Políticas anti desmatamento estão falhando em proteger a Amazônia brasileira contra a degradação florestal

Incêndio na Amazônia brasileira

Antonio passou os últimos sete anos correndo em direção a incêndios dos quais a maioria foge. Bombeiro na Amazônia brasileira desde 2019, ele trabalha dentro da Reserva Extrativa Chico Mendes, um dos lugares mais biodiversos do mundo. 

Mas as coisas estão mudando, e rápido. “2024 foi o ano mais extremo para incêndios”, disse Antonio. “Nunca tinha visto nada igual. A floresta queimava como pastagem seca – era assustadora para aqueles de nós que arriscam a vida para protegê-la.”

O que Antonio e seus colegas bombeiros estão testemunhando no local foi comprovado por um novo estudo. Uma equipe internacional de pesquisadores, liderada pela Universidade de Cambridge, descobriu que as políticas que ajudaram a reduzir o desmatamento na Amazônia brasileira nas últimas duas décadas falharam em sua maioria em deter a degradação florestal: uma forma de destruição mais lenta e potencialmente mais perigosa. Seus resultados são publicados nos Anais da Academia Nacional de Ciências.

Diferente do desmatamento, onde áreas inteiras de floresta são desmatadas para agricultura, indústria ou infraestrutura, uma floresta degradada ainda possui árvores de pé. No entanto, foi tão danificado por incêndios, extração ilegal, fragmentação, secas e caça excessiva que perdeu grande parte de seu valor ecológico. O chão da floresta, desprovido de sombra e umidade, vira uma caixa de polvora.

“Ainda há uma floresta lá, mas está tão danificada que o carbono que antes armazenava começa a vazar, os animais desapareceram e novas espécies de gramíneas colonizam as bordas da floresta”, disse o autor principal, Dr. Federico Cammelli, do Departamento de Geografia de Cambridge e do Instituto de Pesquisa para a Conservação. “Incêndios em florestas tropicais são de baixa intensidade, as chamas frequentemente passam despercebidas sob a copa, mas após um ou dois anos, as árvores morrem enquanto estão em pé, e a floresta se transforma em um cemitério de árvores mortas em pé.”

Pesquisas anteriores mostraram que, entre 2001 e 2018, as emissões líquidas de carbono da degradação florestal na Amazônia brasileira foram comparáveis ou até maiores do que as do próprio desmatamento. Até 2050, a degradação pode afetar toda a Amazon brasileira, mas mal apareceu nas políticas destinadas a protegê-la.

O Brasil fez progressos reais no desmatamento. A primeira fase do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia do governo, lançado em meados dos anos 2000, reduziu o desmatamento de árvores em cerca de 60 a 80 por cento. Acordos no setor privado – incluindo uma moratória sobre a soja proveniente de terras desmatadas e o compromisso das empresas de processamento de carne de não obter gado de áreas recém-desmatadas – também contribuíram para o sucesso da região.

No entanto, os pesquisadores descobriram que quatro grandes políticas destinadas a reduzir o desmatamento em três estados brasileiros não diminuíram a degradação. Até o momento, poucas pesquisas foram feitas sobre esse tema devido à falta de dados sobre degradação e seus fatores. Os pesquisadores integraram os dados recém-disponíveis sobre degradação com conjuntos de dados de políticas para comparar os impactos de quatro tipos de intervenções políticas dos setores público e privado em diferentes fatores de degradação.

Quando o desmatamento desacelera, parte da degradação também diminui, já que as florestas sofrem menos com os chamados efeitos de borda onde áreas desmatadas tocam florestas intactas. “No entanto, não encontramos evidências conclusivas de que qualquer uma das políticas da cadeia de suprimentos, como a moratória da soja ou os acordos sobre gado, enfrentasse outros grandes fatores de degradação antropogênica, como incêndios, extração madeireira e fragmentação”, disse Cammelli.

Em um caso, sugere a pesquisa, até mesmo políticas bem-sucedidas de desmatamento podem agravar a degradação. O acordo G4 sobre o setor de gado, assinado pelos quatro maiores empacotadores de carne do Brasil, parecia estar ligado a um aumento na extração de madeira: possivelmente porque, à medida que a pecuária se tornou mais regulada, algumas empresas migraram para o setor madeireiro menos regulado.

De volta a Chico Mendes, Antonio vê algumas das consequências dessas lacunas nas políticas. Ele disse que a estação seca agora dura mais a cada ano, as florestas estão ficando mais frágeis e as chuvas chegam com violência repentina, derrubando pontes e bloqueando estradas.

Ele não está otimista de que a lei está acompanhando. “As leis ambientais deveriam ser mais rigorosas, e os infratores deveriam ser devidamente punidos”, disse ele. “Se perdermos a floresta, perdemos nossas vidas indiretamente.”

Cammelli afirmou que a vontade política é vital. Uma atualização da política ambiental brasileira publicada em 2023 inclui a degradação florestal entre os critérios para direcionar a aplicação da lei ambiental a municípios com histórico ambiental precário, além de exigências específicas para reduzir o desmatamento.

“Incêndios frequentemente se espalham por muitas propriedades e envolvem responsabilidades complexas: quem é responsável pela ignição, quem pela propagação do fogo? Eles são melhor tratados na escala da paisagem. O setor madeireiro continua pouco regulamentado, e muito pode ser feito para combater o desmatamento ilegal”, disse ele.

Os pesquisadores estão defendendo uma mudança fundamental na forma como governos, empresas e reguladores pensam sobre a melhor forma de proteger as florestas.

O Regulamento de Desmatamento da UE, que proíbe a importação de produtos ligados à destruição florestal, define a degradação de forma muito restrita, dizem os pesquisadores, e em grande parte ignora os danos causados pelo fogo e a fragmentação causados pela produção de soja e carne bovina. Os pesquisadores estão incentivando a UE a expandir sua definição de degradação.

Apesar dos compromissos com o desmatamento, os pesquisadores não encontraram exemplos publicamente documentados de empresas operando na Amazônia brasileira que tivessem estabelecido metas concretas para combater especificamente a degradação florestal.

“Evitar o desmatamento e a degradação é muito mais importante para o clima e a natureza do que restaurar o que já se foi”, disse a autora sênior Professora Rachael Garrett, também do Departamento de Geografia e do Instituto de Pesquisa em Conservação de Cambridge. “Existem certas coisas que você não pode recuperar.”

“A cada ano”, disse Antonio, “a floresta e a vida selvagem se tornam mais vulneráveis.”

A pesquisa foi apoiada em parte pela União Europeia e pela Fundação Nacional Suíça para a Ciência.

 

Referência 


Federico Cammelli et al. ‘
Políticas focadas no desmatamento não reduzem a degradação na Amazônia brasileira.‘ Anais da Academia Nacional de Ciências (2026). DOI: 10.1073/pnas.2507793123


Fonte: University of Cambridge

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