Indígenas e autoridades denunciam devastação em área no Pará pela mineradora canadense Belo Sun

Projeto tocado por banco canadense com foco em mineração prevê remoção de indígenas, uso de explosivos por 12 anos, entre outros, em Volta Grande do Xingu

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Planos incluem a construção da maior mina de ouro a céu aberto do Brasil. Isso em uma área conhecida como Volta Grande do Xingu

Por Redação RBA

São Paulo – A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) denunciou violações aos direitos dos povos indígenas no projeto de mineração da empresa Belo Sun, em Volta Grande do Xingu. A reserva indígena fica no estado do Pará. O relatório é intitulado “Mina de sangue – Relatório sobre o projeto da mineradora Belo Sun“. Ele tem como autor a Apib e a publicação data de hoje (29). Lá, estão expostas análises preocupantes.

A empresa faz parte do grupo canadense Forbes & Manhattan. Trata-se de um banco de investimentos com foco em projetos internacionais de mineração. Seus planos incluem a construção da maior mina de ouro a céu aberto do Brasil. Isso em uma área conhecida como Volta Grande do Xingu. Para isso, está prevista a remoção de mais de 800 famílias da região, que serão realocadas para o estado de Mato Grosso.

Impacto profundo

No projeto da Belo Sun, está prevista a utilização constante de explosivos para viabilizar a extração de cinco toneladas de ouro por ano. O período mínimo é de 12 anos. Além disso, estão planejadas a instalação de duas minas a céu aberto, uma barragem para armazenar resíduos químicos provenientes da mineração, um depósito de explosivos, um aterro sanitário, uma estação de abastecimento de combustíveis, alojamentos e estradas.

“O MPF constatou que não houve manifestação genuína das comunidades afetadas, mas tão somente uma coleta de informações através de dados secundários”, diz um trecho do relatório.

A Belo Sun ocupa uma área de 2.000 hectares de terras públicas. Ela impedirá o acesso das comunidades indígenas e tradicionais que habitavam e utilizavam a região para atividades como caça, pesca, extrativismo e lazer. De acordo com o documento, a mineradora não realizou a consulta prévia, livre e informada às comunidades indígenas afetadas. Contudo, as diretrizes estão estabelecidas na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. Além disso, a empresa tem buscado intimidar e silenciar as discussões acerca do empreendimento.

Violações aos direitos indígenas

Maurício Terena, coordenador do departamento jurídico da Apib e responsável pela elaboração do relatório, destaca que a Belo Sun também está sendo acusada de abuso de poder econômico ao adquirir ilegalmente terras destinadas à reforma agrária. “Belo Sun vem realizando sistemáticas violações de Direitos Humanos e Fundamentais das comunidades que vivem na região. Constantemente, a mineradora omite informações sobre os impactos reais que a mineração irá causar na região, como a contaminação dos recursos hídricos com mercúrio, cianeto, arsênio e antimônio”, afirma.

Kleber Karipuna, coordenador executivo da Apib, completa a crítica. “O Poder Judiciário suspendeu diversas vezes a licença de instalação da Belo Sun. Primeiramente, devido aos impactos potenciais da mina nas comunidades indígenas e tradicionais da área. Chega de atividades mineradoras que com ou sem o aval do Estado brasileiro atacam o direito à vida e ao território dos povos originários, além de destruir o meio ambiente”.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Cacique Raoni convoca grande encontro no Parque Indígena do Xingu 

Brazilian Indigenous Groups Lobby British PM To Condemn Bolsonaro

O Cacique Raoni Metuktire, representante mundialmente conhecido pela luta por direitos e defesa do meio ambiente, está convocando lideranças para articular o fortalecimento da incidência política do movimento indígena. “O Chamado do Cacique Raoni – Grande encontro das lideranças guardiãs da Mãe Terra” acontecerá de 24 a 28 de julho na Aldeia Piaraçu, território kayapó em São José do Xingu, Mato Grosso. 

O encontro vai discutir o marco temporal e a defesa da floresta e, ao final do evento, será entregue uma carta assinada pelas principais lideranças indígenas do Brasil com as demandas e próximos passos. Dividido em dois momentos, o evento terá um apenas para lideranças indígenas e outro com participação de convidados não-indígenas. Na lista de confirmados estão as ministras Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima), e a presidente da Funai, Joenia Wapichana. 

No vídeo enviado aos convidados, Raoni mostra sua preocupação: 

“Se nós não cuidarmos da nossa terra e de nossas florestas, se deixarmos desmatar tudo, todos vão sofrer com as mudanças climáticas, com o intenso calor e com a poluição do ar. Faz tempo que eu tenho alertado o mundo, mas é preciso continuar alertando vocês. E é por isso que eu chamo todos vocês, lideranças e autoridades, para juntos firmarmos um compromisso em defesa da Terra.” 

O evento também será uma oportunidade de reunir os mais velhos, de jovens e mulheres no território indígena, além de ouvir a sabedoria de lideranças com diversas experiências. 

Serviço

O Chamado do Cacique Raoni – Grande encontro das lideranças guardiãs da Mãe

Terra

24 a 28 de julho

Aldeia Piaraçu – São José do Xingu, MT

Agronegócio e extrema direita impulsionam máquina de fake news sobre aquecimento global

Associações rurais, mídia e canais digitais operam como palco para cientistas que promovem desinformação ambiental

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Dark Stream/Agência Pública

Por Giovana Girardi, Cristina Amorim, Álvaro Justen, Rafael Oliveira para a Agência Pública

O ano era 2016. O mais quente do registro histórico. Preocupado com os impactos do aquecimento global sobre o cultivo de soja, o então ministro da Agricultura Blairo Maggi, um dos maiores exportadores do grão, convidou o cientista Carlos Nobre para conversar com o conselho do grupo Amaggi. O ministro queria que o pesquisador fizesse uma palestra sobre o que a ciência já sabe sobre os potenciais danos das mudanças climáticas na produção agrícola, principalmente na Amazônia.

Nobre, um dos mais reconhecidos climatologistas do país e um dos maiores especialistas em Amazônia, se preparou para a missão. Conversou com outros pesquisadores, se debruçou sobre dezenas de trabalhos que traziam informações sobre a situação, elaborou a palestra e foi para Cuiabá (MT).

“Os representantes do conselho eram produtores de soja e estavam todos lá. E eu apresentei tudo, todos os riscos. Mostrei que as mudanças climáticas podem tornar toda aquela região sul da Amazônia e norte do Cerrado praticamente impossível para a manutenção de uma agricultura produtiva por causa do excesso de calor”, conta.

Nobre disse aos conselheiros da Amaggi que máximas acima de 40 ºC podem se tornar comuns naquela região, principalmente no inverno, e também na transição para o verão, que é quando se planta a soja. “Nessa temperatura, a soja tem baixíssima produtividade”, disse. E frisou: as mudanças climáticas aceleram muito a frequência de eventos extremos como secas. Já estamos vendo isso acontecer e tende a piorar.

Quando ele encerrou a apresentação e abriu para as perguntas, veio a surpresa. “Porque várias pessoas levantaram as mãos e todas falaram que não havia problema nenhum, que a soja aumenta a sua produção com o calor – o que é completamente falso – e que as mudanças climáticas não estão ocorrendo”, relata.

Meio chocado, Nobre se lembra de ter olhado para Maggi e vê-lo sem graça com a situação. Só um tempo depois ele descobriu o motivo da descrença da audiência. “Todos aqueles produtores de soja tinham recebido antes a visita dos negacionistas Luiz Carlos Molion e Ricardo Felício.”

Os nomes citados por Nobre são de dois expoentes no Brasil de um grupo pequeno, mas estridente, de pessoas ligadas à academia que negam que o planeta esteja aquecendo ou que atividades humanas seriam capazes de provocar isso. Questionam, ainda, o papel da  Amazônia na distribuição de chuvas no país, a dimensão das queimadas e dizem que o desmatamento não afeta o clima. Não é de hoje que eles se contrapõem ao consenso científico, mas por décadas tiveram poucas aparições com mais destaque. Seu alcance mudou de patamar, porém, nos últimos anos.

Além de fazerem palestras pelo país a convite de associações do setor espalhando o mito de que o aquecimento global não existe – como no evento bancado pela Aprosoja-MT que antecedeu a fala de Nobre em 2016 –, eles foram alçados à categoria de especialistas por congressistas da bancada ruralista no Congresso. Conquistaram espaço em canais não só do agronegócio, como Canal Rural, Notícias Agrícolas, Terraviva e AgroMais, ambos da Band, mas também da extrema direita, como Brasil Paralelo e Revista Oeste.

O negacionismo climático foi incorporado na máquina de desinformação da extrema direita e se expandiu no meio rural. A percepção de cientistas e pesquisadores ouvidos pela reportagem é que uma parte do agronegócio – notadamente quem está na ponta: os produtores e suas associações – se tornou refratária à discussão séria sobre o clima. Virou terreno fértil para o negacionismo e a desinformação ambiental.

Em condição de anonimato, uma liderança do agronegócio afirmou à Agência Pública que o discurso negacionista “impregnou igual mantra” no setor, principalmente entre produtores rurais. “Produtores e lideranças de produtores. A Aprosoja não consome ciência, por exemplo. Já a indústria está mais alinhada com tendências globais”, disse.

Ele aponta que isso tem reflexo direto na representação política do setor, especificamente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Na opinião dessa liderança, a FPA atua hoje sem embasamento técnico. “Como a gente ganha tudo [na arena do Congresso], não precisa de embasamento técnico. Como tem muita força política, o setor está encostado. Ninguém está de fato fazendo política pública. A representação ficou só para o lobby. A única ‘ciência’ que eles usam é a que serve para o lobby. Já quem quer fazer política pública e se baseia em ciência é visto de modo negativo, como ‘ambientalista’. E, enquanto o setor não acredita, ele não muda, não se adapta e ignora outras possibilidades.”

Rastreando a desinformação

Por dois meses, a Pública, com o apoio do Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais (NetLab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) , analisou anúncios na Meta (Facebook e Instagram), vídeos no YouTube e outros conteúdos publicados em redes sociais e em sites noticiosos ou não, com o objetivo de rastrear quem está por trás da disseminação do negacionismo climático e da desinformação ambiental no país.

As fontes primárias da desinformação são basicamente um trio formado pelas duas figuras citadas por Nobre – Ricardo Felício, professor de geografia da Universidade de São Paulo (USP), e Luiz Carlos Molion, meteorologista e professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) – e pelo agrônomo Evaristo de Miranda, recém-aposentado da Embrapa, que se tornou guru ambiental do agronegócio e de Jair Bolsonaro.

O palco deles, além das associações do agronegócio que os convidam para palestras, são os canais digitais ligados ao setor e à extrema direita. Miranda e Felício, por exemplo, são colunistas fixos e fontes frequentes de reportagens da Revista Oeste, publicação lançada em março de 2020 que se define como “a primeira plataforma de conteúdo cem por cento comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado”.

Molion é colaborador frequente do Notícias Agrícolas, que se descreve como “um dos mais importantes meios de comunicação do agronegócio brasileiro”, com “comunicação direta com os produtores rurais”. O site diz criar “um espaço com ampla diversidade de opiniões e informações”, mas, conforme pesquisa da Pública na busca avançada do Google, enquanto um negacionista como Molion tem de fato amplo espaço – foram encontradas 250 menções ao nome dele –, além de outras reportagens com questionamentos ao aquecimento global, há pouco espaço para pesquisadores que levam o problema a sério. São só 29 menções a Nobre, por exemplo, apesar de no campo científico a situação ser inversa: Molion tem 46 artigos publicados em periódicos, segundo seu currículo Lattes, enquanto Nobre contabiliza 190.

Foi no Notícias Agrícolas que foi publicada, em 2019, logo no início do governo Bolsonaro, uma carta que Molion, Felício e outros negacionistas – alguns sem nenhum vínculo com ciência – enviaram para o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com cópia para vários outros membros do governo. Conforme o resumo feito pelo site, trata-se de um documento “contestando a posição de ambientalistas que defendem restrições na economia no sentido de minimizar os efeitos de ‘mudanças climáticas’”.

Molion e Miranda aparecem com frequência no Canal Rural. Em maio, o agrônomo foi o entrevistado, por cerca de uma hora, do PodPlantar, um programa de videocasts da empresa Sementes Jotabasso em parceria com o Rural, durante a Agrishow, a maior feira do agronegócio que ocorre todos os anos em Ribeirão Preto. Este ano, o evento foi símbolo do entrevero entre o setor e o governo Lula.

Miranda também é colunista de canais especializados da Band para o setor – o Terraviva e o AgroMais –, além de ser frequentemente entrevistado pela Band News TV. Já Felício é figurinha constante em programas de direita no YouTube. Uma entrevista que deu para o programa Conversa Paralela, da produtora Brasil Paralelo, em agosto do ano passado, para dizer que o “aquecimento global é uma farsa”, já alcançou mais de 1,1 milhão de visualizações.

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Ricardo Felício em entrevista ao Brasil Paralelo. Reprodução

Produtora de documentários e programas conservadores, a Brasil Paralelo se tornou um dos principais veículos de desinformação do país, na opinião de especialistas que investigam o assunto. No campo socioambiental, um dos vídeos considerados mais danosos é o “Cortina de Fumaça”, de 2021, que nega o desmatamento da Amazônia, fala que há “muito alarde” sobre queimadas e que “não existe uma floresta sendo destruída, mas uma floresta sendo preservada”.

“Infodemia socioambiental”

Somente no período entre 31 de março e 27 de junho deste ano, a reportagem contabilizou 31 aparições dos três cientistas negacionistas na mídia – em colunas semanais e entrevistas – e em eventos presenciais. Mas a disseminação desse conteúdo vai muito além deles e foi incorporada por deputados e senadores da FPA, além de influenciadores ligados ao agro e à extrema direita.

É um comportamento que foi apelidado pela equipe do NetLab, liderada pela pesquisadora Marie Santini, de “infodemia socioambiental”, em que a desinformação ambiental se tornou “uma das pautas centrais na propaganda política da extrema direita brasileira, servindo de argumento para o desmonte da proteção do meio ambiente e o avanço sistemático de atividades extrativistas no Brasil”. Essa explicação está em um relatório lançado pelo grupo no começo do ano, após análise do debate socioambiental entre janeiro de 2021 e novembro de 2022, os dois últimos anos da gestão Bolsonaro.

Em geral, os pesquisadores captaram políticos e influenciadores endossando teorias negacionistas e defendendo ações do governo nas questões ambientais. No período eleitoral, disputas sobre os números do desmatamento da Amazônia e propaganda positiva sobre a atuação do agronegócio brasileiro foram predominantes.

A pedido da Pública, o NetLab complementou o levantamento, incluindo postagens dos primeiros meses deste ano. Sob o governo Lula, o conteúdo dos anúncios na Meta mudou um pouco. Passaram a focar, por exemplo, em fatos políticos em debate, como a CPI do MST, ou a discussão sobre o marco temporal para terras indígenas. Foram detectados vários anúncios da FPA, pagos pelo Instituto Pensar Agro, com desinformações sobre o agro, por exemplo, além de críticas à política ambiental do novo governo.

Santini e os colegas Débora Gomes Salles e Carlos Eduardo Barros deram atenção especial à desinformação veiculada em anúncios pagos, que alcançam “de forma sistemática e segmentada, os públicos mais vulneráveis nessas plataformas”.

Por conta da falta de regulamentação jurídica, a transparência desse tipo de negócio ainda é baixa no país. Somente Google e Meta possuem acervos públicos que indicam os anúncios veiculados no Brasil, mas “ainda com graves lacunas na transparência de dados que permitam responsabilizar quem publica conteúdos falsos e, muitas vezes, criminosos”, aponta o grupo. O YouTube, por exemplo, apesar de ter uma política que visa conter a divulgação de negacionismo climático, continua ganhando dinheiro com isso.

Nas duas plataformas, os pesquisadores do NetLab identificaram anúncios de entidades que se relacionam de alguma maneira com o agro com “informações distorcidas e falaciosas sobre o impacto da ação humana no clima e no meio ambiente”. O material foi dividido em dois principais tipos de conteúdos com potencial de produzir falsas crenças sobre esses temas: anúncios promovendo teorias da conspiração que apresentam todo tipo de pauta ambientalista como alarmismo ou exagero de “fanáticos do clima”; e anúncios que buscam apresentar uma “ciência alternativa” àquela que aponta graves níveis de desmatamento e mudança climática.

No primeiro caso, eles destacam como exemplo anúncios da produtora Brasil Paralelo promovendo o “Cortina de Fumaça” e da Revista Oeste sobre reportagem das “ameaças da governança global”. “Eles não questionam diretamente evidências científicas, mas retratam a emergência climática como se fosse mera politicagem ou narrativa manipulada para mascarar interesses ‘globalistas’ de ONGs, veículos da imprensa e governos estrangeiros”, explica o trio de pesquisadores do NetLab.

“Ou seja, para desqualificar uma pauta baseada no conhecimento científico, esses anúncios tentam arrastar a disputa da opinião pública para fora do campo da ciência, como se o que estivesse em jogo não fossem evidências, mas sim narrativas”, complementam.

Reprodução da página de anúncio da Revista Oeste no Facebook. O veículo patrocinou uma publicação com desinformação sobre o aquecimento global

Revista Oeste financiou anúncio no Facebook sobre o aquecimento global. Reprodução

No segundo caso, o NetLab destaca a ocorrência de anúncios que “afirmam não haver nenhuma relação entre o agronegócio brasileiro e a destruição do bioma amazônico ou qualquer outro”. Eles citam como exemplo uma postagem que o deputado federal Rafael Pezenti (MDB-SC) impulsionou na qual afirma que “quem acredita nisso [que o agronegócio desmata] é retardado ou mal (sic) caráter”.

O então candidato pagou à Meta entre R$ 500 e R$ 599 para impulsionar esse conteúdo e alcançou entre 150 mil e 175 mil impressões. O anúncio também convoca o público a “combater as mentiras divulgadas sobre o agro” e diz que os agricultores e pecuaristas brasileiros preservariam uma área de floresta equivalente a 16 países. O mesmo discurso aparece na publicidade da Brasil Paralelo, veiculada na Meta.

É um dado que deriva de um estudo de Evaristo de Miranda, de quando ele ainda estava na Embrapa. A pesquisa virou uma espécie de “bíblia” do agro, mas é bastante criticada por outros cientistas da área, que o acusam de distorcer cálculos e gerar falsas controvérsias. Em meados deste mês, o próprio Miranda afirmou que “o agronegócio não desmata”, em um anúncio pago do Canal Rural e veiculado no Google para promover a entrevista concedida ao PodPlantar, da Jotabasso.

Nessa entrevista, ele lança mão de mais um dado não corroborado por outros pesquisadores: de que R$ 3 trilhões estariam imobilizados em propriedades rurais no Brasil por causa da área que precisa ser mantida preservada em cumprimento do Código Florestal. Ele apresentou esse cálculo pela primeira vez em 2018, em palestra do Foro de Agricultura da América Latina, considerada um marco da desinformação ambiental iniciada antes mesmo de Bolsonaro ser eleito. O vídeo principal soma mais de 440 mil visualizações no YouTube, mas há diversos cortes dele espalhados pela rede que aumentaram seu alcance.

Em vídeo curto publicado no Dia Mundial do Meio Ambiente deste ano no canal Terraviva, ele voltou a citar o dado. “Hoje, 5 de junho, é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Deveria ser também aqui no Brasil, um dia para se homenagear o mundo rural, em particular os produtores rurais. Porque não existe neste país ninguém que dedique tanto tempo, tantos recursos à preservação do meio ambiente quanto o produtor rural e mesmo assim muito maltratado nesse tema”, enaltece.

Reprodução de vídeo publicado no YouTube do Canal Terraviva, com Evaristo Miranda falando sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente

Evaristo Miranda, pesquisador da Embrapa, em vídeo sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente. Reprodução

Pouco mais de duas semanas depois, o dado foi repetido pelo presidente da Aprosoja, Antonio Galvan, em artigo no Notícias Agrícolas. A reportagem encontrou várias outras menções a esse dado, que não tem respaldo da academia, na voz de influencers do setor em entrevistas à Brasil Paralelo, por exemplo.

No começo de maio, foi a vez de outro político, o senador Marcio Bittar (União Brasil-AC), impulsionar anúncio na Meta citando outro número difundido por Miranda – de que 66% do país se mantém preservado. Esse é um dos dados mais alardeados tanto por representantes da bancada ruralista quanto por apoiadores do setor. “O Brasil, que tem 66% do seu território intacto, enquanto a Inglaterra tem apenas 10% de floresta nativa”, disse Bittar ao criticar cobranças que o rei Charles III, da Inglaterra, fez a Lula.

Nesse caso, trata-se de promover uma interpretação distorcida a partir de um dado real. De fato, o país tem cerca de 66% do território com vegetação remanescente, mas ela está bem longe de estar intacta ou “tal qual Pedro Álvares Cabral encontrou quando chegou ao Brasil” ou como era “no tempo de Adão e Eva”, como dizem entrevistados do “Cortina de Fumaça”.

Estudos com análise de imagem de satélite mostram que boa parte desses remanescentes já sofreu algum tipo de degradação. Pesquisa liderada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) publicada no início deste ano na revista científica Science, uma das mais importantes do mundo, mostrou que só na Amazônia cerca de 40% do que sobra da floresta já sofreu algum tipo de degradação, o que reduz sua capacidade de prover todos os serviços ambientais e fica muito mais sujeita à destruição pelo fogo, por exemplo.

Bittar chamou atenção nos últimos anos por alçar Molion e Felício à categoria de referências em clima. Ele convidou os dois para participar de um evento promovido pelas comissões de Relações Exteriores (CRE) e de Meio Ambiente (CMA) do Senado em maio de 2019. O vídeo da TV Senado disponível no YouTube com as três horas do evento já teve mais de 44 mil visualizações. O canal próprio do senador publicou um vídeo menor de uma conversa dele com os dois no mesmo dia que teve mais quase 8 mil visualizações.

Reprodução de vídeo publicado no YouTube de Marcio Bittar, Luiz Carlos Molion e Ricardo Felício durante conversa sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas

Marcio Bittar, Luiz Carlos Molion e Ricardo Felício durante conversa. Reprodução

Agora relator da CPI das ONGs, Bittar convidou Molion e Miranda para prestarem depoimento na comissão.

Objetivo é atacar a ciência que ampara leis ambientais

O sociólogo Jean Miguel, professor associado ao Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp, publicou um artigo no começo do ano passado analisando a relação entre o negacionismo climático e o que ele chamou de impedimento da governamentalização ambiental no Brasil.

Para ele, não é possível cravar que o principal bastião do negacionismo no Brasil é o agronegócio. Estudando o fenômeno por uma perspectiva histórica, ele vê relação com outros elementos caros à extrema direita, como patriotismo, armamentismo, soberania, religiosidade (a ideia de que o ser humano ganhou de Deus a natureza para usufruir dela).

O pesquisador aponta, no entanto, que há um elemento muito pragmático na forma como uma parcela do agronegócio incorporou o negacionismo não só do aquecimento global como também da ciência que revela os impactos da devastação ambiental, em especial pelo desmatamento.

“É uma forma de produção da ignorância planejada para atingir leis ambientais específicas. Não é toda a ciência que é atacada por negacionistas, mas aquela ciência que faz parte do processo regulatório das leis ambientais e dos acordos internacionais. Aquela ciência que cria um certo processo de regulamentação ambiental, que dá fundamento objetivo para o aconselhamento político nas decisões ambientais”, disse à Pública.

Ele afirma que a meteorologia, por exemplo, é importante para o agro, por isso Molion encontra tanto espaço para falar com esse público. Suas palestras – em entrevista à BBC, ele disse serem 50 por ano – em geral começam com as estimativas de curto prazo sobre como estará o clima para a lavoura na próxima estação, mas depois descambam para o negacionismo. Molion diz que vai ocorrer um resfriamento do planeta nas próximas décadas – contrariando todas as estimativas que apontam para o oposto disso.

Trecho de reportagem publicada no site Canal Rural cita a hipótese de Luiz Carlos Molion sobre o aquecimento global
Reportagem publicada no site Canal Rural cita a hipótese de Luiz Carlos Molion sobre o aquecimento global. ReproduçãoReprodução

“Mudança climática não interessa para o setor quando ela reforça a necessidade de ação contra o desmatamento ou reforça as regras para proteção ambiental dentro da propriedade”, continua Miguel. O pesquisador defende que essa negação não ocorreu de modo contínuo na história recente, mas foi particularmente atuante em momentos em que algo importante na esfera ambiental estava acontecendo, como, por exemplo, a conferência Rio+20, em 2012, que marcava os 20 anos da Rio-92 e trazia a expectativa de acordos internacionais mais robustos de proteção ao ambiente.

Naquele ano, nos meses que antecederam a cúpula, diversos veículos de imprensa deram espaço para quem negava o aquecimento, em uma tentativa controversa de trazer “equilíbrio” para o debate, tratando os dois lados com pesos iguais, quando essa não é a realidade da ciência do clima. Há um consenso científico em torno do tema. Quem nega o aquecimento global ou que ele seja causado pelas atividades humanas e emissões em excesso dos gases de efeito estufa é uma minoria de 1% da comunidade científica mundial.

Foi assim que Ricardo Felício, que nunca publicou um artigo científico sequer sobre a questão climática em toda a sua carreira, foi parar no programa do Jô Soares – evento que alimentou toda uma geração de conspiracionistas. Ele disse que “não tem prova científica do aquecimento global”, que “não há elevação do nível do mar” e que “a Floresta Amazônica se reconstituiria em 20 anos após ser desmatada”.

Foi também em 2012 que foi aprovada no Congresso a reformulação do Código Florestal, a mais importante lei ambiental do país, que define as regras para a proteção da vegetação dentro das propriedades privadas. Nessa mudança, quem teve protagonismo foi Evaristo de Miranda, que convenceu todo mundo de que sobrava pouca terra para a produção no Brasil diante de tanta área que era protegida de alguma maneira. Isso é contestado pela maioria dos pesquisadores da área no país, mas foi encampado pela bancada ruralista.

Para Miguel, esses discursos ganharam tração em momentos-chave da história recente, mas foi com o bolsonarismo que os negacionistas encontraram “solo fértil”. “É uma visão de mundo coerente, um modo de vida completo, e o negacionismo vai estar lá também”, diz.

Nesse contexto, a disseminação desses discursos em canais do agro e da extrema direita serve para legitimá-los. “O negacionismo passa a ser legitimado como narrativa científica. Dentro da ciência eles não têm legitimidade, mas na interface com o agronegócio eles adquirem essa legitimidade”, completa,

Críticas sob anonimato

O anonimato na hora de falar contra os argumentos do negacionismo climático brasileiro é uma condição quase unânime para quem lida diretamente com atores do mundo agro – mesmo quando a intenção é ampliar a produtividade no campo. O receio é que apoiar a boa ciência – e, por consequência, expor a relação direta entre práticas predatórias como o desmatamento com as mudanças climáticas – feche portas.

É o caso de um profissional com passagem por empresas do setor que pediu à reportagem que não fosse identificado. “Se falo sobre sustentabilidade e clima, a pessoa já olha de volta com desconfiança, como se fosse uma nova forma de colonialismo. Ela reproduz o que é inventado, e o que se repete vira verdade”, afirma. “É uma barreira muito grande a vencer antes de debater como transformar a agricultura para melh

Outra pessoa entrevistada que atua junto ao agro e que também pediu anonimato descreve a disseminação de desinformação no setor como regra. “Quando falo de mudanças climáticas, a primeira coisa que respondem é: ‘Você pode me explicar, mas não vai mudar minha opinião’.”

A posição tem um efeito prático negativo para o próprio agronegócio. Como Nobre tentou alertar na reunião com o conselho da Amaggi, as mudanças climáticas já afetam a produtividade agrícola. A cientista Ludmila Rattis, ligada ao Woodwell Climate Research Center, dos Estados Unidos, e ao Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), publicou em 2021 um estudo na revista Nature Climate Change demonstrando que 30% das áreas produtoras de soja e milho do Centro-Oeste saíram do ideal climático para a produção. Segundo suas projeções, se as alterações continuarem, até 70% das propriedades dessa região estarão em áreas impróprias para o cultivo nos próximos 20 anos.

“Muitos agricultores que poderiam se adaptar acham que essas instabilidades que estamos assistindo nos últimos 20 anos vão passar”, conta Ludmila. “Se você não usa a palavra clima e pergunta ‘A temperatura está diferente? A chuva mudou um pouquinho?’, eles dizem que sim. Mas, na hora que usa a palavra clima, eles falam que não tem mudança. E aí atrapalha muito a adoção de práticas mais adaptadas à nova realidade climática.”

A cientista tem buscado caminhos para convencer sobre os riscos que as mudanças climáticas colocam sobre a produção brasileira. “O que reverte essa situação são os ganhos financeiros que práticas agrícolas mais sustentáveis têm, e quando planilhas e gráficos são mostrados. Não é só bom para o ambiente, é bom para o seu bolso também. Essa é a maior arma que a gente tem hoje contra o negacionismo climático.”

Assim como Ludmila, o pesquisador Phillipe Käfer, responsável pelo programa do Brasil do laboratório de inovações financeiras do Climate Policy Initiative, vê como o negacionismo atrapalha a adoção de sistemas mais sustentáveis de produção rural. “Sabemos, que a agropecuária não somente afeta o clima em razão de suas emissões, como também é afetada pelas alterações nos regimes naturais de chuvas e temperatura. A resistência em reconhecer a relação impede que o setor seja protagonista na mudança e ainda ser remunerado por isso.”

Por outro lado, conta, tem crescido o interesse sobre agricultura regenerativa, com insumos biológicos, rotação de culturas e outras práticas que trazem mais fertilidade para o solo e ajudam o produtor a lidar com as questões climáticas.

Ou seja, para adaptar a agricultura brasileira às mudanças climáticas e evitar perdas graves para os produtores, parece que a chave é não falar sobre mudanças climáticas.

Um curso para trazer o clima para dentro do debate

O engenheiro agrônomo Marcos Jank, que foi executivo de associações de classe, como a  União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), e de empresas do setor, como BRF, e hoje coordena o Insper Agro Global, está apostando numa estratégia oposta, que é justamente criar esse diálogo. Ele está coordenando a elaboração de um novo curso chamado Agro e Meio Ambiente, que tem como objetivo trazer o agronegócio para entender as mudanças climáticas e se preparar para lidar com elas.

Questionado pela Pública sobre como pretende fazer essa abordagem considerando o negacionismo que prevalece em parte do setor, Jank reconheceu que há uma dificuldade enorme de concertação. Mas afirmou acreditar que, em termos práticos, o negacionismo vai acabar sendo sobreposto pela necessidade de mudanças impostas pelas pressões que estão sendo colocadas mundialmente sobre as cadeias produtivas.

Ele admite, porém, que hoje o produtor rural vê a questão climática como um passivo. “Quando na verdade deveria ser um ativo. O produtor deveria ser o primeiro a defender o fim do desmatamento ilegal. Por causa da lei, não porque o [presidente da França, Emmanuel] Macron quer, ou porque o [presidente dos Estados Unidos, Joe] Biden quer, mas porque é fora da lei. Tem de ser combatido. E o agro deveria ser vocal sobre isso. Mas não é”, diz.

Com esse comportamento, argumenta Jank, o produtor não está enxergando as oportunidades que lidar com o problema podem trazer. “Na minha visão, a única coisa que é ameaça é o lado vilão do Brasil com desmatamento ilegal. É uma ameaça que, se não for resolvida, nada vai dar certo. A gente vai continuar sendo visto pelo lado vilão. Agora, se a gente reduzir o desmatamento e se a gente incorporar – seja através de incentivo, seja com política pública, seja com mercados de carbono – modelos produtivos de baixo carbono, a gente tem chance de ir muito mais longe do que os nossos concorrentes. Mas ainda existe uma dificuldade imensa do produtor enxergar isso.”

Outros lados

Todas as pessoas, veículos e instituições citados nesta reportagem foram procurados pela reportagem. Somente quatro deram retorno até a publicação.

Aleksander Horta, chefe de redação do Notícias Agrícolas, afirmou: “O jornalismo do Notícias Agrícolas é pautado pela premissa de ouvir especialistas que sejam experientes o bastante para tratarem dos temas propostos, como é o caso do Dr. Luiz Carlos Molion e a climatologia. Nosso papel, enquanto repórteres, é apenas o de promover debates, ouvir contraposições e garantir que nossa audiência tenha sempre, e constantemente, informações responsavelmente apuradas.”

Também disse que as reportagens apontam “a existência de uma linha de pesquisa contrária e intensamente divulgada sobre o chamado ‘aquecimento global’ (termo que mais tarde, por conta de contestações, viria a ser substituído por ‘Mudanças Climáticas’)  e promover o debate sobre o tema que – gostem ou não, certo ou errado – tem embasamento técnico e científico minuciosamente elaborado pelo Dr. Molion que, diga-se de passagem, não está sozinho nesta discussão.” Leia a resposta na íntegra.

Molion apenas fez referência à resposta que o Notícias Agrícolas nos enviou e disse que não teria tempo para atender à reportagem porque daria uma palestra presencial nesta quinta-feira, 29, em Goiás. “Quem sabe em uma outra oportunidade em que eu tenha tempo disponível. Acho que você deveria ver esses assuntos com um olhar mais crítico e não aceitar tudo que você ouve. Sucesso!”, acrescentou.

Em nota, o Grupo Bandeirantes de Comunicação afirmou que os veículos do conglomerado (como Terraviva e AgroMais) “estão sempre abertos a ouvir as mais diversas opiniões em todos os setores, proporcionando constantemente uma cobertura ampla e diversificada. Evaristo de Miranda é colaborador dos canais por assinatura, assim como tantos outros profissionais que expõem seus mais diferentes pontos de vista”.

A Brasil Paralelo chegou a procurar a Pública pedindo mais explicações sobre o conteúdo, mas disse que preferia não se manifestar.

* Esta reportagem foi produzida com o apoio do programa Disarming Disinformation, do International Center for Journalists (ICFJ), e financiada pelo Instituto Serrapilheira. O Disarming Disinformation é um esforço global de três anos com financiamento principal do Scripps Howard Fund.

* Uma reportagem da Deutsche Welle, feita em colaboração com a Pública, detalha como esses negacionistas, ligados a instituições respeitadas, se apoiaram numa ciência bastante questionada e se tornaram porta-vozes da desinformação ambiental no país.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

Revolta na França. O Castelo está em chamas

macron demissionMesmo o comportamento aristocrático de Macron não é adequado para conter a raiva dos manifestantes (Paris, 1º de maio de 2023)

Por Hansgeorg Herman para o JungeWelt

O presidente francês Emmanuel Macron adora grandes gestos, os napoleônicos, monárquicos. Como deve ter sido difícil para ele cancelar sua “visita de estado” à Alemanha, que estava marcada para três dias, onde esteve em prédios inúteis, mas representativos, para comemorar a histórica visita do general Charles de Gaulle – 4 a 9 de setembro de 1962 – para a jovem República Federal gostaria de se conectar. Os discursos foram escritos, observou a parafernália filosófica – então “uma conflagração” bloqueou seu caminho para Berlim, como os jornais diários parisienses chamavam a revolta massiva que se espalhava como um incêndio florestal em casa. A juventude do país, principalmente aquela que, como Nahel, de 17 anos, executado a sangue frio por um policial no dia 27 de junho, cresceu em um dos bairros ditos sensíveis da sociedade urbana,

O racismo a ser suportado todos os dias nas favelas, das quais apenas alguns escapam para uma vida melhor esperada; Violência policial – surgindo como uma formalidade administrativa ou mesmo banal como um tiro mortal da arma de serviço; a amarga percepção de que “nada vai mudar”. Após o habitual ritual de condolências e consternação, o Presidente e o seu duro Ministro do Interior, Gérald Darmanin, enviaram 45.000 homens fardados fortemente armados “às ruas” – reconhecidamente não para o diálogo, mas para a “restauração da ordem”. “Graças à intervenção determinada” da polícia, Darmanin anunciou orgulhosamente na manhã seguinte que eles conseguiram na noite de domingo. Seu chefe Macron já havia entrado em frente ao portão de seu Palácio do Eliseu na tarde de sexta-feira com uma tese maluca.

O que ele quer dizer com isso, perguntaram os intelectuais no dia seguinte, o que o leva a tal absurdo? O espanto do mundo, todos os olhos em você, não importa o motivo – é disso que o plebeu criado por jesuítas da província católica mais gosta? “A República não é chamada a ocupar o lugar dos pais”, ensinava às famílias daqueles que, em tenra idade e cheios de raiva, são marginalizados por esta mesma República ou imediatamente retirados fisicamente de circulação. Em vez de tristeza, apenas um triste balanço: mais de 1.100 prisões na noite de sábado, mais 490 nas horas até a tarde.

Pierre Bourdieu, o sociólogo mais famoso da França, descreveu em sua análise de 1989 sobre a “nobreza estatal” (La Noblesse d’Etat) como a classe política do país e seus cúmplices no poder executivo, que foram mantidos à distância com salários luxuosos, se descreveram como »cavaleiros brancos«, blindados com a fé cristã e as Sagradas Escrituras – teriam que trazer luz aos becos escuros dos ignorantes e incrédulos (muçulmanos). Pelo menos até eles se iluminarem e incendiarem o castelo para os cavaleiros.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Mensagem ao prefeito Wladimir: desista do reitor da Uenf, desse mato não sai coelho!

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Venho divulgando neste blog a interminável saga dos R$ 20 milhões que foram enviados pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) para a realização de reformas estruturais no prédio histórico que abriga o Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes, o Solar do Colégio.

Ao longo desse tempo aconselhei o reitor da Uenf, professor Raul Palacio, a devolver essa fortuna para quem a enviou, a fim de cessar as humilhantes cobranças públicas feitas pelo prefeito Wladimir Garotinho para a liberação dos recursos, em que pese a ausência de um projeto técnico.  Mas em que pesem as minhas boas intenções, o reitor da Uenf resolveu ignorar meu conselho sincero, e continuou sentado em cima da grana, o que compreensivelmente tem enervado o prefeito de Campos dos Goytacazes.

O prefeito Wladimir anda tão nervoso que acabou de usar uma reunião pública para enviar a enésima cobrança ao reitor da Uenf para que libere as obras, antes do início das chuvas. Soubesse o prefeito que na Uenf o próprio prédio que abriga a reitoria ficou vários meses sendo inundado por água de chuva por causa de uma obra desastrada no telhado, talvez ele já tivesse desistido de cobrar a ação do reitor da Uenf. Aliás, na última semana voltou a entrar água dentro de uma sala de aula no E-1 (o prédio que abriga a reitoria), mesmo após as informações de que isto não mais ocorreria. O fato é que se não cuidou do telhado do prédio onde trabalho, por que iria o reitor da Uenf ter a reforma do telhado do Arquivo Municipal?

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Então, também com a melhor disposição do mundo, aproveita deste texto para me dirigir ao prefeito Wladimir Garotinho para solicitar que ele se dirija ao presidente da Alerj, o seu mais novo amigo Rodrigo Bacellar, para que este peça o retorno dos R$ 20 milhões e entrega a grana diretamente nos cofres da Prefeitura de Campos dos Goytacazes.

É que, prefeito, o reitor da Uenf tem outras preocupações mais urgentes neste momento, a começar pelo esforço de emplacar o seu sucessor ou sucessora na direção central da universidade a partir de janeiro de 2024. Portanto, convença-se prefeito Wladimir, deste mato não sai coelho. Se agir rápido, quem sabe as sonhadas obras do Arquivo Municipal comecem antes das chuvas do próximo verão. Tic tac tic tac!

Estudo apresenta sistema de nanotecnologia que detecta o herbicida picloram em solos e alimentos

rice_farmingUm agricultor com um monte de plantas de arroz. Pesquisadores desenvolveram um novo sistema para detectar com precisão o herbicida ultrassensível picloram na água e no solo do arroz. Copyright: Sorapong Chaipanya , (foto Pexels, livre para usar)

Um estudo publicado em junho na revista Scientific Reports diz que o sistema é simples, rápido, econômico e altamente preciso na detecção da substância, que pode causar uma série de problemas de saúde .

O picloram é um derivado clorado do ácido picolínico que é pulverizado na folhagem, injetado nas plantas, aplicado em superfícies cortadas ou lixiviado nas raízes. Uma vez absorvido em qualquer um desses pontos, o herbicida é transportado por toda a planta.

“Focamos o estudo na detecção de água de arroz, pois é uma cultura alimentar comum e vários estudos relataram a presença desse herbicida no arroz”.

Pranjal Chandra, professor associado, Escola de Engenharia Bioquímica, Instituto Indiano de Tecnologia

A exposição humana a uma alta concentração de picloram pode causar problemas de saúde, incluindo distúrbios do sistema nervoso central, perda de peso, fraqueza e diarreia, de acordo com o estudo.

“A gravidade dos efeitos do picloram na saúde humana e no meio ambiente pode variar dependendo de fatores como concentração, duração da exposição e suscetibilidade individual”, disse Pranjal Chandra, autor do estudo e professor associado da School of Biochemical Engineering, Indian Institute of Technology.

“Focamos o estudo na detecção de água de arroz, pois é uma cultura alimentar comum e vários estudos relataram a presença desse herbicida no arroz”.

As técnicas convencionais para detectar e quantificar o picloram têm um baixo limite de detecção e geralmente precisam de preparação demorada de amostras, processos de purificação e configurações laboratoriais sofisticadas, disse Chandra ao SciDev.Net .

“Portanto, era necessária uma abordagem mais prática”, explicou.

“Uma dessas abordagens é o estudo eletroquímico de diversas moléculas que estão em ascensão nos campos clínico, biomédico e ambiental”.

O picloram foi descoberto no início dos anos 1960 pela Dow Chemical Company e introduzido no mercado em 1963.

Foi combinado com outros herbicidas para fazer e aprimorar o Agente Laranja, o notório herbicida químico usado durante a Guerra do Vietnã. O picloram é atualmente um dos herbicidas mais utilizados no manejo florestal. Também é eficaz no controle de ervas daninhas invasivas, particularmente em linhas de energia elétrica, trilhos de trem, estradas e oleodutos.

Syam Chand , pesquisador em química e professor associado do University College, disse que as descobertas permitiriam que o herbicida fosse facilmente detectado.

“O estudo é significativo e pode beneficiar o meio ambiente ao detectar substâncias que causam poluição”, disse ele.

Daphika S Dkhar e Rohini Kumari, co-autores do estudo, disseram que o nanohíbrido foi considerado altamente catalítico e eficiente em facilitar a eletro-oxidação ou neutralização do picloram.

“No futuro, o novo sistema pode ser implantado para testes de campo, uma vez que o alcance de detecção cai abaixo do limite permitido”, disseram os autores.

Contaminação por herbicida

Anoop Kuttiyil , pesquisador em fitopatologia e professor assistente no Zamorin’s Guruvayurappan College, diz que o picloram é tóxico para os seres vivos mesmo em baixas doses de exposição e tem o potencial de contaminar a superfície, bem como os suprimentos de água subterrânea.

“Os resíduos de herbicida no solo têm um impacto significativo na colheita, na saúde humana e animal, bem como na qualidade da água e do solo”, disse Kuttiyil ao SciDev.Net .

“Os herbicidas usados ​​na agricultura moderna, juntamente com o manejo inadequado, são as principais fontes de contaminação por herbicidas”, acrescentou Kuttiyil.

“Muitos herbicidas estão ligados ao risco de genotoxicidade (danos aos genes), citotoxicidade (danos às células), toxicidade no desenvolvimento e na reprodução. A bioampliação (concentração anormal) desses produtos químicos é uma grande ameaça tanto para alvos quanto para não alvos.”

Pranjal Chandra disse que o novo sistema de sensores está actualmente em fase de protótipo com o objectivo de eventualmente o produzir e distribuir à escala industrial.

Os pesquisadores dizem que o sensor é versátil e pode ser usado em outras amostras de culturas, não apenas no arroz.

“A ampla aplicabilidade permite a avaliação e monitoramento em diferentes condições ambientais e cenários agrícolas”, diz o estudo.

Segundo os pesquisadores, a capacidade de estender a análise do sensor a várias amostras reais abre um leque de possibilidades para sua implementação em diferentes campos, incluindo monitoramento ambiental , agricultura e gestão de recursos hídricos.

Ao fornecer dados precisos para essas aplicações, o sensor pode contribuir para a tomada de decisões informadas e práticas sustentáveis ​​em vários setores, disseram eles.

De acordo com  a Market Watch , prevê-se que o mercado global de picloram cresça a uma taxa considerável ao longo desta década.


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Este artigo foi produzido pela área de Ásia e Pacífico da SciDev.Net e foi publicado [Aqui!].

Maior concessionária de água da Inglaterra está ameaçada de falência

O maior fornecedor de água da Inglaterra está ameaçado de falência devido a uma dívida de cerca de 14 bilhões de libras esterlinas. Agora, o estado pode ter que intervir e assumir o controle de “Thames Water” pelo menos temporariamente.

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Em vez de investir na melhoria dos serviços, a Thames Water optou por pagar grandes dividendos. Agora, beira a falência e cria ameaça de necessidade de intervenção do Estado para impedir interrupção de serviços

Por Imke Koehler , ARD Londres

A Thames Water fornece água para 15 milhões de consumidores em Londres e outras partes do sudeste da Inglaterra – e está à beira da falência. A razão para isso é uma dívida de cerca de 14 bilhões de libras. A concessionária de água é de propriedade de um grupo de investidores formado por empresas de private equity e fundos de pensão. O maior acionista com quase 32% é um fundo de pensão canadense de Ontário.

O CEO da Thames Water renunciou na noite de terça-feira com efeito imediato. Isso veio inesperadamente e foi um estrondo. Desde então, as consequências da privatização da gestão da água voltaram a ser discutidas.

Em 1989, a indústria foi privatizada pela então primeira-ministra Margaret Thatcher. No entanto, as sociedades anônimas começaram sem dívidas. Hoje, a “Thames Water” está sentada sobre uma enorme montanha de dívidas e está lutando contra o aumento das taxas de juros e a alta inflação.

Privatização levou a preços mais altos para o consumidor

“O que aconteceu é absolutamente escandaloso. Grandes dividendos foram pagos, enormes dívidas foram contraídas, as contas dos clientes aumentaram acentuadamente e o esgoto bruto está sendo despejado nos rios”, disse o parlamentar trabalhista Ed Miliband, que é membro do líder da oposição Armário-sombra de Keir Starmer. Agora o governo deve explicar como pretende consertar isso.

O lançamento de esgoto sem tratamento em lagos, rios e mar é motivo de protestos na ilha há anos. Quanto às contas do consumidor, um estudo de 2015 do National Audit Office concluiu que os britânicos tiveram que pagar significativamente mais por água e saneamento desde que o setor de água foi privatizado em 1989. Assim, o aumento até 2015, ajustado pela inflação, foi de 40%.

Demanda por regulamentação mais rígida

Miliband não está sozinho em sua raiva. Pagar dividendos era mais importante para a “Thames Water” do que investir no sistema de gasodutos, dizem os críticos. Os proprietários e gerentes tiraram tudo o que puderam da empresa e acumularam dívidas ao mesmo tempo. 

“Mais uma vez nos encontramos em uma situação em que nos dizem que os clientes, os contribuintes, devem pagar a conta pela má conduta corporativa”, disse Darren Jones, líder do Comitê de Assuntos Econômicos da Câmara dos Comuns – e provavelmente também pela má regulamentação. “

Agora o estado pode ter que intervir e assumir o fornecimento de água, pelo menos temporariamente. Jones defende veementemente uma regulamentação mais rígida para evitar desenvolvimentos como o caso “Thames Water” no futuro.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo Tageschau [Aqui!].

Proposta de proibição de exportação de agrotóxicos pela Alemanha possui muitas brechas

As exportações de agrotóxicos que não são aprovados na Europa devem ser amplamente evitadas – diz a promessa. No entanto, um projeto de lei inédito do Ministério da Agricultura, que está à disposição do Monitor , permite muitas exceções.

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Por Elke Brandstätter e Andreas Maus, WDR

Fala-se muito em “padrões duplos” quando se trata da exportação de agrotóxicos altamente tóxicos da Alemanha e da Europa. Especialmente com substâncias que não são aprovadas na Europa, mas ainda podem ser exportadas – mesmo por grandes empresas alemãs como Bayer, BASF ou Alzchem. Nos próprios países afetados, isso causa indignação.

Maria Elena Rozas, da rede chilena de ação contra pesticidas RAP, vê “uma ameaça à diversidade biológica e uma violação dos direitos humanos, especialmente dos grupos mais vulneráveis ​​da população, ou seja, crianças que vivem perto de plantações agrícolas e trabalhadores agrícolas”.

Anualmente cerca de 385 milhões de intoxicações

Segundo um estudo de 2020, há cerca de 385 milhões de casos de envenenamento e cerca de 11.000 mortes todos os anos devido ao uso de agrotóxicos tóxicos. “Essa é uma boa razão para garantir que os mesmos agrotóxicos que causam essas intoxicações desapareçam do mercado e, como primeiro passo, não possam mais ser exportados da Europa e da Alemanha”, diz Peter Clausing, coautor do estudo e toxicologista da Rede de Ação de Pesticidas PAN.

Isso é exatamente o que a coalizão governista havia prometido. O acordo de coalizão afirma: “Faremos uso das opções legais para proibir a exportação de certos agrotóxicos que não são permitidos na UE por razões de proteção à saúde humana”.

O ministro da Agricultura, Cem Özdemir, reiterou: “Não é aceitável que continuemos a produzir e exportar agrotóxicos que banimos com razão aqui para a saúde das pessoas”, disse ele no ano passado.

Regulamento de proibição com lacunas

A revista ARD Monitor tem agora um projeto de regulamento com o qual a anunciada proibição de exportação deve ser implementada. Na verdade, uma proibição limitada de exportação deverá acontecer. A base para isso é uma lista de 180 agrotóxicos que são proibidos na UE.

Uma lista em que estão faltando importantes substâncias nocivas, dizem os críticos. Estes incluem imidaclopride, que provavelmente também é reprodutivamente perigoso e conhecido por sua toxicidade para abelhas e outros insetos polinizadores. Ou Iprodione, um fungicida que interfere no sistema hormonal humano.

O toxicologista Clausing, a quem o Monitor enviou a lista para revisão, vê grandes lacunas. Se compararmos a lista com as substâncias cujo uso é proibido na própria UE, faltam muitas substâncias, afirma: “Com base nisso, cerca de 30% das substâncias tóxicas agudas, um 30% das substâncias mutagênicas, 25% das substâncias cancerígenas e faltam 20% substâncias tóxicas para a reprodução, ou seja, substâncias perigosas para a reprodução. E não consigo entender por que essas substâncias não estão incluídas na lista”, diz o especialista.

Proibição de exportação apenas para produtos acabados

Os críticos veem um problema ainda mais fundamental no fato de que o regulamento apenas impede a exportação de produtos fitofarmacêuticos formulados que contenham as substâncias nocivas da lista. Isso significa que a própria substância básica tóxica (o produto técnico) pode ser exportada.

E a exportação de substâncias altamente tóxicas e nocivas ao meio ambiente não deve ser proibida de forma alguma – com algumas exceções – seja como substância básica ou na forma de produtos acabados. O regulamento, portanto, oferece a empresas como Bayer, BASF, Syngenta e Alzchem enormes brechas para continuar exportando as matérias-primas para agrotóxicoss da Alemanha, diz Laurent Gaberell, da Public Eye. “Os produtos formulados são simplesmente fabricados fora da Alemanha ou da UE”.

Mas por que a exportação de substâncias básicas também não é proibida com a portaria? Em resposta a um pedido do Monitor , o ministério escreveu que uma revisão legal anterior havia mostrado “que os objetivos do acordo de coalizão para proibir a exportação de certos produtos fitofarmacêuticos podem ser implementados com uma portaria baseada na Lei de Proteção Vegetal”.

Para uma proibição mais abrangente, o ministério deveria ter aprovado uma lei em vez de uma portaria. Mas a coalizão de semáforos não conseguiu chegar a um acordo sobre um regulamento mais abrangente, confirma o especialista em agrotóxicos do grupo parlamentar dos Verdes no Bundestag, Karl Bär. “Eu também gostaria de ver uma proibição de substâncias que também são prejudiciais ao meio ambiente. Mas o acordo de coalizão deixa muito claro que apenas as substâncias que são prejudiciais à saúde estão em jogo.”

Mas mesmo o rascunho atual está sendo questionado pelo FDP: “Agora espero que os parceiros da coalizão que não querem isso, e esse é o FDP, cheguem a uma conclusão rapidamente”, disse Baer em entrevista ao Monitor .

O grupo parlamentar do FDP justifica seu ceticismo com a preocupação de que “proibições generalizadas de exportação” possam levar à realocação da produção para países fora da UE. Isso não beneficia nem os usuários nem o meio ambiente. Fabricantes e associações agroquímicas argumentam de maneira muito semelhante.

Cornelia Möhring, membro do Bundestag para o Partido de Esquerda, critica duramente o projeto de regulamento atual: “Com este regulamento de borracha furada, com o qual as empresas químicas podem continuar a produzir agrotóxicos nocivos no exterior e trazê-los para os campos, o Ministério de Özdemir fica muito aquém das próprias reivindicações dos Verdes, que eles mesmos apresentaram como oposição no Bundestag”. Möhring pede “uma proibição abrangente de exportação para que os padrões duplos cínicos acabem de uma vez por todas”.

As exportações de agrotóxicos aumentaram significativamente

De fato, a Alemanha é um país exportador de agrotóxicos. As organizações não-governamentais “Public Eye” e “Unearthed” já investigaram até que ponto materiais perigosos são liberados daqui para o mundo inteiro, puros ou em agrotóxicos. Os resultados são exclusivos do Monitor . 1.500 documentos de exportação foram avaliados como parte de uma pesquisa oficial em larga escala. As empresas devem apresentá-los se quiserem exportar substâncias perigosas que não são permitidas na UE.

Um total de 28 substâncias proibidas na UE foram registradas para exportação da Alemanha no ano passado. Em 2021 ainda eram 9.280 toneladas de peso líquido de substância ativa, segundo o estudo em 2022 a quantidade quase dobrou para 18.360 toneladas.

Os fabricantes de agrotóxicos ocultaram seus próprios estudos das autoridades da União Europeia por muitos anos. Questionadas pelo Monitor , as empresas enfatizaram que todas as normas foram observadas. Uma proibição de exportação na Alemanha e na Europa também pode levar os ingredientes ativos correspondentes a serem “imediatamente substituídos por produtos chineses menos sustentáveis”.

As substâncias são aprovadas nos países destinatários e o uso seguro é possível se todas as medidas de proteção e normas de segurança forem observadas. Eles levam a responsabilidade social muito a sério e também oferecem treinamento e conselhos abrangentes sobre como usar os produtos com segurança.


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Este artigo escrito originalmente em alemão foi publicado originalmente pela Tageschau [Aqui!].

Uma em cada dez espécies de árvores do Parque Estadual Nascentes do Paranapanema está em risco de extinção

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Foto: Rafaela Valeck/Arquivo Pesquisador

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Apesar da vegetação de Mata Atlântica do Parque Estadual Nascentes do Paranapanema estar em excelente estado de conservação, 10% de suas espécies de árvores estão ameaçadas de extinção. Cientistas do Instituto de Pesquisas Ambientais do Estado de São Paulo (antigo Instituto Florestal) chegaram a esse diagnóstico ao catalogar 204 espécies vegetais predominantemente arbóreo-arbustivas Serra de Paranapiacaba, em Capão Bonito, na região do Alto Vale, no interior de São Paulo. Os resultados dessa catalogação estão descritos em artigo publicado na sexta (30) na “Revista do Instituto Florestal”.

O estudo foi realizado de janeiro a abril de 2012 — ano em que o parque, que tem mais de 22 mil hectares, foi criado para garantir a preservação da região. As análises das espécies de árvores coletadas foram feitas no Herbário Dom Bento José Pickel. Das 21 espécies ameaçadas de extinção, em nível estadual, nacional ou global, destaca-se o carvalho brasileiro Euplassa cantareirae, espécie classificada como extinta para São Paulo e em perigo para o Brasil. “A quantidade de espécies ameaçadas de extinção para o estado de São Paulo, Brasil ou mundialmente mostra a qualidade do ambiente e da floresta presente no parque”, aponta Frederico Arzolla, um dos autores do artigo. A Mata Atlântica é um dos biomas mais ameaçados do planeta, restando apenas 12,4% da cobertura vegetal original no país, aponta a pesquisa.

Na área do Parque Estadual Nascentes do Paranapanema, quase 80% do território é formado por Floresta Ombrófila Densa, que ocorre principalmente na região litorânea paulista. “Nessa formação as espécies são perenifólias, pois há água em abundância para as plantas”., afirma Arzolla. Para os pesquisadores, à medida que forem realizados estudos futuros na região, envolvendo outros hábitos de plantas, a flora do parque pode alcançar mais de 600 espécies.

A área também apresenta mais de 1 mil nascentes de rios bem preservadas. Manter a conservação do local ajuda a reduzir o efeito de borda, ou seja, diminui as mudanças que acontecem em áreas de floresta próximas de regiões desmatadas. Além das espécies vegetais, o Parque Estadual Nascentes do Paranapanema é casa de espécies de animais ameaçadas de extinção, como as onças-pintadas.

De acordo com os cientistas, a área do parque se mantém bem conservada porque é de difícil acesso. “Existem várias atividades econômicas nessa região, como pecuária, agricultura e mineração, então foi uma descoberta positiva”, avalia Claudio Moura, também autor do artigo.

O Parque Estadual Nascentes do Paranapanema é aberto à visitação do público, mas é considerado de suma importância para cientistas que pesquisam diversos aspectos da Mata Atlântica e para mitigar efeitos das mudanças climáticas. “Criar unidades de conservação deveria ser uma atividade mais frequente”, opina Moura.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

No XV Confict, estudantes da Uenf apresentam estudos que colocam em xeque a eficácia e a benignidade de agrotóxicos em relação à polinizadores

Estive hoje acompanhando um dos meus orientandos na apresentação do seu trabalho de Iniciação Científica no âmbito XV Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica (CONFICT). E como é comum nessas ocasiões, aproveitei para ver o que outros estudantes da Uenf estão fazendo em suas pesquisas.  A minha caminhada pelas centenas de posters foi interrompida quando me defrontei com três trabalhos orientados pelo professor Gerson Adriano Silva, do Laboratório de Entomologia e Fitopatologia (LEF) do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuária.

O que me despertou o interesse, já que acompanho a matéria há mais de 20 anos, foi a avaliação realizada pelos orientador do professor Gerson Adriano Silva de 7 agrotóxicos quanto à sua eficiência para remover infestações, a dose letal necessária para uma dada praga, e ainda os impactos sobre a abelha cachorro, um importante polinizador para várias culturas. 

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No caso dos efeitos dos inseticidas Clorfenapir (proibido na União Europeia, Lambda Cialotrina e Metomil (proibido na União Europeia), a principal descoberta se refere ao fato de que a exposição das abelhas cachorro  (T. spinipes) a  esses agrotóxicos impacta a capacidade de voo delas.  O resultado é que as abelhas tendem a demorar mais tempo para retornar para as colmeias, com impactos diretos na sustentação das mesmas. Na conversa com o estudante que realizou a pesquisa, ele me informou que a abelha cachorro é um importante polinizador justamente para as culturas nas quais os inseticidas são aplicados.

O segundo experimento fez uma avaliação de efetividade do inseticida organofosforado Malationa contra a lagarta do inseto Plutella xylostella (ou a traça das crucíferas), um inseto da microlepidópteros, que causa prejuízos consideráveis nas culturas da couve, couve-flor e repolho, penetram na epiderme da folha e causam a destruição da mesma.  O Plutella xylostella ocorre nas culturas da alface, beterraba, brócolis, chicória, entre outras. Neste caso, o problema é que a dose letal (DL) determinada foi 74 vezes maior do que a dose recomendada, tornando o uso desse agrotóxico de nenhuma utilidade para a erradição de infestações de Plutella xylostella. Em outras palavras, qualquer uso da malationa para a traça das crucíferas é basicamente um desperdício de dinheiro.

O terceiro experimento se referiu à avaliação dz eficácia de 3 agrotóxicos (2 de controle biológico e outro o Lambda Cialotrina) contra a Spodotera frugiperda (conhecida como lagarta do cartucho) que é especialmente prejudicial em plantios de milho. Aqui a “surpresa” é que o Lambda Cialotrina apresentou uma eficácia quase 5 vezes menor do que a bioinseticida Tracer, enquanto o bioinseticida Dipel teve uma eficácia ainda menor do que a do Lambda Cialotrina. O problema aqui é a diferença de custo entre o Tracer e o Lambda Cialotrina é de 7 por 1.  Com isso, os agricultores podem estar comprando e aplicando mais doses de Lambda Cialotrina para aumentar a taxa de letalidade do inseto alvo, levando junto outros insetos, inclusive insetos não alvo, incluindo polinizadores.

Pessoalmente considero essas pesquisas de muita importância e fico feliz que estudantes de Agronomia as estejam realizando este tipo de pesquisa, na medida em que seus resultados poderão impactar diretamente as práticas agrícolas para as quais eles estão sendo treinados para organizar e avaliar.