Brasil aprova formulação pediátrica contra malária

O Brasil é o primeiro país com malária endêmica nas Américas a registrar um medicamento para crianças

malaria-Brasil-1-996x567A malária é encontrada principalmente em países tropicais e pode causar sintomas leves, como febre e calafrios, ou mais graves, causando a morte. Crédito da imagem: Nathalie Brasil/MMV/PATH

[Rio de Janeiro] O Brasil é o primeiro país da região a aprovar o uso de um medicamento antimalária formulado para crianças de dois anos ou mais, um dos grupos mais afetados por infecções graves e em risco de morte devido a quem ainda não desenvolveu imunidade.

O medicamento tafenoquina (Kozenis) é produzido pela GlaxoSmithKline (GSK) e coproduzido pela Medicines for Malaria Venture (MMV), e foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no dia 21 de agosto. É indicado no combate às recidivas da malária.

A nova formulação é vista com bons olhos porque só deve ser diluída em água em dose única, o que facilita a adesão ao tratamento; e por ser uma opção de cura radical ou prevenção de recaídas, quando o microrganismo permanece adormecido no fígado e, se reativado, pode causar novas doenças.

““A pesquisa mostrou que o medicamento é seguro e eficaz em crianças, assim como a formulação para adultos. A maior vantagem é que uma dose única garantiu 94,7% de não recorrência da doença após quatro meses de acompanhamento”.

Elodie Jambert, Diretora de Acesso e Gestão de Produtos da Medicines for Malaria Venture (MMV)

Segundo o estudo que apoiou a aprovação do medicamento no Brasil, as recaídas em crianças podem causar anemia, aumentar o aparecimento de outras doenças e atrasar o pleno desenvolvimento físico e cognitivo.

Na América Latina, o parasita Plasmodium vivax ( P. vivax ) causa 75% dos casos na região . Venezuela, Brasil e Colômbia são responsáveis ​​por quase 80% dos casos na região, de acordo com o Relatório Mundial sobre Malária de 2022 .

“A pesquisa mostrou que o medicamento é seguro e eficaz em crianças, assim como a formulação para adultos. A maior vantagem é que uma dose única garantiu 94,7% de não recorrência da doença após quatro meses de acompanhamento”, disse Elodie Jambert, diretora de Acesso e Gestão de Produtos da MMV, ao SciDev.Net .

Até agora, para P. vivax , o tratamento mais convencional para crianças de seis meses a 15 anos com malária recidivante é a primaquina após administração de cloroquina. Contudo, os comprimidos devem ser cortados ou esmagados, o que pode causar erros de dosagem.

Além disso, o tratamento leva sete ou 14 dias, o que prejudica a adesão e, portanto, a cura radical da doença.

De acordo com estudo publicado em 2021 no The Lancet Child & Adolescent Health que avaliou eficácia, segurança e dosagem adequada em crianças, o medicamento é seguro e eficaz na faixa de dois a 15 anos. Alguns efeitos adversos detectados foram vômitos e regurgitações após a administração da primeira dose. No grupo de 60 participantes, sete tiveram que tomar novamente o medicamento.

“É muito importante que a tafenoquina seja tomada com alimentos para evitar distúrbios gastrointestinais”, alerta Jambert. Além disso, assim como a primaquina, a tafenoquina só pode ser usada se o paciente não apresentar deficiência da enzima G6PD (glicose-6-fosfato desidrogenase), condição que pode causar complicações sanguíneas.

Um porta-voz da Anvisa disse ao SciDev.Net que a nova formulação pediátrica deve ser diluída apenas em água, e é indicada para pacientes com idade igual ou superior a dois anos e peso superior a 10 kg e até 35 kg.

A aprovação ocorre após a incorporação da tafenoquina 300 mg (para maiores de 16 anos) no Sistema Único de Saúde (SUS), em junho. Jambert afirma que o próximo passo é buscar a incorporação da tafenoquina pediátrica também no SUS.

O infectologista Marcus de Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, participou de outra investigação que avaliou a viabilidade da incorporação da tafenoquina para adultos no SUS. No entanto, ele alerta para um possível obstáculo que exige logística e preparação do sistema:

“O maior problema é a necessidade de testar a deficiência da enzima G6PD antes de administrar o medicamento, o que também está se tornando uma demanda cada vez mais necessária para a primaquina”.

Na região, Jambert afirma que os relatórios de avaliação já foram submetidos às agências reguladoras do Peru e da Colômbia, países onde a MMV aguarda as próximas aprovações. Consultada pelo SciDev.Net , a GSK preferiu não comentar.


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net e publicado [Aqui!].

REDD++: mais menos do que mais

Os projetos de proteção florestal compensam muito menos emissões do que declaram no comércio de certificados

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A compensação das emissões de CO2 através da proteção das florestas muitas vezes só funciona no papel. Foto: AFP/Patrick Fort
Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

O princípio parece simples: por um lado do planeta, uma empresa industrial ou um país industrializado emite dióxido de carbono e, assim, aquece o clima global. Para compensar, financia “voluntariamente” um projeto de proteção florestal ou de reflorestação noutra região do mundo através de créditos de emissões , a fim de retirar a mesma quantidade de CO 2 da atmosfera através do crescimento das plantas e, assim, contrariar o efeito de estufa ou prevenir desmatamento e a liberação associada de gases de efeito estufa. Mas este mecanismo foi desenvolvido como parte do acordo climático da ONU desde 2005 »Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação de Florestas«, ou REDD+, parece, na prática, mais uma fachada do que uma verdadeira proteção climática.

“Acreditamos que a REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) pode fornecer os incentivos necessários para complementar os esforços existentes para proteger as florestas e a biodiversidade.  A REDD+ oferece muito mais do que apenas remuneração pela redução de emissões”, escreveu Gerd Müller, antigo Ministro Federal da Cooperação e Desenvolvimento Económico, no relatório “REDD+: Protegendo Florestas e Clima para o Desenvolvimento Sustentável” publicado pelo seu ministério em 2015. É também por isso que o BMZ financiou estes projetos de REDD+, principalmente nos trópicos, com mais de 700 milhões de euros entre 2008 e 2014. Segundo a Universidade de Bonn, os créditos de carbono atingiram um valor de mercado global de dois mil milhões de dólares no ano passado.

Avaliação de 26 projetos

Uma equipa internacional de oito cientistas de vários institutos de investigação já avaliou 26 projetos voluntários de REDD+ em seis países tropicais. No seu estudo, publicado na revista Science, chegaram à conclusão de que mais de 90 por cento dos créditos de carbono destes projectos na Colômbia, Peru, Camboja, Tanzânia, Zâmbia e República Democrática do Congo não compensam realmente os correspondentes emissão de gases de efeito estufa. E os projetos que reduziram o desmatamento superestimaram o seu impacto.

“A compensação de CO 2 dos projetos REDD+ é concedida com base numa comparação entre a cobertura florestal existente nas áreas dos projetos e os cenários de desflorestação que provavelmente teriam ocorrido sem REDD+”, escrevem os investigadores. Para avaliar os projetos, eles criaram cenários de referência baseados em taxas históricas de desmatamento e tendências de desmatamento nas regiões do que teria acontecido lá sem o programa REDD+ e os compararam com os cálculos e informações fornecidos pelos desenvolvedores do projeto.

Segundo o estudo, apenas oito dos 26 projetos examinados apresentaram alguma evidência de redução do desmatamento. Alguns locais de REDD+ no Peru, Colômbia e Camboja reduziram significativamente o desmatamento. Por outro lado, para os projetos REDD+ na República Democrática do Congo, Tanzânia e Zâmbia, os investigadores não encontraram provas de que a desflorestação tenha sido evitada. No geral, os projectos evitaram muito menos desflorestação do que os promotores do projeto tinham previsto. Apenas cerca de 6% das poupanças declaradas estão ligadas a reduções reais, fazendo com que os projectos REDD+ emitam mais créditos de carbono do que lhes é permitido.

Isso significa que os créditos de emissão são, em sua maioria, “ar quente”, segundo conclusão da equipe de pesquisa.

“Estamos a enganar-nos quando compramos estas compensações”, afirma o líder do estudo Thales AP West, do Instituto de Estudos Ambientais da Vrije Universiteit Amsterdam. “Indivíduos e organizações estão a gastar milhares de milhões de dólares numa estratégia de alterações climáticas que não está a funcionar, em vez de investirem esse dinheiro em algo que pode realmente fazer a diferença, como a energia limpa.”

Figuras refinadas

Como uma das razões para a imensa discrepância e ineficácia dos projectos examinados, os investigadores assumem que os promotores dos projetos selecionaram deliberadamente áreas onde a desflorestação pode ser evitada com especial facilidade ou que não são de todo afetadas. Há também uma tendência de maximização das receitas provenientes da venda de certificados. “É de se esperar que alguém que proteja uma área e queira ganhar dinheiro com isso apresente números particularmente elevados”, diz o coautor Jan Börner, do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento (ZEF) da Universidade de Bonn. Os seis países examinados não são casos excepcionais.

Já em 2020, o cientista de Bonn para uso sustentável da terra e bioeconomia e seu colega pesquisador West chegaram a uma conclusão semelhante ao analisar projetos no Brasil. Börner: »Os métodos e critérios utilizados atualmente não provaram ser eficazes. Algo tem que mudar no sistema, caso contrário será apenas uma venda de indulgências.«

Economicamente eficaz para o operador

“O estudo fornece exemplos concretos de como divergem os pressupostos sobre a quantidade de emissões evitadas através da proteção das florestas e os desenvolvimentos realmente mensuráveis”, afirma o cientista climático Hannes Böttcher, do Öko-Institut, avaliando o trabalho de investigação, no qual não esteve envolvido. E Michael Köhl, do Instituto de Ciência da Madeira da Universidade de Hamburgo, comenta:  “os projetos são ineficazes para a protecção do clima, mas economicamente eficazes para os operadores. Enquanto os operadores do projeto puderem escolher eles próprios as suas áreas de referência, nada mudará.”


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Agrotóxicos: governo Lula libera mais 63 venenos agrícolas e segue firme na trilha deixada por Bolsonaro

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O Diário Oficial da União traz hoje mais um ato (o 37 de 22 de agosto) do Ministério da Agricultura que libera para uso no Brasil um total de 63 agrotóxicos, o que eleva o total do governo Lula para parrudos 324 venenos agrícolas liberados nos oito primeiros meses de 2023.

Esse é um desenvolvimento particularmente infeliz do governo do presidente Lula, na medida em que não só durante a sua campanha, mas também no discurso da vitória, o compromisso claro era de que haveria um giro no sentido de um modelo mais sustentável de agricultura, visto que a atual dependência em relação a venenos com grandes repercussões ambientais e sobre a saúde humana é literalmente desastroso.

Como foi feito ao longo do governo Bolsonaro, ao longo da próxima semana será feita pelo Observatório dos Agrotóxicos, a divulgação da base de dados com todos os produtos liberados pelo Ato No. 37 e também a base que contém todos os produtos liberados pelo governo Lula.

Em uma primeira análise da lista de agrotóxicos liberados, há a persistência de produtos já presentes no mercado nacional, mas também vários produtos que combinam diferentes princípios ativos, o que tem sido uma tendência nos últimos anos, provavelmente para combater o aumento da resistência dos alvos a principios ativos aplicados de forma individual. Isto demonstra que apesar de toda a guerra química realizada com produtos altamente perigosos, o modelo agrícola dependente de venenos caminha para sua própria inviabilização.

Mas é de se lamentar que continuemos na trilha iniciada por Jair Bolsonaro e Tereza Cristina. Caberá aos movimentos sociais e à população resistir e demandar mudanças práticas. É que do mato do governo Lula, além de não sair coelho, está saindo muito agrotóxico.

Centro Nacional de Dados amplia armazenamento de instituições de ensino e pesquisa

Parceria com data centers privados foi lançada no Fórum RNP, em Brasília

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Foto: Eduardo Tadeu/Divulgação RNP

Instituições de ensino e pesquisa produzem um volume cada vez maior de dados. Garantir o armazenamento seguro sem pesar no orçamento é fundamental para a produção científica brasileira. Neste cenário, a RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) inova ao criar o Centro Nacional de Dados (CND), lançado nesta quarta-feira (30) no Fórum RNP, em Brasília. A iniciativa pretende expandir e melhorar a oferta de serviços de hospedagem graças a parcerias com data centers profissionais.

Essa parceria garante a simplificação da gestão e da operação de data center para o Sistema RNP, integrado por mais de 500 instituições de educação superior e pesquisa, agências de fomento, estabelecimentos de saúde e parques e polos tecnológicos, entre outros. As instituições terão acesso a data centers de alto desempenho integrados à rede de alta velocidade, com grande capacidade de armazenamento e segurança.

“O CND vai hospedar os dados que são produzidos em laboratórios e observatórios, e que poderão ser amplamente disponibilizados para a comunidade”, explicou o diretor-adjunto de Serviços da RNP, Luiz Coelho. “Estamos construindo um novo conceito de equipamento de uso comunitário. Assim, o conjunto de instituições de ensino e pesquisa poderá disponibilizar servidores ou dados que serão compartilhados por toda a comunidade com um acesso franqueado”, complementou.

Benefícios

Os data centers privados oferecem excelência na prestação desses serviços, com energia e refrigeração redundantes, múltiplo acesso à rede, certificações internacionais e ao menos cinco níveis de controle de acesso aos servidores. Além disso, os data centers estarão localizados em território brasileiro, preservando a privacidade das informações e dos arquivos e garantindo a soberania sobre os dados.

O novo serviço vai oferecer para o Sistema RNP uma infraestrutura confiável, segura e com alta disponibilidade, além de escalável e com custos decrescentes, graças ao modelo de permuta e compartilhamento com as empresas.

Os recursos para o CND vieram do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O Centro contará também com permuta de recursos de telecomunicações com os data centers parceiros. O início efetivo da operação está previsto para novembro deste ano.

Também participaram do lançamento do CND Andrés Menéndez, coordenador do CGTIC (Colégio de Gestores de Tecnologia de Comunicação) e superintendente de TI da Universidade Federal de Sergipe; Rodrigo Azevedo, gerente de Serviços da RNP; Alex Galhano, coordenador de Serviços da RNP; e Débora Reis, coordenadora de PD&I e gestora do Serviço de Suporte à e-Ciência da RNP.

Sobre o Fórum RNP

O evento anual da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) é um espaço de encontro, relacionamento, networking e atualização sobre as principais tendências nas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). A 12ª edição ocorre de forma híbrida, presencial em Brasília e online, desta terça (29) até amanhã (31).

No Fórum, os principais atores do sistema nacional de Ciência, Tecnologia e Inovações debatem o papel das TIC no desenvolvimento da educação e pesquisa do Brasil e têm a oportunidade de construir uma visão de futuro comum e inovadora. Com uma programação rica, composta por palestras, painéis, workshops e flash talks, além de área de exposição e presença de autoridades, o evento aborda assuntos políticos e estratégicos para ensino, pesquisa, inovação, saúde, cultura e defesa.

Aquecimento global e privatização da água

O neoliberalismo e a privatização não resolvem os graves problemas do aquecimento global

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Manifestação em defesa do direito humano à água em Montevidéu (maio de 2023). Fonte:PITCNT
Por Franklin Frederico para o Amerika 21

O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, declarou recentemente estado de emergência devido à escassez de água na capital, Montevidéu. As medidas anunciadas para combater a seca mais longa do país em 74 anos incluem a construção de um reservatório e uma isenção de impostos para água engarrafada (conforme relatado pelo Amerika21 )

A isenção fiscal, aparentemente destinada a aumentar o acesso à água engarrafada para os mais desfavorecidos, é a habitual “solução” neoliberal para enfrentar uma das consequências mais comuns do aquecimento global, nomeadamente o aumento das secas e das inundações. Transfere a “responsabilidade” de fornecer água potável ao segmento da população que pode pagar pelo serviço para o sector privado – a indústria da água engarrafada. É claro que os mais pobres não poderão pagar esta medida generosa de Lacalle Pou.

Esta ação do governo uruguaio é apenas mais um passo do neoliberalismo no processo de transformar o aquecimento global e os desastres previstos em mais uma fonte de lucro para as grandes empresas privadas.

Desastres prenunciados e a indústria da água engarrafada

Em junho deste ano, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) anunciou que o fenômeno El Niño, que geralmente acompanha o aumento das temperaturas, está de volta, segundo uma declaração da climatologista da NOAA, Michelle L’Heureux, poderia levar a temperaturas recordes. Por outro lado, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou este ano que o período 2023-2027 poderá ser o mais quente já registado. Basta relembrar os acontecimentos do ano passado para se ter uma ideia do que está por vir.

A intensa onda de calor que atingiu a Europa em 2022 foi acompanhada daquela que é provavelmente a pior seca no continente em 500 anos, segundo vários cientistas da época. Grandes rios como o Danúbio, o Reno, o Pó e o Volga tinham tão pouca água que em alguns casos a navegação tornou-se impossível. Os incêndios espalharam-se por Portugal, Espanha, França e Itália.

Num esforço desesperado para conservar a água, piscinas públicas foram fechadas em França e Portugal, entre outros, e a utilização de mangueiras para regar jardins privados foi proibida em Inglaterra e noutros países europeus.

Mas no meio dos esforços vertiginosos e intensos para reduzir o consumo de água, a indústria da água engarrafada permaneceu intocada, aumentando mesmo a produção para satisfazer a procura crescente devido ao calor intenso. Um exemplo escandaloso desta contradição são as montanhas de Vosges, em França, onde a empresa Nestlé foi autorizada a continuar a bombear água de aquíferos subterrâneos para engarrafamento, apesar de toda a região estar a sofrer com a seca e as autoridades já estarem a restringir o consumo de água de diferentes setores. e a população em geral tinha, conforme denunciou o grupo Collectif Eau 88.

Para a indústria de água engarrafada, a onda de calor serviu para impulsionar as vendas. No entanto, a produção e o transporte de água engarrafada são os principais contribuintes para o aquecimento global e para a escassez de água: são necessárias grandes quantidades de materiais à base de petróleo e muita água para produzir garrafas de plástico, especialmente PET. Estima-se que sejam necessários cerca de três litros de água para produzir um litro de água engarrafada. O transporte dessas garrafas das fábricas até os supermercados é feito principalmente por caminhão, que consome mais combustíveis fósseis.

Pior ainda, a água engarrafada e transportada por longas distâncias – como a engarrafada pela Nestlé em Vittel e exportada para a Alemanha ou a Suíça – é retirada do ciclo hídrico local e contribui para a escassez de água na região.

A maior parte da água utilizada para engarrafamento vem de aquíferos que levam muitos anos para serem reabastecidos naturalmente. Se a quantidade de água consumida nestes aquíferos for superior à recarga natural, existe um perigo agudo de esgotamento. É o caso, por exemplo, do aquífero que abastece a cidade de Vittel, tal como constataram as autoridades francesas competentes. Alguns são feitos de água fóssil, ou seja, água acumulada no subsolo, às vezes há milhares de anos. Nestes casos não há reposição natural e estes aquíferos poderiam ser utilizados até que estejam completamente secos.

O poderoso lobby da indústria da água engarrafada

O facto de, no meio de uma crise tão grave como a seca de 2022 na Europa, os engarrafadores terem continuado a explorar as águas subterrâneas, enquanto muitos outros sectores da sociedade tiveram de reduzir o seu uso de água, deve-se em parte ao enorme poder económico destas empresas.

Nestlé, Danone, Coca-Cola e Pepsi são as maiores engarrafadoras de água do mundo. As empresas locais mais pequenas, na maioria dos casos, só conseguem sobreviver no mercado através de acordos de distribuição com uma destas grandes empresas.

Por iniciativa da Nestlé e com o apoio do governo suíço, os principais engarrafadores de água fundaram em 2011 o “Grupo de Recursos Hídricos” (WRG), no qual atualmente também estão envolvidos governos de vários países. O objetivo do WRG é privatizar a água sempre que possível em todo o mundo e defender a produção e o consumo de água engarrafada. É importante lembrar que os lucros anuais de empresas como a Nestlé ou a Coca-Cola excedem os orçamentos nacionais em muitos países ao redor do mundo.

Além do poder económico, existe também o poder político de países cujas políticas externas apoiam a privatização da água nos países do Sul Global, muitas vezes sob o pretexto de “ajuda ao desenvolvimento”. Tal como no caso da Suíça, que aliás não esconde esta decisão: desde 2018, o antigo diretor de assuntos globais da Nestlé, Christian Frutiger, é vice-diretor da Agência Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação (SDC).

Poucos países podem, portanto, resistir à pressão para privatizar a sua água, dando concessões de águas subterrâneas a empresas privadas por longos períodos, 20 anos ou mais.

A luta do grupo Collectif Eau 88 contra a exploração e engarrafamento de águas subterrâneas pela Nestlé na região de Vittel é novamente um caso emblemático. Os envolvidos neste movimento, que estão empenhados em proteger as suas águas e o ambiente, enfrentam dificuldades quase intransponíveis, apesar de todos os indícios e evidências dos danos já causados ​​aos aquíferos e da poluição do ambiente pelos resíduos plásticos. Isto se deve principalmente à colaboração entre o poder público e a empresa.

Existem casos semelhantes de conflitos entre movimentos civis e a empresa Nestlé nos EUA e no Canadá. A França, os EUA e o Canadá são nações desenvolvidas com democracias bem estabelecidas e instituições sólidas. No entanto, as pessoas destes países enfrentam enormes dificuldades na sua luta para proteger as suas águas e o seu ambiente. O que pode ser dito, então, quando tais conflitos entre empresas e grupos cívicos ocorrem em países menos desenvolvidos, com instituições democráticas muito mais fracas e muito menos acesso à defesa legal ou à imprensa?

Em muitos países do Sul, o WRG desempenha um papel importante na privatização de empresas públicas de água, reduzindo a capacidade destas empresas de fornecer aos residentes água potável de qualidade e, o mais importante, habituando a classe média local a consumir água engarrafada. As classes mais desfavorecidas, que não têm condições de comprar água engarrafada, praticamente não têm acesso a água de qualidade.

E nos países do Sul, a poluição causada por garrafas plásticas é outro problema sério. Mesmo em França, na Alemanha ou na Suíça é impossível reciclar todas as garrafas de plástico e muitas acabam no ambiente, nos rios ou no mar. Na maioria dos países do sul, a reciclagem destas garrafas plásticas é mínima. Mas a poluição causada pela indústria da água engarrafada é o que os economistas chamam de “externalidade”, o que significa que os custos ambientais são transferidos para a sociedade em geral, enquanto as empresas apenas recolhem os lucros.

Sistema público de abastecimento de água e mudanças climáticas

Os serviços públicos de água desempenham um papel fundamental na mitigação dos efeitos do aquecimento global para garantir o acesso a água limpa e de qualidade, mesmo face a desafios como secas ou inundações. Você pode beber água da torneira em quase qualquer lugar da Europa Ocidental. Embora a contaminação da água proveniente de um sistema de abastecimento público seja possível, em geral os casos são raros e os controlos de higiene são muito mais rigorosos e frequentes do que os da indústria da água engarrafada.

O fato de muitas pessoas terem mais confiança na qualidade da água engarrafada do que na água das empresas públicas é um sinal do sucesso da campanha de propaganda levada a cabo pela indústria do engarrafamento durante anos para desvalorizar a qualidade dos sistemas públicos.

Nenhuma empresa de engarrafamento possui a mesma experiência técnica e conhecimento em saneamento que uma grande empresa pública de abastecimento de água. E há sempre meios democráticos para exigir e ter mais qualidade entregue pelas empresas públicas destinadas a servir os cidadãos.

Tanto a indústria de engarrafamento de água como as empresas privadas de abastecimento de água e saneamento têm o lucro como objetivo principal. Não foi por acaso que em Inglaterra, um país onde grande parte da água e do saneamento é propriedade privada (um legado da época de Margaret Thatcher), face à onda de calor e à seca de 2022, se falou em nacionalizar estas empresas privadas, porque isso percebeu-se que não eram capazes de lidar com a crise.

A França, tal como a Alemanha, a Suíça e outros países da Europa Ocidental, tem excelentes serviços públicos de abastecimento de água e a água engarrafada é, de fato, um luxo nestes países. Mas um luxo social e ecologicamente mais caro. A realidade do aquecimento global exige mudanças profundas. A possibilidade de secas cada vez mais frequentes significa que as águas subterrâneas devem ser tratadas como uma reserva para as gerações futuras, ou mesmo para o nosso próprio futuro. Estas reservas não devem ser desperdiçadas no lucro e na ganância de algumas empresas privadas.

Já é tempo de a sociedade civil dos países da Europa Ocidental exigir aos seus governos, como primeiro gesto concreto, uma proibição definitiva da produção e comercialização de água engarrafada, a fim de reduzir a contribuição do consumo nestes países para o aquecimento global.

Porque se estes países, que podem e já fornecem água de excelente qualidade aos seus cidadãos, enquanto a água engarrafada é um luxo, não podem dar esse pequeno passo, como poderão ser assumidos os compromissos assumidos pelos governos destes países relativamente aos problemas do aquecimento global? seriamente?

A França tem uma importante responsabilidade simbólica neste caso, pois foi neste país, mais precisamente em Vittel, que começou o engarrafamento de água em recipientes de plástico. Anteriormente, as garrafas eram de vidro, o que limitou a expansão da indústria de engarrafamento de água. Foi somente quando foi envasado em garrafas plásticas que a indústria de engarrafamento de água se espalhou pelo mundo. A poluição das garrafas plásticas começou em Vittel e se espalharia por todo o planeta. A batalha do Collectif Eau 88 em Vittel tem, portanto, um significado global. Seria um gesto importante se a França acabasse com a produção de água engarrafada e se Vittel desse um novo impulso, desta vez contra a poluição e pela água como bem público e direito humano.

A Suíça também tem uma grande responsabilidade, pois é sede da multinacional Nestlé, a maior engarrafadora de água do mundo.

Ao anunciar uma isenção fiscal para a água engarrafada no meio da crise hídrica do Uruguai, o presidente Lacalle Pou está a revelar-se um grande amigo de empresas como a Coca-Cola, Danone e Nestlé.

Mas não há dúvida de que a sua acção será saudada pelos governos de vários países como um exemplo de “responsabilidade” e “solução sustentável”. O WRG certamente incentivará outros países a seguirem o exemplo do Uruguai.

É hora de o Brasil e a América Latina mostrarem que outro caminho é possível, o caminho que suas empresas públicas de água já mostraram. É também tempo de exigir à Europa que, face ao aquecimento global, apoie por todos os meios possíveis os fornecedores públicos de água nos países do Sul. A indústria da água engarrafada já causou danos suficientes tanto no norte como no sul do planeta.

O neoliberalismo e as suas privatizações não resolvem os graves problemas do aquecimento global, apenas os utilizam para aumentar os seus lucros e o seu poder sobre as decisões da sociedade. As empresas públicas e uma gestão pública e transparente da água são o caminho certo.


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Este escrito originalmente em alemão foi publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

Estudo confirma que exposição ao glifosato está associada à depressão grave e ao declínio cognitivo em adultos americanos

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Por Sustainable Pulse

Um novo estudo revisado por pares e divulgado por um grupo de cientistas em Taiwan revelou uma ligação surpreendentemente forte entre depressão grave, declínio cognitivo e exposição ao herbicida mais usado no mundo, o glifosato.

O estudo foi publicado na íntegra na terça-feira passada no altamente respeitado Elsevier Journal, Environmental Research , e foi recebido com silêncio pelos fabricantes de herbicidas à base de glifosato, como a Bayer/Monsanto, que produz o infame herbicida Roundup.

Os autores do estudo declararam que: “realizaram análises sobre os dados existentes coletados de 1.532 adultos da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição dos EUA (NHANES) de 2013–2014 para explorar a possível relação entre a exposição ao glifosato e a função cognitiva, sintomas depressivos, incapacidade e condições médicas neurológicas.”

“Nosso estudo utilizou uma coorte representativa da população adulta em geral dos EUA e encontrou uma correlação negativa significativa entre os níveis de glifosato urinário e os resultados dos testes de função cognitiva. Além disso, as nossas descobertas sugerem que as probabilidades de ter sintomas depressivos graves foram significativamente maiores do que não ter sintomas em indivíduos com níveis mais elevados de glifosato, conforme medido pelo PHQ-9”, continuaram os cientistas.

O NHANES é um inquérito nacional bienal que recruta uma amostra representativa da população. A população estudada apresentou média de idade (DP) de 48,15 (18,32) anos e média de IMC (DP) de 29,15 (7,25) kg/m 2 . A maioria dos participantes eram mulheres (51,5%), enquanto a etnia mais comum era a branca não hispânica (47,1%). Em relação ao nível socioeconómico, 53,7% dos participantes relataram um rendimento familiar ≥ 4.500 dólares por ano. Além disso, 37,2% dos participantes apresentavam índice de massa corporal ≥30 kg/m 2 . A proporção de indivíduos com níveis detectáveis ​​de glifosato foi de 80,4%.

“Como muitos dos principais questionários do sistema neurológico usados ​​para avaliar a função neurológica no NHANES estão disponíveis apenas para adultos, restringimos a nossa população de estudo aos maiores de 18 anos de idade”, acrescentaram os cientistas.

“Concluindo, nosso estudo fornece evidências importantes de uma associação entre os níveis urinários de glifosato e resultados neurológicos adversos em uma coorte representativa da população adulta dos EUA. Especificamente, observamos pontuações mais baixas de função cognitiva, maiores chances de sintomas depressivos graves e aumento do risco de dificuldades auditivas graves em indivíduos com maior exposição ao glifosato”, concluíram os cientistas.

A indústria não realizou quaisquer estudos de neurotoxicidade a longo prazo sobre o Roundup, a substância a que as pessoas e os animais estão realmente expostos. No entanto, alguns outros estudos independentes recentes sugerem que tanto o glifosato isolado como os herbicidas à base de glifosato, como o Roundup, são neurotoxinas.

Um estudo toxicológico em ratos descobriu que o glifosato esgotava os neurotransmissores serotonina e dopamina. Neurotransmissores são substâncias químicas em nosso corpo que transmitem sinais de uma célula cerebral para outra.

Um estudo epidemiológico realizado em Minnesota, EUA, constatou que os filhos de aplicadores de agrotóxicos expostos aos herbicidas glifosato apresentavam maior incidência de distúrbios neurocomportamentais, incluindo TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade). A descoberta sugeriu que o herbicida glifosato impacta o desenvolvimento neurológico.

Em um estudo realizado por pesquisadores argentinos, descobriu-se que o glifosato danifica o cérebro e as células do fígado de ratos. O glifosato foi mais tóxico em combinação com o fungicida zineb e o inseticida sistêmico dimetoato do que sozinho. Esses três produtos químicos são frequentemente usados ​​em combinação na Argentina. Os pesquisadores comentaram que seus resultados eram consistentes com a possibilidade de que esses produtos químicos desempenhassem um papel no desenvolvimento do distúrbio neurológico, a doença de Parkinson.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “Sustainable Pulse” [Aqui!].

Professor da UERJ analisa criticamente o voto de Alexandre de Moraes na ação do marco temporal no STF

Protocolado no recurso extraordinário pela Conectas Direitos Humanos, documento cita soluções propostas pelo ministro como “inadequadas e incompatíveis com a Constituição” e se manifesta contrário à indenização prévia

marco temporal

São Paulo, 29 de agosto de 2023 – Em parecer elaborado a pedido da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos D. Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns e protocolado no recurso extraordinário (RE 1017365) pela Conectas Direitos Humanos no início do mês, o professor Daniel Sarmento, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, criticou o voto do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), no âmbito da ação sobre o marco temporal das terras indígenas. No documento, Sarmento avaliou as soluções propostas pelo ministro como “inadequadas e incompatíveis com a Constituição”, pois geram “graves danos” aos direitos dos povos indígenas, à segurança jurídica e à proteção do meio ambiente. O Supremo retomará o julgamento na próxima quarta-feira (30/08). 

Em seu parecer, o constitucionalista se manifesta contrário à proposta de indenização prévia formulada no voto. Conforme disposto pelo ministro Alexandre de Moraes, diante de controvérsias judiciais, a União deve pagar indenização prévia aos ocupantes não indígenas das terras a fim de garantir a segurança jurídica. Os pagamentos seriam “em dinheiro ou em títulos da dívida agrária, tanto em relação a terra nua quanto as benfeitorias necessárias e úteis realizadas”. 

O professor Daniel Sarmento argumenta que, embora considere legítima a preocupação com a segurança jurídica dos ocupantes não indígenas que tenham agido de boa-fé, a indenização da terra nua na demarcação foi “expressamente vedada” pela Constituição. Para ele, essa proposta resultaria em gastos vultosos para os direitos territoriais dos povos indígenas e causaria uma série de atrasos nas demarcações, que poderiam se tornar inviáveis.  

Além disso, o caráter prévio das indenizações demonstraria uma “inversão de valores constitucionais”, priorizando os interesses patrimoniais dos não indígenas em detrimento dos direitos territoriais dos povos indígenas. “Tal sistema, além de afetar severamente os povos indígenas, prejudicaria também o meio ambiente, em cenário de emergência climática, já que os povos originários são os verdadeiros guardiões das florestas”, diz o parecer. 

“Caso o marco temporal seja aprovado, caberia a hipótese da indenização se o aspecto prévio fosse eliminado, e apenas após minuciosa análise de caso a caso, para garantir que o ocupante não indígena da terra esteja agindo de boa-fé há muitas décadas, mas que tenha sido atraído por ato ilegal do Poder Público com aparência de regularidade”, diz o advogado Oscar Vilhena Vieira, membro da Comissão Arns e diretor da Escola de Direito da FGV (Fundação Getúlio Vargas), em São Paulo.  

Outra proposta do voto do ministro Alexandre de Moraes, a concessão de terras equivalentes aos povos indígenas afetados também não encontra lastro constitucional, de acordo com o professor Sarmento. Além disso, “não se sustenta, diante da natureza espiritual da relação dos indígenas com o seu território tradicional, o que torna a respectiva área absolutamente infungível”. Os requisitos de “interesse público” e “paz social”, defendidos no voto para essa proposta, são considerados vagos e insuficientes para garantir a proteção dos direitos dos povos indígenas, conforme o documento. 

Confira o parecer na íntegra neste link. 

Sobre a Comissão Arns  

Criada em fevereiro de 2019, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns busca dar visibilidade e acolhimento institucional a graves violações da integridade física, da liberdade e da dignidade humana, especialmente as cometidas por agentes do Estado contra pessoas e populações discriminadas – como negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQIA+, mulheres, jovens, comunidades urbanas ou rurais em situação de extrema pobreza. A Comissão Arns trabalha em rede com outras organizações sociais para detectar casos, dar suporte a suas denúncias públicas, encaminhar questões aos órgãos do Judiciário e organismos internacionais, promover ações específicas junto a lideranças políticas e mobilizar a sociedade. Seu trabalho é apartidário e congrega figuras públicas de formações distintas, mas complementares, todas elas comprometidas com a defesa da dignidade da pessoa humana.  

Em seu nome, a Comissão destaca a figura do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), Arcebispo Emérito de São Paulo. Em 1972, Dom Paulo criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo, porta aberta no acolhimento das vítimas da repressão política e policial no país. Ao homenageá-lo, a Comissão reconhece esse exemplo de resistência, resiliência e, sobretudo, de esperança para os brasileiros em tempos difíceis.  

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Luciana Gatti: ‘A Amazônia não está mais compensando o estrago humano’

A cientista, que apontou a perda da capacidade da floresta de absorver o gás carbônico emitido por ação humana, mostra em novo estudo que os efeitos do desmatamento sob Bolsonaro foram equivalentes, para o clima, aos do pior El Niño já registrado

gatti

Por Cláudia Antunes, do Rio de Janeiro para o “Sumaúma”

Luciana Vanni Gatti é uma cientista indignada com a destruição da Amazônia e com os que se negam a enxergar as consequências da derrubada da floresta para o Brasil e o mundo. “Meu motor número 1 é tentar abrir a cabeça das pessoas para isso”, diz a coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Gatti lidera um grupo de pesquisadores que foram os primeiros a demonstrar que a maior floresta tropical do planeta já não consegue mais remover da atmosfera todo o gás carbônico – o principal causador do efeito estufa – lançado no ar da Amazônia por atividades humanas como o desmatamento e as queimadas. Agora, ela acaba de publicar na revista Nature o resultado do estudo mais recente que dirigiu e que mapeia o “efeito Bolsonaro” sobre a destruição da mata na região. Apesar dos dados desanimadores que encontrou, a cientista afirma que ainda há tempo de reverter esse processo. “Se hoje fizermos queimada zero, desmatamento zero, a Amazônia passará a ser um sumidouro de carbono”, afirma, em referência à capacidade da floresta de voltar a absorver mais gás do efeito estufa do que é emitido.

Uma primeira versão do artigo já havia sido divulgada em setembro do ano passado em preprint – um texto que ainda não passou pela avaliação de outros cientistas. Agora, ganha o endosso de uma das publicações científicas de maior prestígio no mundo. O estudo analisa as emissões de gases causadores do efeito estufa na Amazônia em 2019 e 2020, os dois primeiros anos do governo do extremista de direita Jair Bolsonaro. Nesse período, as emissões chegaram muito perto das registradas durante o pior El Niño de que se tem notícia, entre 2015 e 2016. Esse fenômeno de aquecimento das águas do oceano Pacífico causa seca e redução das chuvas no norte do Brasil, favorecendo a propagação dos incêndios na mata. E a queima das árvores libera carbono na atmosfera. “Bolsonaro e Ricardo Salles merecem o apelido de ‘El Niño brasileiro’”, diz Gatti, referindo-se também ao ministro do Meio Ambiente de janeiro de 2019 a junho de 2021.

Os dados colhidos pelo Laboratório de Gases de Efeito Estufa mostraram que as emissões de gás carbônico (CO2) e de monóxido de carbono (CO) – gases causadores do efeito estufa que possuem o carbono em sua composição – aumentaram 89% em 2019, em relação à média registrada entre 2010 e 2018, e 122% em 2020, na comparação com os mesmos nove anos. De maneira geral, isso significa que durante os dois primeiros anos do governo Bolsonaro a floresta teve mais dificuldade de absorver o carbono lançado no ar pelas ações dos humanos, como o desmatamento e a degradação da mata – quando apenas parte das árvores é cortada para a venda ou quando o fogo atinge a floresta em pé, queimando apenas parte dela.

As plantas da floresta estocam carbono na fotossíntese, processo pelo qual se alimentam. Elas absorvem o gás carbônico e o armazenam em suas folhas, troncos e raízes. Quando elas são arrancadas, queimadas ou morrem, esse carbono volta para a atmosfera. “A floresta não está compensando o estrago humano”, afirma a cientista.

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

Na ausência de uma seca extrema que pudesse explicar o aumento das queimadas e, em consequência, das emissões em 2019 e 2020, Gatti buscou no estudo relacionar esse incremento às políticas bolsonaristas. Para isso, contou com a colaboração de colegas do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) e do Programa Queimadas (BDQueimadas), ambos do Inpe; do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden); e da equipe da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que acompanha políticas públicas de controle do desmatamento. No total, 30 pesquisadores assinam o estudo, intitulado Aumento das Emissões de Carbono na Amazônia Devido Principalmente ao Declínio da Aplicação da Lei.

A pesquisa destaca a queda na aplicação e cobrança de multas aos desmatadores pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Sob Bolsonaro, um decreto presidencial – o 9.760, de abril de 2019 – e vários despachos do Ibama dificultaram a autuação por crimes ambientais e facilitaram a prescrição de penalidades. O resultado é que as multas aplicadas na Amazônia diminuíram 30% em 2019 e 54% em 2020, na comparação com a média dos anos de 2010 a 2018. A redução das multas pagas foi de 74% em 2019 e 89% em 2020. Em contrapartida, nos mesmos dois anos o desmatamento aumentou 82% e 77%, respectivamente, e as áreas queimadas cresceram 14% e 42%.

Um marco simbólico da destruição foi o chamado “Dia do Fogo”, em 2019. Entre 10 e 11 de agosto daquele ano, o Inpe constatou 1.457 focos de calor no Pará, com epicentro na cidade de Novo Progresso, no sudoeste do estado. Isso representou um aumento de 1.923% em comparação com os mesmos dias do ano anterior, segundo levantamento do Greenpeace. Somente no dia 10, houve 715 focos de incêndio, 707% mais do que no dia anterior, 9 de agosto, quando ocorreram 101 focos. Investigações da polícia mostraram que fazendeiros de Novo Progresso tinham feito uma vaquinha para comprar combustível e incendiar a mata. O levantamento do Greenpeace, porém, revela que só 5% das 207 propriedades em que houve queimadas foram multadas.

 Imagem aérea de queimadas na região de altamira, município no estado do pará, em 2019, durante o mandato de jair bolsonaro. Foto: victor moriyama/greenpeace imagem aérea de queimadas na região de Altamira, município no estado do Pará, em 2019, durante o mandato de Jair Bolsonaro. Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

Quando ocorreu o Dia do Fogo, Bolsonaro enfrentava críticas internacionais por causa do aumento do desmatamento. Ele havia travado uma discussão pública com o presidente da França, Emmanuel Macron, e a Alemanha suspendera doações para o setor ambiental brasileiro. As queimadas seriam uma manifestação dos ruralistas de apoio ao presidente. Em janeiro de 2022, num evento de lançamento de crédito agrícola do Banco do Brasil, Bolsonaro comemorou a queda na autuação durante seu governo. “Paramos de ter grandes problemas com a questão ambiental, especialmente no tocante à multa. Tem que existir? Tem. Mas conversamos e nós reduzimos em mais de 80% as multagens [sic] no campo”, disse. Sete meses depois do discurso de Bolsonaro, em 22 de agosto, os focos de queimadas superaram os do Dia do Fogo: foram 3.358 em toda a Amazônia, dos quais 1.126 no Pará.

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

O estudo publicado na Nature constatou que, em 2019 e 2020, a maior parte do aumento das emissões se deveu à queima de florestas ainda em pé, que tem um efeito prolongado de degradação da vegetação – o mais comum é que as árvores primeiro sejam derrubadas e em seguida incendiadas. “A degradação em 2019 e 2020 foi gigantesca”, comenta Gatti. “[Os criminosos] entraram em terras protegidas, em terras indígenas, para pegar terra pública e queimaram floresta viva”, diz. “Como o fogo entra por baixo da mata, o satélite não pega bem. Quando o fogo apaga, continua havendo emissão de carbono porque a árvore está morrendo, está se decompondo. As emissões de decomposição superaram as emissões de queimadas”, explica ela. A dificuldade de captar em tempo real esse tipo de destruição ajuda a entender por que o crescimento dos focos de incêndio detectados nos dois primeiros anos de Bolsonaro foi menor que o das áreas queimadas: 3% em 2019 e 22% em 2020.

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

O artigo traz ainda dados que indicam para que foram usadas as áreas de floresta destruídas naqueles dois anos. O número de cabeças de boi na Amazônia aumentou 13% no biênio, enquanto diminuiu 4% no resto do país. A área plantada de soja cresceu 68%, e a de milho, 58%. A exportação de madeira bruta explodiu, aumentando 683%. Em fevereiro de 2020, um despacho do então presidente do Ibama, Eduardo Bim, acabou com a exigência de que essa exportação fosse autorizada pelo órgão, com exceção de espécies de árvore sob risco de extinção. Para as demais, bastava uma autodeclaração de que a madeira tinha origem legal.

Em 2021, Bim e Ricardo Salles passaram a ser investigados pela Polícia Federal por suposto envolvimento na exportação ilegal de madeira para os Estados Unidos e a Europa. Por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente do Ibama foi afastado do cargo por 90 dias. Salles acabou caindo do ministério, mas no ano passado foi eleito deputado federal por São Paulo, pelo PL, com 640 mil votos, a quarta maior votação para a Câmara no estado. O inquérito ainda não foi concluído.

O dominó da destruição

É a terceira vez que Luciana Gatti aparece como primeira autora em um artigo na Nature – os outros foram publicados em 2014 e 2021. Todos estão relacionados a suas pesquisas sobre os impactos da floresta amazônica no clima regional e global e vice-versa, porque, assim como a destruição da Amazônia influencia o clima do planeta, as mudanças climáticatambém prejudicam a floresta brasileira. Essa investigação começou nos anos 1990, quando o cientista Carlos Nobre buscou recursos e parcerias no exterior para criar, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, conhecido pela sigla em inglês LBA. O LBA ajudou a formar uma geração de cientistas brasileiros especializados em mudanças climáticas e ambientais, entre os quais Luciana Gatti. Química de formação, especialista na medição de gases do efeito estufa, ela foi estudar outras áreas, como meteorologia, para entender os resultados que obtinha.

Luciana Gatti confere equipamento usado para coletar amostras de ar na amazônia. as análises são feitas no laboratório do INPE, em São José dos Campos, estado de São Paulo. Foto: Maíra Erlich/Sumaúma

Na época, as primeiras medições do balanço de carbono na Amazônia – isto é, se a região mais emite ou absorve – foram feitas com o uso de torres de 80 metros para a coleta de amostras de ar. Logo se descobriu, porém, que os dados obtidos dessa forma eram insuficientes para representar toda a região, pois só mediam a quantidade de carbono naquele local específico.

Foi então que veio o projeto de usar aviões para recolher amostras de ar da Amazônia a diferentes distâncias do solo, em altitudes que vão de 300 metros a 4,4 quilômetros, inspirado no que já era feito em outros lugares pela Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA (NOAA, na sigla em inglês). Isso permite a representação de áreas mais amplas. O projeto foi concretizado com a criação do Laboratório de Gases de Efeito Estufa, que fez suas primeiras medições em 2010 e hoje recolhe amostras em quatro áreas, que representam as regiões nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste da Amazônia. “Se você vai descendo e a concentração de CO2 vai diminuindo, significa que a superfície está removendo CO2 da atmosfera. Se ela vai aumentando, significa que a superfície é uma fonte, está emitindo CO2”, explica Gatti. “Isso consegue te contar se a Amazônia é uma fonte ou um sumidouro de carbono [absorve mais gás do que é emitido].”

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

No artigo publicado na Nature em 2021, com base nos dados de 2010 a 2018, a cientista já afirmava que a capacidade da floresta amazônica de absorver todo o carbono lançado na atmosfera da região estava em declínio. Naquele texto, ela mostrava que as emissões eram maiores do que a absorção no entorno de Santarém, no Pará, e de Alta Floresta, em Mato Grosso, que ficam no lado leste da Amazônia, historicamente mais desmatado. Na época, as regiões no entorno de Tefé, no Amazonas, e Rio Branco, no Acre, ambas no oeste amazônico, ainda absorviam mais carbono do que emitiam. Em 2019, porém, a área nas proximidades de Tefé já virou emissora. Em 2020, isso ficou patente também nas medições feitas próximo a Rio Branco. “O desmatamento aumentou absurdamente em Mato Grosso, Rondônia, Roraima, sul do Amazonas e Acre”, diz Gatti.

De acordo com as informações do Laboratório de Gases de Efeito Estufa, em apenas três dos 11 anos entre 2010 e 2020 – 2011, 2017 e 2018 – o balanço das emissões de carbono na região amazônica como um todo foi neutro ou negativo, isto é, houve, em média, mais absorção do que emissões. Em 2010, as emissões aumentaram, apesar de o desmatamento ter caído em relação ao ano anterior, mas houve outro El Niño. Em 2011 e 2018, ocorreu o fenômeno La Niña, que tem efeito oposto – as águas do Pacífico ficam mais frias, e isso provoca mais chuvas na Amazônia.

Luciana Gatti, porém, não estava plenamente satisfeita com as explicações de que dispunha para o balanço das emissões na Amazônia. Embora o desmatamento seja uma causa direta do aumento das emissões de carbono, ela ficou intrigada com o fato de não haver uma relação proporcional entre o desmate acumulado e essas emissões. Por exemplo, uma região que já tinha perdido 27% da mata nativa emitia oito vezes mais do que outra que estava 11% desmatada – e não quase três vezes mais, como uma conta matemática simples permitiria deduzir. Aí veio a pesquisa que lhe proporcionou seu “maior aprendizado”, no sentido de entender que a floresta que resta está sendo modificada pelo desmatamento.

Analisando os dados mensais de chuvas e temperaturas durante 40 anos para cada uma das quatro regiões cobertas pelas coletas do laboratório, ela verificou que nas áreas mais desmatadas tinha havido maior redução de chuvas e aumento da temperatura, especialmente na estação seca. Na Amazônia, essa estação ocorre quando a floresta recebe menos vapor de água do oceano e a formação de chuva depende mais do processo de transpiração das árvores ou da evaporação dos rios. Nas áreas mais desmatadas, existem menos árvores para compensar essa perda de chuva.

Uma estação seca mais quente e com menos precipitação “estressa” a floresta, define Gatti. Numa floresta estressada, mais árvores morrem e as que continuam de pé são mais inflamáveis. “A floresta amazônica é como um jogo de dominó, em que tudo está correlacionado”, afirma a cientista. “Quando você desmata, você não emite só carbono, você reduz a chuva e aumenta a temperatura, o que vai fazer a floresta ficar mais seca. Quando o ser humano desmatar e tacar fogo [em uma área que será usada para pasto ou plantação], a floresta que não foi desmatada vai estar seca, e o fogo vai entrar muito mais”, exemplifica ela. “É esse conjunto de cenários que explica as emissões na Amazônia.”

O estudo recém-publicado na Nature mediu o impacto do desmatamento nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro na temperatura e nas chuvas. Em 2019, não houve alteração significativa em relação à média registrada nos anos entre 2010 e 2018. Em 2020, porém, foi constatada queda de 12% na precipitação anual. Diferentemente do verificado nas medições anteriores, essa queda se concentrou na estação chuvosa – janeiro, fevereiro e março tiveram 26% menos chuva. Nos mesmos três meses, a temperatura subiu 0,6 ºC. Uma menor precipitação na estação chuvosa, por sua vez, tem impacto na estação seca, porque se traduz em menos umidade disponível e a floresta pega fogo mais facilmente. “Na pandemia, eu fiquei sozinha, estudando sem parar, e foi isso que foi vindo à tona, essa visão integrada da destruição de uma floresta pelos brasileiros estúpidos, involuídos, que só conhecem o modelo econômico de 50 anos atrás”, desabafa Gatti.

Os jalecos e os livros usados em estudos sobre mudanças climáticas, no escritório de luciana gatti, no inpe. Foto: Maíra Erlich/Sumaúma

A floresta e o mundo

A cientista ressalta que os dados desanimadores constatados em suas pesquisas precisam ser vistos num quadro mais amplo. Embora esteja sob uma pressão cada vez maior, a vegetação amazônica, que representa cerca de 50% das florestas tropicais do mundo, ainda atua como reguladora do clima. Ela faz isso tanto por absorver carbono, na fotossíntese, quanto pela chamada “evapotranspiração”, que lança água no ar em forma de vapor. Esse vapor é responsável por 50% da recirculação de água na própria Amazônia e ainda produz chuvas no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, para onde é levado pelos ventos, fenômeno que ficou conhecido como “rios voadores”.

Se a atmosfera do planeta não tivesse sido alterada pelas atividades humanas, o balanço de carbono da floresta amazônica seria neutro, explica Luciana Gatti. “Ela é uma floresta madura, e numa floresta madura há um equilíbrio entre emissões e absorções”, diz, lembrando que a vegetação também emite CO2 por meio da respiração e quando está em decomposição. “Mas, como a atmosfera está superenriquecida de gás carbônico, a natureza está sendo estimulada a fazer mais fotossíntese. Essa absorção de carbono não é natural, ela é um desequilíbrio provocado por nós mesmos.”

Gatti cita os números do Projeto Global de Carbono, uma iniciativa científica internacional que calcula o Orçamento Global de Carbono. Segundo esse cálculo, a concentração de gás carbônico na atmosfera passou de 277 partes por milhão em meados do século 18, na era pré-industrial, para 417 partes por milhão em 2022. É isso que está provocando o aumento da temperatura média do planeta e os eventos climáticos extremos que esse aumento acarreta, como secas prolongadas e tempestades atípicas. Nessas circunstâncias, a floresta amazônica e outros ecossistemas brasileiros, como o Pantanal, atuam como um “tampão climático” para o país, diz Gatti. Quando evaporam água, resfriam a atmosfera.

Na última década, foram emitidos no mundo por ano, em média, 35 bilhões de toneladas de carbono pelo uso de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural) e 5 bilhões de toneladas por causa de mudanças no uso da terra, como o desmatamento. Do total de 40 bilhões, segundo o Orçamento Global de Carbono, 19 bilhões ficaram na atmosfera, outros 11 bilhões foram absorvidos pelas florestas e 10 bilhões pelos oceanos, por meio do fitoplâncton, formado por organismos como as algas, por exemplo, que também fazem fotossíntese. “Se a própria natureza não estivesse se alterando para compensar o estrago que a gente está fazendo, a nossa situação seria muito pior”, afirma a cientista. “Mas até quando a natureza vai conseguir fazer esse trabalho de limpar nossa sujeira?”

O estudo publicado na Nature busca uma conclusão que não seja pessimista sobre o futuro da floresta amazônica. Enumera políticas que levaram à redução contínua do desmate entre 2004 e 2012, como o primeiro Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDam), lançado em 2004, e a implementação no mesmo ano do Deter, sistema de monitoramento por satélite que permite detectar o desmatamento quase em tempo real. Lista também as iniciativas que foram minando a vigilância, como o Código Florestal de 2012, que anistiou 58% do desmatamento ilegal ocorrido até 2008 e deu 20 anos de prazo aos proprietários de terras para regularizarem sua situação. Ainda em 2018, no governo de Michel Temer, o Ibama retirou a autonomia dos agentes em campo para destruírem equipamentos usados para destruir a floresta.

Comparando os períodos de 2010 a 2014 e de 2016 a 2020, o estudo mostra que, no último deles, quando o ritmo do desmatamento voltou a aumentar, as emissões na Amazônia cresceram 50% e as emissões especificamente por queimadas subiram 16%. Já a absorção de carbono diminuiu 31%. Isso indica, afirma o artigo, que políticas públicas são importantes para prevenir o desmate, a degradação florestal e o fogo. Pelas contas de Luciana Gatti, o fim das queimadas e do desmatamento deixaria a floresta em condições de compensar, de novo, o gás carbônico jogado na atmosfera pelas atividades dos humanos.

A cientista já se dedica a uma nova pesquisa, que tem entre os parceiros o Carnegie Science, dos Estados Unidos. Joseph Berry, cientista veterano do instituto americano, descobriu que o composto conhecido como COS, o sulfeto de carbonila, formado por 1 átomo de carbono, 1 de oxigênio e 1 de enxofre, funciona como um “traçador de fotossíntese”. A planta não vê diferença entre o COS, que ocorre naturalmente na atmosfera, e o dióxido de carbono (CO2). Assim absorve os dois quando se alimenta. Quando ela respira, porém, produz apenas CO2 e, portanto, não devolve o COS à atmosfera. “A redução do COS nas amostras de ar é proporcional à fotossíntese”, explica Gatti. Dito de outra forma, a redução da presença de COS no ar pode dar uma medida mais exata da quantidade de CO2 que a vegetação absorveu ao se alimentar. “A gente vai finalmente poder dizer se a floresta estressada pelo desmatamento, pelo aumento da temperatura, está absorvendo menos carbono do que a floresta mais preservada”, antecipa-se, animada.


Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Elvira Gago
Tradução para o espanhol: Julieta Sueldo Boedo
Tradução para o inglês: Diane Whitty
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Montagem da página: Érica Saboya

A cientista em seu local de trabalho: ‘a gente vai finalmente poder dizer se a floresta está estressada pelo desmatamento’. Foto: Maíra Erlich/Sumaúma


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal Sumaúma [Aqui!].

Novo estudo mostra que o Glifosato provoca dano celular em organismos bioindicadores

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Em nossa rotina diária, eles passam despercebidos, mas os líquens – organismos formados por associação entre algas e fungos, por meio de uma relação harmônica entre as duas espécies diferentes – indicam a boa qualidade do ar. Ou seja, são bioindicadores. Estudos apontam que liquens em áreas de Preservação Permanente (APP) do Cerrado brasileiro são afetados pelo glifosato, um herbicida utilizado na agricultura para controlar ervas daninhas. Pesquisadores do Instituto Federal Goiano (IFGoiano) concluíram que a estrutura dos talos, a capacidade de realizar fotossíntese e metabolizar substâncias são danificadas pelo produto, segundo estudo publicado nesta segunda (28) na revista “Brazilian Journal of Biology”.

Os dados mostram que os líquens expostos a maiores quantidades do herbicida têm mais células mortas. Em algumas espécies, a concentração de clorofila e a absorção da luz usada na fotossíntese também diminui. O estudo foi realizado a partir da coleta de duas espécies de liquens presentes em uma APP no município de Caiapônia, em Goiás, após serem retirados de troncos de árvores. A amostra foi analisada em laboratório do IFGoiano para investigar seu comportamento em diferentes concentrações e tempos de exposição ao glifosato.

Ao ser pulverizado sobre a plantação, o glifosato é carregado por correntes aéreas. E como os liquens são sensíveis à presença do herbicida, quando pulverizados, podem bioindicar a presença do poluente no ar, mesmo não estando expostos diretamente ao produto aplicado sobre áreas de produção agrícola. Segundo Luciana Vitorino, autora do estudo, a propagação não intencional do produto é o foco da investigação. “Nós queríamos avaliar o potencial destes líquens como bioindicadores da dispersão desse herbicida a partir de áreas agrícolas, impactando todas as comunidades residentes em áreas de vegetação nativa inseridas nas regiões agrícolas”, afirma a pesquisadora.

Outros estudos na área apontam que o consumo de glifosato causa vários problemas de saúde, incluindo câncer em seres humanos, que podem consumir o herbicida indiretamente por meio de alimentos contaminados. “O glifosato passou a ser tão comum nas práticas agrícolas que vários países europeus estão estudando banir sua utilização nos próximos anos dada a sua toxicidade”, explica Vitorino.

Os autores esperam que outros estudos consigam identificar a presença do herbicida em áreas urbanas e comunidades próximas de APP, locais em que a aplicação do produto não é esperada. Isso é importante considerando os danos que o herbicida causa em seres humanos e organismos vivos. Mais análises sobre os efeitos do produto também podem identificar como outras espécies de líquens respondem ao glifosato e de que forma podem ser ameaçadas conforme a agricultura avança sobre áreas naturais.

“doravante” trama coletividades por uma arqueologia do futuro

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O livro doravante, de Monique Lima, nasceu pela Editora Arpillera, que produz livros artesanais. O lançamento foi realizado no dia 5 de julho, e cada exemplar é produzido, costurado e numerado manualmente.

A obra doravante coloca as pessoas leitoras dentro de uma cidade ocupada por coletivos de mulheres. Porém, assim como as sensações, pensamentos e sentimentos prismáticos próprios do feminino, outras paisagens podem ser tateadas por meio das palavras tecidas com pelos e carnes, entre gerações. O livro versa sobre a liberdade e o seu cerceamento, trama segredos e revelações com o desejo de uma prosa-poética que seja capaz, pela observação crítica, de engravidar leitoras e leitores de vida.

O posfácio é assinado pelo coletivo político-cultural anticapitalista Trunca. O texto revela: “Mais e além do que uma arqueologia do passado, a autora faz uma arqueologia do futuro, construindo pontes com blocos de cartas, bilhetes, fragmentos de sonhos e palavras entre o que há e o que queremos, o que temos e o que almejamos. Esse parece ser o grande gesto organizador da obra: a construção de pontes, como mãos estendidas que buscam reunir os cacos da vida despedaçada e convocam o fortalecimento dos laços de afeto, envolvimento e troca”.

Monique é letrista de música, artista de rua e de rádio. Nascida na Baixada Fluminense (RJ), descende da comunidade nordestina que habita a Zona Norte do subúrbio carioca. Educadora e pesquisadora, atua com cultura e política. Fez doutorado em Cultura, no Programa de Sociologia da Unicamp.

A Editora Arpillera cria projetos sensoriais únicos para cada original, selecionando técnicas, materiais e formatos que dialoguem com os textos. Nessa obra, a editora criou uma costura do tipo correntinha e trouxe um projeto gráfico que traz a sensação de abrir um caderno clandestino de guardados, uma “arqueologia do futuro” composta por textos em letra cursiva e até uma carta anexada.

O livro doravante já está à venda no site da editora.

Link para adquirir:

https://editoraarpillera.minhalojanouol.com.br/doravante—monique-lima/p

Site da editora: www.editoraarpillera.com.br

Links Monique: https://linktr.ee/outrotempomonique

Instagram: @editoraarpillera e @outrotempo_moniquelima