Wladimir Garotinho: A renovação de uma tradição, ou Wlad 4.0 Reloaded

Por Douglas Barreto da Mata

Há algum tempo atrás, no meio da campanha eleitoral em 2024, quando se questionava a força eleitoral do atual Prefeito Wladimir Garotinho, em meio aos desgastes naturais de uma eleição contra as forças políticas personificadas no Presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, eu me lembro de ter escrito algo do tipo:  “Wladimir conseguiu renovar o legado de seu sobrenome, e se tornou mais que um herdeiro político do casal de governadores, aliás, os únicos eleitos pelo interior na história do RJ, após a fusão.”

O Prefeito de Campos dos Goytacazes conseguiu imprimir uma marca própria, um estilo pessoal e único que, gostem ou não, permitiu uma vitória acachapante em 2024. Claro que o prefeito de uma cidade polo regional é, por natureza, um ator importante no cenário estadual.

Esse reconhecimento se deu de várias formas. Os aliados animaram-se com a hipótese da região ter novamente o peso político aumentado. Os adversários passaram às tentativas de bloquear a expansão da influência política do prefeito campista, a todo custo, seja impedindo que seu nome fosse colocado nas pesquisas de intenções de votos, seja com a retenção de recursos necessários à gestão local, e devidos pelo Estado.

Teve até, recentemente, o veto do Presidente da República a um projeto de lei do então deputado federal Wladimir, o que não seria estranho, caso não tivesse sido o próprio líder do governo Lula no Senado, Jacques Wagner, que tivesse articulado a aprovação unânime.

O que os movimentos políticos dos adversários e o desejo dos aliados pareciam antecipar é o que disse a pesquisa mais recente de intenções de voto, divulgada hoje. Eu tive acesso a todos os dados. Tem uma variável bem importante, que geralmente é desprezada nas análises mais afobadas. A rejeição.

O mais rejeitado é o ex-governador Witzel, com 21, 1%, seguido de Eduardo Paes, com 18, 6%, e em terceiro, bem abaixo, Wladimir Garotinho com 8,5%.  Aqui chamamos sua atenção para a enorme rejeição de Eduardo Paes, quase equiparada a de Witzel, o que não é pouca, mas também se explica pela exposição permanente do prefeito carioca, e talvez uma repulsa do eleitorado fluminense pela sua proximidade com o PT e Lula.

Já Wladimir Garotinho apresenta uma rejeição baixa, e não se trata de ser desconhecido, já que o seu sobrenome tem um enorme recall no Estado, e dizem os detratores, é uma memória negativa, em grande parte pela história de seu pai, Anthony Garotinho.  Apesar de carregar o garotinho no sobrenome, Wladimir é pouco rejeitado.

Essa baixa rejeição, associada a um segundo lugar mas intenções de votos, mesmo não tendo seu nome colocado na arena dos pretendentes, senão como coadjuvante dessa ou daquela chapa, como vice, e sendo a segunda pesquisa que seu nome é posto para o eleitor, revelam uma condição promissora para Wladimir Garotinho, além de outras circunstâncias, como:  Personifica o diálogo, o centro, a conversa com vários Campos ideológicos, mas não abre mão de sua identificação política e religiosa, sem recorrer a extremismos. Quando instado a defender suas posições, faz com firmeza, como na questão do veto presidencial, sem perder de vista o diálogo que favorece a todos, cedendo para ganhar, ou, não perder. 

O perfil parece encaixar como uma luva no vácuo de projetos de poder de centro no RJ, e se unificar essa plataforma com a Baixada, como fez seu pai, quando se elegeu governador, estaremos na presença de um forte concorrente. 


Este texto reflete a opinião pessoal do autor e não reflete nenhum tipo de alinhamento editorial deste blog.

O destino precário da universidade (brasileira)

Entre a tragédia e a utopia, a universidade inacabada revela-se como espelho de um país fraturado – mas também como campo de batalha onde a dependência pode ser contestada e reinventada

Imagem: musicFactory lehmannsound

Por João Reis da Silva Junior para “A Terra  é Redonda”

1.

A universidade brasileira sempre se apresentou como uma promessa de futuro, uma instituição capaz de carregar no seu interior as contradições de um país marcado pelo capitalismo dependente. No entanto, como mostra Universidade inacabada: razão e precariedade, essa promessa nunca se cumpriu de modo integral.

A razão de ser da universidade no Brasil é atravessada por um duplo movimento: de um lado, o desejo de modernização e integração internacional, de outro, a reprodução da desigualdade estrutural que marca nossa formação social. Esse movimento faz da universidade uma instituição permanentemente incompleta, incapaz de realizar plenamente sua função social, mas sempre mobilizada em torno da esperança de que o inacabamento um dia se resolva.

A ideia de precariedade, no livro, não é meramente um diagnóstico sobre as condições de trabalho docente ou sobre a fragilidade das políticas públicas de financiamento. Trata-se de uma categoria que exprime a própria condição histórica da universidade no Brasil, atravessada pela dependência econômica, pela subordinação intelectual e pela captura de sua agenda por interesses externos ao projeto de emancipação nacional.

A precariedade é estrutural, não conjuntural, e por isso não pode ser resolvida por medidas superficiais. A universidade é fraturada em sua origem porque o país em que se inscreve é fraturado em sua formação.

O capitalismo dependente exige da universidade funções específicas, que não são as mesmas do centro. No lugar de se consolidar como espaço de plena produção de conhecimento autônomo, ela é chamada a atender às demandas de adaptação tecnológica, de qualificação mínima da força de trabalho e de legitimação de políticas estatais de controle social. A precariedade aparece como marca constitutiva porque o horizonte estratégico da universidade é limitado pelos imperativos de uma sociedade cujo desenvolvimento não é soberano, mas subordinado às cadeias globais de valor.

Esse traço estrutural é também cultural. A universidade brasileira convive com a dualidade de uma elite acadêmica que busca reconhecimento internacional, submetendo-se a rankings e padrões globais, e de uma massa estudantil que acessa o ensino superior em condições de desigualdade brutal. A universidade inacabada é, nesse sentido, a materialização daquilo que Francisco de Oliveira chamou de razão dualista: uma modernização que nunca se universaliza, que produz ilhas de excelência cercadas de oceanos de exclusão. A precariedade não é apenas falta de recursos, mas também falta de integração orgânica entre universidade e sociedade.

2.

O livro mostra como essa situação gera uma profunda contradição no interior da instituição. Por um lado, há professores e pesquisadores capazes de produzir ciência de alto nível, disputar editais internacionais e dialogar com o estado da arte de suas áreas. Por outro, há salas de aula sucateadas, bibliotecas desatualizadas, servidores precarizados e estudantes que enfrentam fome, transporte precário e dificuldades de permanência. A convivência desses dois mundos dentro da mesma instituição faz da universidade um espaço de permanente tensão entre excelência e abandono.

A expansão do ensino superior nas últimas décadas intensificou essa dualidade. Políticas como o Reuni abriram vagas e criaram novos campi, mas sem garantir as condições materiais equivalentes para que a universidade pudesse sustentar a qualidade acadêmica prometida. Assim, a precariedade ganhou uma nova face: a expansão sem infraestrutura adequada. A universidade cresce, mas cresce capenga, incapaz de assegurar a mesma densidade científica em todos os seus espaços.

Esse processo está vinculado à financeirização do Estado e da própria educação. A universidade é chamada a funcionar sob a lógica da eficiência gerencial, da produtividade medida em números e da captação de recursos externos. Em vez de ser financiada pelo fundo público como direito social, passa a depender de parcerias, convênios e editais que submetem sua agenda de pesquisa a interesses do mercado e de organismos internacionais.

O conhecimento deixa de ser tratado como bem comum e passa a ser mercadoria, avaliada por indicadores e rankings que traduzem prestígio acadêmico em ativo simbólico e financeiro.

O resultado é a intensificação da alienação do trabalho docente e da vida estudantil. Professores se veem obrigados a publicar em revistas indexadas de alto impacto, muitas vezes alheias à realidade nacional, apenas para garantir pontuação nos sistemas de avaliação. Estudantes são pressionados a concluir seus cursos rapidamente, com pouco espaço para reflexão crítica, porque a lógica do mercado exige produtividade e empregabilidade. Nesse contexto, a universidade deixa de formar sujeitos capazes de transformar a sociedade e passa a treinar mão de obra adaptável às exigências do capital.

Ao mesmo tempo, a precariedade se manifesta na subjetividade. O adoecimento docente, a sobrecarga de trabalho, o cansaço permanente e a ansiedade estudantil são sintomas de uma instituição que perdeu parte de sua vitalidade crítica. A universidade, que deveria ser espaço de criação e liberdade intelectual, torna-se espaço de cobrança, controle e vigilância permanente. Essa é uma das faces mais perversas do inacabamento: a captura da subjetividade pela lógica da performance acadêmica.

3.

A crítica central do livro é que essa condição não é acidental, mas estrutural. A universidade inacabada é a expressão da sociedade inacabada. O Brasil, enquanto país dependente, organiza suas instituições de modo a reproduzir a lógica da subordinação. A universidade é chamada a legitimar esse processo, ao mesmo tempo em que abriga em seu interior focos de resistência e insurgência. Ela não é apenas vítima, mas também agente da reprodução da dependência.

A resistência, contudo, está presente. Professores que insistem em formar criticamente, estudantes que se organizam em movimentos sociais, iniciativas de extensão que buscam diálogo com comunidades populares. Esses são sinais de que a precariedade não esgota o potencial transformador da universidade. O inacabado, paradoxalmente, abre espaço para a insurgência. Porque o que não está concluído pode ser retomado, refeito, reinventado.

A universidade inacabada, então, é ao mesmo tempo tragédia e possibilidade. Tragédia porque mostra o quanto as estruturas da dependência aprisionam a instituição. Possibilidade porque revela que nada está definitivamente selado: o futuro ainda pode ser disputado. É nesse ponto que o livro encontra sua densidade crítica.

O argumento se fortalece quando consideramos a temporalidade. A universidade brasileira vive em permanente atraso em relação ao centro capitalista, mas esse atraso não é apenas defasagem técnica; é parte do mecanismo da dependência. O atraso é produzido e mantido para que o país ocupe lugar subalterno no sistema mundial. A universidade inacabada é, portanto, a expressão acadêmica desse atraso estrutural.

Mas, ao mesmo tempo, o inacabamento permite a emergência de experiências singulares. A convivência entre tradição e precariedade gera formas híbridas de produção de conhecimento, que podem dar origem a caminhos inéditos. A questão é se esses caminhos serão apropriados pela lógica do capital ou se poderão se converter em alternativas emancipatórias.

É aqui que o livro propõe uma crítica profunda à ideia de modernização acadêmica. Modernizar, no Brasil, muitas vezes significou apenas importar modelos estrangeiros, sem considerar as condições concretas da nossa sociedade. Essa importação acrítica reforça a dualidade: cria centros de excelência à custa de periferias acadêmicas abandonadas. A universidade inacabada é, portanto, também vítima da ilusão da modernização conservadora.

4.

Um elemento decisivo é o trabalho. A análise do livro mostra como a precarização do trabalho docente e técnico-administrativo se tornou regra. Contratos temporários, terceirizações, sobrecarga de tarefas burocráticas e exigências de produtividade corroem a qualidade da vida universitária. Essa degradação do trabalho é funcional ao capitalismo dependente, pois garante uma universidade barata, eficiente em termos de custo, mas incapaz de sustentar uma formação plena e emancipatória.

Por outro lado, o livro ressalta que a precariedade do trabalho não apaga a centralidade do professor como figura que carrega a missão de manter viva a chama crítica da universidade. Mesmo exausto e alienado, o professor ainda é depositário de um saber que pode se converter em resistência. O inacabado, nesse sentido, é também chamado à responsabilidade: não se pode abandonar a luta pelo sentido público da universidade.

A relação entre universidade e Estado é outro ponto fulcral. O Estado brasileiro, especialmente sob as políticas neoliberais, trata a universidade como gasto, não como investimento. O novo arcabouço fiscal, a austeridade e as reformas administrativas corroem a base material da instituição. A universidade é convidada a buscar no mercado aquilo que deveria receber do fundo público. Esse movimento transfere para dentro da instituição a lógica da mercadoria e aprofunda sua condição de inacabada.

Ao mesmo tempo, o livro mostra que o Estado não é apenas agente de destruição. Em momentos específicos da história, como nas políticas de expansão, houve também reconhecimento da importância da universidade. Mas esse reconhecimento foi sempre parcial, contraditório, subordinado a interesses imediatos e eleitorais. Nunca houve um projeto de Estado capaz de consolidar a universidade como bem público universal.

A universidade inacabada é, assim, reflexo da ausência de um projeto nacional de desenvolvimento autônomo. Sem esse projeto, a instituição é condenada a viver na precariedade, oscilando entre avanços tímidos e retrocessos brutais. Sua condição é sempre instável, sempre sob ameaça, sempre incompleta.

No entanto, o livro insiste que é nesse terreno instável que podem nascer alternativas. A universidade inacabada pode ser também universidade insurgente. Quando os sujeitos reconhecem que a precariedade é estrutural e não acidental, podem transformar o inacabamento em espaço de luta. O que parecia fraqueza torna-se possibilidade.

Essa insurgência não virá de cima, mas de dentro. Do cotidiano docente, da mobilização estudantil, da extensão que se abre aos territórios, da pesquisa que recusa ser apenas mercadoria. O inacabado pode ser transfigurado em força criadora, desde que haja consciência crítica e ação coletiva.

O núcleo do livro está nessa dialética entre tragédia e possibilidade. A universidade é inacabada porque vive sob a lógica da dependência e da financeirização. Mas é inacabada também porque ainda pode ser feita, refeita, reinventada. O inacabamento é denúncia e convocação.

Ao concluir, percebe-se que a obra não oferece uma solução fácil ou imediata. Ela nos lembra que a luta pela universidade pública é inseparável da luta por um país soberano. Sem romper a dependência, a universidade continuará inacabada. Mas sem lutar pela universidade, também não haverá condições para romper a dependência. Trata-se de uma contradição que exige compromisso político e intelectual de longo prazo.

*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP]

Referência


SILVA JÚNIOR, João dos Reis. Universidade inacabada: razão e precariedade. Campinas: Mercado de Letras, 2025.


Fonte:  A Terra é Redonda

Com o “agro” é assim: o lucro é todo meu, o prejuízo é todo de vocês

Crescem pedidos de recuperação judicial no agronegócio goiano - Empreender  em Goiás

Todos os brasileiros estão acostumados a ouvir a cantilena de que o agro é isso, o agro é aquilo, e que o agro carrega o Brasil nas costas.  A verdade, porém, é que o Brasil, principalmente os brasileiros pobres, carrega o agro nas costas, normalmente com subsídios diretos e indiretos, e com financiamentos para lá de generosos.

A crise que engolfa o Banco do Brasil por causa do calote gigantesco que seus clientes do “agro” estão dando apenas demonstra isso de forma que não se pode esconder.  Assim, notícias publicadas pela mídia corporativa dão conta que neste momento o Banco do Brasil possui nada menos que 20 mil devedores ligados ao “agro”, o que está derrubando as suas taxas  de lucro, a instituição publiciiuzou uma queda de 60% no lucro, que caiu para R$ 3,8 bilhões, na última quinta-feira (14/8).  E isso não é fortuito, na medida em que o Banco do Brasil é responsável por metade do financeiro do “agro” brasileiro.

Um pimenta a mais nessa situação preocupante para o principal banco público brasileiro é que parte dos devedores do “agro” está se aproveitando de forma maliciosa de uma mudança feita na legislação do instituto da recuperação judicial (RJ) para não pagar suas dívidas. O truque implica em utilizar a RJ sem antes tentar renegociar suas dívidas diretamente com o Banco do Brasil. De quebra, escritórios de advocacia estariam fazendo propaganda em redes sociais para que os produtores não paguem suas dívidas e os contratem para cuidar da RJ.

Como a já apontou a Coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lúcia Fatorelli, em um estudo feito em 2021,  a análise dos orçamentos públicos de todas as esferas – federal, estadual e municipal – mostra que a participação do agronegócio no financiamento do Estado é negativa, devido às inúmeras isenções e subsídios, incentivos fiscais etc. de tal maneira que os tributos arrecadados do setor são próximos de zero. 

Agora com esse calote gigantesco que está sendo cometido contra o Banco do Brasil, a coisa fica ainda mais explícita, pois já não se trata mais de não contribuir com o financiamento do Estado, mas de ser uma fonte gigantesco de drenagem de recursos. Afinal de contas, quem tem dúvidas que esse calote vai acabar sendo assimilado “pela viúva”, ao custo de um maior empobrecimento da classe trabalhadora?

O fato é que com o “agro” é assim: o lucro é todo meu, e o prejuízo é todo de vocês.

E antes que eu me esqueça: o que será que apareceria se uma auditoria pública fosse feita de todos os empréstimos que agora estão inadimplentes? Quantos desses empréstimos foram realmente usados para o fim para o qual foram tomados (isto é, o financiamento dos plantio e colheita) e quantos foram usados em atividades diversas? Algo me diz que muito desse dinheiro foi parar em outras coisas, inclusive especulação no mercado financeiro.

Butantan: Nova proposta permite derrubada de Mata Atlântica e instalações industriais em toda a área

O governador de SP Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes, que desdenharam da vacina, agora saem em defesa para aprovar projeto mal explicado e afinado com seus interesses políticos

Protesto contra desmatamento: “Vacina, sim. Mas com sustentabilidade” – Foto: Daniel Garcia/Adusp

Por Cida de Oliveira*

O trator da devastação da floresta urbana no Instituto Butantan ganhou mais potência nesta semana. Na segunda (11), ambientalistas, moradores, vereadores da oposição e servidores foram surpreendidos com a publicação de uma nova proposta do prefeito de São Paulo, o bolsonarista Ricardo Nunes (MDB). Na minuta de substitutivo ao Projeto de Lei (PL) 691/2025, de sua autoria, ele autoriza instalações industriais em toda a área do Instituto Butantan, localizado no bairro de mesmo na zona oeste da capital paulista, ao lado da Cidade Universitária (USP).

Conforme o vereador Nabil Bonduk (PT), integrante da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente da Câmara, o texto é “inaceitável”. E piora o projeto original, aprovado em primeira votação em junho. Isso porque:

  • Libera loteamento de todo o terreno do instituto Butantan;
  • Permite o corte de toda a vegetação, já que a prefeitura não considera a Mata Atlântica em estado médio ou avançado de regeneração existe na área;
  • Legaliza os prédios problemáticos já em funcionamento, que estão incomodando a população devido ao barulho, e permite que sejam ampliados;
  • O substitutivo difere completamente de mapa já apresentado, que limitava desmatamento às áreas onde já estão os prédios; agora libera cortes em todo terreno do instituto;
  • Permite atividades industriais de alto potencial para incomodar os moradores do entorno;
  • Autoriza ruídos até 65 decibéis, índice para área industrial; e
  • Libera até eventos no local.

“É importante o Instituto ampliar a produção de vacinas, mas isso precisa estar compatibilizado com a proteção ambiental e sem prejudicar a vizinhança”, disse Bonduki. O vereador, que dialogou com todas as partes envolvidas, elaborou um substitutivo que possibilitava a ampliação fabril, mas restrita à área do atual complexo industrial, e com prédios mais altos. Isso para não devastar o bosque que inclui exemplares da Mata Atlântica. Obteve apoio das bancadas do PT, PSB e Rede, mas não foi acolhido pela Câmara. Segundo o mandato, ainda há diálogo em busca de um substitutivo capaz de garantir a proteção ambiental e da vizinhança.

Vacina sim, mas com sustentabilidade

Na avaliação do Movimento SOS Instituto Butantan, o projeto e a minuta de substitutivo são uma tentativa clara de viabilizar o plano diretor do Instituto Butantan, carregado de ilegalidades de natureza ambiental, urbanística, social e sanitária. Em nota de repúdio, o grupo apontou “a falta de lealdade e de transparência” do diretor do instituto, o médico Esper Kallás. Em audiência pública no último dia 5, ele disse que o plano previa o corte de aproximadamente 6.600 árvores, o que foi reduzido para 1.550 exóticas e 150 nativas. E na véspera, em entrevistas à grande mídia, ele havia assumido compromisso de preservação do restante da área do Instituto.

“Nos bastidores, pelo visto, já se preparava um outro substitutivo para viabilizar a execução completa do Plano Diretor original e muito mais. A notícia em audiência pública e que ganhou manchetes, então, não era verdadeira? Seria só uma estratégia para captar a simpatia do espectador e da mídia?”, questiona o movimento na nota. Ο SOS Instituto Butantan voltou a defender que a construção de fábricas para a produção de vacinas contra a dengue, gripe aviária e vírus sincicial seja realocada para uma outra área, em outro ponto, devido aos riscos que representa. “E eventual atraso na produção de vacinas, se há ou se haverá, não pode ser imputado à sociedade civil, mas será resultado da falta da Fundação e do Instituto Butantan, que há anos resistem em adotar procedimentos legais obrigatórios que já lhes teriam rendido condições de ter alcançado seu objetivo institucional”, disse o movimento, que reitera a defesa da vacina e da sua produção, mas em local adequado.

Se não fossem sórdidos, os pontos do projeto de licença para o crime ambiental ainda estão em desacordo com o seu próprio relatório de sustentabilidade, referente a 2023. Segundo a publicação oficial, “a flora e a fauna do Instituto Butantan são predominantemente típicas da Mata Atlântica, destacando-se tanto as árvores centenárias que compõem o ambiente arbóreo, como o cedro-rosa e o jatobá, quanto a diversidade de mamíferos, aves e répteis que habitam suas dependências”. E que o parque do instituto “se destaca por agir sobre o microclima local e a possibilidade de lazer e contato com a natureza”.

Além disso, ainda segundo o documento, a vegetação conta com espécies de árvores nativas e exóticas, com valor histórico significativo e de importância “para a manutenção das demais espécies, além de contribuir para um ambiente mais saudável e para o bem-estar da comunidade nas proximidades”. Mais: tem papel fundamental “na manutenção de processos ecológicos essenciais e no abrigo de populações remanescentes de animais e plantas nativas”, servindo de abrigo e fonte de recursos para a fauna local e descanso e alimentação para espécies migratórias.

Segundo o relatório, há no local espécies arbóreas típicas, como cedro-rosa, jatobá, angico-branco, paineira, figueira-branca, com mais de 100 anos e significativo valor histórico e ambiental, “tanto para o Instituto quanto para a Mata Atlântica Paulistana”. Quanto à fauna local, abriga mamíferos como o gambá-de-orelha- -preta, preá, sagui, tatu-galinha e esquilo, entre outros, com funções essenciais ao habitat. Há ainda mais de 60 espécies de aves, como a rolinha, asa-branca, beija-flor-tesoura, tucano-de-bico-verde, pica-pau-de-cabeça-amarela, carcará, periquito-verde, joão-de-barro, bem-te-vi e sabiá-laranjeira, entre outros. E também espécies de répteis e anfíbios.

Reunião da tropa de choque

Combinada com a apresentação da proposta nefasta, na mesma segunda-feira o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) reuniu no Palácio dos Bandeirantes o prefeito Nunes e seus vereadores aliados. Muito provavelmente para pressionar a aprovação dos planos governamentais para o Butantan “em nome da vacina”, já que a pressão popular ganha força. E também porque o PL do prefeito passou em votação no primeiro turno com 33 votos favoráveis, seis contrários e oito abstenções. Embora sejam necessários 28 votos, a votação foi considerada apertada.

Um dos vereadores presentes, Danilo do Posto de Saúde (Podemos) festejou a reunião. Em seu post em uma rede social, destacou a participação em encontro para discutir “importante projeto de ampliação da produção de vacinas do Instituto Butantan que devemos votar na Câmara nos próximos dias”. O tom eufemista do parlamentar que sempre votou a favor dos interesses da gestão e contra o dos trabalhadores da sua categoria, aliás, foi ofuscado por um leitor. Em seu comentário, lembrou o posicionamento antivacina de Tarcísio e Nunes. “Eu hein, vão pensando que esqueci em quem esses dois apoiam. Quem era contra vacina e oferecia cloroquina enquanto 700,000 morriam. Contra fatos não existem argumentos.”

 Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes chamaram vereadores para reunião no Palácio dos Bandeirantes, como Danilo do Posto de Saúde (Podemos) para tratar da aprovação da ampliação do Butantan

Em outubro de 2024, durante campanha que o elegeu prefeito, Nunes reafirmou ser contra o passaporte de vacina da covid-19, uma exigência criada pela prefeitura no início de 2022 em eventos realizados na capital. “Imagina você ter que ter um documento para ir a uma missa, ir a um culto, ir a um restaurante. Acho que isso não tem sentido”, disse. Dias antes, afirmou ser contra a obrigatoriedade da vacina em participação no podcast do também bolsonarista Paulo Figueiredo. O empresário ligado à extrema direita é o mesmo parceiro de Eduardo Bolsonaro em suas incursões contra o Brasil junto a autoridades dos Estados Unidos. “Tenho muita tranquilidade, depois de toda experiência, e tenho humildade para te falar que hoje sou contra a questão da obrigatoriedade [da vacina]”.

Embora tenha classificado recentemente como erro o discurso contra vacinas do então presidente Jair Bolsonaro (PL), o governador Tarcísio, bolsonarista, chegou a dizer em entrevistas ser contra a obrigatoriedade. “Acreditamos na vacina, vamos ter uma política de estímulo à vacinação, de conscientização de pais e mães. Mas entendo que a vacina não deve ser obrigatória. Devemos despertar a consciência”, Tal posicionamento, que desestimula pais a levarem seus filhos aos postos de vacinação, está entre as causas da perigosa redução da cobertura vacinal no Brasil.  Coerentemente, o governador vetou, em setembro de 2023, um projeto de lei para ampliação da prevenção do HPV, levando para as escolas a vacinação de crianças e adolescentes contra o vírus. O projeto havia sido apresentado pelas deputadas Marina Helou (Rede), Edna Macedo (Republicanos), Delegada Graciela (PL) e Patrícia Gama (PSDB). Ao vetar, Tarcísio alegou que já havia em execução políticas nesse sentido.

Ex-negacionistas antivacina

De uns tempos para cá, porém, os gestores dão sinais de que mudaram de opinião. E até apresentam e defendem a aprovação de mudanças na lei, que permitem até devastação ambiental, em nome da ampliação da produção de vacinas. Mas chama a atenção que esse discurso em favor do Instituto e sua importância para a saúde, não inclua ações para reverter o desmonte do instituto em curso há tempos, nem para recuperar os salários dos seus pesquisadores, defasado há pelo menos uma década em relação ao de outros órgãos, como a Fiocruz.

Novamente na mira de privatização na gestão João Doria, o centenário centro de pesquisa saiu ileso devido à pandemia. O então governador percebeu que importar uma vacina contra a covid-19, envasando e distribuindo com o selo Butantan, vinculado ao estado de São Paulo, traria mais dividendos políticos do que privatizar.

O fantasma da privatização voltou com o governador bolsonarista, que entregou a Sabesp e tem outros processos avançando. Curiosamente, em abril do ano passado seu governo colocou o Butantan em uma lista de 200 bens públicos a serem vendidos em um site para anunciar imóveis à venda, criado em 2016 com a aprovação da lei que permite a venda de bens públicos. O caso foi denunciado pela Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado (APqC), que representa pesquisadores do Butantan e outros órgãos. E acabou retirado do ar após a repercussão negativa. O governo Tarcísio alegou que houve um erro técnico, que publicou informações descontextualizadas. A APqC não caiu na conversa e acredita que o que ocorreu, na verdade, foi a realização de uma pesquisa de mercado por parte do governo de SP.

Privatização velada

Seja como for, há entre os pesquisadores antigos do Butantan a avaliação de que o instituto já vive um processo velado de privatização desde a criação da Fundação Butantan, em 1989. De direito privado, a fundação criada para gerir o instituto do ponto de vista financeiro e administrativo tem atualmente cerca de 3.500 empregados. Já o instituto, com perto de 400 servidores, convém à fundação por seu caráter público. Com o passar do tempo, a fundação não investiu no instituto. E apenas em si mesma.

A fundação, aliás, vive no radar de órgãos de fiscalização, como o Ministério Público, que já recomendou a preservação das árvores. E também o Ministério Público de Contas do estado. O procurador José Mendes Neto, que já reprovou contas da Fundação Butantan e por isso passou a estudar a relação Fundação-Instituto. Em audiência pública na Assembleia Legislativa (Alesp) em novembro passado, destacou absurdos, como salários acima do teto do funcionalismo na fundação. E a impossibilidade de estabelecer onde termina o público e começa o privado nessa relação.

Segundo ele, o desequilíbrio no número de funcionários e o faturamento com venda de vacinas e outros imunobiológicos, deixam claro a inconstitucionalidade da relação. Em 2015, o instituto tinha 688 servidores e 847 vagas a serem preenchidas por concurso, o que há muito não realiza. Já a fundação tinha naquele ano 1.298 empregados atuando no instituto. “A fundação virou um braço para atuar onde deveria ter funcionários públicos concursados”, disse.

Em 2018, eram 1.531 celetistas na fundação. Em 2022, no período pós-covid, eram 3.352 empregados no complexo Butantan. “O instituto tinha 415 estatutários. Hoje menos de 400 servidores, muitos em vias de se aposentar”.

Fundação inconstitucional

Quanto ao faturamento, em 2015 a fundação teve um bruto de R$ 1,259 bi. E em 2018, R$ 1,796 bi. Na ocasião ele não tinha dados sobre 2021, auge da remuneração com a venda da vacina contra a covid. Mas estimou que, em 2022, esteve em torno de R$ 3,337 bi.  “Como um órgão público, que não tem personalidade jurídica, o instituto é uma UGE (Unidade Gestora Executora) da Secretaria Estadual de Saúde de SP, junto com a Fundação Butantan, que é uma associação sem fins lucrativos, pode ter um faturamento de bilhões com a venda de vacinas e biofármacos, concorrendo com empresas imensas do ramo farmacêutico?”, questionou.

E emendou: “Afirmo: essa relação é inconstitucional. Porque quando o estado intervém na economia, explorando atividade econômica e a produção de vacinas, concorrendo com o setor privado, ele só pode fazer de duas formas, conforme o artigo 173 da Constituição federal. Ou por sociedade de economia mista ou empresa pública. Não existe na Constituição a ideia de que um órgão público misturado a uma associação privada sem fins lucrativos tenha atividade empresarial tão grande e tão lucrativa”, disse. 

Essa corrida para a derrubada de exemplares de Mata Atlântica, protegidas e tombadas, em nome da alegada ampliação fabril do Butantan, permite muitas indagações. Entre elas, a possibilidade de esse projeto sair do papel com a mesma rapidez com que querem passar seu trator. Em razão da burocracia e da falta de recursos, a Fiocruz enfrenta dificuldades para avançar em seu Complexo Industrial de Biotecnologia (Cibs). Segundo Acordão do TCU, as obras iniciadas em 2009 foram paralisadas logo que começaram, em um distrito industrial no distante bairro de Santa Cruz, no Rio, que lembra um pasto. Há apenas alicerces para os 46 prédios projetados para fabricar imunizantes. Ainda não há previsão de retomada das obras.

Leia também: Boiada: Projeto de expansão do complexo Butantan avança sobre floresta tombada


*Cida de Oliveira é jornalista

As camas caras de Belém colocam o risco de uma FIASCOP 30 em novembro

“FIASCOP 30”: Cúpula sobre proteção climática na Amazônia ameaça fracassar devido aos preços exorbitantes de hospedagem 

Criando novas acomodações de última hora: Trabalhadores constroem um hotel em Belém (16 de julho de 2025). Foto: Wagner Santana/REUTERS

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

A próxima Cúpula do Clima da ONU (COP 30), na cidade portuária de Belém do Pará, parece condenada desde o início. O motivo: preços absurdamente altos de hospedagem. Em vez da “melhor COP de todos os tempos”, como prometido pelo presidente brasileiro Lula da Silva, a metrópole amazônica pode sofrer um fiasco. O colunista brasileiro Lorenzo Carrasco, da Gazeta do Povo , já apelidou a cúpula do clima planejada para 10 a 21 de novembro em Belém de “FIASCOP 30”.

Segundo relatos da mídia, os proprietários aumentaram dez vezes, e em alguns casos cem vezes, os preços das diárias para os cerca de 50.000 participantes esperados da COP 30 em Belém, chegando a até € 2.000. Por exemplo, um motel em Belém aumentou a diária de cerca de € 11 em mais de 3.000% para € 364. Um valor alto demais para delegados de países mais pobres, organizações não governamentais e até mesmo para a Áustria. O presidente federal da Áustria, Alexander Van der Bellen, já anunciou que não viajará para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas no Brasil – devido aos “custos particularmente altos desta vez”. Eles estão “fora do orçamento apertado do gabinete presidencial”, explicou.

Já no final de julho, cerca de 100 dias antes da COP 30, alguns estados do grupo dos países menos desenvolvidos (PMDs), juntamente com outros 27 países, incluindo Bélgica, Canadá, Noruega, Holanda e Suécia, chegaram a solicitar, em carta às Nações Unidas, a transferência da cúpula para outra cidade no Brasil, caso a atual escassez de acomodações adequadas e acessíveis não fosse rapidamente resolvida. As diárias não poderiam exceder US$ 164, “de acordo com o subsídio diário estabelecido pelas Nações Unidas”. “Somos todos servidores públicos responsáveis perante os contribuintes e não podemos justificar o gasto do equivalente à nossa renda anual para participar da COP 30”, afirma a carta.

Em declarações à imprensa, Evans Njewa, presidente do grupo de 44 países menos desenvolvidos (PMD), criticou o fato de os países mais pobres serem os mais afetados pela crise climática, apesar de terem contribuído pouco para o aquecimento global. A perspectiva de muitos desses países serem excluídos da COP 30 devido a obstáculos logísticos não seria apenas lamentável, mas também representaria uma grave falta de inclusão e equidade.

A organização não governamental brasileira Observatório do Clima também alerta que a ausência de um país pode ter consequências graves para a cúpula. Países cujas delegações forem reduzidas e, portanto, impossibilitados de participar dos debates podem contestar as resoluções e alegar, com razão, que o país anfitrião impediu sua participação.

Embora o governo brasileiro já tenha arrendado dois navios de cruzeiro, o MSC Seaview, da companhia marítima belga MSC Cruzeiros, e o Costa Diadema, de bandeira italiana, com um total de cerca de 6.000 leitos, isso é apenas uma gota no oceano e também muito caro. Segundo dados oficiais, um teto de preço de cerca de US$ 220 por noite se aplica a delegações dos 98 países mais pobres nos navios. Outros países precisam desembolsar até US$ 600 por uma cabine.

O chefe do comitê organizador brasileiro da conferência, o presidente da COP 30, André Corrêa do Lago, rejeitou claramente a mudança de local. Não há um “Plano B”. Belém sediará a COP, garantiu ele. Enquanto isso, mais de 20 organizações ambientais, de proteção climática e de juventude exigem “acomodações gratuitas” para jovens organizações da sociedade civil e, sobretudo, para ativistas das populações e áreas mais afetadas pelas mudanças climáticas (MAPA, Most Affected People and Areas, jW ), em locais razoavelmente próximos ao local e de fácil acesso por transporte público e ônibus da COP.

“Em vez de um evento global e multicultural, corre-se o risco de uma COP exclusiva para os ricos, a indústria, os países produtores de petróleo e aqueles que causaram a crise e continuam a bloquear políticas climáticas ambiciosas e justas”, afirmaram em sua carta pública aos organizadores da COP 30. Até o momento, o governo brasileiro gastou mais de um bilhão de euros em projetos de infraestrutura relacionados à COP 30 em Belém.


Fonte: JungeWelt

Obesidade é ameaça crescente para pacientes com doenças renais

Materiais médicos e resultados de exames usados para diagnóstico de doenças renais

Exames laboratoriais ajudam a identificar lesões e medir a função dos rins em pacientes com doenças glomerulares

A obesidade e certas lesões nos rins aceleram a perda da função renal, e a nefrite lúpica — inflamação causada pelo lúpus — tornou-se a forma mais comum de doença glomerular secundária no Brasil. Essas doenças afetam os glomérulos, pequenas estruturas que filtram o sangue e eliminam impurezas. O achado vem de um estudo com 417 pacientes acompanhados por até 25 anos no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), publicado na última sexta-feira (15/8) no Brazilian Journal of Nephrology.

A pesquisa também mostrou queda nos casos de podocitopatias, grupo de doenças que danificam as células filtrantes do rim, e identificou fatores que aumentam o risco de progressão da doença renal crônica — como sobrepeso, cicatrizes no tecido renal (fibrose intersticial/atrofia tubular) e função renal já baixa no início do acompanhamento.

As doenças glomerulares são um conjunto de condições que comprometem a filtragem do sangue e podem levar à perda progressiva da função renal. Elas são classificadas em dois grupos:

  • Primárias, quando a doença começa no próprio rim, sem ligação com outros problemas de saúde.
  • Secundárias, quando são consequência de outras doenças ou condições, como infecções, uso de certos medicamentos, câncer ou enfermidades autoimunes — caso da nefrite lúpica.

O estudo analisou dados clínicos, laboratoriais e de biópsias renais coletados entre 1998 e 2023. Mais de três quartos dos pacientes (77,5%) passaram por biópsia, exame que permite observar diretamente as lesões nos rins. Entre as doenças secundárias, a nefrite lúpica respondeu por 51,9% dos casos. Já nas primárias, a nefropatia membranosa — em que anticorpos se acumulam na membrana filtrante dos rins — liderou (26,3%), seguida da nefropatia por IgA e da glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF). A GESF, que em estudos anteriores aparecia no topo, agora ocupa a terceira posição entre as primárias.

“Esse achado reflete avanços na compreensão da fisiopatologia da doença e possível reclassificação diagnóstica”, avalia o pesquisador Fernando Sales, autor do artigo.

Durante o acompanhamento, a função renal média dos pacientes — medida pela taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) — caiu de 72,9 para 62,5 mL/min/1,73m² (essa unidade de medida representa o volume de sangue filtrado pelos rins por minuto, ajustado para uma área corporal padrão de 1,73 m²). Já a quantidade de proteína na urina (proteinúria), marcador de lesão renal, diminuiu de 3,7 para 1,3 grama por dia. A análise mostrou que pacientes com sobrepeso ou obesidade tinham 26% mais risco de piora da função renal.

A presença de fibrose intersticial/atrofia tubular aumentou esse risco em cerca de 8%. Já aqueles que iniciaram o acompanhamento com função renal mais alta tiveram menor probabilidade de progressão da doença. “Além disso, notamos a presença de histórico familiar em cerca de 23,3% dos pacientes com doenças glomerulares, o que pode inferir possível componente genético associado”, diz o pesquisador da UFJF.

“Os próximos passos em potencial seriam a realização de análises genéticas e proteômicas dos pacientes, especialmente no contexto de histórico familiar presente para nefropatias”, prevê Sales.


Fonte: Agência Bori

A poluição macroplástica representa uma “ameaça urgente”

poluição macroplástica 1Os macroplásticos têm um impacto negativo na biodiversidade e podem causar doenças em comunidades. Crédito da imagem: Cortesia de Inty Grønneberg, de Ichthion.

A pesquisa, publicada no Journal of Environmental Management , analisou 3,8 milhões de quilos de resíduos de oito sistemas costeiros em quatro continentes, incluindo América Latina e Caribe, e descobriu que os macroplásticos são “igualmente prejudiciais e frequentemente precursores de microplásticos” – fragmentos de plástico menores que 5 mm.

O trabalho foi realizado entre 2020 e 2023, de forma contínua e sincronizada, nas águas do Cânion Laureles (México); do Porto Kingston (Jamaica); do Rio Juan Díaz (Panamá); do Rio Portoviejo (Equador); do Rio Athi (Quênia); do Rio Vermelho (Vietnã); do Canal Lat Phrao (Tailândia); e do Rio Citarum (Indonésia).

O objetivo era coletar e analisar dados sobre o impacto dos resíduos macroplásticos nos países em desenvolvimento. Para isso, eles analisaram rios, que servem como um “principal vetor de transporte” de resíduos plásticos para os oceanos.

Sessenta e seis por cento dos resíduos coletados (mais de 2,5 milhões de quilos) eram plásticos. No entanto, esse não foi o caso em todos os ecossistemas: o Rio Athi, no Quênia, registrou 45.863 quilos por mês, o maior número, enquanto o Rio Portoviejo, no Equador, registrou 484 quilos por mês, o menor.

Em Rio Portoviejo, Equador, pesquisadores encontraram uma média de 484 quilos de plástico por mês. Crédito da imagem: Cortesia de Inty Grønneberg, da Ichthion.

Entre os rios latino-americanos, os mais poluídos com plástico foram Kingston Harbour, na Jamaica; Los Laureles Canyon, no México; e o Rio Juan Díaz, no Panamá.

“É o maior estudo global para entender a poluição plástica, um dos maiores fenômenos ambientais que a humanidade enfrenta”, disse ao SciDev.Net o engenheiro e cientista equatoriano Inty Grønneberg, CEO da Ichthion, uma das organizações que participaram da pesquisa.

Dos macro aos microplásticos

Durante anos, estudos se concentraram no impacto dos microplásticos. Em 2017, a ONU alertou sobre os altos níveis de poluição dos oceanos,pediu o fim do uso excessivo de plásticos descartáveis e observou que 51 trilhões de partículas de microplástico estavam poluindo os mares.

Recentemente, outro relatório da ONU indicou que 400.000 toneladas de plástico são produzidas anualmente, mas apenas 10% são recicladas, e estima-se que 11 milhões de toneladas acabem em lagos, rios e oceanos.

“Estamos vivendo a ‘era do plástico’, somos muito dependentes dele. E o desperdício, até agora, continua sendo um problema sem solução.”

Sebastián Andrade Muñoz, Centro de Pesquisas das Montanhas e Estepes Patagônicas Esquel

O grupo decidiu estudar os macroplásticos porque eles são a principal fonte de microplásticos.

A pesquisa destacou o impacto negativo na saúde humana devido à proximidade das comunidades com os ecossistemas onde se acumulam e à sua dependência, especialmente em áreas agrícolas . “Estudos demonstraram um risco elevado de doenças cardiovasculares , inflamação, câncer e danos reprodutivos”, afirmou. Os macroplásticos aumentam o risco dessas doenças por meio de sua degradação e subsequente exposição humana.

Eles também têm impactos negativos na biodiversidade . Grønneberg disse que eles detectaram emaranhamento e sufocamento entre animais marinhos.

Também está afetando a infraestrutura urbana , bloqueando esgotos, aumentando o risco de inundações e prejudicando a economia ao impactar o transporte marítimo, a pesca e o turismo.

Para coletar e analisar resíduos, os pesquisadores usaram barreiras flutuantes, coleta manual, correias transportadoras e máquinas semiautomatizadas, algumas movidas a energia solar.

Segundo a ONU, 400.000 toneladas de plástico são produzidas a cada ano, mas apenas 10% são recicladas, e 11 milhões de toneladas acabam em lagos, rios e oceanos. Crédito: Cortesia de Inty Grønneberg, da Ichthion.

Em relação às iniciativas de reciclagem nos locais analisados, o estudo constatou que 14% dos macroplásticos coletados foram reciclados (México e Jamaica), 62,9% foram reprocessados em produtos de menor valor (Quênia e Indonésia), 3% foram reutilizados, 12,3% foram utilizados para recuperação de energia (Tailândia) e 7,8% foram depositados em aterros sanitários ou incinerados. A proporção variou dependendo da infraestrutura e do desenvolvimento de cada país.

O biólogo argentino Sebastián Andrade Muñoz, bolsista do Conicet no Centro de Pesquisas da Serra de Esquel e da Estepe Patagônica , disse ao SciDev.Net que a pesquisa é valiosa para coletar dados sobre a poluição em sistemas ribeirinhos. “A boa qualidade das águas ribeirinhas permite rios com melhor qualidade de água e promove maior diversidade de habitats. É um bom estudo que fornece informações sobre gestão em várias partes do mundo.”

Estratégias para combater a poluição

O estudo oferece quatro ações para reduzir as emissões de plástico nos rios, desde a criação de valor por meio de políticas de reciclagem até a promoção de investimentos em infraestrutura de reciclagem.

Ele também exige uma coleta de dados aprimorada com protocolos padronizados para monitorar o desperdício de plástico ao longo do tempo e a promulgação de políticas — locais, nacionais e internacionais — como a proibição de plásticos de uso único que “comprovaram ser eficazes” em países como o Quênia.

Para Grønneberg, é essencial “trabalhar em mecanismos de coleta de informações” nos países em desenvolvimento para padronizar mecanismos e tomadas de decisão.

Andrade Muñoz, que publicou recentemente um estudo sobre macroplásticos encontrados em rios da Patagônia , concordou com essa abordagem e acrescentou que é importante conscientizar, promover a reciclagem e desencorajar o uso de plásticos descartáveis. “Estamos vivendo a ‘era do plástico’, somos altamente dependentes dele. E o desperdício, até agora, é um problema sem solução”, observou.


Fonte: SciDev.Net

Lula não conhece Napoleão

Por Douglas Barreto da Mata

Eu adoro a frase de Napoleão: “não incomode seus adversários, enquanto eles cometem erros”.  Com certeza eu já a usei várias vezes, em vários textos.  Acho que o presidente Lula não a conhece.  Alguns petistas, e alguns eco militantes também não.  Bem, para não dizer que não falei da “técnica”, o último refúgio desse pessoal. 

O grande erro, ou má fé mesmo, é desconsiderar que os biomas e regiões climáticas, às vezes dentro de casa uma delas, têm variações significativas, e mais, a velocidade com que os marcadores climáticos se movem, hoje em dia, pela geografia não permite mais o engessamento das classificações.

Assim, a questão principal é:  Mesmo com a presença de restos de Mata Atlântica, e alguma diferença na hidrologia, os regimes pluviométricos da região norte e noroeste podem ser considerados análogos ao semiárido?  Ontem, eu ouvi o enviado do Lula falar que somos “semi úmidos”.  Truque semântico, porque o que é meio molhado é meio seco e vice-versa.  Ou seja, se o nordeste brasileiro é semiárido, em parte, ele tem metade (semi) umidade também, não? Pois é.

Campos dos Goytacazes e arredores não terão caatinga, vegetação apenas de copa baixa, solos arenosos, base geológica de pedras, talvez em São Francisco do Itabapoana e em algumas outras partes de São João da Barra ou no norte de Campos, em Morro do Coco e localidades vizinhas.

O que devemos dizer aos “eco militantes”  dizem é o seguinte:  Atacama e Saara são desertos diferentes, um tem lagunas de sal, formações típicas de altiplanos e limítrofes de vulcões, o outro não, tem formação geológica diferente, acontece onde já foram florestas e savanas, e tem pequenos reservatórios de água, os oásis.

A despeito do debate “técnico”, a questão que ninguém responde:  Como é que em 6 anos de tramitação do PL do semiárido, tendo ocorrido várias confirmações de Congresso, governos diferentes, nenhum dos argumentos “técnicos” prevaleceu?  Tem um eco militante que diz, “ah, a assessoria do Congresso falhou, mas a assessoria do governo Lula funcionou e vetou”.

Mas como?  Jacques Wagner, o czar petista do Senado, homem da cozinha de Lula, articulou a aprovação sem avisar o chefe e seus assessores técnicos? Bom, se foi assim, eu acho que Jacques quis sabotar o Lula, ou eles cometeram o maior erro político dos últimos tempos. Lula manda seu governo aprovar o que ele vetará?

Em uma eleição que vai ser decidida por uma margem de 3, 4, 5 milhões de votos, Lula acaba de lançar a plataforma política de oposição interior do Estado, que tem tudo para virar uma onda e capturar outras alianças com a Baixada, e “tomar o pirulito” do seu aliado Eduardo Paes.

Então, cabe ao interior do Estado acolher o conselho de Napoleão, e deixar esse pessoal a caminho do precipício.

O Banco do Brasil sangra por causa da dívida gigantesca do agronegócio: entenda as razões

O dossiê da inadimplência do agro que derruba a ação do Banco do Brasil em 30%: como surgiu, quem deve e por que BBAS3 sangra na Bolsa. Banco estatal se viu nos últimos dois meses no centro do pessimismo do mercado; ação saiu da casa dos R$ 29 para os atuais R$ 19

Mercado tem visão negativa sobre os resultados do Banco do Brasil (BBAS3) no 2º trimestre de 2025. (Foto: Adobe Stock)

Mercado tem visão negativa sobre os resultados do Banco do Brasil (BBAS3) no 2º trimestre de 2025. (Foto: Adobe Stock)

Por Luíza Lanza, Editado por Wladimir D’Andrade para o E-Investidor Estadão

O Banco do Brasil divulgará na noite da quinta-feira (14) o balanço financeiro mais aguardado da temporada do segundo trimestre de 2025. A estatal se encontra no centro das preocupações do mercado financeiro desde quando divulgou, em maio, um resultado muito aquém do esperado para o primeiro trimestre, retirou o guidance (metas) do ano e deu início a uma tempestade perfeita que derrubou as ações BBAS3 em mais de 30%, para os R$ 19,24 do fechamento desta terça-feira (12). O vilão principal? Ainadimplência do agronegócio.

Nesses dois meses, a BBAS3 saiu do posto de ação “queridinha” dos dividendos para um papel que deve ser evitado. Analistas cortaram as projeções de lucro e colocaram a recomendação das ações do Banco do Brasil em revisão.

Assim, às vésperas do balanço do segundo trimestre (2T25), o E-Investidor conversou com especialistas e reuniu análises de grandes bancos para entender com profundidade a tão falada inadimplência,o que está acontecendo no agroe como a carteira de crédito rural, que por muito tempo era tida como o grande trunfo do BB, deflagrou o caos nas ações do banco estatal.

Em resumo, há um componente macro decorrente da queda dos preços das commodities e problemas de safra enfrentados nos últimos anos. Mas existem também questões jurídicas relacionadas a mudanças nas provisões do banco contra calotes e na Lei de Falências.

O que está acontecendo com o agronegócio do Brasil?

A crise no agronegócio não começou em 2025, mas nos anos anteriores, quando os produtores rurais foram impactados pela queda dos preços das commodities agrícolas, pela alta dos custos com insumos e por problemas climáticos.

Trator faz pulverização em plantação; agronegócio sofre com queda dos preços das commodities e alta dos custos dos insumos.
Trator faz pulverização em plantação; agronegócio sofre com queda dos preços das commodities e alta dos custos dos insumos. (Imagem: Dusan Kostic em Adobe Stock)

Em relatório temático divulgado em junho, o Itaú BBA pontuou que os produtores rurais normalmente usam uma boa safra para reinvestir em terras e maquinário em vez de acumular poupanças. Mas, após vários anos de colheitas altamente lucrativas, o Brasil enfrentou uma série de problemas climáticos nas safras de 2022/23 e 2023/24.

“Uma das razões para a pressão na inadimplência pode ser a sequência negativa de acúmulo de dívidas do produtor rural por conta de safras anteriores que ficaram abaixo do esperado”, diz o BBA.

Mas o impacto da produção pode ter sido só o estopim. Rodrigo Gallegos, sócio da RGF Associados e especialista em reestruturação, destaca que o problema começou antes, em meados de 2020, quando boa parte do setor se alavancou na pandemia da COVID-19. Na época, bancos e o governo ampliaram a concessão de crédito para impedir uma “quebradeira generalizada” no País.

Com as cadeias produtivas paralisadas, os produtores foram se endividando e logo a rolagem de dívidas se tornou mais difícil. Afinal, de lá para cá, a taxa básica de juros brasileira saltou de 2% para os atuais

“A despesa financeira começou a ‘comer’ o caixa das empresas, o que levou o produtor a atrasar pagamentos e o colocou em uma crise financeira enorme. Tudo isso com o dólar alto e uma economia que, apesar da taxa de desemprego baixa, não tem sido tão boa”, explica Gallegos.

Um levantamento da Serasa Experian mostra que o cenário de inadimplência da população rural no primeiro trimestre de 2025 chegou a 7,9%. No mesmo período de 2024, o índice era de 7%.

O impacto da Lei de Falências e o risco moral no campo

Além da alta da inadimplência, dados do Serasa Experian mostram que 389 produtores optaram pela recuperação judicial (RJ) no primeiro trimestre de 2025. Trata-se de uma alta de 21,5% em relação aos últimos três meses de 2024. Desse total, 195 RJs vieram do perfil de pessoa física.

As informações da datatech mostram que os produtores que não possuem registro de propriedade, como arrendatários ou integrantes de grupos econômicos e familiares, são os que mais optam pela RJ. “Esse é um perfil que costuma operar com margens mais estreitas, pois além dos custos da atividade em si, arca com despesas adicionais, como o pagamento pelo uso da terra. Em cenários de maior volatilidade climática e de crédito, encontram desafios maiores na gestão financeira e no acesso a garantias, o que explica, em parte, a busca por instrumentos de reequilíbrio judicial”, considera Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian.

Junto ao combo de piora macro e microeconômica, há ainda um outro ponto impulsionando uma alta no número de recuperações judiciais no setor. Em 2020, a Lei de Falências foi atualizadapara permitir que o produtor rural, na pessoa física, também acesse o instrumento legal, que antes ficava restrito a empresas. A mudança é tida por especialistas como justa, dado que muitos produtores pequenos centralizam as atividades no campo na pessoa física. 

Imagem de milho estragado no pé, em alusão a falências no agronegócio.
Lei de Falências foi atualizada em 2020 para permitir que o produtor rural na pessoa física também possa usufruir dela. (Imagem: Firn em Adobe Stock)

Mas isso também abriu uma brecha para certo excesso nas RJs, um movimento que muita gente ligada ao setor vem atribuindo a escritórios de advocacia regionais, que estão incentivando os produtores a optar pelo instrumento. O próprio BB fez esse alerta na última teleconferência de resultados.

O Itaú BBA chama a questão de “moral hazard”, um termo utilizado para se referir a dilemas de risco moral, quando há incentivos assimétricos em uma relação contratual.

“O processo agora é mais fácil para os produtores solicitarem recuperação judicial. Combinado com um histórico recente de aumento de renegociações e prorrogações, pode ter criado um risco moral. Eles podem ter capacidade de pagar, mas sua disposição para fazê-lo pode ter diminuído“, diz o banco em relatório.

O modelo de empréstimos ao agronegócio do Banco do Brasil

A alta nos pedidos de recuperação judicial pesa mais sobre o BB do que sobre os pares privados porque o banco estatal está mais exposto a pequenos produtores. Mas também tem a ver com o modelo de concessão de crédito utilizado pela estatal, que oferece a garantia via penhor de safra.

Em uma carta temática divulgada em julho, em que defende que o mercado ainda subestima os riscos da tese do BB, a Legacy, gestora de multimercados com R$ 20 bilhões em ativos no portfólio, pontua que a garantia via penhor de safra funcionou por muitos anos para o Banco do Brasil. Mas que não é mais adequada à nova realidade de inadimplência do agro.

Os pares privados oferecem crédito rural via alienação fiduciária da terra, um mecanismo de recuperação mais direto e eficiente, diz a gestora. Veja a opinião da Legacy aqui.

Rodrigo Gallegos, da RGF, explica que aalienação fiduciária da terra é mais segura do que a garantia via penhor de safra por um motivo único: pode ser cobrada mesmo que o produtor entre na Lei de Falências. “Na alienação fiduciária, o crédito é automaticamente extraconcursal. O devedor não pode colocar a dívida na RJ, então o credor pode ir atrás da garantia”, diz.

Desde 2020, o penhor de safra também é extraconcursal, mas tem uma execução mais complexa por depender da produção da safra em si. É difícil, por exemplo, contabilizar a parte dos grãos que faz parte da garantia e qual não, assim como a logística de venda da safra dificulta a execução da garantia.

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Por causa disso, com a alta nas RJs, o BB tem tido dificuldade em executar as garantias previstas nos contratos e sofrido mais do que outras instituições.

Por que a inadimplência pesa mais sobre o BBAS3 do que sobre outros bancos?

A inadimplência do agro está pesando muito mais sobre o Banco do Brasil do que sobre outros bancos. Os principais pares privados – Itaú, Bradesco e Santander – já divulgaram seus balanços do 2T25. Entre resultados bons e ruins, em nenhum a carteira do setor agrícola foi manchete.

Há uma justificativa para isso. Entre crédito rural e agroindustrial, o Sistema Financeiro Nacional como um todo tem R$ 735 bilhões. Desse total, cerca da metade está na carteira de crédito do Banco do Brasil.

Pedro Ávila, analista de banco da Varos, explica que há décadas o BB funciona como o principal braço operacional do governo federal no fomento ao agronegócio. Além de administrar o Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO), ele canaliza a maior parte dos recursos do Plano Safra, oferece linhas de crédito rural subsidiadas em todo o País e, graças à sua capilaridade, financia desde pequenos produtores familiares até grandes cooperativas e agroindústrias.

“Por ser o maior financiador do agro, um problema sistêmico no setor inevitavelmente afeta o BB”, diz Ávila

Esse perfil de financiador do pequeno produtor e da agricultura familiar faz a carteira de crédito agro do BB ser muito ligada à pessoa física, uma característica menos presente nos outros bancos e que torna a estatal mais suscetível às instabilidades no momento. É justamente ainadimplência do crédito ligado ao pequeno produtor que está em disparada.

Mudanças na forma de fazer as provisões

Quando um banco empresta recursos a terceiros, ele é obrigado a reservar uma parte do valor emprestado para cobrir eventuais inadimplências. Isso é chamado de provisionamento – na prática, um “caução” que a instituição precisa ter se levar o calote. Mas a regra para contabilizar isso nos balanços mudou, acarretando em impacto no balanço do primeiro trimestre de 2025 do BB e que deve continuar pesando.

Até o fim de 2024, os bancos seguiam o modelo de perda incorrida, em que os créditos eram classificados conforme o tempo de atraso em faixas de A a H. Cada uma exigia uma provisão mínima, de 0,5% a 30%, conforme o período de atraso entre 90 e 120 dias.

Em 2025, a norma mudou com a nova resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) nº 4.966. A medida obriga as instituições financeiras a anteciparem as provisões, exigindo classificação dos ativos e introduzindo o modelo de perda esperada em três estágios, dos clientes de baixo risco (estágio 1) até altíssima probabilidade de inadimplência (estágio 3), passando ainda por risco significativo (estágio 2).

Com esses estágios, a norma obriga que as empresas façam as provisões bancárias antecipadamente e não apenas no momento em que ocorrem, como acontecia anteriormente. O BTG destaca no relatório que, na Resolução 4.966, os empréstimos inadimplentes com mais de 30 dias podem exigir provisões de aproximadamente 30%, enquanto os com mais de 90 dias chegam a uma média de 70%.

Como a carteira de crédito do Banco do Brasil é muito superior à dos pares privados, o banco também foi mais afetado pela mudança nas provisões. Pedro Ávila, da Varos, destaca que o setor corresponde a 32% do crédito concedido pela estatal; no Itaú, Santander ou Bradesco, a parcela não ultrapassa os 10% do total, ele estima.


Fonte: E-Investidor Estadão

Agronegócio, um gigante de pés de barro: Dívida recorde do agro abala Banco do Brasil

O agro não anda muito pop no Banco do Brasil (BB)

Juliana Sayuri e Graciliano Rocha para o UOL 

O BB, principal financiador do agronegócio no país, registrou R$ 12,73 bilhões em atrasos de mais de 90 dias nos pagamentos do setor.

O desfalque puxou uma queda de 60% no lucro no segundo trimestre, segundo dados divulgados na noite de anteontem.

“É o maior nível de inadimplência já visto no agro na história do Banco do Brasil”,
afirmou ontem a presidente do banco, Tarciana Medeiros.

Mais da metade das dívidas (52%) são de produtores do Sul e do Centro-Oeste.  Devendo na praça, o agro vem recorrendo cada vez mais às recuperações judiciais. Dos R$ 12,73 bilhões devidos, R$ 2,27 bilhões são fruto de recuperações.  A crise para justificar os processos é atribuída a diversos fatores: pandemia, altos juros, falta de financiamento acessível, entre outros.

Há outras questões, no entanto, que vêm escapando às análises macroeconômicas, apurou o UOL: má-fé e fraude, com pedidos de recuperações judiciais que não se enquadram na lei. Escritórios de advocacia oferecem esse tipo de serviço.

Advogados ouvidos pela reportagem alertam que é preciso separar o joio do trigo.

O assunto está no radar do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

No fim de maio, o ministro Mauro Campbell Marques, corregedor-nacional de Justiça, abriu uma comissão especial “para o aprimoramento da atuação do Poder Judiciário nos processos de recuperação judicial e falência de produtores rurais”.

O Banco do Brasil monitora hoje 808 clientes sob recuperação, num total de R$ 5,4 bilhões –parte do valor não entrou no balanço pois se refere a pagamentos cujo vencimento ainda não ocorreu.

Imagem: Arte/UOL

‘Instrumento de barganha’

  • Desconto de 20% sobre as dívidas; 
  • Carência de 2 anos para começar a pagar as dívidas;
  • Prazo de ao menos 10 anos para pagar todas as dívidas.

Isso é o que promete um escritório de advocacia de Goiânia que se define em seu site como “a fortaleza jurídica do produtor rural”.

Os tópicos estão em um informativo do escritório que incentiva produtores rurais a pedir recuperação judicial, dispositivo descrito como “instrumento de barganha” para “blindar todo seu patrimônio de cobranças judiciais e arrestos”.

“Não importa o que as pessoas vão pensar de você se você optar pela
recuperação judicial. Se você tiver bem ou mal, vão falar mal de você da mesma
forma. A questão é que, se não for você para proteger o seu patrimônio, o seu
legado, que você recebeu de herança ou lutou a vida inteira para construir,
ninguém fará isso por você”. -Trecho do informativo “Na Defesa do Brasil que Produz”

Especialistas ouvidos pelo UOL dizem que isso é uma distorção da lei das recuperações judiciais e, em certos casos, pode configurar fraude.

Recuperação judicial é um instrumento jurídico que deveria ser tratado como último recurso antes de uma empresa precisar pedir falência. O dispositivo permite congelar as cobranças de uma empresa por 180 dias (o chamado “stay period”).

O objetivo é que, nesse período, a empresa consiga organizar as contas da casa, pagar a quem deve e dar continuidade às suas atividades. 

Não é, portanto, um dispositivo para blindar o patrimônio ou prolongar o pagamento de dívidas por anos. No entanto, a alta de pedidos de recuperação judicial no agronegócio indica que propostas do tipo têm encontrado terreno fértil.

Segundo os últimos dados da Serasa Experian, divulgados no fim de julho, os pedidos dispararam no primeiro trimestre de 2025: uma alta de 45% em relação ao mesmo período de 2024.

“Muitos produtores enfrentam custos altos, prazos longos para receber, maior
exigência de garantias e dificuldades na rolagem de dívidas, fatores que
pressionam o caixa e reduzem as margens para manobras.” -Marcelo Pimenta, Diretor de agronegócio da Serasa Experian

Imagem: Arte/UOL

‘Indústria de recuperações judiciais’ 

O advogado especialista Marcelo Winter, de São Paulo, observa uma tendência de pedidos irregulares de recuperação no agronegócio. Winter considera a prática “irresponsável e oportunista”, prejudicando todo o setor.

“Muitos dos pedidos atuais não refletem uma real situação de crise econômicofinanceira, mas sim estratégias protelatórias e por vezes pouco fundamentadas.  Essa prática indevida compromete a credibilidade do próprio instrumento da recuperação judicial. Tal cenário tem gerado insegurança e afastado investidores do setor.”

-Marcelo Winter, Advogado

A juíza Daniela Muller, presidente da Amatra 1 (Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 1ª Região) do Rio, diz que a situação relatada “foge totalmente do escopo da lei”.

“O empresário é o responsável pelos riscos do negócio —até porque é ele que fica com o lucro, com os benefícios. O trabalhador precisa do salário para sobrevivência. A lei de recuperações judiciais deveria servir exclusivamente para reestruturação da empresa, para continuar existindo e gerando  empregos dignos.  Não pode servir para dar descontos, ainda mais em questões trabalhistas. Nas distorções, o que se faz é tentar livrar empresários de suas dívidas.”

-Daniela Muller, Juíza

Há relatos de que, nas últimas edições da Agrishow, feira agrícola de Ribeirão Preto, advogados estavam abordando produtores rurais com orientações sobre recuperações judiciais, inclusive sobre como ocultar patrimônios.

Segundo a imprensa especializada no setor, o diretor de agronegócio do Santander, Carlos Aguiar, disse na Agrishow deste ano que o aumento de pedidos de recuperação judicial no setor é preocupante, por envolver produtores atraídos por promessas ilusórias de quem, segundo ele, lucra com a fragilidade alheia. 

Aguiar se referiu, na ocasião, a uma “indústria” da recuperação no campo, “que enriquece advogados enquanto empobrece o produtor”. 

Os advogados autores da cartilha citada no início desta reportagem tomaram para si a responsabilidade de responder. 

Num reels do Instagram, gravado na época na frente de uma agência do Santander e vestindo cinto de fivela, o advogado Leandro Marmo diz: “Tendo que recorrer à medida extrema que é a recuperação judicial, é porque realmente não restou nenhuma alternativa para que pudessem tentar continuar produzindo, gerando emprego, sem ter o risco de perder seu patrimônio”.

Marmo é sócio do escritório João Domingos Advogados Associados, autor do informativo. 

O UOL procurou Marmo e Domingos.

O escritório afirmou que o documento não faz promessas. “Há, sim, um resumo dos potenciais efeitos práticos da recuperação judicial, com base em jurisprudência consolidada e na experiência real do escritório em dezenas de casos concretos”, diz (leia a nota na íntegra). O advogado Antonio Frange também tem, em seu site, uma página dedicada a recuperações que lista, entre os “resultados esperados”, 70% de desconto nas dívidas e prazo de até dez anos para pagamento delas.

O escritório, instalado em São Paulo e em Cuiabá, diz no site oficial que já atuou em mais de mil casos.

O UOL procurou o escritório por email e por telefone, mas não teve resposta.

Caminhão com soja em Lucas do Norte, em Mato Grosso. Imagem: Paulo Whitaker/Reuters

Caso Safras

Um dos casos mais discutidos por advogados especialistas no agronegócio é atualmente o Safras. Prestes a perder uma fábrica em Cuiabá, o conglomerado mato-grossense pediu recuperação apontando dívidas de R$ 2 bilhões, um passivo recorde no estado.

Winter considera que o caso é emblemático: a Justiça viu irregularidades no pedido, como a falta de documentos e a inclusão indevida de produtores rurais que, na verdade, não são produtores rurais. O processo foi suspenso.

“É um precedente importante: isso mostra para o mercado que não é qualquer pedido que deve ser aceito”, diz. 

Num comunicado à imprensa referente aos dados da Serasa Experian, o Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal) também destacou que o “excesso” de pedidos pode abalar a confiança do mercado.

“O setor precisa encontrar um modelo de negócios sustentável”, diz a nota.

Um nicho que está se desenvolvendo nos últimos tempos é o das “agfintechs”, diz Henrique Galvani, CEO da Arara Seed, plataforma de Ribeirão Preto especializadaem startups do agro.

“O agro precisa inovar no acesso ao mercado de capitais, como alternativa e complemento ao Plano Safra. É a ponte entre o campo e a Faria Lima”, afirma.


Fonte: UOL