O clima ameaça uma ‘cascata de pontos de inflexão’

Líderes mundiais devem tomar “medidas imediatas e sem precedentes” para evitar pontos de inflexão climáticos devastadores, dizem especialistas

“Os recifes de corais tropicais ultrapassaram seu ponto crítico”. Imagem: mariejirousek .

Por Brendan Montague para o “The Ecologist”

Especialistas em pontos de inflexão ecológicos alertaram que bilhões de pessoas estão em risco, já que o aquecimento global deve ultrapassar 1,5°C dentro de alguns anos.

Uma Conferência Global Tipping Points em Exeter, com quase 200 delegados neste mês, endossou uma declaração pedindo ação dos formuladores de políticas — especialmente dos líderes reunidos na cúpula climática COP30 no Brasil ainda este ano.

Eles afirmam: “Os recifes de corais tropicais já ultrapassaram seu ponto crítico e estão sofrendo uma perda sem precedentes, prejudicando os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas que dependem deles.”

Crítico

E alertam que uma série de outros pontos de inflexão – incluindo o colapso de correntes oceânicas cruciais e a extinção da floresta amazônica – pode se seguir. Cada fração de grau acima de 1,5°C importa. E cada ano de “excesso” também importa.

A presidência brasileira da COP30 destacou repetidamente os pontos de inflexão em suas comunicações , e a nova declaração se junta aos organizadores da COP no apelo aos governos para que ajudem a desencadear pontos de inflexão positivos em suas sociedades e economias.

Ao fazer isso, eles podem reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa e proteger e restaurar os ecossistemas que fornecem sistemas essenciais de suporte à vida.

Acionamento

O professor Tim Lenton, do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter, disse: “Precisamos de políticas decisivas e de ações da sociedade civil – isso é fundamental para os direitos humanos e a saúde planetária e, em última análise, é uma questão de sobrevivência”.

Mike Barrett, Conselheiro Científico Chefe do WWF, afirmou: “Os riscos de pontos de inflexão globais são reais e as consequências, catastróficas. E se esperarmos até sentirmos os impactos, saberemos também que já é tarde demais para agir.” 

Para minimizar a ultrapassagem, as emissões globais de gases de efeito estufa devem ser reduzidas pela metade até 2030, em comparação aos níveis de 2010.

A boa notícia é que sabemos o que fazer para evitar isso – principalmente restaurando a natureza e fazendo a transição dos sistemas energético e alimentar. Mas a hora de agir é agora. Mais tarde já é tarde demais.

Governos e empresas devem alinhar rapidamente suas políticas e fluxos financeiros para limitar o aquecimento global e interromper a destruição da natureza, minimizando o risco de desencadear novos pontos de inflexão perigosos. Em vez disso, devemos catalisar pontos de inflexão positivos, especialmente na restauração da natureza, que é uma das nossas principais aliadas no combate às mudanças climáticas. 

A declaração completa

A previsão é de que o aquecimento global exceda 1,5°C dentro de alguns anos, colocando a humanidade na zona de perigo, onde vários pontos de inflexão climática representam riscos catastróficos para bilhões de pessoas. 

Os recifes de corais tropicais já ultrapassaram seu ponto de inflexão e estão sofrendo uma perda sem precedentes, prejudicando a subsistência de centenas de milhões de pessoas que dependem deles. O aquecimento atual ativou essas mudanças irreversíveis, e cada fração de aquecimento adicional aumenta drasticamente o risco de desencadear novos pontos de inflexão prejudiciais.

Isso inclui um colapso da formação de águas profundas nos mares de Labrador-Irminger, desencadeando mudanças climáticas abruptas que reduzem a segurança alimentar e hídrica no noroeste da Europa e na África Ocidental. 

Particularmente alarmante é o risco de colapso da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), que mergulharia o noroeste da Europa em invernos rigorosos e prolongados, ao mesmo tempo em que comprometeria radicalmente a segurança alimentar e hídrica global. A floresta amazônica também corre o risco de uma morte generalizada devido aos efeitos combinados das mudanças climáticas e do desmatamento.

A janela para evitar essas dinâmicas climáticas em cascata está se fechando rapidamente, exigindo ações imediatas e sem precedentes dos formuladores de políticas em todo o mundo, especialmente dos líderes na COP30. Este é um imperativo de direitos humanos e saúde planetária e, em última análise, uma questão de sobrevivência.

Tecnologias

Fundamental para prevenir pontos de inflexão climática é minimizar tanto a magnitude quanto a duração do excesso de temperatura acima de 1,5 °C. Cada ano e cada fração de grau acima de 1,5 °C são importantes. 

Para minimizar o excesso de emissões, as emissões globais de gases de efeito estufa devem ser reduzidas pela metade até 2030, em comparação com os níveis de 2010, exigindo uma aceleração sem precedentes na descarbonização. Só assim o mundo poderá atingir emissões líquidas zero a tempo de atingir o pico de temperaturas globais bem abaixo de 2°C e começar a retornar a 1,5°C, e depois abaixo dele. Isso também exigirá o aumento da escala da remoção sustentável de carbono da atmosfera.

As atuais Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e as metas vinculativas de longo prazo limitarão o aquecimento global apenas a cerca de 2,1°C. Portanto, apelamos a todas as nações que atualizam suas NDCs para o prazo de setembro de 2025 para que estabeleçam metas consistentes com a minimização da ultrapassagem de 1,5°C.

Para atingir essas metas, unimo-nos à Presidência da COP30 no apelo aos governos para que implementem políticas que ajudem a desencadear pontos de inflexão positivos em suas economias e sociedades, gerando mudanças autopropulsoras em tecnologias e comportamentos rumo à emissão zero. Também apoiamos a iniciativa Mutirão Global para catalisar a ação coletiva da sociedade civil e ajudar a desencadear pontos de inflexão positivos para alcançar objetivos climáticos comuns.

Para desencadear pontos de inflexão positivos que ajudem a eliminar 75% das emissões de gases de efeito estufa vinculadas ao sistema energético e a fazer a transição dos combustíveis fósseis de forma justa, ordenada e equitativa, apelamos aos formuladores de políticas para adotar (e aplicar) mandatos políticos ambiciosos para introduzir gradualmente tecnologias limpas e eliminar gradualmente as tecnologias movidas a combustíveis fósseis. 

Trajetória

Isso inclui proibições à venda futura de carros a gasolina/diesel, caminhões a diesel e caldeiras a gás. Para tecnologias menos maduras, como hidrogênio verde, amônia verde e aço verde, pedimos maior investimento em pesquisa, desenvolvimento e implantação.

Para desencadear pontos de inflexão positivos que ajudem a eliminar os 25% das emissões de gases de efeito estufa associadas à alimentação, agricultura e desmatamento, apelamos aos formuladores de políticas para que adotem políticas comerciais que catalisem a produção sustentável de commodities e transfiram recursos públicos do setor pecuário para proteínas de origem vegetal. Isso também ajudará a limitar o risco de pontos de inflexão na biosfera – incluindo a morte da floresta amazônica – e poderá liberar terras para a regeneração da natureza.

Para desencadear pontos de inflexão positivos de regeneração da natureza que ampliem a remoção sustentável de CO2 da atmosfera, pedimos ações políticas e da sociedade civil para proteger os direitos indígenas, apoiar iniciativas de conservação lideradas pela comunidade e garantir a valorização justa e transparente da natureza. 

Isso ajudará a atingir as metas do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal de restaurar 30% dos ecossistemas degradados e conservar 30% das terras, águas e mares. É essencial para limitar a ultrapassagem de 1,5°C.

Somente com políticas tão decisivas e ações da sociedade civil o mundo poderá mudar sua trajetória, deixando de enfrentar riscos climáticos incontroláveis e passando a aproveitar oportunidades positivas.


Fonte: The Ecologist

Lula no porto, e agricultores e pescadores atingidos do lado de fora: essa é a cara do modelo de desenvolvimento a la enclave

A mídia corporativa regional está anunciando a visita do presidente Lula ao interior do Porto do Açu para participar da inauguração da Usina Termelétrica (UTE GNA II).  A construção desta usina, contou com o generoso aporte R$ 7 bilhões de investimento por ter sido incluída no chamado Novo PAC. Além da UTE GNA II, o complexo de geração de energia elétrica no Porto de Açu reúne a UTE GNA I, com 1,3 GW, e um terminal de gás natural liquefeito (GNL), ambos em operação desde 2021. Com 3 GW de potência instalada, o conjunto  é apresentado como sendo o maior do gênero em operação na América Latina.

Enquanto Lula certamente será apresentado às belas maquetes do Porto do Açu e brindado com os melhores canapés que chefes de estado devem  merecer, uma outra história menos brilhosa continua rolando do lado de fora das cercas do Porto do Açu. 

Falo aqui da continua saga de cetenas de agricultores desapropriados há mais de uma década que continuam sem receber um centavo por suas propriedades e de pescadores artesanais que tiveram seu acesso fechado à Lagoa de Iquipari e outros corpos lacustres em nome da proteção ambiental que, na verdade, não passa de uma forma violenta de desterritorialização.

E antes que eu me esqueça, há que se lembrar que dado o tamanho desse empreendimento e sua capacidade poluidora, ainda vamos ouvir muito das consequências socioambientais de um empreendimento que só deverá ser acionada, e a preço tão salgado quanto as terras contaminadas pelo sal dos aterros hidráulicos do Porto do Açu, em momentos de bandeira vermelha.

E adivinhem quem serão os principais atingidos por essa poluição toda? Acertou quem respondeu os perdedores de hoje, agricultores e pescadores que ainda resistem no território do V Distrito de São João da Barra.

MST ocupa fazenda improdutiva em Campos dos Goytacazes (RJ) e denuncia ‘despejo sem ordem de reintegração de posse’

Ao todo, 500 famílias reivindicam Reforma Agrária no local de usina desativada

Região é historicamente marcada pelo latifúndio e injustiça social, afirma o movimento – Comunicação MST-RJ

Por Clívia Mesquita para o “Brasil de Fato”

Nas primeiras horas da manhã da última quinta-feira (24), cerca de 500 famílias organizadas no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda São Cristóvão, localizada no município de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense. A ação reivindica a destinação do local para Reforma Agrária.

Poucas horas após a ocupação, o movimento alertou que a Polícia Militar ameaça realizar um despejo forçada na área. “A ação é ilegal e arbitrária, uma violação direta da Constituição Federal, que exige decisão judicial para qualquer reintegração”, denuncia em nota.

Segundo o MST, a propriedade pertence ao grupo Othon, que controlava as antigas usinas Cupim e Barcelos. O Brasil de Fato solicitou ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) um posicionamento sobre a ocupação e informações sobre a situação cadastral da Fazenda. O texto será atualizado caso haja retorno do instituto.

Em vídeo enviado à reportagem, Mateus Guedes e Cristiano Meirelles, da direção estadual do MST no Rio de Janeiro, denunciam a concentração de terras improdutivas na região de Campos. “A Fazenda São Cristóvão é uma das mais de dez fazendas que tem na região norte fluminense que deve milhões e milhões para os cofres públicos, que é dinheiro de imposto, que deve voltar em forma de terra para o povo brasileiro. É urgente e necessário que o Incra e os demais órgãos tomem consciência do que está acontecendo aqui em Campos para que a gente evite maiores conflitos”, afirmou Meirelles.

O município de Campos dos Goytacazes é historicamente marcado por conflitos agrários que remontam o período da ditadura militar. Algumas usinas de cana-de-açúcar da região foram, inclusive, utilizadas para incinerar corpos de presos políticos.

Nesse contexto, a atuação do latifúndio se perpetua nos dias atuais com a concentração de terras, afirma em nota o MST. “Grandes extensões de terras pertencentes a usinas falidas, que não cumprem sua função social e, portanto, são alvo de uma intensa demanda pela democratização do acesso à terra por milhares de famílias camponesas”, diz o texto.

Terras da Fazenda São Cristóvão devem ser destinada à Reforma Agrária pois não cumprem função social, reivindica famílias acampadas. (Foto: Comunicação MST-RJ)

Em todo Brasil, o movimento busca pressionar o governo federal por avanços na política de Reforma Agrária, que está paralisada. No Rio de Janeiro, não houve conquista de novos assentamentos nos três primeiros anos do governo Lula (PT). Mais de mil famílias aguardam processos de regularização fundiária para terem direito à terra no estado.

A ocupação desta manhã faz parte das ações em torno da Jornada Nacional Camponesa, por conta do Dia do Trabalhador e Trabalhadora Rural, celebrado em 25 de julho. 

Outro lado

Brasil de Fato tentou contato com o grupo Othon, o mesmo que administra a rede de hotéis, pelo e-mail vinculado ao CNPJ, mas não teve retorno até o fechamento da matéria. Sobre a ação de despejo, a reportagem procurou a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) e aguarda um posicionamento.

Lula sabe que todo mundo já “meteu a mão” em nossos minerais estratégicos, inclusive com apoio do seu governo

Lula em lançamento de investimentos da Vale no Pará / Ricardo Stuckert

Por Maurício Ângelo* 

É comum que aquilo se fala em cima de um palanque tenha um tom exaltado acima do normal. O que não dá para ignorar é quando esse discurso se descola da realidade. O presidente Lula incorreu neste erro ao elencar, aos gritos, os recursos brasileiros que são alvo do interesse internacional, especialmente dos Estados Unidos e de Donald Trump no atual contexto geopolítico, dizendo que “ninguém põe a mão” nos nossos minérios estratégicos e que “esse país é do povo brasileiro”.

Esses arroubos de soberania podem inflamar a militância, mas não tem amparo na história passada e atual. Pelo contrário: Lula sabe bem que todo mundo já “meteu a mão” nos minerais nacionais, inclusive com apoio recorrente do seu governo – e de todos os governos anteriores – em atrair empresas estrangeiras, investidores, abrir novas áreas de exploração, expandir áreas em operação e criar políticas e programas de incentivo ao setor mineral, além do empréstimo direto, sobretudo via BNDES.

política de conceder suas riquezas minerais para outros países no mercado internacional é, aliás, a base da própria política mineral brasileira desde sempre.

A indústria nacional ganhou impulso com a criação das então estatais Vale e CSN durante o governo de Getúlio Vargas no período da Segunda Guerra Mundial justamente para fornecer minérios para o complexo industrial-militar da época em acordo com os Estados Unidos, com dinheiro americano.

Multinacionais canadenses, americanas, chinesas, inglesas, francesas, suíças, japonesas e de várias outras nacionalidades dominam o mercado brasileiro. Investidores e acionistas estrangeiros estão por trás de todas essas empresas. A produção mineral brasileira segue sendo majoritariamente para exportação, com baixíssimo processamento interno. Somos mais exportadores de commodities hoje do que éramos há 20 anos atrás, no primeiro governo Lula.

Os recursos minerais, constitucionalmente, são da União. Portanto, do povo brasileiro. O Executivo concede para as mineradoras o direito de explorar determinado mineral. Na prática, o que existe é uma sociedade entre governo federal e capital privado global. O governo atua diuturnamente para facilitar a vida das mineradoras, criar e ampliar empréstimos, subsídios, benefícios, programas e simplificar o licenciamento ambiental, com apoio do Congresso dominado pelo lobby minerador, como o caso do PL da Devastação ilustra perfeitamente.

Mas também nas mudanças infralegais praticadas pela Agência Nacional de Mineração e Ministério de Minas e Energia nos últimos anos, seguindo orientações da OCDE ou por conta própria, o que não precisa passar pelo Congresso. E os governos estaduais, todos eles cooptados pelo dinheiro da mineração e a dependência forjada e alimentada do modelo mineral, seguem na mesma página.

Repito, não é exclusividade de Lula III, mas de todos os presidentes que passaram pelo cargo e todos os governadores em todos os estados, não importa o espectro político.

Fonte: Anuário Mineral Brasileiro

Brasil-EUA firmaram acordo para explorar minerais nos últimos anos

É compreensível que as ameaças de Donald Trump, um neofascista convicto, que tem usado o poder geopolítico americano para se apropriar (ou tentar) de reservas minerais na Ucrânia, Groenlândia e em outros países, assim como tentar anistiar Jair Bolsonaro e ameaçar o mercado brasileiro e de vários países com tarifas absurdas, inflame os ânimos.

Importa pouco também que Elon Musk, outrora braço direito, tenha rompido com Trump. Escrevi aqui em abril de 2024 como Musk quer mesmo é garantir o suprimento de minerais estratégicos para os seus negócios, o mesmo interesse que inclui todos os magnatas das big techs que financiaram a eleição de Trump e continuam próximos do presidente americano.

No dia a dia da política, porém, a relação BR-EUA é bem mais amistosa.

 

Não faz muito tempo, no fim de 2024, Brasil e Estados Unidos, ainda sob Biden em fim de governo e Trump já eleito, assinaram um acordo durante o G20 para exploração de minerais críticos que, detalhamos aqui, foi cercado de sigilo e com pontos nebulosos como a ausência de salvaguardas ambientais, as contrapartidas sociais e medidas que ajudem na reindustrialização do país.

Foi uma tratativa direta entre Planalto e Casa Branca, afirmou o próprio MME ao Observatório da Mineração. Desde 2020, na realidade, durante o governo Bolsonaro, foi criado um GT entre Brasil e Estados Unidos para discutir justamente a exploração de minerais críticos. Nestes 5 anos, porém, o tal GT pouco avançou.

Sob Donald Trump, alertamos, tais acordos seguiriam repletos de incerteza. Os movimentos recentes ilustram esses desdobramentos.

Embora haja ruídos significativos nas chantagens feitas por Trump ao Brasil, é bem provável que o pragmatismo, a pressão e a interlocução da indústria minero-siderúrgica imperem para que um meio termo seja alcançado.

É curioso como a mídia não especializada está tratando as reuniões do IBRAM, que representa 90% da produção privada mineral no Brasil e tem entre as suas associadas as mesmas multinacionais que dominam o mercado global, com representantes dos Estados Unidos. O IBRAM está fazendo o que sempre faz. Negociando os seus interesses com quem precisa. E de modo geral bem alinhado com o MME, ANM e os parlamentares que apoia no Congresso.

Foto: Ricardo Stuckert

Grandes bancos e fundos de investimento americanos, como JP Morgan, BlackRock, Vanguard e outros, são acionistas e investidores de empresas como a própria Vale, maior mineradora brasileira e entre as maiores do mundo. A BlackRock, maior fundo do planeta, detém 5,9% da Vale, que, de capital brasileiro, ainda tem a Previ (8,6%), além de outros investidores e das “golden shares” que o governo brasileiro tem direito. Lula foi o primeiro presidente, em muito tempo, a visitar as instalações da Vale no Pará no anúncio de grandes investimentos para os próximos anos.

Em 2021, após décadas, o BNDES zerou a sua participação na Vale, tornando o capital estrangeiro maioria na empresa. Mas o mesmo BNDES emprestou mais de R$ 25,5 bilhões para mineradoras, boa parte multinacionais, entre 2002 e 2022, como revelamos exclusivamente aqui.

O mesmo BNDES que lançou um fundo para minerais críticos em parceria com a Vale e segue emprestando valores significativos para mineradoras estrangeiras, como a Sigma Lithium, sediada no Canadá, que recebeu quase R$ 500 milhões após alterações nas regras do Fundo Clima. A Sigma também foi lançada na bolsa americana Nasdaq com participação direta do MME e de membros do governo Lula.

Dinheiro norte-americano segue inundando o setor mineral brasileiro, como a Mosaic Fertilizantes, empresa dos Estados Unidos, entre as maiores do planeta, que detém grandes minas de fertilizantes (fosfato) no Brasil, inclusive com problemas crônicos em barragens e conflitos com agricultores em Goiás e MG. Fertilizantes que, da lista de minerais considerados estratégicos pelo Brasil – quase tudo, diga-se – são uma das únicas substâncias que o Brasil realmente depende de importação.

A exploração de terras raras no Brasil, ainda incipiente e que ocupa os holofotes da vez, ameaça por exemplo assentamentos rurais no Nordeste e em Goiás, a agricultura familiar e o maior pau-brasil já descoberto, no sul da Bahia, como mostramos no início do mês, o que parece não levantar uma rusga de preocupação em quase ninguém.

Além dos EUA, o governo Lula anda fazendo uma série de acordos envolvendo minerais críticos com a China e ditaduras árabes, por exemplo. Todos bastante nebulosos, sem transparência clara, regras na mesa, comunicados detalhados, mas que colocam a tal soberania nacional no colo e nas mãos de outras potências mundiais. Essa foi a tônica desde o início do atual governo.

No PDAC, realizado anualmente no Canadá, maior evento da mineração mundial, o governo Lula, em comitiva junto de empresários do setor, participa de um legítimo roadshow” em apresentações para captar investimentos estrangeiros no Brasil, igualzinho fazia o governo Bolsonaro.

Lula sabe bem, reforço, que todo mundo já meteu a mão nos minerais brasileiros e seguirão abocanhando a riqueza nacional, com baixíssimo retorno para a sociedade. E que essa é uma política de Estado que atravessa décadas, com gigantesco empenho de políticos das mais variadas origens, que jamais foi questionada ou interrompida.

Pelo contrário: é a própria base da política mineral brasileira, estender o tapete vermelho para o dinheiro americano e para quem mais quiser.

*Maurício Angelo é fundador e Diretor Executivo do Observatório da Mineração. Doutorando em Ciência Ambiental na Universidade de São Paulo (PROCAM-USP). Mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (CDS-UnB). Professor e palestrante. Repórter com centenas de matérias publicadas na mídia brasileira e internacional. Eleito um dos três jornalistas mais relevantes do Brasil no setor de Mineração, Metalurgia e Siderurgia pelo Prêmio Especialistas de 2022 e 2021. Vencedor do Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (2019).


Fonte: Observatório da Mineração

Lista de mortes como um experimento mental: general assessor de Jair Bolsonaro confirma autoria de documento para assassinar autoridades

Os réus também teriam como alvo o juiz Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como arqui-inimigo de Bolsonaro.

Os réus também teriam como alvo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal,  tido como arqui-inimigo de  Jair Bolsonaro. Foto: Luis Nova/AP/dpa
Por Pedro Steiniger para o “Neues Deutschland” 

Isso não teria acontecido com óculos de leitura: Mário Fernandes afirma ter impresso duas cópias do plano que ele mesmo redigiu e apreendido pela polícia para uma operação chamada “Punhal Verde e Amarelo”, em homenagem às cores nacionais, em seu escritório no Palácio do Planalto, em 9 de novembro de 2022, apenas para conseguir ler melhor o texto. O general de brigada da reserva explicou isso durante seu interrogatório no tribunal na quinta-feira (24/7).

Ele então rasgou imediatamente os papéis, cujo conteúdo ninguém mais tinha conhecimento. Poucos minutos após imprimi-los, o então secretário-executivo do presidente Jair Bolsonaro entrou em sua residência no Palácio da Alvorada, onde, ao lado do recém-deposto chefe de Estado, estava presente seu assessor, o tenente-coronel Mauro Cid – a principal testemunha no julgamento em andamento contra o político de extrema direita.

Jair Bolsonaro enfrenta julgamento na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, juntamente com sete réus . A acusação alega que eles tentaram um golpe contra seu sucessor de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, após sua derrota nas eleições de 2022. Bolsonaro enfrenta uma longa pena de prisão.

O plano do General Fernandes, que está sendo julgado juntamente com outros oficiais que supostamente elaboraram propostas concretas para o estado de emergência e o uso das Forças Armadas no golpe, previa o assassinato de Lula da Silva, seu vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Os ataques, incluindo um envolvendo o envenenamento de Lula, estavam planejados para 5 de dezembro de 2022. Uma unidade especial chamada “Kids Pretos”, que Fernandes comandou até 2020, seria mobilizada.

Segundo a acusação, um gabinete de emergência chefiado por Bolsonaro seria instalado após os assassinatos. Segundo investigações da Polícia Federal, os alvos e suas medidas de segurança já haviam sido espionados. Segundo a testemunha-chave Mauro Cid, o General Fernandes era uma das forças motrizes em torno de Jair Bolsonaro que defendiam um golpe de estado.

No tribunal,  Mário Fernandes rebaixou seu plano operacional para um “experimento mental” escrito digitalmente “por hábito”, um “estudo da situação” e uma “análise de risco”. Um mês depois, o réu explicou outra cópia impressa do plano da adaga, obtida pela polícia, como tendo tido uma “nova ideia”. Este incidente também não teve consequências. A acusação está convencida de que Jair Bolsonaro tinha pleno conhecimento dos planos e que o golpe só foi cancelado porque ele não tinha apoio suficiente entre os chefes das Forças Armadas.


Fonte: Neues Deutschland

Cientistas mapeiam áreas de risco de deslizamentos de terra para embasar ações do poder público

Vista aérea de área de Niterói

Pesquisa da UFF mapeou e hierarquizou regiões de maior risco para deslizamentos de terra, orientando ações preventivas

Áreas com alto risco de deslizamentos de terra agora podem ser identificadas e hierarquizadas, permitindo o planejamento de intervenções para mitigar riscos no território urbano, especialmente em periferias. Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), a metodologia foi construída com dados de Niterói (RJ) e publicada ontem (25/7) na Revista Brasileira de Recursos Hídricos.

Foi desenvolvido um índice de risco, que leva em conta o histórico de ocorrências, a susceptibilidade do terreno e informações sobre a vulnerabilidade socioeconômica de seus residentes, permitindo ações de prevenção e mitigação de riscos baseadas em evidências. O município tem cerca de 117 comunidades, a maior parte situada em declives — fator que, somado às chuvas intensas e mudanças antropomórficas no relevo, agrava o risco de desastres.

O histórico foi obtido por meio de dados da Defesa Civil de Niterói, a susceptibilidade foi calculada segundo o modelo SHALSTAB (Shallow Landsliding Stability Model), que prevê a estabilidade do terreno segundo fatores físicos e topográficos, e a vulnerabilidade socioeconômica averiguada por meio da renda familiar média e o número de residentes registrados no CadÚnico.

Franciele Zanandrea, autora do estudo, relata que a validação em campo apresentou bons resultados, com correspondência dos cálculos às áreas consideradas de alto risco, o que auxilia de forma técnica e estruturada a priorização de intervenções para redução de risco em periferias. “O método fornece uma ferramenta técnica e replicável para orientar o uso de recursos públicos em ações de prevenção e mitigação de riscos, fortalecendo a gestão baseada em evidências. Os resultados permitem a priorização de ações estruturais, como obras de contenção, e não estruturais, como alertas e capacitações, contribuindo para a redução do risco de desastres”, afirma.

A pesquisadora também afirma que o método pode ser reproduzido por outras prefeituras, inclusive com recursos limitados, desde que disponham de dados como mapas topográficos, cadastros socioeconômicos e registros de ocorrências. “A utilização do índice demonstra viabilidade de aplicação em larga escala com suporte técnico limitado, o que é fundamental para contextos urbanos periféricos em países em desenvolvimento. Isso o torna uma ferramenta estratégica para democratizar o acesso ao planejamento urbano integrado à gestão de desastres, especialmente em contextos de alta vulnerabilidade social e restrições orçamentárias”, conclui.


Fonte: Agência Bori

Decisão da EPA de dar sinal verde ao controverso herbicida dicamba gera indignação

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Por Carey Gillam para o “The New Lede” 

Na mais recente reversão das proteções ambientais dos EUA, os reguladores disseram esta semana que planejam aprovar um trio de novos produtos herbicidas feitos com dicamba, um produto químico controverso que causou estragos em áreas rurais, desencadeou anos de litígios e duas vezes proibições judiciais.

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) divulgou uma proposta de decisão datada de 22 de julho afirmando que vê mais benefícios do que riscos em permitir que três produtos de dicamba feitos pelas gigantes da indústria agroquímica Bayer, Syngenta e BASF sejam usados por agricultores que cultivam algodão e soja geneticamente modificados para tolerar o dicamba.

Grupos de defesa da saúde pública e ambiental atacaram a decisão, dizendo que ela ignora evidências estabelecidas de que o dicamba tem tendência a se afastar do local onde é pulverizado, principalmente em temperaturas quentes, e que o potente herbicida danificou milhões de acres de plantações, pomares e paisagens onde nunca foi planejado que fosse aplicado.

Eles também dizem que a decisão cheira a favoritismo político, ocorrendo logo após um ex-lobista da indústria da soja ter sido nomeado administrador assistente adjunto para pesticidas no Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA.

Mas a EPA afirmou que os produtores de algodão e soja estão tendo dificuldades para eliminar ervas daninhas que ameaçam a saúde de suas plantações, pois elas se tornaram resistentes a outros tipos de herbicidas. Os produtos Dicamba são necessários para proteger essas importantes indústrias, afirmou a EPA.

Em sua avaliação, a EPA observa que a indústria de algodão dos EUA “é responsável por mais de US$ 21 bilhões em produtos e serviços anualmente” e diz que a colheita anual de soja é avaliada em aproximadamente US$ 57,6 bilhões.

A EPA disse que estava trabalhando com a BASF, Syngenta e Bayer para incluir diversas restrições nos rótulos dos produtos visando reduzir os riscos, tanto para pessoas que pulverizam os produtos químicos e certas espécies ameaçadas e em perigo de extinção, quanto para “cultivos sensíveis e certas plantas a favor do vento”.

Ainda assim, os críticos protestaram contra a decisão.

“A EPA de Trump está atingindo novos patamares de absurdo ao planejar dar sinal verde para um agrotóxico que causou os maiores danos por deriva na história agrícola dos EUA e foi rejeitado duas vezes por tribunais federais”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica, em um comunicado. “Isso é o que acontece quando a supervisão de pesticidas é controlada por lobistas da indústria. Os ricos corporativos recebem seu pagamento e todos os outros sofrem as consequências.”

Bill Freese, diretor científico do Centro de Segurança Alimentar, pediu aos funcionários da EPA que retirassem o plano.

“Se permitirmos que essas decisões propostas sejam aprovadas, fazendeiros e moradores de toda a área rural dos Estados Unidos verão novamente suas plantações, árvores e hortas dizimadas pela deriva do dicamba, e áreas naturais como refúgios de vida selvagem também sofrerão”, disse Freese em um comunicado.

O dicamba foi introduzido na agricultura americana em 1967, mas não era amplamente utilizado durante os meses quentes, pois se sabia que o produto químico podia se volatilizar e se mover por longas distâncias com o aumento das temperaturas. Isso mudou quando a Monsanto e a BASF desenvolveram culturas transgênicas tolerantes ao dicamba para uso com novos herbicidas de dicamba, após o uso generalizado do herbicida glifosato da Monsanto em culturas geneticamente modificadas tolerantes ao glifosato ter causado o desenvolvimento de resistência ao glifosato em milhões de acres de plantas daninhas.

No ano passado, um tribunal federal concluiu que a EPA violou a lei ao aprovar os três novos herbicidas de dicamba. Em 2020, um tribunal federal independente concluiu que a EPA havia apresentado análises falhas e “subestimado substancialmente” os riscos associados aos herbicidas de dicamba.

Documentos corporativos internos mostram que a Monsanto, comprada pela Bayer em 2018, e a BASF estavam cientes de que a combinação de suas culturas geneticamente modificadas tolerantes ao dicamba e herbicidas de dicamba provavelmente causaria danos a muitas fazendas dos EUA que não comprassem as culturas e produtos químicos especiais.

Os documentos também descrevem como a Monsanto se opôs aos testes de produtos de terceiros como forma de limitar dados que poderiam preocupar os reguladores.

A decisão sobre o dicamba é uma das muitas medidas tomadas desde que o presidente Donald Trump assumiu o cargo para anular ou desfazer dezenas de restrições ambientais. Até o momento, o governo Trump realizou mais de 140 ações para reverter as regras de proteção ambiental, de acordo com uma análise do The Guardian .

(Imagem em destaque de Karl Wiggers  no  Unsplash.)


Fonte: The New Lede

Pesquisadores encontram microplásticos em placentas e cordões umbilicais de gestantes brasileiras pela primeira vez

Estudo identificou 110 partículas de microplástico nas placentas e 119 nos cordões umbilicais.


Um estudo inédito conduzido em Maceió revelou a presença de microplásticos em placentas e cordões umbilicais de gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na capital alagoana. Trata-se da primeira pesquisa a identificar esse tipo de contaminação em humanos no Brasil e em toda a América Latina. Os resultados foram publicados na sexta (25) na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em parceria com a instituição havaiana University of Hawai’i at Mānoa.

A equipe analisou amostras de dez gestantes do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes e do Hospital da Mulher Dra. Nise da Silveira, em Maceió. Após a coleta, os tecidos foram digeridos com solução de hidróxido de potássio por sete dias, filtrados e analisados por espectroscopia Micro-Raman, uma técnica de alta precisão para identificação da composição química das micropartículas.

Foram identificadas 229 partículas de microplásticos, sendo 110 nas placentas e 119 nos cordões umbilicais. Entre os materiais mais encontrados estavam o polietileno (presente em embalagens plásticas descartáveis) e a poliamida (comum em tecidos sintéticos). “Como a análise foi realizada em apenas cerca de 40 gramas de tecido — enquanto uma placenta inteira pode pesar até 500 gramas —, estimamos que a quantidade real de partículas por órgão seja ainda maior”, afirma o biomédico Dr. Alexandre Urban Borbely, professor da UFAL e um dos autores do estudo.

Um dos achados mais preocupantes foi a detecção de maior quantidade de microplásticos nos cordões umbilicais do que nas placentas em oito das dez amostras. Isso indica que essas partículas atravessam a barreira placentária e chegam até o feto, o que levanta dúvidas sobre os possíveis impactos no desenvolvimento gestacional e na saúde futura da criança.

Outro dado surpreendente foi a menor quantidade encontrada de aditivos químicos utilizados para a fabricação do plástico em comparação com estudo anterior feito pelo mesmo grupo, com placentas dos Estados Unidos. Ainda assim, os resultados alinham-se aos de pesquisas internacionais, pois o perfil químico ligeiramente diferente pode refletir fatores ambientais e hábitos de consumo regionais.

A poluição marinha é apontada pelo estudo como uma possível origem da contaminação, pois a população da região costuma consumir frutos do mar, uma potencial fonte de ingestão de partículas plásticas. Estudos anteriores também apontam outros agravantes: 75% do lixo na orla de Maceió é composto por plásticos — sobretudo sacolas e embalagens de produtos ultraprocessados —, e a falta de acesso à água tratada leva a população a recorrer ao consumo de água envasada, cujo transporte sob intensa radiação solar pode acelerar a liberação de partículas dos recipientes plásticos.

O levantamento reforça a necessidade de compreender melhor os efeitos dos microplásticos sobre a gestação e a infância, e destaca a urgência de ações como a melhoria na gestão de resíduos, a regulação de plásticos descartáveis, o monitoramento da contaminação por microplásticos em água e alimentos, o incentivo ao uso de tecnologias de filtragem e o estímulo ao desenvolvimento de alternativas ao plástico tradicional.

Além do ineditismo da pesquisa no Brasil e na América Latina, o estudo se destaca por focar em uma população socioeconomicamente vulnerável — um grupo frequentemente ausente nos estudos internacionais, destaca Borbely. Focada no estudo do impacto dos microplásticos desde 2023, a equipe está continuando esse trabalho em um estudo epidemiológico mais amplo, com previsão de publicação para 2027.


Fonte: Agência Bori

Alerta Tsulama! Barragem com altura de prédio de 12 andares ameaça romper em Brumadinho (MG)

Barragem B1-A tem 37 metros de altura e está localizada em Brumadinho, na Grande BH

Barragem B1-A tem 37 metros de altura e está localizada em Brumadinho, na Grande BHFoto: Flavio Tavares / O TEMPO

Por Gabriel Rezende para o “O Tempo”

Um prédio de 12 andares. Essa é a altura da barragem B1-A, da empresa Emicon Mineração e Terraplanagem, localizada na comunidade do Quéias, em Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte. A estrutura chegou ao nível 2 de alerta, o penúltimo da escala que vai até 3 da Agência Nacional de Mineração (ANM). Tal classificação exige a necessidade de medidas preventivas, como a evacuação de áreas de risco. Segundo as autoridades, não há, até o momento, indícios de ruptura iminente.

Apesar disso, a existência de uma barragem em risco revive o luto da cidade que foi palco do desastre de 2019, quando uma estrutura da mineradora Vale rompeu, causando a morte de 270 pessoas, incluindo duas grávidas. A barragem que se rompeu há seis anos era maior: tinha 86 metros de altura, o que equivale a um prédio de 28 andares, e 720 metros comprimento da crista. Além disso, concentrava 12 vezes mais rejeitos.

Conheça a barragem que está em nível 2 de alerta

A B1-A é uma barragem de rejeito de minério com 37 metros de altura — o equivalente a um prédio de 12 andares — e 273 metros de comprimento de crista, quase três campos de futebol enfileirados. Ela está localizada perto da BR-381, a Fernão Dias, e ao lado de outro complexo minerário.

Método de construção 

A barragem foi construída com o método de alteamento por linha de centro, utilizando terra e enrocamento como materiais principais. Esse método é considerado mais seguro que o de alteamento a montante, técnica usada nas estruturas que romperam em Mariana, em 2015, e em Brumadinho, tragédias que mataram, respectivamente, 19 e 270 pessoas.

Diferentemente do alteamento a montante — proibido no Brasil desde 2022 por representar maior risco de instabilidade —, o método por linha de centro consiste em levantar a barragem verticalmente sobre a base inicial, sem deslocá-la em direção ao reservatório.

Apesar de não ser proibido, o método de alteamento por linha de centro está sujeito a exigências técnicas de estabilidade e segurança. Foi justamente a ausência de documentos que fizeram com que as autoridades elevassem o nível de alerta.

Operação e desativação 

A barragem começou a operar em dezembro de 1996 e foi desativada em 2 de janeiro de 2014. Ao todo, armazena 914 mil metros cúbicos de rejeitos — um volume cerca de 12 vezes menor do que o da barragem B1 da mina Córrego do Feijão, que colapsou há cinco anos. Segundo a ANM, há pessoas vivendo permanentemente na área a jusante da estrutura, o que aumenta o nível de atenção das autoridades.

Mancha de inundação

Em caso de rompimento, os rejeitos da B1-A atingiriam a BR-381 (Fernão Dias), uma das principais rodovias do país, ligando Belo Horizonte a São Paulo. Também chegariam até o reservatório Rio Manso, o maior da Região Metropolitana de BH, que abastece cerca de 3,5 milhões de pessoas.

Os dados estão disponíveis no Sistema Integrado de Gestão de Barragens de Mineração, da ANM.

Criação de comitê

Diante do cenário, a administração municipal criou uma Comissão Estratégica Municipal (CEM) para acompanhar a situação. O grupo será composto pelo prefeito, pela Defesa Civil e por representantes das secretarias de Segurança Pública, Planejamento, Desenvolvimento Social, Meio Ambiente, Obras, Saúde, Procuradoria-Geral, Governo e Reparação. Segundo a prefeitura, todas as pastas estão de plantão para atuação imediata, caso necessário.

A evacuação preventiva das famílias que vivem na ZAS segue em andamento, de forma humanizada e com o suporte da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros e de outros órgãos estaduais e federais. Ainda segundo a administração, não há, até o momento, indícios de ruptura iminente, e todas as ações adotadas têm caráter preventivo, conforme prevê o Artigo 42 da Resolução ANM nº 95/2022.


Fonte: O Tempo

MST: ‘Governo Lula ignora agricultura familiar, responsável por cerca de 70% da produção interna de alimentos’

Para movimento, governo Lula ‘tem se mostrado ineficiente’ na resolução de problemas fundiários e distribuição de terra

MST: ‘Governo ignora agricultura familiar, responsável por cerca de 70% da produção interna de alimentos’

Por Brasil de Fato

Ocorre nesta semana uma série de articulações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em todo o país. A Semana Camponesa teve início no estado da Bahia e é um momento de esforço por diálogo e negociação entre o MST e setores públicos pela defesa da reforma agrária e da agricultura familiar.

A movimentação acontece, neste ano, em meio à pressão dos Estados Unidos e aos movimentos do governo brasileiro para defender a produção agrícola de larga escala do país – responsável majoritariamente pelas exportações alimentícias.

A direção do MST denuncia que, apesar do esforço, terceiro mandato de Lula ignora agricultura familiar, responsável por cerca de 70% dos produtos consumidos no Brasil: “Temos pautas desde o segundo governo Lula, que acreditávamos que seriam resolvidas agora, no terceiro mandato. Mas a equipe atual tem se mostrado ineficiente”, diz Evanildo Costa, diretor nacional do MST.

Ele diz ainda que acordos firmados desde 2008 entre o movimento e o governo seguem sendo descumpridos, com famílias aguardando assentamento, sendo ameaçadas de despejo e envolvidas em conflitos fundiários.

As ações da Semana Camponesa se iniciaram em Salvador, com reuniões entre o governo do estado e o movimento. No norte do estado, segundo o movimento, mil famílias aguardam desde o segundo mandato de Lula o cumprimento de um acordo de assentamento na região do Perímetro Irrigado Nilo Coelho, firmado com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e o Incra.

Membros do MST pressionam governos e autoridades públicas por avanços em distribuição de terra para famílias e cumprimento de acordos de assentamento | Imagem: MST/Reprodução

No sul da Bahia, o movimento denuncia a ameaça de despejos de famílias e conflitos fundiários em áreas vinculadas à Superintendência do Patrimônio da União (SPU). As negociações com multinacionais papeleiras da região se iniciaram em 2011, mas estão paralisadas.

O MST cobra do governo medidas de avanço na garantia de terra a produtores, como a atualização dos índices de produtividade, o assentamento das famílias acampadas, a recomposição orçamentária dos programas de apoio à agricultura familiar e a revogação de medidas que facilitam a mineração e a grilagem de terras em áreas de reforma agrária. A Semana Camponesa coincide com o Dia Internacional da Agricultura Familiar, celebrado em 25 de julho.

Fonte: Brasil de Fato