No Reino Unido, vítimas do tsulama de Mariana acusam a gigante da mineração BHP de ‘racismo ambiental’

Brasileiros escrevem a Sunak para instar o governo do Reino Unido a reprimir práticas corporativas antiéticas

observando tsulama

Cerca de 720 mil brasileiros estão processando a BHP, empresa anglo-australiana que até recentemente tinha sede em Londres, por seu papel no desastre da barragem de Mariana em 2015. A empresa nega responsabilidade. Ela está enfrentando reivindicações de indenização no valor de £ 36 bilhões na maior reivindicação de grupo do mundo na história jurídica inglesa .

Em novembro de 2015, a barragem de rejeitos de Fundão, co-propriedade da BHP com a produtora brasileira de minério de ferro Vale, estourou. O incidente em Mariana liberou 60 milhões de metros cúbicos de lixo tóxico , que destruiu a terra abaixo e poluiu tudo em seu caminho por mais de 600 km até chegar no oceano Atlântico.

Os resíduos mataram 19 pessoas, soterraram aldeias, deixaram milhares de desabrigados e afetaram o sustento de centenas de milhares. O impacto continua causando estragos no ecossistema e no meio ambiente, bem como na saúde das pessoas.

“Acreditamos que a BHP é culpada de racismo ambiental”, dizia a carta, entregue em 10 Downing Street na quinta-feira por alguns dos afetados. “São nossas comunidades indígenas as mais afetadas pelo desastre; nossas comunidades que corriam maior risco com as atividades de mineração; e nossas comunidades que continuam sem justiça pela BHP.”

Um porta-voz da BHP disse que a empresa “rejeita veementemente qualquer acusação de racismo ambiental”. No Brasil, a BHP, juntamente com a Vale e a Samarco, joint venture responsável pela gestão da barragem de Fundão, criou a Fundação Renova para ressarcir pessoas físicas e algumas empresas por perdas e danos, além de mitigar os impactos ambientais do desastre. Ele financiou mais de US$ 6 bilhões (£ 4,58 bilhões) em realojamento, reabilitação e indenização para todas as comunidades afetadas pelo desastre, acrescentou.

A questão foi discutida no parlamento britânico no mês passado. Tan Dhesi, parlamentar trabalhista de Slough, disse : “As empresas que administram grandes operações em todo o mundo não podem se esconder atrás de suas subsidiárias quando as coisas dão errado ou quando ocorre um desastre ecológico e ambiental. O Reino Unido tem um importante papel global.”

Jim Shannon, um deputado do DUP, disse aos presentes: “Não posso deixar de sentir que, se as comunidades britânicas ou australianas tivessem sido afetadas por tal desastre, não teriam sido tratadas da mesma forma. Na verdade, já teria sido resolvido há muito tempo.

A carta pede ao governo do Reino Unido que reconheça seu “papel vital para impedir que tais desastres voltem a acontecer” e para “reprimir as empresas britânicas que não cumprem suas credenciais sociais e ambientais em casa e no exterior”.

Tom Goodhead, sócio-gerente global e diretor-executivo da Pogust Goodhead, escritório de advocacia internacional com sede em Londres que representa as vítimas, disse: “Não se trata de dinheiro para a maioria dessas pessoas – elas querem justiça”.

Enquanto isso, a BHP e a Vale estão envolvidas em uma batalha legal sobre quem tem responsabilidade legal e financeira pelo desastre. Goodhead acrescentou: “Eles estão perdendo tempo, energia e recursos em vez de se sentar com as vítimas e resolver este caso. Eles se recusam a enfrentar as consequências de sua negligência. É um espetáculo vergonhoso.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Novo plano safra de agricultura familiar do governo Lula: repetindo erros

O atual plano é a reprodução, sem qualquer modificação, do modelo de crédito iniciado por Fernando Henrique Cardoso em 1996

lula safra

Por Jean Marc Von der Weid*

O novo plano de safra, que inaugura a ação do novo governo Lula para a agricultura familiar, foi festejado pelos movimentos sociais em cerimônia com a presença do presidente em ato apoteótico. No entanto, trata-se da reprodução, sem qualquer modificação, do modelo de crédito iniciado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em 1996, quando foi criado o Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar, PRONAF e o próprio e recém recriado Ministério do Desenvolvimento Agrário, MDA.

Qual a orientação deste crédito? Ao longo de todos estes 27 anos, do governo liberal de FHC, passando pelos governos ditos populares de Lula e de Dilma Rousseff, pelo governo golpista de Michel Temer e o governo protofascista de Jair Bolsonaro, o crédito facilitado para a agricultura familiar foi orientado para promover o uso de insumos químicos (adubos e agrotóxicos), sementes melhoradas (híbridas e transgênicas) para melhor aproveitarem adubos sintéticos e uso de maquinário agrícola (tratores, colheitadeiras).

Esse modelo produtivo, idêntico ao adotado pelo agronegócio de grande porte, responde a um paradigma produtivo que busca a máxima artificialização e controle do meio ambiente para favorecer uma monocultura. É um modelo sabidamente insustentável em qualquer escala em que for aplicado, mas é mais arriscado para os agricultores familiares. Dependendo de combustíveis fósseis em todas as suas operações no campo e na produção dos insumos e máquinas, o modelo está à mercê dos preços e disponibilidade de petróleo e gás e de fósforo e potássio. E todos estes insumos estão em fase de esgotamento e, em consequência, com custos sempre mais elevados.

O crédito altamente subsidiado pelo governo permitiu que uma camada significativa, mas bastante minoritária, da agricultura familiar tivesse acesso a estes insumos e provocou uma enorme diferenciação entre os beneficiários. A parcela mais capitalizada ou mais bem-dotada em termos de condições naturais de produção (solos de melhor qualidade, clima mais favorável, sobretudo na região sul, relevo mais plano, áreas maiores) progrediu em termos de volume de produção e melhoria de renda. A maioria, entretanto, teve dificuldades em pagar os créditos e muitos quebraram, apesar das várias anistias e renegociações de dívidas concedidas pelos governos populares.

Se olharmos para as negociações anuais entre as organizações dos agricultores familiares (CONTAG, CONTRAF e MST, MPA e MMC) e os governos populares (Abril Vermelho, Marcha das Margaridas, outros) vamos notar que o foco das reivindicações foi se dirigindo cada vez mais para tentar enfrentar o problema do endividamento, sem nunca o resolver de forma estável. Isto lembrando que estes governos criaram seguros de safra para cobrir os riscos climáticos para a produção. Estes riscos foram se tornando cada vez mais importantes ao longo destes anos, com secas mais longas e intensas na região nordeste e com a ampliação, no tempo e no rigor, do chamado veranico na região sul. A instabilidade do regime de chuvas foi se agravando sem limites e não houve seguro ou subsídio que desse conta do estrago.

Muitos analistas apontam para o fato de que o agronegócio também foi afetado por todos estes fatores e, no entanto, parece ter convivido melhor com eles. É bom notar que o agronegócio recebeu apoios ainda mais importantes por parte dos governos e que os subsídios, facilitação de créditos e isenção de impostos também os favoreceram. Mas há um outro fator que deu vantagens ao agronegócio: a escolha do que produzir. O agronegócio centrou sua atividade sobretudo em commodities do mercado internacional ou produtos dirigidos para o mercado interno de alta renda.

Quando se olha para a evolução da produção da agricultura familiar no período indicado acima, verificamos que a produção de alimentos para o mercado interno, sobretudo os chamados alimentos de base como arroz, feijão, milho e mandioca, caiu de forma sistemática, enquanto a produção voltada para as commodities como soja e milho (para ração animal) de exportação só fez crescer.

Quase metade de todo o crédito distribuído pelo PRONAF foi dirigido a projetos de produção de commodities no final do governo de Dilma Rousseff, sobretudo na região sul, que voltou a concentrar a maior parte dos créditos do programa depois de alguns anos de diversificação regional. Os projetos dos agricultores da região sul foram ficando cada vez mais caros, inclusive levando à criação de novas categorias do PRONAF, com limites mais elevados de créditos. Qual a razão para esta opção? O risco financeiro dos créditos levou estes agricultores a escolherem produtos com preços mais altos e mais estáveis e, nas condições do mercado nacional e do internacional, as commodities são mais rentáveis.

A segunda política mais importante dos governos populares, no que toca a agricultura familiar, foi a de assistência técnica e extensão rural, ATER. Apoiando-se sobretudo nas entidades dos governos estaduais de assistência técnica e extensão rural, as EMATER, a política de assistência técnica convergiu para estimular o uso do pacote técnico típico do agronegócio, em sintonia com a orientação do crédito.

Qual o efeito destas políticas para a categoria dos agricultores familiares? Já foi dito que elas favoreceram a inclusão de parte deste setor na economia de commodities, mas qual o impacto sobre a renda e a sustentabilidade dos produtores?

Se olharmos para os resultados dos censos agropecuários de 2006 e de 2017, constatamos que o número de famílias camponesas diminuiu fortemente no período. São, aproximadamente, menos 470 mil famílias, 10,7% das que existiam em todo o país. Isto aconteceu apesar de terem sido assentadas perto de 480 mil famílias no programa de Reforma Agrária. Ou seja, quase um milhão de famílias deixaram o campo em 11 anos.

Estes números cobram uma explicação e nem na campanha eleitoral ou na fase de transição entre os governos de Jair Bolsonaro e de Lula alguém se debruçou sobre este dado importantíssimo para avaliar o efeito da ação governamental sob responsabilidade da esquerda.

Qual a origem geográfica desta pesada evasão de camponeses? O maior número veio do Nordeste, quase 350 mil famílias (16% do total de agricultura familiar na região). Da região Sul saíram quase 185 mil (22%). Da região Sudeste saíram 11 mil. Nas regiões Norte e Centro Oeste o número de agricultores familiares aumentou, 68 mil e 6 mil respectivamente.

Qual a causa destas evasões? Há um sabido e estudado processo de envelhecimento da população rural, com agricultores se aposentando e sem sucessores. Mas os números citados são muito altos para esta ser a explicação principal. A evasão no Nordeste é histórica e tem a ver com o impacto cada vez mais importante de secas cada vez mais longas e intensas. Mas também foi constatado um alto nível de inadimplência nos empréstimos do PRONAF na região, o que sugere que esta pode ter sido também uma causa importante. No entanto, o tipo de empréstimo que prevaleceu na região Nordeste, conhecido como PRONAF B, não se voltou para a promoção do uso de insumos químicos e sementes melhoradas, como nas regiões Sul e Sudeste.

Na região Sul, a que mais recebeu créditos do PRONAF, a orientação técnica foi voltada para as monoculturas de soja e milho e para o uso de adubos químicos, agrotóxicos, sementes transgênicas e maquinário agrícola. É neste público e nesta região que se deveria avaliar o programa de crédito, sobretudo pelos valores despendidos tanto no volume total como no volume por beneficiário. E o indicativo é que uma boa parte dos agricultores que deixaram o campo o fizeram por problemas financeiros.

Durante a campanha Lula adotou a política de prometer “mais do mesmo”, idealizando as realizações do seu governo, já que o de Dilma Rousseff foi mal avaliado. Deu certo eleitoralmente, mas a equipe de transição que tratou do tema da agricultura familiar adotou uma importante mudança em relação aos tempos passados: a meta do novo Ministério do Desenvolvimento Agrário passou a ser a promoção da agroecologia como estratégia para dar sustentabilidade à produção desta categoria.

Sem ter havido uma avaliação das políticas aplicadas no passado, esta decisão a favor da agroecologia implica em uma crítica implícita aos governos de Lula, já que neles, assim como nos de Dilma Rousseff, prevaleceu amplamente a promoção das práticas do agronegócio visando a sua adoção pela agricultura familiar. As medidas de apoio à produção agroecológica foram residuais.

O que a equipe de transição não fez foi discutir como traçar políticas de crédito, de assistência técnica e extensão rural, de seguro e de acesso a mercados para realizar o objetivo definido. A experiência mostra que as medidas, bem marginais, adotadas nos governos passados para favorecer a agroecologia tiveram muitos problemas. Os créditos PRONAF agroecologia, semiárido e floresta foram mal formulados e tiveram pouquíssimos acessos; as chamadas de assistência técnica e extensão rural para financiamento de projetos de promoção da agroecologia também tiveram enormes problemas de formulação e execução. As compras da CONAB (PAA, Programa de Aquisição de Alimentos) favorecendo produtos agroecológicos tiveram melhores resultados, mas os valores foram diminutos e beneficiaram poucos agricultores.

O novo Ministério do Desenvolvimento Agrário tem dificuldades em fazer esta revisão das políticas. Em primeiro lugar, porque virou uma praxe desde os governos populares escantear qualquer crítica às ações do governo. As quedas de braço entre membros do Conselho do Ministério do Desenvolvimento Agrário (CONDRAF) e técnicos e dirigentes deste ministério foram constantes e resultaram em pelo menos um enfrentamento público por ocasião da primeira conferência nacional de assistência técnica e extensão rural, no governo Dilma Rousseff, com Pepe Vargas como ministro.

Já o programa de crédito ficou blindado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, que conseguiu impedir a formação de um Comitê de acompanhamento/avaliação da política no CONDRAF ao longo de 13 anos. Apenas no apagar das luzes do governo Dilma conseguimos criar um grupo de trabalho para avaliar esta política, apoiado pelo ministro Patrus Ananias. Este GT chegou a reunir uns 10 pesquisadores de universidades do nordeste, sudeste e sul, técnicos de ONGs, agentes financeiros e responsáveis governamentais. Durou pouco. O golpe em Dilma Rousseff matou essa iniciativa no nascedouro.

Em segundo lugar, o novo Ministério do Desenvolvimento Agrário está composto por um grupo pequeno de técnicos, longe do número de pessoas que nele trabalhavam quando foi extinto por Michel Temer. O pior é que não consegui identificar, entre os que hoje se encarregam deste ministério, algum dos membros das equipes que nele trabalharam nos tempos de Lula I e II e de Dilma I e I/3. Não há hoje, na equipe atual, a memória viva das experiências, exitosas ou fracassadas, dos períodos anteriores.

De todas as políticas em prol da agricultura familiar, a de maior impacto e de maior durabilidade foi a de crédito. Ela foi concebida e dirigida por um técnico altamente competente, João Luiz Guadagnin, desde o governo FHC até a queda de Dilma. Foi o único programa a que Michel Temer e Jair Bolsonaro deram continuidade, promovendo técnicos que já trabalhavam no mesmo. E este programa, com todos os seus erros de concepção, está tendo continuidade neste governo, sem qualquer avaliação crítica. Me pergunto como é que o MST, importante participante do ato de lançamento do Plano de Safra no Planalto, recebeu esta “nova” proposta. Desde o governo Dilma Rousseff o MST tornou-se um defensor coerente e incisivo da agroecologia, assim como a CONTRAF e a CONTAG, embora estes dois últimos sejam menos convictos desta proposta, pelo menos como proposta universal.

A mesma crítica pode ser feita ao segundo dos programas mais importantes do antigo ou do novo Ministério do Desenvolvimento Agrário: o de assistência técnica e extensão rural. As novas chamadas para projetos de assistência técnica repetiram praticamente todos os vícios e erros das chamadas anteriores, em 2010/2016.

A necessidade de se fazer um planejamento rigoroso, baseado numa revisão das políticas passadas e dos seus efeitos é premente ou veremos a repetição dos resultados anteriores. A meu ver, não é apenas necessário discutir cada um desses programas, mas a própria abordagem do governo para a promoção do desenvolvimento da agricultura familiar.

Com efeito, não é de hoje que eu comparo os métodos e práticas dos projetos de promoção do desenvolvimento da agricultura familiar de entidades da ONU, como a FAO e o PNUD e as adotadas pelos governos populares. No Brasil as iniciativas de apoio à produção são distribuídas por várias políticas distintas (crédito, assistência técnica e extensão rural, compras governamentais, acesso a mercados, beneficiamento, seguro, pesquisa). Nos programas de desenvolvimento que acompanhei na África todas estas políticas estavam integradas em cada um dos projetos, com um só orçamento sendo gerido harmonicamente.

Na prática, a diferença se traduz (aqui) na necessidade de cada entidade que trabalha com um público definido de agricultores formular projetos para acessar os recursos que necessita: um projeto para a assistência técnica e extensão rural, centenas de projetos individuais para cada agricultor acessar crédito, centenas de outros para acessar o PAA, sendo que não existem recursos para projetos que envolvam pesquisas participativas ou para facilitar a integração com entidades como a EMBRAPA ou as equivalentes estaduais. Além dessa dispersão de recursos provocar enormes dificuldades operacionais para as equipes de apoio, existem incoerências na orientação de cada uma das políticas.

O modelo atual de políticas separadas funciona para a promoção de modelos convencionais de produção, mas são totalmente ineficazes para a promoção da produção agroecológica.

Se não for realizado um intenso esforço de avaliação das políticas e dos mecanismos de financiamento da promoção da transição agroecológica vamos assistir a repetição dos problemas já vividos pela agricultura familiar ao longo das últimas três décadas. Mais do mesmo não é uma solução.

*Jean Marc von der Weid


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Este texto foi originalmente publicado pelo portal “A Terra é Redonda” [Aqui!].

Inseticidas campeões de venda no Brasil contém ingredientes banidos pela União Europeia

O portal de notícias Agrolink divulgou ontem uma nota dando conta que dois agrotóxicos produzidos pela empresa indiana UPL teriam sido “especialmente bem sucedidos”.  No caso os produtos seriam os inseticidas Perito 970 SG e Sperto cujas vendas representariam  11% e 8% do mercado, respectivamente.

O que o Agrolink “esqueceu” de mencionar é sobre quais seriam os ingredientes desses “campeões de venda” da UPL e qual seriam o status dos mesmos, por exemplo, na União Europeia.  Ao consultar a bula dos dois produtos verifiquei queo Perito 970 SG é o Acefato, um organofosforado, enquanto que o Sperto seria o resultado da combinação do Acetamiprido, um neonicotinóide, com a Bifentrina, um piretróide.

Ao verificar o status na União Europeia desses ingredientes, verifiquei que tanto o Acefato como a Bifentrina estão banidos por causa dos seus impactos negativos sobre o meio ambiente e a saúde humana. 

Outro detalhe é que esses “campeões de venda” estão sendo usados preferencialmente na monocultura da soja, o que, mais uma vez, demonstra de forma explícita os altos custos socioambientais que esta cultura traz para o Brasil, enquanto traz grandes lucros para a UPL.

Johnson & Johnson processa pesquisadores que ligaram o uso de seu talco ao câncer

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Por Dietrich Knauth para a Reuters 

12 de julho (Reuters) – A Johnson & Johnson processou quatro médicos que publicaram estudos citando ligações entre produtos de cuidados pessoais à base de talco e câncer, ampliando um ataque a estudos científicos que a empresa alega serem imprecisos.

A LTL Management, subsidiária da J&J, que absorveu a responsabilidade pelo talco da empresa em um controverso spin-off de 2021, entrou com uma ação na corte federal de Nova Jersey na semana passada pedindo para forçar três pesquisadores a “retratar e/ou emitir uma correção” de um estudo que dizia que produtos de talco de consumo contaminados com amianto causavam o desenvolvimento de mesotelioma.

Um dos pesquisadores, Richard Kradin, se recusou a comentar. Os outros dois, Theresa Emory e John Maddox, não responderam aos pedidos de comentários. Os advogados que representaram os três pesquisadores em processos semelhantes no passado se recusaram a comentar.

A J&J está enfrentando mais de 38.000 ações judiciais alegando que os produtos de talco da empresa, incluindo o produto para bebês, foram contaminados por amianto e causaram cânceres, incluindo câncer de ovário e mesotelioma. A J&J está tentando resolver esses processos, bem como quaisquer processos futuros sobre talco, por meio de um acordo de US$ 8,9 bilhões no tribunal de falências.

A J&J parou de vender produtos com base de talco em favor de produtos à base de amido de milho, citando um aumento de ações judiciais e “desinformação” sobre a segurança do produto talco.

A empresa em 2021 começou a explorar a falência como uma solução potencial para os processos, que tiveram um histórico misto no julgamento, incluindo várias vitórias de defesa, mas também um veredicto de US $ 2,1 bilhões concedido a 22 mulheres que culparam o câncer de ovário ao amianto nos produtos de talco da empresa. A J&J disse em processos de falência em abril que os custos de seus veredictos, acordos e honorários advocatícios relacionados ao talco chegaram a cerca de US$ 4,5 bilhões.

O processo da semana passada contra Emory e Maddox, patologistas afiliados à Peninsula Pathology Associates em Newport News, Virgínia, e Kradin, um pneumologista que trabalhou no Massachusetts General Hospital Cancer Center antes de sua aposentadoria, vem na sequência de outra queixa apresentada pela LTL contra outra médica, Jacqueline Moline, que trabalha na Northwell Health em Great Neck, Nova York, por motivos semelhantes.

Moline publicou um artigo em 2019 estudando 33 pacientes que disseram que sua única exposição ao amianto veio de produtos de talco, e Emory, Kradin e Maddox seguiram com um estudo de 2020 com 75 pacientes semelhantes.

Todos os quatro médicos forneceram depoimentos de especialistas em processos contra a J&J, e suas pesquisas foram citadas em processos em que não testemunharam, de acordo com as denúncias.

LTL disse que os pesquisadores esconderam o fato de que alguns ou todos os pacientes envolvidos em seus estudos foram expostos ao amianto de outras fontes.

A empresa também está pedindo ao tribunal que obrigue os pesquisadores a revelar a identidade dos pacientes.

Os processos alegam depreciação e fraude de produtos, entre outras reivindicações.

Adam Zimmerman, professor da Faculdade de Direito Gould da Universidade do Sul da Califórnia, disse que as empresas raramente abrem processos por pesquisas com as quais discordam. Será muito difícil para a LTL provar que os pesquisadores prejudicaram intencionalmente a reputação da J&J, o que é necessário para casos de depreciação de produtos em Nova Jersey, mas a empresa pode ver os processos como uma forma de desencorajar outros pesquisadores ou recuperar a narrativa sobre a segurança do talco, disse Zimmerman.

“Quando um litigante começa a processar especialistas adversários, isso é muito agressivo”, disse Zimmerman. “Ele envia uma mensagem de que as luvas estão fora.”

Moline argumentou em documentos judiciais que o litígio da LTL teria um efeito profundamente assustador em pesquisas médicas futuras se a empresa pudesse desmascarar os pacientes “na esperança de difamá-los publicamente”. Seus processos judiciais dizem que o processo da LTL foi feito para “atacar e silenciar” os cientistas, e que ela tem uma obrigação ética de proteger as identidades de seus sujeitos de pesquisa.

Os processos da LTL alegam que a pesquisa dos médicos lhes permitiu coletar milhões de dólares dos advogados dos queixosos para promover uma “narrativa falsa” sobre a J&J. A queixa contra Moline, por exemplo, dizia que ela havia feito uma “pequena fortuna” testemunhando como especialista paga em ações judiciais, recebendo mais de US$ 3 milhões por seu trabalho em ações judiciais relacionadas ao amianto. A LTL alegou que Kradin também ganhou mais de US$ 3 milhões testemunhando como especialista dos queixosos.

Os pesquisadores não puderam ser imediatamente contatados para comentar.

A LTL entrou com processos semelhantes contra os pesquisadores em dezembro de 2022, mas essas reclamações estavam relacionadas ao primeiro pedido de falência da LTL e foram indeferidas junto com o restante da falência em abril.

Os casos são LTL Management v. Moline e LTL Management v. Emory, Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito de Nova Jersey, nºs 23-cv-02990 e 23-cv-03649.

Para LTL: Peter Harvey de Patterson Belknap Webb & Tyler; Allison Brown de Skadden, Arps, Slate, Meagher & Flom; e Kristen Fournier de King & Spalding

Para Moline: Kevin Marino e John Tortorella de Marino Tortorella & Boyle

Para Emory, Kradin e Maddox: Ainda não disponível 


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Rachaduras colocam em xeque a situação de responsabilidade de Instituições Financeiras na regulação do desmatamento

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Internacionalmente, as instituições financeiras (IFs) continuam isentas de regulamentações cruciais para aumentar seus esforços e responsabilidade para deter o desmatamento e as violações dos direitos humanos ligadas às cadeias de suprimentos que financiam. Recentemente, no entanto, alguns passos iniciais foram propostos no Brasil para mudar essa situação, e um relatório do Rabobank mostrou que o dano ambiental e social vinculado ao financiamento do banco a setores de risco florestal no Brasil é material.

Em 29 de maio, a Associação Brasileira de Bancos (Febraban) lançou uma nova autorregulamentação que limita o financiamento a frigoríficos que solicitem a seus clientes a implementação de um sistema de rastreabilidade e monitoramento que permita demonstrar a exclusão de fornecedores (diretos e indiretos) ligados ao desmatamento ilegal . A regulamentação foi adotada voluntariamente por 21 bancos , incluindo grandes como Itaú Unibanco, Santander, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa, Safra e BTG Pactual.

A regulamentação cria uma etapa que complementa algumas exigências existentes pelo Banco Central do Brasil na concessão de crédito a agroindústrias e produtores rurais. No entanto, tem várias deficiências. É importante ressaltar que abrange apenas o desmatamento ilegal e se limita à Amazônia Legal e ao Maranhão, deixando de fora a maior área de vegetação nativa do importante e em rápido desaparecimento do bioma Cerrado. Além disso, pede rastreabilidade total para matadouros até dezembro de 2025 e isenta fornecedores indiretos abaixo de 100 hectares.

Regulamentos da União Europeia

Na União Europeia (UE), as IFs foram excluídas da prestação de contas e relatórios no regulamento de desmatamento da UE (EUDR), bem como na posição de negociação do Parlamento Europeu (1º de junho de 2023) sobre a Diretiva de Devida Diligência de Sustentabilidade Corporativa (CSDDD) . Eles são excluídos no momento em que seus financiamentos permitem que as empresas continuem suas atividades nos biomas Amazônia e Cerrado. Essas atividades contribuíram para o desmatamento, danos ao clima e à biodiversidade, bem como danos à saúde e danos às populações indígenas. O CDSDD sustentará o Regulamento de Divulgação de Finanças Sustentáveis ​​(SFDR), que regula principalmente fundos de investimento e gestores de carteiras. Esses fundos, de propriedade das IFs, podem optar por não serem sustentáveis ​​caso não adotem o SFDR.

A EUDR diz que a presente iniciativa não terá como alvo específico o setor financeiro e os investimentos. A razão é que as iniciativas existentes na área de finanças sustentáveis, como a implementação do Regulamento de Taxonomia da UE e a futura Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) (sucessora da atual Diretiva de Relatórios Não Financeiros, NFRD), são consideradas adequadas para abordar os impactos do desmatamento dos setores financeiro e de investimento, complementando e apoiando, assim, esta iniciativa legislativa sobre o desmatamento.

No EUDR, as autoridades da UE avaliarão a posição atual das IFs. Isso também ocorre porque o papel dos bancos e investidores no financiamento de setores de risco florestal é significativo. De 2010 a 2022, os bancos e investidores da UE27 forneceram um total de USD 44,6 bilhões (Florestas e Finanças) em financiamento (identificado e ajustado) para setores globais de risco florestal. Os maiores provedores entre os bancos foram Rabobank, Santander e BNP Paribas, e os maiores investidores foram Crédit Agricole, PFZW (Pensioenfonds Zorg en Welzijn) e Deutsche Bank. Bancos na Holanda, Espanha e França foram de longe os maiores financiadores.

Relatório sobre os danos ambientais e sociais do Rabobank no Brasil

Um relatório sobre o Rabobank, um banco cooperativo comercial holandês ativo em todo o mundo com foco na agricultura, calculou os danos ambientais e sociais do banco. O relatório concluiu que o financiamento de atividades de risco florestal no Brasil e o financiamento de atividades pecuárias de origem holandesa resultaram em danos ambientais e sociais materiais no período 2000-2022. O financiamento total do Rabobank dessas duas atividades aumentou sete vezes de 8,8 bilhões de euros de 2000 até o final de 2022. A empresa obteve um resultado bruto (receita líquida de juros mais taxas menos custos operacionais) nessas atividades de 717 milhões de euros no período 2000-2022.

No entanto, a estimativa de danos ambientais, de saúde e sociais causados ​​por esses fluxos financeiros para os setores brasileiros de risco florestal é muito maior: pelo menos 66 bilhões de euros em um cenário “baixo” e 459 bilhões de euros em um cenário “alto”. O Rabobank não pagou por esses custos, mas eram custos externos para a sociedade: custos climáticos, custos do ecossistema e custos de saúde decorrentes da poluição do ar e da água. Um total de 387.700 hectares (66 vezes a área de Manhattan em Nova York, ou 23 vezes Amsterdã) de desmatamento pode ser vinculado à participação do Rabobank (ajustada para participação no valor da empresa) no financiamento de atividades de risco florestal. Não estão incluídos nas estimativas de custo os danos ao valor intrínseco da natureza, além dos danos sociais e culturais às populações indígenas que perderam suas terras. Estes não podem ser calculados.

Os financiadores terão de se preparar para eventualmente serem incluídos na EUDR e na UE CSDDD, com a sociedade civil a aumentar a pressão sobre eles. Eles podem enfrentar riscos financeiros se deixarem de cumprir os esforços de implementação e conformidade. Isso se soma aos riscos dos ativos que financiam: Esses riscos consistem em perda de receitas, perda de EBITDA, riscos de financiamento e perda de valor de reputação. Vários relatórios da Chain Reaction Research demonstraram que os custos de execução e monitoramento – por exemplo, políticas ou leis de não desmatamento, como NDPE (No Deforestation, No Peat, No Exploitation) e EUDR – são muito mais baixos do que os riscos financeiros, particularmente para os setores a jusante.


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Este texto originalmente escrito em inglês foi publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Ao contrário do anunciado pelo governo Lula, o Programa de Escolas Cívico-Militares não acabou e deve continuar a ser combatido

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Macapá – Escola Cívico Militar – Alunos da escola Estadual Professor Antônio Ferreira Lima Neto. Foto: Escola Lima Neto/Facebook

Por Lucas Pelissari*

1. No dia 12/07, o MEC editou o Ofício Circular nº 4/2023,, que tem como objeto o Programa de Escolas Cívico-Militares (PECIM). Uma política educacional de natureza autoritária, influenciada por importantes setores das forças armadas durante um governo militar como o de Jair Bolsonaro, não se extingue por ofício circular. Ainda mais com seis breves parágrafos que não regulam em absolutamente nada os mecanismos da política.

2. O centro da medida está na “desmobilização de pessoal” e na “adoção gradual de medidas que possibilitem o encerramento do ano letivo dentro da normalidade”. O que isso significa, em termos de política educacional? Nada. Ainda mais quando combinado com o trecho em que o ofício apresenta a responsabilidade pela medida de reintegração das escolas militares ao sistema regular (civil) de ensino: cabe às “Unidades Educacionais” fazê-lo.

3. Ao contrário de barrar algo, o documento preserva intacta a abertura de escolas cívico-militares nos estados. Governos do Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul, por exemplo, já anunciaram a abertura de novas escolas ao longo do segundo semestre, investindo pesado, financeira e politicamente, na continuidade do programa.

4. Trata-se de movimentação muito semelhante à da falsa interrupção do Novo Ensino Médio (NEM), que pegou desprevenida boa parte da esquerda. Vejam o que temos, meses depois, no NEM: preservação total da política e, pior, seu aperfeiçoamento, com ampla participação do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED), e associações e fundações empresariais. Política educacional é movimento, é luta de classes. Há sérios riscos em pautarmos nossas ações e avaliações por movimentações tímidas do executivo como portarias e ofícios circulares. Participação, aliás, ao que parece, hegemônica, mesmo com os setores progressistas tendo construído uma quantidade muito maior e muito mais qualificada de propostas, ao longo da “consulta pública” sobre o NEM.

5. Políticas educacionais existem sob duas condições muito bem definidas. Primeiro: são reguladas por dispositivos jurídicos do Estado. Segundo: são produto de embates e disputas. Na vigência de um Decreto Federal (nº 10004/2019, assinado por Bolsonaro) e em um contexto de permanência do movimento neofascista, inclusive governando estados da federação, nenhuma das duas condições parece ter sofrido qualquer mudança, ainda que sensível, com o Ofício Circular de 12 de julho.

*Lucas Pelissari é  docente da Faculdade de Educação da Unicamp

Bilhões de pessoas ameaçadas pela fome no mundo, mas a prioridade do Ocidente é fazer guerras

As organizações da ONU estão soando o alarme em vista dos números persistentemente altos. A vontade política que sobra para fazer guerra, falta para combater a fome

trigoImportante para a nutrição global, mas atualmente em perigo: colheita de trigo na Ucrânia (08/09/2022)

Por Ina Sembdner para o JungeWelt

Enquanto a riqueza global continua a crescer, bilhões de pessoas permanecem sem acesso seguro e regular a alimentos suficientes. 2,4 bilhões de pessoas, para ser preciso, o que representa quase 30% da população mundial. Este número para o ano passado vem do relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2023“, publicado em Roma na quarta-feira pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD), o Fundo das Nações Unidas para a Infância UNICEF, o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Além disso, milhões de pessoas – sobretudo na África, onde uma em cada cinco é afetada – voltaram a sofrer várias formas de fome. Também em 2022, havia 739 milhões, quase tanto quanto em 2021 e ainda significativamente mais do que antes da pandemia de corona em 2019, quando havia cerca de 613 milhões de pessoas sofrendo de fome ou desnutrição. A Organização das Nações Unidas, na verdade, havia se proposto a querer eliminar a fome no mundo até 2030 – o que, diante dos acontecimentos atuais, é ilusório. No prefácio do relatório, os chefes das cinco organizações da ONU agora têm que admitir que 600 milhões de pessoas ainda passarão fome em 2030. E continua a “vontade política” de “implementar soluções em larga escala”, como reclama o presidente do FIDA, Álvaro Lario. “Podemos erradicar a fome

No entanto, o mundo ocidental está longe disso. A principal prioridade aqui é a guerra e a militarização. Além de conflitos como na Síria ou no Iêmen e os efeitos da mudança climática, o relatório culpa a Rússia e sua invasão da Ucrânia “com suas consequências para o abastecimento de grãos nos países mais pobres”. Nem uma palavra sobre as consequências das sanções ocidentais, que afetam severamente o comércio de fertilizantes.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Relatório liga empresas transnacionais à grilagem de terras no Sul do Piauí

Empresas transnacionais do agronegócio causam violência, grilagem de terras e destruição no Cerrado

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Empresas transnacionais do agronegócio causam violência, grilagem de terras e destruição no Cerrado é o título do relatório que a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos lança nesta quarta-feira, 11 de julho de 2023. Nele, está descrita a relação entre o aumento de preço das commodities da soja e as recentes grilagens, desmatamentos e violências contra comunidades rurais.

No sul do Piauí, foco deste relatório, atuam empresas do agronegócio no Brasil, como a Radar Propriedades Agrícolas S.A./Tellus, Insolo Agroindustrial, Sierentz, SLC Agrícola e SLCLandCo. A pesquisa mostra as relações destas com a trading company Bunge e com corporações financeiras transnacionais como o fundo de pensão estadunidense TIAA, a Universidade de Harvard e o fundo de investimento Valiance Asset Management, do Reino Unido.

Um dos casos descritos no relatório foi o desmatamento de cerca de 4 mil hectares entre 2021 e 2023 na Fazenda Kajubar: “o caso da fazenda Kajubar não é isolado. Este tipo de mecanismo revela a ação de grileiros e de empresas do agronegócio, muitas vezes ligadas a fundos internacionais, que estimulam desmatamento e violência contra comunidades rurais. A pesquisa sobre casos de desmatamento combina monitoramento realizado pela organização AidEnvironment e denúncias por parte de comunidades impactadas.”

O relatório detalha o processo de ação anulatória que mostra que esta e outras áreas foram griladas – como é o caso de áreas controladas pelo grupo Radar S.A. e Insolo Agroindustrial.

Estas empresas promovem a expansão do monocultivo da soja, causando violação de direitos territoriais de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e camponesas. Estas comunidades, que preservam o Cerrado, denunciam o aumento das queimadas, desmatamentos, violência, ameaças de morte e contaminação de sua produção de alimentos por agrotóxicos das empresas do agronegócio.

Liberações de agrotóxicos caem ligeiramente no novo governo Lula, mas ainda são altas

O professor universitário Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, em Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, vê o Brasil em um círculo vicioso

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Por Christian Russau para a Kooperation Brasilien (Kobra)

A liberação estadual de agrotóxicos caiu um pouco no novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mas continua alta. Essa é a conclusão da análise do professor universitário Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, em Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro. Durante anos, Pedlowski manteve estatísticas continuamente atualizadas sobre a aprovação estadual de pesticidas, como fungicidas, herbicidas e inseticidas. No início de julho, ele atualizou após a republicação do Diário Oficial da União “Diário Oficial da União” nº 30 de 6 de julho de 2023, que relatou a liberação adicional de 21 agrotóxicos. Pedlowski somou os números e encontrou nos primeiros seis meses do governo Lula um valor de 200 agrotóxicos liberados . Para comparação histórica: Pedlowski somou tudo e chegou a 2.030 agrotóxicos aprovados durante os quatro anos de gestão de Jair Bolsonaro (1º de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022) – isso corresponderia a uma média de 253 agrotóxicos para cada seis meses durante o mandato de Bolsonaro. Nesse sentido, o número de venenos agrícolas liberados no governo Lula caiu um pouco em relação ao governo Bolsonaro, mas ainda é assustadoramente alto.
Por que é que? Pedimos uma avaliação ao professor Marcos Pedlowski.

Marcos Pedlowski: “Antes de tudo, temos que afirmar que o presidente Lula – ao contrário das promessas eleitorais e do seu discurso de vitória eleitoral – não está comprometido com a introdução de um novo modelo agrícola baseado na agroecologia. Isso ficou claro quando ele  nomeou o ruralista Carlos Fávaro , defensor do chamado Pacote de veneno,  para ser o ministro da Agricultura. Mas muito pior é o aporte de bilhões pelo governo federal para financiar o agronegócio, ao mesmo tempo em que uma quantia significativamente menor é disponibilizada para a agricultura familiar de pequena escala – e isso, embora seja a agricultura familiar de pequena escala que responda por mais mais de 70% dos alimentos fornecidos à população brasileira.

A continuidade de uma prática de desclassificação dos agrotóxicos com base em critérios de segurança ambiental e de segurança da saúde humana já rebaixados pelo governo Bolsonaro é mais uma prova de que o governo Lula não quer romper com a opção dos agrotóxicos, há muito banidos em outras partes do mundo, principalmente na União Europeia. O fato é que o ritmo das aprovações pode ser mais lento, com 200 agrotóxicos aprovados em seis meses de governo, mas a decisão política de continuar deixando o processo de aprovação apenas nas mãos do Ministério da Agricultura, ignorando os ministérios da Saúde e do Meio Ambiente, é mais uma prova de que não temos muita diferença com o governo Lula nesse quesito do que com Jair Bolsonaro.

Sobre a posição de Lula de rejeitar as exigências da UE para controlar o desmatamento no âmbito das negociações de livre comércio UE-MERCOSUL, deve-se afirmar que, embora haja maior interesse em aumentar as vendas de agroquímicos do lado europeu, aqui há um grave silêncio. O que o presidente Lula está dizendo na prática é que os venenos agrícolas europeus, mesmo os mais tóxicos, são bem-vindos. […]

O problema básico dos agrotóxicos é que nos encontramos em um círculo vicioso em que o Brasil utiliza produtos proibidos na Europa e exporta produtos com resíduos muito acima do permitido na União Européia. A questão é que quem perde é o cidadão comum, quem ganha são os produtores de agrotóxicos e os latifundiários. Resta saber por quanto tempo mais estaremos dispostos a aceitar a parte pútrida deste acordo. Um alerta que posso fazer é que aqui no Brasil já estão surgindo evidências científicas claras de que o consumo direto e indireto de agrotóxicos está ligado ao aumento de doenças graves, desde vários tipos de câncer até alterações no genoma humano. Eu não ficaria surpreso se a mesma coisa já estivesse acontecendo na Europa.”


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pela Kobra [Aqui!].

Serviço da Universidade de Liège ajuda pesquisadores a determinar o grau de autenticidade de periódicos de acesso aberto

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Por Lorena Caliman

A Universidade de Liège (Universidade de Liège) disponibilizou, no final de novembro de 2020, a versão Beta do “Compass to Publish “, um serviço que, através de vários critérios, quantifica o grau de autenticidade das revistas científicas acessíveis que requerem ou ocultam taxas de processamento de artigos (APC).

A ferramenta de avaliação online apresenta uma escala de 7 cores de resultados, que categorizam a natureza falsa ou enganosa dos periódicos analisados. As bordas mostram vermelho escuro -indicando que a revista é provavelmente predatória, e que é melhor evitá-la- e verde escuro -indicando que as respostas mostram uma alta probabilidade de não ser uma publicação predatória-. A ideia por trás da escala de sete cores é permitir uma visão mais sutil em comparação com a lógica binária de listagens confiáveis ​​e bancos de dados de periódicos predatórios.

O serviço utiliza um método de avaliação baseado em 26 critérios na forma de perguntas para o candidato. Os critérios e questões são resultado do trabalho crítico e analítico da equipe por trás da ferramenta , que examinou as práticas de um número significativo de periódicos e editores predatórios. A equipe também realizou uma pesquisa qualitativa e uma seleção de critérios de listas e diretórios confiáveis, selecionando aqueles que eram realmente incriminadores e fáceis de verificar, relevantes e claros o suficiente e fáceis de usar.

Os 26 critérios são divididos em 7 seções principais: listas confiáveis ​​(plataformas de indexação), listas de periódicos e editores supostamente predatórios (conhecidos como “listas negras”), periódicos sequestrados, indexação e métricas, conselho editorial e revisão por pares, conteúdo e apresentação e estratégias de comunicação. Consulte a lista completa de questões do exame.

Sobre revistas e editoras predatórias

A importância desse tipo de ferramenta é destacada, levando-se em conta estimativas de que somente em 2014, entre 255.000 e 420.000 artigos foram publicados em periódicos predatórios. Uma investigação internacional sobre a Fake Science, liderada por dezenas de meios de comunicação, incluindo Le Monde, Süddeutsche Zeitung da Alemanha e a revista The New Yorker, informou em 2018 que pode haver mais de 10.000 revistas predatórias em operação.

Periódicos predatórios se apresentam como periódicos de acesso aberto e cobram da APC pelos serviços que afirmam fornecer. No entanto, muitas vezes eles não fornecem esses serviços, ou apenas superficialmente. Embora afirmem fornecer serviços que incluem políticas de arquivamento e indexação, revisão editorial, edição, formatação e processo de revisão por pares, muitas vezes não o fazem e, em alguns casos, nem mesmo publicam o material submetido para o qual solicitaram permissão. pagamento.

O modelo “autor paga”, sequestrado por periódicos predatórios, é comum na publicação acadêmica. Ele permite que os leitores tenham acesso gratuito ao conteúdo da pesquisa mediante o pagamento de taxas, seja pelos autores, suas instituições ou financiadores. O modelo de pagamento do autor, no entanto, não é o mais comum na publicação em Acesso Aberto: mais de 70% dos periódicos incluídos no DOAJ (Directory of Open Access Journals) não exigem o pagamento de APCs.

Editores e revistas predatórios usam um modelo de negócios baseado em publicação quantitativa, pela simples razão de que quanto mais publicam, mais dinheiro recebem. Para maximizar seus lucros, os editores predatórios costumam ter um catálogo muito grande de periódicos, e os periódicos predatórios geralmente adotam uma estratégia de publicação de alta frequência, publicando um grande número de edições.

Os pesquisadores que desejam se manter competitivos por meio da publicação rápida podem se tornar vítimas fáceis desse tipo de publicação predatória. É comum que as partes interessadas na comunicação científica continuem a usar métodos principalmente quantitativos para avaliar a pesquisa, o que pode influenciar os pesquisadores a publicar em canais predatórios, deliberadamente ou não.

Além dos modelos de publicação de acesso aberto, o fenômeno da “fake science” também está associado a falsas conferências e as editoras de livros do tipo “vanity press” (editoras onde os autores pagam para publicar seus livros) oferecendo a publicação de trabalhos de estudantes e pesquisadores usando um modelo de impressão sob demanda sem prestação de serviços sérios, como redação, revisão por pares, edição, formatação, etc.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Universidade de Coimbra [Aqui!].