Poluição química é uma ameaça comparável às mudanças climáticas, alertam cientistas

Mais de 100 milhões de substâncias químicas de “novas entidades” estão em circulação, com impacto na saúde não amplamente reconhecido

Uma seleção de refeições prontas congeladas disponíveis em supermercados do Reino Unido.

Pesquisadores encontraram mais de 3.600 produtos químicos sintéticos usados no preparo e embalagem de alimentos em corpos humanos. Fotografia: Yola Watrucka/Alamy

A poluição química é “uma ameaça ao desenvolvimento dos humanos e da natureza de uma ordem semelhante à mudança climática”, mas está décadas atrás do aquecimento global em termos de conscientização e ação pública, alerta um novo relatório..

A economia industrial criou mais de 100 milhões de “novas entidades”, ou substâncias químicas não encontradas na natureza, com algo entre 40.000 e 350.000 em uso e produção comercial, afirma o relatório. Mas os efeitos ambientais e na saúde humana dessa contaminação generalizada da biosfera não são amplamente compreendidos, apesar de um crescente conjunto de evidências que relacionam a toxicidade química a efeitos que vão do TDAH à infertilidade e ao câncer.

“Suponho que essa seja a maior surpresa para algumas pessoas”, disse ao Guardian Harry Macpherson, associado sênior de clima da Deep Science Ventures (DSV), que realizou a pesquisa .

Talvez as pessoas pensem que, quando você anda pela rua, respira o ar, bebe água, come, usa produtos de higiene pessoal, xampu, produtos de limpeza para a casa, os móveis da casa, muitas pessoas presumem que existe um grande conhecimento e uma enorme diligência sobre a segurança química dessas coisas. Mas não é bem assim.

Durante oito meses, como parte de um projeto financiado pela Fundação Grantham, Macpherson e colegas conversaram com dezenas de pesquisadores, líderes de organizações sem fins lucrativos, empreendedores e investidores, e analisaram centenas de artigos científicos.

De acordo com o relatório da DSV, mais de 3.600 produtos químicos sintéticos provenientes de materiais em contato com alimentos – os materiais utilizados na preparação e embalagem de alimentos – são encontrados no corpo humano, sendo 80 deles motivo de preocupação significativa. PFAs, os “produtos químicos eternos”, por exemplo, foram encontrados em quase todos os humanos testados e estão tão presentes que, em muitos locais, até mesmo a água da chuva contém níveis considerados impróprios para consumo. Enquanto isso, mais de 90% da população mundial respira ar que viola as diretrizes de poluição da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Quando esses produtos químicos contaminam nossos corpos, os resultados podem ser desastrosos. O relatório constatou a existência de dados correlacionais ou causais que ligam produtos químicos amplamente utilizados a ameaças aos sistemas reprodutivo, imunológico, neurológico, cardiovascular, respiratório, hepático, renal e metabólico humano.

“Um dos principais pontos que se destacaram com bastante força foram as ligações entre a exposição a pesticidas e problemas reprodutivos”, disse Macpherson. “Observamos ligações bastante fortes – correlação e causalidade – entre aborto espontâneo e pessoas com dificuldades básicas para engravidar.”

A pesquisa do DSV complementa as descobertas anteriores do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto Climático, de que já ultrapassamos em muito o limite planetário seguro para poluentes ambientais, incluindo plásticos. No domingo, outro relatório alertou que o mundo enfrenta uma “crise do plástico” , que está causando doenças e mortes desde a infância até a velhice, em meio a uma enorme aceleração da produção de plástico.

O relatório também destaca deficiências críticas nos métodos atuais de avaliação de toxicidade, pesquisa e testes, expondo as maneiras pelas quais os atuais freios e contrapesos estão falhando em proteger a saúde humana e planetária.

“A forma como geralmente realizamos os testes fez com que muitos efeitos não fossem detectados”, disse Macpherson. Ele destacou a avaliação de substâncias químicas desreguladoras endócrinas, que interferem nos hormônios, causando problemas que vão da infertilidade ao câncer. Descobriu-se que essas substâncias contradizem a suposição tradicional de que doses mais baixas invariavelmente terão efeitos menores.

Um dos problemas é que, quando há uma substância química interferindo no sistema endócrino, ela às vezes tem uma resposta não linear. Então, você verá que haverá uma resposta com uma dose muito baixa, que não seria possível prever a partir do comportamento dela com uma dose alta.

A DSV se descreve como uma “criadora de empreendimentos” que cria empresas voltadas para o enfrentamento de grandes problemas ambientais e de saúde humana. Parte do objetivo do relatório é identificar áreas problemáticas que podem ser abordadas pela inovação.

Atualmente, a toxicidade química como questão ambiental recebe apenas uma fração do financiamento destinado às mudanças climáticas, uma desproporcionalidade que, segundo Macpherson, deveria mudar. “Obviamente, não queremos menos financiamento para o clima e a atmosfera”, disse ele. “Mas acreditamos que isso – na verdade, proporcionalmente – precisa de mais atenção.”

No entanto, havia características do problema que o tornavam mais fácil de ser solucionado. “O lado bom é que isso pode ser facilmente influenciado pelo consumidor, se as pessoas começarem a se preocupar com as coisas que estão comprando pessoalmente”, disse Macpherson.

“Não há necessariamente necessidade de uma ação coletiva massiva; pode haver apenas uma demanda por produtos mais seguros, porque as pessoas querem produtos mais seguros.”

Por sua vez, desde o início da pesquisa, Macpherson é cuidadoso com o que entra em contato com sua comida. Ele cozinha em uma frigideira de ferro fundido. Evita, principalmente, aquecer alimentos em plástico.

Infelizmente, a recomendação é consumir mais alimentos orgânicos, mas eles são mais caros em geral. Então, pelo menos lave frutas e vegetais antes de comê-los, mas orgânicos se você puder pagar.


Fonte: The Guardian

Dinheiro do petróleo não resolveu problemas em Presidente Kennedy e Campos dos Goytacazes

Cidades que mais recebem royalties têm indicadores socioeconômicos ruins e foram incapazes de reduzir desigualdades

Presidente Kennedy e Campos dos Goytacazes: petróleo e pobreza

Por Rafael Oliveira & José Cicero para a Agência Pública

Pouco mais de 100 km separam Presidente Kennedy, no Espírito Santo, de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Muito diferentes em extensão territorial, tamanho da população e vocações econômicas, o que aproxima os dois municípios é o dinheiro do petróleo. Desde o fim do século passado, os cofres públicos de Campos e Kennedy vêm sendo irrigados com cifras bilionárias de royalties e participações especiais (PEs), vinculados à exploração petrolífera na Bacia de Campos.

O que também os conecta é a dificuldade de fazer com que esse aumento vultoso de arrecadação se transforme em melhorias efetivas na vida de seus habitantes. A Agência Pública percorreu as duas cidades em maio de 2025 em busca de entender qual o impacto prático das receitas petrolíferas no desenvolvimento socioeconômico dos campeões em recebimentos desses recursos. Kennedy é a cidade que mais recebeu recursos per capita e Campos é a maior recebedora em valores absolutos.

O que encontramos foi a persistência de velhos problemas comuns a várias cidades brasileiras. Falta de saneamento básico, queixas frequentes sobre atendimento médico, educação pública deficiente, recorrentes casos de corrupção e manutenção de profundas desigualdades sociais dão a tônica de ambos os municípios, apesar de ambos terem muito mais recursos para gastar do que se vê Brasil afora. 

Entre moradores das duas cidades, a percepção é de que a riqueza do petróleo não chegou para todos. Se permitiu que as prefeituras locais despejassem dinheiro em obras questionáveis e investissem em programas sociais, colhendo dividendos eleitorais com isso, os royalties não serviram para tirar boa parte da população da miséria – 25% dos kennedenses e dos campistas recebem menos de R$ 218 per capita e estão abaixo da linha da pobreza.

“Presidente Kennedy é um município pequenininho e a arrecadação é altíssima. Falam que a população podia ser a mais rica e eu concordo. Pelo valor que recebe de royalties, era para a cidade estar um ‘brinco’, mas aqui é uma cidade de miséria. Para onde vai esse dinheiro?”, questiona Félix de Jesus, agricultor familiar no município.

Para o aposentado Romero Gomes, morador de Farol de São Thomé, em Campos de Goytacazes, a exploração do petróleo “trouxe mais problemas e os royalties não deram conta de resolver”. “Ao contrário, eles só agravaram e aprofundaram. Para as prefeituras, é como se fosse a herança de um tio distante, que caiu no colo. Não precisa fazer mais nada e, com isso, o desenvolvimento estrutural da região fica renegado. Só que o combustível fóssil tem data de validade”, diz.

A percepção da população é validada por estudiosos do tema. “O aumento orçamentário não se reverteu em justiça nem na mitigação de desigualdades. Nenhuma pesquisa revela alguma melhoria com relação a isso”, analisa o professor da Universidade Candido Mendes (UCAM) Rodrigo Lira, que atua em um programa de pós-graduação referência na pesquisa sobre os royalties do petróleo.

Para moradores locais, o sentimento é o de que as administrações que comandaram os dois municípios ao longo das décadas de bonança petrolífera foram incapazes de tornar as cidades independentes dos poços de petróleo da região, que estão cada vez mais perto de secar. No ano passado a extração na Bacia de Campos foi menos de 50% do que era em 2017.

A contradição não é exclusividade dos dois municípios. A Pública analisou dez indicadores socioeconômicos dos 15 municípios campeões de receitas petrolíferas per capita, como saúde, educação, pobreza e saneamento básico. Na maior parte dos casos, os municípios petrorrentistas estão entre os piores de seus estados. Kennedy está entre as piores cidades do Espírito Santo nos dez indicadores, enquanto Campos tem desempenho apenas intermediário na maior parte dos índices.

E A COP30 COM ISSO?

Os resultados da avaliação feita pela Pública contrastam com o discurso repetido por defensores da exploração do petróleo na foz do Amazonas, que vislumbram no combustível fóssil uma garantia de desenvolvimento para a região Norte do país. A nova fronteira petrolífera é defendida especialmente por políticos do Amapá, que tem hoje o terceiro pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil e é o estado que abocanharia a maior fatia de royalties da exploração local.

Se o desenvolvimento socioeconômico via petróleo não é garantido, o impacto nas mudanças climáticas é incontestável. O combustível fóssil é, globalmente, o principal responsável pelas emissões de gases do efeito estufa.

Como revelou a Pública em 2023, se todo o petróleo que se estima existir na Margem Equatorial – área que inclui a foz do Amazonas – for queimado, isso emitiria entre 4 bilhões e 13 bilhões de toneladas de gás carbônico (CO2), anulando os eventuais ganhos com desmatamento zero e tornando improvável que o Brasil cumpra suas metas climáticas.

Obras não resolveram problemas estruturais em Presidente Kennedy

O município mais ao sul do litoral do Espírito Santo figura há anos entre os mais ricos do país em PIB per capita e já chegou a ocupar a primeira posição nacional. Entre 1999 e 2024, Presidente Kennedy, que tem cerca de 14,6 mil habitantes, recebeu quase R$ 390 mil por habitante, considerando a população estimada pelo IBGE em 2024. 

Ao todo, foram mais de R$ 5,7 bilhões, segundo dados extraídos da plataforma InfoRoyalties, da UCAM, e corrigidos pela inflação. Se permitiram gastos controversos, como shows e outros eventos milionários, os bilhões de reais não serviram para tirar boa parte da população local da miséria – além de ¼ estar abaixo da linha da pobreza, 61% está no Cadastro Único (CadÚnico), que permite acesso a benefícios sociais.

Placa quebrada diz: “Bem-vindo à Presidente Kennedy”

“[A prefeitura] não consegue produzir efeitos com o dinheiro, trazer indústria, trazer comércio, trazer estrutura para o povo trabalhar. Eles não querem isso, porque enquanto a população estiver debaixo da asa, eles vão estar mandando. Todo mundo é funcionário da prefeitura. Se acabar o dinheiro dos royalties, já era, a cidade quebra de virar pó em dois anos”, opina um pescador local, que preferiu não se identificar.

No auge, no meio da década passada, o montante recebido anualmente superou R$ 500 milhões. Nos últimos anos, a redução da produção na Bacia de Campos fez com que o valor caísse, ficando em torno de R$ 200 milhões. Mas, o município segue com um dos maiores orçamentos por habitante do país, superior ao de cidades quase dez vezes maiores em população, como Balsas (MA) e Conselheiro Lafaiete (MG). 

O caixa robusto coloca Kennedy na dianteira dos investimentos públicos. Em 2023, nenhuma prefeitura capixaba destinou mais dinheiro per capita para a educação básica (R$ 45,5 mil por aluno, três vezes a média dos municípios capixabas), para a saúde (R$ 5,4 mil por habitante, quase quatro vezes a média) e para a infraestrutura social, que inclui urbanismo e saneamento básico (R$ 8,7 mil por pessoa, mais de dez vezes a média).

A bonança do petróleo permitiu certos “luxos” difíceis de encontrar em outros municípios de mesma dimensão – e algumas contradições também. Muitos equipamentos públicos passaram por um “banho de loja” às vésperas do último ciclo eleitoral, mas os problemas do dia a dia estão longe de serem sanados.

Hospital de Kennedy foi reformado às vésperas da última eleição, mas é preciso rodar até 50 km até municípios vizinhos para realizar exames, passar com especialista ou fazer um parto

A obra do hospital local – na verdade, uma unidade de pronto-atendimento –, por exemplo, foi entregue em maio de 2024, depois de anos em situação precária. Mas os moradores ainda não têm acesso a atendimentos de maior complexidade no próprio município, como ressonância, ultrassom, ou consulta com especialistas. Em geral, a população tem de se deslocar até Cachoeiro do Itapemirim, a 38 km, para conseguir esse tipo de atendimento.

“Se precisar fazer um parto, não tem [atendimento]. Tem vários casos de partos no meio do caminho [para outras localidades, em trajetos de até uma hora]”, conta um outro morador de Kennedy que também preferiu não se identificar. 

Mesmo com o montante recorde destinado à área, Kennedy teve a 6ª pior taxa de óbitos evitáveis ajustada pela idade e a 13ª pior taxa de mortalidade infantil no estado em 2023, segundo dados do Ministério da Saúde.

Na educação, o cenário é semelhante: investimentos que não se refletem em melhorias. As escolas estão entre as estruturas reformadas recentemente, há distribuição de kit de material escolar – com direito a livro de pelúcia para as crianças – e concessão de bolsas para que jovens façam faculdade em outros municípios. Mas os indicadores da área continuam ruins.

No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) dos primeiros anos do ensino fundamental, a média de Kennedy foi de 5,5, a quarta pior nota do estado em 2023. Mantenópolis, que teve o melhor desempenho entre os municípios capixabas, com 7,7, gastou menos de um terço do que Kennedy investiu. 

Nos últimos anos do fundamental, o desempenho foi menos pior, mas ainda bem abaixo da média. A nota alcançada por Kennedy foi 4,8, a 45ª entre 63 municípios com resultados. Itaguaçu e Muniz Freire, que dividem a primeira posição, com 6,1, também tiveram investimentos de cerca de um terço do de Kennedy.

O município tem ainda 12,63% da sua população analfabeta, segundo dados do Censo 2022, e está entre os dez piores do Espírito Santo nesse quesito.

Para moradores ouvidos pela reportagem, mesmo o programa de bolsas, avaliado positivamente, acaba por esbarrar em um problema crônico da cidade: a falta de oportunidades de emprego no local. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de fevereiro de 2025, havia 1.378 empregos com carteira assinada no município, o que representa menos de 10% da população.

Outra distorção aparece na praia de Marobá, a 20 quilômetros do centro. A orla está entre as regiões revitalizadas no ano passado, inclusive com a duplicação de vias, ao custo de mais de R$ 12 milhões bancado pelo dinheiro do petróleo. O local é, em tese, a principal atração local para os visitantes, mas surpreende pela ausência de estrutura turística e de turistas. 

Prefeitura gastou milhões para asfaltar a orla da praia de Marobá, mas fluxo de turistas no local é quase inexistente

Por outro lado, o saneamento básico não chegou a Marobá e a população precisa recorrer à água mineral. “Aqui a água era muito ruim. Tinha dia que estava ferro puro mesmo, horrível. Hoje, está melhor, mas ainda não é usada para beber, muita gente não faz café nem comida com a água”, relata Renata Oliveira, secretária da Colônia Z14 de Pesca de Presidente Kennedy.

A cidade ocupava a penúltima e a antepenúltima colocação estadual em acesso adequado à esgotamento sanitário (menos de 4% da população) e à água (menos de 25%), segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) de 2022.

Sem outra fonte de renda na cidade, população depende do emprego público

Em Presidente Kennedy, a ligação entre boa parte da população e o governo municipal é quase umbilical. Além da distribuição de auxílios, muitos kennedenses trabalham ou têm familiares atuando no poder público, o principal empregador local. Na cidade, há 151 funcionários da administração pública para cada mil habitantes, e o gasto com a área é quase dez vezes a média estadual.

Por conta disso, muitas pessoas abordadas pela reportagem não quiseram gravar entrevista. Entre quem concordou em conversar, a maior parte preferiu falar anonimamente. 

O agricultor familiar Félix de Jesus, do projeto de assentamento (PA) José Marcos de Araújo, citado no início da reportagem, foi uma das poucas pessoas que aceitou conversar abertamente. Militante do MST há décadas, ele conhece a realidade do campo de boa parte do Espírito Santo e questiona a situação de Presidente Kennedy.

Ele conta que não tem acesso pleno à energia elétrica mesmo após um ano assentado e o acesso à água no assentamento é por meio de poços artesianos, feitos com recursos próprios. As horas-máquina prometidas pela administração municipal também não têm sido cumpridas, ele reclama.

“Aqui na área eles não olham a gente com bom gosto, atendem mais o grande pecuarista do que os pequenos agricultores. A gente só faz parte do município de Presidente Kennedy na hora que é para votar, porque cada um tem seu título”, diz o assentado. 

Segundo ele, os moradores do assentamento não têm acesso a benefícios sociais, não podem expor seus produtos na feira semanal da cidade, tampouco recebem o ticket-feira distribuído pela prefeitura. 

Questionada sobre essas e outras questões, a prefeitura de Kennedy afirmou que não iria se manifestar. 

Renata Oliveira também destaca problemas para a comunidade de pescadores. Não há atracadouro nem estrutura para a pesca na cidade, e boa parte dos pescadores acaba tendo que deixar seus barcos em municípios vizinhos. “Existe uma secretaria, mas não existe nenhum programa relacionado à pesca aqui. A prefeitura deu uma melhorada na infraestrutura [da cidade], mas a gente não vive disso, a gente vive de realidade”, diz.

O assentado Félix de Jesus e a secretária da colônia de pescadores Renata Oliveira: para eles, royalties não resolveram problemas de Kennedy

Segundo o Portal da Transparência do município, o montante destinado para “ações de apoio à pesca” em 2025 é de R$ 10 mil, cerca de 0,04% do orçamento da Secretaria de Desenvolvimento da Agricultura e Pesca para o ano. Nada foi aplicado até o momento.

Nos últimos anos, o município também frequentou o noticiário por conta de escândalos de corrupção, mau uso do dinheiro público e imbróglios eleitorais. Dois prefeitos foram presos e outro tentou a reeleição para um terceiro mandato.

Campos dos Goytacazes é exemplo de como não usar royalties do petróleo

A dependência econômica dos royalties também é a realidade de Campos dos Goytacazes, no norte do Rio de Janeiro, o município que mais recebeu rendas petrolíferas no Brasil desde o fim dos anos 1990.

De 1999 até 2024, foram mais de R$ 37 bilhões entre royalties e participações especiais (PEs) vinculados à exploração petrolífera na Bacia de Campos – que tem esse nome justamente por conta do município. Em média, foi quase R$ 1,5 bilhão ao ano, segundo dados da plataforma InfoRoyalties corrigidos pela inflação. No auge, beirou os R$ 3 bilhões.

Mesmo com as cifras bilionárias, mais de 40% dos pouco mais de 500 mil habitantes de Campos está no Cadastro Único (CadÚnico). Os indicadores de saúde são ruins e os de educação e emprego são apenas medianos.

Para especialistas e moradores ouvidos pela reportagem, Campos é um exemplo de como não se aplicar royalties petrolíferos. “O legado [dos royalties] é tão oculto que fica até difícil de enxergar. Não houve um progresso significativo, de mudar da água para o vinho. Houve pequenos avanços aqui, outros ali, mas pelo tempo mesmo, como toda cidade cresce”, afirma o líder comunitário Christiano General, nascido e criado no município.

“É preciso entender qual a vocação da cidade, para fazer um planejamento [com o dinheiro do petróleo] que realmente se sustente, surtindo efeitos positivos. Não houve nada disso. Nós perdemos o bonde da história, [a administração pública] tomou péssimas decisões”, diz o pesquisador Rodrigo Lira, da UCAM.

Para lideranças comunitárias de Campos, cidade deveria ‘estar bem melhor’ do que está após décadas de royalties

Única praia de Campos, Farol mal viu a cor dos royalties

Campos de Goytacazes é um município grande, o maior do Rio, com 3,3 vezes a área da capital, mas tem uma faixa litorânea de apenas 30 km. A praia de Farol de São Thomé, na porção sudeste da cidade, está a 50 km do centro da cidade e tem quase 30 mil habitantes, 6% da população de Campos. Mesmo com a área diminuta, o bairro é responsável por boa parte da riqueza de Campos: é por causa dessa faixa litorânea que o município recebe os royalties e participações especiais.

Se o risco de que a região de Farol de São Thomé seja atingida por um vazamento de óleo das plataformas de petróleo é um dos principais argumentos para justificar os montantes bilionários que a prefeitura de Campos recebe, a realidade do local revela que o recurso pouco percorreu o trajeto da prefeitura até o mar.

Para chegar da praia ao centro, onde muitos dos moradores trabalham, é sempre uma dificuldade. É preciso recorrer às vans, que começaram a operar irregularmente e hoje prestam o serviço por concessão, mas com horários restritos. Não é raro que trabalhadores fiquem “presos” no centro, sem conseguir voltar para casa, ou que percam consultas médicas e outros compromissos por não conseguirem pegar o transporte. 

Os moradores de Farol ainda não têm acesso a esgotamento sanitário e precisam instalar fossas sépticas por conta própria. A limpeza urbana e a coleta de lixo são precárias e é preciso reforçar o repelente a todo momento para não ser vítima dos mosquitos que se multiplicam por quase toda a região.

Os pescadores, que compõem boa parte da mão de obra local e afirmam ser diretamente atingidos pelas bases de exploração petrolífera, reclamam da falta de apoio por parte da prefeitura. Não há porto nem atracadouro e os barcos são puxados e empurrados para o mar com o uso de tratores, uma prática exclusiva da praia campista. 

Segundo um pescador local, a prefeitura bancou essa “puxada” por um único mês, mais de 20 anos atrás, mas o auxílio nunca mais se repetiu. Eles gastam, atualmente, R$ 150 reais por dia somente com os tratoristas.

Mesmo a educação, que recebe parte significativa dos investimentos dos royalties por força de lei, sofre com a falta de estrutura em Farol. Na Escola Municipal Cláudia Almeida Pinto de Oliveira, a educação física é realizada há uma década na rua em frente ao colégio, sendo interrompida toda vez que um carro precisa passar, porque o teto e a estrutura da quadra da escola estão danificados há anos. 

Nas duas escolas municipais de Farol de São Thomé, quadras esportivas estão com avarias estruturais graves

A situação encontrada na região vai ao encontro dos números da educação de Campos. No Ideb de 2023, a cidade registrou números medianos. Nos anos iniciais do ensino fundamental, ficou na 49ª posição entre os 92 municípios fluminenses; nos anos finais, ficou em 50º dentre os 80 com dados disponíveis.

A região possui uma Unidade Pré-Hospitalar (UPH), mas os moradores reclamam da qualidade e das restrições de atendimentos disponíveis no local. Em casos mais complexos, é necessário encarar os 50 quilômetros até o centro e são vários os relatos de familiares e amigos que acabaram morrendo enquanto esperavam atendimento.

“Falta saneamento, falta transporte, a saúde é um descalabro. Não temos um cinema, um teatro, uma biblioteca decente. Quando muito, chega no verão e o prefeito contrata um trio elétrico com shows e sobe em cima do caminhão de som para fazer sua campanha eleitoral”, resume o aposentado Romero Gomes.

“A gente poderia estar vivendo uma situação bem melhor”

Em 2023, os royalties do petróleo permitiram que Campos investisse mais de R$ 1 bilhão em saúde, quase ⅓ de seu orçamento. A cifra supera o valor destinado por municípios bem mais populosos do estado, como São Gonçalo e Nova Iguaçu, ficando atrás apenas de Duque de Caxias e da capital. Os investimentos contrastam, no entanto, com os relatos da população.

Enquanto moradores reclamam da saúde, mesmo com orçamento bilionário, Campos tem UBSs abandonadas ao redor da cidade

No bairro Veredas, a construção de uma unidade básica de saúde (UBS) chegou até as etapas finais, mas a obra acabou abandonada pela prefeitura e está aberta para quem quiser entrar – há até fezes de cavalo no local. Na Fazendinha, o posto de saúde reformado em 2011 foi fechado sem explicações e a população precisa se deslocar para outros bairros, muitas vezes a pé ou de bicicleta.

“Em casos de emergência, não dá pra chegar. Esse postinho faz tanta falta, que aqui já morreram quatro pessoas por falta de socorro dentro de casa, porque não tem ambulância. Minha irmã morreu dentro de casa, deram tanto fundamento [para não vir atender], que quando chegaram já estava morta. A mesma coisa com a minha avó”, relata Joseana, moradora da Fazendinha, que pediu para não ter o sobrenome publicado

A falta de postos de saúde nos bairros acaba sobrecarregando os hospitais da cidade, como o Ferreira Machado, que também recebe pacientes de outros municípios da região. Os filantrópicos, que poderiam amenizar a situação, reclamam uma dívida de mais de R$ 100 milhões em repasses não pagos pela prefeitura – que questiona o valor – e já operam em capacidade reduzida.

Os indicadores de saúde de Campos avaliados pela Pública estão entre os piores do Rio de Janeiro. Em 2023, o município registrou a 12ª pior taxa de mortalidade infantil e foi o 16º pior no índice de mortes por causas evitáveis ajustado pela idade, dentre os 92 municípios fluminenses.

“A minha cunhada sofreu um acidente doméstico. Estourou vidro, caiu no pé dela e rompeu um tendão. Ficou no [Hospital] Ferreira Machado por dez dias, o médico deu alta do jeito que ela entrou e ela perdeu a transferência para outro hospital. Lá não fazia cirurgia porque estava faltando insumo. Tem um monte de gente assim jogada no Ferreira Machado”, conta José Ricardo, líder comunitário do Novo Jóquei e porteiro da escola local.

No bairro, apenas alguns quilômetros distante da área mais nobre do município, uma parcela da população não tem acesso a esgoto encanado e sofre com asfaltamento precário e constantes alagamentos.

Parte do bairro recebeu um projeto de habitação popular da gestão de Rosinha Garotinho, que esteve à frente do município entre 2009 e 2016, em um raro caso de iniciativa do tipo bancada com recursos municipais, justamente graças à bonança dos royalties. As “casinhas da Rosinha”, como são conhecidas, têm estrutura melhor que as demais casas do bairro, mas seus moradores também sofrem com problemas comuns aos de cidades bem mais pobres.

Não há espaços de lazer, a presença do tráfico de drogas é crescente, o acesso a transporte público – uma reclamação recorrente no município – é escasso e a educação promovida na escola local é precária.

Mesmo com caixa mais robusto que cidades mais populosas, indicadores de educação em Campos estão abaixo da média estadual

“Tem adolescente saindo do quinto pro sexto ano [do ensino fundamental] sem nenhuma base. Os políticos que passaram na nossa cidade durante esse período [dos royalties] não pensaram no amanhã, jogaram muito dinheiro fora. A gente poderia estar vivendo uma situação bem melhor”, afirma José Ricardo, que promove aulas de reforço a preço populares para as crianças do bairro na ONG que fundou.

“Venda do futuro” e calotes milionários

Um dos exemplos mais emblemáticos de mau uso das rendas petrolíferas em Campos ocorreu na gestão de Arnaldo Vianna (de 1998 a 2004). Além de benfeitorias lembradas até hoje pela população, shows milionários e inchaço da máquina pública bem no início do boom petrolífero, o governo de Vianna foi marcado pela criação de um fundo municipal que pretendia usar parte do dinheiro dos royalties para alavancar o desenvolvimento da cidade – mas que terminou em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

O Fundo de Desenvolvimento do Município de Campos (Fundecam) distribuiu alguns bilhões de reais, mas a falta de critérios e de gestão rendeu calotes que beiravam os R$ 600 milhões à época da investigação da Câmara Municipal. Os contratos foram fechados de maneira precária, o que dificultou a recuperação do dinheiro.

“Algumas empresas pegaram esses empréstimos com a intenção de dar calote, pegaram volumes muito grandes de dinheiro e pagaram duas, três prestações. E teve caso de empresa que não pagou e ainda assim conseguiu pegar outro empréstimo”, conta o ex-vereador Jorginho Virgílio, presidente da CPI. O relatório, entregue aos órgãos responsáveis, não resultou em responsabilização até o momento.

Arnaldo Vianna, que criou o Fundecam, é um dos vários prefeitos eleitos em Campos dos Goytacazes que tiveram vínculo com a família Garotinho, sinônimo de política no município. O próprio Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro, comandou o município nos anos 1990, antes de as receitas petrolíferas dispararem. Vianna foi seu vice, assumiu a prefeitura quando Garotinho saiu para concorrer ao governo do estado, e depois rompeu com a família.

Depois de Vianna e de um período conturbado, que teve prefeito cassado e eleição suplementar, os Garotinho voltaram ao poder, dessa vez com Rosinha. Em seu primeiro mandato, no auge da bonança do petróleo, o caixa robusto permitiu que a gestão fizesse obras de grande proporção. É o caso do Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (Cepop) – o sambódromo de Campos –, que custou R$ 100 milhões e hoje fica às moscas na maior parte do tempo; e da Cidade da Criança, a “Disney goitacá”, que custou R$ 17 milhões.

R$ 100 milhões: sambódromo de Campos teve fiação roubada e fica às moscas na maior parte do ano

A maré, no entanto, virou na metade do segundo mandato, quando os desdobramentos da Operação Lava Jato afetaram as contas da Petrobras e o preço do barril de petróleo despencou. Isso fez com que o montante de receitas petrolíferas que Campos dos Goytacazes recebia diminuísse significativamente.

Às vésperas da eleição municipal de 2016, com um custeio altíssimo e sem conseguir manter o funcionamento da máquina pública em um cenário de redução da arrecadação com o petróleo, a então prefeita resolveu pegar empréstimos com a Caixa Econômica Federal, dando como garantia royalties e participações especiais – no que ficou conhecido como “venda do futuro”.

Com o caixa encolhido, os Garotinho não fizeram o sucessor e o então vereador Rafael Diniz (PPS), de fora dos círculos tradicionais da política campista, conseguiu se eleger. Com os royalties ainda em baixa, participações especiais zeradas e um empréstimo milionário para pagar, ele terminou o governo extremamente mal avaliado e a família Garotinho voltou ao poder, dessa vez com Wladimir, filho dos ex-governadores, que está em seu segundo mandato.

A manutenção da influência do grupo político ocorre a despeito da presença frequente nas manchetes policiais. Nos últimos anos, Rosinha e Anthony foram presos algumas vezes, parte delas por denúncias relacionadas a Campos dos Goytacazes, incluindo compra de votos com o Cheque Cidadão, um programa social da prefeitura, e superfaturamento no programa de habitação popular conduzido na gestão Rosinha.

Para muitos campistas, a lembrança do governo de Diniz soa como um prenúncio do que pode acontecer em um futuro sem dinheiro do petróleo.

“Se os royalties cessarem dentro de 10 anos, é um cenário de terra arrasada”, afirma Jorginho Virgílio, que faz questão de frisar que é favorável ao recebimento dos recursos, mas contrário à maneira como eles vêm sendo aplicados. “Eu fui vereador no período do Rafael Diniz, em que os royalties foram lá embaixo. O município vivia um caos, era dinheiro contado para pagar funcionalismo, saúde, fazer limpeza e mais nada, não conseguia fazer uma obra”, diz.

“Nós estamos perdendo nossos jovens”: para Romero Gomes e Cláudia Barreto, dinheiro do petróleo não vai deixar legado em Farol de São Thomé

Para Cláudia Barreto, diretora da escola municipal de Farol de São Thomé, no entanto, o fim do dinheiro do petróleo que se aproxima pode ser uma oportunidade. “Campos vai ter que aprender na marra. Teve [os royalties] e não soube usar, gerou uma dependência ruim. Vai ter que se reinventar, mas já vivemos sem royalties antes”, opina Barreto, que é ativista na Associação Regional Núcleo de Vigília Cidadã (ARNVC), organização da sociedade civil que promove controle social sobre as rendas petrolíferas na região da Bacia de Campos.

A prefeitura de Campos de Goytacazes também foi procurada pela Pública, chegou a dizer que estava providenciando uma resposta, mas não se pronunciou até a publicação do texto. A reportagem será atualizada se as gestões se manifestarem.

Edição: Giovana Girardi | Dados: Bianca Muniz
Esta reportagem foi feita em parceria entre a Agência Pública e The Guardian. Leia em inglês aqui.


Fonte: Agência Pública

Encontro de pesquisa na Uenf reforça o papel da cooperação internacional

8 Tips to Make Sure Your Staff Meeting is Worth the Time | CIO

Uma das missões fundamentais que Darcy Ribeiro deixou para a comunidade da Universidade Estadual do Norte Fluminense seria desenvolver uma ciência com consciência cidadã e antenada com busca de soluções para as dificuldades sociais, políticas e econômicas impostas sobre a maioria pobre da população. E eu acredito que o projeto “The protection of people threatened with death: how evidence has influenced policy, police and politics in Brazil and South Africa” (ou “A proteção de pessoas ameaçadas de morte: como as evidências influenciaram as políticas, a polícia e a política no Brasil e na África do Sul”) cumpre exatamente esse papel antevisto por Darcy Ribeiro.

Pois bem, na próxima semana terei a oportunidade de participar em um momento de compartilhamento com colegas que atuam em universidades da Inglaterra e da África do Sul no âmbito de um projeto de pesquisa que considero crucial para o enfrentamento das injustiças que se acometem contra aqueles que se arriscam a defender direitos, muitas vezes sob o risco do extermínio físico (ver imagem abaixo).

É importante dizer que o projeto de pesquisa que será realizado na parceria Uenf, Brunel University  (Inglaterra) e University of Wits (África do Sul) foi agraciado com financiamento pela Academia Britânica de Ciências e representa um esforço importante no processo de internacionalização das ações de integração do conhecimento que Darcy Ribeiro via como fundamentais para a consolidação daquela que ele alcunhava como sendo a “Universidade do Terceiro Milênio”.

Enxurrada de nomeações de DAS na PMCG causa perplexidade e indignação

Em busca de modernização, Oi promove dança das cadeiras

A publicação no Diário Oficial do Município de Campos dos Goytacazes do dia 04 de agosto trouxe uma verdadeira enxurrada de nomeações para cargos de confiança em uma grande dança das cadeiras que causou perplexidade e indignação entre muitos servidores municipais que assistem a esse espetáculo de mal uso do dinheiro público.  Ainda que parte dessas nomeações faça parte de uma dança das cadeiras, refletindo rearranjos internos nos grupos que controlam o acesso aos cargos com DAS, muitos servidores ficam indignados ao verificarem que, enquanto as nomeações rolam, os seus salários continuam carcomidos pela inflação e sem quaisquer possibilidades de recuperação do seu valor real.

Agora é curioso que essa edição tenha 18 páginas destinadas a portarias de nomeações e exonerações, o que mostra que esse tipo de troca-troca envolve um número impressionante de pessoas, sem que haja uma melhoria notável na qualidade dos serviços prestados pelas secretarias municipais afetadas por essa tsunami de nomeações/exonerações.

Finalmente, o que essa situação mostra é que o município tem dinheiro para gastar, ainda que não nas coisas certas. Mas que há dinheiro, isso há.

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro explicita o fosso do tratamento dado a brasileiros enrolados com a justiça

Prisão domiciliar de Bolsonaro foi motivada por videochamadas | O TEMPO

O ministro Alexandre de Moraes decretou ontem a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro por violações dos termos estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) enquanto perdure o trâmite do processo que ele responde por tentativa de golpe de Estado.

Pois bem, ainda que os apoiadores do ex-presidente possam estar furiosos com a medida, o fato é que a decretação de uma prisão domiciliar para alguém, independente de quem seja, que esteja enrolado com a justiça apenas explicita o fosso que separa os ricos e poderosos da maioria pobre da nossa população.

É que se fosse um “Zé das Couves” que tivesse sido flagrado cometendo violações de disposições que o mantinham em liberdade enquanto respondesse um processo em liberdade, o destino desse brasileiro comum seria ocupar uma cela superlotada em alguma masmorra desprovida das condições mínimas de dignidade, como, aliás, se encontram hoje milhares de brasileiros que sequer foram indiciados por algum crime.

E curiosamente certamente não haverá qualquer apoiador de Jair Bolsonaro que venha a público reclamar dessa óbvia disparidade de tratamento, ainda que tenham se manifestado em posição contrária em um passado nada distante para mecanismos pontuais destinados a aliviar a superlotação das cadeias. É que para a extrema-direita cana dura mesmo só se for pobre.

Mas aguardemos os próximos capítulos, pois mesmo que essa prisão domiciliar seja cumprida em uma das mansões da família Bolsonaro, o mais certo é que Jair e seus filhos não se emendem e continuem a atacar as ações do STF, sempre contando com o apoio do governo de Donald Trump. Como diria William Shakespeare, o enredo se adensa…

Ecologia no fim do mundo

Ativistas climáticos precisam se unir para construir conexão, comunidade e movimentos – objetivos e princípios podem vir depois

Imagem: John Englart – CC BY-SA 2.0 . John Englart / CC BY-SA 2.0

Por Roger Hallam para o “The Ecologist”

A palavra ecologia é importante. Talvez seja o conceito mais importante no momento, e não estou dizendo isso apenas para conversar com o editor do The Ecologist online! 

Afinal, essa palavra existe há muito tempo. Lembro-me de pessoas falando sobre ela décadas atrás, na minha primeira conferência do Partido Verde, quando eu tinha 15 anos. 

É mais ou menos como: “Sim, sabemos que ecologia é tudo de bom, todos sabemos disso, obrigado”. Bem, eu gostaria de sugerir que não sabemos mesmo. Caso contrário, com certeza, não seríamos tão problemáticos, tanto como sociedade quanto como movimentos por mudança social. 

Nós

Deixe-me dar um exemplo. Há algum tempo, fui a uma reunião com cerca de 15 grupos — sindicatos, ONGs, grupos de campanha. Todos fizeram a sua parte. Houve um pouco de conversa. E foi só isso. 

Isso é o que chamo de ecologia neoliberal. É uma ecologia fraca: os elos são frágeis, a conectividade é precária e não há feedback positivo no sistema. É inerte. 

É de se surpreender que todos parecessem infelizes? O neoliberalismo colonizou a cultura de progressistas e radicais por tanto tempo que se tornou natural pensar em termos de “coisas” — “isto” e “aquilo”. 

Pensar nos nós, não nas pontes, nos elos, nas conexões. Claro que pagamos o serviço de deslizamento, mas no mundo real somos “nós” e “eles”. Mas isso não é ser real, é ser idiota. Deixamos os bandidos vencerem, antes mesmo de ligarmos a câmera com zoom.

Então, vamos começar com o mais importante. O espaço para informações e ideias em qualquer sistema humano é muito limitado — é sempre apenas uma pequena parte.

Redes

Há também emoções e narrativas. É por isso que criar uma ecologia de verdade envolve fazer check-ins nas reuniões — aquelas pequenas conversas informais, e fazer com que as pessoas contem suas histórias de vida no início dos projetos. 

No mundo neoliberal, tanto à direita quanto à esquerda, isso é, na melhor das hipóteses, um absurdo hippie e, na pior, uma ameaça de poder aos muros hobbesianos que precisam ser mantidos na guerra de todos contra todos — identidade definida como a exclusão do outro. 

Há então a ideia impressionantemente desesperançosa de que “se vamos trabalhar juntos, precisamos definir a visão e os princípios com os quais todos concordamos”. 

Este é o modelo Ikea do ser humano. Ao longo das minhas últimas quatro décadas de organização, ajudando a criar dezenas de projetos e redes, assim que alguém diz isso, sei que o desastre está prestes a acontecer, com os egos em conflito.

Sejamos claros: as pessoas trabalham juntas não por causa de sua “visão e princípios”, mas apesar deles. 

Ciclismo

A ecologia não é construída por meio da tarefa infrutífera de tentar fazer com que as projeções do ego, que são projetadas para servir à desconexão, de alguma forma se unam. 

Você projeta a bicicleta enquanto pedala.

O que você precisa fazer é fazer com que os corpos se movam juntos e muito próximos, o que significa que, na linguagem cotidiana, as pessoas precisam fazer coisas, coisas realmente reais, juntas. 

A ecologia da conexão humana é em parte ideias, em parte comunicação emocional, em parte movimento corporal. Em ecologia, nenhuma parte lidera. Nunca é uma questão de sequência linear — resolva tudo isso primeiro e depois resolva tudo aquilo. 

Os sistemas ecológicos seguem em espirais ascendentes ou descendentes. Para fazê-los subir, você tem algumas ideias, um pouco de conversa fiada, um pouco de ação na rua e, em seguida, gira em espiral e começa de novo, sem parar porque perdeu o ritmo. 

Você projeta a bicicleta enquanto pedala. Não existe uma palavra fácil em inglês para tudo isso, o que é uma grande parte do problema. Mas é assim que funciona. 

Conexões

O que nos leva ao desenho dos nossos movimentos sociais, na era do Partido Reformista e do colapso da biosfera. 

Sim, todos nós sabemos o resultado final. Já falei sobre isso em artigos anteriores – é claro como o dia. Fazemos nossa rede neoliberal anêmica – os bandidos chegam ao poder e nos eliminam um por um. 

A recente repressão ao movimento “Just Stop Oil” é apenas o começo do que está por vir para todos os outros. Então, como uma concepção verdadeiramente rica de ecologia pode nos ajudar? O que eu chamo de ecologia próxima. 

Primeiro, precisamos parar de pensar em “coisas” e focar nas conexões. Não nos eventos, mas no antes e depois dos eventos. E então colocar em um plano uma sequência de espirais iterativas — e não parar. 

A questão é que já temos os recursos: as pessoas, o dinheiro, o desejo. O problema, como sempre, é a conexão e fazer com que essas conexões comecem a se mover. É a questão do “simplesmente conectar”. 

Coletivo

Então, vamos ser concretos. Praxis, por favor. Aqui está um módulo. Convidamos as pessoas a se reunirem, por meio de encontros mensais, digamos, de 30 a 50 grupos, 10 de cada vez: grupos culturais, de mídia, de campanha, políticos, todos amplamente abertos, democráticos e cientes de que precisamos de uma mudança sistêmica, ou estaremos perdidos. 

Em outras palavras, a atual ecologia frágil do que poderíamos chamar de “o movimento”. Assim, não brigamos por ideias ou princípios, contamos nossas histórias, os altos e baixos, onde estamos e como nos sentimos a respeito. 

Temos então um caminho vital para a ação: a mobilização conjunta de corpos. Organizamos festivais urbanos nacionais e, depois, regionais, de formato aberto — todos são bem-vindos. 

Ninguém está no comando, você tem programas abertos, uma série de locais — centros comunitários, igrejas, parques. E pessoas e grupos realizam seus eventos. 

Disso surge a conexão, e só então surge o desenvolvimento da confiança que pode levar a ações coletivas — modelos compartilhados para mobilização, em níveis local, regional e nacional. 

Processo

E só então chegamos a objetivos e demandas compartilhadas para concorrer em eleições, fazer manifestações de rua e as coisas pelas quais somos presos por conspiração por falar sobre. 

E então repetimos a espiral, com mais encontros, mais festivais, mais ações coletivas e variações sobre o tema. As conexões se estreitam com a arrecadação de fundos, treinamentos e ações de divulgação conjuntas. 

Ninguém está sendo questionado sobre suas crenças básicas fundamentais. É como se dissessem: “aqui estão os folhetos para o evento de sábado – tudo bem?”. Toda aquela sociabilidade sem glamour sobre a qual nunca se escreve, mas que é o que faz o mundo girar. 

Ecologia, por definição, não pode ser abstrata e teórica – trata-se do aqui e agora. Não pode ser apenas um projeto, tem que ser um processo que está realmente acontecendo. 

E assim começam as reuniões mensais, já há a sensação de que um novo grande movimento está prestes a tomar forma, um evento nacional está marcado para outubro. E ninguém está fingindo que é “isso”, ou seja, “nós” e não “você”. 

Debandada

À medida que – e se e quando – esse processo de criação de eventos se conectar a outros projetos de eventos na rede mais ampla, então será uma chance para mais conectividade, uma ecologia cada vez mais próxima de projetos concretos conjuntos. 

E então se internacionaliza. Já é internacional: a ideia de ter datas definidas para eventos globais coordenados em massa — um novo Dia da Terra, mas de baixo para cima e com força. 

Tudo isso está acontecendo porque tem que acontecer. 

Esta parte da ecologia chama-se “Nós Decidimos”. O início de uma jornada começa com um único passo, mas logo se transforma numa debandada. Afinal, a alternativa é o primeiro-ministro Farage e a 2C. Vamos lá! 

Este autor

Roger Hallam é membro fundador da Extinction Rebellion e da Just Stop Oil, além de ativista da Umbrella. Atualmente, ele cumpre pena de cinco anos de prisão por participar de uma chamada online que discutia uma ação climática na M25.


Fonte: The Ecologist

O espectro do Deserto Verde ronda o Rio de Janeiro: essa é a hora e a vez de fortalecer a resistência a mais um projeto de devastação

Neste final de semana tive a oportunidade de encontrar com uma liderança histórica da luta contra a transformação do Rio de Janeiro em uma extensão do deserto verde instalado em diferentes partes do território nacional, mas em especial no vizinho estado do Espirito Santo. Segundo essa liderança, os planos de ampliação dos monocultivos industriais de eucalipto estão cada vez mais na ordem do dia, especialmente a partir das ações organizativas da Federação de Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

Primeiro, não posso de abrir uma pequena digressão para comentar a ironia que é se ter uma federação de indústrias se ocupando da expansão da monoculturas de árvores que efetivamente deveria caber melhor nos planos de organizações sindicais vinculadas ao latifúndio agro-exportador. Mas, dada o processo de desindustrialização que se acomete sobre o território fluminense, sou obrigado a reconhecer que é isso ou nada para a Firjan.

Eu comentei com essa liderança que estou ciente de que milhares de hectares de terras improdutivas estão sendo negociadas em Campos dos Goytacazes para, entre outras coisas, escapar da possibilidade de expropriação para fins de reforma agrária, visto que muitos dos latifundiários possuem dívidas históricas com a União, e não querem correr o mesmo destino de terras pertencentes às usinas Sapucaia e Cambahyba que foram recentemente tomadas pelo governo federal para a crise de assentamentos de reforma agrária.

De toda sorte,  os planos e ações concretas indicam que, desta vez, a instalação de um grande deserto verde em partes já com grandes deficits de biodiversidade e de água, como é o caso das regiões Norte e Noroeste Fluminense, podem avançar mais do que em tentativas anteriores.  A promulgação da Lei 14.876 de 31 de maio de 2024 e a provação do PL da Devastação vão facilitar enormemente a ocupação de terras para fins de plantios de árvores, a despeito dos problemas ambientais já existentes. Como o governo Lula não tem hesitado em financiar esses plantios a partir de generosas linhas de crédito de bancos públicos, os interessados em avançar o deserto verde já devem estar esfregando as mãos e preparando as bombas costais.

Diante de um cenário que considero bastante hostil para o estabelecimento de alternativas ambiental e socialmente melhores do que o monocultivo de árvores que consomem quantidades cavalares de água, fertilizantes químicos e agrotóxicos, considero que é necessário que o combate ao deserto verde se torne uma pauta primária dos movimentos sociais do campo ambiental e da luta pela reforma agrária.  É que um dos alvos desse projeto de desertificação verde é justamente conter um modelo de reforma agrária que produza alimentos de qualidade e livres de contaminação por agrotóxicos.

deserto verde |

Por isso, o fortalecimento do mecanismo que ficou conhecido como “Rede Alerta contra o Deserto Verde Fluminense” é algo tão urgente quanto necessário. Eu diria até que é para ontem.  Para refrescar memórias, sugiro a leitura de uma matéria escrita pela Sucural do Rio do jornal Folha de São Paulo no distante dia 20 de março de 2002. Pode até parecer notícia velha, mas está longe de ser, ela é atualíssima. 

O mundo já está acabando: uma resposta a Elias Jabbour

Mina de carvão perto do distrito de Hailar, China. Imagem: Wikimedia Commons 

Por Eduardo Sá Barreto para “Blog da Boitempo”

Seria mais prudente não escrever um texto como este. Por um lado, caso o texto não tenha tração alguma, terei gastado um tempo precioso reprisando coisas que já disse de maneira mais sistemática em outros lugares. Por outro lado, caso tenha tração, posso ser tragado numa polêmica com um dos intelectuais comunistas mais prestigiados do país na atualidade. A verdade é que, contra meu melhor juízo, senti-me obrigado a responder algumas observações críticas que Elias Jabbour muito cordialmente apresentou a mim, em conversa pessoal, e depois repetiu em sua participação na mesa “Anticolonialismo e marxismo, durante a primeira Festa de Aniversário do Marx no Rio de Janeiro, promovida pela Boitempo em 28 de junho de 2025.

Apesar de Jabbour, em alguma medida, reproduzir objeções que não mereceriam ser revisitadas pela enésima vez, a relevância que ele tem, a importância do evento e a pertinência de parte de suas observações cobram uma manifestação. Dando o benefício da dúvida que o camarada merece, podemos admitir que um tempo de fala que dura entre 5 e 10 minutos não é suficiente para desdobrar de modo satisfatório qualquer tipo de raciocínio compatível com o nível de complexidade dos assuntos sendo ali discutidos. Creio que, havendo mais tempo, Jabbour poderia ter desenvolvido mais adequadamente seus comentários, que acabaram soando irresponsavelmente taxativos e superficiais. De qualquer forma, é o que temos para começar.

Antes de mais nada, é importante reconhecer que uma das críticas feitas por Jabbour deve simplesmente ser acolhida. Realmente, é perturbador (inaceitável mesmo) que numa discussão sobre a questão climática e sobre transição energética a China não seja sequer mencionada. Como o próprio Jabbour evidencia em seu trabalho, a China é um fenômeno de relevância central em boa parte das questões decisivas de nosso tempo. Não é perdoável desconhecer os fundamentos e os traços mais marcantes dessa experiência em curso (embora, convenhamos, em uma fala de 5 a 10 minutos, pouco mais se poderia fazer do que mencioná-la).  

Suponho, pelo teor de sua fala, que ele esperava ouvir algo a respeito dos aspectos virtuosos dessa experiência, no que tange à questão climática e energética. De fato, há coisas que impressionam. Entre 2008 e 2023, a participação da energia solar na matriz energética chinesa saltou de menos de 0,01% para 3,20%.1 Em termos absolutos, essa expansão representa um crescimento alucinante de 352.791%. Outro resultado expressivo é a ampliação da participação da energia eólica de 0,14% em 2008 para 4,85% em 2023, representando um crescimento da oferta primária por essa fonte de 6.152,38%. Ainda olhando para as fontes de baixa intensidade de emissões (em comparação com os combustíveis fósseis), nesse período de 15 anos a China ampliou a oferta primária de energia nuclear em 487,5%, e de energia a partir de hidroelétricas em 78%.  

É seguro afirmar que nenhum país do mundo vem se movendo tão rapidamente quanto a China nesse domínio. Isso certamente é fruto de uma capacidade indiscutivelmente singular que o Estado chinês tem de conceber e levar a cabo políticas públicas orientadas pelo horizonte de uma sociedade ecológica. Também é seguro afirmar que nenhum desses resultados seria viável na ausência dos investimentos massivos que o governo vem fazendo para este fim. Talvez por isso Jabbour tenha sido levado a afirmar que o país vem “enfrentando e vencendo essa batalha pela reversão da crise climática”. Aqui começam nossos desacordos e acabam as boas notícias. 

Em primeiro lugar, a “reversão da crise climática” sequer é algo que está em jogo. Há pelo menos três décadas, o esforço global tem se voltado para a meta de limitar o aquecimento do planeta a 2ºC acima do período-base (equivocadamente chamado de pré-industrial). Na última década, a meta de limitar o aquecimento a 1,5ºC foi muito ventilada, mas mesmo nos Acordos de Paris a meta de fato continua sendo um aquecimento máximo de 2ºC. Todo o debate existente, bem como a elaboração e implementação de políticas climáticas, estão modulados por essa meta. E nela não há nada que remeta à possibilidade de reversão em um prazo previsível. Na verdade, não há nada que remeta nem mesmo à estabilidade das condições climáticas. Um planeta 2ºC mais quente é um planeta consideravelmente mais convulsivo. Segundo relatório mais recente do IPCC, “para qualquer nível de aquecimento futuro, […] os impactos de longo prazo previstos são múltiplas vezes maiores daquilo que é atualmente observado”2. Se todo o esforço em marcha fosse aderente ao que a ciência vem dizendo ser necessário para limitar o aquecimento a 2ºC (ou a 1,5ºC) — e se, além disso, esse esforço fosse plenamente exitoso —, teríamos interrompido o aquecimento, mas não a multiplicação dos impactos. 

Mas o que, exatamente, a ciência vem dizendo ser necessário fazer?

Suspeito, pela afirmação taxativa do camarada a respeito da “reversão” vitoriosa, que Jabbour estaria tentado a responder que o necessário é ampliar rapidamente a participação de fontes renováveis na matriz energética nacional. De imediato, é preciso ter clareza que “vencer a batalha climática” não é algo que está ao alcance de uma única nação (por mais relevante que ela seja). Mesmo se admitíssemos que o necessário é simplesmente a reconfiguração da matriz energética, a escala em que isso deveria ocorrer para ter relevância é global (ainda que a busca por isso seja nacionalmente determinada). Se apenas um país vencer a batalha, todos perdem a guerra. No entanto, é um equívoco se restringir à matriz energética, que apenas nos informa as participações relativas de cada fonte, não os níveis absolutos em que elas são usadas. Isso nos leva ao segundo ponto. 

O que a ciência vem dizendo ser necessário para limitar o aquecimento dentro dos limites acordados é o zeramento líquido das emissões oriundas de atividades humanas, o que exige, pelos prazos preconizados, uma descarbonização fulminante. Mesmo se deixarmos momentaneamente de lado o ritmo em que isso deveria acontecer, uma coisa é certa: no plano energético, a direção da mudança é a contração da escala em que consumimos combustíveis fósseis. Ao sairmos do domínio das grandezas relativas para o domínio das grandezas absolutas, a incomparável transição energética chinesa revela determinações que o otimismo de Jabbour não tem como contemplar.

É verdade que entre 2008 e 2023 a participação dos combustíveis fósseis na matriz energética chinesa caiu de 92,02% para 81,56%. Contudo, também é verdade que, no mesmo período, a oferta primária de energia a partir do carvão cresceu 36%, do petróleo cresceu 106% e do gás natural cresceu 394%. Combinadas as três fontes, a expansão foi de 61,5%. Numa leitura muito generosa, podemos chamar isso de transição energética, mas não de descarbonização.  

É comum aludir a todos os efeitos virtuosos que são viabilizados por essas trajetórias. Fazendo uma rápida colagem de trechos da fala de Jabbour, poderíamos mencionar que nesse caminho a China retirou “800 milhões de pessoas da linha da pobreza”, “entregou independência nacional”, “investiu mais que o dobro do resto do mundo” em energias limpas. Nenhum desses resultados é desprezível ou indesejável. Mas aqui temos uma amostra do preço de obtê-los.

Apenas para reforçar, o preço é: continuar acelerando rumo ao colapso das condições materiais, ecológicas de suporte à vida no planeta e, obviamente, às sociedades humanas. Não há exercício de poder político que possa perseguir emancipação num planeta em vias de se tornar inabitável. Não há exercício de poder político que possa suspender a operação de leis de funcionamento da natureza. Então me desculpe, Elias, mas o raciocínio “minha corrente exerce poder político em vários países, então o mundo não vai acabar, pessoal” é uma falácia grosseira que se explica apenas pela circunstância de um deslize numa fala improvisada. Custo a crer que num contexto mais formal você estaria disposto a afastar com um politicismo tão pobre os riscos de um colapso iminente. 

A pertinência da afirmação de que “é impossível haver uma reconexão do ser humano com a natureza fora da elevação da técnica” é discutível. Porém, mesmo que a admitamos, seria incorreto tratar o “desenvolvimento das forças produtivas” como uma espécie de elevação neutra da nossa capacidade de intervir, que poderia ser mobilizada para o “bem” ou para o “mal”, dependendo de quem exerça o poder político. No mundo em que vivemos, as forças produtivas não são apenas colocadas a serviço da acumulação de capital; elas são paridas pela lógica do capital e só se viabilizam economicamente se proporcionarem, além de maior produtividade, expansão da produção, do giro da produção, do consumo; enfim, das condições mais básicas da acumulação. Ainda que, numa hipótese ousada, supuséssemos que o Partido Comunista Chinês exerce poder político de tal forma que consegue impulsionar o desenvolvimento das forças produtivas nacionais imunes à racionalidade do capital, pergunta-se: dada a inserção chinesa no mercado mundial, os resultados proporcionados por essas forças produtivas não estarão condenados a satisfazer os mesmos critérios de viabilidade? 

Voltando à linha anterior de raciocínio, chegamos ao terceiro ponto. No trecho anterior, contrapus os resultados chineses e a reivindicação de vitória na batalha climática ao que a ciência vem preconizando como medidas/resultados necessários para evitar o pior. Na realidade, até esse exercício demonstra-se excessivamente otimista, porque supõe que as metas tradicionalmente perseguidas de limitação do aquecimento são exequíveis. No capitalismo, nunca foram. Todavia, mesmo abstraindo do metabolismo ingovernável do capital, se um dia já foram, já não são mais. O limiar de aquecimento de 1,5ºC já vem sendo rompido sistematicamente desde meados de 2023 (em medidas diárias, mensais, anuais e de 12 meses) e não há indicações consistentes que retornaremos para níveis abaixo desse patamar.3 Além disso, já é possível projetar um aquecimento superior a 2ºC para o início dos anos 30.4 Se acrescentarmos a esse entendimento os impactos previsíveis que viriam com tal aquecimento, a conclusão de que o “mundo já está acabando” se apresenta muito mais lúcida e cientificamente embasada do que a garantia motivacional de que o “mundo não vai acabar”.  

Como isso não imporia limites a aspirações diversas de desenvolvimento? É claro que o Brasil não é uma Dinamarca. É claro que há nações em circunstâncias ainda piores que as do Brasil. Evidentemente, é absolutamente defensável a ambição de ascensão material de nações pobres e periféricas. Não seria exagero dizer que tal ascensão é justa e necessária. Daí a consternação de Jabbour com o que ele denomina de “militância contra o desenvolvimento”. Ela de fato existe, ainda que tenha muito menos enraizamento e circulação do que ele dá a entender. Ademais, na medida em que ela existe, Jabbour parece supor que ela é motivada por algum tipo de divergência no plano moral, por concepções éticas que eventualmente colocam a natureza (em abstrato) acima das satisfações de necessidades humanas.  

Em meu juízo, não é esse o caso. Na medida em que há realmente posicionamentos contrários ao assim chamado desenvolvimento econômico, eles são motivados por um entendimento de que não há base material para a universalização desse tipo de processo. Já é um clichê admitirmos que a afluência material de um estadunidense médio não é generalizável. Tornou-se clichê justamente porque é um consenso fácil. Por outro lado, talvez surpreenda que, pela mesma métrica em que se enuncia a afirmação anterior, seria necessário afirmar também que a afluência material de um brasileiro médio tampouco é generalizável. Ao invés de simplesmente apelar para o senso comum, porém, também seria adequado dizer: é perfeitamente possível reconhecer que a elevação da afluência material das periferias do mundo é necessáriajusta e, ao mesmo tempo, biogeofisicamente inviável.

Assim como é o caso da interação entre meio ambiente e a dinâmica das forças produtivas,5 tenho um número já grande de textos publicados que exploram teoricamente a tensão entre desenvolvimento e meio ambiente.6 Em geral, Marx é a principal referência, mas aqui posso inclusive utilizar o trabalho do próprio Jabbour para expor meu ponto principal.  

Em seu best-seller com Alberto Gabriele, China: o socialismo do século XXI, é dito, logo no início: “O núcleo central do nosso argumento é que as limitações ao mercado no metamodo de produção não podem ser superadas na atual fase histórica, mas apenas paulatinamente, e no longo prazo”.7 Há motivos para concordar e há motivos para discordar, mas isso não vem ao caso agora. Importante é ter em vista que os autores projetam a transformação substantiva num horizonte de longa duração. Surpreendentemente, na página seguinte, asseveram: “a menos que encontremos um caminho para além do modo de produção atualmente dominante, que ainda é capitalista em nível global, o Antropoceno pode ser o período do fim da humanidade e de muitas outras espécies”.8 Se juntarmos as duas afirmações com os horizontes de tempo veiculados tanto pela ciência quanto pela diplomacia climática nas grandes convenções globais, seremos surpreendidos com o corolário de que “o mundo vai acabar”. Nem precisamos recorrer a material externo, contudo. Os próprios autores nos informam, repetindo a ideia, mas acrescentando a urgência, que “a menos que a humanidade supere urgentemente o saque capitalista dos recursos limitados do planeta, o período do Antropoceno pode marcar o fim da humanidade e de muitas outras espécies”.9 Apesar dessa ironia do destino, isso tampouco vem ao caso agora. Queremos conectar esse entendimento nuclear central com outro entendimento apresentado que é relevante para o tema do desenvolvimento. 

Jabbour é um ardoroso proponente e defensor do desenvolvimento que, insiste ele, transcorre ao longo de um tempo consideravelmente distendido. Suponho que, mesmo concedendo para variantes burguesas do significado de desenvolvimento, o que ele tem no centro de sua defesa é uma concepção de desenvolvimento socialista. Uma caracterização exaustiva do que seria essa concepção não cabe num texto como esse, mas em alguns momentos da obra, Jabbour e Gabriele proporcionam aproximações sintéticas de seu significado. Na página 109, por exemplo, dizem que a “estratégia socialista, tanto quanto a capitalista, deve procurar aumentar progressivamente o tamanho relativo do setor improdutivo [grosso modo: público]. […] Em ambos os modos de produção, a única maneira de permitir o funcionamento das atividades improdutivas é atribuir-lhes financiamento (direta ou indiretamente) através de parte do excedente gerado no setor produtivo [grosso modo: privado, orientado para o lucro]. Portanto, a viabilidade do macrossetor improdutivo depende da transferência de fundos do produtivo e, portanto, está restrita à capacidade de geração de excedentes deste último”.10

Ora, mesmo que não entendamos excedente como mais-valor11, como mais-trabalho objetivado, a conclusão incontornável é que a estratégia de desenvolvimento socialista vislumbrada por Jabbour é estruturalmente dependente daquilo que ele denomina de macrossetor produtivo, que continuaria operando ainda por muito tempo pela lógica da acumulação desmedida12 de excedente. No núcleo dinâmico da estratégia de desenvolvimento preconizada pelos autores, portanto, continua prevalecendo o mesmo tipo de vetor dinâmico que lança a humanidade à destruição suicidária. Em outras palavras, mais simples, numa leitura generosa da noção jabbouriana de desenvolvimento, o desenvolvimento especificamente socialista não escapa do mesmo tipo de inviabilidade ecológica do desenvolvimento capitalista. Admitindo o que dizem Jabbour e seu coautor, haveria mais motivos para argumentar pela inviabilidade do desenvolvimento, não menos.  

O quadro é sem dúvidas desalentador, desesperador. Futuros que consideramos necessários, desejáveis e justos estão sendo concretamente destruídos em ritmo acelerado. Reconhecer isso não implica nenhum tipo de fatalismo niilista, como sugere Jabbour. Ao contrário, o que se depreende do mapeamento intransigentemente sóbrio da situação é a urgência de um processo de ruptura revolucionária, é a erosão completa de qualquer condição de sustentação de perspectivas gradualistas. A implicação é muito impactante mesmo, mas não é exagerada: só a revolução serve e talvez nem ela sirva. Só é possível enxergar niilismo nisso se nos desfizermos de nossas pretensões revolucionárias ou se desconhecermos quase por completo o processo de colapso climático em curso.  

Notas

  1. Todos os dados sobre energia apresentados a seguir estão disponíveis em https://ourworldindata.org/energy-mix ↩︎
  2. IPCC. AR6 synthesis report: climate change 2023. Genebra: IPCC, 2023, p. 15; ênfase adicionada.  ↩︎
  3. HANSEN, J.; KHARECHA, P. 2025 Global Temperature, 2025. Disponível aqui.  ↩︎
  4. HANSEN, J.; KHARECHA, P.; LOEB, N.; SATO, M.; SIMONS, L.; TSELIOUDIS, G.; von SCHUCKMANN, K. How we know that global warming is accelerating and that the goal of the Paris Agreement is dead, 2023. Disponível aqui.  ↩︎
  5. Cf. p.ex. Sá Barreto, O capital na estufa, Rio de Janeiro: Consequência, 2018.  ↩︎
  6. Cf. p.ex. Sá Barreto, Ecologia marxista para pessoas sem tempo, São Paulo: Usina, 2022.  ↩︎
  7. Jabbour; Gabriele, China: o socialismo do século XXI, São Paulo: Boitempo, 2021, p. 31.  ↩︎
  8. Ibidem, p. https://blogdaboitempo.com.br/2025/08/04/o-mundo-ja-esta-acabando/32; grifo meu.  ↩︎
  9. Ibidem, p. 65; grifo meu.  ↩︎
  10. Ibidem, p. 109; grifo meu.  ↩︎
  11. Entendimento que os autores curiosamente rejeitam de maneira insistente. ↩︎
  12. i.e., que não apresenta um limite imanente e que tampouco deveria ser contida, dada a função estratégica que os autores atribuem a ela. ↩︎

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Eduardo Sá Barreto é professor associado da Faculdade de Economia (UFF) e membro do NIEP-Marx. É autor do capítulo “Terra de ninguém: entre o urgente e o prefigurado”, publicado em Tempo fechado: capitalismo e colapso ecológico (Boitempo, 2025).


Fonte: Blog da Boitempo

Estudo alerta que o mundo enfrenta uma ‘crise de plástico’ de US$ 1,5 trilhão que afeta a saúde desde a infância até a velhice

Produção de plástico aumentou mais de 200 vezes desde 1950 e afeta a saúde em todas as etapas, da extração ao descarte, diz revisão na Lancet 

Um homem caminha por um rio cheio de lixo

Um homem coleta lixo das margens repletas de lixo do Rio Mithi, em Mumbai, Índia. Fotografia: Indranil Aditya/NurPhoto/Shutterstock

Por Damian Carrington, Editor de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

Os plásticos representam um “perigo grave, crescente e sub-reconhecido” para a saúde humana e planetária, alertou uma nova revisão especializada. O mundo está em uma “crise do plástico”, concluiu a pesquisa, que está causando doenças e mortes desde a infância até a velhice e é responsável por pelo menos US$ 1,5 trilhão (£ 1,1 trilhão) por ano em danos relacionados à saúde.

O impulsionador da crise é uma enorme aceleração da produção de plástico, que aumentou mais de 200 vezes desde 1950 e deve quase triplicar novamente para mais de um bilhão de toneladas por ano até 2060. Embora o plástico tenha muitos usos importantes, o aumento mais rápido ocorreu na produção de plásticos de uso único, como garrafas de bebidas e recipientes de fast-food .

Como resultado, a poluição plástica também aumentou, com 8 bilhões de toneladas poluindo o planeta inteiro, segundo a análise, do topo do Monte Everest até a fossa oceânica mais profunda . Menos de 10% do plástico é reciclado.

O plástico ameaça as pessoas e o planeta em todas as etapas, afirmou a análise, desde a extração dos combustíveis fósseis dos quais é feito, até a produção, uso e descarte. Isso resulta em poluição do ar, exposição a produtos químicos tóxicos e infiltração de microplásticos no corpo. A poluição plástica pode até mesmo aumentar a proliferação de mosquitos transmissores de doenças, já que a água capturada em plásticos descartados proporciona bons criadouros.

A revisão, publicada na revista médica de referência Lancet , foi divulgada antes da sexta e provavelmente última rodada de negociações entre os países para chegar a um acordo sobre um tratado global juridicamente vinculativo sobre plásticos para enfrentar a crise. As negociações têm sido marcadas por um profundo desacordo entre mais de 100 países que apoiam um teto para a produção de plástico e petroestados, como a Arábia Saudita, que se opõem à proposta. O jornal The Guardian revelou recentemente como petroestados e lobistas da indústria do plástico estão atrapalhando as negociações.

“Sabemos muito sobre a extensão e a gravidade dos impactos da poluição plástica na saúde e no meio ambiente”, afirmou o Prof. Philip Landrigan, pediatra e epidemiologista do Boston College, nos EUA, e principal autor do novo relatório. Ele afirmou ser fundamental que o tratado sobre plásticos inclua medidas para proteger a saúde humana e planetária.

“Os impactos recaem mais fortemente sobre as populações vulneráveis, especialmente bebês e crianças”, disse ele. “Eles resultam em enormes custos econômicos para a sociedade. Cabe a nós agir em resposta.”

Petroestados e a indústria do plástico argumentam que o foco deveria ser a reciclagem do plástico, e não a redução da produção. Mas, ao contrário do papel, vidro, aço e alumínio, plásticos quimicamente complexos não podem ser facilmente reciclados. O relatório afirma: “Agora está claro que o mundo não pode reciclar para sair da crise da poluição plástica.”

Mais de 98% dos plásticos são feitos de petróleo fóssil, gás e carvão. O processo de produção com alto consumo de energia impulsiona a crise climática, liberando o equivalente a 2 bilhões de toneladas de CO2 por ano – mais do que as emissões da Rússia, o quarto maior poluidor do mundo. A produção de plástico também polui o ar, enquanto mais da metade dos resíduos plásticos não gerenciados são queimados a céu aberto, aumentando ainda mais a poluição do ar, observou o relatório.

Mais de 16.000 produtos químicos são usados em plásticos, incluindo cargas, corantes, retardantes de chama e estabilizantes. Muitos produtos químicos plásticos foram associados a efeitos na saúde em todas as fases da vida humana, segundo o relatório, mas havia falta de transparência sobre quais produtos químicos estavam presentes nos plásticos.

A análise descobriu que fetos, bebês e crianças pequenas eram altamente suscetíveis aos danos associados aos plásticos, com exposição associada a maiores riscos de aborto espontâneo, parto prematuro e natimorto, defeitos congênitos, crescimento pulmonar prejudicado, câncer infantil e problemas de fertilidade mais tarde na vida.

Os resíduos plásticos frequentemente se decompõem em micro e nanoplásticos, que entram no corpo humano através da água, dos alimentos e da respiração. As partículas foram encontradas no sangue , no cérebro , no leite materno , na placenta , no sêmen e na medula óssea . Seu impacto na saúde humana ainda é amplamente desconhecido, mas elas têm sido associadas a derrames e ataques cardíacos , e os pesquisadores afirmam que uma abordagem preventiva é necessária.

O plástico é frequentemente visto como um material barato, mas os cientistas argumentam que ele é caro quando se inclui o custo dos danos à saúde. Uma estimativa dos danos à saúde causados por apenas três produtos químicos plásticos – PBDE, BPA e DEHP – em 38 países foi de US$ 1,5 trilhão por ano .

A nova análise é o início de uma série de relatórios que monitorarão regularmente o impacto dos plásticos. Margaret Spring, advogada sênior e uma das coautoras do relatório, afirmou: “Os relatórios oferecerão aos tomadores de decisão em todo o mundo uma fonte de dados robusta e independente para subsidiar o desenvolvimento de políticas eficazes para lidar com a poluição plástica em todos os níveis.”


Fonte: The Guardian

Porto do Açu: transição como promessa, destruição como realidade

A transição energética demandará mudanças de hábitos de consumo

A promessa é de transição energética, mas a realidade é outra

Um observador astuto dos debates em torno do desenvolvimento econômico regional me enviou hoje um artigo assinado pela jornalista Nayara Machado que abordou centralmente a promessa do CEO da Prumo Logística, Rogério Zampronha de que serão investidos R$ 20 bilhões para colocar o empreendimento como vetor de alacanvagem do processo de transição energética.  Respondi a ele, de forma irônica, que essa declaração era mais uma daquelas fábulas contadas pelo pessoal da Prumo Logístico para dourar a pílula e amaciar os sonhos dos ainda sonhadores.  De quebra, disse ao meu interlocutor que estávamos diante de uma das muitas faces novas que o Porto do Açu veste de tempos em tempos, e que seria esperar um pouco para ver quanto é fábula e quanto é realidade.

O que não disse ao meu interlocutor é que no momento em que eu lia sua mensagem, eu estava me preparando para sair de casa e ir ao um encontro guiado no entorno do Porto do Açu para um plateia muito seleta de ativistas sociais.  Como conheço a área razoavelmente bem, fiz questão de mostrar o lado “B” do Porto do Açu, começando com conversas com agricultores desapropriados que ainda não viram a cor do ressarcimento devido pelo Estado pela expropriação de suas terras, e incluindo uma visita ao que ainda resta de praia nas proximidades do outrora balneário preferido para muitas famílias sanjoanenses e campistas, a localidade da Barra do Açu.

Erosão e acreação: o balé do molhe

As imagens mostram dois processos distintos do que está ocorrendo, e estava previsto no EIA/RIMA usada para obter a licença ambiental do estaleiro da OSX: de um lado erosão e de outro a recomposição com os sedimentos que não mais podem circular por causa da construção do molhe que protege o terminal 2 do Porto do Açu.

Seção da Praia do Açu que estão sendo erodida e que já viu desapareceu várias ruas desde o início do processo erosivo que coincidiu com a construção do molhe do Terminal 2.

Seção da Praia do Açu, agora rebatizada de “Recanto das Pedras”, que está em processo de acreação a partir da deposição dos sedimentos vindos da região sul da faixa de areia.

Curiosamente, esse processo avança de forma paulatina e firme, sem que haja qualquer manifestação do órgão ambiental que emitiu a licença, o INEA, nem dos órgãos municipais que deveriam estar zelando pelos interesses dos habitantes da Barra do Açu que se veem cada vez mais ameaçados pela perda da faixa de praia.

Um interlocutor na visita de campo me perguntou qual é o destino mais possível da Barra do Açu, e eu respondi secamente: o desaparecimento.

Agricultores expropriados e ainda não pagos continuam sua labuta em prol da produção de alimentos

Uma visita inevitável em qualquer visita à propriedade da família Toledo em Água Preta. Ali viveu e criou uma grande família, o falecido Reinaldo Toledo.  Na visita de hoje tive a oportunidade de bater um papo com um dos filhos que continuam vivendo e trabalhando na terra, Reginaldo.  Além de uma boa resenha sobre os impactos que a forma violenta com que as desapropriações foram realizadas pela PMERJ a mando da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (Codin), encontrar com um Toledo é sempre uma chance de ganhar presentes tirados diretamente da terra. Hoje fui premiado com um grande sacola repleta de quiabos que acabavam de ser colhidos.  Os Toledos são assim, não há dificuldade que os impeça de compartilhar com os amigos aquilo que eles cultivam. Era sim com o Sr. Reinaldo, continua sendo assim com Reginaldo.

Encontrando com Reginaldo Toledo em seu campo de quiabos.

Após ganhar a sacola de quiabos, aproveitei para matar uma curiosidade com Reginaldo: eles ainda continuam pagando o Imposto Territorial Rural das propriedades desapropriadas da família? Incrivelmente, a resposta foi sim. E isso apenas 14 anos das escabrosas desapropriações realizadas pela Codin.

A quem serve esse modelo de desenvolvimento?

Após ouvir os relatos de campo e testemunhar os estragos que estão espalhados pelo V Distrito, um dos participantes da visita guiada me perguntou como era possível justificar a colocação de bilhões de reais de dinheiro público em um empreendimento como o Porto do Açu. Eu respondi que os governantes normalmente  justificam esses investimentos bilionários com base na ideia de que tais empreendimentos são alvancas para o processo de desenvolvimento econômico. A isso ainda adicionei a opinião de que o fazem sabendo que, como no V Distrito, efeitos colaterais desastrosos irão ocorrer e cair sobre as costas dos mais pobres. E que curiosamente, o desenvolvimento econômico é justificado com sendo necessário para diminuir a pobreza.

Esse aparente paradoxo nos coloca diante da seguinte questão: a quem serve o modelo de desenvolvimento orientado em torno da criação de enclaves geográficos como o do Porto do Açu? De tudo o que se vê na região do entorno do Porto do Açu, se alguém é servido, esse alguém não é pobre e nem vive no V Distrito de São João da Barra.