Jair Bolsonaro e seus recebimentos millionários: R$ 44 milhões em apenas 15 meses

Bolsonaro recebeu pix milionário e suspeito, diz investigação; veja valores

Em uma matéria assinada pelos jornalistas Renata Galf e José Marques e publicada pelo jornal “Folha de São Paulo“, temos acesso na manhã desta sexta-feira (22/8) a uma série de informações sobre as movimentações financeiras do ex-presidente Jair Bolsonaro entre março de 2023 e junho de 2025, e os números são de cair o queixo. É que segundo dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), neste período, as contas de Bolsonaro receberam a fabulosa quantia de R$ 44 milhões (ver figura abaixo).

A matéria não explica como foi possível para Jair Bolsonaro receber tamanha fortuna, o que poderá vir a ser revelado em outras matérias. Mas uma coisa é certa: Jair Bolsonaro é fã de carteirinha do PIX que seu ídolo estudanidense Donald Trump. É que desses R$ 44 milhões, R$ 20,7 milhões teriam vindo via transações no PIX.

Apesar desse ser um caso em desenvolvimento, qualquer pessoa minimamente curiosa vai se perguntar sobre a origem de toda essa bufunfa nas contas de Bolsonaro, já que ele não é sequer proprietário de uma franquia especializada na venda de chocolate, como é o caso do seu filho Flávio.

É bem possível que nos próximos dias e semanas, fiquemos sabendo as fontes de abastecimento das contas de Jair Bolsonaro, apesar de seus esforços, segundo a matéria, para dissimular a origem e o destino dos recursos financeiros aportados em suas contas. A ver!

Entidades repudiam homenagem da ALEMG à mineradora Sigma Lithium

MAB e aliados elaboraram Nota Pública de Repúdio à homenagem pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais à empresa Sigma Lithium. Em menos de 36 horas, o manifesto teve a adesão de 68 entidades e parlamentares e mais de 460 assinaturas

Foto da Comunidade Piauí Poço Dantas, município de Itinga (MG), onde retrata a realidade das casas dos atingidos próximos às pilhas de rejeito da mineradora SIGMA LITHIUM. Foto: Joyce Silva / MAB

Com surpresa e muita indignação, recebemos a informação da convocação de uma reunião especial da Assembleia Legislativa de Minas Gerais visando a entrega de título de Cidadã Honorária do Estado de Minas Gerais à Ana Cabral, CEO da empresa Sigma Lithium. O evento ocorrerá nesta quinta-feira, dia 21/08.

A condecoração e homenagem à representante da empresa Sigma Lithium está em sintonia com as iniciativas e articulações conduzidas pelo Governador Romeu Zema (Partido Novo), que busca ostensivamente mercantilizar as riquezas minerais da região do Vale do Jequitinhonha, como barganha política para interesses políticos pessoais, saquear e vender o território e impor um novo epistemicídio à região, propagandeando o termo pejorativo “vale do lítio”.

Na mesma esteira, importante recordar alguns fatos transcorridos, sobretudo na gestão do Governo Zema:

  1. i) através da Deliberação Normativa Copam n° 240/2021, a classificação da atividade de pilha de rejeito/estéril para pegmatitos – rocha de onde se extrai o lítio – deixou de ser considerada alta, passando a ser analisada como médio potencial poluidor/degradador, o que simplificou os pedidos de licenciamento ambiental, sem análise rigorosa, criteriosa e em etapas dos impactos decorrentes;
  2. ii) em 2022, 33,33% das ações da Companhia Brasileira de Lítio (CBL), que pertencia ao Estado de Minas Gerais, foram vendidas pelo Governo Zema à preço de banana para o mercado e;

iii) em 2024, o próprio governador esteve em Nova Iorque, Wayne e Washington, nos Estados Unidos, para propagandear o “vale do lítio” às empresas e acionistas do mercado. Além de buscar, por atos administrativos, restringir o direito de consulta prévia, livre e informada (CLPI) aos Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) em processos de licenciamento ambiental em nosso estado.

Atualmente, a empresa canadense Sigma Lithium tem promovido sistemáticas violações de direitos humanos, irregularidades nos processos e deficiências nos estudos de licenciamento ambiental. Além da utilização de tecnologias ultrapassadas, que provocam um dano socioambiental 30 vezes maior do que outras tecnologias existentes. Neste ano, em audiências públicas realizadas no município de Araçuaí (MG), o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), decorrente de abertura de inquérito civil, apresentou relatórios técnicos que evidenciam a “ocorrência de impactos socioambientais negativos não adequadamente mitigados, compensados ou indenizados” pela empresa, proprietária do empreendimento Grota do Cirilo.

Desde 2023, mais de 100 famílias atingidas no entorno do empreendimento sofrem diariamente com impactos negativos, danos coletivos e individuais, como altos índices de ruídos, poeira, rachaduras nas casas, problemas de saúde e perdas na produção de alimentos. Ainda mais grave, confirmado pelo MPMG, tanto no licenciamento inicial quanto no processo de novo licenciamento ambiental de ampliação do empreendimento, a empresa Sigma Lithium negligenciou e violou a legislação brasileira de proteção às comunidades quilombolas, com conivência dos órgãos ambientais estaduais e omissão do poder executivo estadual.

Assim, manifestamos nosso completo repúdio à homenagem pretendida, que se pinta de novo e de verde, mas expressa a manutenção de um modelo de exploração neocolonialista, primário exportador, com a rapina de nossos recursos naturais de forma submissa à volúpia do lucro de grandes empresas, que aprofunda o racismo ambiental, as desigualdades sociais e promove a violação de direitos de sociais e ambientais.

Seguiremos em defesa de um outro projeto de mineração e de país: que valorize e respeite a manutenção, a reprodução dos modos de vidas e os direitos dos povos e comunidades tradicionais, que esteja alicerçado no desenvolvimento de pesquisas, tecnologias e da indústria nacional, com geração de emprego, de renda e na distribuição social das riquezas produzidas, que respeite os direitos humanos e da natureza, na edificação de um país justo e soberano.

Minas Gerais, 21 de agosto de 2025.

Assinam esta Nota Pública:

Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha (ALVA)
Aldeia Cinta Vermelha – Pankararu e Pataxó (Araçuaí/MG)
Articulação de Mulheres Negras de Minas Gerais (AMN/MG)
Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD – Núcleo MG)
Associação Brasileira de Pesq. Negros (ABPN)
Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (AEDAS)
Associação Nacional dos Atingidos por Barragens (ANAB)
Associação Sócio Cultural Nzo Mona Jindanji
Casa Socialista
Central de Movimentos Populares do Vale do Aço – CMP VA
Central Única dos Trabalhadores – CUT MG
Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica – CAV
Coletivo Povos e Comunidades de Tradição Religiosa Ancestral de Matriz Africana (Coletivo PCTRAMA)
Coletivo Vozes Maria
Comissão das Comunidades Quilombolas do Vale Jequitinhonha (COQUIVALE)
Comissão de Direitos Humanos (OAB/MG)
Comissão Pastoral da Terra – Regional MG (CPT/MG)
Comunidade Quilombola Baú – Araçuaí/MG
Comunidade Quilombola Cardoso – Virgem da Lapa/MG
Comunidade Quilombola Córrego Narciso do Meio – Araçuaí/MG
Comunidade Quilombola Malhada Branca – Virgem da Lapa/MGComunidade Quilombola Onça – Virgem da Lapa/MG
Conselho Missionário
Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ)
Deputada Estadual Beatriz Cerqueira – PT
Deputada Estadual Bella Gonçalvez – PSOL
Deputada Estadual Leninha Souza – PT
Deputada Federal Célia Xakriabá – PSOL
Deputado Estadual Leleco Pimentel – PT
Deputado Federal Padre João Siqueira – PT
Deputado Federal Rogério Correia – PT
Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (FETAEMG) – Polo Regional Alto Jequitinhonha
Federação Regional dos Urbanitários do Sudeste (FRUSE)
Grupo de Estudos e Pesquisas Socioambientais (GEPSA/UFOP)
Grupo Terra Teia de Estudos Rurais e Raciais (UFVJM)
Guardiãs das Palavras Benditas
Instituto Carlos Campos
Instituto de Promoção Humana
Instituto Esperança Maria
Instituto Guaicuy
Instituto Janelas do Jequitinhonha
Marcha Mundial das Mulheres (MMM)
Mídia Ninja
Movimento Brasil Popular
Movimento Camponês Popular de Minas Gerais (MCP/MG)
Movimento de Atingidos por Barragens (MAB)
Movimento de Mulheres Camponesas (MMC/MG)
Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST)
Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM)
Movimientos de Afectados por Represas (MAR)
Núcleo Interdisciplinar de Investigação Socioambiental (NIISA) da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes)
Observatório dos Vales e do Semiárido Mineiro da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM)
Observatório Fundiário do Vale do Jequitinhonha (OBVFJ) da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG)
Povo Indígena Aranãs Caboclo
Povo Indígena Maxakali
Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP/MG)
Salve as Serras – Movimento Socioambiental
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Araçuaí (STR) Araçuaí
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Turmalina (STR) Turmalina
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Virgem da Lapa (STR) Virgem da Lapa
Sindicato Intermunicipal dos Trabalhadores na Indústria Energética de Minas Gerais (SINDIELETRO/MG)
Terra de Direitos
Vereador Bruno Abreu Gomes Pedralva – PT
Vereadora Luiza Dulci – PT
Vereadora Moara Saboia – PT
Vereadora Professora Cida Lima – PT
Vereadora Shyrlei Rodak – PT

IA, a bolha

Is an AI Bubble Inevitable?

Quando se pensa que a crise sistêmica do Capitalismo não pode ficar mais ruim do que já está, a realidade vem mostrar que, como na primeira Lei de Murphy, que aquilo que há sempre espaço para piora.

Vejam abaixo extratos de uma reportagem assinada pela jornalista Tamires Vitorio para a revista Exame sobre o que está exarando no movimento das bolsas estadunidenses em relação às empresas de tecnologia que produzem a chamada Inteligência Artificial (IA).

Segundo Vitorio,  as gigantes de tecnologia não conseguiram escapar do mal-estar dos mercados em elação a elas nesta semana.  Isto ocorreu por causa dos temores de uma possível bolha, as ações das big techs, juntas, acumulam queda de 5,6% até esta quinta-feira, 21, enquanto o Nasdaq Composite, principal índice de tecnologia nos Estados Unidos, caiu 2,1% em dois dias. Assim, empresas como Palantir, Nvidia, Apple e Microsoft lideram as quedas, com investidores começando a questionar se as expectativas de crescimento do setor são, de fato, sustentáveis.

A repórter da Exame também informou que um estudo recente do Massachusetts Institute of Technology (MIT) intensificou as preocupações ao apontar que 95% das empresas que investem em inteligência artificial ainda não viram retornos sobre esses investimentos.  Segundo o MIT, a maioria das startups e empresas que estão na vanguarda da IA queimam mais dinheiro do que geram receita. Em média, de acordo com a pesquisa, as companhias gastam US$ 5 para cada US$ 1 de receita. Outro ponto destacado pelo MIT foi a dificuldade de muitos projetos de IA de se traduzirem em soluções concretas e escaláveis, com uma grande parte dos produtos de IA ainda não gerando nenhum faturamento. Em 2024, uma análise de 600 empresas B2B revelou que 42% dos produtos de IA ainda não tinham gerado receita alguma.

Por outro lado, a reportagem afirma que Sam Altman, CEO da OpenAI, dona do ChatGPT, também adicionou tensão ao mercado ao afirmar que a IA está “em uma bolha”. Altman destacou que, embora a IA tenha o potencial de ser uma revolução tecnológica, o entusiasmo atual cria expectativas inflacionadas sobre os retornos que essas empresas podem gerar no futuro. Para ele, a situação atual reflete uma “euforia” que pode não ser sustentada, já que o desenvolvimento de IA em larga escala ainda enfrenta grandes desafios e, por enquanto, os lucros não acompanham o ritmo das valorizações das empresas.

O resultado dessa sensação de bolha da IA (sensação?) é que às 07h42 desta 5a. feira, no horário de Brasília, as principais ações de tecnologia operavam em queda no pré-mercado dos EUA.

Resumo da ópera: todo o frenesi em torno da IA e seus impactos futuros sobre o trabalho pode não passar de uma bolha, uma ilusão.

Alerta Servidores! Cláudio Castro envia projeto de lei para oficializar rapina dos recursos do RioPrevidência e ameaça o futuro dos aposentados

Reeleição de Castro no Rio abre disputa de poder no Legislativo e no  Executivo

Flavio Serafini denuncia: o governador Cláudio Castro (PL) enviou projeto que coloca em risco a saúde financeira do Rioprevidência

O deputado Flávio Serafini (PSOL), presidente da Comissão de Servidores da Alerj, denuncia que o governador Cláudio Castro enviou para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), o PL 6035/2025, que autoriza o governo a retirar os recursos acumulados no Rioprevidência, dinheiro dos royalties que hoje garante o pagamento das aposentadorias, para gastar com dívidas e contratos.

O deputado Flávio Serafini afirma que se aprovado, esse projeto vai drenar o caixa do Rioprevidência e deixará o tesouro estadual vulnerável a qualquer queda na arrecadação do petróleo. Na prática, isso significa que, já em 2026, os aposentados e pensionistas do Rioprevidencia poderão ficar seus pagamentos, como já vimos acontecer em crises anteriores.

Para Serafini, e eu concordo com isso, estamos diante do maior ataque à aposentadoria do funcionalismo fluminense.

Flávio Serafini afirma que seu mandato está na luta contra esse retrocesso, mas que é fundamental que todos os servidores estaduais e seus sindicatos e associações se mobilizem para barrar o PL 6035/2025.

Não podemos deixar que Cláudio Castro destrua o direito à aposentadoria de quem construiu e constrói o serviço público estadual do Rio de Janeiro.

Assista ao vídeo abaixo!

A Uenf sob pressão do produtivismo: picos e vales são duas faces da mesma moeda

O sofrimento mental contemporâneo

Por Carlos Eduardo de Rezende

Serei mais breve que o texto publicado pelo historiador Michel Goulart da Silva, mas escrevo motivado por preocupações semelhantes quanto à situação da produção científica no Brasil. Sempre defendi que um doutor contratado em regime de dedicação exclusiva e tempo integral tem a obrigação de gerar conhecimento científico e essa foi uma das expectativas centrais na criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). É evidente que não se pode exigir o mesmo ritmo de todos, uma vez que cada área apresenta características próprias e cada indivíduo possui sua própria dinâmica. No entanto, não é admissível a completa nulidade onde não se publica, não se orienta e onde a carga horária em sala de aula acaba sendo tratada como um castigo reservado justamente àqueles que não cumprem sua função científica.

Diante disso, coloco aqui duas reflexões, inspiradas tanto pelo que tenho observado na literatura quanto na Uenf. Recentemente, ao ler um artigo sobre um pesquisador de determinada universidade me chamou a atenção sobre a sua trajetória profissional. Segundo a publicação, esse pesquisador apresentava uma produção científica impressionante, chegando a publicar praticamente um trabalho por semana, entre artigos e capítulos de livros. A análise destacava sua carreira meteórica, marcada por colaborações institucionais e internacionais. A recorrência de coautores, por outro lado, marcada pela presença constante de alguns nomes em diferentes configurações evidenciava uma dinâmica de autoria. Essa característica chamou atenção sobre o que norteava a ação destes pesquisadores. 

Essa situação não é isolada e tem se repetido em diferentes instituições e áreas do conhecimento, pois a pressão por métricas de produtividade acaba induzindo práticas de produção científica duvidosa. Em alguns casos, essa lógica já teve desdobramentos sérios e levadas a comissões de integridade acadêmica. O resultado pode ser devastador para os envolvidos, atingindo não apenas reputações individuais, mas também a credibilidade de instituições inteiras. 

Na Uenf, me dediquei a uma análise dos currículos de aproximadamente 80 professores de nossos diferentes centros de pesquisa, selecionados com base em um programa institucional específico. Observei que a média de publicações por docente nos últimos cinco anos é de 3 ± 2 artigos por ano, com variação de <1 até 18 publicações anuais. Quando considerada a produção desde a conclusão do doutorado, os valores variam de <1 a 12 artigos por ano. Em relação à orientação de alunos, considerando Mestrado, Doutorado e Monografia, o mesmo grupo apresenta uma média é de 3 ± 3 orientações por ano durante o período de atuação na Uenf, com variação de <1 a 9 orientações anuais por docente. Esses números sugerem uma heterogeneidade significativa na produção acadêmica e na atividade de orientação entre os docentes, refletindo diferentes perfis de atuação e níveis de engajamento com pesquisa e formação de recursos humanos.

A mesma preocupação me levou a examinar os números do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) onde atuo desde a sua fundação e fui responsável junto com alguns colegas na sua estruturação inicial. A média foi de aproximadamente 5 artigos por ano, variando de <1 a 16 publicações anuais nos últimos 5 anos. Considerando toda a trajetória dos docentes após o doutorado, a média é de cerca de 3±3 artigos por ano, com variação de <1 a 8 por ano. No que se refere à formação de recursos humanos, a soma de orientações de monografias, mestrados e doutorados, dividida pelo tempo de atuação na UENF, indica uma média de 2±3 orientações por ano.

Esses são os números atuais da Uenf, que sempre buscou equilibrar excelência acadêmica com a interiorização do ensino e a formação de quadros qualificados. No entanto, os limites inferiores chamam a atenção. Eles revelam uma vulnerabilidade institucional importante e a dificuldade de sustentar um padrão contínuo de publicações e orientações. Assim, ainda que os resultados médios sejam aceitáveis, o cenário sugere que a universidade precisa estar atenta às assimetrias internas e aos riscos de dispersão. A consolidação de grupos realmente estáveis depende de estratégias institucionais de fortalecimento da pesquisa, incentivo à cooperação interlaboratorial e consolidação de projetos estruturantes. Caso contrário, a oscilação entre picos de baixa e alta na produção e formação de recursos humanos pode comprometer tanto a visibilidade acadêmica quanto a missão de interiorização que fundamentou a criação da Uenf.


*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf e Pesquisador 1A do CNPq.

A universidade brasileira é refém do produtivismo

Exame de uma universidade sem dinheiro e sem projeto. Pesquisas são repetitivas ou rendidas a modismos. Cai a renovação teórica, busca-se financiamento privado e pontuação. Com saberes apartados da sociedade, portas são abertas ao mercado

Por Michel Goulart da Silva para “Outras Palavras” 

Pode-se afirmar que o fundamento que estrutura o meio acadêmico brasileiro é o da precarização, ou seja, a maior parte dos profissionais que produzem conhecimento científico o fazem em condições de extrema dificuldade. Não há muitas das condições básicas para a realização das atividades, seja em termos de estrutura física ou de pessoal, fazendo com que o pesquisador e seus colaboradores encontrem grandes dificuldades para realizar seu trabalho.

Os professores das universidades públicas, onde é realizada a maior parte das pesquisas, encontram dificuldades como a escassez de tempo para se dedicar à pesquisa e à extensão, combinada a uma extensa carga horária de aulas. Os professores das instituições privadas, com poucas exceções, não são incentivados a fazer pesquisa nem a atuar na pós-graduação. Os técnico-administrativos, além de gastar a maior parte do seu tempo em tarefas operacionais, sofrem com todo tipo de preconceitos e marginalização, tornando praticamente impossível a dedicação a outras atividades do espaço acadêmico, como pesquisa e extensão. Os centros de pesquisa públicos são poucos e, a despeito de produzirem importantes pesquisas, não conseguem dar conta das necessidades demandadas pela sociedade.

Outro aspecto a ser considerado se refere à materialização da precarização na condição dos estudantes. Como os docentes têm dificuldades de tempo e de estrutura para realizar suas pesquisas, acabam sendo os estudantes os responsáveis por realizar parte dmerco trabalho, cabendo ao coordenador do projeto se limitar a uma orientação genérica ou simplesmente colocar o nome no artigo final. Esse elemento se manifesta em especial numa divisão de tarefas em que a pesquisa dos orientadores é dividida em partes que os discentes assumem, independentemente do seu nível de formação. Com isso, grande parte das dissertações e teses desenvolvidas no interior dos grupos de pesquisa acabam sendo não o produto do interesse dos pesquisadores em formação, mas fragmentos de uma investigação cujos resultados estão voltados para os interesses e para o currículo do docente que coordena o projeto.

Os discentes, a despeito da enorme responsabilidade que acabam assumindo, inclusive eventualmente de docência, recebem bolsas cujos valores não condizem com suas necessidades vitais e mesmo de apoio às suas pesquisas. Em meio à necessidade de aquisição de bibliografia, de viagem para pesquisas e eventos, além de necessidades primordiais, como se alimentar e pagar aluguel, os valores pagos pelas bolsas vão sendo corroídos pela inflação sem que haja qualquer política de reajuste permanente. Um fator ainda mais degradante se refere ao fato de que, em um cenário de crise econômica e desemprego, para esses pesquisadores em formação a bolsa muitas vezes não está ligada a um projeto de vida e carreira como pesquisador, mas apenas à necessidade imediata de sobrevivência.

Em meio a isso, se coloca a supervalorização da titulação, onde a obtenção do doutorado não é encarada como uma fase da formação do pesquisador, mas um objeto de poder que pode ser utilizado como uma forma de distinção dentro do ambiente acadêmico. Nas universidades o título de doutor pode representar também o ponto mais elevado dentro da burocracia universitária, ocupando cargos de direção ou mesmo a reitoria. O docente doutor pode orientar pesquisadores de todos os níveis de formação, pleitear todos os tipos de financiamento e acessar todos os cargos e órgãos disponíveis na instituição. Muitos doutores fazem questão não apenas de ressaltar sua titulação, mas de destacar que isso os torna especiais e, por isso, mais importantes que todos os demais profissionais que atuam na instituição, inclusive em comparação até mesmo com técnico-administrativos que possuem doutorado. Essa relação de poder e detenção de status é uma demonstração de que “o capital universitário se obtém e se mantém por meio da ocupação de posições que permitem dominar outras posições e seus ocupantes”.

Para que seja relevante, o título de doutor dos pesquisadores precisa estar acompanhado de uma rede de financiamento e alianças que possibilitem à instituição obter mais e mais recursos. Em função disso, não importa a relevância da pesquisa ou o papel que possui o pesquisador em sua área, mas somente a capacidade que ele tem de obter recursos, sejam públicos ou privados, e as redes de contatos em que está inserido. Para a maior parte das instituições vale mais a pena ter um pesquisador que, embora sem grandes contribuições em sua área de pesquisa, possua amigos influentes em outras universidades e centros de pesquisa.

Essa necessidade de busca por financiamento impacta na escolha do que é produzido na instituição, ainda que a pesquisa seja irrelevante em sua área do conhecimento ou apresente uma baixa qualidade teórica e metodológica. O critério passa pela publicidade que a pesquisa possa alcançar e pela sua capacidade de ser vendida ao mercado. Esse processo tem relação direta com a crise na qual se encontra o sistema capitalista, que:

“[…] reflete-se numa crise dos valores burgueses, da moralidade, da religião, da política e da filosofia. O pessimismo que aflige à burguesia e aos seus ideólogos neste período se manifesta na pobreza de seus pensamentos, na trivialidade de sua arte e no vazio de seus valores espirituais. Expressa-se no espantalho filosófico pós-modernista, que se imagina superior a toda filosofia anterior, quando, na realidade, é absolutamente inferior”.

Muitas das pesquisas se tornam meras repetições umas das outras, com pequenas variações, dentro de grupos de pesquisas ou como parte de redes. Produz-se uma grande quantidade de teses, dissertações e artigos que basicamente discutem os mesmos assuntos, apresentando pequenas mudanças nos objetos ou nos problemas a serem discutidos. Não há uma preocupação efetiva em ensaiar novas metodologias e perspectivas, mas somente em chegar a um produto, o que obviamente é garantido por uma metodologia conhecida e utilizada de forma repetida e recorrente. Não se trata aqui de experimentos variados que levam a um novo conhecimento, podendo contribuir inclusive para uma renovação daquele campo de pesquisa, mas de um conhecimento pronto que basicamente vai sendo repetido à exaustão e, dessa forma, garantir a produção em grande escala de dissertações, teses e artigos.

Uma consequência dessa repetição de métodos e procedimentos é um completo desdém pelo debate teórico. Evita-se produzir reflexões que exijam a leitura aprofundada de clássicos e um denso debate epistemológico, e que poderiam apontar para novas interpretações ou mesmo para construções teóricas inovadoras. O caminho mais comum é partir de algum referencial pronto, normalmente algum autor ou um campo da moda na Europa ou nos Estados Unidos, e aplicar na pesquisa. Muitos pesquisadores apenas se alongam em citações que, com sorte, talvez façam sentido dentro da lógica do texto. Como consequência, a ciência “se converter numa rotina de simples absorção e arquivamento de ideias, de mera repetição de procedimentos conhecidos e sancionados, dos quais apenas se esperam os resultados seguros e rendosos que não podem faltar”. Torna-se, assim, praticamente impossível a construção de um referencial teórico que apresente inovações e novos olhares para os objetos de pesquisa.

Essa situação acaba se mostrando mais grave na pós-graduação, onde se estruturou uma avaliação quantitativa do trabalho realizado, embasada num sistema de controle que inicia nos projetos em andamento, passa pelas orientações e trabalhos em eventos, chegando à publicação de artigos e livros, exigindo uma coerência temática e metodológica que é medida não por critérios teóricos e metodológicos ou pela relevância para a área de conhecimento, mas, em última instância, por palavras-chave ou número de citações. Os pesquisadores, as instituições a que estão vinculados, os periódicos e os livros são categorizados e ranqueados, sendo sua classificação um critério determinante na definição da distribuição de recursos. Entende-se que essa “adoção do modo quantitativo de avaliação das produções cientificas, e o fato de que ele passa ser visto como razoável, decorre do processo de mercantilização ao qual a ciência está sujeita no capitalismo”.

Esse cenário de pressão pela produtividade está associado às mudanças na forma de organização do trabalho, na medida em que o capitalismo necessita cada vez mais que a técnica e a tecnologia garantam a diminuição nos custos de produção. No sistema capitalista, “a grande indústria tem de incrementar extraordinariamente a força produtiva do trabalho por meio da incorporação de enormes forças naturais e das ciências da natureza ao processo de produção”. Cabe à pesquisa um papel decisivo nesse processo, na medida em que possibilita a incorporação de novas tecnologias ao processo produtivo, exigindo-se resultados rápidos, inovadores e com impactos práticos. Como parte do processo de “reorganização econômica, a esfera de natureza simbólico-cultural altera-se, para constituir-se de valores e signos próprios da produção econômica, no contexto de tecnificação da política e da cultura”. Consequentemente, diante de dificuldades estruturais, de pressão pela produtividade, e de avaliações com critérios arbitrários, criam-se formas de garantir dados estatísticos de produção. Nesse sentido:

“[…] a pressão produtivista gera o efeito perverso do agir instrumental e do abandono do essencial (o processo em si, gerador de conhecimento e enriquecedor da formação intelectual) pelo aparente, isto é, o resultado espelhado na pontuação. Em outras palavras, privilegia-se a quantidade sem se importar com a qualidade”.

Esse problema se manifesta no comércio de publicações. O mercado das revistas acadêmicas e as parcerias com empresas fazem com que se deixe de lado a possibilidade de produção de conhecimentos que possam ter um caráter socialmente refletido e que apontem para uma perspectiva minimamente crítica. Construiu-se um complexo sistema de indicadores e estatísticas que mede não a qualidade ou a importância do conhecimento produzido, mas a quantidade de textos que o pesquisador produz. Não importa o conteúdo desses textos, se repetem integralmente o que foi escrito antes ou mesmo se não tem alguma relevância, mas sim as citações que faz e as que possa vir a obter. Os textos podem não apresentar nenhuma contribuição para sua área do conhecimento, mas tornam-se importantes dentro da realidade paralela do mundo acadêmico, importância essa completamente subjetiva e que somente faz sentido para um grupo específico de profissionais. O objetivo desses artigos produzidos em grande quantidade não é a apresentação de reflexões realizadas a partir de uma pesquisa com efetiva contribuição para seu campo de estudo ou a intervenção para a solução de um problema da sociedade, mas a obtenção de resultados que sejam mensuráveis por um sistema de avaliação definido com critérios arbitrários e desconhecido pela esmagadora maioria das pessoas de fora da universidade.

Nesse cenário, de precarização do trabalho da pesquisa e de atribuição de pouca relevância ao conteúdo que se produz, a adesão aos modismos acaba sendo o caminho seguido por pesquisadores em qualquer nível de formação. Os pesquisadores acabam ou adotando os temas mais comuns do momento ou incorporando métodos e teorias mais utilizados por seus pares, na medida em que isso facilita tanto a obtenção de recursos e bolsas, como a publicação em revistas. O pesquisador deixa de ser um profissional que procura novos caminhos para seu trabalho, onde poderia encontrar saberes ainda pouco conhecidos e nada explorados, para permanecer estagnado em um lugar lotado e totalmente desgastado. Outro aspecto tem relação com o fato de esses métodos, teorias e objetos de moda normalmente expressarem interesses privados que, mesmo quando não influem de forma direta sobre o financiamento da pesquisa, determinam a importância que se deve dar ao trabalho do pesquisador.

Essa busca por estar na moda e em harmonia com os temas e teorias dominantes nos meios acadêmicos também tem como consequência o fato de se evitar quaisquer polêmicas. Se há divergências teóricas, deve-se ou fazê-las da forma mais cordial possível ou até mesmo evitar torná-las públicas, embora a produção do conhecimento necessite do debate e da crítica para apontar não apenas limitações do trabalho realizado, como indicar possíveis caminhos a serem seguidos. Nos diversos campos, dominam teorias, temas e métodos quase consensuais, parecendo que todos falam a mesma coisa, ainda que com pequenas variações na forma. O meio acadêmico atualmente existente, com raras e marginalizadas exceções, não é constituído por um espaço de debate aberto e saudável, mas por um comodismo que aceita passivamente os modismos dominantes e a precarização estrutural.

Nos últimos anos, algumas vozes têm se levantando para denunciar os problemas enfrentados pelos pesquisadores, enfatizando especialmente cortes de verbas para fomento, dificuldades estruturais e a ameaça de perda de bolsas. Contudo, de forma geral, essas críticas não apresentam uma análise da lógica perversa do meio acadêmico e do fato de que sua precarização não se limita a um projeto de governo, mas constitui-se em uma estratégia diretamente ligada aos interesses do capital, que tem como objetivo a completa transformação do conhecimento em mercadoria. Deve-se ressaltar que:

“[…] as atividades intelectuais de produção da ciência e da tecnologia não se constituem processos autônomos, independentes da realidade concreta onde se efetivam. A ciência revela-se historicamente como instrumento de poder. Ela passa a atuar junto às forças produtivas de forma cada vez mais decisiva, ampliando cada vez mais sua potência econômica”.

O Estado, diante das variações no modo e nas relações produções, adapta as políticas educacionais e de pesquisa aos interesses do capital, priorizando ora investimentos com recursos públicos, ora a entrega da educação à gestão privada, com ou sem recursos do Estado. Portanto, a despeito de todas as mediações possíveis, em última instância, a educação sob o capitalismo é funcional à produção de valores de troca e à exploração do trabalho. Com isso, a possibilidade de avanço na produção do conhecimento mostra-se incapaz de romper as barreiras da sua mercantilização, exigindo das organizações trabalhadores ações que se coloquem no sentido de romper essa bolha perversa.

Referências

  1. BOURDIEU, Pierre. Homo academicus. 2ª Florianópolis: Editora da UFSC, 2011, p. 115.
  2. Alan Woods. Reformismo ou revolução. São Paulo: Editora Marxista, 2009, p. 67.
  3. Álvaro Vieira Pinto. Ciência e existência: problemas de filosofia da pesquisa científica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 255.
  4. Marcos Barbosa de Oliveira. A mercantilização da ciência: funções, disfunções e alternativas. São Paulo: Scientiae Studia, 2023, p. 38.
  5. Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 460.
  6. Valdemar Sguissardi; João Reis Silva Jr. Novas faces da educação superior no Brasil: reforma do Estado e mudança na produção. 2ª ed. São Paulo: Cortez; Bragança Paulista: USF, 2001, p. 80.
  7. Antonio Ozaí da Silva. A corrida pelo Lattes. In: Waldir José Rampinelli; Valdir Alvim; Gilmar Rodrigues (Org.). Universidade: a democracia ameaçada. São Paulo: Xamã, 2005, p. 89.
  8. Maria de Lourdes Pinto de Almeida. A pesquisa acadêmica no século XXI. Campinas: Mercado de Letras, 2012, p. 93.
 

Michel Goulart da Silva

Historiador pela UDESC. Doutor em História pela UFSC. Servidor público, atuando na reitoria do IFC, em Blumenau.


Fonte:  Outras Palavras

Infâncias sitiadas na América Latina: comer, respirar e viver com agrotóxicos

infâncias de pesticidas 1

El Mentidero, Autlán. Aqui, como em muitas áreas rurais da América Latina, crianças e adolescentes são expostos diariamente a agrotóxicos, incluindo alguns altamente perigosos. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

Por Aleida Rueda para o “SciDev” 

[AUTLÁN, CIDADE DO MÉXICO, SciDev.Net] Muitas mulheres nas áreas agrícolas do Vale do Autlán, em Jalisco, México, viram seus filhos voltarem do campo com irritação, dores de cabeça, náuseas e vômitos devido ao uso de agrotóxicos, um “costume” que ocorre em toda a América Latina sem nenhuma medida para preveni-lo.

“Depois de pulverizar, meu filho [de 16 anos] chegou em casa com dor de cabeça e vomitando quando ele pulveriza, ele só usa uma bandana [uma máscara de pano feita em casa] sobre o nariz e a boca”, diz Lidia Morales, uma mulher indígena de Guerrero que se mudou para a cidade agrícola de El Mentidero, em Autlán, há quase uma década para que sua família pudesse ganhar mais trabalhando no campo.

Jalisco é promovido como o “gigante agroalimentar do México” por sua produção líder de culturas como abacate, cana-de-açúcar, framboesas e amoras. Mas também lidera em outra área: intoxicações por pesticidas. Segundo dados do Ministério da Saúde, houve 72 casos em 2024 e, em abril deste ano, foram 62.

Rodolfo González Figueroa, agroecologista e promotor de processos agroecológicos na região, afirma que há muitos outros casos. Ele estima que mais de 70% dos casos nunca chegam a um médico. “Se fossem registrados, o número seria avassalador”, observa.

Mas em El Mentidero, como em muitas outras áreas agrícolas, os trabalhadores informais vivem sem seguridade social, então os envenenamentos são tratados em casa. As mulheres já estão acostumadas a usar leite ou limão para aliviar os sintomas.

“A intoxicação diminui e, no dia seguinte, eles estão de volta ao campo, trabalhando e pulverizando”, diz Alma Cisneros, outra mãe de El Mentidero. Seu marido morreu há algumas semanas de envenenamento relacionado ao uso de Lannate, um inseticida potente que mata larvas e insetos sugadores de plantações.

O que acontece em El Mentidero também acontece em muitas áreas rurais da região, onde adolescentes, meninos e meninas, estão expostos diariamente a agrotóxicos, mesmo os altamente perigosos, seja porque trabalham, vivem ou estudam perto do local de pulverização, seja porque entram em contato com esses resíduos em suas próprias casas, quando comem, bebem ou brincam.

Os agrotóxicos fazem parte do cotidiano das crianças rurais desde muito pequenas, pois convivem com eles em casa ou perto do local de pulverização. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

“Não há para onde escapar; estudos mostram vestígios de agrotóxicos por toda parte”, diz Cecilia Gargano, especialista em conflitos socioambientais e pesquisadora da Universidade Nacional de San Martín, na Argentina, ao SciDev.Net .

Embora não haja números oficiais sobre o número de menores expostos a agrotóxicos, estima-se que possa haver milhões devido à quantidade de crianças e adolescentes que trabalham no campo.

“Não há nem mesmo equipamentos de proteção projetados para crianças, porque elas não deveriam estar trabalhando. Então, se elas usam, não é do tamanho certo, é desconfortável e não as protege. Isso também aumenta a exposição delas a esses pesticidas.”

Paulina Farías, pesquisadora do Departamento de Saúde Ambiental do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) no México.

Em seu relatório de 2024 , a Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que na América Latina e no Caribe há 7,3 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos que trabalham, e destes, 46% atuam em atividades agrícolas, que a própria OIT classifica como perigosas, em parte, devido ao uso de substâncias tóxicas.

O envolvimento de crianças e jovens no trabalho agrícola não é novidade. Mas o que alguns especialistas consideram revelador, e preocupante, é que os riscos que as crianças enfrentam com agrotóxicos e herbicidas constituem uma crise de saúde pública que “estamos ignorando coletivamente”.

É assim que um grupo de pesquisadores do Brasil, Costa Rica, Chile e México descreve em um artigo de discussão publicado em 15 de agosto na edição impressa da revista Science of the Total Environment .

No artigo, o grupo alerta que dezenas de estudos na região mostram associações entre a exposição de crianças a agrotóxico e efeitos adversos que vão desde danos neurológicos e cognitivos a problemas respiratórios, alergias, leucemia e distúrbios hormonais e sexuais, entre outros.

Entretanto, apesar das evidências científicas, os autores afirmam que se trata de uma questão negligenciada nas agendas de saúde ocupacional e saúde materno-infantil, e que essa invisibilidade atrasa as respostas políticas e prejudica as avaliações de risco, intervenções eficazes, cuidados de saúde e vigilância.

“Nenhum ator sozinho vai resolver isso”, disse Rafael Buralli, pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, no Brasil, e principal autor do artigo, ao SciDev.N .

“É por isso que pedimos ações para que todos (governos, academia, empresas, trabalhadores e profissionais de saúde) assumam sua responsabilidade e evitem que mais crianças sejam expostas a substâncias tóxicas”, diz Buralli.

Lidia Morales mora em um abrigo em El Mentidero, Autlán, e viu seu filho ser envenenado durante a pulverização. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

Associações

De acordo com relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS), as crianças correm um risco particular quando expostas a agrotóxicos altamente perigosos, em parte devido ao seu próprio comportamento (como levar a mão à boca) e à sua maior ingestão em relação ao seu peso corporal.

“Uma criança respira mais vezes do que um adulto, consome mais água e mais alimentos em proporção ao seu peso do que um adulto”, diz Humberto González, pesquisador do Centro de Pesquisa e Estudos Avançados em Antropologia Social (CIESAS Occidente) em Jalisco, ao SciDev.Net .

Por estarem em fase de desenvolvimento, seus tecidos e órgãos podem sofrer danos estruturais, às vezes permanentes. Além disso, seus corpos são menos capazes de metabolizar e eliminar toxinas, resultando em uma dose interna proporcionalmente maior do que em adultos.

Entretanto, em termos de evidências científicas, um dos maiores desafios na avaliação dos riscos dos agrotóxicos é a complexidade de estabelecer relações causais.

“Nós que fazemos epidemiologia falamos sobre associações, não causalidade, porque não há um único fator de risco e porque não podemos testar em humanos, fazemos observações”, disse a Dra. Paulina Farías, pesquisadora do Departamento de Saúde Ambiental do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP) no México, ao SciDev.Net .

Algumas associações são mais bem compreendidas do que outras. Farías descreve as evidências da exposição de gestantes a inseticidas organoclorados (com ligações de fósforo e carbono) e alterações na forma e motilidade dos espermatozoides em bebês do sexo masculino como “convincentes”. Ele também descreve os efeitos antiandrogênicos em seus genitais.

Julia Blanco, também pesquisadora do INSP, apresentou evidências sobre os efeitos da exposição a agrotóxicos (permetrina, metamidofós, metilparation, atrazina, 2,4-D, clorpirifós, mancozeb, picloram, entre outros) em pais e mães três meses antes e um mês depois da gestação.

E descobriu uma associação com um risco maior de seus filhos nascerem com defeitos congênitos, como anencefalia, que é basicamente a ausência de cérebro.

Blanco explica que as evidências mais convincentes são sobre agrotóxicos altamente tóxicos a curto prazo, que produzem intoxicação aguda em poucas horas e podem até levar à morte. “Quanto menor a quantidade necessária para produzir um efeito tóxico, mais perigoso ele é”, afirma.

Farías insiste que, embora haja vários graus de evidência, “é geralmente sabido que os agrotóxicos são altamente neurotóxicos; eles danificam o sistema nervoso central”.

E há um aspecto central sobre a infância: quanto mais exposição as crianças têm em estágios iniciais de desenvolvimento, mais efeitos elas terão em estágios posteriores.

É o que explica María Teresa Muñoz Quezada, professora associada do programa de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade do Chile, a respeito de estudos que analisaram a exposição de crianças ao pesticida clorpirifós em diferentes momentos de suas vidas.

“Crianças expostas antes do nascimento não só apresentaram desempenho neurocognitivo inferior ao daquelas que não foram expostas, como também apresentaram menor espessura da substância branca cerebral”, explica ele. Isso significa menor densidade de mielina, substância essencial para o bom funcionamento do sistema nervoso.

Estudos longitudinais também foram conduzidos na Costa Rica , desde o momento em que as mulheres estão grávidas até o nascimento e crescimento dos filhos. Berna van Wendel, professora do Instituto Regional de Substâncias Tóxicas e Estudos da Universidade Nacional da Costa Rica, relatou sintomas de hipotireoidismo em gestantes expostas ao clorpirifós.

Além disso, “os meninos e meninas nasceram menores, mais leves e com perímetro cefálico menor em comparação com as crianças não expostas. Ao completarem um ano de idade, também observamos mudanças em seu desenvolvimento motor, cognitivo e socioemocional”, afirma a pesquisadora.

Julia Blanco alerta que, embora não haja evidências epidemiológicas de causa e efeito, uma coisa é clara: “Se houver suspeitas bem fundamentadas de que um agrotóxico pode ser tóxico, reprodutivo ou potencialmente cancerígeno, devemos nos guiar pelo princípio da precaução, parar de usá-lo e buscar alternativas”.

Muitas crianças e adolescentes que trabalham no campo usam pesticidas sem o equipamento adequado, pois não há equipamentos projetados para eles. Crédito da imagem: Abdul Batin / Pexels .

Em todos os lugares

Em diferentes países, crianças em áreas rurais são frequentemente expostas a agrotóxicos constantemente e por diversos meios. Um dos motivos é que elas começam a trabalhar no campo muito jovens, porque seus pais não têm com quem deixá-las ou porque precisam contribuir para o sustento da família.

Mariana Butinof, médica, especialista em saúde comunitária e professora da Universidade de Córdoba, na Argentina, afirma que, de uma perspectiva ocidental, o trabalho infantil pode ser repreensível, “mas a lógica de muitas comunidades é educar as crianças em uma cultura de trabalho. Desde cedo, elas aprendem a trabalhar e a ajudar suas famílias”.

Estando dentro ou perto dos campos, as crianças ficam expostas à pulverização por aeronaves individuais autopropulsadas, pequenos aviões ou drones, sem qualquer proteção.

“Não há nem equipamento de proteção projetado para crianças, porque elas não deveriam estar trabalhando. Então, se elas o usam, não é do tamanho certo, causa desconforto e não as protege. Isso também contribui para que elas recebam mais dessas doses de agrotóxicos”, diz a pesquisadora Paula Farías.

Mas eles não precisam estar nas áreas pulverizadas para entrar em contato com os agroquímicos; eles podem ser expostos por deriva, que é quando o pesticida é transportado pela chuva, vento ou poeira em suspensão, para longe do local onde foi aplicado.

Vários estudos relatam resíduos de partículas na água ou em alimentos colhidos. Um livro sobre os efeitos do glifosato, publicado no México há algumas semanas, menciona um risco quatro vezes maior em estudos envolvendo crianças que comeram maçãs e pepinos com mais frequência do que aquelas que não comeram.

Além de alimentos, resíduos foram encontrados nas roupas que seus pais usam para trabalhar. “Não há divisão entre o espaço de trabalho e o espaço de convivência. Agrotóxicos entram e saem constantemente da casa através de botas, roupas e dos alimentos que colhemos”, diz Butinof.

“Às vezes, as roupas de trabalho são lavadas junto com o resto das roupas da família, e tudo isso leva à exposição do grupo familiar”, acrescenta o pesquisador.

Em algumas casas em El Mentidero, há recipientes de glifosato e outros inseticidas pela metade. Rodolfo González diz que não é incomum que as pessoas armazenem agrotóxicos em suas casas ou usem os recipientes vazios como garrafas de água.

Essa disponibilidade não só aumenta a vulnerabilidade das crianças, mas também aumenta a possibilidade de que pessoas, incluindo menores, as utilizem para se envenenarem voluntariamente.

“Estima-se que 15 a 20 por cento de todos os suicídios no mundo sejam causados por envenenamento autoimposto por agrotóxicos, e esse número provavelmente está subestimado devido ao estigma associado ao suicídio”, afirmou a OMS em um relatório de 2024 . 

Herbicidas como o Faena (glifosato) estão disponíveis em casas e ao alcance das crianças. Crédito da imagem: Aleida Rueda.

Colonialismo químico

Uma solução para reduzir os riscos à saúde de crianças e adultos causados por pesticidas parece simples: proibir o uso de Pesticidas Altamente Perigosos (PAPs), mas conseguir isso é complexo devido, em parte, a um problema que alguns especialistas descrevem como colonialismo químico.

“Isso significa que os países pobres usam produtos químicos que são proibidos nos países ricos . Por exemplo, há produtos químicos produzidos na Suíça, mas que não podem ser consumidos lá, então eles os enviam para o Brasil, e nós os consumimos em massa”, diz Buralli.

Há relatos desse colonialismo. Segundo a Rede de Ação contra Pesticidas (PAN) da Alemanha, empresas europeias estão envolvidas na exportação anual de milhares de toneladas de pesticidas classificados como proibidos ou não autorizados na União Europeia, como atrazina, diafentiuron, metidationa, paraquate e profenofós.

Eles são proibidos, mas “as empresas são livres para produzir esses agrotóxicos perigosos na União Europeia e exportá-los para outros países com regulamentações mais fracas, colocando a saúde das pessoas e o meio ambiente em risco “, diz a PAN Alemanha.

Como resultado, existem centenas dessas substâncias tóxicas na América Latina. Só no México, há alguns dias, a Rede de Ação sobre Pesticidas e Alternativas (RAPAM) publicou um relatório revelando que, dos 210 POPs autorizados no país, 171 são proibidos em outros países, com efeitos tóxicos de curto e longo prazo para a saúde e o meio ambiente.

Exemplos incluem os herbicidas 2,4-D, diuron, fluazifop, glufosinato de amônio, glifosato e paraquate; os inseticidas clorpirifós, cipermetrina, fipronil, imidacloprido, malation, metomil e tiametoxam; e os fungicidas clorotalonil, compostos de cobre, mancozeb, metalaxil, tebuconazol e tiofanato-metil.

“Por que ainda são usados?”, pergunta Fernando Bejarano, diretor do RAPAM, durante a apresentação do relatório. “Tudo isso é um legado da Revolução Verde, onde o modelo a ser seguido era a agricultura americana, e se pensava que era impossível produzir pesticidas sem venenos.”

Segundo Rodolfo González, o uso extensivo de agrotóxicos responde a um modelo que prioriza a produtividade e a comercialização, e no qual governos e ejidatários veem o sucesso baseado na quantidade que vendem.

“É essa ideia decrépita do campo de vanguarda, da infraestrutura, da tecnologia e da monocultura, que torna invisíveis a diversidade, as sementes nativas, a saúde e a agricultura original”, ressalta.

Mas Bejarano é enfático: “Agora sabemos que depender de agrotóxicos altamente perigosos não é sustentável e que pagamos os custos com sofrimento, problemas de saúde e danos ambientais.”

Proibir os agrotóxicos altamente tóxicos é necessário, mas não é suficiente. O Chile é um dos países mais regulamentados , mas muitosagrotóxicos proibidos continuam sendo usados. “Um agrotóxico é proibido, mas as empresas começam a vendê-lo mais barato até esgotarem o estoque, então as pessoas consomem mais desses do que de outros”, explica Muñoz Quezada.

Gatilhos para mudança

Saraí Cisneros, dona de casa, lembra-se do momento em que os envenenamentos por agrotóxicos se tornaram coisa do passado em El Mentidero. “Lá, ao lado da escola de telesecundária, havia uma plantação de tomates e pepinos, e eles pulverizavam herbicidas fortes bem na hora em que as crianças estavam em aula”, conta ela.

Em 2019, crianças em idade escolar começaram a reclamar de odores fortes, seguidos de dores de cabeça, náuseas e tonturas. Então, as mães se mobilizaram, registraram uma queixa junto às autoridades municipais e começaram a colaborar com Humberto González e outros pesquisadores do CIESAS para que a urina de seus filhos fosse analisada.

“As mulheres têm desempenhado um papel de liderança nos conflitos socioambientais, na conscientização sobre a situação nas famílias e, em particular, sobre os danos causados às crianças. Não apenas as mães, mas também as professoras rurais.”

Cecilia Gargano, especialista em conflitos socioambientais e pesquisadora da Universidade Nacional de San Martín, Argentina

González já havia analisado amostras de mais de 200 crianças do jardim de infância e do ensino fundamental em El Mentidero e encontrado até oito agrotóxicos em suas urinas. Nesta nova amostra, de 81 alunos do ensino médio, ele relatou que 100% das crianças continham glifosato e 2,4-D.

A partir daquele momento, uma mudança ocorreu. Em 2021, foi obtido um contrato de empréstimo de três anos para realizar um projeto de reconfiguração agroecológica e converter o terreno em um espaço educacional demonstrativo.

Durante três anos (de 2022 a 2024), a área foi pulverizada, a abordagem de produção foi abandonada e as crianças começaram a produzir alimentos sem agrotóxicos, aprendendo sobre hortaliças orgânicas e biofertilizantes. “As crianças se tornaram um fator de mudança”, diz Rodolfo González, entusiasmado. 

Crianças de El Mentidero, Jalisco, aprendem agroecologia em seu terreno escolar. Crédito da imagem: Projeto RAAS.

Este não é um caso isolado. Gargano documentou um ponto em comum em muitos conflitos socioambientais na região: quando a saúde das crianças está em jogo, as mulheres e as escolas promovem mudanças, aprendizado e transformação.

“As mulheres têm desempenhado um papel de destaque nos conflitos socioambientais, na conscientização sobre a situação nas famílias e, principalmente, sobre os danos causados às crianças. Não só as mães, mas também as professoras rurais”, afirma a pesquisadora.

Em áreas rurais da província de Buenos Aires, por exemplo, a pulverização perto de escolas levou dezenas de professores a criar a Rede Federal de Professores pela Vida para impedir a pulverização perto de escolas.

Quando ocorre uma fumigação perto de uma escola, os professores interrompem as aulas, ligam para os pais para buscarem seus filhos e tiram fotos para relatar o ocorrido.

Mas “no dia seguinte temos que voltar para a escola, e temos que enfrentar a respiração daquele ar poluído e estar naquele parquinho”, diz a professora Marcela Murguía, da Escola nº 10 da cidade de Alta Vista, na província de Buenos Aires, em um vídeo online.

E praticamente nenhum país na região tem leis rígidas que proíbem ou estabelecem limites de distância para pulverização perto de escolas.

“É possível encontrar regulamentações e portarias provinciais e municipais, mas elas não são uniformes. Elas podem variar de 50 a 1.500 metros, mas não há consequências para quem não as cumpre”, diz Gargano. 

Desenho de uma criança sobre os riscos da pulverização perto de sua escola. Crédito da imagem: Rede Federal de Professores pela Vida (Argentina)/Facebook .

No Chile, Muñoz Quezada conduziu intervenções educacionais com pais e filhos em escolas rurais para avaliar até que ponto uma maior percepção de risco pode levar a uma redução de pesticidas em seus corpos.

A conclusão deles é que essas intervenções não funcionam se as crianças continuarem expostas a um ambiente repleto de agrotóxicos. “Percebemos que a mudança não é responsabilidade da família, da escola ou da criança, mas do Estado; precisamos ter políticas de justiça ambiental para evitar zonas rurais de sacrifício.”

Rodolfo González acredita que a agroecologia é um caminho para isso, desde que as mulheres sejam as que tomam as decisões sobre a terra. “Precisamos feminizar o campo. Onde há uma mulher trabalhando, há uma agricultura diferente, diversa, focada na saúde e não nos negócios.”

Ele diz isso enquanto olha para o que resta do terreno da escola que ajudou a construir. O projeto terminou há alguns meses e, em poucas semanas, estará “produtivo” novamente e, consequentemente, será dedetizado perto da escola.

Ele não consegue evitar a frustração. “Enquanto continuarmos focados na produção máxima e no rendimento máximo, em vez de focar na saúde das crianças, na conservação , na diversidade e na família, isso está fadado ao fracasso.”


Fonte: SciDev.Net

Com uso permitido no Brasil, clorpirifós tem novas evidencias de que causa danos ao cérebro de crianças em meio à pressão regulatória nos EUA

Por Brian Bienkowski para o “The New Lede”

Crianças altamente expostas a inseticidas antes do nascimento apresentaram sinais de comprometimento do desenvolvimento cerebral e da função motora, de acordo com um novo estudo sobre clorpirifós — um agrotóxico ainda usado em plantações nos EUA (e no Brasil), apesar de décadas de alertas sobre seu impacto na saúde infantil.  

O estudo, que se concentrou em um grupo de crianças nascidas de mães na cidade de Nova York, é o primeiro a relacionar a exposição pré-natal ao pesticida a “efeitos moleculares, celulares e metabólicos persistentes e generalizados no cérebro”, escreveram os autores. O estudo, publicado no periódico JAMA Neurology , revisado por pares, foi publicado meses após a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) anunciar seus planos de proibir parcialmente o clorpirifós, mas permitir o uso contínuo em 11 culturas.

A EPA deveria proibir o uso do clorpirifós na agricultura em 2017, mas o recém-empossado primeiro governo Trump reverteu a decisão. A EPA proibiu o clorpirifós em 2021, após um tribunal federal ordenar que a agência tomasse medidas em meio a um litígio e à abundância de evidências dos riscos que ele representa para as crianças. Mas a agência voltou atrás novamente depois que outro tribunal federal se posicionou a favor de grupos agrícolas contrários. 

Os níveis mais altos de exposição no novo estudo foram comparáveis às exposições atuais de trabalhadores rurais e suas famílias, disse o Dr. Bradley Peterson, principal autor do estudo e chefe da Divisão de Psiquiatria Infantil e Adolescente do Hospital Infantil de Los Angeles. 

Mas os níveis de exposição para muitos trabalhadores não agrícolas nos EUA “ainda estariam dentro da faixa de muitas mulheres em nossa coorte”, disse ele, acrescentando que não há um nível seguro de exposição. O composto pode atravessar a placenta e chegar ao feto. 

“Com mais exposição, observamos mais efeitos no cérebro, mas não há nível abaixo do qual não haja impactos”, disse ele. 

Mudanças em todo o cérebro 

As descobertas baseiam-se em dados coletados entre 1998 e 2005, quando pesquisadores realizaram testes comportamentais e ressonâncias magnéticas em um grupo de 270 crianças de 6 a 14 anos, cujas mães foram expostas ao clorpirifós durante a gravidez. As mães, todas dominicanas ou afro-americanas, foram expostas quando seus apartamentos em Nova York foram fumigados com os inseticidas. Os pesquisadores coletaram amostras de sangue das mães e do cordão umbilical para determinar a exposição ao clorpirifós. A EPA proibiu o uso doméstico do inseticida há mais de 20 anos, devido a preocupações com a saúde das crianças.

“Com maior exposição, observamos mais efeitos no cérebro, mas não há nível abaixo do qual não se observem impactos.” – Dr. Bradley Peterson, Hospital Infantil de Los Angeles

Os exames de ressonância magnética mostraram que crianças com os níveis mais altos de exposição tinham maior probabilidade de apresentar redução do fluxo sanguíneo para o cérebro, espessamento do córtex cerebral, vias cerebrais anormais, isolamento nervoso prejudicado e outros problemas. 

Peterson afirmou que o espessamento do córtex é preocupante, pois é responsável pelo movimento, pela memória e pelo pensamento das pessoas. Ele afirmou que os resultados sugerem que o clorpirifós altera o tecido neuronal daqueles expostos no útero. Os neurônios começam a se desenvolver nos fetos no início da gravidez, e ele afirmou que parece que o clorpirifós altera esse desenvolvimento por meio de inflamação e estresse oxidativo.  

Os pesquisadores também descobriram que crianças altamente expostas tiveram dificuldades em testes que envolviam digitar em sequência ou mover os dedos em uma determinada sequência, indicando habilidades motoras reduzidas. 

Os autores publicaram anteriormente um estudo que constatou déficits cognitivos aumentados em crianças altamente expostas. Outros estudos relacionaram o clorpirifós a menores pesos ao nascer e menor tamanho da cabeça em crianças expostas.

“Este é um estudo excepcional e não há dúvida alguma de que a exposição ao clorpirifós prejudica o cérebro das crianças”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica. “Cabe ao governo Trump decidir se priorizará a saúde de nossas crianças ou os lucros da indústria.” 

Proibição de curto prazo e repercussão regulatória 

Defensores do meio ambiente e da saúde há muito tempo pressionam a EPA para proibir o clorpirifós. A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar proibiu as vendas em 2020.

Patti Goldman, advogada sênior da Earthjustice que liderou o trabalho da organização sobre o clorpirifós, chamou o novo estudo de “notável” e que esses tipos de efeitos são “o motivo pelo qual temos movido diferentes ações judiciais” à EPA.

Em 2021, a EPA anunciou uma proibição, uma medida que Michael Regan, administrador da EPA na época, chamou de “atrasada” e projetada para proteger “crianças, trabalhadores rurais e todas as pessoas das consequências potencialmente perigosas” do agrotóxico. 

“A proibição estava em vigor para a safra de 2022 mas, infelizmente, empresas químicas e produtores contestaram a proibição”, disse Goldman. O recurso considerou a medida da EPA “ilegal, arbitrária e caprichosa”. 

O Tribunal de Apelações dos EUA para o Oitavo Circuito anulou a proibição proposta pela EPA em 2023. No ano passado, a agência propôs uma regra que restringiria o uso do agrotóxico em 11 culturas: alfafa, maçã, aspargo, cereja, frutas cítricas, algodão, pêssego, soja, morango, beterraba e trigo.

“Cabe ao governo Trump decidir se priorizará a saúde de nossas crianças ou os lucros da indústria.” – Nathan Donley, Centro para a Diversidade Biológica

A agência disse que as 11 culturas que planeja isentar da proibição representam aproximadamente 55% do uso total de clorpirifós (média de kilos anuais aplicados). 

“Não acreditamos que eles devam manter nenhum uso porque não há um nível seguro que proteja as crianças do tipo de dano observado no estudo”, disse Goldman.   

O inseticida também causa estragos na vida selvagem. Em março, um juiz federal ordenou que o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA reduzisse os danos causados a espécies ameaçadas de extinção por cinco agrotóxicos, incluindo o clorpirifós, que, segundo uma avaliação da EPA, estava prejudicando 97% das espécies protegidas .  

Evitando a exposição 

O clorpirifós foi o 11º pesticida mais frequentemente encontrado em amostras de alimentos no mais recente relatório de monitoramento de resíduos de agrotóxicos da Food and Drug Administration (FDA) , e um relatório de resíduos de pesticidas de 2023 do Departamento de Agricultura dos EUA encontrou traços do produto químico em papinhas de bebê feitas com peras, bem como em amostras de amoras, aipo e tomates. Peterson disse que pais ou futuros pais preocupados com a exposição devem comprar alimentos orgânicos, se possível, ou, se isso não for possível, lavar suas frutas e vegetais. 

Mas há uma “miríade” de outros compostos que também prejudicam o desenvolvimento infantil, disse ele, acrescentando que a melhor aposta para limitar a exposição é minimizar o uso de agrotóxicos nos EUA.


Fonte: The New Lede

“Um clima de malevolência sem precedentes”: estamos a caminho da sexta grande extinção em massa?

A libertação de grandes quantidades de dióxido de carbono para a atmosfera ao ritmo que estamos a fazer poderá levar o planeta a outra Grande Morte

A climate of unparalleled malevolence': are we on our way to the sixth  major mass extinction? | Greenhouse gas emissions | The Guardian

Por Peter Brennen para  o “The Guardian”

Daniel Rothman trabalha no último andar do prédio que abriga o Departamento de Ciências da Terra, Atmosféricas e Planetárias do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), um grande dominó de concreto com vista para o Rio Charles, em Cambridge, Massachusetts. Rothman é um matemático interessado no comportamento de sistemas complexos e, na Terra, encontrou um tema valioso. Especificamente, Rothman estuda o comportamento do ciclo de carbono do planeta no passado remoto da Terra, especialmente nos raros momentos em que ele foi empurrado para além de um limite e saiu do controle, recuperando seu equilíbrio somente após centenas de milhares de anos. Considerando que toda a vida aqui na Terra é baseada em carbono, essas perturbações extremas no ciclo de carbono se expressam como, e são mais conhecidas como, “extinções em massa”.

É preocupante que, nas últimas décadas, os geólogos tenham descoberto que muitas, se não a maioria, das extinções em massa da história da Terra — incluindo as piores de todos os tempos — foram causadas não por asteroides, como eles esperavam, mas por erupções vulcânicas que atingiram continentes e injetaram quantidades catastróficas de CO2 no ar e nos oceanos.

Introduza CO2 suficiente no sistema de uma só vez e empurre o ciclo de carbono, que sustenta a vida, para longe do equilíbrio, e ele poderá entrar em uma espécie de modo de falha planetária, onde processos intrínsecos à própria Terra assumem o controle, atuando como feedback positivo para liberar dramaticamente mais carbono no sistema. Essa liberação subsequente de carbono lançaria o planeta em uma excursão devastadora de 100 milênios antes de recuperar sua compostura. E não importaria se o CO2 estivesse mais alto ou mais baixo do que é hoje, ou se a Terra ficaria mais quente ou mais fria como resultado. É a taxa de variação do CO2 que nos leva ao Armagedom.

Isso ocorre porque o ciclo do carbono se adapta facilmente ao fluxo constante de CO2 que sai dos vulcões ao longo de milhões de anos, à medida que se move entre o ar e os oceanos, é reciclado pela biosfera e, por fim, retorna à geologia. Na verdade, este é o ciclo do carbono. Mas, se causarmos um curto-circuito nesse processo planetário, sobrecarregando-o com uma quantidade realmente enorme de CO2 em um período geologicamente breve, além do que a Terra pode acomodar, pode ser possível desencadear uma resposta descontrolada que se mostre muito mais devastadora do que qualquer catástrofe que tenha desencadeado todo o episódio em primeiro lugar. Pode haver um limiar que separa os episódios comuns de aquecimento na história da Terra – episódios que a vida, no entanto, absorve com bom humor – daqueles que se projetam incontrolavelmente em direção à extinção em massa.

Embora já tenham se passado mais de 60 milhões de anos desde que o planeta ultrapassou esse limite, pelos cálculos de Rothman, estamos prestes a colocar o planeta em uma trajetória tão antiga e ameaçadora, uma trajetória que pode levar milênios para finalmente chegar ao destino da extinção em massa, mas que pode ser quase inevitável quando nos afastarmos da costa.

Acontece que existem apenas algumas maneiras conhecidas, demonstradas em toda a história geológica da Terra, de liberar gigatoneladas de carbono da crosta planetária para a atmosfera. Por um lado, há os espasmos de vulcanismo em grandes províncias ígneas, que ocorrem a cada 50 milhões de anos, e, por outro, o capitalismo industrial, que, até onde sabemos, só aconteceu uma vez.

Extinções em massa não são apenas coisas muito ruins. Elas não são pandemias que paralisam civilizações, como a Covid-19, que matam muito menos de 1% de uma única espécie de primata. Extinções em massa não são o que acontece quando o mundo perde um quarto de sua vegetação e um terço da América do Norte é esterilizado, como aconteceu há apenas 20.000 anos, quando camadas de gelo de uma milha de espessura cobriram o Canadá. Elas não são supererupções de Yellowstone , três das quais detonaram em pouco mais de 2 milhões de anos – cada uma das quais teria devastado a agricultura moderna e a civilização industrial, mas nenhuma das quais teve qualquer efeito na biodiversidade global. Isso faz parte do acordo de viver na Terra. A vida não teria chegado tão longe se fosse vulnerável aos tipos de indigestão rotineira que fazem parte da operação cotidiana de um planeta vulcânico.

Mas, embora o nosso seja um planeta robusto, resiliente a todos os tipos de agressões impensáveis às quais é regularmente submetido, a cada 50-100 milhões de anos, algo realmente muito, muito ruim acontece. Trata-se das grandes extinções em massa, quando as condições na superfície da Terra conspiram para se tornarem tão precárias em todos os lugares que excedem a capacidade adaptativa de quase toda a vida complexa.

Uma área em chamas na reserva da floresta amazônica, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil.

Uma área em chamas na reserva da floresta amazônica, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. Fotografia: Carl de Souza/AFP/Getty Images

Em cinco dessas ocasiões na história da vida animal, essa devastação atingiu (e em um caso excedeu em muito ) o limite um tanto arbitrário de exterminar 75% das espécies da Terra, conquistando assim o status de “grande extinção em massa”. Essas extinções em massa são conhecidas na comunidade paleontológica como as cinco grandes (embora dezenas de outras extinções em massa menores, de gravidade variável, também apareçam no registro fóssil). A mais recente das cinco grandes ocorreu há 66 milhões de anos, uma catástrofe global suficiente para encerrar a era dos dinossauros gigantes.

Deixou para trás uma cratera de 177 Km , descoberta em 1978 sob a Península de Yucatán, no México, por geofísicos que trabalhavam para a estatal petrolífera mexicana Pemex. O tamanho e o formato da cratera indicavam que um asteroide de 9,6 quilômetros de largura abriu instantaneamente um buraco de 32 quilômetros de profundidade no solo, seguido, três minutos depois, por uma cadeia de montanhas (extremamente temporária) de granito derretido com 16 quilômetros de altura – 76% das espécies animais foram exterminadas no turbilhão.

Em comparação, a devastação causada pelos humanos no resto do mundo vivo é relativamente branda, talvez chegando a menos de 10%. Bem, pelo menos por enquanto. De acordo com um influente estudo de 2011 da Nature , do paleobiólogo Anthony Barnosky, se mantivermos a taxa atual de extinções, poderemos saltar da nossa (ainda assustadora) posição de extinção em massa menor para a sexta maior, em qualquer lugar entre três séculos e 11.330 anos a partir de agora, indistinguível para futuros geólogos de um impacto de asteroide. Pior ainda, podem surgir pontos de inflexão ao longo do caminho, nos quais as espécies restantes do mundo desaparecerão quase todas de uma só vez, como os nós de uma rede elétrica falhando em conjunto durante um colapso.

Considerando o quão catastrófico o impacto dos humanos na biosfera já foi, é assustador pensar que o clímax da nossa extinção em massa ainda pode estar à nossa frente.

EUNa história do nosso planeta, um período de tempo se destaca como singularmente instrutivo – singularmente infeliz, volátil e mortal – quando se trata de overdoses de CO2. Trezentos milhões de anos atrás, o planeta perdeu repetidamente o controle de seu ciclo de carbono e sofreu 90 milhões de anos de extinções em massa, incluindo duas das maiores catástrofes globais de todos os tempos – ambas pesadelos causados pelo CO2. Em um caso, quase morreu. Foi derrubado, nas palavras do paleontólogo Paul Wignall, por “um clima de malevolência sem paralelo”. No final do período Permiano (252 milhões de anos atrás), lava suficiente irrompeu da Sibéria e se intrometeu na crosta, a ponto de cobrir os 48 estados mais ao sul dos EUA a um quilômetro de profundidade.

Um quilômetro de profundidade.

As rochas deixadas por esses antigos fluxos de lava são conhecidas como Armadilhas Siberianas. Hoje, as Armadilhas produzem desfiladeiros fluviais espetaculares e planaltos de rocha negra no meio do nada boreal da Rússia. As erupções que as produziram, e que outrora cobriram a Sibéria com 5,2 milhões de quilômetros quadrados de basalto fumegante, pertencem a uma rara classe de gigantes chamada Grandes Províncias Ígneas (Lábios).

Os lábios são de longe a coisa mais perigosa na história da Terra, com um histórico muito mais catastrófico do que o de asteroides. Esses vulcões, outrora destruidores de planetas, são de uma espécie completamente diferente dos comuns Tambora , Monte Rainier, Krakatoa ou mesmo Yellowstone. Imagine se o Havaí tivesse sido criado não ao longo de dezenas de milhões de anos e espalhado pelo Pacífico, mas em breves pulsos em menos de 1 milhão de anos, e tudo em uma única área (e às vezes emergindo pelos centros dos continentes). Os lábios são a maneira da Terra de nos lembrar rudemente que nossa fina superfície rochosa, e o fino esmalte de gosma verde que a reveste, repousa sobre um drama planetário turbulento e totalmente indiferente. É um drama planetário em que correntes titânicas de rocha arrastam placas oceânicas inteiras para o centro do mundo para serem destruídas e renascerem. Quando esse processo sofre um contratempo, os Lips jorram da crosta como uma indigestão tectônica, deixando gigantescas extensões da Terra soterradas por rochas vulcânicas. Dependendo do ritmo e do tamanho dessas erupções, se forem grandes e rápidas o suficiente, podem destruir o mundo.

No final do Permiano, na maior extinção em massa de todos os tempos, essas erupções teriam apresentado explosões aterrorizantes, sem dúvida induzindo breves invernos vulcânicos e chuva ácida. Houve também envenenamento generalizado por mercúrio e gases tóxicos de flúor e cloro, que teriam sido familiares aos soldados sufocados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Mais importante – e mais lamentável para a vida – o que saiu da Terra na maior catástrofe da história foi uma quantidade de dióxido de carbono alarmante.

O planalto de Putorana, formado há cerca de 250 milhões de anos, no Krai de Krasnoyarsk, norte da Rússia.
O planalto de Putorana, formado há cerca de 250 milhões de anos, no Krai de Krasnoyarsk, norte da Rússia. Fotografia: Amazing Aerial/Alamy

Curiosamente, à medida que a lava siberiana tem sido datada cada vez com mais precisão, verifica-se que só 300.000 anos após o início das erupções – e depois de dois terços dessa lava já terem entrado em erupção, inundando o extremo norte da Pangeia em rochas fumegantes com quilômetros de espessura – é que a pior extinção em massa de todos os tempos de fato começou. Isso é estranho. Esses vulcões teriam expelido todo o material de pesadelo de sempre durante todo esse tempo, envergonhando os poluidores industriais – e fazendo isso por centenas de milênios antes do início da extinção em massa. Teriam ocorrido erupções incontáveis e inimaginavelmente violentas, além de tempestades nocivas de chuva ácida. Mas a biosfera é resistente. E por pior que tenha sido, transformando um terço da Rússia em um inferno vulcânico, isso não explica por que, depois de todos aqueles incontáveis séculos de miséria, a vida subitamente desapareceu em massa, mesmo no fundo do oceano, do outro lado do planeta.

Qual foi o mecanismo responsável pela extinção em massa? “Pode-se descartar a lava”, diz Seth Burgess, geólogo do Serviço Geológico dos EUA. Mas algo nesses vulcões siberianos deve ter mudado drasticamente depois de 300.000 anos, quando o mundo se desintegrou rapidamente. Então, o que foi?

O planeta começou a queimar combustíveis fósseis.

O resultado foi um fluxo de carbono no sistema tão grande que sobrecarregou a capacidade do planeta de se autorregular e tirou o mundo do equilíbrio.

Por si só, os vulcões emitem muito CO2: até 40% do gás de um vulcão em erupção pode ser dióxido de carbono. Mas depois que a Sibéria ardeu na superfície por incontáveis gerações, algo muito mais ameaçador começou a se preparar abaixo. Camadas colossais de magma com 300 metros de espessura, bloqueadas em sua ascensão à superfície, começaram a se espalhar lateralmente na rocha, bem no subsolo, como rizomas incandescentes, queimando o submundo. Foi então que tudo foi por água abaixo.

Essas enormes raízes de magma queimavam uma antiga camada de rocha russa com 13 quilômetros de espessura. A pilha de estratos, acumulada ao longo de um quarto de bilhão de anos, havia se acumulado na vasta bacia de Tunguska: os remanescentes de antigas salinas e arenitos, mas, mais catastroficamente, depósitos de calcário e gás natural ricos em carbono de mares antigos e carvões de eras passadas. O magma cozinhou todos esses combustíveis fósseis e a rocha subterrânea rica em carbono ao entrar em contato, e detonou espetaculares explosões de gás que estilhaçaram a rocha bem acima, irrompendo na superfície como crateras de 800 metros que expeliram dióxido de carbono e metano para o ar em gigatoneladas.

Após centenas de milhares de anos de erupções superficiais conhecidas, os vulcões subitamente começaram a queimar o mundo subterrâneo em grande escala e a agir como enormes usinas termelétricas a carvão, usinas de gás natural e fábricas de cimento. “A queima de carvão”, escreve um cientista sobre a extinção do fim do Permiano, “teria representado uma liberação descontrolada e catastrófica de energia da célula de combustível planetária da Terra”. As Traps Siberianas subitamente começaram a emitir CO2 em excesso, e rápido demais para que o mundo da superfície pudesse acomodá-lo.

Há uma sequência plausível de eventos no final do Permiano. Primeiro, e mais simples: o excesso de CO2 aprisionou mais energia do Sol na superfície do nosso planeta – um processo físico simples que foi descoberto por físicos há mais de 150 anos. E assim o mundo aqueceu irremediavelmente – modelos e proxies apontam para cerca de 10°C de aquecimento ao longo de milhares de anos – levando a fisiologia animal e vegetal aos seus limites. Também é um fato físico simples sobre o nosso mundo que, para cada grau de aquecimento, a atmosfera pode reter cerca de 7% a mais de água; portanto, à medida que a temperatura subia e o ciclo da água se acelerava, as tempestades começaram a assumir uma intensidade ameaçadora e sufocante. À medida que o oceano também aquece, ele retém menos oxigênio.

Infelizmente, viver em águas quentes exige muito trabalho, então os infelizes animais que nela viviam precisavam de mais oxigênio para sobreviver, e não menos. Assim, à medida que o oceano ficava mais quente e estagnado, as criaturas que nele viviam começaram a desaparecer e os mares começaram a se esvaziar. Para piorar a situação, o dióxido de carbono presente no ar se difundiu nesses mares agitados como ácido carbônico (H2CO3). Como resultado, todo o oceano global se tornou mais ácido, e a água foi privada do carbonato calcário dissolvido nela, que os animais usavam para construir suas conchas. Nesses mares ácidos, as criaturas se tornaram quebradiças e doentes, ou até mesmo deixaram de formar conchas.

À medida que essa vida marinha era dizimada, a cadeia alimentar marinha global começou a oscilar e entrar em colapso. Enquanto isso, o ecossistema terrestre era destruído por incêndios florestais (que lançavam ainda mais CO2 no ar) e fustigado por tempestades violentas. Destroços terrestres eram levados para o oceano, inundando os mares costeiros com vegetação em decomposição e minerais erodidos da terra, como o fósforo, que atuava como alimento para as plantas, alimentando enormes florações de algas no mar. Os oceanos, já carentes de oxigênio devido ao calor, começaram a sufocar de verdade, à medida que as florações de algas morriam e se decompunham. 

Tengiz, um dos maiores campos de petróleo do mundo, na costa nordeste do Mar Cáspio, Cazaquistão.
Tengiz, um dos maiores campos de petróleo do mundo, na costa nordeste do Mar Cáspio, Cazaquistão. Fotografia: Reza/Getty Images

À medida que o CO2 continuava a ser liberado das Armadilhas Siberianas em jatos maciços e implacáveis, o planeta se tornava ainda mais quente, e os oceanos não tinham a mínima chance. O CO2 agora empurrava o planeta para além dos limites da vida complexa. E assim que esses mares quentes, anóxicos e sem vida começaram a se espalhar, um espectro do passado ancestral da Terra se renovou neste planeta moribundo.

Ao contrário da maioria das formas de vida na Terra com as quais estamos familiarizados, as bactérias anaeróbicas primitivas, tendo evoluído há eras em um mundo quase sem respiração, não precisam de oxigênio para queimar seu alimento. Para algumas, o sulfato resolverá o problema. E neste mundo em decomposição e sufocante, essa vida microbiana tornou-se ameaçadoramente ascendente, exalando sulfeto de hidrogênio (H2S) como exaustão. Infelizmente, o sulfeto de hidrogênio é impiedosamente tóxico, matando instantaneamente humanos (e criaturas como nós), como às vezes acontece hoje em fossas de esterco ou ao redor de plataformas de petróleo como as da bacia do Permiano, no Texas. E assim essa nuvem escura de vida primitiva espalhou-se insidiosamente pelas profundezas e até mesmo pelas águas rasas. O mundo agora estava muito, muito quente, muito tempestuoso, quase totalmente desprovido de vegetação, com oceanos acidificantes e anóxicos que expeliam gases impiedosamente venenosos de um antigo metabolismo microbiano que matava qualquer coisa que se aproximasse.

Do outro lado do planeta, em relação às erupções, a outrora florestada África do Sul polar tornou-se tão desprovida de vida que rios que antes se curvavam e serpenteavam alegremente – com suas margens ancoradas por raízes de plantas vivas – agora corriam direto sobre a paisagem devastada em arroios entrelaçados e extensos. Estações sobrenaturais quentes e secas devastaram as florestas com fogo, alternando-se com supertempestades apocalípticas que as destruíram por completo. Os animais que povoaram as florestas agora desaparecidas por milhões de anos também desapareceram. Nas rochas, esporos de fungos aparecem estranhamente no registro fóssil em todo o mundo, anunciando o colapso da biosfera. Até mesmo os insetos, cuja grande quantidade geralmente os protege contra a morte em massa, lutaram para sobreviver.

Enquanto o calor devastava a vida nos polos, a região central escaldante da Terra tornara-se claramente sobrenatural. À medida que o CO2 elevava as temperaturas globais, o oceano nos trópicos tornava-se tão quente quanto uma “sopa muito quente”, talvez até suficientemente quente para alimentar “hipercanas” de 800 km/h que teriam devastado as costas. No interior dos continentes, a temperatura teria disparado ainda mais. No momento mais miserável do planeta, grande parte de sua superfície passou a se assemelhar menos à Terra como a conhecemos do que à alimentação de uma sonda em algum posto avançado exoplanetário árido e sem esperança. A Terra, em seu momento mais sombrio, estava perdendo sua terrenalidade. De fato, o oceano pós-apocalíptico estava tão vazio que recifes de carbonato em todo o mundo voltaram a ser reconstruídos na recuperação, não por animais como os corais arcaicos e as conchas de lâmpada que foram extintos, mas por montes calcificados de lodo bacteriano.

Em todos os lugares. Mesmo uma curta caminhada do meu apartamento em Boulder, Colorado, me coloca cara a cara com esta rocha estromatólita do fim do mundo, deixada para trás por tapetes microbianos fétidos. Na Cordilheira Frontal do Colorado, onde a história da Terra foi retirada do solo, inclinada para o lado e ornamentada com pinheiro ponderosa, encontra-se esta rocha vermelha e irregular depositada, camada por camada, por micróbios em um mar mortal há 252 milhões de anos. Ela está encravada entre arenitos mais prosaicos do Carbonífero antes dela, e as areias de praia pisoteadas por dinossauros do Mesozóico depois dela, cujos resquícios assomam como um anteparo atrás de Denver – a geologia de tempos mais felizes. Mas as implicações desta breve cunha de rocha bacteriana e de um oceano global momentaneamente dominado por montes de lodo calcificado são verdadeiramente assustadoras.

Em pouco tempo, quase todos os seres vivos do planeta estavam mortos. O interior dos continentes estava silencioso, exceto pelos ventos quentes e uivantes que varriam as terras devastadas – uma desolação seca que se alternava com tempestades punitivas e sobrenaturais que cheiravam a morte. Os oceanos, cujos mares abertos outrora brilhavam iridescentes com cardumes de espirais e tentáculos flutuantes, e cujos recifes costeiros outrora eram salpicados de vermelho-bombeiro a ultravioleta pela vida, estavam agora pútridos, asfixiantes, vazios e cobertos de lodo. Cada engrenagem da grandiosa e intrincada maquinaria biogeoquímica deste planeta ficou emperrada, desacoplada ou irremediavelmente descontrolada. A vida complexa, como um subconjunto dessa agitação geoquímica global, também se desfez. Tudo por causa da adição excessiva de CO2. Se existe um precedente geológico para o que a civilização industrial tem feito nos últimos séculos, é algo como os vulcões da extinção em massa do fim do Permiano.

Agora, vamos recuar da beira do abismo. Por mais semelhante que nosso experimento moderno no planeta possa parecer a esta era, vale a pena reconhecer, até mesmo enfatizar, que a catástrofe climática do fim do Permiano foi verdadeiramente, extraordinariamente ruim. E em uma escala que dificilmente será igualada pelos humanos. Estimativas mais altas para a quantidade de dióxido de carbono que as Traps Siberianas, que queimam combustíveis fósseis, expeliram, variando até 120.000 gigatoneladas, desafiam a crença. Estimativas ainda mais baixas, de digamos 30.000 gigatoneladas, constituem volumes de CO2 tão completamente ridículos que igualá-los exigiria que os humanos não apenas queimassem todas as reservas de combustíveis fósseis do mundo, mas continuassem a lançar cada vez mais carbono na atmosfera por milhares de anos. Talvez queimando calcário por diversão em escala industrial por gerações, mesmo enquanto a biosfera se desintegra. Do jeito que está, a civilização industrial poderia teoricamente gerar cerca de 18.000 gigatoneladas de CO2 se o mundo inteiro se unisse em um esforço niilista, multicentenário e internacional para queimar todos os combustíveis fósseis acessíveis na Terra.

Mas, embora o volume de CO2 gerado pelas Traps Siberianas supere nossa produção atual e futura, esse total foi alcançado ao longo de dezenas de milênios. O que é alarmante, e por que vale a pena falar sobre as Traps Siberianas no mesmo fôlego que a civilização industrial, é que, mesmo em comparação com aquelas antigas erupções que se espalharam por continentes, o que estamos fazendo agora parece ser único. Acontece que o esforço focado e altamente tecnológico para encontrar, extrair e queimar o máximo possível do reservatório de combustível fóssil do mundo quanto for economicamente viável, o mais rápido possível, tem sido extremamente prodigioso na remoção de carbono da crosta – mesmo em comparação com os maiores Lips da história da Terra. De fato, a melhor estimativa é que estamos emitindo carbono talvez 10 vezes mais rápido do que até mesmo os vulcões siberianos irracionais e sem direção que causaram a pior extinção em massa de todos os tempos.

Isso importa porque é tudo uma questão de taxa. Quase não há quantidade de carbono que você possa bombear para a atmosfera contra a qual, com tempo suficiente, a Terra não consiga se proteger. O CO2 vulcânico supostamente entra no sistema. Sem ele, nada disso funciona: o clima não seria habitável, a vida ficaria sem matéria-prima e o oxigênio acabaria. Mas tudo com moderação. Para manter sua homeostase, o planeta remove continuamente o CO2 da atmosfera e dos oceanos para que ele não se acumule e cozinhe o planeta. Mas esse processo é muito lento em uma escala de tempo humana. Ele enterra esse CO2 em carvão, depósitos de petróleo e gás e, mais importante, sedimentos oceânicos que se transformam em rochas carbonáticas ao longo de milhões de anos. Quando erupções de tamanho mais modesto injetam uma enorme quantidade de CO2 na atmosfera, ameaçando sobrecarregar esse processo, a Terra tem vários freios de mão de emergência.

Os oceanos absorvem o excesso de dióxido de carbono, tornando-se mais ácidos, mas em sua reviravolta milenar, trazem essas águas superficiais mais ácidas para o fundo do mar, na corrente descendente das grandes correntes oceânicas do planeta. Lá, eles dissolvem os sedimentos carbonáticos do fundo do mar – o enorme carpete de minúsculas conchas no fundo do oceano, depositado pela vida ao longo de milhões de anos – e tamponam os mares exatamente da mesma forma que um Tums acalma um estômago ácido e irritado. Esta é a primeira linha de defesa no ciclo do carbono e atua para restaurar a química do oceano ao longo de milhares de anos. Eventualmente, essas forças atuam para restaurar o ciclo do carbono e persuadir a Terra a recuar do abismo. Em um mundo sem humanos ou Lips especialmente catastróficos, esses feedbacks geralmente são suficientes para salvar o planeta. O excesso de CO2 é removido e transmutado em rocha; a temperatura eventualmente cai; e o pH do oceano é restaurado ao longo de centenas de milênios.

Portanto, não é apenas a quantidade de CO2 que entra no sistema que importa, mas também o fluxo. Aplique muito CO2 ao longo de um período muito longo e o planeta consegue lidar com isso. Mas aplique mais do que isso em um período de tempo suficientemente curto e você pode causar um curto-circuito na biosfera.

Infelizmente, a taxa com que os humanos estão injetando CO2 nos oceanos e na atmosfera ultrapassa em muito a capacidade do planeta de acompanhar o ritmo. Estamos agora nos estágios iniciais de uma falha sistêmica. Se continuarmos assim por muito mais tempo, poderemos ver o que uma falha real realmente significa.

Se quisermos sobrecarregar o sistema em um prazo mais curto e desequilibrar perigosamente o ciclo do carbono, precisamos de uma infusão muito mais intensa de CO2 nos oceanos e na atmosfera – mais rápido do que a biologia ou o intemperismo podem nos salvar. O esforço industrial global moderno para encontrar, recuperar e queimar o máximo possível de carbono antigo enterrado na crosta terrestre em questão de meros séculos pode ser suficiente.

Adaptado de “A História do CO2 é a História de Tudo: Um Experimento Planetário”, publicado pela Allen Lane em 26 de agosto. Para apoiar o The Guardian, encomende um exemplar na livraria . Sujeito a taxas de entrega.


Fonte: The Guardian

O agro é bom para quem? Estudo mostra que para o Brasil, o agro é mau

Enquanto a bancada ruralista pressiona para interferir no conteúdo de livros didáticos para limpar a sua barra para lá de suja, um estudo realizado por Yamila Goldfarb e Marco Antonio Mitidiero Junior e publicado   pela Fundação Friedrich Ebert analisou a questão tributária e dos subsídios dados ao latifúndio agro-exportador (também conhecido como “agronegócio”) e verificou com base em dados oficiais, a  existência de uma distribuição bastante desigual de crédito para os latifundiários e para os agricultores familiares (ver figura abaixo).

Além disso, apenas no caso da soja, que o estudo denomina de “a menina dos olhos do agronegócio brasileiro”, A totalidade do circuito da cadeia produtiva da soja, desde a aquisição de insumos, adubo, agrotóxicos, sementes, passando pelo óleo alimentar, farelo e biodiesel e exportações são desonerados em 100% das alíquotas de PIS/  Pasep e da COFINS e do IPI. Além de não arrecadar nada com estes tributos, o setor industrial tem direito a créditos presumidos, que podem ser utilizados no pagamento de outros tributos federais, ou, ainda, permitir que seja solicitado o ressarcimento pelo Governo Federal. Conforme estimado neste estudo, o cashback da indústria de soja é bilionário. Com isso, apenas no caso da soja, o total da desoneração na cadeia produtiva, incluindo o crédito presumido, chega a estratosféricos R$ 56,81 bilhões.

O estudo aborda ainda os impactos negativos para a saúde humana, meio ambiente, e custo da cesta básica que derivam da isenção tributária para agrotóxicos. Apesar disso, o estudo mostra que  dados do censo agropecuário mostram que entre 2006 e 2017, para um valor de produção de um real, os gastos com agrotóxicos saltaram cerca de 1200% para o algodão (R$ 0,01 para R$ 0,15), 588% para a soja (R$ 0,02 para R$ 0,14), e 102% para a cana-deaçúcar (R$ 0,04 para R$ 0,08).  Além dessa carestia, um problema bastante agudo é que 98% dos agrotóxicos consumidos no Brasil são classificados como perigoso, muito perigoso ou altamente perigoso ao meio ambiente, mas que também trazem sérias repercussões para a saúde humana e para a biodiversidade.

Um aspecto bastante interessante do estudo é a discussão sobre o papel do agronegócio no processo de desenvolvimento econômico. A partir de uma base empírica robusta, o estudo coloca em xeque a noção de que o agronegócio conduz a uma melhoria dos padrões socio-econômicos nas regiões em que suas práticas se tornam hegemônicas. Com isso, os autores do estudo afirmam que a relação entre  desenvolvimento e presença do agronegócio não pode ser diretamente relacionada ao avanço de indicadores sociais e tampouco de dinamismo econômico com distribuição de riqueza.  Com isso, eles concluem que “não à toa o “agro” precisa, portanto, de tanto marketing para moldar sua imagem“.

A conclusão do estudo é que existe, de fato, uma relação parasitária entre Estado brasileiro e agronegócio, a qual resulta em concentração fundiária, altos preços dos alimentos e conflitos territoriais socioambientais, além de beneficiar grandes corporações multinacionais.  Os autores apontam ainda que “por todos os dados e argumentos apresentados no relatório, não dá para separar a maçã podre da cesta.
Não existe “agro do bem”, pois toda a estrutura é um mau negócio para a sociedade brasileira“.

Quem desejar baixar o relatório “Agro, um bom negócio para o Brasil?”, basta clicar [Aqui!].