Cientistas cidadãos localizam pontos críticos de poluição plástica em 39 países

Apesar das frequentes limpezas de praia e dos murais ousados ​​que nos alertam sobre a necessidade de proteger o oceano, a Praia de Wellawatte, em Colombo, Sri Lanka, está mais uma vez inundada de resíduos plásticos. Imagem: Nazly Ahmed . Nazly Ahmed / Creative Commons 4.0.

Por Brendan Montague para “The Ecologist”  

A Big Microplastic Survey reúne dados de 39 países, revelando contaminação generalizada por nurdles e bioesferas.

Pelotas de plástico, bioesferas e outros microplásticos estão poluindo litorais ao redor do mundo, com novas pesquisas mostrando grandes diferenças regionais nos tipos e concentrações de plástico encontrados.

As descobertas vêm de um estudo da Universidade de Portsmouth usando dados do Big Microplastic Survey (BMS) — um dos maiores projetos de ciência cidadã do gênero — que analisou 1.089 pesquisas realizadas por voluntários em 39 países entre 2018 e 2024. 

 estudo , publicado no Environmental Monitoring and Assessment , examinou quase 59.000 pedaços de plástico para mapear padrões globais de poluição costeira.

Envio

O autor principal, Dr. David Jones, da Universidade de Portsmouth, disse: “Nossos resultados mostram que a poluição plástica não é apenas um problema local, é uma crise global, com diferentes regiões enfrentando diferentes desafios. 

“Vários milhares de voluntários participaram da Pesquisa Big Microplastic, que demonstra o poder da ciência cidadã para coletar dados em uma escala que os métodos tradicionais sozinhos nunca conseguiriam alcançar.”

A pesquisa revelou que nurdles — pellets plásticos de pré-produção — foram o tipo mais comum de plástico registrado. 

A Holanda relatou as contagens mais altas, com níveis 14 vezes maiores do que o segundo país mais afetado — principalmente como resultado de um desastre com um contêiner. 

As bioesferas, amplamente utilizadas no tratamento de águas residuais, também estavam fortemente concentradas na Holanda e em Honduras, com a Grã-Bretanha em terceiro lugar, com base na contagem média por amostra.

Negociação

Em contraste, plásticos secundários – fragmentos que se decompõem de itens maiores – foram encontrados com mais frequência no Quênia e em Honduras. O poliestireno expandido foi particularmente prevalente na Tailândia, Indonésia e Portugal. Em todos os países, os plásticos brancos predominaram, seguidos pelos transparentes ou opacos, azuis e verdes.

Além dos dados sobre poluição, o estudo demonstrou como a ciência cidadã pode atuar em escala global. Houve mais de 1.000 inscrições para participar do projeto de 66 países, com o Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália apresentando os maiores números.

No entanto, menos de um em cada cinco inscritos enviou dados, destacando os desafios de manter o engajamento dos voluntários. 

Quando os projetos tiveram sucesso, eles geralmente eram conduzidos por organizações não governamentais, que provaram ser as contribuidoras mais efetivas e frequentemente eram responsáveis ​​pela maior parte das pesquisas em suas regiões.

A poluição plástica não é apenas um problema local: é uma crise global, com diferentes regiões enfrentando diferentes desafios.

A pesquisa destaca a crescente importância da ciência cidadã no apoio aos esforços internacionais para combater a poluição plástica. Em 2022, a Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente concordou com um tratado juridicamente vinculativo para acabar com a poluição plástica, que exige que os Estados-membros aprimorem o monitoramento e a elaboração de relatórios. O tratado ainda está em negociação.

Inclusivo

A Dra. Michelle Hale , Diretora da  Escola de Meio Ambiente e Ciências da Vida  da Universidade de Portsmouth, acrescentou: “Embora existam limitações nos dados coletados por voluntários, a ciência cidadã pode preencher lacunas críticas, especialmente em regiões onde os recursos para monitoramento ambiental são limitados. Também ajuda a fortalecer o engajamento da comunidade – um passo vital para combater a poluição plástica em sua origem.”

O estudo conclui que a combinação da ciência cidadã com métodos científicos tradicionais pode oferecer a abordagem mais eficaz para rastrear a disseminação de microplásticos e formular políticas para reduzi-los.

A Universidade de Portsmouth abriga o Revolution Plastics Institute  , que se dedica a encontrar soluções para lidar com a poluição plástica e gerar uma comunidade globalmente relevante de pesquisadores de plásticos.

O Instituto visa enfrentar urgentemente a crise global do plástico por meio de pesquisa e inovação inclusivas e focadas em soluções para apoiar a transição para um futuro sustentável do plástico. Os projetos abrangem todas as disciplinas, combinando criatividade, pesquisa e inovação para abordar o impacto do plástico.

Este autor

Brendan Montague é membro da equipe editorial do The Ecologist online.


Fonte: The Ecologist

Milagre uenfiano pós-audiência: depois de quase 1 ano parado, processo do PCV volta da Reitoria para a Casa Civil

Professores e servidores reunidos com o presidente da Comissão de Servidores Públicos da Alerj, Flávio Serafini, ao final da audiência realizada na Alerj no dia 11/09/2025

Um dos primeiros atos realizados em maio de 2025 pelas nova diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf) foi enviar uma correspondência à reitora da instituição, Profa. Rosana Rodrigues, solicitando informações sobre as razões do processo referente ao novo Plano de Cargos de Vencimentos estar parado no seu gabinete desde o dia 20 de setembro de 2024 (ver imagem abaixo).

No entanto, apesar de não ter respondido diretamente à Aduenf, a reitora Rosana Rodrigues fez publicar 3 dias depois do envio da correspondência da Aduenf, uma carta aberta à comunidade universitária da Uenf onde, entre negativas e confirmações, ela dizia estar buscando outros caminhos, aparentemente em vão, para fazer avançar a aprovação do novo PCV dos servidores da Uenf. Para quem não sabe, o atual PCV, publicado em 2006, está defasado em vários aspectos, incluindo na malha salarial que sofreu poucas alterações em quase 20 anos. O resultado disso é que cálculos do DIESSE indicam que a perda salarial dos professores está em torno de 50%, fato que também se estende aos servidores técnico-administrativos que atuam na instituição.

Com base na constatação de que o trâmite do processo do novo PCV da Uenf estava parado no gabinete da reitora desde setembro de 2024, a diretoria da Aduenf procurou e recebeu acolhida no gabinete do presidente da Comissão de Servidores Públicos Estaduais, deputado Flávio Serafini (PSOL), para começar os esforços para destravar a situação.  A partir desses contatos, Flávio Serafini esteve no campus Leonel Brizola no dia 26 de agosto onde manteve duas reuniões com professores e servidores não docentes para tratar da realização de uma audiência pública na Alerj para buscar soluções para o destravamento do processo do PCV.

Essa audiência aconteceu na última 5a. feira (11/9) e teve a participação dos sindicatos de professores (Aduenf) e servidores técnico-administrativos (Sintuperj), da reitora Rosana Rodrigues, e de uma representante do ANDES-SN.  Já do lado do governo de Cláudio Castro houve a presença de um representante da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia e de um representante da Secretaria da Casa Civil, o subscretário de Gestão de Pessoas, Alexandre Meyohas.  Após uma série de manifestações, o subsecretário Alexandre Meyohas solicitou que a reitoria da Uenf devolvesse o processo referente ao PCV  para a Casa Civil para que fosse feita uma revisão de cálculos dos valores, levando em conta a defasagem salarial a partir de 2021, além da inclusão dos aposentados e os cargos comissionados no cálculo.

Incrivelmente (quase que como em um milagre) o retorno do processo do gabinete da reitora Rodrigo Civil para a Casa Civil foi feito antes mesmo que a audiência pública fosse encerrada pelo deputado Flávio Serafini (ver imagem abaixo),  e com todos os cálculos solicitados pelo subscretário Alexandre Meyhohas (ver imagem abaixo).

Esta velocidade repentina por parte da reitoria da Uenf tem o dom de abrir o caminho para o tipo de solução que foi apontada por Flávio Serafini durante a audiência. Eu, de minha parte, fico apenas pensando porque não se fiz isso antes. Talvez porque tenha faltado mobilização política dentro do campus, o que acabou acontecendo com a realização da audiência pública da última quinta feira?  É bem provável.

Mas o que fica claro, mais uma vez, é que sem mobilização política a solução dos problemas fica sempre mais difícil. Mais uma razão para que a mobilização que já está acontecendo ganhe ainda mais força, pois há que se garantir a aprovação do novo PCV antes do periodo de restrições que é imposto pelo calendário eleitoral de 2026.

Finalmente, há quem diga que não adianta mobilizar e o melhor é esperar sentado para ver que bicho dá.  O que me parece claro, mais uma vez, é que milagres só acontecem para quem luta.

Agricultura familiar perde espaço para monoculturas no Centro-Oeste, mostra pesquisa

Agricultura familiar perde espaço para monoculturas no Centro-Oeste, mostra pesquisa

Estudo analisa dados socioeconômicos e ambientais de 466 cidades de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

Se por um lado o Centro-Oeste brasileiro é notoriamente reconhecido como eixo do agronegócio no país, por outro é uma região marcada pela baixa prevalência da agricultura familiar. A maioria das cidades de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul têm até 10% da área produtiva dedicada à atividade. Em Goiás, o total de terras destinadas aos pequenos produtores rurais sobe para até 40%. Além da desigualdade de distribuição de terras, a concentração de renda e dificuldade de acesso a recursos dificultam a agricultura familiar na região, revela estudo da Universidade de São Paulo (USP) publicado na revista Food Security na quarta (10).

Os dados vêm de análise de 466 cidades de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A equipe aplicou técnicas de regressão espacial para associar a proporção de terras destinadas à agricultura familiar com fatores socioeconômicos e ambientais. Entre os fatores considerados estavam densidade populacional, PIB per capita, índice de concentração fundiária, valor da produção de milho e de soja, além das emissões de gases de efeito estufa ligadas à agricultura e ao uso da terra.

Como resultado, a pesquisa revela que a agricultura familiar está positivamente associada à maior densidade populacional, por favorecer a fixação de moradores no campo, e à produção de milho, cultura mais voltada à alimentação quando comparada à soja. Por outro lado, a presença da agricultura familiar tende a diminuir à medida que o PIB per capita aumenta nos municípios.

O artigo também mostra que, em regiões de maior expansão da soja, a agricultura familiar foi menos presente. Nessas áreas, dominadas por monoculturas, observou-se maior emissão de gases de efeito estufa.

Para Lucas de Almeida Moura, pesquisador no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome (FSP/USP) e autor principal do artigo, a presença dos agricultores familiares nas regiões contribui para a fixação dos moradores no campo e para um menor impacto ambiental, sendo um importante indicativo de garantia da segurança alimentar da região. “A agricultura familiar possui extrema importância para as cadeias locais de abastecimento e para a alimentação da população. Isto a enfatiza como essencial para a garantia do direito humano à alimentação adequada e da segurança alimentar da população, tendo em vista que a emergência climática impacta diretamente os sistemas alimentares, sobretudo em áreas já vulneráveis, o que compromete o acesso à alimentação”, destaca.

O artigo destaca a importância de políticas públicas para fortalecer a agricultura familiar, que no Brasil representa a base da economia local de 90% dos municípios com até 20 mil habitantes e é a principal responsável por alimentos consumidos pela população, como milho, mandioca, laticínios e hortaliças.

Segundo Moura, a escolha do Centro-Oeste como estudo de caso se deve às características marcantes da produção agrícola da região e ao desempenho já observado em análises anteriores. “Isto pode ser tomado como ponto de partida para investigações mais aprofundadas, considerando dados e características ainda mais localizadas, o que contribui para gerar evidências mais robustas para a tomada de decisão sobre a presença da agricultura familiar nestes territórios e o fortalecimento desse modelo de produção”, conclui Moura.

A pesquisa foi realizada em parceria com o Sustentárea e com apoio da World Wildlife Fund Brasil e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).


Fonte: Agência Bori 

Coisa de Prosa

Mula-Sem-Cabeça | Dana Social

Por José Luis Vianna da Cruz

– Senta aqui, compadre, vem trocar um dedo de prosa!

– Tá bem, compadre, mas preciso seguir meu rumo antes do escurecer!

– Ué, o compadre tem medo de escuro?

– Não, compadre…bem, quer dizer…medo, não, né!

– Ué, como assim? O compadre não tem medo do Curupira, do Saci Pererê, do Lobisomen, do Boitatá, do Caipora?

– Não…medo, não…tenho respeito. E olha que já vi todos eles…e, também, o Ururau e a Loira do Banheiro!

– Tô sabendo kkkkkk…o compadre viu e não correu, certo?

– Certo, segui meu caminho…com todo respeito…não tenho medo dessa turma, não, cumpadre!!! Só não brinco nem mexo com eles.

– O compadre, então, não tem medo de nada hihihihihi…!

– Tenho sim…mas, como dizia meu avô…”eu não tenho medo de alma do outro mundo, não tenho medo dos mortos, tenho medo é dos vivos…”

– Então, o compadre não tem medo do Capeta, do Satanás, do Lúcifer, do Cão?

– Aí, sim…do Coisa Ruim eu tenho medo!

– Ué, o compadre acabou de falar que não tem medo de coisa do outro mundo…te peguei, compadre!!!

– Tem diferença, compadre! Já viu ou conheceu, de verdade, ao vivo, alguém que foi agredido ou comido, pelo Saci Pererê, pelo Curupira, pela Caipora, pela Mula Sem Cabeça, pelo Boitatá? Eu não acredito nem desacredito! Mas, existindo ou não, eles enchem nossas ideias, colorem nossa imaginação, mostram quem é medroso e quem tem coragem, dá assunto prá gente fazer troça dos amigos e, melhor ainda, dos inimigos kkk… No fundo o medo ajuda a gente a correr do Mal e viver no Bem. Eles encantam a gente, cumpadre! Eles existem pra modo da gente levar uma boa prosa, de noite, de preferência, pra mexer com nossos medos, na companhia de uma boa Marvada, da branquinha! Vai dizer que o compadre não gosta de uma boa prosa em noite bem escura, no seguro da casa, de porta fechada, escutando as estórias das gentes que juram que já viram essa turma?

– Não desvia do assunto, não compadre! E o medo do Tinhoso, compadre, de onde procede?

– Ora, compadre, o Tinhoso costuma encarnar numa gente ruim, bem vivinha, que faz maldade com todo mundo, que mata e esfola gente do bem, gente que não faz mal a ninguém, gente que labuta no dia a dia, presse país ser bom pra todo mundo! Viu só o Coisa Ruim que foi nosso presidente, antes desse que tá aí, quanta gente morreu e morre por causa dele, que espalha as maldades contra pobre, negro, mulher, gente de gênero diferente de homem e mulher, contra criança, trabalhador? Que desgraçou nosso país e que vive chamando o coisa ruim dos isteitis pra modo de fazer dele e da sua capangada uns ditadores? Viu a cambada que tá junto dele, tudo filho do capeta! Umas gentes dos militares, das igrejas, das leis, da política, das polícias, dos bandidos, uma gente saída de tudo quanto é lugar! Ainda bem que não é a maioria, compadre e que muitos deles estão indo pro xilindró!

– O compadre quer dar um nó na minha cabeça…me enrolou tanto que escureceu e o compadre nem percebeu… Agora que eu quero ver! Boa noite, compadre, boas andanças até a casa kkkkkk

– Você vem comigo, compadre?

– Ué, compadre…riririri…tá com medo do escuro? Você num disse que não tem medo da turma do outro mundo, da floresta e da escuridão?

– Tô não, cumpadre. Eles assustam mas não fazem maldade. Tenho medo é de algum filho do capeta ter escutado nossa conversa e me pegar na primeira curva da estrada, compadre? Você me acompanha, compadre?

– Sim, mas com uma condição: se aparecer um capeta vivo desses, eu boto ele pra correr, que não tenho medo de vivo…mas, se aparecer um daqueles do outro mundo – esconjuro! – você vai ter que me proteger, que o cumpadre é cumpincha deles, né??? Combinado?

– Combinado, compadre!…eta prosa boa, né, cumpadre?…só faltou a Marvada! O compadre é que me enrolou, esticando a prosa! Lá vamos nós de novo, pra casa, se melando pelas perna abaixo…viver é muito perigoso, né, compadre? ririririri…

Prosa dedicada ao Coronel Ponciano, ao Chicó, ao Riobaldo…e ao meu pai,

que viu e teve uma prosa rápida com a Mula Sem Cabeça.


Tarde/noite de 11 de setembro de 2025, glorioso dia da

condenação da camarilha dos oito pelo STF

Glifosato encontrado em ovos e frango vendidos em supermercados é rastreado até ração transgênica para aves

Glyphosate residues in feed adversely impact avian species, particularly those in poultry production, as shown in a review of literature.

Por Sustainable Pulse

Uma revisão científica publicada no  World’s Poultry Science Journal  destaca os efeitos adversos à saúde das espécies aviárias decorrentes da exposição ao herbicida  glifosato (Roundup), amplamente utilizado durante o processo de produção avícola. O herbicida entra no sistema de produção avícola por meio de resíduos em rações geneticamente modificadas, informou a Beyond Pesticides .

Um artigo anterior na  Scientific Reports  concluiu que a “ampla aplicação do glifosato (GLP) em culturas forrageiras deixa resíduos na ração”, enquanto  resíduos  são “comuns em ovos convencionais adquiridos em supermercados”.

Ao analisar os impactos bioquímicos, toxicológicos e ecológicos do glifosato em aves, especialmente frangos, os autores encontram um amplo conjunto de evidências que ligam o glifosato e seu metabólito (produto de degradação) ácido aminometilfosfônico (AMPA) a riscos debilitantes que vão além da mortalidade.

Esses efeitos subletais incluem perturbação do microbioma intestinal e doenças gastrointestinais; diminuição da produtividade e diminuição da saúde reprodutiva; toxicidade hepática e renal; impactos no crescimento e desenvolvimento, incluindo teratogenicidade e embriotoxicidade; perturbação endócrina e estresse oxidativo; e comprometimento das funções imunológicas.

Os efeitos do glifosato, como há muito documentados na literatura científica, variam de impactos negativos à biodiversidade e ao meio ambiente a riscos à segurança alimentar e implicações à saúde humana.

Resíduos de glifosato e AMPA “foram detectados no solo, plantações, ração animal, aves e fontes de água, o que levou à análise de seus efeitos a longo prazo”, afirmam os autores.

Eles continuam:

“Estudos indicam que o glifosato interrompe as vias enzimáticas, particularmente ao inibir o sistema do citocromo P450, levando ao estresse oxidativo, à desregulação endócrina e à disfunção mitocondrial.

“Ele tem sido associado à toxicidade hepática e renal, alterações na microbiota intestinal, danos reprodutivos, defeitos de desenvolvimento e possível carcinogenicidade, embora as agências reguladoras permaneçam divididas sobre sua classificação como cancerígeno.”

A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, parte da Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato como tendo propriedades cancerígenas, assim como estudos científicos independentes revisados ​​por pares.

A natureza onipresente dos resíduos de glifosato no meio ambiente e dentro dos organismos é resultado da ampla aplicação desse produto químico tóxico na silvicultura, agricultura, paisagismo e jardinagem.

Mais de 750 herbicidas contêm glifosato como ingrediente ativo, e ele também desempenha um papel importante na produção de culturas geneticamente modificadas (GM), “com aproximadamente 80% das culturas GM criadas especificamente para tolerância às BPL”.

Formulações de herbicidas à base de glifosato contêm não apenas glifosato, mas também outros ingredientes inertes (não divulgados), como adjuvantes que aumentam a toxicidade.

Um adjuvante comum em produtos herbicidas à base de glifosato é a amina de sebo polietoxilada (POEA), que pesquisadores descobriram que pode matar células humanas, particularmente células embrionárias, placentárias e do cordão umbilical.

Efeitos em aves

Resíduos de glifosato na ração animal, bem como na água e por outras vias de exposição, representam riscos à saúde animal e humana, pois esses resíduos podem se bioacumular e biomagnificar ao longo da cadeia alimentar.

Com uma alta dependência de milho e soja na dieta das aves, as culturas geneticamente modificadas são uma fonte significativa de exposição para esses animais.

“A presença de resíduos de GLP na ração para aves levanta preocupações sobre potenciais efeitos na saúde das aves, incluindo perturbações na microbiota intestinal, estresse oxidativo e produtividade geral”, escrevem os autores.

Eles continuam:

Globalmente, aproximadamente 57% da produção de grãos de milho e 85% da produção de soja são destinados à alimentação animal. Diversos estudos investigaram os efeitos da alimentação de diversas espécies de animais com culturas transgênicas tolerantes ao glifosato.

“A pesquisa incluiu vacas leiteiras, gado e galinhas, destacando o impacto potencial dos resíduos de glifosato no desempenho do crescimento das aves, na função imunológica e na saúde reprodutiva.”

Toxicidade hepática e renal

Estudos mostram que os rins e o fígado estão entre os primeiros órgãos a serem afetados por intoxicações alimentares/doenças transmitidas por alimentos. Pesquisas adicionais mostram que resíduos de glifosato nos alimentos podem impactar vários sistemas em animais, incluindo fígado, intestino, rins e pulmões, além de alterar a atividade enzimática.

Em um  estudo com frangos recém-nascidos  expostos apenas ao glifosato e ao Roundup, foram observadas “alterações histopatológicas nos rins e no fígado, juntamente com desequilíbrios nos parâmetros séricos e diversas alterações bioquímicas nesses órgãos, o que poderia potencialmente prejudicar sua função”.

Estresse oxidativo

A exposição ao glifosato pode induzir estresse oxidativo e danos aos lipídios, proteínas e DNA. Pesquisas anteriores mostram como o glifosato e o AMPA são genotóxicos e estão associados a danos oxidativos.

Um estudo  mostra que o glifosato aumenta a geração de espécies reativas de oxigênio no fígado e no intestino delgado de frangos. A exposição crônica a produtos que contêm glifosato em matrizes de corte (frangos de corte) enfraquece a casca dos ovos e retarda o crescimento dos órgãos embrionários, sendo o estresse oxidativo a causa.

Toxicidade gastrointestinal

O glifosato diminui a biodisponibilidade das enzimas citocromo (CYP), cruciais para o metabolismo, nos órgãos das galinhas. Um estudo mostra que o glifosato inibe especificamente as enzimas CYP P450 no fígado e intestino delgado das galinhas.

Os pintinhos expostos ao glifosato também apresentam função hepática comprometida e metabolismo lipídico alterado, causando ainda mais estresse oxidativo e depósitos de gordura no sangue e nos tecidos do fígado devido à expressão aumentada de genes relacionados à lipogênese, como resultado de seu efeito disruptivo nas enzimas do citocromo P450.

Estudos adicionais mostram a perturbação do microbioma intestinal em gado e aves, onde o glifosato reduz bactérias benéficas e aumenta a resistência em cepas patogênicas.

Esses impactos podem levar ao surgimento de doenças gastrointestinais crônicas. Em um estudo sobre a  estrutura intestinal de pintinhos , o glifosato demonstrou prejudicar os intestinos, reduzir a capacidade antioxidante, induzir inflamação e causar a regulação negativa de genes no intestino delgado.

Impacto na reprodução

Pesquisas anteriores mostram que  a exposição crônica a herbicidas contendo glifosato pode afetar a sobrevivência, o crescimento, a atividade e a reprodução de organismos, incluindo galinhas.

Um  estudo com galos  com exposição crônica e subtóxica ao glifosato mostra redução de testosterona plasmática e um declínio no pico reprodutivo.

Outro estudo  encontra “efeito significativo nas características histopatológicas [do tecido doente] dos testículos do galo, bem como na motilidade dos espermatozoides, o principal determinante da qualidade do esperma do galo”.

Pesquisas adicionais mostram  espermatozoides alterados em galos  quando alimentados com uma dieta contendo glifosato, o que leva a “distúrbios metabólicos na prole, provavelmente devido a  efeitos epigenéticos ”.

Implicações do glifosato para produtividade e desempenho

Vários estudos classificaram formulações de herbicidas à base de glifosato como teratogênicas, causando anormalidades no desenvolvimento do feto ou embrião, e embriotóxicas, causando danos ou morte aos embriões durante o desenvolvimento.

Em  um estudo com codornas , constatou-se que o glifosato se acumulava dentro dos ovos, causando danos aos lipídios (gorduras) no cérebro dos embriões em desenvolvimento. Este estudo também revela que resíduos de glifosato nos alimentos também retardam o desenvolvimento da plumagem e permanecem nos ovos, músculos e fígados das aves.

Outro estudo com galinhas mostra que  a exposição ao GLP  levou a uma redução significativa na expressão de genes-chave relacionados à produtividade”.

A exposição direta dos ovos de galinhas a herbicidas à base de glifosato induz efeitos teratogênicos com efeitos negativos no crescimento e desenvolvimento embrionário, bem como na mortalidade embrionária.

Alterações nos parâmetros sanguíneos, efeitos adversos no desenvolvimento do trato digestivo e redução do peso corporal são observados em  galinhas expostas ao glifosato .

Os impactos reprodutivos e de desenvolvimento relacionados à qualidade da casca do ovo e ao desenvolvimento do embrião também estão associados aos níveis de  glifosato e AMPA  na gema do ovo.

Outro estudo mostra que a  queda na eclodibilidade  está associada a níveis mais altos de resíduos de glifosato na ração de matrizes de frangos de corte.

Deficiências regulatórias e a solução orgânica

Apesar das crescentes evidências científicas que continuam a vincular o glifosato a efeitos adversos em uma ampla gama de espécies, as regulamentações atuais não protegem a saúde e o meio ambiente.

Os processos regulatórios, como os utilizados pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), também ignoram fatores que aumentam a toxicidade desses produtos químicos já nocivos, como sinergia, misturas e ingredientes inertes.

“As avaliações de segurança atuais concentram-se principalmente no glifosato de forma isolada, ignorando os efeitos tóxicos sinérgicos das formulações comerciais e sua capacidade de bioacumulação nos tecidos adiposos”, apontam os autores.

Eles continuam:

“Além disso, a toxicidade elevada das formulações comerciais de glifosato, influenciada por coformulantes como POEA, em conjunto com a interferência do glifosato na microbiota intestinal, nas enzimas do citocromo P450 e nas funções endócrinas, enfatiza a necessidade de avaliações de risco cumulativo e estudos de longo prazo que levem em conta a variabilidade das espécies, a bioacumulação e os efeitos sinérgicos.”

Essas inadequações na regulamentação de pesticidas petroquímicos e fertilizantes sintéticos reforçam a necessidade urgente de adoção generalizada de alternativas mais seguras.


Fonte: Sustainable Pulse

COP 30 no Brasil: guia explica o Acordo de Paris e seus desafios

Em novembro de 2025, Belém recebe o maior evento climático do planeta: a COP 30, a conferência das Nações Unidas sobre mudança do clima. Para compreender o que está em jogo nas negociações internacionais, o Observatório do Clima e o Instituto LACLIMA lançam a segunda edição do guia “Acordo de Paris  Um guia para os perplexos”.

A publicação revisita a história da Convenção do Clima da ONU, apresenta os principais artigos do Acordo de Paris e explica, de forma clara, como funcionam os mecanismos de mitigação, adaptação, financiamento climático, perdas e danos, mercados de carbono, entre outros. Nesta edição, foram abordados os resultados da SB 62, a reunião preparatória para a COP que acontece todos os anos em Bonn, na Alemanha.

Com glossário de siglas, perfis dos atores-chave e resumos sobre as COPs anteriores, o guia que tem uma linguagem simples e acessível, é leitura indispensável para jornalistas, ativistas e todos que buscam entender os rumos da diplomacia climática e o futuro do planeta.

“Existem poucas coisas mais chatas e mais importantes que a negociação de clima. Nós buscamos no guia uma linguagem que deixasse interessante o que é importante, sem contornar a complexidade do tema, mas tentando fazer o leitor rir um pouco”, diz Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima.

“Este guia é uma ferramenta essencial para quem quer entender a importância das COPs, os interesses que estão em jogo, o impacto direto dessas negociações no nosso dia a dia e o processo das negociações climáticas com os grupos de países organizados para negociar conforme seus respectivos interesses. O manual mostra por que a COP 30 será um momento decisivo para o Brasil e para o mundo”, afirma Flávia Bellaguarda, diretora presidente do Instituto LACLIMA.

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Observatório dos Agrotóxicos: tsunami de venenos avança no governo Lula com a liberação de 43 registros adicionais

O leitor deste blog poderá até achar que é notícia velha, mas não é.  Vinte e quatro horas depois de liberar 42 registros de agrotóxicos do tipo Produto Técnico (a forma concentrada dos produtos), eis que o Diário Oficial da União desta 3a. feira (09/09) trouxe a liberação de mais 43 agrotóxicos, agora na modalidade formulada que é aquela pronta para uso.

O Ato nº 43, de 5 de setembro de 2025 traz um museu de velhas novidades, já que a maioria dos registros liberados serão usados nas culturas de soja e cana de açúcar, que já concentram o uso de agrotóxicos na agricultura brasileira. 

Além disso, outro padrão mantida é a hegemonia das fabricantes chinesas que respondem pela maior da produção dos produtos que tiveram seus registros liberados.  Com isso, temos um aprofundamento da processo de trocas desiguais, já que o preço das commodities agrícolas, a soja por exemplo, tende a ser menor do que a dos agrotóxicos. Como a China é o principal comprador da soja brasileira, e o principal fornecedor de venenos agrícolas usados nessa cultura no Brasil, temos aí um padrão de perdas contínuas para a economia brasileira.

Quanto ao presidente Lula, a manutenção dessa enxurrada de agrotóxicos representa uma quebra do compromisso de que seu governo começaria um giro em prol de um modelo agroecológico e de eliminação da dependência de agrotóxicos para a produção agrícola.

Florestan Fernandes, suas análises sobre a condição do negro na sociedade brasileira e a prisão por racismo de um dirigente do PT Campos

Florestan Fernandes: 100 anos de um pensador brasileiro – Associação dos  Amigos da ENFF

Não sei quantos leram algo sobre a vida do fundador da Sociologia brasileira, Florestan Fernandes, mas sua trajetória de vida parece ter saído de um daqueles livros do surrealismo, tamanha são suas façanhas ao longo de seus 75 anos de vida. No meu caso, li duas biografias excelentes e passei por uma parte pequena de sua obra para poder escrever um capítulo de livro sobre a relação de Florestan Fernandes com o MST.  Com base nas minhas leituras sobre Florestan, eu sempre digo para os meus alunos na Uenf que ele mereceria uma disciplina  só sobre ele para que os futuros cientistas sociais formados na instituição pudessem ter a devida apreciação não apenas pela grandeza da sua obra, mas pela sua incrível contribuição ao entendimento da persistência, resistência e generosidade que um cientista deve ter para ser realmente capaz de contribuir com a sociedade onde vive.

Uma das obras mais centrais para o entendimento da sociedade brasileira que foi escrita por Florestan Fernandes tem o título de “A integração do negro na sociedade de classes“,  e nela ele analisa a dificuldade histórica da integração do negro na sociedade capitalista brasileira após a abolição da escravatura. A tornar evidente, a persistência da desigualdade e a falta de preparação para uma nova realidade. Florestan demonstrou que, sem acesso a trabalho, prestígio e segurança em condições de igualdade, o negro foi relegado a posições inferiores, sem ter suas aptidões plenamente aproveitadas. Para ele, somente uma transformação social profunda e a luta pela superação das desigualdades de classe e raça poderiam garantir uma democracia real.  Como sabemos bem, a transformação social profunda mencionada por Florestan ainda está longe de acontecer neste país e, principalmente, nesta cidade.

Florestan Fernandes me veio à mente após pensar mais um pouco e conversar com quem entende do riscado sobre a prisão do dirigente do Partido dos Trabalhadores  de Campos,  Gilberto Gomes, pela acusação de racismo.  A primeira coisa que se pode dizer da acusação e prisão de Gilberto Gomes é que ele provavelmente passará à história como uma das primeiras pessoas a passarem por essa situação nesta pobre/rica cidade.  Eu diria que quem procurar os registros policiais e os processos em andamento no Fórum Juiza Maria Tereza Gusmão Andrade por motivo de racismo deverá sair com as mãos vazias. E sabemos que atos de racismo devem ocorrer todos os dias. 

Mas então por que essa situação envolvendo um dirigente do PT que estava participando do “Grito dos Excluídos” (e me digam qual é a cor da pele mais excluídos entre os excluídos desta cidade?). Me parece que ao colocar a pecha de racismo em quem objetivamente estava em uma manifestação que explicita a necessidade de transformação sugerida por Florestan Fernandes é uma das formas mais eficientes de se desviar a atenção da realidade que ele descreveu em 1964; justamente o ano em que sofremos um golpe civil-militar que foi desenhado para impedir qualquer avanço social em prol dos mais pobres no Brasil.  Aliás, há que se dizer que Florestan Fernandes foi um dos primeiros cassados pelo Ato Institucional nº 1 que foi implementado em 9 de abril de 1964, tendo sido expulso da sua cadeira de professor na Universidade de São Paulo (USP), lugar para o qual nunca mais voltou, mesmo depois do fim do regime militar.

Então, o que fica disso é que o enfrentamento do racismo e de suas repercussões no sistema político e social brasileiro passa por entender, ao meu ver, a que e a quem ele serve.. E no caso da prisão de Gilberto Gomes, me parece que serve mais a quem mandou reprimir, mais uma vez, o “Grito dos Excluídos”. 

Por mais Florestan Fernandes em nossas vidas, essa é a minha conclusão.

Circulação de águas do Atlântico pode enfraquecer de modo inédito até 2100 e impactar chuva na Amazônia

Combinando dados de pesquisa de campo com projeções de modelos climáticos, estudo reconstituiu a atividade da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – um dos principais motores do clima terrestre – ao longo de todo o Holoceno. Cenários projetados para o futuro não têm precedentes nos últimos 6.500 anos

Equipe reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil: efeitos mais graves podem ocorrer no norte da Amazônia, com redução drástica do regime de chuvas (imagem: CEN/Universität Hamburg)

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP  

A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – conhecida pela sigla em inglês Amoc (Atlantic Meridional Overturning Circulation) – é um dos principais “motores” do clima terrestre. Ela funciona como uma esteira oceânica que transporta calor e nutrientes, conectando águas superficiais da porção tropical com águas profundas da região norte. Alterações nesse sistema sempre estiveram associadas a mudanças abruptas do clima global, como as que marcaram a última era glacial.

Um novo estudo mostra que, nos últimos 6.500 anos, a Amoc se manteve estável, após um período de oscilações durante o início do Holoceno. Mas que essa estabilidade se encontra agora ameaçada. Combinando dados de pesquisa de campo com projeções dos melhores modelos climáticos, o trabalho indica que as mudanças causadas pela ação humana podem levar a um enfraquecimento da circulação sem precedentes no período recente da história da Terra. O norte da Amazônia, justamente a parte mais preservada da floresta, pode ser fortemente afetado, com uma drástica redução do regime de chuvas.

Os resultados foram publicados no periódico Nature Communications.

A equipe internacional que realizou o estudo reuniu cientistas da Alemanha, da Suíça e do Brasil. Utilizando testemunhos de sedimentos marinhos coletados em diferentes pontos do Atlântico Norte e análises de elementos radioativos – tório-230 e protactínio-231 –, os pesquisadores reconstruíram quantitativamente a intensidade da Amoc ao longo de todo o Holoceno – os últimos 12 mil anos.

“Esses elementos radioativos são produzidos de forma constante na coluna d’água a partir do urânio. Como o tório se fixa rapidamente em partículas, enquanto o protactínio permanece mais tempo em circulação, a razão protactínio-tório registrada nos sedimentos fornece um ‘proxy’ da intensidade da circulação oceânica. Valores mais altos indicam enfraquecimento, e valores mais baixos, intensificação”, explica Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coautor do estudo.


Representação esquemática da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (seta em azul claro e vermelho), que transporta, perto da superfície, águas quentes do sul para o norte; e, em profundidades intermediárias, águas frias do norte para o sul. O desenho também mostra uma outra célula (seta em azul escuro), que transporta águas em grande profundidade (imagem: croqui de Cristiano Mazur Chiessi a partir de informações de Voigt et al., 2017)

Para transformar os dados de campo da razão protactínio-tório em valores de fluxo de água, a equipe utilizou o Bern3D, um modelo do sistema terrestre desenvolvido na Universidade de Berna, na Suíça, que simula oceanos, atmosfera e ciclos biogeoquímicos, permitindo converter registros de sedimentos em estimativas quantitativas da circulação oceânica. Isso permitiu estimar a intensidade da circulação em Sverdrups (Sv) – 1 Sv equivalente a 1 bilhão de litros por segundo.

Os resultados mostraram que, após o fim da última glaciação, a Amoc levou cerca de 2 mil anos para se recuperar do estado enfraquecido. Entre 9,2 mil e 8 mil anos atrás, sofreu novo declínio, associado ao aporte de água doce no Atlântico Norte decorrente do derretimento de geleiras e lagos glaciais, como o Lago Agassiz, no Canadá e nos EUA. Esse período incluiu o chamado “evento 8,2 ka”, registrado em testemunhos de gelo da Groenlândia como um dos episódios de resfriamento mais intensos do Holoceno. A partir de 6,5 mil anos atrás, no entanto, a circulação se estabilizou em torno de 18 Sv. E manteve essa intensidade até o presente.

“Reconstituímos o avanço das águas profundas do Atlântico Norte rumo ao Atlântico Sul ao longo de 11.500 anos. E, nos últimos 6.500 anos, não detectamos nenhuma oscilação maior, minimamente próxima daquilo que está projetado para 2100”, afirma Chiessi. “O cenário futuro é muito preocupante. E deve ser levado a sério tanto pelos governos quanto pela sociedade civil, incluída a comunidade científica.”

Segundo o pesquisador, o enfraquecimento projetado vai causar mudanças nas chuvas de todo o cinturão tropical do planeta, especialmente na América do Sul e na África, mas também afetando o sistema de monções da Índia e do Sudeste Asiático.

Impacto sobre a Amazônia

Um dos impactos mais importantes deverá ocorrer na Amazônia. “Projetamos uma marcante diminuição das chuvas no norte da Amazônia, justamente a região mais preservada da floresta. Esse efeito poderá ocorrer porque as chuvas equatoriais tenderão a se deslocar para o sul com o enfraquecimento da circulação do Atlântico. Com isso, o norte da Amazônia, abrangendo áreas do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e das Guianas, poderá enfrentar reduções significativas na pluviosidade”, projeta Chiessi.

O pesquisador enfatiza que a gravidade desse cenário é ainda maior porque se trata da porção mais preservada da floresta. Diferentemente do sul e do leste amazônicos, onde o desmatamento e a degradação já avançaram fortemente, o norte tem funcionado como um “porto seguro” de biodiversidade. “É justamente nessa região, até agora menos impactada, que a mudança climática poderá impor uma vulnerabilidade nova e dramática”, observa.


Coleta de coluna sedimentar do fundo do Mar de Labrador, no Atlântico Norte, entre o Canadá e a Groenlândia. A coluna sedimentar coletada nesse local serviu como base para o artigo científico (foto: Stefan Mulitza)

Estudo anterior, publicado em 2024 por Thomas Kenji Akabane e colaboradores, entre eles o próprio Chiessi, já havia alertado para essa possibilidade. Por meio de registros de pólen e carvão microscópico em sedimentos marinhos, os cientistas mostraram nesse trabalho que enfraquecimentos passados da Amoc levaram à expansão de vegetação sazonal em detrimento das florestas úmidas do norte amazônico. E os modelos indicam que um enfraquecimento semelhante no futuro produziria impactos ainda maiores, uma vez que seriam agravados pelo desmatamento e pelas queimadas em outras partes da bacia.

Ponto de não retorno?O arrefecimento da Amoc poderá configurar um ponto de não retorno no sistema climático global. Se confirmadas as projeções, ocorrerá uma ruptura sem precedentes na circulação oceânica que sustenta o equilíbrio do clima do planeta. Há consenso entre os pesquisadores especializados de que o enfraquecimento constitui uma clara tendência. Mas os dados ainda não permitem saber se já está ocorrendo ou não. “Os monitoramentos diretos começaram apenas em 2004 e o oceano responde mais lentamente do que a atmosfera. Por isso, os registros são ainda insuficientes para uma resposta conclusiva. Porém, apesar dessa incerteza, a urgência de agir é inegociável. Ainda existe tempo, mas nossas ações precisam ser robustas, rápidas e conectadas, envolvendo governos e sociedade civil”, alerta Chiessi.

Como já foi dito em evento realizado na FAPESP, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro deste ano em Belém, no Pará, constitui uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada (leia mais em: agencia.fapesp.br/54611 e agencia.fapesp.br/55727).

Os dois estudos contaram com apoio da FAPESP por meio dos projetos 18/15123-419/19948-0 21/13129-8.

O artigo Low variability of the Atlantic Meridional Overturning Circulation throughout the Holocene pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-025-61793-z.


Fonte: Agência Fapesp

Estamos perdendo a cabeça?

Um novo documento de posicionamento alerta contra a adoção acrítica da IA ​​no meio acadêmico

Por Kent Anderson para o “The Geyser” 

Vale a pena ler um recente documento de posicionamento de um grupo internacional composto por especialistas da Holanda, EUA, Alemanha e Dinamarca como um antídoto ao exagero em torno da Inteligência Artificial (IA) ​​— que parece estar perdendo força por muitos dos motivos explorados no trabalho, outro sinal de que “ o inverno da IA ” pode estar chegando.

O público-alvo do artigo é o meio acadêmico, incluindo cientistas e profissionais da ciência, um grupo que inclui editores científicos:

Neste documento de posicionamento, explicamos por que as universidades devem levar a sério seu papel de a) combater o marketing, o exagero e os danos da indústria de tecnologia; e b) proteger o ensino superior, o pensamento crítico, a expertise, a liberdade acadêmica e a integridade científica.

Tópicos pesados, mas esses são os dias em que vivemos.

Os autores sabem o que fazem e começam com uma citação surpreendentemente boa de 1985:

A cultura da IA ​​é imperialista e busca expandir o reino da máquina.

Sim, isso definitivamente ainda é verdade…

No entanto, os autores têm bastante munição própria:

IA sempre foi uma frase de marketing que corrói a integridade científica e a discussão acadêmica por natureza, deixando a porta aberta para pseudociência, exclusão e vigilância.

Eles lançam luz sobre os problemas de definição da expressão “inteligência artificial”, observando que um coração artificial bombearia sangue, fazendo a função que imita. A IA não faz isso. Eles também observam que o termo “inteligência” é vago e carregado de um histórico de eugenia, racismo e capacitismo, portanto, quando aceitamos as alegações antropomórficas da IA, estamos nos tornando suscetíveis a sermos enganados por um sistema que tem problemas em sua essência.

Termos como “frames falsos” e “software lixo” me fizeram querer comemorar lendo o artigo, já que este último foi um que usei outro dia para responder a um entusiasta de IA — afinal, IAs não conseguem somar de forma confiável, jogar xadrez sem quebrar as regras do próprio sistema de armazenamento e assim por diante. Um lixo completo.

Descrevendo a IA como uma “tecnologia colonizadora” — o que significa que ela busca dominar qualquer campo em que seja usada — os autores rejeitam a “degradação e o desmantelamento da expertise e a desumanização dos acadêmicos”, observando que os proponentes da IA ​​rejeitam tacitamente a “autodeterminação livre das forças da indústria”.

Quanto ao uso da IA ​​como uma muleta, eles escrevem: “Os LLMs não melhoram a capacidade de escrita de alguém, assim como pegar um táxi não melhora a capacidade de dirigir de alguém”.

  • Em uma nota relacionada, um autor gracejou sobre Bluesky: “Correlação não é cognição”.

Os autores também sabem que precisamos seguir em frente, então eles oferecem cinco princípios para um futuro melhor com a IA ainda viável, mas colocada em seu lugar:

  • Honestidade  não use IA secretamente e não faça afirmações sobre ela que você não pode provar
  • Escrupulosidade  usar a IA apenas de formas científicas bem especificadas e validadas
  • Transparência  tornar toda a IA de código aberto e computacionalmente reproduzível
  • Independência garantir que qualquer pesquisa seja imparcial em relação às agendas das empresas de IA
  • Responsabilidade  não use produtos de IA que prejudiquem animais, pessoas ou o meio ambiente

Com o ceticismo em relação à IA aumentando desde o lançamento do GPT-5 e como ele caiu com um estrondo apesar do enorme hype, é ótimo ler um artigo de posicionamento escrito por pessoas que tratam isso como tecnologia, uma tecnologia que deve ser avaliada a todo momento como uma tecnologia — e não como uma tecnologia particularmente boa, compatível, eficiente, inevitável ou segura.

Para a academia, a IA é parte de um ataque tecno-utópico a todo o sistema. Não é uma ótima tecnologia nova projetada para nos ajudar a evitar tarefas domésticas. Como escreve uma de suas fontes: “Quando você terceiriza o pensamento, terceiriza o aprendizado”.

Espero que este documento sirva como um alerta.


Fonte: The Geyser