Neoliberalismo está na raiz da produção continuada de desastres climáticos urbanos

A informação divulgada pelo jornal O Globo de que o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (PL), reduziu de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões a verba destinada à prevenção de impactos das chuvas entre 2023 e 2025 repercutiu de forma explosiva diante da situação trágica enfrentada por diversas cidades da Zona da Mata mineira após eventos meteorológicos extremos.

Por mais controversa que seja a gestão de Romeu Zema e sua orientação fiscal, ele não constitui um caso isolado no uso da tesoura orçamentária que retira recursos da prevenção e, sobretudo, da adaptação climática urbana. Em 2022, quando chuvas extremas provocaram mais de 100 mortes em Petrópolis (RJ), verificou-se que havia mais recursos destinados a eventos artísticos do que a ações preventivas. O problema, portanto, transcende indivíduos e revela uma lógica política mais ampla.

A prevalência de políticas fiscais de perfil neoliberal tende a enquadrar investimentos em prevenção e adaptação climática como despesas secundárias ou indesejáveis. O resultado é que justamente as áreas que exigiriam ampliação de financiamento — diante das evidências de um novo padrão de chuvas intensas, com volumes concentrados em curtos intervalos e alto potencial destrutivo em áreas urbanas vulneráveis — permanecem subfinanciadas. A recorrência dos desastres não decorre apenas da força dos eventos, mas da sistemática despriorização orçamentária da adaptação.

As políticas de estabilização fiscal implementadas à custa do investimento urbano estão, assim, na raiz da ampliação dos desastres observados no Brasil e no mundo nos últimos anos. A magnitude crescente dos eventos extremos expõe a inadequação de orçamentos comprimidos e estruturas precárias de prevenção. A resposta posterior, frequentemente marcada por gestos simbólicos e visitas oficiais, não substitui a ausência de planejamento estrutural.

O Brasil não está apenas atrasado na agenda de adaptação climática; encontra-se estruturalmente despreparado do ponto de vista orçamentário. Estados e municípios, em sua maioria, carecem de sistemas mínimos de monitoramento e de capacidade de resposta rápida. Soma-se a isso o fato de que a prometida “Autoridade Climática Nacional”, anunciada no programa eleitoral do então candidato Lula, não se concretizou, em grande medida por ausência de previsão orçamentária no âmbito federal. O descompasso entre discurso e financiamento reforça a vulnerabilidade institucional.

Enquanto persistir a adesão a políticas que comprimem o investimento público estratégico, as cidades brasileiras permanecerão expostas a um padrão climático cada vez mais instável. O que se observa em Juiz de Fora e Ubá tende a se repetir — possivelmente de forma mais intensa — nos próximos meses e anos. Não se trata de exercício de previsão alarmista, mas da constatação empírica de duas tendências convergentes: a intensificação dos eventos extremos e a insuficiência estrutural das políticas de adaptação.

Dilúvio, adaptação climática negligenciada e neoliberalismo: quem paga o preço são os pobres

Ao longo desta terça-feira, ficou mais claro o tamanho da tragédia que se abateu sobre as cidades de Juiz de Fora e Ubá, ambas localizadas na Zona da Mata de Minas Gerais. Afora o número incerto de mortos, as imagens evidenciaram um processo de destruição de grande magnitude nas duas cidades. Fatores naturais, como relevo e orientação geográfica, contribuíram para exponencializar os problemas decorrentes de grandes volumes de precipitação em curtos períodos de tempo. 

Mas o que se viu em termos de destruição é apenas uma pequena amostra do que deverá ocorrer em grandes partes do território brasileiro nos próximos anos e décadas, caso medidas urgentes de adaptação urbana não sejam adotadas para tornar as cidades minimamente ajustadas ao novo padrão climático, caracterizado por eventos meteorológicos cada vez mais extremos, como o observado ontem em Juiz de Fora e Ubá.

O problema é que o Brasil vive hoje sob uma combinação mortífera que mistura negacionismo climático com regras orçamentárias de viés neoliberal. Essa combinação é particularmente grave na medida em que, em todos os níveis de governo (federal, estadual e municipal), há um desprezo pelo conhecimento científico e uma adesão aos cânones neoliberais que implicam pouca ou nenhuma destinação de recursos para pesquisa científica e adaptação climática.

Se essa combinação não for drasticamente revertida, os próximos anos e décadas serão dramáticos nas cidades brasileiras, sobretudo nas regiões habitadas pelos segmentos mais pobres da população. Isso porque, no momento de melhorar a infraestrutura urbana — mesmo nas formas ultrapassadas que continuam sendo adotadas —, são as áreas mais ricas as principais beneficiadas. Para agravar a situação, aos mais pobres são destinadas as áreas rejeitadas pela especulação imobiliária.

É preciso, mais do que nunca, retomar a discussão sobre a reforma do solo urbano, de modo a democratizar o acesso à terra — condição básica para que as cidades deixem de ser tão segregadas. É fundamental alterar a estrutura da propriedade urbana, pois somente assim será possível iniciar a formulação e a execução de políticas de adaptação que sejam justas para todos, e não restritas aos segmentos que hoje hegemonizam os escassos recursos destinados ao aprimoramento das estruturas urbanas.

Diante desse quadro, não se trata apenas de reconhecer a gravidade dos eventos recentes, mas de romper com a inércia política que os transforma em rotina. É imperativo recolocar o planejamento urbano, a ciência e a justiça socioespacial no centro das decisões públicas, com investimentos consistentes em adaptação climática, revisão das prioridades orçamentárias e enfrentamento direto das desigualdades no acesso à terra. Sem isso, cada nova tragédia deixará de ser exceção para se consolidar como regra — não por fatalidade natural, mas por escolha política.

Dançando enquanto o colapso não vem: Hegemonia do modelo agroquímico mineral causa atraso na adaptação climática no Brasil

Solidariedade real e radical entre os povos para enfrentar o colapso  climático - Brasil de Fato

As últimas semanas têm sido marcadas pela ocorrência de eventos tão extremos como díspares. As cenas de grandes tempestades, grandes oscilações de temperatura, e destruição de bens e propriedades têm ocupado parcelas cada vez mais maiores dos noticiários. Somado à confirmação de um novo normal climático, o que se vê é a discrepância já existente na capacidade de adaptação a essa situação, com países do capitalismo dependente ficando cada vez mais para trás na aplicação de medidas que representem algum tipo de esforço de preparação para as situações extremas que estão se tornando cada vez mais frequentes.

Um aspecto que sempre é negligenciado é que não falta ciência e cientistas para informar melhor a tomada de decisões. Uma voz que alerta frequentemente para os problemas climáticos é o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo, que sendo um dos maiores experts em mudanças climáticas no Brasil sempre se manifesta sobre a necessidade de preparar nossas cidades para o novo normal climático. Um dos elementos que Artaxo destaca é o fato de que a adaptação terá de ser ajustada localmente, na medida em que os extremos climáticos se manifestarão de forma diferenciada, dependendo de fatores locacionais.  Em outras palavras, não haverá uma receita única para o processo de adaptação.

Como venho me interessando há algum tempo pela questão da adaptação climática ao nível das cidades, usando a cidade de Campos dos Goytacazes como ponto privilegiado de observação, o que posso dizer é que ainda não há o mínimo interesse por partes dos governantes em discutir seriamente a necessidade de preparação para o aprofundamento dos problemas associados ao clima.  Em Campos dos Goytacazes, inexistem medidas de mudança na paisagem urbana. Aliás, pelo contrário. O que se tem é a persistência de práticas de remoção da parca vegetação urbana existente, como ficou claro recentemente com a remoção de dezenas de árvores de grande porte, apenas para tornar a marca de um supermercado mais visível. Além disso, não temos ainda nenhuma medida para ajustar materiais de construção que possam ser mais afeitos aos extremos de temperatura que estão se tornando uma das marcas do padrão climático.  Para colar a cereja no bolo, ainda inexiste orçamento para instalar as estruturas que deveriam apoiar e viabilizar as decisões de governo em momentos de ocorrência de eventos meteorológicos extremos.

O problema é que Campos dos Goytacazes não é uma exceção insólita, mas uma espécie de vanguarda do atraso. A verdade é que a maioria, senão a totalidade, das cidades brasileiras não deu ainda os passos iniciais para a adaptação climática que poderia evitar o colapso das cidades com locais viáveis para a existência humana.  Um dos fatos essenciais para isso é a hegemonia das forças políticas que controlam e se beneficiam do modelo agroquímico e mineral que ditam os investimentos públicos no Brasil. Essas forças determinam grandes investimentos na produção de commodities agrícolas e minerais de exportação, bem como a instalação de infraestruturas de escoamento (chamam isso de logística) do que é produzido a partir deste modelo. E nunca é demais dizer que esse modelo contribui diretamente para a crise climática, o que explica porque a hegemonia desse modelo inibe qualquer discussão séria sobre adaptação. 

Como é a classe trabalhadora quem sofre e sofrerá cada vez mais os efeitos da crise climática, já que seus membros estarão expostos a um agravamento das temperaturas enquanto trabalham e terão de voltar para locais de moradia que serão os mais atingidos pelos extremos meteorológicos, é necessário colocar essa discussão no centro do debate político. No caso brasileiro, me parece evidente que não serão as forças políticas que apoiam o modelo agroquímico e mineral que farão isso. Esta tarefa terá que ser abraçada pelos segmentos de esquerda que não se limitam a gerenciar o capitalismo dentro dos limites aceitos por quem realmente controla o status quo agroquímico mineral.  O problema é se essas forças de esquerda vão acordar antes que o colapso se torne inevitável.

Aqui um um aviso é importante: o tempo para a tomada de posições está se esgotando.

Campos dos Goytacazes é um lugar ainda longe da necessária adaptação climática, mostra estudo na Uenf

Chuva causou alagamento na Rua Antônio de Castro com a Zuza Mota, em  Campos, no RJ

Venho estudando e orientando estudos referentes ao processo de adaptação às consequências trazidas pelas mudanças climáticas que estão ocorrendo em função da emissão de gases poluentes que resultou no aquecimento da atmosfera da Terra.  Um dos focos desses estudos são os esforços realizados (ou melhor, não realizados) para dotar governos locais dos instrumentos necessários para preparar as cidades para as drásticas mudanças que estão ocorrendo por causa do aquecimento.

Pois bem, hoje venho divulgar a dissertação intitulada “Potencialidades e entraves para realizar o processo de adaptação climática em Campos dos Goytacazes/RJ” que foi defendida com êxito pela minha orientanda Débora Silva Rodrigues no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf.  O estudo empregou uma série de técnicas de coleta de dados com o objetivo de obter as perspectivas existentes na população, pesquisadores e agentes de governo sobre a existência (ou não) de uma crise climática, e dos passos necessários para fazer frente ao processo. Além disso, foi feita a análise de documentos legais que deveriam versar sobre os esforços para conduzir o processo de adaptação (um deles o Plano Diretor Municipal). Além disso, também foram analisados os programas dos 3 candidatos a prefeito nas eleições municipais de 2022 (i.e., Delegada Madeleine, Professor Jeferson e Wladimir Garotinho). Finalmente, uma busca foi feita para verificar a existência de ações judiciais voltadas para a questão ambiental em Campos dos Goytacazes.

Os resultados da pesquisa mostraram a existência de um ,descompasso entre a percepção da população, os discursos das autoridades governamentais, a atuação das instituições de controle e os dispositivos legais existentes. Além disso,  a pesquisa verificou uma atuação periférica e desatualizada dos órgãos de controle que, aliada à baixa apropriação dos dispositivos legais, evidencia um déficit institucional relevante, que compromete a governança climática local.  Um fato interessante que a pesquisa evidenciou é que a população demonstrou ser capaz de reconhecer os impactos recorrentes da crise climática e perceber que os efeitos são mais intensos entre os grupos socialmente fragilizados. No entanto, o conhecimento sobre as medidas adaptativas adotadas pelo poder público é limitado, assim como a percepção sobre a relevância dessas estratégias.

Um dos dados que evidenciam a discrepância dos impactos das mudanças climáticas , pode ser verificado a partir de um mapa que foi construído a partir das respostas dadas pela população sobre o período que duram os alagamentos que ocorrem em seus locais de moradia na cidade de Campos dos Goytacazes quando chuvas intensas ocorrem. O que foi evidenciado é que os períodos de alagamento variam em diferentes pontos da área urbana, mas também dna rural (ver imagem abaixo)

Mapa dos bairros na área urbana do Município de Campos dos Goytacazes indicados pelos respondentes com situação de alagamento.

A principal conclusão do estudo é que os obstáculos enfrentados pela cidade de Campos dos Goytacazes para a construção de uma agenda efetiva de adaptação climática não se limitam a aspectos técnicos ou financeiros, mas estão enraizados em condicionantes políticos, estruturais e institucionais.  Na prática, o que estudo mostrou é que não há efetivamente uma política municipal de adaptação climátic, em que pese, por exemplo, todo o alarde que foi feito em torno do veto presidencial à chamada PL do Semiárido. 

Quem desejar ler a dissertação “Potencialidades e entraves para realizar o processo de adaptação climática em Campos dos Goytacazes/RJ”, basta clicar [Aqui!].

Adaptação climática na Amazônia deve priorizar segurança alimentar da população com espécies resilientes

A adaptação à nova realidade deve incluir a valorização da natureza e dos conhecimentos tradicionais

Na Amazônia, impactos das mudanças climáticas como alterações na temperatura e no regime de chuvas, comprometem a biodiversidade e, por consequência, a vida das populações que dependem diretamente da floresta para sua sobrevivência. A adaptação à nova realidade deve incluir a valorização da natureza e dos conhecimentos tradicionais, a restauração florestal em larga escala e a proteção das águas – essenciais tanto para a produção agrícola como para o transporte na região, dependente das rotas fluviais. Também estão entre as medidas necessárias a proteção e restauração de serviços ecossistêmicos como a polinização e a dispersão de sementes, com a formação de bancos de sementes e redes de coletores, por exemplo, além da identificação de espécies alimentares resilientes às mudanças climáticas – e de sua diversidade genética.

É o que propõe o policy brief “Estratégias de Adaptação Climática Visando o Bem-Estar das Populações Amazônidas”lançado na sexta (29) e elaborado por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV) em parceria com autores de instituições como Universidade de São Paulo (USP) e Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (INPE). A partir da literatura científica, o material reúne um conjunto de recomendações e ações para políticas públicas que garantam segurança alimentar e hídrica especialmente a povos indígenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas, além de moradores das áreas rurais e urbanas.

A pesquisadora do ITV Tereza Cristina Giannini, coordenadora da publicação, explica que a iniciativa multidisciplinar reúne cientistas que trabalham com bioeconomia e sustentabilidade de cadeias alimentares na Amazônia e faz parte de projetos em andamento vinculados ao ITV e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A principal motivação foi a constatação, em estudos prévios da equipe, de cenários negativos do impacto das mudanças climáticas sobre cerca de 200 espécies de plantas consumidas por povos nativos da Amazônia, como a castanha-do-pará.

A equipe também busca responder à indicação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de priorizar a adaptação às mudanças climáticas, já que alguns impactos ambientais são irreversíveis, indo além de esforços voltados somente à mitigação – ou seja, à tentativa de redução dos efeitos das mudanças climáticas. “Às vezes, acredita-se que a mudança climática é unidirecional, mas não é. É um mosaico de impactos muito amplos e que envolve as comunidades humanas de um jeito complexo”, pontua Giannini.

Os projetos de pesquisa seguem adiante e têm como próximos passos a criação de uma cartilha sobre “plantas do futuro”, com foco em espécies potencialmente resilientes e pouco conhecidas; análise do impacto das mudanças climáticas em polinizadores agrícolas, especialmente os envolvidos na produção de cacau, açaí e castanha-do-pará; o mapeamento da vulnerabilidade alimentar de povos indígenas, identificando áreas onde essas populações podem ser mais afetadas por mudança de clima e vulnerabilidade alimentar; e a finalização de um trabalho sobre o genoma do cacau, buscando adaptações às mudanças climáticas para indicar possíveis melhorias genéticas e áreas de preservação.

“O policy brief foi uma grande síntese do conhecimento multifacetário que existe sobre impacto da mudança climática no que diz respeito à alimentação. Essa talvez tenha sido a maior contribuição: ter tantos pontos de vista diferentes e igualmente capacitados, engajados em expor a complexidade do tema e traçar caminhos possíveis”, conclui Giannini.


Fonte: Agência Bori

Em Campos, o estranho caso de uma prefeitura em guerra contra árvores

No último domingo saudei a recriação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente pelo prefeito Wladimir Garotinho. Achei, talvez em uma tola ilusão, que finalmente chegaríamos a um modelo de governabilidade minimamente ajustado às necessidades crescentes de adaptação ao processo de mudanças climáticas que assola o planeta neste momento.

Eis que hoje me chegaram imagens de podas drásticas realizadas em árvores existentes na sede da PMCG e, pasmemos todos, nos próprios da recriada Secretaria Municipal de Meio Ambiente ( ver imagens abaixo).

Àrvores completamente mutiladas no entorno da sede da Secretaria Municipal do Meio Ambiente

Árvores mutiladas por podas drásticas na sede da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes

A explicação dada a quem ousou perguntar o porquê de podas tão drásticas que claramente comprometem a saúde das árvores mutiladas. A resposta seria o combate à famigerada “Erva de Passarinho” (que são plantas arbustivas hemiparasitas das famílias Loranthaceae Santalaceae, pertencentes à Ordem das Santalales). Essas plantas são Nativa em todos os continentes do mundo, e parasitam diversas espécies de árvores de grande porte.

Pois bem, vejam abaixo uma das árvores que sofreram poda drástica na sede da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, e me digam se para fazer tamanha mutilação, já que as ervas de passarinho estavam localizadas em galhos inferiores e a poda foi para lá de drástica. Me parece claramente que não.

Árvore mostrada acima na Secretaria Municipal de Meio Ambiente antes de sofrer a poda drástica

A questão aqui é que existem soluções menos drásticas para a remoção das infestações de “Erva de Passarinho” que incluem a simples remoção manual ou apenas a retirada do galho infestado. A solução de podar toda a árvore não apenas é drástica, como vai muito além do que seria necessário, comprometendo a vida útil desses instrumentos fundamentais para a regulação climática urbana. Pelo jeito o que vale é o bordão “pode vir quente que estou fervendo”.

O pior é que se o governo municipal que deveria dar o exemplo no esforço de proteger o nosso limitado estoque de vegetação, o que dirá da população em geral?  Ao realizar essas podas drásticas, o que o governo municipal está dando é uma espécie de licença para podar drasticamente e do jeito que for. Eu digo isso porque se olhar atentamente as árvores podadas sequer a aplicação da calda bordalesa foi realizada, deixando as árvores em condições propiciais para a infestação por fungos e bactérias.  Tudo isso em nome de uma guerra às árvores em uma cidade em que chove pouco e as temperaturas médias são de um tropical “caliente”.

Finalmente, uma pergunta inocente: para onde é levada toda a madeira obtida com essas podas drásticas? É que eu lembro de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pelo prefeito Arnaldo Vianna junto ao Ministério Público Estadual para não apenas diminuir a prática das podas drásticas, mas também para impedir a comercialização da madeira obtida com elas. Aliás, depois de mais de 20 anos desde que aquele TAC foi assinado, eu me pergunto sobre quem acompanha o seu cumprimento.  Pelo jeito, ninguém.

Alvisseras notícias: Wladimir Garotinho corrige erro e recria secretaria de Meio Ambiente e adiciona Sustentabilidade

Wladimir Garotinho | O pôr do sol da nossa cidade é um PETÁCULO mesmo🌅❤️  Tão bonito que até peguei o cavaquinho só pra lançar o enigma do dia:  alguém arrisca... | Instagram

Quando é para dar boa notícia, a gente dá.  Graças a um colega pesquisador da UFF-Campos, hoje fui informado que no dia 02 de junho o Diário Oficial do Município trouxe a excelente notícia da recriação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e que agora abarcará também o tema da Sustentabilidade, tendo como secretário o ex-vereador Jorge Rangel (ver imagem abaixo).

Como os leitores deste blog sabem, venho criticando o prefeito Wladimir Garotinho desde que ele tomou posse do seu primeiro mandato por ter cometido a impropriedade de extinguir, em vez de fortalecer, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

Agora, apesar de ainda não constar do organograma da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, o maior município do estado do Rio de Janeiro, onde existem engatilhados vários problemas graves do ponto de vista socioambiental, poderá a ter uma secretaria própria para avançar o processo de adaptação climática.

Como estou terminando a orientação de mais uma dissertação que confirma o atraso crônico na adoção dos chamados Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e da ausência objetiva de ações mínimas em prol da adaptação climática no plano municipal, posso dizer que melhor do que recriar a secretaria, o prefeito Wladimir Garotinho deveria oferecer o devido suporte orçamentário para as ações urgentes que precisam ser tomadas.

A polêmica do PIX foi muito útil para esconder a crise climática que se abateu sobre o Brasil

Ruas da cidade de Florianópolis (SC) foram inundadas após chuvas intensas

Toda a polêmica desatada pela decisão do governo federal de apertar minimamente o monitoramento das transações via PIX foi muito útil em vários sentidos. Um deles que creio ser merecedora de atenção foi que todas as milhões de visualizações de vídeos contendo fake news sobre a portaria do PIX caíram com um lençol de silêncio sobre a manifestação da crise climática em diferentes partes do território brasileiro.

Enquanto o governo Lula se enrolava para explicar o que nem precisaria ser explicado, pelo menos 4 estados brasileiros sofreram com eventos meteorológicos extremos: Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais e Santa Catarina. Nesses 4 estados o rastro de destruição causado por chuvas particularmente intensas deveria ter soado o alarme climático, mas até agora a repercussão tem sido inexplicavelmente abaixo daquilo que ocorreu em torno dos vídeos do PIX.

O fato é que está se tornando cada vez mais evidente que vivemos o princípio de um processo de intensificação de eventos meterológicos extremos, e que está pegando a maioria das cidades brasileiras totalmente despreparadas para fazer frente a essa situação extrema. De quebra, o fato de que inexiste qualquer esforço para reservar recursos orçamentários para dar conta de todos os problemas que estão se desenvolvendo torna a situação ainda mais complexa.

E o exemplo ruim vem de cima. Há que se lembrar que mesmo confrontado com evidências de que a crise climática está se agraando, o governo Lula decidiu reduzir em R$ 200 milhões o orçamento voltado para gerenciar e reduzir riscos de desastres ambientais. A verba reservada para o programa voltado a essas medidas prevê o repasse de R$ 1,7 bilhão em 2025, contra R$ 1,9 bilhão em 2024.  É o ajuste fiscal falando mais alto do que a necessidade de responder aos efeitos trazidos por grandes eventos meteorológicos.

Mas a realide nos estados e municípios não é nada diferente, o que causa um grau altíssimo de despreparo para fazer frente aos danos catastróficos trazidos pelos eventos extremos. Ao assistir cenas do que ocorreu nos últimos dias nas áreas mais atingidas, fica evidente o despreparo das estruturas governamentais para responder de forma eficiente ao avanço das águas. 

E quando a coisa se refere ao processo de adaptação climática, a coisa vai na mesma direção, pois o país do PIX continua ignorando a necessidade de que sejam tomadas decisões estruturais e estruturantes para responder ao agravamento dos problemas climáticos.  E com isso, a tendência de que passemos a ver cenários cada vez mais dramáticos.

Que ninguém se engane: a crise climática está aqui para ficar e vai se agravar.  Assim, urge dar a devida importância política às demandas por adaptação, especialmente para os segmentos mais pobres da população que são as vítimas preferenciais da inação governamental também na área climática.

A ciência climática deve desbloquear soluções em uma época de grandes desafios

À medida que 1,5 grau Celsius de aquecimento é alcançado, a ciência climática deve olhar para o futuro, escreve Aditi Mukherji, diretora da Plataforma de Ação de Impacto para Adaptação e Mitigação das Mudanças Climáticas do CGIAR e autora do IPCC

tanzania

Instalando sensores climáticos iButton em campos agrícolas na Tanzânia. Novas pesquisas devem preencher lacunas de evidências para reduzir emissões agrícolas e melhorar sistemas alimentares, diz Aditi Mukherji. Copyright: J.van de Gevel / Bioversity International (CC BY-NC-ND 2.0)

Por Aditi Mukherji para a SciDev

[NAIROBI] Quando os principais cientistas climáticos do mundo publicarem seu próximo relatório em 2028-29, o mundo provavelmente já terá ultrapassado 1,5 grau Celsius a mais de temperatura do que na era pré-industrial por alguns anos, e o prazo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU estará no horizonte.

O limite estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015 para reduzir os impactos das mudanças climáticas foi ultrapassado pela primeira vez em 2024, confirmou o serviço de mudanças climáticas da UE, Copernicus, na semana passada (10 de janeiro).

Então, conforme a próxima avaliação da ciência climática do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) começa, é vital que respondamos às perguntas que nos servirão no futuro. Navegar pelos desafios de amanhã requer ciência com visão de futuro hoje e nos próximos meses.

No centro da nossa missão de limitar as mudanças climáticas estão as comunidades e os setores mais vulneráveis ​​aos seus impactos, especialmente a agricultura e os pequenos agricultores, que desempenham um papel fundamental na alimentação do mundo, mas estão particularmente expostos aos efeitos das mudanças climáticas.

O próximo ciclo da ciência climática deve, portanto, preencher as lacunas em evidências e soluções que reduzam as emissões de gases de efeito estufa da agricultura e, ao mesmo tempo, garantir que a agricultura permaneça viável em um mundo mais quente e menos previsível.

Sabemos que os sistemas alimentares são um grande contribuidor para as mudanças climáticas, respondendo por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. O setor claramente precisa fazer a transição para meios mais sustentáveis ​​de produção, consumo e descarte de alimentos para dar suporte às reduções globais de emissões.

No entanto, os sistemas alimentares também são vulneráveis ​​aos impactos das mudanças climáticas. As perdas agrícolas por desastres relacionados ao clima totalizaram US$ 3,8 trilhões nos últimos 30 anos, com as maiores perdas relativas nos países mais pobres. Um aumento de 2 graus Celsius nas temperaturas piorará a já séria insegurança alimentar de longo prazo em muitos países, colocando até 80 milhões de pessoas em risco de fome até 2050.

Perguntas candentes

Este próximo ciclo de avaliações do IPCC deve responder a pelo menos três questões principais relacionadas aos sistemas agroalimentares e às mudanças climáticas para ajudar o mundo a passar da compreensão da crise climática para o enfrentamento dela com a máxima urgência.

A primeira questão para os cientistas do clima é como fazer melhor uso das tecnologias existentes que ajudam os agricultores a combater e lidar com as mudanças climáticas — e aumentar sua adoção e uso.

Inovações para ajudar os agricultores a se adaptarem a novas condições, como serviços digitais de informação climática e culturas resilientes ao clima, já existem, juntamente com desenvolvimentos como bombas de irrigação movidas a energia solar e forragens de baixa emissão, ou rações, que reduzem a pegada de carbono da agricultura. Mas elas não estão chegando aos agricultores na escala necessária para fazer a diferença.

Como canalizar de forma mais eficaz o financiamento, os recursos e o apoio climático dos países mais ricos para implementar essas inovações em países de baixa e média renda é uma questão científica.

Da mesma forma, também precisamos avaliar quais ferramentas e tecnologias permitirão que os agricultores se adaptem a condições mais quentes no futuro. Ciclos de pesquisa anteriores do IPCC mostraram que a capacidade de se adaptar às mudanças climáticas se torna cada vez mais difícil à medida que as temperaturas continuam a subir. Os cientistas precisam investigar quais adaptações de cultivo, gado ou pesca permanecerão viáveis ​​a 1,5 graus Celsius ou mais.

A segunda questão para os cientistas do clima é como tornar as tecnologias de baixa emissão acessíveis e econômicas.

Para que os agricultores tenham a melhor chance de se adaptar e evitar perdas futuras, é crucial que as temperaturas globais se estabilizem e isso exige que as emissões diminuam, incluindo as da agricultura.

No entanto, diferentemente do setor energético, que se beneficiou da pesquisa e inovação em fontes renováveis ​​como a energia solar, o setor agrícola ficou para trás em investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de baixa emissão.

Precisamos urgentemente identificar campos de pesquisa emergentes e promissores, bem como as políticas, infraestrutura e governança necessárias para tornar as tecnologias limpas acessíveis e amplamente disponíveis.

Por fim, os cientistas precisam abordar a questão de como acelerar a remoção de dióxido de carbono para complementar as reduções de emissões.

À medida que as temperaturas aumentam, a capacidade natural da terra e dos oceanos de sequestrar carbono enfraquece, intensificando a necessidade de remoção de dióxido de carbono (CDR) liderada pelo homem. No entanto, intervenções como o reflorestamento podem reduzir as terras agrícolas, particularmente em países de baixa renda, representando riscos à segurança alimentar. Os cientistas do clima devem mapear os impactos tanto das temperaturas mais altas quanto dos esforços de CDR em larga escala nos sistemas alimentares e meios de subsistência para traçar um curso que não coloque em risco a segurança alimentar .

Ciência voltada para o futuro

As decisões moldadas pelos relatórios do IPCC definirão como o mundo enfrentará os desafios sem precedentes de um planeta em rápido aquecimento, especialmente à medida que nos aproximamos do final desta década crucial.

Como autores do relatório do IPCC, nosso papel vai além de fornecer insights; devemos fornecer ciência acionável, baseada em evidências e voltada para o futuro para capacitar os governos a agir de forma decisiva e eficaz. Isso inclui equipar inovadores e formuladores de políticas para aproveitar o financiamento climático, adaptar soluções aos contextos locais e se preparar para futuros aumentos de temperatura.

Acima de tudo, não podemos esquecer a justiça climática como princípio orientador desta transição verde. Garantir que os mais vulneráveis ​​— muitas vezes também os menos responsáveis ​​— permaneçam na frente e no centro dos nossos planos pode ajudar a alcançar um futuro inclusivo, onde ninguém seja deixado para trás.

Este artigo foi produzido pela Global Desk do SciDev.Net.

Aditi Mukherji é diretora da Plataforma de Ação de Impacto para Adaptação e Mitigação das Mudanças Climáticas do CGIAR e colaboradora de relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).


Fonte: SciDev

Em prol da adaptação climática, estudantes e professores de Políticas Sociais da UENF realizam plantio de árvores no Assentamento Zumbi dos Palmares

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Dando consequência a uma proposta surgida durante a XI Jornada do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf (PPGPS/Uenf) que ocorreu nos dias 08 e 09 de outubro, um grupo de estudantes e professores esteve na manhã deste sábado (14/12) no Assentamento Zumbi dos Palmares para realizar um plantio de mudas de árvores do bioma da Mata Atlântica.  Essa ação ocorreu em parceria com a direção do IFF Bom Jesus de Itabapoana, que cedeu as mudas plantadas, e com a Comissão Pastoral da Terra  (CPT) que organizou o plantio na área de entorno da agrovila do Núcleo IV do Zumbi dos Palmares.

Segundo a coordenadora do PPGPS/UENF, professora Joseane de Souza, atividades desta natureza são importantes porque articulam ensino, pesquisa e extensão na pós graduação, e contribuem para o fortalecimento das relações entre os membros da comunidade acadêmica,  e deles com segmentos da sociedade que participam do esforço em prol de uma adaptação climática justa.

É importante frisar que durante a XI Jornada do PPGPS/Uenf, duas mesas debateram a questão das mudanças climáticas e a necessidade do desenvolvimento de ações que permitam criar uma ponte entre os estudos científicos e busca de um modelo de desenvolvimento econômico que possa apontar saídas socialmente justas para os desafios criados pelas mudanças climáticas.

Nesse sentido, o plantio realizado nesta manhã serviu para não só para dar materialidade aos debates realizados na XI Jornada do PPGPS/Uenf, mas também para criar redes de colaboração envolvendo instituições públicas de ensino e organizações sociais com uma longa trajetória de intervenção social, como é o caso da CPT.