Contato com outros coronavírus preparou defesa contra COVID-19 e explica casos assintomáticos

Pesquisadores descobriram que variante genética que ajuda sistema imunológico a combater o Sars-Cov-2 antes que cause sintomas surgiu do contato com antigos coronavírus que já circulavam anteriormente e causam infecções sem gravidade

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Por Rodrigo Choinski para Ciência UFPR

Os resultados de um estudo publicado na Nature nesta quarta-feira (19) revelou o motivo de algumas pessoas não apresentarem sintomas de Covid-19 quando infectadas. Os resultados mostraram que a presença de uma variante genética prepara o sistema imunológico para combater rapidamente o vírus Sars-Cov-2, que causa a doença, acabando com a infecção sem causar sintomas.

A variante foi identificada em um conjunto de genes que regula nosso sistema de defesa, chamado HLA (do inglês, Human Leukocyte Antigen). Quando temos uma infecção, esses genes são capazes de guardar cópias de partes de vírus, bactérias ou protozoários, formando uma memória imunológica que permite que as células T, uma de nossas células de defesa, consigam identificar e eliminar esses microrganismos.

Como explica Danillo Augusto, pesquisador do Laboratório de Genética Molecular Humana (LGMH) e professor do Programa de Pós-graduação em Genética da UFPR e na Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, nos Estados Unidos, que é o primeiro autor desse estudo:

“As células T reconhecem partículas virais apresentadas pelas moléculas HLA, e montam uma resposta imune contra essas partículas. Dessa forma, quando uma célula tiver infectada, as células T vão perceber a presença dessa partícula e matá-la. Uma vez que a célula T reconheceu uma partícula uma vez, elas criam um mecanismo de memória imunológica, de forma que na próxima vez que elas encontrarem essa partícula viral a resposta será mais rápida e eficaz”.

O estudo, que consolidou um entendimento já levantado em 2021, mostrou que a variante, chamada de HLA-B*15:01, é uma resposta imunológica surgida do contato com coronavírus sazonais que não têm a capacidade de causar doenças graves. Esses vírus circulam há muito tempo causando pequenos resfriados, sem grande importância médica.

“Os indivíduos portadores dessa variante genética, que foram expostos a outros coronavírus, conseguiam reconhecer e eliminar as células infectadas pelo vírus da Covid-19 por causa da memória imunológica causada pela infecção anterior”, conclui o pesquisador.

O estudo mostrou que a presença do HLA-B*15:01 diminui em cerca de 2,4 vezes as chances de desenvolver sintomas da Covid-19, e quando o indivíduo tem um par desse gene, as chances eram 8 vezes menores. Além disso, segundo os resultados, cerca de 20% dos casos assintomáticos estavam associados à presença da variante.

Estudo comprovou que a resposta imune surgiu de semelhanças de outros vírus com o Sars-Cov-2

No início da pandemia os casos assintomáticos chamaram atenção dos pesquisadores que pensaram que poderia haver algum fator genético envolvido. Contudo, pessoas sem sintomas normalmente não procuram atendimento médico e seria muito difícil coletar amostras biológicas desses casos para estudo.

Augusto explica que foi dessa dificuldade que surgiu a ideia de trabalhar com um registro de doadores de medula óssea existente nos Estados Unidos, que já contava com dados genéticos, já que o HLA também tem um papel importante nos casos de rejeição de transplantes. Essas pessoas foram convidadas a baixar um aplicativo pelo qual compartilhavam resultados de testes para Covid-19 e relatavam se haviam tido algum sintoma.

O estudo analisou quase 30 mil voluntários que baixaram o aplicativo, dentre os quais 1.428 reportaram testagem positiva para a infeção. Foi a análise dos dados genéticos desse grupo que permitiu identificar a correlação entre os casos assintomáticos e a presença do HLA-B*15:01.

A partir desses resultados foram feitas análises com outras duas amostras, que confirmaram os primeiros achados. Com a associação bem estabelecida a pesquisa se debruçou em saber como a variante atuava, por meio de estudos funcionais.

Augusto explica que a análise de amostras de células coletadas antes da pandemia, quando era impossível que alguém tivesse tido contato com o vírus causador da Covid-19, confirmou a existência de memória imunológica contra o vírus.

“Nós mostramos diretamente a existência de células de memória contra Sars-Cov-2 nesses indivíduos, apesar de ser amostras muito antes da pandemia. Fizemos todo o sequenciamento do repertório de células T desses indivíduos. Com isso, nós conseguimos mostrar resposta imunológica cruzada com outros tipos de coronavírus que já existiam antes da pandemia”, relata o pesquisador.

Isso significa que as células T utilizavam a informação da variante gerada pelos coronavírus sazonais para reconhecer o Sars-Cov-2 devido a semelhança de alguns peptídeos. Em outras palavras, antes mesmo do novo coronavírus surgir esses indivíduos estavam preparados para combatê-lo.

Jill Hollenbach, professora do Departamento de Epidemiologia e Bioestatística da Universidade da Califórnia – São Francisco (UCSF) nos Estados Unidos, que também participou do estudo, explica que é como se houvesse um exército que já sabia o que procurar e conseguia identificar os inimigos por meio das roupas que eles estavam usando.

➕ Leia detalhes no artigo A genetic basis for asymptomatic SARS-CoV-2 infection, publicado pelo periódico Nature.


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Este texto foi inicialmente pela Ciência UFPR [Aqui!].

Petróleo da Amazônia? Proposta de perfuração na foz do rio preocupa pesquisadores

A empresa de energia Petrobras diz que qualquer óleo vazado não chegaria à costa brasileira, mas os cientistas estão preocupados com um vasto recife nas proximidades

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A água corre com grande força do rio Amazonas para o mar em sua foz. Crédito: Universal Images Group North America LLC/Alamy

Por Meghie Rodrigues para a Nature

A Petrobras quer perfurar poços exploratórios de petróleo no oceano perto da foz do Amazonas, um dos maiores rios do mundo. Embora a agência de proteção ambiental do Brasil tenha rejeitado até agora o pedido da estatal, os pesquisadores temem que o plano possa um dia ser aprovado, incentivando novas perfurações offshore na área. Em particular, eles estão preocupados com os efeitos da perfuração – e inevitáveis vazamentos de petróleo – em um vasto sistema de recifes nas proximidades.

Em maio, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) recusou o pedido da Petrobras para perfurar o bloco FZA-M-59, um terreno marinho a cerca de 175 quilômetros da costa do norte do Brasil, perto da fronteira com a Guiana Francesa, e a cerca de 540 quilômetros da foz do rio Amazonas. O órgão disse que a avaliação de impactos ambientais da empresa e seu plano emergencial em caso de vazamento são insuficientes. A Petrobras, que tem sede no Rio de Janeiro, já recorreu e entrou com um novo pedido.

A empresa se defendeu à Nature, dizendo que, no local de perfuração planejado, “não há registro de nenhuma unidade de conservação próxima, nem está localizada perto de rios, lagos, várzeas ou sistemas recifais”. Mas Rezende argumenta que o Sistema de Grandes Recifes da Amazônia fica a apenas cerca de 50 quilômetros do local, e que o óleo na água poderia percorrer essa distância.

Oil prospecting: Map showing the location of a possible exploratory oil well just beyond the Great Amazon Reef System.

Fonte: Adaptado de L. S. Araujo et al., março Pol. 128, 104465 (2021)

As ameaças ao sistema recifal, que fica a 70 a 220 metros abaixo da superfície do oceano, são de grande preocupação para alguns cientistas. Tem sido difícil explorar a área por causa das águas turbulentas, mas estudos estimam que o recife se estenda entre 9.500 e 56.000 quilômetros quadrados em toda a foz do Amazonas1,2. Quando foi descrita pela primeira vez por cientistas, na década de 1970, os pesquisadores não observavam uma rica biodiversidade. Mas estudos em 20162 e 20193 encontrou um ecossistema próspero que abriga corais, esponjas e comunidades de peixes.

“É enorme e sensível”, diz Ronaldo Francini-Filho, pesquisador de ecossistemas marinhos da Universidade de São Paulo. “E não sabemos nem 5% do que está lá embaixo.”

Rodrigo de Moura, ecologista marinho da Universidade Federal do Rio de Janeiro que mapeou recifes na foz do Amazonas, concorda. “Há muitas incógnitas conhecidas lá”, diz ele. Como os pesquisadores não sabem muito sobre os habitats e a circulação da água do recife, “uma avaliação abrangente dos riscos da exploração de petróleo e gás é atualmente impossível”, acrescenta.

Um bloco promissor

Se o projeto for aprovado, pode abrir um precedente para permitir a perfuração em outros 15 locais de águas profundas próximos que estão sinalizados para exploração, diz Suely Araújo, especialista sênior em políticas do Observatório do Clima, uma coalizão da sociedade civil com sede no Rio de Janeiro focada em políticas de mudanças climáticas.

Até o momento, 95 poços exploratórios foram perfurados na região sem atingir muito petróleo; Alguns depósitos de gás natural foram encontrados, mas nenhum grande o suficiente para fins comerciais. Esses poços estavam todos em águas rasas, mas o FZA-M-59 está a uma profundidade de 2.800 metros, em uma parte do oceano que alguns pesquisadores acreditam ser mais promissora. Egberto Pereira, geoquímico orgânico da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, diz que é possível que o petróleo esteja abaixo do FZA-M-59, porque a paisagem e a composição rochosa da área são semelhantes às de uma região rica em petróleo ao largo da Guiana, onde a petroleira ExxonMobil opera desde 2015.

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O Sistema de Grandes Recifes da Amazônia é o lar de esponjas marinhas e outros organismos.Crédito: Greenpeace

A perfuração offshore foi benéfica para o Brasil no passado: em particular, a perfuração na costa sudeste em bacias próximas a São Paulo e Rio de Janeiro trouxe um lucro inesperado. Em 2010, a Petrobras captou mais de US$ 25 bilhões para perfurações exploratórias na região. Aloizio Mercadante, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro, estimou que a Margem Equatorial — região que se estende por mais de 2.200 quilômetros ao longo da costa norte do Brasil e inclui o FZA-M-59 — poderia render entre 10 bilhões e 30 bilhões de barris de petróleo.

Mas os pesquisadores acham prematuro fazer essas estimativas quando o petróleo ainda não foi encontrado. E não estão convencidos de que a Petrobras tenha avaliado adequadamente o impacto da perfuração. A empresa diz que a modelagem de vazamento de óleo atende aos requisitos do Ibama. “Os resultados indicam que não há probabilidade de [o petróleo] tocar a costa brasileira” em caso de vazamento, diz a Petrobras.

Mas a modelagem mostrou que o petróleo poderia chegar à Guiana Francesa, Guiana, Suriname e Caribe, ressalta Rezende. Ele diz ainda que os modelos utilizados pela Petrobras “não consideram as ondas geradas pelo vento, que são bastante intensas na região e certamente puxariam petróleo para o litoral”. A Petrobras defende sua modelagem, dizendo que utiliza as “mais modernas técnicas e sistemas”.

Os pesquisadores temem que, se o petróleo chegar à costa, possa danificar os manguezais na foz do Amazonas. “A região abriga a segunda maior área contínua de manguezais do mundo”, diz Francini-Filho. “Como é altamente sensível, a contaminação por óleo seria catastrófica.”

Um futuro mais verde?

A Petrobras diz à Nature que perfurou quase 3.000 poços em locais de águas profundas sem nenhuma complicação, e que estes, “somados ao conhecimento técnico e à experiência acumulados ao longo de 70 anos, permitem à empresa abrir novas fronteiras com total segurança em relação à sensibilidade ambiental da Margem Equatorial”.

Mas mesmo que a perfuração possa ser feita com segurança, os pesquisadores ainda questionam a ideia de explorar novas reservas de petróleo – o que criaria emissões de carbono – enquanto o mundo luta contra as mudanças climáticas. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez campanha como um cruzado ambiental que protegeria a biodiversidade e a saúde do país. Permitir a perfuração no FZA-M-59 poderia colocar em dúvida sua sinceridade.

“É isso que queremos como país?”, questiona Araújo. Se aprovado, o projeto só começaria a produzir petróleo em 2030. “Quanto valerá um barril até lá, quando as nações deveriam estar se convertendo em energia renovável?”, questiona. “Deveríamos estar pensando em um plano de desenvolvimento para o século XXI.”

O Ibama diz que está analisando o último pedido da Petrobras, mas não definiu data para uma decisão.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-023-02187-3

Referências

  1. Francini-Filho, R. B. et al.Março. https://doi.org/10.3389/fmars.2018.00142 (2018).

    ArtigoGoogle Acadêmico

  2. Adv.2, e1501252 (2016).

    ArtigoPubMedGoogle Acadêmico

  3. Rep.9, 13699 (2019).

    ArtigoPubMedGoogle Acadêmico


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela revista Nature [Aqui!].

Repórter Brasil lança documentário em homenagem a Dom Phillips

Repórter Brasil lança documentário em homenagem ao jornalista Dom Phillips e aborda a violência enfrentada na cobertura da Amazônia

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Seguindo o assassinato do repórter inglês, o filme “Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia” trata dos desafios da cobertura da violência na Amazônia

São Paulo, 20 de julho de 2023. “Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia”, novo documentário da Repórter Brasil, é uma homenagem a Dom Phillips, jornalista inglês assassinado em uma emboscada no Vale do Javari junto ao indigenista Bruno Pereira. Com a proposta de refletir sobre a complexa natureza da cobertura da Amazônia, o filme parte da experiência de Daniel Camargos, que foi companheiro de reportagem de Dom, ao cobrir as buscas pelo amigo desaparecido.

A estreia do documentário será no sábado, 22 de julho, às 19h, na mostra Histórias da Amazônia, promovida pelo Pulitzer Center e pela Cinemateca, em São Paulo.

O documentário mergulha nos desafios enfrentados pelos jornalistas que cobrem a violência contra as comunidades indígenas na maior floresta tropical do mundo. A narração em primeira pessoa de Camargos conduz uma reflexão sobre o papel dos repórteres em meio aos conflitos na região. Após ouvir e sofrer com a brutalidade das revelações sobre o que aconteceu com Dom, assassinado e esquartejado, o jornalista se pergunta se “vale a pena seguir adiante”.

Em busca de respostas, o filme acompanha o repórter ao percorrer outros estados e outras terras indígenas, onde observa semelhanças e diferenças no modo como as suas fontes processam o luto. A resistência indígena perante a perda de tantos na disputa pelo território ganha uma nova dimensão para o repórter.

De acordo com Camargos, o filme começa após o trabalho de convencimento frente aos questionamentos sobre os riscos. “O encontro com a morte do amigo, a busca por sentido para a profissão de repórter e a tentativa de dar continuidade ao trabalho do Dom, são passos que dou ao longo do documentário que tem um tom reflexivo”, descreve o jornalista. “Fazer esse documentário foi muito doloroso, sem dúvida. Mas também foi fundamental para encontrar o sentido de ser repórter”.

Com 1h de duração, “Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia” é um filme de Ana Aranha e Daniel Camargos, com fotografia de Fernando Martinho e Caio Castor, montagem de Pedro Watanabe, e realização da Repórter Brasil.

Consórcio em homenagem ao Dom Phillips

O documentário integra o trabalho feito por um consórcio de mais de 50 jornalistas espalhados por 10 países e representando 16 organizações, incluindo os ingleses The Guardian e The Bureau of Investigative Journalism, Expresso (Portugal), Le Monde (França), Ojo Público (Peru), Paper Trail Media (Alemanha), NRC (Holanda), Tamedia (Suíça), Der Standard (Áustria), além dos brasileiros Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Amazônia Real, Folha de São Paulo e TV Globo. Com coordenação da Forbidden Stories, esses veículos realizam diversas publicações entre os dias 1 e 4 de junho, quando a morte de Dom e Bruno completará um ano. O objetivo é dar eco às investigações que Dom Phillips fez em vida e, de certa forma, continuar o seu trabalho.

Sobre a Repórter Brasil

A Repórter Brasil é uma organização fundada em 2001 por jornalistas, cientistas sociais e educadores com o objetivo de fomentar a reflexão e ação sobre a violação aos direitos fundamentais dos povos e trabalhadores no Brasil. Suas reportagens, investigações jornalísticas, pesquisas e metodologias educacionais têm sido usadas por lideranças do poder público, setor empresarial e sociedade civil como instrumentos para combater a escravidão contemporânea, problema que afeta milhares de pessoas. Saiba mais aqui.

Com aspersão aérea do Fipronil, ogronegócio promove o extermínio de 100 milhões de abelhas no MT

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Desde o governo Bolsonaro e continuando no governo Lula ocorreu uma onda de liberações do inseticida Fipronil que é banido na União Europeia e somente autorizado em condições extremas nos EUA.  O uso do Fipronil, muitas vezes em combinação com outros inseticidas como o Imidacloprido, está promovendo um verdadeiro apocalipse dos polinizadores no Brasil, mas especialmente em áreas dominadas pela monocultura da soja.

Da mesma forma que já ocorreu em 2019 no Rio Grande do Sul com o extermínio de 600 milhões de abelhas, agora vê-se a repetição de um episódio em que 100 milhões de abelhas foram sumariamente exterminadas pelo agronegócio a partir do uso aéreo do Fipronil  nos munícipios de Sorriso, Ipiranga do Norte e Sinop, em Mato Grosso (ver vídeo abaixo).

Esse caso é ainda mais explícito em termos do descompromisso do ogronegócio com a sustentação da vida nas regiões sob seu controle que o Fipronil foi utilizado via o uso de aviões, o que sequer é permitido pela legislação brasileira para o caso desse “bee killer”.

Mas ao contrário de ver nesse caso apenas um exemplo de uso “inadequado” do Fipronil, o que fica evidente é que não há qualquer compromisso em se evitar os efeitos danosos que acompanha o uso deste tipo de substância altamente tóxico para os polinizadores. Na verdade, o que se busca, ainda que ao custo de outras atividades igualmente importantes, é a busca incessante de aumentar as margens de lucro do ogronegócio.

O mais dramático é que além de causar prejuízos milionários para o segmento da apicultura, esse extermínio deliberado dos polinizadores ainda contribui para a diminuição da produtividade das áreas controladas pelo próprio ogronegócio, no que se constitui em um verdadeiro tiro no pé. No entanto, nem isso deve fazer com que os representantes do latifúndio agro-exportador assumam uma postura mais responsável com o meio ambiente e a saúde humana.

Urgente! Observatório dos Agrotóxicos divulga base com os 232 agrotóxicos liberados pelo governo Lula

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Desde o início do governo Lula, o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski vem monitorando os atos publicados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), tendo contabilizado a publicação de oito atos (5,6,15,16,22,26,30 e 32) que resultaram na liberação de mais 232 agrotóxicos no já gigantesco mercado brasileiro.

Após realizar o trabalho de compilar todos os agrotóxicos liberados, o Observatório dos Agrotóxicos agora divulga uma base com mais informações sobre cada um desses produtos, adicionando, por exemplo, as cidades e estados onde localizados os detentores dos registros. Isso pareceu importante, na medida em que não há muita informação sobre como esta distribuída essa rede de empresas que detém os registros.

Por outro lado, uma observação inicial leva à observação de que o processo de liberação de agrotóxicos no governo Lula está seguindo os mesmos procedimentos que foram criados pelo governo Bolsonaro, o que implica na aceitação de critérios rebaixados para a definição de toxicidade humana. Isto não apenas gera a falsa sensação de que os agrotóxicos aprovados não são perigosos, pois nenhum dos 232 agrotóxicos foi incluído na categoria de maior risco para a saúde humana, em que pese a presença de agrotóxicos conhecidos por serem causadores de câncer como é o caso do inseticida organofosforado Acefato.  Mas o acefato não é um caso isolado, pois vários outros agrotóxicos presentes na lista de aprovados do governo Lula já possuem farta documentação científica acerca de suas implicações sobre a saúde humana.

Agência Pública on Twitter: "Há alta incidência de casos de câncer e  malformação nas regiões de maior produção agrícola do Mato Grosso, campeão  no consumo de agrotóxicos do país. Saiba mais: https://t.co/l3LSyKKHb3

Por outro lado, a lista traz vários exterminadores de polinizadores como  é o caso dos inseticidas Imidacloprido e Fipronil, mas eles não são os únicos, o que gera uma enorme preocupação com o uso do aumento dessas substâncias no território nacional, especialmente em regiões que concentram a criação de abelhas.

Warning about the downside to insecticides

É importante notar que pelo menos 33% dos agrotóxicos liberados no governo Lula já se encontram proibidos na União Europeia, o que não impede que empresas europeias como a Basf e a Bayer, mas também a sino-suiça Syngenta, continuem enviando para cá produtos altamente perigosos, tanto para o meio ambiente como para a saúde dos brasileiros.

Por outro lado, a China continua sendo a principal fornecedora de agrotóxicos para o Brasil, com 65% dos produtos liberados em 2023 sendo produzidos diretamente na China, o que indica uma influência ainda maior do principal comprador da soja brasileira, visto que a Syngenta e a Adama que são agora controladas por empresas chinesas, também estão enviando seus produtos para o Brasil a partir de outros países, principalmente da Europa (ver figura abaixo).

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Há ainda que se notar que a grande maioria dos produtos aprovados estão destinados para uso nas grandes monoculturas, principalmente da soja. Com isso, fica clara um modelo de trocas imperfeitas, na medida em que o maior fornecedor de agrotóxicos é também o principal comprador deste grão, sendo que os produtos industrializados possuem maior valor agregado.

Há que se lembrar ainda que o que está ruim, ainda pode piorar mais se a bancada ruralista no Senado Federal conseguir aprovar o “Pacote do Veneno” na forma que foi enviado pela Câmara de Deputados.

Para os interessados em ter acesso ao banco de dados contendo as informações sobre os 232 agrotóxicos liberados desde janeiro pelo governo Lula, basta clicar [Aqui!].

Brasil enfrenta dupla carga de adoecimento, mas quadro é reversível com políticas públicas, ciência e mobilização

Altos índices de excesso de peso concomitante com o aumento da fome mostram o tamanho da crise alimentar no país, alerta docente do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva da Unifesp

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O recorte nacional registrado no relatório global Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo, divulgado na última quarta, 12, pela Organização das Nações Unidas (ONU), mostra o crescimento do número de pessoas em situação de insegurança alimentar no Brasil nos últimos anos, e é mais um sinal claro da crise que o país enfrenta no tema alimentação.

De acordo com os dados, nos últimos três anos (2020-2022), 1,5 milhão de brasileiros entraram para as estatísticas da fome. Hoje, são 21 milhões de pessoas que não têm o que comer todos os dias, 70,3 milhões em insegurança alimentar e 10 milhões de pessoas desnutridas no país. Tanto no Brasil quanto no mundo, a ONU cita como motivos para a alta fatores como a pandemia de COVID-19 e a guerra na Ucrânia.

“Os dados só reforçam o cenário de preocupação. É verdade que os fatores citados pela ONU influenciaram, mas, no Brasil, temos outros agravantes, decorrentes do abismo social, já que o país figura entre os países mais desiguais do mundo, apesar de termos uma economia forte. Há uma parcela muito grande da população sem acesso aos bens e serviços que o país promove. Então, a perpetuação da pobreza, a alta da inflação, especialmente a dos alimentos, o desemprego e a queda da renda afetam dramaticamente as pessoas, especialmente as mais vulnerabilizadas”, destaca Semíramis Domene, nutricionista e professora do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A docente da Unifesp lembra ainda que o Brasil vive uma dupla carga de adoecimento, uma vez que, ao lado da desnutrição causada pela falta de alimentos, temos também efeitos da má alimentação manifestados pelo excesso de peso e obesidade, “em grande medida associados ao consumo de produtos ultraprocessados, que não promovem saúde”. Segundo dados recentes do IBGE, seis em cada dez brasileiros estão com sobrepeso no Brasil.

Políticas públicas e maior conscientização

Apesar do cenário preocupante de crise, Semíramis aponta caminhos para frear a insegurança alimentar, erradicar o país do mapa da fome e incentivar uma alimentação mais saudável.

“O enfrentamento da fome é histórico no Brasil, mas no início dos anos 2000 até 2013 conseguimos reverter este quadro com uma série de medidas. Sabemos que o conjunto de ações que incluem a proteção social, como o fortalecimento do emprego e da renda, a ampliação de políticas de saúde e de habitação, acesso à água tratada e coleta de esgoto, associada ao financiamento de produção de alimentos, em especial a agricultura familiar, são iniciativas públicas fundamentais para nos tirar novamente do mapa da fome”, diz Semíramis.

A docente da Unifesp cita ainda a criação de políticas de tributação mais justas para itens básicos, com revisão das cestas básicas, como pontos adicionais para reverter essa situação. “Nesse contexto, o governo pode inclusive estudar e aprovar cestas regionais, que possam privilegiar alimentos da nossa rica biodiversidade. Tudo isso, além de iniciativas de caráter emergencial que têm prestado um grande serviço, como os bancos de alimentos, restaurantes populares, cozinhas comunitárias, entre tantas contribuições”.

“Quando conseguirmos, mais uma vez, unir a esfera pública, com seu papel na regulação de políticas, com a sociedade e a conscientização de cada cidadão(ã) no consumo saudável, teremos mais agricultor produzindo comida de verdade e mais gente com comida na mesa, combatendo ambas as frentes; neste sentido, a universidade tem uma grande contribuição a oferecer, gerando dados, fortalecendo o monitoramento e sistematizando conhecimento acadêmico e popular sobre boa alimentação”, conclui Semíramis.

Maior evento da matemática brasileira começa na segunda-feira (24) no Rio

34º Colóquio abordará temas como mulheres na ciência e pandemia de Covid-19

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O IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) realiza entre 24 e 28 de julho o 34º Colóquio Brasileiro de Matemática (CBM), a mais abrangente reunião científica da comunidade matemática brasileira. Pesquisadores brasileiros e estrangeiros, de grande renome internacional, vão apresentar avanços em diversas áreas da matemática. Temas atuais como a presença de mulheres na ciência, a pandemia de Covid-19 e as perspectivas para os jovens matemáticos também vão ser abordados.    

Realizado desde 1957, a última edição do evento ocorreu no formato on-line devido a pandemia. O encontro reúne, a cada dois anos, pesquisadores, professores e alunos de graduação e pós-graduação de todo o país. “Depois de 4 anos desde o último Colóquio presencial, tendo passado por uma pandemia, isolamento e muitos desafios, será uma grande alegria viver o reencontro da nossa comunidade matemática. Não vejo a hora de ver o IMPA cheio de jovens estudantes de todo o Brasil, fervilhando com trocas de ideias e discussões matemáticas”, afirmou Carolina Araujo, pesquisadora do IMPA e coordenadora do evento. 

A edição deste ano contará com a participação de seis plenaristas internacionais, entre eles, o matemático Federico Ardila, pesquisador da Universidade de São Francisco (EUA), que já trabalhou ao lado do medalhista Field June Huh, em teoria dos matroides – tema da palestra no Colóquio.  

Ardila também é conhecido como DJ e é famoso por utilizar música para otimizar o aprendizado da matemática. A iniciativa chegou a render ao colombiano diversos prêmios como o da  Associação Americana de Matemática (MAA, por sua sigla em inglês) “por inspirar alunos dentro e fora das salas de aula da San Francisco State University”, em 2020. Em sua página na internet, o matemático se apresenta ainda como autor de quatro axiomas sobre educação e a disciplina. 

Além de Ardila, participa do CBM o físico Bernard Derridapesquisador do Collège de France – instituição de pesquisa mais prestigiada na França, onde ele ocupa a cadeira de física estatística. Os estudos de Derrida estão concentrados em sistemas dinâmicos, teoria de meios desordenados, física de não-equilíbrio e modelagem em biologia. O trabalho já rendeu a ele a Medalha Boltzmann – o mais importante prêmio da União Internacional de Física Pura e Aplicada concedido à físicos que obtiveram resultados positivos em mecânica estatística

Também estão confirmados no evento:Camillo De Lellis, pesquisador do Institute for Advanced Study (EUA), que trabalha com análise geométrica e equações diferenciais parciais; Laura DeMarco, pesquisadora da Universidade de Harvard (EUA), que desenvolve pesquisas na área de sistemas dinâmicos, geometria aritmética e análise complexa; Claudia Polini, pesquisadora da University of Notre Dame (EUA), especializada em álgebra comutativa, teoria ergódica e sistemas dinâmicos; e Omri Sarig, pesquisador do Weizmann Institute of Science (Israel), que ocupa a cadeira Theodore R. and Edlyn Racoosin na Faculdade de Matemática e Ciência da Computação do instituto. 

Palestra sobre as contribuições da matemática para a pandemia de Covid-19

O Colóquio conta ainda com três palestras de divulgação. Uma delas é de Paulo Silva, da Unicamp. O pesquisador vai abordar na palestra “Uma resposta ótima à pandemia de Covid-19” as contribuições da comunidade matemática durante a pandemia, com foco nos modelos utilizados nas primeiras projeções que embasaram a necessidade de lockdowns. 

A palestra especial ficará por conta do doutor pelo IMPA Marcelo Campos e do pesquisador da PUC-Rio Simon Griffiths. A dupla vai abordar Uma melhoria exponencial para os números de Ramsey – avanço  mais significativo na área desde 1935. O grupo que se debruçou sobre o problema contou ainda com Robert Morris, pesquisador do IMPA, e  Julian Sahasrabudhe, da Universidade de Cambridge. 

Também vão ocorrer 23 sessões temáticas, quatro cursos introdutórios, seis cursos avançados e duas mesas redondas com os temas:

O lado sujo da política climática da Europa

Para a sua transição energética, os países da UE precisam de matérias-primas em abundância. A América Latina deve entregá-las – e lidar com as consequências do desmantelamento

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No “triângulo de lítio” da América Latina entre Chile, Argentina e Bolívia: mineração de lítio no deserto chileno de Atacama. Foto: Martin Bernetti/AFP
Por Gerhard Dilger, Buenos Aires, para o Neues Deutschland

A província andina argentina de Jujuy, na fronteira com a Bolívia, está em estado de emergência há quatro semanas. As comunidades indígenas organizaram doze bloqueios de estradas e os viajantes podem passar a cada três horas. Os protestos são dirigidos, entre outras coisas, contra uma constituição provincial que foi aprovada em tramitação acelerada, o que facilita o despejo de indígenas em favor de projetos de lítio. O lítio é uma matéria-prima para carros elétricos que está em demanda em todo o mundo, e os países da União Europeia (UE) também estão procurando novas fontes de abastecimento .A polícia é brutal, buscas e prisões domiciliares foram realizadas novamente na quarta-feira, ativistas estão sendo criminalizados e intimidados. “Os saques devem ser legalizados”, diz o último manifesto dos manifestantes contra a constituição. “Somos os legítimos proprietários desta terra.”

O contraste com as declarações encorpadas feitas antes da reunião de cúpula dos chefes de estado e de governo da UE e dos Estados da América Latina e do Caribe na segunda e na terça-feira dificilmente poderia ser maior. “A reunião de cúpula oferece uma excelente oportunidade para construir confiança e dar um novo impulso às relações”, disse o chefe de política externa da UE, Josep Borrell, no início de junho, quando apresentou a nova agenda da Comissão Europeia para a América Latina. A Câmara Alemã de Indústria e Comércio promete »novos impulsos de crescimento«.

Juntamente com o hidrogênio verde, que será enviado para a Europa em apenas alguns anos da Argentina e do Chile, mas também da Colômbia e do Brasil, o lítio é celebrado como um símbolo da transição energética. Perde-se de vista o que significa a extração de matérias-primas para as regiões. É claro que os principais políticos da UE e seus estados membros estão atualmente tentando garantir o acesso a matérias-primas para a economia europeia. Os críticos suspeitam que se trata de um extrativismo verde neocolonial que está roubando da América Latina seus recursos naturais como vem fazendo há 500 anos: antigamente ouro, prata e estanho – hoje “ouro branco”, água, vento e sol. O que está acontecendo especificamente no momento e como os governos latino-americanos estão se posicionando?

Na Argentina, duas das três fábricas de lítio estão em Jujuy, mas também há uma corrida do ouro nas províncias vizinhas. Dezenas de outros projetos estão nas gavetas dos ministérios. Príncipes provinciais, isso é um segredo aberto, ganham muito. O metal leve é ​​considerado uma bala de prata para a transição energética. A indústria automotiva vai substituir o motor de combustão interna por um elétrico.Para produzir uma bateria de íon-lítio para um carro elétrico, são necessários de dez a 20 quilos de carbonato de lítio, entre outras coisas.

Os políticos europeus têm peregrinado em massa à América Latina nos últimos meses – uma ofensiva de charme sem precedentes, na qual não poderia faltar a invocação de “valores comuns”. Sem exceção, os convidados também enfatizaram que os acordos de livre comércio da UE, que ainda não foram totalmente negociados, gostariam de ser assinados e selados até o final do ano. Especificamente, trata-se do acordo com os países do Mercosul Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, que vem sendo objeto de luta desde 1999, e da modernização dos acordos com Chile e México.

Quando o chanceler Olaf Scholz viajou para a Argentina e o Chile com uma grande delegação empresarial em janeiro, ele não escondeu o interesse das empresas alemãs no lítio, mas prometeu ajudar na criação de cadeias de valor locais. Porque, embora cerca de 60% dos recursos mundiais estejam armazenados nos lagos salgados andinos do triângulo de lítio Chile-Bolívia-Argentina, o processamento em baterias até agora ocorreu principalmente na China, Coréia do Sul ou Japão.

Os custos ambientais da reviravolta “ecológica”

A BMW, o único grande player alemão no negócio de lítio na América do Sul, se gaba de obter metal leve extraído de forma “particularmente sustentável” da Argentina. Em 2021, a empresa automóvel de Munique assinou um contrato com a multinacional norte-americana Livent para a compra de lítio no valor de cerca de 285 milhões de euros. Até agora, nem a Livent nem a BMW conseguiram refutar os indícios de um enorme consumo de água doce e um maior rebaixamento do nível do lençol freático no extremo oeste da província de Catamarca. Tudo indica que Livent está destruindo lenta mas seguramente o frágil ecossistema de Puna e, portanto, os meios de subsistência dos agricultores locais de lhamas – para que a reviravolta “ecológica” do transporte na Europa possa progredir.

As empresas alemãs também estão começando no Chile: K-Utec Salt Technologies da Turíngia e Aci Systems de Baden-Württemberg prometem “lítio verde”. , subsídios da UE incluídos.

Em geral, o Chile é um dos parceiros preferenciais da Europa, como demonstrou durante a visita de Ursula von der Leyen em junho. »Sem lítio não haveria turbina eólica, sem matérias-primas críticas não haveria bateria. É por isso que concordamos em trabalhar em uma parceria estratégica para matérias-primas sustentáveis ​​e para toda a cadeia de valor”, disse o presidente da Comissão Europeia em Santiago. Também anunciou um fundo para hidrogênio verde de 225 milhões de euros, dos quais 100 milhões virão como um empréstimo do Kreditanstalt für Wiederaufbau (KfW).

Segundo o site do Banco Europeu de Investimento, esta plataforma de financiamento deve “promover a descarbonização da economia chilena, criar empregos verdes, abrir oportunidades de negócios para empresas chilenas e europeias, ao mesmo tempo em que atende à demanda europeia por hidrogênio limpo” . Von der Leyen garantiu que a UE quer produzir dez milhões de toneladas de hidrogênio verde anualmente até 2030 e importar a mesma quantidade. Esse hidrogênio é chamado de verde porque é produzido usando energia solar e eólica.

A plataforma de hidrogênio H2LAC da Sociedade Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) está ativa em 13 países da América Latina, incluindo Uruguai e Argentina. Na província argentina de Rio Negro, a Sociedade Fraunhofer, também muito presente, apresentou um estudo otimista sobre o potencial do hidrogênio. Os ambientalistas estão se mobilizando contra os parques eólicos necessários para isso. Isso também seria necessário para que a Europa possa importar o combustível “limpo”.

No Chile e no Uruguai, a empresa HIF Global produz e-combustíveis a partir do hidrogênio com o acionista Porsche. Para a inauguração da fábrica Haru Oni ​​​​no sul da Patagônia, para a qual o ex-ministro de Assuntos Econômicos Peter Altmeier iniciou o subsídio multimilionário, a Porsche voou no verde Baden-Württemberg Ministro dos Transportes, Winfried Hermann – para um piloto projeto que é uma farsa do ponto de vista da política climática. Porque em vez de extrair da atmosfera o dióxido de carbono necessário para o processo, como anunciado, os operadores aparentemente usam CO 2 fóssil, “reciclado” . Além disso, mais tarde haveria rotas de transporte longas e prejudiciais ao meio ambiente para a Europa.

Alejandro Stipanicic, presidente da empresa estatal Ancap, que está envolvida no segundo projeto do HIF, admitiu a uma estação de rádio uruguaia que o combustível sintético supostamente neutro para o clima era “muito caro”. Não é para o mercado local.”

No Brasil e na Colômbia, o ministro da Economia, Robert Habeck, e a ministra das Relações Exteriores, Annalena Baerbock, elogiaram o grande potencial de energias renováveis, como a solar e a eólica, que serão usadas para produzir hidrogênio para a Europa – eles aparentemente não estavam interessados ​​nos problemas de aceitação local para parques eólicos. Após o discurso de Baerbock, o jornal liberal “Folha de São Paulo” apontou incisivamente “o apetite por energia e lítio”.

E os »valores comuns«? Na América Latina, é bem lembrado o quão pouco a UE estava disposta a fornecer vacinas acessíveis ou mesmo abrir exceções à proteção de patentes durante a pandemia de Covid-19 – em muitos países, Rússia e China intervieram. Portanto, é compreensível que as pessoas sejam céticas sobre declarações de amizade e alérgicas a demandas decretadas unilateralmente – o presidente brasileiro está fazendo isso com mais clareza.

Enquanto a maioria dos líderes latinos só expressa sua inquietação a portas fechadas, Luiz Inácio Lula da Silva não faz de seu coração um antro de assassinato. Ele está ciente de que o acordo UE-Mercosul visa principalmente abrir novos mercados para empresas europeias e facilitar o acesso a velhas e novas matérias-primas, como cobre e lítio. Em troca, Lula promete negócios brilhantes para o agronegócio brasileiro, problemas ambientais ou não. Acima de tudo, porém, ele teme que as indústrias nacionais falissem se as empresas europeias tivessem livre acesso ao mercado ou não tivessem nenhuma chance de se desenvolver.

O presidente Lula fala publicamente em linguagem simples com seu colega francês Emmanuel Macron, com von der Leyen ou Scholz. A base para uma parceria em pé de igualdade não deve ser a desconfiança ou a ameaça unilateral de sanções, explica. Lula e outras autoridades latino-americanas estão atrapalhando as exigências ambientais moldadas pelo Acordo Verde Europeu, especialmente para a agricultura, que a UE quer incluir em um protocolo adicional ao acordo UE-Mercosul. As sanções provavelmente seriam possíveis, pelo menos em teoria – apenas algumas pessoas sabem exatamente porque, como sempre, esses textos permanecem secretos até serem assinados.

As negociações do protocolo estão sendo extremamente duras, porque se suspeita de protecionismo no Mercosul. O obstáculo mais importante para o acordo de livre comércio do lado europeu são, de fato, as associações de agricultores na França, Áustria, Bélgica e Irlanda, que temem mais do que nunca a concorrência de importações agrícolas baratas produzidas em condições negligentes.

Em abril, o Parlamento Europeu também aprovou uma lei de combate ao desmatamento em todo o mundo, que entrou em vigor no início de julho. Segundo ela, a partir de 2024 as empresas da UE não poderão mais importar madeira, carvão vegetal, impressos, café, cacau, borracha, óleo de palma, gado ou soja produzidos em terras que serão desmatadas a partir de 2021. Colonialismo Verde?

É assim que os latinos veem, porque também é uma medida unilateral. O que é politicamente fatal, porém, é que Lula & Cia. não podem se dar ao luxo de mexer com o agronegócio produtor de divisas. Um acordo de livre comércio ratificado, portanto, também aceleraria a destruição das florestas, porque se e quando as empresas serão realmente solicitadas a pagar no futuro é uma incógnita.

Representantes de dezenas de organizações ambientais e de direitos humanos da Europa e da América Latina também falarão na cúpula na segunda e terça-feira em Bruxelas. Nas ruas e em eventos paralelos, eles exigirão uma ordem ecossocial econômica e comercial e ficarão felizes porque pelo menos nada sairá do acordo neocolonial UE-Mercosul tão cedo.

E até que ponto a UE está aberta às preocupações dos seus “parceiros naturais”? O chefe de estado colombiano Gustavo Petro – um pioneiro no continente com sua planejada “transição energética justa” e também muito cortejado pelo governo federal – provavelmente fará novamente campanha por uma nova política de drogas e alívio da dívida para proteção das florestas. Com essas questões, os europeus podem mostrar que se preocupam com mais do que matérias-primas.

Gerhard Dilger mora na América do Sul desde 1992, de 2000 a 2012 foi correspondente no Brasil, depois gerente do escritório da Fundação Rosa Luxemburgo em São Paulo e Buenos Aires. Hoje é jornalista freelancer e consultor em Buenos Aires.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Com ou sem moeda própria, BRICS avança firme para a desdolarização

brics desdO poder econômico dos BRICS está aumentando rapidamente – no entanto, os membros não se unem em todas as questões

Por Wiebke Diehl para o JungeWelt

Seria um marco na história da aliança BRICS de países emergentes fundada em 2001. Segundo informações divulgadas pela Embaixada da Rússia no Quênia, os ex-BRICS Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul querem o seu, com ouro e outras commodities, como prata, ou introduzir moedas com cobertura de terras raras.  41 países já manifestaram interesse nessa moeda, o que será anunciado oficialmente durante a cúpula do BRICS marcada para 15 de agosto na África do Sul. Do ponto de vista dos países do BRICS, a criação de uma moeda própria facilitaria o comércio internacional, mas sobretudo tornaria o Sul Global mais independente da moeda líder, o dólar americano, que ficaria enormemente enfraquecido com isso, e ainda mais promoveria o desenvolvimento de uma ordem mundial multipolar.

No entanto, o ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, afirmou desde então que seu país não tem planos para sua própria moeda do BRICS. O fortalecimento da rupia é uma prioridade para a Índia. O fato de a declaração ter sido feita logo após uma viagem aos Estados Unidos do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, durante a qual foi acertada uma intensificação da cooperação militar e econômica, alimenta especulações de que poderia ter sido feita sob pressão de Washington. As preocupações de que o principal concorrente da Índia, a China, possa ser fortalecida por uma moeda comum e uma expansão da aliança BRICS provavelmente desempenharão um papel decisivo no posicionamento de Nova Délhi. As expectativas também foram atenuadas pela vice-diretora do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS, Leslie Maasdorp, que apontou no início deste mês que o yuan ainda está longe de ser considerado uma moeda de reserva. Portanto, as discussões sobre uma moeda alternativa são sobre um “objetivo de médio a longo prazo”.

É sabido que os países do BRICS têm atitudes diferentes em relação à criação de uma moeda central comum. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e representantes da Rússia são os maiores defensores da ideia. A África do Sul é muito mais reservada. No entanto, a necessidade de se tornar mais independente do dólar americano e também do sistema SWIFT controlado pelos EUA é indiscutível no Sul Global. Eles sofrem há muito tempo com o declínio de suas reservas em dólares. Mas a política de sanções dos Estados Unidos em particular, que por décadas tem sido um instrumento imperialista de governo dirigido especialmente aos países do Sul Global, permitiu que essa convicção crescesse. Como resultado, o comércio de outras moedas aumentou significativamente, principalmente o yuan chinês.

A expansão do comércio em moedas locais é um primeiro passo para a desdolarização. De acordo com o Ministério das Finanças da Rússia, 70% das transações comerciais entre a Rússia e a China são realizadas em rublos ou yuans. Para todas as transações comerciais russas, chega a 80%. As refinarias indianas pagam em yuan suas importações de petróleo da Rússia, que aumentaram significativamente nos últimos dois anos. A moeda local é aceita para transações entre Bolívia e Rússia, bem como entre Brasil e China. Ironicamente, estão em andamento negociações entre a Arábia Saudita, um aliado próximo dos EUA há décadas e o segundo maior produtor de petróleo do mundo, por um lado, e Pequim, por outro, para também realizar transações de petróleo entre si em yuan. 

Tais acordos comerciais bilaterais têm o potencial de “pôr em risco” significativamente o domínio do dólar americano e de ampliar as atuais mudanças tectônicas no equilíbrio de poder em direção ao Sul Global, cuja magnitude dificilmente alguém teria pensado ser possível apenas um ano atrás. E isso independentemente de se e quando a aliança BRICS realmente introduz sua própria moeda. O avanço de uma ordem mundial multipolar pelo Sul Global pode ser corretamente descrito como o verdadeiro ponto de virada. se e quando a aliança BRICS realmente introduzirá sua própria moeda. O avanço de uma ordem mundial multipolar pelo Sul Global pode ser corretamente descrito como o verdadeiro ponto de virada. se e quando a aliança BRICS realmente introduzirá sua própria moeda. O avanço de uma ordem mundial multipolar pelo Sul Global pode ser corretamente descrito como o verdadeiro ponto de virada.

A esperada expansão dos BRICS em agosto, em particular, terá um impacto na ordem mundial e na progressiva desdolarização do comércio mundial que não deve ser subestimado. Isso é particularmente verdadeiro tendo em vista que Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Argélia, Egito, Turquia, Indonésia e México estão entre as quase 20 e, segundo outras fontes, até 40, importantes potências econômicas e países emergentes.

De acordo com dados atuais do Fundo Monetário Internacional (FMI), os atuais cinco países do BRICS já contribuem com 32,1% para o crescimento global, em comparação com 29,9% do G7. A China já é o parceiro comercial mais importante para cerca de 125 países. Se todas essas negociações fossem realizadas em yuan, a posição do dólar poderia muito bem ser prejudicada.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Agências de fomento dizem não ao uso de IA na revisão por pares

Preocupações incluem confidencialidade, precisão e “originalidade de pensamento”

peer review IA

Por Jocelyn Kaiser para a Science

O neurocientista Greg Siegle estava em uma conferência no início de abril quando ouviu algo que achou “muito assustador”. Outro cientista estava entusiasmado com o fato de que o ChatGPT, a ferramenta de inteligência artificial (IA) lançada em novembro de 2022, rapidamente se tornou indispensável para redigir críticas às densas propostas de pesquisa que ele teve que percorrer como revisor de pares para os Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Outros ouvintes assentiram, dizendo que viam o ChatGPT como uma grande economia de tempo: redigir uma revisão pode envolver apenas colar partes de uma proposta, como resumo, objetivos e estratégia de pesquisa, na IA e solicitar que ela avalie as informações.

O NIH e outras agências de financiamento, no entanto, estão colocando um fim nessa abordagem. Em 23 de junho, o NIH proibiu o uso de ferramentas de IA generativas online como o ChatGPT “para analisar e formular críticas de revisão por pares” – provavelmente estimulado em parte por uma carta de Siegle, que está na Universidade de Pittsburgh, e colegas. Após a conferência, eles alertaram a agência de que permitir que o ChatGPT escreva análises de bolsas é “um precedente perigoso”. Em um movimento semelhante, o Conselho de Pesquisa Australiano (ARC) em 7 de julho proibiu a IA generativa para revisão por pares após saber de revisões aparentemente escritas pelo ChatGPT.

Outras agências também estão desenvolvendo uma resposta. A National Science Foundation dos EUA formou um grupo de trabalho interno para verificar se pode haver usos apropriados de IA como parte do processo de revisão de mérito e, em caso afirmativo, quais “guardas de proteção” podem ser necessárias, diz um porta-voz. E o Conselho Europeu de Pesquisa espera discutir a IA tanto para redação quanto para avaliação de propostas.

O ChatGPT e outros grandes modelos de linguagem são treinados em vastos bancos de dados de informações para gerar texto que parece ter sido escrito por humanos. Os bots já levaram editores científicos preocupados com ética e precisão factual a restringir seu uso para escrever artigos. Algumas editoras e periódicos, incluindo a Science , também estão proibindo seu uso por revisores.

Para as agências financiadoras, a confidencialidade está no topo da lista de preocupações. Quando partes de uma proposta são inseridas em uma ferramenta de IA online, as informações se tornam parte de seus dados de treinamento. O NIH se preocupa com “para onde os dados estão sendo enviados, salvos, visualizados ou usados ​​no futuro”, afirma seu aviso.

Os críticos também temem que as revisões escritas por IA sejam propensas a erros (os bots são conhecidos por fabricar), tendenciosas contra visões não convencionais porque se baseiam em informações existentes e carecem da criatividade que impulsiona a inovação científica. “A originalidade do pensamento que o NIH valoriza é perdida e homogeneizada com esse processo e pode até constituir plágio”, escreveram os funcionários do NIH em um blog. Para periódicos, a responsabilidade do revisor também é uma preocupação. “Não há garantia de que o [revisor] entenda ou concorde com o conteúdo” que está fornecendo, diz Kim Eggleton, que dirige a revisão por pares na IOP Publishing.

Na Austrália, a ARC proibiu os revisores de bolsas de usar ferramentas de IA generativas 1 semana depois que uma conta anônima do Twitter, ARC_Tracker, administrada por um pesquisador local, relatou que alguns cientistas receberam avaliações que pareciam ter sido escritas pelo ChatGPT. Alguns obtiveram avaliações semelhantes quando colaram partes de suas propostas no ChatGPT, diz ARC_Tracker. Uma revisão incluiu até uma oferta, as palavras “regenerar resposta” que aparecem como um prompt no final de uma resposta do ChatGPT. ( O Science Insider confirmou a identidade do ARC_Tracker, mas concordou com o anonimato para que este pesquisador e outros possam usar a conta para criticar livremente o ARC e as políticas governamentais sem medo de repercussões.)

Os cientistas podem pensar que o ChatGPT produz feedback significativo, mas essencialmente regurgita a proposta, diz o proprietário do ARC_Tracker. É certo que alguns revisores humanos também fazem isso. Mas, “Há uma diferença muito grande entre uma revisão adequada – que deve fornecer insight, crítica, opinião informada e avaliação de especialistas – e um mero resumo do que já está em uma proposta”, escreveu o pesquisador em um e-mail ao Science Insider .

Alguns pesquisadores, no entanto, dizem que a IA oferece uma chance de melhorar o processo de revisão por pares. A proibição do NIH é um “recuo tecnofóbico da oportunidade de mudança positiva”, diz o geneticista psiquiátrico Jake Michaelson, da Universidade de Iowa. Os revisores podem usar as ferramentas para verificar suas críticas para ver se eles esqueceram alguma coisa na proposta, ajudá-los a avaliar o trabalho de fora de seu próprio campo e suavizar a linguagem que eles não perceberam soar “mesquinho ou mesmo maldoso”, diz Michaelson. “Eventualmente, vejo a IA se tornando a primeira linha do processo de revisão por pares, com especialistas humanos complementando as revisões de IA de primeira linha. … Prefiro ter minhas próprias propostas revisadas pelo ChatGPT-4 do que por um revisor humano preguiçoso”, acrescenta.

A paisagem provavelmente mudará com o tempo. Vários cientistas observaram no blog do NIH que alguns modelos generativos de IA funcionam offline e não violam a confidencialidade – eliminando pelo menos essa preocupação. O NIH respondeu que espera “fornecer orientação adicional” para uma “área em rápida evolução”. 

Mohammad Hosseini, pesquisador de pós-doutorado em ética da Northwestern University que escreveu sobre IA na revisão de manuscritos, concorda que a proibição do NIH é razoável, por enquanto: “Dada a sensibilidade dos problemas e projetos com os quais o NIH lida e a novidade das ferramentas de IA, adotar uma abordagem cautelosa e medida é absolutamente necessária.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela revista Science [Aqui!].