Povos indígenas amazônicos do Brasil com altas taxas de HIV, mostra estudo

HIV indígena

São urgentemente necessárias estratégias de saúde que abordem as necessidades específicas dos povos indígenas, com ênfase no VIH. Na foto, indígenas do povo Bororó, no Mato Grosso do Sul, Brasil. Crédito da imagem: Valter Campanato/Agência Brasil , sob licença Creative Commons (CC BY 3.0 BR)

Os pesquisadores constataram que a infecção pelo HIV nesta população é de 0,93 por cento, valor superior ao observado em outros grupos indígenas brasileiros e ainda superior ao da população geral daquele país, que é de 0,6 por cento.

Uma medição anterior, realizada em 2012, entre esses grupos indígenas mostrou uma prevalência de 0,13%, segundo o estudo que será publicado na edição impressa de setembro do The Lancet Regional Health – Americas.

Além disso, aproximadamente 73,22 por cento dos 1.927 participantes nunca tinham sido testados para o HIV, hepatite ou sífilis, destacando a falta de acesso aos serviços de saúde e a pouca consciência da importância do diagnóstico precoce. A idade média dos participantes foi de 34,2 anos, sendo a maioria mulheres (74 por cento).

“A maior parte da população reside nas proximidades da cidade e é influenciada por moradores urbanos não indígenas que têm fácil acesso a eles. Além disso, esses indígenas frequentemente se aventuram em territórios diferentes dos seus, o que impacta a dinâmica de sua comunidade e os expõe a riscos como consumo de álcool e trabalho sexual ”, afirmam os pesquisadores.

O objetivo não foi apenas estudar a prevalência da infecção pelo HIV entre a população indígena residente nesta região fronteiriça com o Paraguai e a Bolívia, mas também identificar os principais fatores de risco associados à infecção, para então analisar o perfil molecular do vírus circulante.

O estudo também avaliou a eficácia dos tratamentos entre indígenas que vivem com HIV e o surgimento de possíveis mutações de resistência aos medicamentos.

Segundo Simone Simionatto, professora associada da Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais da Universidade Federal da Grande Dourados e autora principal do estudo, foram identificados diferentes subtipos de HIV-1, sendo o subtipo C o mais prevalente.

Esta descoberta é surpreendente, uma vez que na América Latina o subtipo predominante é o b, o que leva a pensar que os povos indígenas foram expostos ao HIV ‘importado’ por pessoas de outras regiões, disse John Mario González ao SciDev.Net, professor de imunologia da Universidad de los Andes (Bogotá, Colômbia).

“Encontramos mutações de resistência a medicamentos em algumas amostras, enfatizando a importância da vigilância molecular para orientar estratégias de tratamento”, diz Simionatto.

Para chegar a essas descobertas, os cientistas realizaram uma investigação transversal, com entrevistas com os participantes, abordando aspectos como idade, sexo, estado civil, escolaridade, histórico de uso de drogas, histórico sexual, histórico de transfusões sanguíneas e infecções sexualmente transmissíveis . .

Descobriram que a prevalência do HIV-1 era mais elevada em indígenas solteiros, que recebiam benefícios governamentais, tinham menos de cinco anos de educação formal, faziam sexo com consumidores de drogas injetáveis ​​e tinham um historial de infecções sexualmente transmissíveis e de prisão.

De acordo com Simionatto, as conclusões destacam a necessidade de implementar estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV “culturalmente sensíveis” que atendam às necessidades específicas dos povos indígenas.

“A identificação de subtipos de resistência e mutações pode orientar os profissionais de saúde a fornecer tratamentos mais eficazes e personalizados para pacientes indígenas com HIV. Os resultados sublinham a importância de aumentar a consciencialização sobre o VIH e de melhorar o acesso aos serviços de saúde nestas comunidades”, afirma o cientista por e-mail.

“Compreender a prevalência do VIH e de outros problemas de saúde nestas aldeias permite-nos reconhecer a ligação inseparável entre a saúde humana e o bem-estar ambiental. Esta compreensão pode orientar os decisores políticos e as partes interessadas na implementação de estratégias abrangentes que tenham em conta tanto a saúde ambiental como a conservação ” , afirma.

“Este tipo de pesquisa é de crucial importância, porque ajuda a compreender o abandono histórico vivido por todas as populações nativas do mundo, e particularmente na América Latina e no Caribe”.

John Harold Estrada, professor titular de saúde coletiva da Universidade Nacional da Colômbia

Para John Harold Estrada, professor titular de saúde coletiva da Universidade Nacional da Colômbia, as descobertas estão de acordo com o que foi encontrado anteriormente sobre a prevalência do HIV nas comunidades indígenas ao redor do mundo, que é que “todas as populações aborígenes têm infecção taxas superiores às da população em geral, com melhor acesso à saúde. Isso é uma tragédia para todos os povos originários”, reconhece.

Uma das descobertas mais interessantes do estudo – na opinião de Estrada – tem a ver com a resistência que alguns dos pacientes apresentavam aos antirretrovirais, quer transmitidos, o que significa que o vírus com o qual foram infectados já vinha com mutações que tornam os medicamentos ineficaz, ou adquirida, que ocorre quando o vírus sofre mutação após entrar em contato com a droga, para sobreviver.

“Esse cenário é muito grave, porque significa uma enorme barreira para conseguir controlar as pandemias , pois indica que serão necessários medicamentos de acesso mais difícil e caro. Esse tipo de pesquisa é de crucial importância, porque ajuda a compreender o abandono histórico vivido por todas as populações nativas do mundo, e particularmente na América Latina e no Caribe”, ressalta.

 Link para artigo no The Lancet Regional Health – Americas


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Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net [Aqui!].

Divulgando livro que trata a questão dos agrotóxicos de forma integrada

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A questão dos agrotóxicos é certamente um dos pontos de maior interesse deste blogueiro, pois considero que o Brasil é hoje o lócus de um experimento avançado das corporações químicas globais que fizeram do nosso país um ponto estratégico para a geração de lucros estratosféricos às custas da saúde dos brasileiros.

Em função disso é com satisfação que estou disponibilizando hoje a obra “Desastres sócio-sanitário-ambientais do agronegócio e resistências agroecológicas no Brasil” que tem o professor Wanderlei Antonio Pignati da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), um dos maiores conhecedores dos impactos terríveis que o uso amplo, geral e irrestrito de agrotóxicos está causando na saúde humana no Brasil.

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A partir de um enfoque multidisciplinar, este livro permite aos seus leitores entender não apenas as consequências devastadoras dos agrotóxicos sobre os brasileiros, mas também oferece alicerces teóricos e metodológicos para que novos estudos sejam realizados, de forma a ampliar o conhecimento existente sobre a guerra química que está em curso no Brasil neste momento.

Os interessados em baixar o arquivo contendo a íntegra desta importante obra, basta clicar [Aqui!].

Esgoto jorrando ao lado do Restaurante Universitário explicita necessidade de mudança na Uenf

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Há alguns dias li em um perfil no Instagram que os estudantes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) estavam reclamando do odor de esgoto ao acessarem o Restaurante Universitário para fazer as suas refeições diárias.  Como trabalho em frente, dei uma rápida passada pelas laterais do RU e confirmei que realmente ali havia um leve cheiro de esgoto.

Mas hoje quase cai para trás quando retornava de uma visita ao posto do Bradesco que existe dentro do campus Leonel Brizola e verifiquei que parte do bosque de ipês que existem no caminho estava inundada com algo que parecia esgoto. Alguns passos após, me defrontei com uma dessas cenas que não se esperava ver em um campus universitário e logo ao lado do local onde a comunidade universitária faz suas refeições diárias (ver vídeo abaixo).

O mais problemático é que estando o campus Leonel Brizola localizado praticamente às margens do Rio Paraíba do Sul, todo esse esgoto que transbordava das estruturas de coleta certamente achará seu caminho para a calha fluvial, lançando ali sabe-se que tipo de rejeitos (não necessariamente apenas orgânicos).

Esta situação vai totalmente de encontro à narrativa da chapa apoiada pela reitoria da Uenf nas eleições que irão ocorrer nos dias 16 e 19 de setembro próximos. Quem ouve os candidatos da chamada chapa 10 falando pode ficar com a impressão que a Uenf efetivamente chegou ao Terceiro Milênio da forma que Darcy Ribeiro almejava.

A verdade é que o esgoto que jorra de forma descontrolada no vídeo acima é um testemunho perfeito da condição caótica em que a atual administração liderada pelos professores Raul Palacio e Rosana Rodrigues colocaram a Uenf.  O fato inescapável é que a propaganda eleitoral da chapa 10 não corresponde à realidade cotidiana.

E tampem seus narizes aqueles que forem se alimentar no Restaurante Universitário da Uenf.

Terras indígenas, “ar-condicionado” do Brasil: temperatura no Xingu é 5°C menor do que em áreas desmatadas

Proteção da floresta por povos indígenas tem efeito semelhante em toda a Amazônia Legal, com menos 2°C na temperatura média em comparação a áreas não protegidas, mostra novo estudo

Terra indígena facilita meta climática - ((o))eco

A temperatura média anual dentro do Território Indígena do Xingu é 5°C menor do que a registrada no entorno, onde predominam monoculturas e pastagens, que podem chegar a 40°C. O efeito de “ar-condicionado”, proporcionado pela proteção da floresta por povos indígenas, se repete em toda a Amazônia Legal: terras indígenas têm 2°C a menos de temperatura em comparação com áreas não protegidas.

Os dados são de uma nota técnica divulgada nesta terça-feira (5), Dia da Amazônia, pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em parceria com o Centro de Pesquisa em Clima Woodwell.

A publicação é a segunda da série iniciada em junho, pelo IPAM, com análises que calculam os riscos impostos aos direitos indígenas, à biodiversidade e ao clima pelo PL 2903/2023, em pauta no Senado Federal, e pela tese do Marco Temporal das terras indígenas, em julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal).

Leia o novo estudo na íntegra.

A explicação para a diferença de temperatura está na evapotranspiração, um serviço ecossistêmico prestado pela vegetação nativa que funciona como uma “chuva às avessas”. No Território Indígena do Xingu, a evapotranspiração é quase três vezes maior do que em áreas desmatadas: a floresta viva e saudável dentro da terra indígena consegue bombear até 1.440 milímetros de água (por metro quadrado) ao ano para a atmosfera – no entorno, onde foi desmatada, não passa de 540 milímetros.

O estudo calcula uma evapotranspiração 9% maior em áreas ancestralmente ocupadas por povos indígenas em toda a Amazônia Legal em relação a áreas não protegidas. A porcentagem pode parecer pequena, mas as dimensões que representam são suficientes para alterar o regime regional de chuva.

Para as pesquisadoras, além da perda dos direitos originários territoriais, a aprovação do projeto de lei e validação da tese do marco temporal reduziriam “drasticamente a umidade e as chuvas na região” amazônica.

“O Estado brasileiro tem um enorme passivo para demarcar terras indígenas. A aprovação do PL 2903 e da tese do Marco Temporal significa aumentar ainda mais a dívida histórica do país com os povos originários e, em seu bojo, traz também riscos climáticos que colocam em xeque o nosso futuro”, diz Martha Fellows, coordenadora no núcleo de estudos indígenas do IPAM e autora do estudo.

A nota técnica mostra que terras indígenas na Amazônia Legal guardam 55 bilhões de toneladas de carbono, o equivalente a 26 anos de emissões brutas do Brasil. Com a possibilidade de avanço de atividades ilegais sobre essas áreas, apresentada pelas medidas em tramitação, tal estoque estaria comprometido, assim como as metas climáticas do país. “As metas brasileiras de redução de emissões, ou o compromisso com desmatamento zero até 2030 na Amazônia, cairão por terra”, constata um trecho do texto.

Se aprovadas, as propostas dariam início a consequências em cascata, elenca o estudo, partindo do risco à vida dos povos originários, passando pela ameaça à produção de alimentos no Brasil, até o equilíbrio climático. O aumento do desmatamento e da degradação na floresta amazônica, impactos socioambientais ligados ao PL 2903 e à tese do Marco Temporal, causaria alterações no regime de chuvas e na aridez do ar, rompendo com a segurança hídrica da Amazônia e do país.

A continuação do julgamento no STF está marcada para 20 de setembro. Cinco ministros ainda não votaram. No Senado, a matéria está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania.

Filme inédito explora ligação controversa entre Europa e Brasil na fabricação e uso de agrotóxicos

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O documentário inédito Pesticidas: O Pesadelo Brasileiro”, a ser exibido no Curta!, revela a perigosa ligação entre a Europa e o Brasil na fabricação e no consumo de agrotóxicos O filme, realizado por Stenka Quillet e escrito por Anne-Vigna com Nicolas Glimois, foca em dois grandes eixos: os grandes fabricantes europeus que faturam bilhões com a exportação de agrotóxicos proibidos na Europa e o uso indiscriminado desses mesmos produtos pelos gigantes do agronegócio brasileiro. Há ainda uma consequência inesperada para os próprios europeus: como num círculo vicioso, eles importam o que é produzido nas plantações brasileiras e, consequentemente, acabam consumindo agrotóxicos proibidos em seus países.

“Pesticidas: O Pesadelo Brasileiro” mostra que, a cada ano, cerca de 80 mil toneladas dessas substâncias são vendidas ao país por empresas como a suíça Syngenta e as alemãs Basf e Bayer. Em paralelo, aqui há uma legislação permissiva ao uso de químicos já banidos em solo europeu há décadas, além de práticas também proibidas como a disseminação através de aviões de pequeno porte. 

Enquanto tais corporações lucram, cidades inteiras — sobretudo os trabalhadores rurais — sofrem com as consequências da contaminação dos alimentos, do solo e da água. Além das gigantescas áreas ocupadas pelas monoculturas de soja, milho e algodão — que tomam o lugar de matas nativas do Cerrado brasileiro —, o agronegócio brasileiro cria “zonas de sacrifício”, onde a população está mais vulnerável aos impactos dos agrotóxicos. Como num círculo vicioso, os europeus importam o que é produzido nas plantações brasileiras e, consequentemente, acabam consumindo agrotóxicos proibidos em seus próprios países.

O documentário baseia-se na pesquisa da professora da USP e geógrafa Larissa Bombardi, que revela como a indústria química europeia depende da expansão das áreas agrícolas no Brasil. Ao ser convidada a Bruxelas por eurodeputados, a professora pediu à União Europeia que revisse seus padrões de comércio e impedisse suas transnacionais de venderem ao Brasil os defensivos agrícolas proibidos pelo bloco. 

“É desumano vender substâncias que são proibidas no próprio território. A população no Brasil vale menos? Cerca de 20% da população intoxicada no Brasil é composta por crianças e jovens de 0 a 19 anos. Então, estamos diante de uma forma de infanticídio. Eu fico tranquila para usar essa palavra porque os dados mostram isso. O que são 500 bebês intoxicados com agrotóxicos? Como isso é possível?”, disse Bombardi em depoimento para o documentário. Os dados alarmantes apresentados por ela indicam que o total de bebês intoxicados pode chegar a 25 mil. 

No Brasil, o tema dos agrotóxicos parece ser um tabu devido ao grande poder político-econômico do agronegócio. No entanto, jornalistas, pesquisadores, cientistas e demais ativistas ambientais se esforçam para informar a população e pressionar os parlamentares. O documentário destaca que, a cada ano, cinquenta deles são assassinados no Brasil. A própria produção do filme foi marcada por incidentes, incluindo ameaças a membros da equipe e a necessidade de apagar partes da gravação devido a pressões locais.

O documentário traz um pouco do contexto político dos últimos anos. Após a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, os grandes donos do agronegócio — apelidados de “ruralistas” — ganharam carta branca para garantir seus interesses. Por fim, o longa deixa em aberto o que acontecerá com a política ambiental do Brasil a partir de 2023, com o início de um novo governo. O noticiário recente, porém, revela que nada mudou. No primeiro semestre deste ano, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento aprovou o registro de 231 pesticidas, mantendo um ritmo semelhante ao do primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro.

“Pesticidas – O Pesadelo Brasileiro” pode ser assistido também no Curta!On – Clube de Documentários, disponível na Claro TV+ e em CurtaOn.com.br. Novos assinantes inscritos pelo site têm sete dias de degustação gratuita de todo o conteúdo. O documentário tem produção da ARTE France. A estreia é na Sexta da Sociedade, 8 de setembro, às 23h.

América Latina lidera plano para prevenir a mineração marinha

mineração marinha

Vários países exigem mais evidências científicas para evitar que a biodiversidade ecológica do fundo do mar seja colocada em risco. Crédito da imagem: Gary J. Wood/Flickr , sob licença Creative Commons (CC BY-SA 2.0)

Por Aleida Rueda para a SciDev

[CIDADE DO MÉXICO] Enquanto alguns países pressionam pelo lançamento de projetos de mineração para extrair minerais preciosos do fundo do mar , outros, incluindo vários na América Latina, estão desempenhando um papel fundamental nas negociações internacionais para evitá-lo.

É o caso do Chile, Costa Rica, Equador, Panamá, República Dominicana e Brasil, que nas últimas reuniões da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), realizadas em Kingston, Jamaica, promoveram uma proposta de pausa preventiva para evitar qualquer projeto de mineração até que seus riscos potenciais sejam totalmente conhecidos.

“Esse grupo de países latino-americanos tem sido tremendamente fundamental”, disse ao SciDev o chileno Diego Lillo Goffreri, advogado sênior da equipe de ecossistemas da Associação Interamericana de Defesa Ambiental (AIDA), uma organização observadora das reuniões da OIT. .Net .ISA .

Este bloco tem insistido em “travar a negociação enquanto não existem condições para que ela se concretize”. Além disso, pedem um “pacote completo de regulamentações que inclua a melhor ciência disponível, a garantia de que a mineração marinha trará benefícios e que não serão apenas custos económicos e ambientais para os países em desenvolvimento”, explica Lillo.

A proposta consiste numa política geral de protecção do meio marinho, que incluirá a discussão da pausa cautelar, cujos tempos dependerão do acordo alcançado. A proposta será discutida na próxima reunião da ISA, no final de julho de 2024 e, caso haja quórum (81 dos 167 países membros da ISA) poderá ser colocada em votação.

A região em questão é a Zona Clarion-Clipperton (CCZ), localizada no Oceano Pacífico, do Havaí ao México, porque em seu fundo marinho existem milhares de nódulos polimetálicos com quantidades aparentemente imensas de cobalto e níquel, minerais que seriam usados ​​para construir carros elétricos.

Dos 31 contratos de exploração mineral de fundos marinhos aprovados pelo ISA, 19 foram para nódulos polimetálicos, e 17 deles foram requeridos no CCZ.

“O argumento verde é que precisamos dos minerais do fundo do mar para a transição energética”, disse Daniel Cáceres Bartra, biólogo marinho peruano e representante da organização Sustainable Ocean Alliance (SOA), ao SciDev.Net . Muitos promoveram esses minerais “como o grande milagre, porque supostamente estavam lá descansando e iam buscá-los”.

Mas agora sabe-se que esta área possui uma grande riqueza ecológica visto que os nódulos são o habitat de muitas espécies. Alguns são conhecidos, como esponjas e corais, mas a maioria é desconhecida.

Um estudo recente confirmou que “há uma falta histórica de trabalho taxonômico na região” e que “a proporção geral de espécies não descritas na ZCC é estimada em 92 por cento”.

“Se não sabemos que espécies existem, muito menos saberemos que papel desempenham ou como interagem com os processos de incidência global”, disse María Jesús Ovalle, engenheira chilena em recursos naturais renováveis ​​e analista internacional independente, ao SciDev. Net,. Ainda há muito por saber, mas a falta de provas científicas “não é razão para não tomarmos medidas para proteger o ambiente marinho”, afirma.

A preocupação com a possível exploração da área aumentou devido ao fato de, na última reunião do ISA, realizada em meados de julho, não ter sido alcançado acordo sobre a regulamentação. Isto implica que os países interessados ​​na mineração marinha, como Nauru, um pequeno país insular ao norte da Austrália, poderiam iniciar projectos para explorar o fundo do mar sem regulamentações existentes.

“Sem dúvida é um cenário de risco”, afirma Lillo. Há vários países interessados ​​em iniciar a exploração, e a falta de regulamentação favorece “que boa parte das decisões dependam da autorregulação dos países e da sua boa fé”.

“ Parece que os tomadores de decisão que fazem parte da ISA [Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos] não concordam que haja mais envolvimento de diferentes atores como a ciência, a sociedade civil, os povos indígenas. Trabalharam como se esses interesses no património comum da humanidade não existissem ou não fossem suficientemente relevantes ” .

Diego Lillo Goffreri, Associação Interamericana de Defesa do Meio Ambiente

Outra questão que preocupa os especialistas é a falta de transparência e diversidade de vozes nas negociações, especificamente de grupos da sociedade civil, da imprensa e dos povos indígenas .

“Parece que os tomadores de decisão que fazem parte da ISA não gostam do fato de haver mais envolvimento de diferentes atores como a ciência, a sociedade civil, os povos originários. Trabalharam como se esses interesses no património comum da humanidade não existissem ou não fossem suficientemente relevantes. Temos que mudar isso”, afirma Lillo.

“Na crise planetária em que nos encontramos, não podemos dar-nos ao luxo de iniciar novas indústrias extrativistas”, acrescenta Ovalle. “Se deixarmos tudo para a diplomacia e a ciência, pode haver uma discussão infinita. Acredito que o ímpeto da sociedade civil é fundamental para fazer pender a balança”.

Finalmente, para Cáceres, é necessário que os países latino-americanos que ainda não se manifestaram publicamente contra a mineração marinha o façam. Os dois casos mais importantes são o México e a Argentina, além de vários países que não vão às negociações.

“Precisamos que países como Colômbia, Peru, Venezuela compareçam às reuniões, possam ser observadores e estar presentes”. Um dos países que não se posicionou contra esta mineração é a Argentina. “Precisamos que a Argentina se alinhe com a moratória e a proibição da mineração submarina”, sublinha Cáceres.


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Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev.net [Aqui!].

Portos marítimos problemáticos

Os portos da Baixa Saxónia não atingem os objetivos econômicos, apesar de anos de subsídios fiscais. Fortes quedas no volume de negócios no primeiro semestre

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Subutilizado desde o início: O porto de contêineres Jade-Weser-Port em Wilhelmshaven (16 de setembro de 2022)

Por Burkhard Ilschner para o JungeWelt

Há 15 anos, em Janeiro de 2008, a revista Verkehrsrundschau de Munique citou o Ministro dos Assuntos Económicos da Baixa Saxónia, Walter Hirche (FDP), como tendo dito que os nove portos estatais iriam “aumentar enormemente o seu rendimento nos próximos cinco anos e ultrapassar os 100 marca de um milhão de toneladas”. A razão para tal foi o balanço de 2007 que acabava de ser apresentado, segundo o qual os portos movimentaram 64,6 milhões de toneladas no ano anterior.

Infelizmente, a Baixa Saxónia ainda não alcançou este nobre objetivo. Pelo contrário, apesar de anos de subsídios fiscais no valor de milhões para a expansão e modernização dos portos, as pessoas estão a afastar-se cada vez mais deles. Em 2022, foram alcançadas apenas 54,45 milhões de toneladas – e as coisas não parecem muito melhores no momento: por ocasião do 31º Dia do Porto da Baixa Saxônia, na última sexta-feira, no Elbhafen Stade, André Heim, Diretor Geral da empresa de marketing Seaports of Niedersachsen GmbH, teve que fazer um balanço do primeiro semestre de 2023, que apresenta um valor negativo de 2,13 por cento em relação ao mesmo período do ano anterior. Enquanto cerca de 26,74 milhões de toneladas foram movimentadas nos nove portos de janeiro a junho de 2022, foram cerca de 26,17 milhões nos primeiros seis meses deste ano.

Isso não parece uma grande diferença – mas se você observar como esses números são compostos, surge uma imagem diferente. O porto marítimo de Stade, por exemplo, que acaba de completar 50 anos, é apenas de médio porte, mas sofreu pesadas perdas no período aqui relatado, o primeiro semestre de 2023: 1,52 milhão de toneladas passaram pelos cais – no primeiro semestre de 2022 ainda eram 2,87 milhões, o que corresponde a menos 47%. Com menos 19%, Nordenham também apresenta um forte declínio – o regresso a curto prazo do manuseamento de carvão acabou. Emden, por outro lado, conseguiu aumentar fortemente, o que segundo informações oficiais se deve principalmente à movimentação de veículos, às exportações para a Grã-Bretanha e às importações (especialmente da VW) da África do Sul.

“Os portos marítimos da Baixa Saxónia – para o mundo energético de amanhã” foi o lema central do dia do porto; Consequentemente, tanto a expansão do potencial de energia eólica como o tema do GNL desempenharam um papel importante, embora isso só tenha sido refletido nos números de movimentação de forma limitada. Embora o porto de Cuxhaven, no Elba, tenha sido expandido significativamente como local para a Siemens Gamesa, o primeiro semestre do ano terminou com um fraco menos de  3%. Como é sabido, um terminal de GNL foi construído em Wilhelmshaven de uma forma extremamente problemática em termos de política ambiental e climática. Com cerca de 1,5 milhão de toneladas de movimentação de gás liquefeito, isso melhorou estatisticamente as quedas em outras áreas – como também aqui a movimentação de carvão – Wilhelmshaven alcançou um aumento de cerca de 700.000 toneladas ou 4,5%.

Todos estes números têm uma coisa em comum: as circunstâncias ou outras são sempre as culpadas, nunca um mal planejamento ou – veja no início – reivindicações excessivas. Os “suspeitos do costume” incluem o enfraquecimento da procura global, a inflação elevada, as taxas de juro mais elevadas, a guerra na Ucrânia e, claro, os elevados preços da energia. Estes últimos, em particular, foram uma razão bem-vinda para o Ministro de Estado da Economia, Olaf Lies (SPD), apoiar a atual campanha de partes do seu partido a favor de um preço subsidiado da electricidade industrial: A indústria com utilização intensiva de energia, como a de Stade, precisa urgentemente desse alívio para para poder produzir competitivamente. E não esquecer: os portos marítimos são garantidores da transição energética, pelo que a sua expansão é uma tarefa nacional – juntamente com Bremen e Hamburgo, Lies exige urgentemente mais dinheiro do governo federal.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Um momento para agradecer os apoiadores que garantiram a renovação da assintura do blog

Muito obrigado a todos! | Trivalor

Em fevereiro de 2021 lancei aqui uma convocação aos leitores deste espaço para que participassem do esforço financeiro de renovar a assinatura anual cobrado pelo WordPress.  A campanha financeira não foi além daquela postagem, mas um pequeno grupo de leitores enviou valores que basicamente garantiram o pagamento das taxas anuais que são cobradas para manter o “Blog do Pedlowski” funcionando. 

A este pequeno grupo de leitores quero deixar o meu agradecimento e o compromisso de manter um espaço que traga informações que normalmente não circulam na mídia corporativa ou nem na alternativa.

O Blog do Pedlowski seguirá funcionando por causa de seus leitores e para os seus leitores.

Corporações transnacionais intensificam a ofensiva contra os países latino-americanos

As grandes empresas estão cada vez mais processando tribunais de arbitragem e exigindo pagamentos de indenizações no valor de milhões

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As empresas multinacionais fazem cumprir as suas leis ao mesmo tempo que enfraquecem as políticas públicas dos países do Sul Global. Fonte:CORPORATIVAEUROPA

Por Sergei Ferrari, tradução:Klaus E Lehmann, para Currículo Latinoamericano e Amerka21

Entre o início do ano e 24 de julho, o Instituto Transnacional (TNI), com sede em Amsterdã, na Holanda, informou 18 novos processos movidos por grandes empresas norte-americanas e europeias contra países da América Latina e do Caribe. Um total de 364 casos deste tipo estão pendentes na Região, mais de metade dos quais foram instaurados nos últimos 12 anos. Como explica o TNI, a América Latina e as Caraíbas são uma das regiões do mundo mais afetadas pelo impacto da arbitragem internacional, tal como consagrado nos tratados comerciais internacionais.

Este mecanismo (solução de litígios investidor-estado, ISDS) é o meio popular das empresas transnacionais para resolver disputas entre investidores e estados quando vêem os seus interesses afetados. É um instrumento que permite aos investidores estrangeiros processar Estados em tribunais internacionais se considerarem que as políticas públicas desses Estados, incluindo as relacionadas com a protecção do ambiente ou da saúde, afectam os seus interesses e lucros.

Tais ações judiciais, que não reconhecem a jurisdição dos tribunais nacionais dos países em que estas empresas internacionais operam, são movidas por um pequeno grupo de advogados privados. Na sua função de árbitros, têm o poder de decidir sobre qualquer caso. Geralmente, esses advogados priorizam os lucros das empresas demandantes em detrimento do interesse público dos estados demandados. A história mostra que estas arbitragens globais normalmente beneficiam grandes corporações. Como resultado, os julgamentos contra os Estados garantem a estas empresas privadas milhões de lucros à custa dos respectivos cofres do Estado.

Todos contra o México

Durante o primeiro semestre de 2023, o México foi o país latino-americano sujeito a mais ações judiciais: oito no total. Honduras seguiram com três, Venezuela com duas ações e Colômbia, Equador, Costa Rica, Belize e Trinidad e Tobago com uma ação cada.

O caso do México é talvez o mais emblemático do primeiro semestre do ano devido ao número e variedade de grupos empresariais que o atacaram com este tipo de arbitragem.

Uma dessas ações foi movida pela mineradora canadense First Majestic Silver Corp. submetido. Esta é a segunda ação judicial iniciada pela empresa. Com a ação atual, está contestando autuações fiscais contra sua subsidiária local Primero Empresa Minera. O valor solicitado é desconhecido, mas no primeiro processo, o First Majestic pede US$ 500 milhões. A empresa canadiana conta com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte entre o México, o Canadá e os EUA (NAFTA) e o T-MEC, o novo acordo entre estes três países, em vigor desde julho de 2020, como base jurídica.

Outra ação judicial contra o país asteca foi movida por investidores norte-americanos da Arbor Confections, Inc., Mark Alan Ducorsky e Brad Dukosrsky, por US$ 80 milhões por causa de um arrendamento não pago de uma fábrica de doces em Ciudad Juárez.

A mineradora canadense Silver Bull Resources, Inc. também atacou o México por meio de sua subsidiária nos EUA. Opera a mina Sierra Mojada, no estado de Coahuila, com ricas jazidas de prata, chumbo e zinco. A empresa afirma não ter acesso à mina porque esta está bloqueada pelas comunidades locais. A ação, neste caso de US$ 178 milhões, foi movida junto ao Centro Internacional de Arreglo de Diferencias Relativas a Inversiones do Banco Mundial (Ciadi) .

Enerflex US Holdings Inc. e Exterran Energy Solutions LP iniciaram um novo litígio no início deste ano. As duas empresas petrolíferas e de gás norte-americanas e canadianas acusam o Estado mexicano de as forçar a pagar indemnizações a um dos seus empregados despedidos. Segundo eles, os tribunais mexicanos concederam a este funcionário uma quantia exorbitante. A reivindicação equivale a nada menos que US$ 120 milhões.

Por sua vez, a empresa norte-americana Access Business Group LLC, cuja subsidiária é a fabricante de alimentos Nutrilite, processa o México pela expropriação de 280 hectares de terras agrícolas. O México argumenta que a expropriação é legal porque se baseia num decreto presidencial de 1939 de Lázaro Cárdenas, quando duas cidades de Jalisco decidiram devolver terras às comunidades agrícolas locais. A Access Business está buscando mais de US$ 3 bilhões em compensação.

Por sua vez, a Amerra Capital Management LLC, afiliada ao fundo financeiro Amerra e ao banco JPMorgan Chase, abriu um novo processo contra o Estado mexicano por empréstimos e hipotecas não pagos de duas empresas açucareiras. O valor reclamado não é conhecido.

Comum a todos estes processos é que os vários investidores alegam violações dos tratados NAFTA e T-MEC, que incluem escudos legais e salvaguardas legais.

A ofensiva não para

As demais ações judiciais movidas perante tribunais arbitrais por empresas estrangeiras que operam na América Latina e no Caribe não são conceitualmente diferentes daquelas movidas contra o México. Isto aplica-se, nomeadamente, à ação judicial – a terceira do género – movida pelas operadoras holandesas e panamenhas de minas de ouro e diamantes Highbury International AVV, Compañía Minera de Bajo Caroní AVV e Ramstein Trading Inc. tratado (Tratado Bilateral de Inversión, TBI) entre este país sul-americano e a Holanda.

O Banreal Holding SL (investidores espanhóis) também atacou Caracas, reivindicando a expropriação de uma seguradora (La Previsora) e de um banco (Banco Real). Eles confiaram no TIB assinado entre a Espanha e a Venezuela para abrir a ação.

O Banreal Holding SL (investidores espanhóis) também atacou Caracas, reivindicando a expropriação de uma seguradora (La Previsora) e de um banco (Banco Real). Eles confiaram no TBI assinado entre a Espanha e a Venezuela para entrar com a ação.

Usando mecanismos semelhantes, a Lynton Trading LDT atacou o Equador. Embora haja pouca informação sobre este processo, a TNI alega que a empresa é uma das seis empresas offshore detidas por Luis Fuentealba Meier, um investidor chileno com operações de casino em várias partes da América Latina. A empresa era cliente da Mossack-Fonseca, o escritório de advocacia no centro do escândalo dos Panama Papers de 2016.

Esta é uma lista incompleta, mas exemplar, dos 18 novos processos judiciais enfrentados pelos países latino-americanos. Acções judiciais que mostram mais uma vez a extrema vulnerabilidade jurídica dos Estados ao poder transnacional que é encorajado por acordos de comércio livre que lhe dão um empurrãozinho legal para atacar.

O poder dos dólares e euros

O Centro para o Avanço do Estado de Direito nas Américas ( Carola ), da Universidade de Georgetown, em Washington, estima que existam 1.190 processos desse tipo em todo o mundo, 31,18% dos quais na América Latina e no Caribe. Seis em cada dez estados desta região foram processados ​​em arbitragem.

De acordo com o Centro, uma organização líder na investigação do direito e da política latino-americana, a região da América Latina e das Caraíbas esteve envolvida em 371 disputas deste tipo entre investidores e Estados até Dezembro do ano passado. Argentina com 62, Venezuela com 61, Peru com 45 e México com 40 procedimentos são os países do continente mais visados ​​pelas corporações transnacionais.

O TNI em Amesterdão estima que mais de 20 por cento dos casos latino-americanos envolvem os sectores mineiro, do petróleo e do gás, que são de grande importância estratégica. Até o momento, seis em cada dez ações judiciais foram decididas a favor dos investidores, segundo o instituto. Como resultado, os estados foram multados ou comprometeram-se a pagar 33,638 mil milhões de dólares. Segundo as Nações Unidas, um terço deste montante poderia eliminar a pobreza extrema em 16 países da região .

relatório do TNI de Junho de 2021, com dados actualizados até essa data, observa que os processos judiciais contra os Estados se intensificaram desde 2011 como parte do novo ataque neoliberal das últimas décadas. E salienta que 86 por cento dos processos judiciais (em Junho de 2021) são instaurados por empresas ou investidores norte-americanos, canadianos e europeus. As empresas francesas, espanholas, inglesas e holandesas estão entre os europeus mais vorazes envolvidos neste tipo de processos judiciais contra países da América Latina e das Caraíbas.

Isso não é novidade. A história sempre parece se repetir. As empresas multinacionais aplicam as suas leis ao mesmo tempo que enfraquecem as políticas públicas dos países do Sul Global. A “arbitragem arbitrária”, o crescente endividamento dos países do Sul, a evasão fiscal das grandes transnacionais, os paraísos fiscais para as proteger, o sigilo bancário, os fundos abutres, etc., tudo isto faz parte dos numerosos instrumentos financeiros internacionais à disposição dos A maioria da população mundial, que está sendo usada a cada dia e fica mais pobre, não deixa trégua.


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Este texto escrito originalmente em espanho e traduzido para o alemão foi publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

Sódio, gordura, açúcar em excesso ou aditivos estão presentes em 98,8% dos alimentos ultraprocessados

alimentos ultraprocessados

Foto: Tim Samuels/Pexels

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Pensando em estimular uma relação mais saudável das pessoas com a alimentação, pesquisadores mediram a presença de aditivos cosméticos e nutrientes críticos para identificar alimentos ultraprocessados, como refrigerantes, biscoitos recheados e macarrão instantâneo. O estudo de equipe da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em parceria com o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS) da Universidade de São Paulo (USP) e com outras instituições nacionais, foi publicado na revista “Scientific Reports” na quarta (30).

Segundo o artigo, 97,1% dos alimentos classificados como ultraprocessados têm ao menos um nutriente crítico em excesso, como sódio, gorduras e açúcares livres, e 82,1% deles apresentam em sua composição aditivos cosméticos, usados para realçar a cor, o sabor ou a textura. No total, 98.8% dos ultraprocessados contam com pelo menos um desses ingredientes.

A pesquisa avaliou quase 10 mil alimentos embalados disponíveis em supermercados de São Paulo e de Salvador. Os itens foram divididos em quatro grupos diferentes de acordo com a classificação NOVA – método que mostra a qual grupo um alimento pertence a partir da extensão e do propósito de processamento. “Os resultados reforçam o quanto a formulação teórica do sistema NOVA é clara e possível de ser usada para as normas e os regulamentos sobre alimentos”, explica Daniela Canella, pesquisadora da UERJ e autora principal do artigo.

Ana Paula Martins, pesquisadora do NUPENS e colaboradora do estudo, diz que os dados podem fazer a diferença na formulação de políticas públicas, legislações e em decisões taxativas sobre os alimentos. “Entendemos que esses resultados podem facilitar a adoção de políticas alinhadas às recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira”, comenta a pesquisadora, se referindo ao instrumento formulado pelo Ministério da Saúde para estimular uma alimentação mais saudável no Brasil.

É importante facilitar a identificação e a compreensão desses alimentos pelo consumidor, e algumas medidas podem facilitar as decisões de compras em frente às prateleiras dos supermercados. “Regras mais específicas sobre os alimentos modificados quimicamente e a precificação adequada podem ajudar as pessoas a diferenciarem uma bebida pronta para o consumo, um néctar com muito açúcar, de um suco de verdade”, comenta Ana Paula.

Os resultados podem ser usados ainda em programas de rotulagem para que as pessoas consigam fazer escolhas mais saudáveis e para entender quais alimentos devem receber uma tributação maior em comparação àqueles que deveriam ter subsídios. “Queremos valorizar o quanto essa classificação é relevante para as políticas públicas e entender como aplicar em diferentes contextos, como a regulamentação dos produtos vendidos em cantinas e a publicidade de alimentos”, reforçam as pesquisadoras.

O objetivo final da equipe é contribuir para a promoção da alimentação saudável e para a facilitação de uma alimentação mais consciente no Brasil e no mundo. Assim, o grupo planeja continuar avaliando as ideias propostas pelo artigo e realizar comparações com as novas regras sobre rotulagem que devem entrar em vigor a partir de outubro de 2023.