Clã Bolsonaro e o Bolsa Família: como a família do presidente mudou de discurso em troca de votos

Presidente que determinou aumento no Auxílio Brasil pouco antes das eleições, já defendeu que assistencialismo seria compra de votos

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Por Lucas Maia para a Agência Tatu

O presidente da República Jair Bolsonaro (PL) discursou na cidade de Garanhuns, em Pernambuco, no dia 17 de setembro, para lembrar que o programa Bolsa Família já não existe e defender o Auxílio Brasil, lançado por seu governo durante a pandemia da Covid-19 e que foi ampliado dois meses antes das eleições gerais no Brasil.

No entanto, a relação de Jair Bolsonaro e seus filhos políticos com os programas sociais de transferência de renda nem sempre foi positiva. Os dados, analisados pela Agência Tatu, foram extraídos das redes sociais do Clã Bolsonaro (formado por Jair, Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro) pela plataforma METAMEMO e apontam a mudança nos discursos.

Ataques ao Bolsa Família 

O primeiro dos 216 registros de menção ao programa social identificados pela plataforma  METAMEMO nas redes sociais ocorreu em 2014, quando Jair Bolsonaro utilizou uma reportagem do jornal Estado de S. Paulo para criticar o governo do PT. Na postagem, o então deputado federal vinculava o Bolsa Família a supostos ‘kit gay’ e ‘bolsa crack’.

“Kit-gay, bolsa família, auxílio-reclusão, bolsa crack… o eleitorado do PT cresce e o trabalhador de verdade é taxado e tachado”, publicou Bolsonaro, junto a uma reportagem que falava de um programa paulista para fornecer tratamento a usuários de drogas.

Até 2017, a família presidencial seguiu tecendo críticas ao programa. Em março de 2014, Carlos Bolsonaro, hoje conhecido por ser o estrategista digital da família, dava publicidade a sua atuação como vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. “O único a votar contra a criação do Bolsa Família municipal”, afirmou.

O comentário mais ideológico a respeito do programa apareceu em maio daquele mesmo ano, quando Jair afirmou que um dos principais propósitos seria a compra de votos.

“São inúmeros os absurdos que envolvem esse programa social, a começar por seus principais propósitos: a compra do voto, o controle dos mais fracos e o disfarce do alto índice de desemprego. Uma prova dessa estratégia foi o aumento de 10% no Bolsa Família anunciado recentemente por Dilma Rousseff, tentando claramente reverter sua queda nas principais pesquisas de intenção de voto para presidente”, declarou na época.

Em 2017, o discurso a respeito do Bolsa Família começou a mudar. Mas, antes disso, Bolsonaro e seus filhos políticos ainda fizeram outras declarações negativas a respeito do programa, como quando houve a desfiliação de Jair do Partido Progressista, legenda em que permaneceu 11 anos.

“Durante a convenção nacional do Partido Progressista solicitei minha desfiliação sem perda do mandato. O Brasil é muito mais que “Bolsa Família e Pronatec”, temas preponderantes dos candidatos por ocasião das eleições de 2014. Pretendo estar em um partido onde, de acordo com a vontade de vocês, poderei disputar ou colaborar com propostas que verdadeiramente possam fazer do Brasil um país reconhecido no cenário mundial”, disse.

Modulação do discurso 

A partir de 2017, o discurso do clã Bolsonaro começa pouco a pouco a ser modulado para reduzir os ataques ao programa assistencial. “A crítica não é para o Bolsa Família, a crítica é para as fraudes, pois o programa se tornou eleitoreiro”, diz Eduardo Bolsonaro na primeira postagem da família Bolsonaro naquele ano.

As poucas menções ao programa seguem menos críticas até junho de 2018, quando Eduardo Bolsonaro republica um vídeo do apresentador alagoano Sikêra Jr. “[…]se dá Bolsa Família, que é uma prévia de compra de voto antecipadamente, todo mundo sabe disso. Se você for no Nordeste, ninguém quer emprego, quer Bolsa Família. A compra de votos sempre existiu, mas agora é oficial”, argumenta o apresentador durante entrevista à Jovem Pan.

Os dados da plataforma METAMEMO mostram que entre abril de 2015 e outubro de 2018 todas as menções ao Bolsa Família foram feitas pelos filhos de Jair. O então presidenciável usa as suas redes para voltar a falar do programa apenas em 9 de outubro de 2018, dois dias após o primeiro turno das eleições. “O PT é o partido da demagogia! Manteremos o Bolsa Família e combateremos as fraudes para possibilitar o aumento para quem realmente precisa, como dito várias vezes”, afirmou.

Essa foi a primeira vez que Jair Bolsonaro disse em suas redes sociais que fortaleceria o programa.

De acordo com o cientista político Ranulfo Paranhos, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), defender a manutenção e até a ampliação do programa foi uma decisão puramente eleitoral.

“Essa mudança no discurso, que se percebe a partir de 2017, com efeitos em 2018 e que se repete agora em 2022, está diretamente relacionada à estratégia de campanha. Não tem como um candidato à vaga de presidente da república sustentar um discurso contrário ao auxílio aos mais necessitados”, explica.

Ainda segundo Paranhos, esta modulação no discurso está diretamente relacionada à intenção de conquistar votos de uma parcela relevante do eleitorado brasileiro.

Assistência social como estratégia eleitoral

Durante a campanha para o segundo turno das eleições de 2018, a família Bolsonaro inicia uma nova promessa: o 13º do Bolsa Família. O argumento mais presente nas postagens é de que existiriam fraudes no programa e o encerramento dessas fraudes permitiria o pagamento de uma parcela extra do benefício. Esse discurso persiste até a aprovação e início dos pagamentos da parcela adicional.

A partir de então, se tornam muito mais frequentes as comparações com os governos petistas e se inicia uma disputa tanto do número de beneficiários, quanto dos valores destinados ao programa em cada governo. Estes comparativos só se tornam mais fortes com a pandemia do coronavírus.

A partir do aumento de gastos com assistência social, a família Bolsonaro começa a propagandear o aumento nos valores e número de beneficiários tanto do Bolsa Família quanto de outros programas sociais, o que se intensifica ainda mais com a criação do Auxílio Brasil. Com isso, em março de 2022, Jair Bolsonaro fez uma publicação em sua conta no Instagram onde defende os programas de assistência social de seu governo.

“Graças ao maior programa assistencial que o mundo já viu, milhões de brasileiros não passaram fome. R$ 355 bilhões pagos diretamente a mais de 68 milhões de pessoas; Se considerarmos que cada pagamento beneficiou ao menos mais uma pessoa, podemos dizer que mais da metade dos brasileiros foram beneficiados pelo auxílio; Em 2020, o valor disponibilizado foi equivalente a 15 anos de bolsa família”, afirma a publicação do presidente, o que gerou, inclusive, diversas manifestações contrárias de seus seguidores na plataforma.

Para o cientista político Ranulfo Paranhos, a modulação do discurso se dá em um contexto onde o presidente da república sabe que a única forma de tentar conquistar votos do estrato social mais pobre da população brasileira é apoiando programas de transferência de renda. “Mesmo modulando o discurso e garantindo que o programa seja mantido e até aumentando o valor, ele não tem conseguido conquistar a parcela do voto desse eleitorado”, pondera.

Ainda de acordo com Ranulfo, estudos estatísticos revelam uma correlação entre votos para governos petistas e regiões com maior número de beneficiários de programas sociais. Pesquisas eleitorais mais recentes revelam, no entanto, que o aumento do Auxílio Brasil por Bolsonaro não se reflete em votos para o candidato a reeleição.

“Na prática, as pessoas reconhecem a política pública e votam naquele que criou a política pública. Nesse caso o PT vai levar a maioria dos votos. E ainda que o presidente chame isso de compra de votos, esse não é o caso”, conclui.

O outro lado

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República foi procurada para comentar as postagens, mas até o fechamento desta reportagem não houve qualquer resposta. O espaço segue aberto.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Tatu [Aqui!].

Meio ambiente: especialistas analisam programas dos candidatos à Presidência da República

Os pesquisadores Reuber Brandão e Philip Fearnside, da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, avaliam propostas de Lula, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e Simone Tebet

unnamed (3)Reserva Natural Serra do Tombador, em Cavalcante (GO), mantida pela Fundação Grupo Boticário. / Foto André Dib

Os quatro candidatos que aparecem nas primeiras colocações das pesquisas eleitorais sobre a corrida presidencial dedicam espaço considerável para a agenda ambiental em seus planos de governo. Seja por convicção sobre a importância de proteger o patrimônio natural brasileiro, seja por um cálculo eleitoral que percebe a relevância do tema para a geopolítica e o comércio internacional, as propostas trazem inovações, mas também deixam de lado temas importantes, como o fortalecimento das Unidades de Conservação. Pesquisadores da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) avaliaram as principais propostas dos candidatos Jair Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (PMDB).

“O programa da candidata Simone Tebet parece ter maior planejamento das ações. Prevê, inclusive, a criação de uma secretaria para tratar da questão climática. O programa do candidato Lula também dedica espaço considerável para a questão ambiental, sempre reforçando que irá mudar as políticas do atual governo, em especial o negacionismo científico, climático e reverter o enfraquecimento das instituições de fiscalização e controle”, observa Reuber Brandão, membro da RECN e professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília (UnB).

O professor considera que a questão ambiental também ocupa amplo espaço no plano de governo de Bolsonaro. “No entanto, a despeito das muitas linhas dedicadas ao tema, traz ideias focadas em uma percepção anacrônica da questão ambiental, repetindo que o problema da Amazônia é de soberania. O programa ambiental é repleto de lugares comuns, com diversas platitudes e a recorrente lógica de que a questão ambiental é subalterna da agricultura, sem explorar o papel da ciência no desenvolvimento da conservação, na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e no desenvolvimento conjunto da atividade agrícola”, afirma Brandão.

O programa de Lula traz proposta de ampliar o mercado de trabalho utilizando a recuperação de áreas degradadas, enquanto o programa do atual presidente dedica atenção à justiça ambiental, o que é interessante, na visão de Brandão. “No entanto, nenhum dos programas dos quatro principais candidatos cita a criação de Unidades de Conservação como políticas ambientais importantes, o que é extremamente preocupante. Vale lembrar que a manutenção de áreas naturais é fundamental para a preservação da biodiversidade, além de sua importância para pesquisas científicas, educação ambiental, turismo sustentável, entre outras possibilidades”, reflete Brandão.

Na questão indígena, o pesquisador observa que o plano do candidato Bolsonaro, que busca a reeleição, foca na exploração econômica das terras indígenas, especialmente com turismo e venda de produtos, sem uma clara política de proteção desses grupos, de suas terras e de suas culturas.

Brandão classifica como pobre o programa ambiental do candidato Ciro Gomes. “O documento não tem propostas claras e sequer cita os biomas do Brasil. Sempre se refere à questão ambiental como a proteção florestal, em um país que possui diversos ecossistemas não florestais”, avalia.

O pesquisador avalia como positivas nas propostas de Tebet e Lula a ênfase na ciência como processo essencial à independência econômica, uso da biodiversidade e promoção da conservação. “O plano do Lula ainda ressalta com maior ênfase o papel de grupos minoritários e populações tradicionais no desafio da transição energética, ecológica e produtiva do país, com ampliação de experimentos de agroflorestas”, realça.

Amazônia

Um dos maiores especialistas em mudanças climáticas no mundo, Philip Martin Fearnside, membro da RECN e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ressalta que os dois candidatos que lideram as pesquisas – Lula e Bolsonaro – têm programas e históricos contrastantes com relação ao meio ambiente na Amazônia. O pesquisador entende que Bolsonaro considera as preocupações ambientais como impedimentos à exploração das riquezas da região amazônica e, por isso, aposta que o atual presidente pretende continuar as suas políticas que enfraqueceram o controle ambiental. Ele também vê pontos positivos e negativos no programa dos outros candidatos.

Na visão de Fearnside, Lula apresenta uma interpretação mais adequada sobre a importância do meio ambiente, especialmente ao destacar a necessidade de reconstruir os órgãos ambientais que têm sido desmontados desde o início do atual governo, como Ibama, ICMBio e Funai. “Ele também promete defender terras indígenas e retirar garimpeiros. Mesmo com estes sinais positivos, há áreas que precisarão de cuidado em um eventual governo Lula. A questão das hidrelétricas na Amazônia, por exemplo, tem enormes consequências em potencial, e o histórico dos governos PT na construção de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte é preocupante. O Lula tem falado que faria Belo Monte de novo e que a população local foi beneficiada devido aos gastos do projeto na parte social”, analisa.

O pesquisador também chama a atenção para outro projeto polêmico para a região: a construção da rodovia BR-319, que pretende ligar Manaus (AM) a Porto Velho (RO). Em conjunto com estradas laterais planejadas, essa grande rodovia abriria uma enorme área de floresta amazônica à entrada de desmatadores a partir de uma espécie de arco do desmatamento. “Infelizmente, além do custo astronômico de um programa de governança na escala necessária, as chances são mínimas de realmente alcançar essa transformação desejada na vasta área a ser impactada, especialmente dentro do prazo de um mandato presidencial”, avalia.

O membro da RECN, que pesquisa a Amazônia há mais de 40 anos, ressalta que Ciro Gomes e Simone Tebet têm tomado posições semelhantes à de Lula com relação à BR-319, colocando o avanço das obras como desejável, mediante uma boa governança. “Portanto, seria importante ficar atento a como evoluirão as políticas ambientais durante o próximo governo, independentemente de quem vencer as eleições”, finaliza Fearnside.

Sobre a Rede de Especialistas

A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes em www.fundacaogrupoboticario.org.br

Jovens da região amazônica lutam por direitos e representatividade da população local

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Apesar das notícias negativas e recordes de desmatamento, queimadas e violência contra os povos tradicionais, um sopro de esperança tem vindo da região amazônica. Atualmente, apesar de todas as dificuldades encontradas, dez grupos de jovens têm insistido em trabalhar junto à população de suas localidades, combatendo e chamando a atenção do poder público para problemas que se repetem há anos sem qualquer tipo de solução.

Esses jovens são do Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas e foram recentemente selecionados pelo programa IARA – Inovação e Aceleração na Região Amazônica, desenvolvido pela agência Purpose, para que pudessem levar sua luta adiante durante o período eleitoral. O IARA foi criado para fortalecer coletivos e organizações ativistas locais, permitindo que tirem seus projetos do papel e mobilizem suas comunidades a conquistar as mudanças necessárias para um desenvolvimento mais sustentável.

O objetivo do trabalho neste momento é chamar a atenção para a relação entre o voto e a solução dos problemas da região, como enchentes frequentes quando o rio sobe, falta de representatividade política de jovens das periferias, infraestrutura deficitária para a educação e falta de energia elétrica na região, que sofre com apagões frequentes.

“Colocamos nossas experiências e estruturas à disposição dos grupos para apoiá-los na construção de soluções inovadoras para os desafios que suas comunidades enfrentam”, explica Ana Clara Toledo, da Purpose. A região amazônica foi eleita como a primeira a receber esse programa de aceleração do laboratório de clima da Purpose por exercer um papel central em relação aos desafios que teremos diante da emergência climática e seus desdobramentos econômicos e sociais.

“Apesar da importância da Amazônia para o planeta, debates e estratégias em busca de soluções para o bioma não incluem vozes locais e, portanto, não condizem com a realidade e os desafios que a região e seus cidadãos enfrentam”, explica Ana.”O programa foi criado justamente para potencializar os grupos que já atuam localmente, promovendo mudanças que impactem positivamente a população”, ressalta.

Conheça as propostas dos coletivos

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Amazonas – nessa região, a luta é para dar um basta às casas alagadas pelas enchentes que acontecem todos os anos. Por isso, o Instituto Capuaã criou a campanha “O Amazonas tá cheio”. Além desse projeto, outra reivindicação, desta vez do Coletivo Ponta de Lança, é dar voz às populações das comunidades e territórios periféricos, especialmente grupos indígenas, negros e afro-religiosos de Manaus. 

Amapá – Erosão e abandono foram os responsáveis pelo desmoronamento da Escola do Bosque, a única em um modelo sustentável na comunidade de Bailique, em Macapá. O coletivo Gira Mundo focou na reconstrução da escola, que atende 80% dos alunos de mais de 50 comunidades. O coletivo Utopia Negra Amapaense decidiu intensificar esforços para levar adiante o projeto “Acende a luz, Amapá”, para resolver os problemas constantes de falta de energia elétrica. Conheça a ação desses coletivos.

Pará – No caso dos jovens que atuam na região, a reivindicação é universalizar o acesso à informação de qualidade sobre política e meio ambiente. O coletivo Gueto Hub criou a campanha “Mó Climão” para formar uma rede de jovens ativistas pelo clima e meio ambiente na região. Já a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Santarém (AMTR) criou a campanha “Di Rocha: Tapajós sem Potoca!”. Potoca, na gíria local, é mentira. O objetivo do grupo de mulheres é combater as fake news que se espalham pela região, especialmente durante o período eleitoral. 

Maranhão e Tocantins nessas localidades, a campanha “Vote pelo MA . TO.”, criada pelo Coletivo Desenvolvimento e Juventude (Cdjuv), quer dar voz aos jovens periféricos na política pública e estimular a população a eleger candidatos comprometidos com os direitos humanos, a Amazônia e as mudanças climáticas. 

Bancos centrais do mundo estão financiando a destruição das florestas tropicais

Títulos corporativos destinados a injetar liquidez nos mercados lucraram com empresas envolvidas no desmatamento

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Títulos corporativos comprados por bancos centrais no Reino Unido, Estados Unidos e Estados membros da UE financiaram empresas envolvidas na destruição da Amazônia, pois cientistas relatam que o desmatamento pode ter passado do ponto de inflexão. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Por Andrew Downie  para o “The Guardian”

Alguns dos maiores bancos centrais do mundo estão ajudando a financiar gigantes do agronegócio envolvidos na destruição da Amazônia brasileira, de acordo com um relatório publicado na quarta-feira.

O Banco da Inglaterra, o Federal Reserve dos EUA e o Banco Central Europeu estão entre as instituições que compraram milhões de dólares em títulos emitidos por empresas ligadas ao desmatamento e à grilagem, segundo o relatório Bankrolling Destruction , publicado pelo grupo de direitos Global Testemunha.

“Como esses programas são garantidos pelos respectivos governos no Reino Unido, Estados Unidos e Estados-Membros da UE, isso significa que os contribuintes em todos esses territórios estão inadvertidamente subscrevendo empresas envolvidas na destruição da Amazônia e de outras florestas tropicais”, segundo o relatório.

Os bancos compram títulos corporativos emitidos por grandes empresas na tentativa de injetar liquidez nos mercados financeiros quando o setor privado está relutante em emprestar. Conhecidas como “programas de compra de ativos”, essas medidas visam reduzir o custo dos empréstimos para as empresas e foram amplamente utilizadas durante a pandemia como forma de fortalecer as economias.

Algumas das empresas que venderam títulos estão ligadas à destruição ambiental, diz o relatório, nomeando a Cargill, Inc., a Archer-Daniels-Midland Company (ADM) e a Bunge Ltd Financial Corp, três dos maiores conglomerados de agronegócios que operam no Brasil .

O Brasil é um dos maiores produtores ou exportadores mundiais de grãos, café, soja, frutas e outras matérias-primas, e as três empresas já enfrentaram acusações anteriores de irregularidades. O Guardian informou sobre as ligações entre a Cargill e a Bunge e uma fazenda brasileira que está ligada a abusos de direitos e terras indígenas.

Abordando as alegações do relatório da Global Witness, a Cargill disse que estava “comprometida em acabar com o desmatamento e a conversão em nossas cadeias de suprimentos agrícolas” e a Bunge afirmou que estava “comprometida em cumprir todas as regulamentações nos mercados local ou global e aderir às nossas próprias políticas socioambientais rígidas”. A ADM não respondeu aos pedidos de comentários.

Mas foram os bancos centrais que suportaram o peso das críticas. “Desde 2016, o Banco da Inglaterra também comprou uma ação não divulgada em um título corporativo de £ 150 milhões emitido pela Cargill, Inc., e o Banco Central Europeu comprou uma quantia não divulgada de dívida emitida pela Bunge Finance Europe BV”, diz o relatório. .

E apenas nos últimos dois anos “o Federal Reserve dos EUA comprou um total combinado de US$ 16 milhões em títulos emitidos pela Archer-Daniels-Midland Company (ADM) Bunge Ltd Financial Corp e Cargill, Inc.

“Tudo isso ocorre apesar das repetidas declarações públicas dos três bancos centrais enfatizando os riscos que as mudanças climáticas representam para a estabilidade financeira e o crescimento econômico de longo prazo.”

A Global Witness disse que o Federal Reserve “anulou” seu esquema de compra de títulos e o Banco da Inglaterra iniciaria o mesmo processo este mês.

O Fed disse que adotou a política como medida única em 2020 para salvar empregos durante a pandemia global e não tem planos de fazê-lo novamente.

O Banco da Inglaterra disse que tomou medidas para reduzir os custos de empréstimos para todas as empresas e destacar que o apoio dado à Cargill era “um foco extremamente estreito”.

O Banco Central Europeu, por sua vez, disse que “pretende descarbonizar gradualmente suas participações em títulos corporativos, em um caminho alinhado com os objetivos do Acordo de Paris. Para esse fim, o Eurosistema irá inclinar estas participações para emitentes com melhor desempenho climático através do reinvestimento dos resgates consideráveis ​​esperados nos próximos anos.”

No entanto, a Global Witness disse que a recusa dos bancos do Reino Unido e da UE em publicar os valores de suas participações nas empresas criou “uma falta de transparência”.

“Como supervisores do setor financeiro privado, os bancos centrais devem dar o exemplo e adotar uma política explícita de desmatamento zero como parte de sua abordagem às mudanças climáticas, incluindo o desinvestimento de todos os títulos vinculados ao desmatamento e maior escrutínio da ameaça à estabilidade financeira representada pelo desmatamento e perda de biodiversidade”, disse o relatório.

O relatório ocorre em meio à destruição contínua na região amazônica, uma vasta área que abrange partes de nove países sul-americanos diferentes e um sumidouro de carbono vital para absorver as emissões que impulsionam a crise climática.

O desmatamento sob o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro atingiu um recorde nos primeiros sete meses do ano, a última estatística chocante sob um presidente que fez vista grossa para os madeireiros ilegais, pecuaristas e mineradores ativos na região.

Já, 26% da Amazônia foi derrubada e algumas partes passaram do ponto de inflexão onde florestas anteriormente exuberantes se transformaram em savanas secas, de acordo com um relatório divulgado no início de setembro por cientistas e organizações indígenas.

“Acho que este relatório é uma análise muito útil que destaca a necessidade de os bancos centrais analisarem sua exposição ao desmatamento em seus portfólios”, disse Nick Robins, professor de financiamento sustentável da LSE.

“2022 é realmente o ano em que os bancos centrais reconheceram o risco da natureza como uma ameaça às instituições. O foco até agora tem sido no setor de energia, mas este é outro sinal de que o desmatamento e o uso da terra precisam ser colocados no centro dos cenários climáticos.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Balsas de garimpo ilegal voltam a bloquear o rio Madeira

A atividade predatória ocorre na altura da comunidade de Fortaleza do Bom Intento, município de Manicoré, estado do Amazonas

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Imagem de satélite PLANETº da comunidade de Fortaleza do Bom Intento (AM) analisada pelo Greenpeace Brasil na segunda-feira (26)

São Paulo, 28 de setembro de 2021 Imagens de satélite analisadas pelo Greenpeace Brasil na última segunda-feira (26) mostram uma nova concentração de balsas de garimpo ao longo do Rio Madeira, e confirmam as denúncias encaminhadas por moradores da região. Pelas imagens é possível identificar pelo menos 100 balsas ancoradas e minerando na região da comunidade de Fortaleza do Bom Intento, que em linha reta, fica a menos de 100 km da cidade de Manicoré.

A movimentação dessas balsas, há menos de uma semana das eleições no Brasil, comprovam que o garimpo ilegal segue avançando na região amazônica. Para o porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, Danicley de Aguiar: “mais uma vez a realidade se impõe e escancara a urgência de que o Estado brasileiro proponha uma estratégia de desenvolvimento regional capaz de superar o garimpo e garantir renda digna para as milhares de famílias que vivem em estado de vulnerabilidade social nas cidades e florestas da Amazônia”.

É preciso que sejamos capazes de construir arranjos produtivos que consigam conviver com a floresta e suprir mais do que as necessidades básicas dessas populações. Do contrário, só testemunharemos mais e mais amazônidas se lançando ao garimpo como estratégia de sobrevivência”, disse Aguiar.

Em dezembro de 2021, o Greenpeace Brasil alertou para a presença de centenas de balsas de garimpo ilegal na região de Autazes, também no Rio Madeira. Diante da enorme repercussão nacional do caso, a Polícia Federal foi mobilizada e acabou por dispersar o bloqueio produzido pelas balsas, inutilizando 131 balsas em duas operações realizadas em parceria com o Ibama.

A Amazônia brasileira está pegando fogo, enquanto Jair Bolsonaro e Lula indicam metas semelhantes

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Incêndio florestal perto de Brasília no dia 5 de setembro de 2022

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt” 

Na região amazônica brasileira, o número de incêndios florestais voltou a aumentar significativamente este ano. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento florestal, entre outros, registrou um total de 78.159 incêndios na Amazônia de 1º de janeiro a 20 de setembro deste ano. Isso é 52% a mais do que no mesmo período de 2021.

As principais organizações ambientais, como o World Wide Fund For Nature (WWF) e o Greenpeace, responsabilizam o atual presidente de direita do Brasil, Jair Bolsonaro. Os incêndios florestais são uma “tragédia anunciada”, disse o porta-voz brasileiro do Greenpeace, André Freitas, em comunicado na segunda-feira. Ele descreveu o mandato de quatro anos de Bolsonaro como um dos momentos mais sombrios para o meio ambiente.

No entanto, uma análise das estatísticas de incêndios florestais mantidas pelo INPE desde 1998 coloca em perspectiva as declarações dos ambientalistas. No ano eleitoral de 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores (PT) foi eleito presidente pela primeira vez, o número de incêndios na Amazônia subiu de 35.716 para 93.862 – um aumento de 162% em relação ao mesmo período ano passado. Nos anos que se seguiram, o número de incêndios florestais aumentou para 145.124 nos primeiros nove meses de 2005. Outro aumento significativo nos incêndios na Amazônia de 182% em relação ao mesmo período do ano passado foi registrado – novamente em ano eleitoral – em 2010, quando a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, concorreu ao PT. Naquela época, ocorreram 87.039 incêndios na floresta tropical.

Segundo reportagem publicada em agosto pela rede jornalística investigativa Amazônia Real , o asfaltamento da rodovia BR-319 na Amazônia é o principal responsável pelo aumento dos incêndios florestais nos primeiros meses deste ano. Isto é para ligar Porto Velho, no sudoeste da Amazônia, com Manaus, no estado do Amazonas. Em 28 de julho, o órgão ambiental brasileiro IBAMA concedeu aprovação provisória para o asfaltamento do trecho central ausente da via. O alvará de construção aprovado pelo governo em Brasília é, segundo a Amazônia Real, obviamente também motivado pela política eleitoral. No entanto, tanto Bolsonaro quanto seu adversário Lula apoiam a conclusão da estrada federal, que cortará um dos últimos grandes blocos de floresta tropical intacta no coração da Amazônia, que foi rejeitada por conservacionistas e cientistas que pesquisam as florestas amazônicas.

No entanto, em seu programa para as próximas eleições presidenciais de 2 de outubro, Lula promete combater a mineração ilegal, o corte e a queima e o desmatamento, além de uma melhor proteção da floresta amazônica. “Vamos combater o crime ambiental promovido por milícias, grileiros, madeireiros e organizações empresariais que desrespeitam a lei. Estamos comprometidos com a luta incansável contra o desmatamento ilegal e a promoção do desmatamento líquido zero. O Brasil tem “uma das maiores biodiversidades do planeta”.

Ao mesmo tempo, Lula promete em seu manifesto eleitoral reindustrializar o Brasil, promover o agronegócio e a indústria do petróleo, estimular as atividades de mineração e ampliar e modernizar a infraestrutura – especialmente a construção de estradas – “por meio de um programa enérgico de investimento público”. Como ele pretende quadrar o círculo não é encontrado na redação, o que dificilmente difere do programa eleitoral do presidente em exercício em ambos os aspectos.

Jair Bolsonaro também afirma que irá “tomar medidas decisivas e enérgicas contra crimes ambientais”, combater incêndios florestais e desmatamento ilegal, ao mesmo tempo em que deseja expandir a infraestrutura e promover a indústria. De acordo com seu programa eleitoral, outro governo sob seu comando “conciliará a proteção ambiental com o crescimento econômico justo e sustentável para todos”. O que se pode esperar das promessas apresentadas provavelmente só se tornará aparente quando o novo presidente tomar posse em janeiro de 2023.


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Este originalmente escrito em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Termelétricas da privatização da Eletrobras agravam problemas socioambientais do Brasil, alerta IEMA

Se contratadas no leilão do dia 30, vão emitir 5,2 milhões de toneladas de carbono e gerar poluentes do ar, desmatamento e estresse hídrico no Norte e Nordeste

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As novas usinas termelétricas a serem contratadas no próximo leilão de reserva de capacidade de energia (LRCE-2022), do dia 30 de setembro, devem emitir 5,2 milhões de toneladas de tCO2e ao ano associadas à entrada de 2 gigawatts (GW) na matriz elétrica brasileira a partir do fim de 2026. Esse valor equivale a quase 30% de tudo o que foi emitido por usinas termelétricas de serviço público a gás natural no país em 2020. O alerta está disponível no novo Boletim Leilão de Energia Elétrica divulgado hoje, dia 28 de setembro, pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). 

Esse leilão é diferente dos demais. É o primeiro realizado para cumprir a Lei 14.182/2021 que prevê a contratação de usinas termelétricas para início de operação entre 2026 e 2030. Apesar de versar sobre a privatização da Eletrobras, a versão final do texto conta com os chamados “jabutis” (alusão ao ditado “jabuti não sobe em árvore”) uma vez que determina a admissão de pelo menos 50% da demanda de leilões por Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e um total de 8 GW por termelétricas a gás natural para além da abertura de capital da empresa estatal. 

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Com exceção de projetos específicos, como a construção das hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, é a primeira vez em que as usinas devem ser contratadas em regiões pré-estabelecidas: até 1.000 MW na Região Norte, 300 MW no Maranhão e 700 MW no Piauí. Vale ressaltar que essas termelétricas serão ligadas em tempo integral, ao contrário do que fazia-se antigamente no Brasil, quando eram acionadas para poupar os reservatórios das hidrelétricas em tempos de crise hídrica ou em momentos de pico de demanda. A operação de termelétricas em tempo integral quebra essa regra e reduz o espaço de participação das demais fontes de energia. Lembrando que as energias renováveis, como solar e eólica, têm custo mais barato quando comparadas às termelétricas.

Além disso, esse leilão estipula um preço ainda maior comparado ao que foi contratado nos últimos realizados. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 37 empreendimentos se cadastraram, totalizando 11.889 MW que devem cumprir a exigência de ter um custo variável unitário (CVU) inferior ou igual a R$ 450,00/MWh. O valor anterior era de R$ 400/MW. Outra condição para os projetos participantes é sua localização em regiões sem estrutura de gasodutos e terminais de Gás Natural Liquefeito (GNL), necessários para abastecer as termelétricas.

A expansão de gasodutos totaliza uma extensão de 7.476 km, quase duplicando a malha atual do país. Caso essa infraestrutura seja totalmente implantada, demandará quase R$ 57 bilhões do orçamento, com impacto direto na alteração dos usos do solo e aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) desses projetos. Acrescenta-se o risco de tornar a matriz elétrica mais dependente de um combustível importado, como é o caso do GNL, sujeito a variações de preço internacional e indexado ao dólar. As consequências dessa escolha já foram sentidas na conta de luz em 2021.

Com contratos de 15 anos, até 2042 o IEMA calcula que as usinas contratadas no LRCE devem emitir 77,6 milhões de toneladas de CO2e na atmosfera: 38,8 milhões pela Região Norte; 27,2 pelo Piauí; e 11,6 pelo Maranhão. Ao todo, devem ser contratados segundo a Lei 14.182/2021 2,5 GW na Região Norte, 2,5 GW na Região Centro-Oeste, 2 GW na Região Sudeste e 1 GW na Região Nordeste que emitirão até 2045 310 milhões de toneladas de CO2e.

Por conta da queima de combustíveis, usinas termelétricas emitem gases e partículas que, em elevadas concentrações na atmosfera, têm efeitos negativos comprovados na saúde humana e no meio ambiente. Entre eles, destacam-se o material particulado (MP), o monóxido de carbono (CO), os óxidos de nitrogênio (NOx) e os óxidos de enxofre (SOx). Alguns desses poluentes participam de reações na atmosfera, dando origem a poluentes secundários como o ozônio troposférico (O3). A degradação da qualidade do ar tem sido associada ao agravamento de doenças respiratórias, cardiovasculares e neurológicas, bem como diferentes tipos de câncer. Porém, em nenhuma das áreas habilitadas para a contratação das usinas há estações de monitoramento da qualidade do ar em operação e que disponibilize para a sociedade as concentrações de poluentes aferidas.

O investimento em térmicas que estarão em operação no sistema até pelo menos 2042, além de representar custos adicionais de gasodutos em relação a outras opções energéticas menos custosas para o atendimento dos maiores centros de carga do país, estarão sendo comprometidos em uma fonte energética que tornará mais distante a necessária descarbonização da matriz elétrica brasileira, na contramão do cenário global de transição energética. 

Por fim, outro fator importante e preocupante é a dificuldade em encontrar informações técnicas e de licenciamento sobre as unidades geradoras participantes de forma fácil e acessível. Até o dia 22 de setembro de 2022, data de finalização do boletim, foi impossível encontrar informações sobre o licenciamento de sete das 33 unidades geradoras habilitadas para o leilão. Mesmo para aquelas em que o processo de licenciamento foi encontrado e consta a emissão de algum documento, apenas estão disponíveis para download as Licenças Ambientais de 13 unidades e para apenas 5 delas foi possível o acesso ao Estudo de Impacto Ambiental (EIA) dos empreendimentos a serem construídos. “A ausência de informações mais detalhadas sobre as tecnologias empregadas nos empreendimentos, sua localização e uso de água, entre outros dados, torna a avaliação dos impactos ambientais desafiadora e incompleta tanto por parte do poder público quanto por parte da sociedade civil”, ressalta Raissa Gomes, pesquisadora do IEMA.

Sobre o Boletim Leilão de Energia

Essa é a quarta publicação realizada pela organização sobre os leilões de energia elétrica. O objetivo é analisar as implicações dos projetos concorrentes em relação aos seus atributos ambientais como emissão de gases de efeito estufa (GEE), poluentes locais, uso de água, conformidade com requisitos de licenciamento e atendimento ao sistema elétrico para alertar a população e o poder público sobre os possíveis problemas. 

Nas eleições de 2022, o carrinho de supermercado vencerá as redes sociais

carrinho

Em meus poucos dias de férias que ocorreram em julho, tive um debate rápido com um típico eleitor do presidente Jair Bolsonaro. Após um rápido intercâmbio de ideias, aquele eleitor convicto me garantiu que as redes sociais (quer dizer os grupos de Whatsapp, Telegram e Tik Tok) iriam garantir a reeleição de Jair Bolsonaro, já que por eles o “povo” se manteria informado e definiria em quem votar.

Do alto da minha pouca sabedoria lembrei ao eleitor bolsonarista que esse ano as coisas seriam diferentes, pois a decisão sobre quem votar se daria com base nas idas ao supermercado nas quais os trabalhadores estavam sua capacidade de encher o carrinho cada vez mais menor, ainda que gastando até mais.

Foi o bastante para o meu interlocutor franzir a testa e eu me retirar do local onde a conversa ocorria, sob pena de enveredarmos para uma fase menos educada da conversa. É que sabemos que se há uma coisa que um bolsonarista típico mais detesta é se confrontar com a realidade da maioria, e não apenas dos grupos de convertidos que espalham ódio de forma escondida nos grupos formados nos aplicativos.

Para dificultar ainda mais, em 2023 não temos mais os procuradores e os juízes da “Lava Jato” operando para gerar distrações por meio de operações espetaculosas que, em sua maioria, acabaram sendo anuladas, apenas porque eram completamente eivadas de ilegalidades. Sem a “mãozinha” da Lava Jato e o fluxo livre de fake news, retornamos a uma situação em que a realidade do bolso e do estômago acabaram falando mais alto.

Isso quer dizer que as eleições já estão decididas? Longe disso, pois como já tentei demonstrar aqui neste espaço, o processo eleitoral brasileiro está longe de ser democrático e equilibrado. Entretanto, não viveremos um repeteco de 2018, ano que provavelmente será estudado pelos historiadores como algo muito atípico e que resultou de uma conjunção de forças e situações de difícil repetição.

Why Social Media Marketing Is Important For Businesses In Brazil? - The Rio  Times

E com isso, teremos a vitória do carrinho de supermercado sobre as redes sociais. E querem saber, esta talvez seja a melhor e mais bem vinda novidade destas eleições.

91,6% da área garimpada no Brasil ficam no bioma Amazônia

Apenas dois estados – Pará e Mato Grosso – concentram 91,9% do garimpo no Brasil. Avanço do garimpo sobre terras indígenas foi de 632% entre 2010 e 2021

destruição garimpo

A área de garimpo no Brasil dobrou em apenas uma década e confirmou a tendência de suplantar a mineração industrial. Segundo os mais recentes dados do MapBiomas, que identificou o total do território brasileiro ocupado por essas atividades desde 1985 até o ano passado, o garimpo passou de 99 mil hectares para 196 mil hectares entre 2010 e 2021. A mineração industrial, por sua vez, precisou de duas décadas para ver os 86 mil hectares de área ocupada em 2001 dobrarem para os 170 mil hectares registrados em 2021. Este é o terceiro ano consecutivo no qual mais território é ocupado pelo garimpo do que pela mineração industrial.

Essa expansão tem endereço certo — o Bioma Amazônico. “A série histórica mostra um crescimento ininterrupto do garimpo e um ritmo mais acentuado que a mineração industrial na última década, além de uma inequívoca tendência de concentração na Amazônia, onde se localizam 91,6% da área garimpada no Brasil em 2021”, explica Cesar Diniz, coordenador técnico do mapeamento. Na série histórica, o garimpo só suplantou a área ocupada pela mineração industrial no final do século passado, entre 1989 e 2000.

Dois estados específicos – Pará e Mato Grosso – respondem por 71,6% das áreas mineradas no país, ou seja, quando somamos a mineração industrial e a atividade garimpeira. Mas quando o garimpo é considerado isoladamente, o percentual sobe para 91,9%. São 113.777 hectares de garimpo no Pará e 59.624 hectares no Mato Grosso. Quatro dos cinco municípios brasileiros com maior área de garimpo ficam no Pará: Itaituba (57.215 hectares), Jacareacanga (15.265 hectares), São Félix do Xingu (8.126 hectares) e Ourilândia do Norte (7.642 hectares). Em terceiro lugar ficou Peixoto do Azevedo, no Mato Grosso, com 11.221 hectares.

A expansão garimpeira na Amazônia foi mais intensa em áreas protegidas, como territórios indígenas e Unidades de Conservação. Entre 2010 e 2021, as áreas de garimpo em terras indígenas cresceram 632%, ocupando quase 20 mil hectares no ano passado. A terra indígena mais explorada foi a Kayapó, na qual 11.542 hectares foram tomados pelo garimpo até 2021. Em seguida vem o território Munduruku, com 4.743 hectares, a terra Yanomami, com 1.556 hectares, a Tenharim do Igarapé Preto, com 1.044 hectares, e o território Apyterewa, com 172 hectares.

O garimpo cresceu 352% dentro de Unidades de Conservação entre 2010 e 2021. A série histórica mostra que a área ocupada até 2010 encontrava-se abaixo de 20 mil hectares. Em 2021, já eram quase 60 mil hectares. Desse total, quase dois terços ficam na APA do Tapajós, onde o garimpo já ocupa 43.266 hectares. Em segundo lugar vem a Flona do Amanã, com 5.400 hectares, seguida pela Flona do Crepori (1.686 hectares), a Parna do Rio Novo (1.637 hectares) e a Flona do Jamari (1.191 hectares).

]Diferenças entre garimpo e mineração industrial

Ao todo, a Amazônia concentrava 242.564 hectares de área minerada (ou seja, somando garimpo e mineração industrial) em 2021. No caso da Mata Atlântica, esse total é de 63.892 hectares; no Cerrado, 46.070 hectares. A liderança da Amazônia permanece quando analisamos somente o garimpo, com 179.913 hectares. O Cerrado assume o segundo lugar, com distantes 13.253 hectares; a Mata Atlântica, por sua vez, concentra 2.299 hectares.

No caso da mineração industrial, a situação é diferente. Há quase um equilíbrio entre a área ocupada na Amazônia (62.650 hectares) e na Mata Atlântica (61.593 hectares). Outros 32.817 hectares ficam no Cerrado. A diferença fica por conta de Minas Gerais, estado que lidera a modalidade industrial, com quase metade (46,9%) do total nacional, ou 61.181 hectares. Os outros estados com maior área de mineração industrial são Pará (42.216 hectares), Goiás (11.606 hectares), Amazonas (8.166 hectares) e Bahia (7.442 hectares). Juntos, Minas Gerais e Pará respondem por 79,2% da área de mineração industrial brasileira.

Mineração industrial e garimpo diferem também em relação às substâncias minerais exploradas. Enquanto a mineração industrial tem um foco mais diversificado (Fe, Al, Cu, Ni e outros) o garimpo é concentrado em poucas substâncias (Au e Sn): 83% da área ocupada por garimpo está relacionada à extração de ouro e 7% de estanho. No caso da mineração industrial, 22% da área é de mineração de ferro, 20% de alumínio e 12% de calcário.

Sobre MapBiomas

Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

Vazamento de dados mostra como a direita do Partido Trabalhista agiu para destruir Jeremy Corbyn e seus seguidores

Vazamento sem precedentes expõe o funcionamento interno do Partido Trabalhista do Reino Unido. Os documentos vazados, obtidos pela Al Jazeera, revelam como os funcionários do partido difamam e intimidam os rivais.

corbyn

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A Unidade Investigativa da Al Jazeera ( I-Unit ) obteve o maior vazamento na história política britânica, expondo como funcionários não eleitos minaram a democracia dentro do Partido Trabalhista.

Os dados vazados compreendem 500 gigabytes de documentos, e-mails, arquivos de vídeo e áudio do Partido Trabalhista que datam de 1998 a 2021. A I-Unit lançará uma série de reportagens sobre os arquivos vazados na próxima semana.

fim da lista

Os dados revelam como os burocratas do partido, cuja função nominal é servir aos interesses do partido, tentaram minar os membros que apoiavam Jeremy Corbyn , líder do Partido Trabalhista de 2015 a 2020.

Até sua eleição como líder do partido em setembro de 2015, Corbyn era uma figura pouco conhecida na política britânica, ativa no ativismo de base, desde o movimento antiguerra até a Campanha de Solidariedade à Palestina.

O primeiro líder inequivocamente socialista do partido desde a década de 1980, ele montou uma onda de descontentamento popular contra o establishment político, apoiando-se em uma plataforma de propriedade pública de indústrias-chave, um estado de bem-estar social fortalecido e o fim das medidas de austeridade impostas pelo governo. governo conservador da época.

Os Arquivos Trabalhistas mostram, no entanto, que dentro do Partido Trabalhista o descontentamento estava se formando, levando a batalhas internas sobre qual lado do partido – os “corbynitas” de esquerda ou os centristas pré-2015 – teriam o controle.

Burocracia partidária

A burocracia do partido, que Corbyn havia herdado de seus predecessores, desempenhou um papel importante nessas batalhas.

Na época, essa burocracia era liderada por Iain McNicol, que era secretário-geral do Partido Trabalhista desde 2011.

Os Arquivos Trabalhistas mostram como, antes de McNicol ser substituído por Jennie Formby em 2018, o partido era resistente ao caminho político que Corbyn estabeleceu.

Enquanto o gabinete do líder partidário define a direção política do partido, os assuntos internos, incluindo o processo disciplinar do partido, estão sob a alçada do secretário-geral, o cargo não político mais alto do partido. O processo disciplinar do partido é supervisionado pela Unidade de Governança e Jurídico (GLU).

Alegações falsas

Os arquivos obtidos pela Al Jazeera contêm registros disciplinares trabalhistas de 1998 a 2021 e documentam seu tratamento pela GLU. Eles mostram como alguns apoiadores de Corbyn foram manchados com falsas acusações de comportamento abusivo submetidas à GLU, incluindo homofobia e antissemitismo, com a intenção declarada de suspendê-los ou expulsá-los do partido.

Em várias instâncias, filiais locais do partido, conhecidas como Partidos Trabalhistas Constituinte (CLP), foram suspensas, impedindo que os membros locais realizassem reuniões do Partido Trabalhista. Em outros casos, membros individuais foram suspensos ou expulsos do partido por motivos contestados.

No CLP de Wallasey, no noroeste da Inglaterra, membros do partido aliaram-se à deputada local (MP) Angela Eagle, que estava desafiando Jeremy Corbyn pela liderança do partido na época. Após a votação do Brexit no Reino Unido, membros do gabinete paralelo de Corbyn renunciaram em massa – Eagle então anunciou seu desafio de liderança contra Corbyn, do qual ela desistiu em favor de Owen Smith.

Os aliados de Eagle em Wallasey acusaram os ativistas pró-Corbyn de fazer comentários e gestos homofóbicos durante uma reunião do partido em junho de 2016. Os ativistas pró-Corbyn negam veementemente essas acusações.

Essas alegações foram então usadas por funcionários da GLU para suspender eleitores, impedindo assim que os membros locais realizassem reuniões oficiais do partido.

E-mails enviados entre funcionários do partido (Aqui! ) encontrados nos Arquivos Trabalhistas mostram como o CLP foi suspenso por vontade de Eagle, com funcionários escrevendo “temos que fazer o que Ângela quer nessas circunstâncias”.

Em 2019, Corbyn renunciou ao cargo de líder após a derrota do partido nas eleições gerais de dezembro. Ele acabou sendo substituído por Keir Starmer, ex-diretor do Ministério Público da Grã-Bretanha.

Logo depois que Starmer se tornou o líder em abril de 2020, Formby renunciou ao cargo de secretário geral. Ela foi substituída por David Evans. Os Arquivos Trabalhistas revelam que ele continuou a hostilidade da era McNicol em relação aos membros de esquerda do partido.

No início de 2021, a vereadora de Liverpool Anna Rothery fez uma oferta para se tornar a candidata do partido a prefeita daquela cidade.

Conselheiro do Trabalho desde 2006 e titular do cargo cerimonial de Lord Mayor entre 2019 e 2021, Rothery pretendia se tornar a primeira prefeita negra eleito da cidade. Ela estava alinhada com Jeremy Corbyn.

Depois de ser selecionado ao lado de outros dois vereadores para estar na lista de candidatos do partido, Rothery – e os outros dois candidatos – foram inesperadamente convocados para uma segunda entrevista por um painel de seleção de cinco pessoas. Rothery descreve a segunda entrevista como sendo hostil no tom.

‘Alma penada gritando’

Em preparação para sua segunda entrevista com Rothery, David Evans encaminhou ao painel uma carta que recebeu do ex-conselheiro de Liverpool Alan Dean em fevereiro de 2021. Essa carta está incluída nos Arquivos Trabalhistas.

Dean foi conselheiro trabalhista por 31 anos e representou a ala de Princes Park ao lado de Rothery por 12 deles.

Na carta (Aqui! ), ele a descreve como uma “alma penada gritando” com um “personagem Jekyll and Hide [sic]”. A carta também faz comentários profundamente pessoais sobre a vida privada de Rothery, que a Al Jazeera redigiu para proteger sua privacidade. Rothery nega veementemente sua caracterização dela e todas as outras acusações contidas na carta de sete páginas.

A carta de Dean também afirma que o “apoio” a Rothery entre os políticos pró-Corbyn era de “grande preocupação”.

Logo após a entrevista do painel, Rothery e os outros dois candidatos foram retirados da lista. O partido alegou que tomou a decisão depois de “considerar cuidadosamente as informações adicionais que lhe foram apresentadas”.

Rothery pediu uma liminar no Supremo Tribunal para forçar o partido a mantê-la na lista de candidatos. Como parte disso, os advogados de Rothery exigiram que o partido divulgasse todos os documentos relacionados ao júri de seleção de Rothery. A carta de Alan Dean nunca foi divulgada ao advogado de Rothery, nem ao Supremo Tribunal, mostram documentos obtidos pela Al Jazeera.

Rothery perdeu o caso e teve que pagar US $ 90.000 em custos ao Partido Trabalhista. Ela agora deixou o partido e começou seu próprio grupo político independente na Câmara Municipal de Liverpool.

Respostas aos arquivos trabalhistas

O Partido Trabalhista se recusou a comentar sobre qualquer um dos casos individuais que a Al Jazeera apresentará. No entanto, disse que era uma organização baseada em regras que seguiu adequadamente suas próprias regras e nos disse que não tinha obrigação de divulgar a carta do Dean aos advogados de Rothery ou ao Tribunal.

Iain McNicol nos disse que seu único foco sempre foi garantir a vitória do Partido Trabalhista. Ele negou todas as acusações feitas contra ele e disse que sempre apoiou sua equipe profissional no partido.

Os funcionários do partido que responderam à Al Jazeera nos disseram que sempre agiram em conformidade com a lei, as regras do partido, suas descrições de trabalho e padrões adequados de proporcionalidade.


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Este texto originalmente escrito em inglês foi publicado pela Al Jazeera [Aqui!].