Baía da Guanabara: de área paradisíaca à latrina da indústria do petróleo e gás

Diz a lenda (ou seria a história) que quando os conquistadores portugueses chegaram à Baía de Guanabara em 1502 a confundiram com um grande rio, o que veio a dar o nome à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Mas a despeito da eventual confusão, o encontro com aquele ecossistema causou forte impacto nos portugueses, na medida em que sua beleza só era par para a riqueza da vida marinha, fato esse que explicava o fato de existirem populações originárias que viviam do que retiravam do interior da baía.

Passados pouco mais de quinhentos anos, a Baía da Guanabara ainda me impacta, pois parte de sua beleza tem sobrevivido ao aumento exponencial das fontes de agressão ambiental ao seu rico ecossistema. Cruzar a ponte que une as cidades do Rio de Janeiro e Niterói é sempre um momento de contemplação, pois a baía ainda é bela. 

Entretanto, a realidade objetiva é que a Baía da Guanabara foi transformada em uma espécie de latrina química a céu aberto, seja pela inexistência de um sistema de esgotos sanitários que colete e trata os rejeitos urbano-industriais que são diariamente lançados “in natura” nas suas águas.  Entretanto, um elemento que agravou fortemente a degradação da Baía da Guanabara foi sua transformação em um dos principais (senão o principal) nós da indústria de petróleo e gás no Brasil, o que implicou na construção de um grande número de estruturas (ver abaixo mapa produzida pela Marinha Brasileira, prestando atenção nas linhas de cor rosa).

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Apenas à guisa de um exemplo mais detalhado é interessante ver o mapa produzido pela Petrobras mostrando a localização dos diversos terminais destinados à armazenagem de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) no interior da Baía da Guanabara (ver figura abaixo).

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Mas os riscos potenciais de explosões e vazamentos causados pela forte aglomeração de estruturas de armazenamento e transporte tem sido agravado por operações diárias de manutenção de navios e plataformas que, muitas vezes ocorrem de forma despercebida e ilegal. Tais operações despejam todo tipo de produto químico nas águas da Baía da Guanabara, sem que haja a devida fiscalização pelos órgãos ambientais (a começar pelo IBAMA).

Felizmente, por iniciativa da Associação Homens do Mar da Baía da Guanabara (Ahomar) que criou a chamada “Patrulha Ambiental da Pesca”, estamos tendo a oportunidade de ter acesso a uma documentação visual dessas operações que envolvem desde o descarte de poluentes até o fundeio ilegal de dezenas de navios  (ver vídeos abaixo)

O fato é que todo esse custo ambiental não tem como ser compensado, visto que não apenas o montante de poluição  causada pela indústria de petróleo e gás que chega na Baía da Guanabara está sendo omitido pelas petroleiras (a começar pela Petrobras) que a transformaram em uma latrina tóxica a céu aberto.  O problema é que além de ter sido transformada em uma latrina tóxica (e objetivamente em uma espécie de bomba relógio), a Baía Guanabara possui um potencial altamente explosivo, o que é exponencializado pela proximidade entre si dos múltiplos terminais que foram construídos em seu interior.

Aliás, há que se lembrar que apenas o “bairro/cidade” da Ilha do Governador possui hoje uma população estimada em torno de 200 mil pessoas que estão hoje literalmente de “cara para o gol” em caso de algum tipo de incidente de maiores proporções no interior da baía. O caso da Baía da Guanabara é um excelente exemplo empírico do que seria a “Doença Holandesa” O problema é que, talvez de forma inédita, em seu ecossistema estão hoje colocados todos os elementos (e em condição agravada) dos impactos derivados da exploração do petróleo e gás no chamado Sul Global.

4 documentários incríveis sobre sustentabilidade e mudanças climáticas

As dicas abordam diferentes pontos e problemas que sofremos hoje com o meio ambiente e vão te ajudar a aumentar a consciência sobre as atitudes do dia a dia

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 Sem dúvidas, as mudanças climáticas são uma das maiores ameaças que enfrentamos como sociedade. Desde 1972, na Conferência de Estocolmo, os problemas ambientais já eram pauta. Agora, em 2021, o problema continua (e aumenta), chamando a atenção dos grandes líderes mundiais, que debatem até o dia 12 de novembro, na COP 26, a revisão das contribuições dos países para a redução da temperatura em 1,5°C até 2030.

“Os últimos 8 anos foram os mais quentes já registrados e a tendência é que isso piore se nada for feito”, aponta Gustavo Loiola, Professor de Inovação e Sustentabilidade do ISAE Escola de Negócios e Presidente da América Latina e Caribe do PRME (Princípios para Educação Executiva Responsável) da ONU. “Assistir documentários sobre sustentabilidade servem, principalmente, para termos a visão do todo e, com isso, começarmos a tomar mais consciência sobre o que está acontecendo em todo o planeta”, complementa.

Confira 4 dicas do especialista de documentários com temas relacionados a sustentabilidade:

Rompendo Barreiras

“Rompendo Barreiras” aborda uma descoberta científica de que a humanidade está empurrando o Planeta Terra para além dos limites que a mantiveram estável por 10 mil anos, desde o início da civilização. “O documentário traz uma abordagem bastante educativa, científica e clara sobre a importância de rever nossos modelos de produção e consumo, a fim de priorizar a Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris”, explica Loiola. Disponível na Netflix.

Solo Fértil

Esse documentário com narração de Woody Harrelson conta a história de um grupo revolucionário de ativistas, cientistas, agricultores e políticos que se unem em um movimento global chamado “Agricultura Regenerativa”, que tem como objetivo equilibrar nosso clima, reabastecer nosso vasto suprimento de água e alimentar o mundo. Disponível na Netflix.

Paradise em Chamas

Em setembro de 2018, um incêndio eclodiu na Califórnia, perto da cidade de Paradise. Ao longo de algumas horas, a fogueira se transformou no incêndio florestal mais mortal do país em mais de um século. Através de imagens em primeira mão do desastre e entrevistas com sobreviventes e respondedores, o documentário reconstrói as histórias de sobrevivência daquele dia. Disponível na Netflix.

A Pequena Grande Fazenda

Com o desejo de viver em melhor harmonia com a natureza e dar uma vida ao ar livre para seu cachorro, o casal Chester se muda de Los Angeles para ajudar a cuidar de uma fazenda durante oito anos junto com uma equipe voluntária e trabalhadores. “Eles transformaram um habitat inóspito em um ambiente totalmente funcional, recuperando biodiversidade da flora e fauna. Eu gosto desse documentário por trazer uma visão otimista de como regenerar ecossistemas”, finaliza Gustavo Loiola. Disponível na Globo Play.

Mais de 200 cientistas e personalidades membros da Ordem Nacional do Mérito Científico divulgam carta aberta

ordem do mérito

“Manifestamos nossa indignação e nosso veemente protesto em relação à exclusão arbitrária dos cientistas Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda da lista de agraciados com a Ordem Nacional do Mérito Científico de 2021, por meio de decreto presidencial de 05/11/2021”, protestam 

Mais de 200 cientistas e personalidades membros da Ordem Nacional do Mérito Científico divulgaram nesta quarta-feira, 10 de novembro, uma carta aberta em protesto à exclusão arbitrária dos cientistas Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda da lista de agraciados com a Ordem Nacional do Mérito Científico de 2021.

Os membros afirmam que o “ato de exclusão é o ápice de um processo de desvalorização e negacionismo em relação à ciência e de severas reduções orçamentárias, que têm afetado severamente o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, e que constituem uma grave ameaça à ciência brasileira e ao desenvolvimento do país”.

Os demais cientistas e personalidades membros da Ordem Nacional do Mérito Científico que quiserem assinar a manifestação escrevam, por gentileza, para: agraciadosomc@gmail.com.

Leia o documento na íntegra:

Carta aberta de cientistas e personalidades que são membros da Ordem  Nacional do Mérito Científico 

A Ordem Nacional do Mérito Científico (ONMC), criada em 1993, é um instrumento de Estado para reconhecer contribuições científicas e técnicas de personalidades brasileiras e estrangeiras. Não se trata, portanto, de uma honraria a ser usada com interesses políticos ou ideológicos particulares de eventuais governos. Os abaixo-assinados são cientistas e personalidades membros da Ordem Nacional do Mérito Científico, por terem sido admitidos nela ao longo das três últimas décadas e por governos diversos. Manifestamos nossa indignação e nosso veemente protesto em relação à exclusão arbitrária dos cientistas Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda da lista de agraciados com a Ordem Nacional do Mérito Científico de 2021, por meio de decreto presidencial de 05/11/2021.

Somos solidários e reconhecemos a dimensão ética da atitude adotada por colegas, que foram admitidos na Ordem Nacional do Mérito Científico em recente decreto presidencial, expressa na “Carta aberta dos cientistas condecorados com a Ordem Nacional do Mérito Científico em 03/11/2021”, e apoiamos os termos de sua manifestação. A ação de censura perpetrada pelo governo federal, com o expurgo dos dois colegas cientistas da ONMC, nos faz recordar tempos sombrios. Não aceitamos, assim como a comunidade científica e a grande maioria do povo brasileiro, o retorno do arbítrio e do autoritarismo. Este ato de exclusão é o ápice de um processo de desvalorização e negacionismo em relação à ciência e de severas reduções orçamentárias, que têm afetado severamente o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, e que constituem uma grave ameaça à ciência brasileira e ao desenvolvimento do país.

Cientistas e personalidades que assinam a carta:

 Abílio Afonso Baeta Neves

Adalberto Fazzio

Adalberto Luis Val

Adalberto Ramon Vieyra

Ado Jório Vasconcelos

Adolpho José Melfi

Alaor Chaves

Alberto Laender

Alberto Passos Guimarães

Alberto Santoro

Alcides Lins Neto

Alcides N. Sial

Aldina Maria Prado Barral

Alexander Kellner

Alfredo Miguel Ozorio de Almeida

Alice Abreu

Álvaro Toubes Prata

Ana Lúcia Gazzolla

Ana Maria de Lauro Castrucci

Anibal Eugênio Vercesi

Antonio Galves

Antônio Gomes de Souza Filho

Antonio Marcus Nogueira Lima

Aquilino Senra

Aroldo Misi

Beatriz Barbuy

Betty Mindlin

Branca Vianna

Carlos Alberto Aragão

Carlos Alberto Lombardi Filgueiras

Carlos Alexandre Netto

Carlos Alfredo Joly

Carlos Américo Pacheco

Carlos Frederico Martins Menck

Carlos Henrique de Brito Cruz

Carlos Médicis Morel

Carlos Nobre

Carlos Ricardo Soccol

Carlos Rodrigues Brandão

Carlos Vogt

Celina Maria Turchi Martelli

Celso Amorim

Celso Barros de Gomes

Celso Lafer

Celso Pinto de Melo

Cesar Leopoldo Camacho Manco

Charles R. Clement

Claudia Maria Bauzer Medeiros

Claudio Landim

Cláudio Leonardo Lucchesi

Concepta Margaret McManus Pimentel

Constantino Tsallis

Cristovam Buarque

Débora Foguel

Diogenes de Almeida Campos

Diogo Onofre Gomes de Souza

Dora Selma Fix Ventura

Edgar Dutra Zanotto

Edson Watanabe

Eduardo Viveiros de Castro

Elibio Rech

Eliezer J. Barreiro

Elisa Reis

Enrique Pujals

Erney Plessmann de Camargo

Esper Cavalheiro

Etelvino José Henriques Bechara

Eugenius Kaszkurewicz

Fernando Galembeck

Fernando Rizzo

Flávio Rech Wagner

Francilene Procópio Garcia

Francisco César de Sá Barreto

Gervásio Annes Degrazia

Glaucius Oliva

Guilherme Suarez Kurtz

Helena Bonciani Nader

Helgio Trindade

Helio Waldman

Henrique Eisi Toma

Hernan Chaimovich

Hilário Alencar da Silva

Ildeu de Castro Moreira

Isaac Roitman

Israel Vainsencher

Jacob Palis Junior

Jacques Marcovitch

Jailson Bittencourt de Andrade

Jairton Dupont

Jean Pierre von der Weid

Jefferson Cardia Simões

Jerson Lima da Silva

João Calixto

João dos Anjos

João Fernando Gomes de Oliveira

João José Reis

João Luís Ribeiro Fragoso

João Moreira Salles

João Valdir Comasseto

Jorge Kalil

Jorge Luis Nicolas Audy

José Alexandre Felizola Diniz Filho

José Antunes Rodrigues

José Barbosa Filho

José Carlos Maldonado

José d’Albuquerque e Castro

José Ellis Ripper Filho

José Fernando Perez

José Fernando Thomé Jucá

Jose Galizia Tundisi

José Israel Vargas

José Luiz Lima Filho

José M. Riveros

José Murilo de Carvalho

Jose Reinaldo de Lima Lopes

Julio Cezar Melatti

Keti Tenenblat

Lauro Kubota

Léo Afraneo Hartmann

Liu Hsu

Lívio Amaral

Lucia Carvalho Pinto de Melo

Lucia Previato

Luís Eugênio de Araújo de Moraes Mello

Luís Manuel Rebelo Fernandes

Luiz Antonio Rodrigues Elias

Luiz Davidovich

Luiz Fernando Dias Duarte

Luiz Gylvan Meira Filho

Manoel Barral Netto

Marcello André Barcinski

Marcelo Gattass

Marcelo Knobel

Márcia Cristina Bernardes Barbosa

Marcio de Castro Silva Filho

Marcio G. Soares

Marco Antonio Chaer do Nascimento

Marco Aurelio De Paoli

Marcos Pimenta

Maria Aparecida Soares Ruas

Maria Aparecida Stallivieri Neves

Maria Hermínia Tavares de Almeida

Maria Julia Manso Alves

Maria Manuela Carneiro da Cunha

Maria Rita dos Santos e Passos-Bueno

Maria Vargas

Mariangela Hungria da Cunha

Mario Neto Borges

Mariza Peirano

Mayana Zatz

Mercedes Bustamente

Naercio Aquino Menezes Filho

Nelson Maculan

Nivio Ziviani

Otávio Guilherme Cardoso Alves Velho

Paolo Piccione

Paulo Arruda,

Paulo Domingos Cordaro

Paulo Eduardo Artaxo Netto

Paulo Suarez

Pedro Wongtschowski

Philip Fearnside

Rafael Linden

Raimundo Braz Filho

Ramayana Gazzinelli

Raúl A. Feijóo

Reinaldo Guimarães

Renato Janine Ribeiro

Roberto Amaral

Roberto Germano Costa

Roberto Kant de Lima

Roberto Lent

Rogério Cézar de Cerqueira Leite

Ronaldo Aloise Pilli

Ronaldo Mota

Ruben George Oliven

Rubens Belfort Jr

Said Najati Sidki

Samuel Goldenberg

Sandoval Carneiro Jr

Sara T. Olalla Saad

Sergio Adorno

Sérgio Bruni

Sergio Danilo Juno Pena

Sergio Machado Rezende

Sergio Miceli Pessoa de Barros

Shirley Schreier

Silvio Crestana

Silvio R. A. Salinas

Simon Schwartzman

Sylvio Canuto

Takeshi Kodama

Tomasz Kowaltowski

Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses

Umberto Giuseppe Cordani

Vanderlan Bolzani

Vanderlei Salvador Bagnato

Virgilio Almeida

Virginia S.T. Ciminelli

Wagner F Gattaz

Walter Araujo Zin

Walter Colli

Wanderley de Souza

Wilson Suzigan

Wilson Teixeira

Wrana Maria Panizzi

Yuan Jinyun

Yvonne P. Mascarenhas

Tributar os mais ricos é um caminho para o Brasil reduzir a pobreza, com crescimento e equilíbrio fiscal

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A pandemia, a elevação da pobreza e a inflação expõem ao mundo a necessidade de ampliar a proteção social, um desafio que geralmente esbarra no risco de desequilíbrio fiscal. Vários países adotam políticas de tributação progressiva, na qual os ricos pagam mais impostos do que os pobres. Para os economistas Manoel Pires e Marcelo Medeiros, este é o caminho para o Brasil combater a pobreza e promover o crescimento econômico, sem aumentar o déficit público e o imposto sobre consumo, que penaliza os mais pobres e afugenta investimentos na produção.

Manoel Pires, que é coordenador do Observatório de Política Fiscal e pesquisador da Universidade de Brasília (UNB), considera que o Governo comete um erro ao trocar o Bolsa Família, “um programa permanente que funciona bem”, pelo Auxílio Brasil. Pelo caráter temporário, segundo ele, o novo programa pode causar insegurança social no fim do próximo ano. “Em dezembro de 2022, se tudo correr como o governo está planejando, você tem um encontro com isso novamente, com esse dilema. Os beneficiários podem achar que não terão mais direito ao benefício. Isso vai causar uma insegurança social”, afirma Pires.

Os dois economistas participaram da mesa-redonda “Como Financiar a Proteção Social no Brasil”, promovido pelo Observatório de Política Fiscal (Ibre-FGV) e pela Avenida Comunicação, com presença de jornalistas dos maiores veículos do país.

Marcelo Medeiros, professor visitante na Columbia University, professor da UNB e pesquisador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), entende que a pandemia agudizou as desigualdades e mostrou a fragilidade do modelo brasileiro para lidar com seus efeitos. O modelo atual depende da arrecadação, que cai em momentos de crise, deixando mais frágeis os programas de apoio quando eles mais precisam de recursos.

Para solucionar o problema, Medeiros propõe a criação de um fundo específico para momentos em que há risco de crise social, à semelhança do Fundo Soberano do Brasil, que funcionou entre 2008 e 2019 para enfrentar os efeitos de crises econômicas. Esse novo fundo para destinação em crises sociais seria um instrumento contracíclico para proteger a população e estimular a retomada econômica. Além disso, evitaria que os governos tenham despesas imprevistas sem cobertura fiscal, impedindo que furem o teto de gastos.

Outra crítica de Medeiros ao atual modelo brasileiro é sua concentração excessiva nas contribuições trabalhistas, o que limita sua proteção efetiva ao trabalhador formalizado e onera as folhas de pagamento. Ao induzir empresas e trabalhadores a se dedicarem a manobras em busca de menor tributação, o modelo atual fragiliza ainda mais o sistema de proteção social. Como solução, o economista propõe que esse sistema seja financiado pela progressividade no Imposto de Renda, aliviando as folhas de pagamento e os custos das empresas com os empregos, o que aumenta a formalização e diminui a “pejotização”.

Para Medeiros, o crescimento da informalidade do trabalho no Brasil já superou a “uberização”, em que há precariedade na relação trabalhista. “Estamos vivendo algo pior. A meu ver já passamos para uma fase de ‘faxineirização’, quando as famílias trocam domésticas por faxineiras, que não estão protegidas pelas leis. E isso denota uma injustiça ainda maior que é a enorme desigualdade de gênero, com a informalidade entre as mulheres sendo muito mais alta”, disse o professor.

Pires concorda com Medeiros sobre a necessidade da tributação progressiva, principalmente por meio do Imposto de Renda, de forma a transferir recursos dos extratos mais ricos para a redução da desigualdade. Ele afirma que o sistema tributário brasileiro é regressivo por incidir mais sobre o consumo do que sobre a renda. Imposto sobre o consumo afeta mais, em termos proporcionais, os pobres.

Segundo Pires, há espaço para o país eliminar “distorções” e tributar mais a renda, criando mecanismos para financiar a assistência social. “Uma boa forma de fazer a discussão do financiamento da seguridade social é eliminar distorções, consolidando uma boa parte da tributação na tabela do Imposto de Renda”, disse. Ele ilustra seus argumentos com tabelas que mostram a situação do Brasil em relação a outros países, conforme dados compilados da OCDE e da Receita Federal. A tributação sobre o consumo no Brasil chega a 14,4% do PIB, enquanto a média mundial é de 11%. Já o imposto de renda no Brasil arrecada o equivalente a 7,45% do PIB, bem abaixo da média mundial, de 11,5%. 

Pires admite que a agenda de reformas que ele e Medeiros propõem é difícil de ser implementada no Brasil devido à pressão de lobbies e à desinformação da população sobre o tema. “Uma agenda de reformas é sempre difícil, mas mesmo assim o país fez avanços recentes em reformas trabalhistas e da Previdência. É sempre conflituoso, mas avança. É preciso fazer um esforço para construir essa agenda no Brasil, que já acontece em economias mais sólidas, como nos Estados Unidos e na Europa”, enfatizou o economista.

HSBC liderou a ação dos grandes bancos contra esforços para controlar mudanças climáticas

Por Josephine Molds para o “The Bureau of Investigative Journalism

O HSBC coordenou esforços para tentar atenuar as ações sobre mudança climática no setor bancário, buscando adiar um prazo importante e descartar as metas obrigatórias baseadas na ciência para uma grande aliança líquida zero, como acaba de revelar o “The Bureau of Investigative Journalism”.

Esses apelos vieram em um e-mail enviado do escritório do presidente-executivo do HSBC para a Net-Zero Banking Alliance (NZBA), uma iniciativa lançada por Mark Carney, o ex-governador do Banco da Inglaterra. O NZBA reúne mais de 50 bancos, incluindo HSBC, Bank of America, Barclays e Santander, exigindo que eles definam uma meta para reduzir as emissões de carbono de seus empréstimos e carteiras de investimento para zero líquido até 2050, bem como definir uma meta provisória para 2030.

O e-mail, enviado em nome de um grupo de 12 bancos, dizia que eles deveriam ter três anos a partir da assinatura do compromisso NZBA – em vez de 18 meses – antes de definir sua meta para 2030. Ele tentou enfraquecer ainda mais o compromisso, descartando a exigência de metas baseadas na ciência.

Natasha Landell-Mills, chefe de administração da Sarasin & Partners, uma empresa de investimentos que administra £19,3 bilhões de ativos e detém ações do HSBC em nome de clientes, disse: “Qualquer evidência de que o HSBC fez lobby contra uma ação robusta sobre as mudanças climáticas seria preocupante . ” Ela disse que gostaria de obter mais informações sobre o contexto e “então, tomaria as medidas cabíveis”.

“Temos uma crise climática que precisamos enfrentar”, acrescentou Landell-Mills, “e quanto mais bancos recuarem em políticas e regulamentações que visam acelerar a ação de combate às mudanças climáticas, mais lenta será essa ação e todos nós sofreríamos como resultado ”.

O e-mail veio do escritório do presidente-executivo do HSBC, Noel Quinn, que também é presidente da Força-Tarefa de Serviços Financeiros (FSTF), um grupo convocado pelo Príncipe Charles. A equipe do HSBC coordenou os 12 bancos membros do FSTF quando a força-tarefa foi criada este ano.

Quinn disse que o FSTF está “comprometido em acelerar os esforços dentro do setor bancário […] para avançar em direção a uma economia líquida zero”. Mas, em vez de acelerar os esforços, a coalizão fez lobby por prazos mais longos e argumentou contra o uso obrigatório de cenários baseados na ciência para definir metas.

Sob o NZBA, os bancos são obrigados a definir metas setoriais para a maioria dos setores intensivos em carbono – como combustíveis fósseis, imobiliário, agricultura e aço – dentro de 18 meses após a assinatura, e todos os setores restantes dentro de três anos. O FSTF pediu a remoção da lista de setores que devem ser incluídos na primeira rodada de definição de metas, tornando o compromisso menos rigoroso.

Ele sugeriu que as metas deveriam ser definidas apenas para setores onde há “caminhos de transição confiáveis” para um futuro líquido zero, ou planos que mostrem como esses setores se tornarão mais sustentáveis, o que pode ser altamente subjetivo.

O FSTF também disse que os bancos deveriam ter até 2025 ou 2030 para estabelecer metas para alguns setores intensivos em carbono.

Cientistas dizem que as emissões devem cair 45% em relação aos níveis de 2010 até 2030 para limitar o aquecimento global a 1,5 ° C, o que significa que qualquer atraso está em oposição direta à urgência necessária para enfrentar a crise climática.

O HSBC tem sido um dos maiores financiadores de combustíveis fósseis da Europa, investindo £ 17,3 bilhões no setor em 2020. Apesar de seu compromisso em outubro passado de reduzir as emissões financiadas para zero líquido até 2050, desde então ajudou a Saudi Aramco, a empresa mais poluente do mundo, a arrecadar £ 10,3 bilhões e a Qatar Petroleum  a arrecadar £ 9,2 bilhões para financiar a expansão do maior campo de gás do mundo.

Noel Quinn em um painel no Bloomberg New Economy Forum em 2019. Takaaki Iwabu / Bloomberg via Getty

O Dr. Andrew Harper, chefe de ética da Epworth Investment Management – que administra £ 1,3 bilhão de ativos e é um investidor e cliente do HSBC – disse que se um banco tivesse se envolvido com esse tipo de lobby, é “incrivelmente desanimador para nós tentando se envolver genuinamente com as empresas para um futuro mais sustentável. Isso levantaria sérias questões em torno do compromisso de uma empresa com a ciência, o planeta e seu povo – especialmente os pobres. ”

Quando questionado sobre o lobby, o HSBC disse que representava as opiniões dos 12 bancos membros do FSTF. Ele disse que o e-mail enviado do escritório do presidente-executivo do HSBC em março – quando o banco ocupava as funções de presidente e secretariado do FSTF – não refletia a posição do próprio HSBC.

O e-mail não deu nenhuma indicação de que o HSBC não endossava essas opiniões.

O NZBA reconheceu o e-mail de lobby, observando que era uma parte normal do processo reunir ideias de várias partes.

O banco disse: “O HSBC nega categoricamente essas alegações. O HSBC não fez lobby para diluir a ambição do NZBA. ” O HSBC assinou com o NZBA e disse que já se comprometeu com padrões mais elevados em sua resolução de acionistas sobre mudança climática, que foi publicada pouco antes de enviar o e-mail.

Colin Baines, gerente de engajamento de investimentos da Friends Provident Foundation, um acionista do HSBC, disse: “[HSBC é] legalmente obrigado a produzir uma estratégia de transição de baixo carbono e menciona expressamente ser baseado na ciência e alinhado com o acordo climático de Paris. Aparentemente, é muito bom, mas fazer lobby contra isso nos bastidores soa o alarme, porque isso não está de acordo com o que eles disseram aos acionistas, ao público e aos clientes sobre o que pretendem fazer ”.

Apesar de se comprometer com a rede zero voluntariamente, o HSBC resistiu à regulamentação de suas atividades para atingir essa meta. Como o segundo maior banco da Europa em ativos, é uma voz poderosa nos grupos de especialistas de alto nível e painéis consultivos que informam a política no Reino Unido e na Europa.

Baines disse: “Não há maior parte interessada do que os bancos no que diz respeito aos reguladores e legisladores bancários. [Os bancos] estarão ao redor da mesa enquanto as políticas são desenvolvidas, então é vital que eles cumpram o que se comprometeram publicamente a fazer. “

Sob o NZBA, o HSBC se comprometeu a garantir que seus empréstimos e investimentos sejam consistentes com um aumento máximo de temperatura de 1,5 ° C. No entanto, em uma consulta sobre a estratégia de financiamento sustentável da UE, opôs-se a uma proposta de que os bancos deveriam ser obrigados a estimar o nível de aquecimento global que suas carteiras estão financiando. Questionado sobre essa contradição, o banco disse que a falta de dados significa que essa abordagem é atualmente impraticável.

Na mesma consulta, o HSBC disse que a UE não deve tomar nenhuma ação adicional para desencorajar os investidores de financiar atividades prejudiciais ao meio ambiente como parte da Lei Climática Europeia – que consagra o objetivo da UE de se tornar neutra para o clima até 2050.

Baines disse: “Se o HSBC está tentando minar a regulamentação e a legislação que apoiaria seus objetivos declarados publicamente, eles não estão apenas minando seus próprios compromissos, mas também sua credibilidade e a confiança das partes interessadas de que estão se engajando de boa fé”.

Os reguladores no Reino Unido e na Europa consideraram pedir aos bancos que mantenham mais capital contra os ativos poluentes em seus livros, aumentando efetivamente o custo dos empréstimos para empresas poluidoras. No mês passado, um grupo multipartidário de MPs escreveu ao Banco da Inglaterra em apoio a tal medida.

O HSBC disse repetidamente que os reguladores não deveriam penalizar os ativos poluentes dessa forma, tanto em seu próprio nome quanto por meio do Institute of International Finance, uma associação comercial do setor financeiro.

O banco disse: “O HSBC acredita que mais informações sobre os caminhos da transição industrial são necessárias para evitar consequências indesejadas associadas à limitação dos fluxos de capital, como perdas de empregos”.

O Bank of America não quis comentar; O Barclays e o Santander não responderam aos pedidos de comentários.

Imagem do cabeçalho: Manifestantes da rebelião da extinção do lado de fora de um banco de rua em 2019. Crédito: Nick Beer / Alamy

Repórter: Josephine Molds
Environment Editor: Jeevan Vasagar
Editor global: James Ball
Editor: Meirion Jones
Editores de produção: Alex Hess e Katharine Quarmby
Verificadores de fatos: Emiliano Mellino e Franz Wild
Equipe jurídica: Stephen Shotnes (Simons Muirhead Burton)

Este relatório é financiado pelo The Sunrise Project. Nenhum de nossos financiadores tem qualquer influência sobre as decisões editoriais ou resultados do Bureau.

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Este texto foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo “The Bureau of Investigative Journalism” [Aqui!].

Tigre e Paulo Vieira se juntam para caçar gambiarras pelo Brasil

Websérie contará origens, soluções e curiosidades sobre um verdadeiro patrimônio nacional
paulo vieira
São Paulo, novembro de 2021 – Quem nunca passou por imprevistos e precisou recorrer às famosas gambiarras para resolver uma emergência? E por que esse tipo de improviso, que deveria ser temporário, acaba perdurando por tanto tempo dentro de casa? Seguindo esse espírito brasileiro de inventar e se reinventar nas adversidades, a Tigre está lançando “O Caçador de Gambiarras”, websérie em parceria com o ator Paulo Vieira. Criada pela área de Content da Talent Marcel, a produção de quatro episódios será veiculada nos canais digitais da marca e do ator.

O humorista, um dos destaques da nova geração, se notabilizou no Twitter ao narrar as aventuras nem sempre bem sucedidas de seu pai ao lado do melhor amigo. “Quem acompanha a saga de Pablo e Luisão sabe que o Paulo deu um novo significado ao conceito de gambiarra. E nada menos improvisado do que convidá-lo a explorar as origens e curiosidades dessas invenções genuinamente brasileiras, mostrando de maneira leve e divertida que até as mais engenhosas traquitanas têm salvação”, comenta Gustavo Mayrink, diretor de Content da Talent Marcel.

O primeiro episódio mostra as peripécias de João Roberto, um “gambiarreiro ecológico” que criou uma série de soluções improvisadas para evitar o desperdício de água – e que como toda gambiarra precisava ser aperfeiçoada. O primeiro episódio completo está no Youtube.

Ao final de cada episódio, a Tigre com o apoio do Triider, startup que conecta profissionais de obra a pessoas que precisam de serviços de manutenção e reforma, irá solucionar os problemas mostrando como a versatilidade de suas linhas de produtos é capaz de resolver as mais variadas “soluções técnicas alternativas”, como costumava dizer uma das personagens da série.

“Mesmo sendo algo muito comum, o conserto feito de forma improvisada pode danificar a casa. Por isso, vamos atrás das maiores histórias de gambiarras para apresentar todas as soluções de produtos e serviços que a Tigre tem disponível para resolver essas questões cotidianas”, afirma Felipe Correa, gerente de marketing da Tigre.

“O Caçador de Gambiarras” já está disponível nas redes de Tigre. Os próximos episódios serão lançados a cada semana e ao final da temporada ainda haverá um conteúdo extra. Além disso, nas redes sociais da marca e do Paulo é possível acompanhar bastidores e curiosidades sobre a série.

Ficha Técnica

Agência: Talent Marcel
Anunciante: Tigre
Produto: Institucional
Título: O Caçador de Gambiarras, com Paulo Vieira
CCO: João Livi
ECD (Diretor Executivo de Criação): Otavio Schiavon
Diretor de Criação e Conteúdo: Gustavo Mayrink
Criação: Gustavo Mayrink, Ana Clara Salles, Camila Siciliano, Carolina Lopez, Paulo Vieira
Atendimento: Carol Escorel, Saulo Colasanti, Carlos Lima, Bruna Rodrigues
Planejamento: Gabriela Soares, Douglas Nogueira, Glauber Alencar e Rafael Moura
Mídia: Herbert Gomes, Gabriel Roveri, Rafael Roque, Luana Belloni e Ana Cláudia Felix
Data & Business Intelligence: Gustavo Macedo
Community Manager: Mariana Fioravanti
Gerente de Conteúdo: Rafaela Ferreira
Diretor executivo RTV: Renata Corrêa
Produtor RTV: Erika Sartini
Produtora de Imagem: PBA Cinema
Direção: Ale Paschoalini
Direção Executiva: Mayra Gama
Produção Executiva: Nivio Alves de Souza / Fernando Fanucchi
Coordenação de Produção: Karla Fernandes
Head Of Sales: Markinhos Fagundes
Diretor de Fotografia: Claus Stellfeld
1ª Assistente Direção: Giulia Levy

Diretor de Produção: Guilherme Valiengo
Produtor: Lorran Oliveira
Assistente de Produção: Maria Rita Miranda
Produção de Elenco: Babi Catani
Figurinista: Isabela Marques
Maquiagem: Bruna Maria Ramos (Tibby)
Atendimento: Markinhos Fagundes / Gabriela Fernandes / Natalia Pinheiro
Atendimento de Pós: Diulle Fonseca
Coordenação de Pós: Augusto Medeiros e Diulle Fonseca
Montador: Alexandre Boechat
Assistente de Montagem: Junior Nascimento
Finalizador: Camila Cavalcante
Grading: Lucas Campos
Pós Produção: Flow Effects
Motion: Vinicius Kahan e Alvaro Bautista
Produtora de áudio: LOUD+
Direção de produção: Gustavo Garbato
Produção: Equipe LOUD+
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Coordenação: Ingrid Mabelle, Rafael Silvestrini, Lara Fratucelli, Letícia Nunes
Aprovação do cliente: Luis Filipe Fonseca, Felipe Correa, Juliana Dotta

Greenwashing e lucros verdes

Oficialmente, o mundo financeiro está pressionando pela proteção do clima. Na verdade, o Greenwashing gera bilhões em lucros

cop 26 eartjApenas uma fachada: na COP-26 em Glasgow, o grande capital se apresenta como um protetor do clima

Por Raphael Schmeller para o JungeWelt

Deixe o capital fazer isso – é assim que se poderia resumir a estratégia dos governantes na luta contra a crise climática. Na Conferência Mundial do Clima da ONU em Glasgow, Escócia, onde o número de lobistas do petróleo e do gás é maior do que qualquer delegação individual dos países participantes, isso está particularmente claro. Na semana passada, um fórum para atores financeiros foi realizado lá, onde banqueiros e especuladores puderam propagar suas boas intenções em questões de neutralidade climática. O cerne da mensagem deles era: O mundo pode confiar em nós e em nossos bilhões.

No início de outubro, antes do início da conferência do clima, uma aliança de mais de 450 bancos, seguradoras, fundos de pensão e agências de classificação – a Glasgow Financial Alliance for Net Zero (GFANZ) – apelou aos chefes de estado e de governo para tomar medidas contra o aquecimento global para aproveitar e incentivar o investimento verde. O Deutsche Bank, que faz parte do GFANZ junto com Blackrock, Allianz e Commerzbank, acrescentou em um comunicado em 28 de outubro: “O setor financeiro terá um papel fundamental em fazer essa transição (para uma economia sustentável,) acelerar. Os bancos e os mercados de capitais permitem às empresas (…) investir na transformação dos seus modelos de negócio «, escreveu Lavinia Bauerochse, responsável pela sustentabilidade do instituto. No entanto, ela não mencionou que seu banco é um dos maiores financiadores da extração de recursos fósseis.

Há alguns anos, os chamados investimentos verdes têm se tornado cada vez mais populares no mundo financeiro. Um número ilustra bem esta tendência: Em 2020, foram emitidos títulos verdes no valor de cerca de 250 bilhões de dólares (215 bilhões de euros) em todo o mundo, em 2015 eram menos de 50 bilhões de dólares. De acordo com a Bloomberg , especular sobre esses títulos já rendeu ao setor bancário US $ 2,2 bilhões em lucros este ano.

Outra indicação de que este “financiamento verde” está se tornando cada vez mais importante para a obtenção de lucros é o anúncio do GFANZ na semana passada em Glasgow de que pretende usar um total de 130 trilhões de dólares de seu capital administrado até 2050 em um clima cada vez mais neutro para o clima caminho. O que as corporações financeiras se comprometeram especificamente permanece vago nas declarações de Mark Carney, enviado especial da ONU para ações climáticas e finanças. O ex-presidente do banco central do Reino Unido que apresentou o acordo simplesmente disse que as empresas queriam “entregar sua parte justa de uma redução de 50% nas emissões nesta década” até 2050.

O que parece certo, por outro lado, é que a maior parte dessas enormes somas não está sendo usada de maneira favorável ao clima. Essa conclusão é sugerida por um estudo publicado em agosto pela US University of Harvard. Em seu estudo, dois cientistas examinaram os investimentos de 100 empresas que se comprometeram a fazer negócios de forma sustentável. Resultado: os compromissos são todos “apenas para exibição”, são casos claros de greenwashing.

Oficialmente, o mundo financeiro está exigindo regulamentações para promover a proteção do clima. No entanto, quando se trata de realmente cumprir as obrigações, as coisas parecem ruins – mesmo que os requisitos sejam mínimos. or exemplo, a partir de 2019, o BCE teve várias regras relaxadas com as quais os bancos devem revisar seus investimentos em termos de sustentabilidade. Resultado: 90% dos negócios no setor bancário da União Europeia não atendem aos critérios de sustentabilidade do Banco Central Europeu.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Jungewelt [Aqui!].

Instrumento para defesa de direitos, comunidades tradicionais da Ilha do Mel (PR) lançam protocolo de consulta

Documento apresenta acordos e regras coletivas sobre como comunidades se organizam e decidem sobre ações que afetam seus modos de vida

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Brasília, 09 de novembro de 2021 –  As comunidades de Brasília, Farol, Fortaleza e Praia Grande, localizadas na Ilha do Mel (PR), lançam nesta quarta-feira (10) o Protocolo Comunitário de Consulta Prévia, Livre e Informada. A atividade é aberta ao público e inicia às 17h, no trapiche de Brasília.

Instrumento de autodefesa, autoafirmação e busca pela garantia de direitos das comunidades tradicionais, o protocolo de consulta prévia é fruto de um conjunto de debates realizados pelas comunidades nos últimos meses e apresenta os acordos e regras coletivas sobre como comunidades se organizam e decidem sobre ações que afetam seus modos de vida. Diante de empreendimentos, projetos de leis ou outras medidas administrativas que possam impactar a vida das comunidades, o protocolo é uma referência orientadora para as comunidades sobre como proceder para a escuta às famílias e para a tomada de decisão.

“Por meio do protocolo de consulta, retomaremos a participação na gestão do nosso território que é a Ilha do Mel, podendo ter poder decisório sobre todas as ações que nos envolvam direta ou indiretamente”, destaca a secretária da Associação dos Nativos da Ilha do Mel (Animpo), Marinelli Campos Pedrussi.

Questões como enfrentamento à especulação imobiliária e necessidade de extensão da área de moradia para a população nativa são fortemente presentes no cotidiano das comunidades. Amparados pelo direito à consulta prévia, livre e informada – direito previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), um tratado internacional ratificado pelo Brasil desde 2004 – as comunidades descrevem no protocolo como as instituições governamentais e não governamentais devem promover mecanismos de escuta e consulta às comunidades tradicionais.

“O território da Ilha do Mel sofre repressões no acesso à direitos, dentre eles o direito à moradia em decorrência, sobretudo, da especulação imobiliária, a injustiça ambiental e um Estado que não compreende os modos de ser e viver das populações tradicionais em convívio com os espaços ambientalmente protegidos. Por essas razões o Protocolo de Consulta é importante instrumento que unifica a identidade tradicional e serve como um documento de enfrentamento das violações e garantia de direitos”, destaca a assessora jurídica da Terra de Direitos, Jaqueline Andrade.

Para além da apresentação de acordos coletivos o documento ainda reúne elementos que compõem a memória, práticas e cultura entre outros, das comunidades tradicionais. A elaboração dos Protocolos de Consulta dos Quilombos de Monte Alegre contou com apoio da Animpo e teve assessoria técnica da Terra de Direitos e do Centro de Pesquisa e Extensão em Direito Socioambiental (Cepedis).

A atividade de lançamento contará com falas das comunidades, das organizações apoiadoras e exposição de conteúdo sobre a história local, além de comidas típicas e música tradicional caiçara. Em razão da pandemia os protocolos de segurança sanitária serão mantidos, tais como uso obrigatório de máscara e distanciamento social.

Serviço

Lançamento Protocolo Comunitário de Consulta das Comunidades Tradicionais de Brasília, Farol, Fortaleza e Praia Grande – Ilha do Mel (PR)

Data: 10 de novembro, às 17h

Local: Trapiche de Brasília

Na COP26, verde é a cor mais jovem

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Geralmente cautelosa, a ONU, compreensivelmente abalada com os resultados do último relatório do IPCC, fez soar este ano as trombetas do apocalipse: botou o dinossauro (de computação gráfica) Frankie para anunciar a COP26, dizendo que o fim está próximo. O vídeo fez o maior sucesso; mas, incrivelmente, a extinção da Humanidade não foi um tema capaz de sensibilizar todo mundo. Com sinceridade rara, o primeiro-ministro britânico, o conservador Boris Johnson, resumiu o porquê, no discurso de abertura do evento: “Caros líderes, todos aqui falamos o que faremos em 2050 0u 2060, mas metade da população do mundo tem menos de 30 anos, enquanto a média de idade das pessoas presentes a este encontro é de mais de 60 anos”. Os sete últimos anos foram os mais quentes já registrados.

É duro, mas é verdade: a geração anterior quer legar a vocês, jovens, a responsabilidade de salvar um mundo em frangalhos para a próxima – se ainda der tempo. Como generais que mandam garotos para a guerra. Enquanto eles aproveitam o fim de festa, vocês herdam o rabo de foguete. “Estamos a um minuto da meia-noite e precisamos agir mais. Se não fizermos nada hoje, será muito tarde para os nossos filhos fazerem algo no futuro. Se não formos sérios a respeito da mudança climática hoje, será tarde demais para nossos filhos fazê-lo amanhã”, acrescentou Johnson, dando uma dimensão ainda mais exata do tamanho do problema. Ele terá 96 anos em 2060.

O presidente do Brasil, que tem 64 anos, preferiu não ir a Glasgow. Na abertura da COP, o país foi  representado por uma jovem indígena de Rondônia, que se apresentou assim: “Meu nome é Txai Suruí, eu tenho só 24, mas meu povo vive há pelo menos 6 mil anos na Floresta Amazônica. Meu pai, o grande cacique Almir Suruí, me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a Lua, o vento, os animais e as árvores. Hoje o clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo, nossas plantações não florescem como antes. A Terra está falando. Ela nos diz que não temos mais tempo”.

Por trás de sua aparente calma, os indígenas têm a exata noção da urgência da situação; quando também são jovens, têm menos travas na língua. “Precisamos tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais. Não é 2030 ou 2050, é agora!”, emendou Txai. Relembrando a primeira vez que viu a fumaça dos incêndios na Austrália chegarem ao seu território ancestral, a neozelandesa India Logan-Riley, do povo Maori, discursou no mesmo microfone usado pela brasileira e Boris Johnson: “Naquele momento, nossa vida foi afetada pelos impactos da mudança do clima em outro país”. Vanessa Nakate, jovem ativista de Uganda, lembrou que quem menos polui, paga mais caro: “Historicamente, a África é responsável por apenas 3% das emissões globais e ainda assim os africanos estão sofrendo alguns dos impactos mais brutais da crise climática”.

É um sentimento global, que não é exclusivo dos povos tradicionais: “São 30 anos de blá-blá-blá”, discursou em Milão, na Itália, a ativista sueca Greta Thunberg, para um grupo de 400 jovens de 200 países. Eles foram selecionados pela ONU para elaborarem um documento dirigido aos líderes mundiais, em evento paralelo à COP. O Fridays For Future, movimento inspirado em Greta, promoveu sua já tradicional passeata em Glasgow. Os jovens também eram a maioria entre as mais de 100 mil pessoas que enfrentaram o frio, o vento e a chuva para protestar contra a inércia dos governantes na Marcha pela Justica Climática, que aconteceu no sábado (6/11) na cidade escocesa. Não esperamos meias-palavras. Mais jovem também pode significar mais verde.

O governo brasileiro continua agindo como o comerciante espertalhão que dobra o valor da mercadoria para vendê-la pela metade do preço no dia da liquidação. Tropeçou na pedalada climática, mas se bobear a ausência do presidente acabou sendo benéfica para o país, que assinou importantes acordos multilaterais – o de zerar o desmatamento até 2030 e o de reduzir em 30% as emissões de metano, via pecuária, também até 2030 –, que ao menos servirão de âncoras até a próxima rodada de negociações. Também serviu para abrir novos canais de interlocução; na falta de Bolsonaro, o príncipe Charles marcou encontro com governadores brasileiros, por exemplo.

O presidente parece viver no mundo das mil e uma noites, enquanto o Reino Unido está entre os países que acreditam que poderão lucrar com a transição energética – sim, eles não fazem isso só porque são bonzinhos. O famoso biólogo americano Thomas Lovejoy, que criou o termo “biodiversidade”, dizia em 2016 que o Brasil poderia ser “a maior potência ambiental do planeta”. O cientista se dizia impressionado com o que o país havia feito nos 40 anos que o conhecia: “Existia apenas uma floresta nacional. Hoje, 57% da Amazônia está sob algum tipo de proteção”, dizia ele. De lá para cá, porém, o desmatamento vem crescendo em ritmo vertiginoso – a ponto de fazer o país seguir na direção inversa do resto do mundo, aumentando suas emissões de CO₂ durante a pandemia. Em nome de que estão abrindo mão de garantir um futuro melhor para as novas gerações? Por que o jovem brasileiro vai pagar esse pato?

Preservar as florestas têm custado muitas vidas também. Segundo o mais recente relatório da ONG Global Witness, nunca tantos ativistas ambientais foram assassinados como no ano passado: 228. Segundo o Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2020, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), os assassinatos entre indígenas no país cresceram 61%: foram registrados 182. Em debate realizado em Glasglow na quinta-feira (4/11), Juma Xipaia, uma das lideranças indígenas que lutaram contra a hidrelétrica de Belo Monte no Pará, foi firme: “Nunca nenhum povo indígena chegou impondo ou destruindo o lar de vocês, pelo contrário, nós defendemos o lar, a vida. Então respeitem a nossa existência”. Txai Suruí deu um exemplo concreto: “Enquanto vocês estão fechando os olhos para a realidade, o guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau, meu amigo de infância, foi assassinado por proteger a natureza”. Ari tinha só 32 anos e foi encontrado morto em 18 de abril de 2020.

Os povos tradicionais de todo o mundo cuidam de 80% da biodiversidade da Terra, mas só controlam 1% do orçamento global para a preservação. Ao menos esta distorção começou a ser corrigida nesta COP. Reino Unido, Noruega, Alemanha, EUA, Holanda e 17 doadores americanos se comprometeram em criar um fundo de US$ 1,7 bilhão até 2025 a ser administrado por indígenas. “É o princípio da proteção ao nosso povo, mas ele precisa de mais apoio. Não há solução para os problemas da natureza sem que os indígenas estejam no centro”, disse a ativista filipina Vitória Tauli-Corpuz, do povo Kankana-ey Igorot, ex-relatora especial da ONU para os direitos dos povos indígenas. Este é o ponto: é preciso que eles decidam. Para isso, precisam de toda ajuda possível. A Amazônia é importante para o mundo, mas é ainda mais importante para o Brasil. Sem ela não tem chuva, nem agricultura. É um tesouro que nos pertence e devemos deixar para as próximas gerações.

* Na foto: Juma Xipaia, Txai Suruí, Maria Gadu e Alice Pataxó. Crédito: Alice Pataxó.

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Este texto foi incialmente publicado pelo “Uma gota no oceano” [Aqui! ].

Novembro azul: Medo masculino de ir ao médico prejudica diagnóstico de câncer de próstata e outras doenças

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Sete em cada dez homens só vão ao médico por influência da mulher ou dos filhos, segundo dados do Ministério da Saúde. De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mesmo com coberturas similares dos planos de saúde, 82% das mulheres consultou um médico em 2019 contra 69% dos homens. E durante a campanha do Novembro Azul, que alerta para a prevenção do câncer de próstata, é importante destacar que o Inca (Instituto Nacional de Câncer) estima 65 mil novos casos da doença no triênio 2020-2022, cujas chances de cura são de 90% para diagnósticos precoces.

O diagnóstico tardio muitas vezes nos impossibilita de oferecer um tratamento adequado porque os sintomas da doença são mais difíceis de manejar do que alguns efeitos colaterais de tratamentos. Então é preciso haver conscientização para tentar diminuir o medo do homem e fazer com que ele entenda que a terapia hoje é adaptada para a pessoa e temos como fazer isso ficar mais tolerável sem perder a sua eficácia ou a qualidade de vida”, diz a médica oncologista Danielle Laperche.

unnamed (37)Danielle Laperche, médica oncologista

Enquanto 80% das mulheres faz acompanhamento frequente com o ginecologista, mais de 50% dos homens jamais consultou um urologista, segundo dados da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Estudo realizado por pesquisadores do Instituto Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz, com homens com vários níveis de escolaridade mostrou que, além de amarras culturais, como o preconceito com práticas de autocuidado, o medo de descobrir uma doença grave e a vergonha de expor o corpo são fatores que mantém os homens longe dos consultórios.

Novembro azul e fatores de risco

Um a cada seis homens irão desenvolver câncer de próstata ao longo da vida e o diagnóstico precoce aumenta muito as chances de cura da doença. Hoje, a prescrição do tratamento depende do estágio, do histórico, do tipo e agressividade do tumor. Os fatores de risco são os mesmos para outros tipos de tumores: sedentarismo, obesidade, alimentação inadequada, dietas ricas em gordura, carnes vermelhas e carboidratos. Além disso, idade acima de 60 anos, histórico familiar e homens negros tem mais chances de desenvolver a doença mais agressiva.

O ideal é fazer exames de rastreamento, como o toque retal, feito pelo urologista, e o exame de sangue do marcador PSA. Em casos suspeitos é realizada a biópsia. Sintomas como a piora da força do jato urinário, dificuldade para urinar, necessidade de urinar muitas vezes em um período de tempo curto, acordar a noite para urinar, sangramento ou obstrução do canal aparecem quando a doença está avançada”, finaliza Laperche.

Novos tratamentos mantêm qualidade de vida

O câncer de próstata é um dos tipos de tumor para os quais houve maior desenvolvimento de novas drogas e novas terapias nos últimos anos. “É importante a população saber dessas possibilidades até para não ter tanto medo de enfrentar o diagnóstico e o tratamento da doença porque conseguimos boa manutenção da qualidade de vida”, afirma a oncologista.

“Dependendo do estágio, avaliamos caso a caso e adequamos a melhor opção de cada tratamento de acordo com cada histórico, tipo e agressividade do tumor e extensão da doença; se está localizado na próstata ou se já saiu da próstata. Isso vai ser adequado de acordo com cada tipo de paciente, levando em conta suas crenças e medos em relação à cada terapia. Mas a verdade é que temos como fazer muitos ajustes e adaptações para o tratamento se tornar o mais adequado possível porque tratamos o paciente não a doença somente”, explica Laperche.

Além da necessidade de abordagem cirúrgica que será avaliada em cada caso, o médico pode avaliar também a necessidade de radioterapia localizada na próstata ou lançar mão de tratamentos que cada vez menos envolvem quimioterapia. As terapias hormonais com medicações orais têm apresentado resultados excelentes em função das novas drogas já aprovadas pela Anvisa.