risco iminente, o órgão federal determinou a evacuação de moradores de Santa Rita Durão, distrito de Mariana, na região Central de Minas Gerais.

O TEMPO obteve uma série de documentos que indicam que, segundo o Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBM) da mina, 295 pessoas estariam na Zona de Autossalvamento (ZAS). A interdição foi assinada na última sexta-feira (10 de novembro) pela Chefe da Divisão de Fiscalização de Lavra de Minas Gerais, Luciana Cabral.

“Resolve interditar e suspender de imediato as atividades de disposição de estéril de nas pilhas: PDE Permanente I, PDE Permanente II e PDE União Vertente Santa Rita (…) cujas atividades são realizadas pela empresa Vale S.A., em face da não comprovação da estabilidade das referidas pilhas, o que comprova risco iminente, ficando autorizada as atividades para restabelecimento da estabilidade das pilhas”, detalhou Luciana no Auto de Infração.

Imagem destaca os taludes das Pilhas de Estéreis, localizadas bem acima de uma barragem da mineradora - Foto: REPRODUÇÃO/LAUDO GEOTÉCNICO DE ESTABILIDADE/VALEImagem destaca os taludes das Pilhas de Estéreis, localizadas bem acima de uma barragem da mineradora — Foto: REPRODUÇÃO/LAUDO GEOTÉCNICO DE ESTABILIDADE/VALE

A desinterdição foi condicionada à apresentação da comprovação da estabilidade das pilhas de estéreis citadas no documento. Em outro documento, o superintendente de Segurança de Barragens de Mineração da ANM, Luiz Paniago Neves, chega a comparar o problema com outro caso recente, quando houve um deslizamento da pilha da Vallourec que atingiu o dique Lisa, provocando uma onda de lama que invadiu a BR-040.

“Neste caso em tela, se o mesmo ocorrer nestas estruturas, não teremos um problema com uma rodovia e sim com 295 pessoas residentes na ZAS. Como recomendação, sugerimos que a equipe da Superintendência de Fiscalização (SFI) entre em contato com o empreendedor visando a adoção d

A reportagem de O TEMPO procurou a Defesa Civil de Mariana para saber se já existe alguma previsão de evacuação dos moradores na ZAS, mas, até o momento, o órgão não se posicionou. A ANM também foi questionada sobre a interdição, e o seu posicionamento será incluído na reportagem assim que for recebido.

Estrutura passa por vistoria nesta segunda

A mineradora Vale também foi procurada e confirmou, por nota, a interdição da estrutura “preventivamente”. Além disso, a empresa confirmou que uma vistoria da ANM e da Defesa Civil na estrutura será acompanhada pela empresa nesta segunda-feira (13 de novembro).

O objetivo é trazer os esclarecimento necessários sobre as “condições de regularidade das estruturas”. “Importante reforçar que as estruturas geotécnicas da companhia são vistoriadas frequentemente pela agência reguladora e monitoradas permanentemente por equipe técnica especializada”, completou a mineradora.

Problema já teria três anos

Segundo ata de reunião realizada no último dia 10, o coronel Carlos Frederico Otoni Garcia, chefe do gabinete militar do governador e coordenador estadual da Defesa Civil de Minas Gerais, afirmou que a situação das PDE’s da Vale no distrito de Mariana não é nova, já que o relatório encomendado pela própria empresa foi produzido em 2020, há três anos, mas, somente agora, a ANM teria sido comunicada pela mineradora

“A equipe da Defesa Civil pondera que é necessário ir ao local para verificar os equipamentos de autoproteção, as rotas e sinalizações e informa que há 123 residentes na atual mancha com tempo de chegada de onda pouco superior a 30 minutos, cabendo colocar a barragem em nível de emergência, o que será melhor avaliado na vistoria conjunta”, completou o órgão durante a reunião. A barragem que está sob as estruturas tem 6,7 metros de altura e 62 mil m³ de volume.


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “O TEMPO” [Aqui!].

Estudo aponta agrotóxicos como possível causa do aumento casos de leucemia em crianças no Brasil

Segundo o estudo, o glifosato pode ser um gatilho. As áreas de cultivo de soja são particularmente afetadas. Aprovações de agrotóxicos não diminuíram no governo Lula

glifo ame21O governo Lula mantém o ritmo do governo anterior de Jair Bolsonaro no que diz respeito a aprovações de agrotóxicos. Fonte:© ULRIKE BICKEL

Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Brasília/WashingtonUm novo estudo dos EUA relaciona o aumento dos casos de leucemia infantil, a expansão do cultivo de soja e o uso generalizado de agrotóxicos nas plantações de soja no Brasil. A publicação surge em meio a discussões no congresso brasileiro sobre um projeto de lei para desregulamentar ainda mais e acelerar a aprovação de agrotóxicos, que os críticos descrevem como um “pacote do veneno” .

O estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), documenta que pelo menos 123 mortes adicionais entre crianças menores de dez anos entre 2008 e 2019 estavam ligadas ao uso de agrotóxicos no cultivo de soja na região seca do Cerrado, região de savana, e na floresta amazônica.

Os pesquisadores conseguiram constatar que, entre 2000 e 2019, a área cultivada com soja no Cerrado triplicou, de cinco para 15 milhões de hectares, enquanto na floresta amazônica cresceu 20 vezes: de 0,25 para cinco milhões de hectares. A utilização de agrotóxicos nas duas regiões examinadas aumentou de três a dez vezes durante o mesmo período.

Este aumento anda de mãos dadas com o número de casos de câncer. De acordo com os cálculos do estudo, por cada aumento de 10% na produção de soja, ocorreram quatro mortes adicionais em crianças menores de cinco anos e 2,1 mortes adicionais em crianças menores de dez anos por 100.000 habitantes.

Cerca de metade das mortes infantis por leucemia entre 2000 e 2019 estão ligadas à intensificação agrícola da produção de soja e à exposição das crianças a agrotóxicos, de acordo com a autora principal, Marin Elisabeth Skidmore . O contato com os produtos químicos ocorreu através das águas superficiais quando a produção de soja e o uso de agrotóxicos ocorrem a montante na área de captação.

O número de agrotóxicos aprovados no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva já subiu para 431 no início de Novembro e espera-se que continue a aumentar até ao final do ano. O atual governo está mantendo o ritmo do governo anterior do presidente de ultradireita Jair Bolsonaro no que diz respeito à aprovação de agrotóxicos.

Nos últimos anos, vários estudos mostraram a ligação entre o uso intensivo de agrotóxicos no Brasil, o aumento das taxas de câncer e outros problemas de saúde . Segundo levantamento da Agência Pública e Repórter Brasil, mais de 14 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil de 2019 a março de 2022 .

Os 21 agrotóxicos recentemente aprovados são produtos concentrados que têm de ser misturados para serem vendidos comercialmente. Segundo uma análise inicial, 17 dos produtos aprovados são de empresas chinesas e os outros quatro de empresas indianas. A maioria dos agrotóxicos vendidos no Brasil e em outros países do sul global vem agora da China e da Índia.

Estes são genéricos mais baratos ou produtos “pós-patente”. Muitas vezes já não são permitidas no país de origem da patente ou estão atualmenteproibidas porque são muito perigosas para o ambiente e para a saúde humana.

Segundo a análise, o Brasil usa 2,3 vezes mais agrotóxicos por hectare que os Estados Unidos e três vezes mais que a China, que ocupa o primeiro e o terceiro lugar em uso absoluto de agrotóxicos. O uso de agrotóxicos no cultivo de soja brasileiro aumentou, principalmente após a primeira aprovação de variedades de soja geneticamente modificada em 2004.

Um novo estudo realizado por cientistas da Europa, dos EUA e da América do Sul sugere uma possível ligação entre a explosão de casos de leucemia infantil e o uso do glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo. Mesmo doses de 0,5 mg por quilograma de peso corporal por dia, atualmente consideradas seguras na União Europeia, têm efeitos negativos, concluiu o estudo.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), que anteriormente classificou o glifosato como não cancerígeno, tem de reexaminar a aprovação do ingrediente ativo na sequência de uma ordem judicial porque não investigou adequadamente se o ingrediente ativo provoca cancro. Nos últimos anos, o mais alto tribunal dos EUA no país ordenou à empresa química e farmacêutica alemã Bayer, que comprou a Monsanto, que indemnizasse as vítimas do glifosato, muitas das quais desenvolveram leucemia.

A Organização Mundial da Saúde classificou o glifosato como perigoso para a saúde humana e “provavelmente cancerígeno para os seres humanos” em 2015. Na União Europeia, a aprovação do glifosato expira em 15 de dezembro deste ano, mas até agora não há maioria entre os estados membros da UE a favor de uma extensão nem de uma proibição.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo Amerika21 [Aqui!] .

A produção planejada de combustíveis fósseis excede amplamente os limites das metas climáticas globais

Entre os 20 principais países produtores de combustíveis fósseis, os EUA, o Brasil e a Arábia Saudita prevêem aumentos significativos na produção interna de petróleo, enquanto a Rússia, a Índia e a Indonésia projectam aumentos substanciais na produção de carvão

Gas Exports Reckoning

Guindastes de construção são recortados ao pôr do sol no Terminal Golden Pass LNG em Sabine Pass, Texas, em abril de 2022. Golden Pass LNG, uma joint venture entre a ExxonMobil e a Qatar Petroleum, começou como um terminal de importação e a construção vista hoje criará capacidade de exportação. Crédito: The Washington Post via Getty Images

Por  Nicholas Kusnetz para o Inside Climate News

Os principais países produtores de combustíveis fósseis do mundo ainda planejam aumentar a sua produção de petróleo, gás e carvão muito além do que as metas climáticas mundiais permitiriam, de acordo com um novo relatório das Nações Unidas. 

As conclusões revelam uma lacuna cada vez maior entre as promessas de redução de emissões que estas nações fizeram e as suas políticas contínuas para promover a mineração e a perfuração dentro das suas fronteiras.

Embora a grande maioria dos países tenha adoptado compromissos de zero emissões líquidas para reduzir as suas emissões climáticas, os seus próprios planos e projeções colocam-nos no caminho certo para extrair mais do dobro do nível de combustíveis fósseis até 2030 do que seria consistente com a limitação do aquecimento a 1,5 graus. Celsius, e quase 70% mais do que seria consistente com 2 graus Celsius de aquecimento, de acordo com um relatório divulgado quarta-feira pelo Programa Ambiental da ONU. 

Os cientistas dizem que além de 1,5 graus de aquecimento, mudanças mais extremas e perigosas nos sistemas planetários tornar-se-ão cada vez mais prováveis.

Esta “disparidade de produção” entre a produção planejada e os objetivos climáticos é um aviso, afirma o relatório, de que a transição dos combustíveis fósseis continua fora de curso.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou as descobertas como “uma acusação surpreendente de descuido climático descontrolado”.

Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, disse num comunicado que acompanha o relatório que “os planos dos governos para expandir a produção de combustíveis fósseis estão minando a transição energética necessária para alcançar emissões líquidas zero, colocando em questão o futuro da humanidade”.

O relatório sobre a lacuna de produção de 2023, produzido por quatro grupos de reflexão sobre o clima em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Ambiente, analisou os planos e projeções publicados pelos governos de 19 dos 20 maiores países produtores de combustíveis fósseis (os dados da África do Sul não estavam disponíveis). Os autores utilizaram esses dados para chegar a estimativas de produção global que compararam com a modelização do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas do fornecimento de combustíveis fósseis em vários cenários climáticos.

Esta lacuna de produção permaneceu praticamente inalterada desde 2019 , o primeiro ano em que os grupos publicaram o relatório. Os autores disseram que isso destacou o facto de que, apesar da maior ambição de introduzir formas de energia mais limpas, os governos ainda não começaram a lutar para decidir como irão cortar o fornecimento de combustíveis fósseis.

Embora muitas nações tenham anunciado metas climáticas mais ambiciosas, os subsídios aos combustíveis fósseis atingiram o seu nível mais elevado no ano passado, de acordo com o Fundo Monetário Internacional . Em alguns casos, os governos estavam a responder às consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia, que fez disparar os preços das matérias-primas e reordenou os mercados globais de energia.

Funcionários da administração Biden, por exemplo, apelaram às empresas de petróleo e gás para aumentarem a produção para compensar a perda de produção russa e continuaram a apoiar novos terminais para exportar gás natural em todo o mundo. Esta expansão, disseram as autoridades, é necessária para ajudar a proteger a segurança energética e estabilizar os mercados.  Em outros casos, os governos continuam a apoiar a produção devido às receitas das quais dependem com a venda de petróleo, gás e carvão, ou ao seu desejo de reduzir as importações de energia.

Embora muitos desses argumentos possam ter mérito por si só, “quando você junta tudo isso, é isso que leva à lacuna de produção”, disse Michael Lazarus, principal autor do relatório e diretor do centro dos EUA no Instituto Ambiental de Estocolmo. durante uma apresentação para jornalistas.

A diferença continua a ser maior no caso do carvão, com os governos a prepararem-se para produzir 460% mais do combustível poluente em 2030 do que a meta de 1,5 graus permitiria. Para o petróleo, os planos do governo excedem o orçamento em quase 30 por cento, enquanto para o gás excedem-no em mais de 80 por cento.

Estas estimativas baseiam-se em modelos que pressupõem algum grau de sucesso para tecnologias que capturariam as emissões de dióxido de carbono das chaminés e as removeriam da atmosfera, o que significa que o mundo poderia continuar a utilizar pequenas quantidades de combustíveis fósseis durante mais tempo. Mas nenhuma destas tecnologias foi ainda implementada numa escala significativa, alertaram os autores, pelo que uma abordagem mais cautelosa exigiria a eliminação progressiva da produção de combustíveis fósseis ainda mais rapidamente do que a sua análise sugere.

Das 20 nações examinadas pelo relatório, 17 assumiram compromissos de neutralidade em carbono, mas nenhuma alinhou as suas políticas de produção de combustíveis fósseis com a limitação do aquecimento a 1,5 graus. O Brasil, a Arábia Saudita e os Estados Unidos prevêem aumentos significativos na produção interna de petróleo, enquanto o Qatar e a Rússia projectam os maiores aumentos na produção de gás. Para o carvão, a Índia, a Indonésia e a Rússia planeiam aumentos significativos, o que contrariaria as grandes reduções planeadas pela China e pelos Estados Unidos. No caso do petróleo e do gás, os únicos produtores que planeiam quedas significativas na produção são a Noruega e o Reino Unido.

O risco, afirma o relatório, é que os países invistam excessivamente no fornecimento de novos combustíveis fósseis, retardando a transição do carvão, do petróleo e do gás e potencialmente desperdiçando milhares de milhões de dólares em projetos que poderão ser desnecessários à medida que mais fontes de energia limpa forem disponibilizadas. No mês passado, a Agência Internacional de Energia disse que espera que a procura por todos os combustíveis fósseis atinja o pico nesta década.

Embora o relatório da ONU se concentre no risco para as nações, outro estudo divulgado esta semana examinou o risco que enfrentam os investidores e acionistas que apoiam as empresas petrolíferas cotadas na bolsa. Numa nova análise , a Carbon Tracker Initiative, um think tank financeiro centrado no clima, argumentou que as empresas petrolíferas não estão a conseguir antecipar o próximo pico da procura e o inevitável declínio que se seguirá e, como resultado, planeiam gastar centenas de milhares de milhões em investimentos que podem não proporcionar retornos.

“As empresas que planeiam uma forte procura de petróleo nas próximas duas décadas podem ser apanhadas de surpresa”, disse Mike Coffin, chefe de petróleo, gás e mineração da Carbon Tracker.

Apontando para as projecções da Agência Internacional de Energia, o relatório afirma que as empresas devem concentrar-se em projectos de petróleo e gás de curto prazo, diversificando os seus negócios ou devolvendo dinheiro aos accionistas, em vez de investir em novos fornecimentos.

A mensagem do relatório sobre a lacuna de produção é semelhante e aponta para alguns sinais de progresso. Canadá, China, Alemanha e Indonésia começaram a desenvolver cenários para alinhar a produção nacional com metas neutras em carbono, afirmou. A Colômbia, um produtor de petróleo, juntou-se recentemente a um grupo de países comprometidos com a eliminação progressiva da produção de petróleo e gás.

O relatório alerta que uma transição para o abandono dos combustíveis fósseis poderá, se não for devidamente planeada, impor encargos adicionais às nações mais pobres, que são altamente dependentes das receitas provenientes da produção. Para resolver esta questão, os autores apelaram às nações ricas e menos dependentes, como os Estados Unidos, para eliminarem gradualmente a produção mais rapidamente e também para ajudarem a financiar as transições nos países em desenvolvimento.

Um modelo emergente inclui as chamadas Parcerias para uma Transição Energética Justa, onde as nações ricas comprometem-se a financiar para ajudar os países a substituir os combustíveis fósseis por energia limpa. Os Estados Unidos e outros países formaram estas parcerias com a Indonésia, a África do Sul e o Vietname para eliminar gradualmente as centrais eléctricas a carvão.

O alinhamento dos planos para a produção de combustíveis fósseis com outros objectivos climáticos ajudaria a evitar os choques de preços e os desfasamentos entre a oferta e a procura que abalaram a economia global desde que a pandemia do coronavírus provocou uma queda acentuada no consumo de energia em 2020, afirma o relatório. Isso exigirá um nível de cooperação entre as nações que tem faltado até agora.

O Acordo de Paris foi notoriamente omisso sobre a produção de combustíveis fósseis, e as negociações recentes revelaram divergências sobre se os países estavam dispostos a comprometer-se com a eliminação progressiva do carvão, do petróleo e do gás. O novo relatório da ONU surge poucas semanas antes de as nações se reunirem novamente para a sua cimeira anual sobre o clima, no Dubai, e os autores disseram que uma das principais mensagens do relatório é que os negociadores finalmente adoptem metas para reduzir a produção.


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Este trecho escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Inside Climate News [Aqui!].