Adaptação climática não é gestão de desastres

estrada amazonia

Por Ima Vieira para “Liberal Amazon”

Quando abordamos as mudanças climáticas, inevitavelmente nos deparamos com dois conceitos interligados: mitigação e adaptação. Mitigação das mudanças climáticas implica em evitar e reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera prevenindo assim, o aumento das temperaturas do planeta para níveis mais extremos. 

Por sua vez, adaptação às mudanças climáticas requer a modificação de comportamentos, sistemas e até mesmo, estilos de vida visando proteger nossas famílias, economias e o ambiente em que vivemos dos impactos adversos das alterações climáticas. 

Em um mundo em aquecimento, a experiência de um clima diferente não exige necessariamente uma mudança geográfica; o clima está se transformando em nosso próprio ambiente. Na Amazônia por exemplo, já tiveram aumentos extremos de temperatura de mais de 3° C em relação a década de 1960 na parte noroeste do bioma (nos estados de Amazonas e Roraima) e no interior do Pará.

As mudanças climáticas impactam a segurança alimentar, a disponibilidade de água e localização para construção de moradias. Além disso, nos deparamos com desafios emergentes, como a necessidade de combater temporadas de incêndios florestais mais prolongadas e intensas, gerenciar potenciais surtos de doenças até então inexistentes e incentivar o desenvolvimento urbano longe de áreas onde gostamos de viver, como nas áreas costeiras e nas margens dos rios.

As soluções de adaptação variam de lugar para lugar, sendo difíceis de prever e envolvem múltiplos compromissos. Compreender os riscos locais e elaborar estratégias para gerenciá-los devem ser os primeiros passos seguidos da implementação de sistemas de resposta aos impactos imediatos. 

A adaptação climática não se resume à gestão de desastres, mas sim a um investimento significativo na prevenção dos efeitos das mudanças climáticas nos territórios. Desde 2017, a cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, vem realizando um trabalho preventivo; o que a tem poupado dos problemas ainda maiores com as fortes chuvas que tanto têm afetado o estado, como acompanhamos nos noticiários.

Na Amazônia, o desafio da adaptação climática assume proporções urgentes e complexas. As secas e enchentes extremas e os incêndios florestais são efeitos da crise climática e demandam respostas coordenadas em diversos níveis da federação por meio de políticas públicas abrangentes. 

Isso inclui desde a integração de iniciativas de monitoramento e prevenção de desastres, até a organização e capacitação de especialistas em crises (defesa civil, brigadistas, bombeiros e outros) e contratação de equipamentos nos municípios. Além disso, é crucial estabelecer estruturas nos municípios com maior propensão a serem afetados, atribuindo-lhes responsabilidades específicas e condições para implementação de medidas preventivas e, neste caso, os governos precisam desenvolver novas estratégias de gestão, especialmente no que diz respeito às finanças públicas.

Mas qual é a capacidade institucional dos municípios brasileiros, especialmente aqueles da Amazônia, para implementar programas de adaptação? Os municípios enfrentam outras necessidades urgentes de desenvolvimento o que os torna ainda mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos. Isso ressalta a necessidade de incluir os planos de adaptação no planejamento municipal. É crucial incorporar essas discussões nos debates das eleições municipais no Brasil com urgência! Não podemos permanecer à mercê de tragédias iminentes sem que medidas sejam tomadas de forma planejada e preventiva.


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Fonte: Liberal Amazon

Entrevista sobre a catástrofe climática no RS no metacast “Subversiva”

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Ontem tive a oportunidade de participar do  metacast “Subversiva” que é produzido pela jornalista Marina Valente a partir de Fortaleza, capital do Ceará.  O tema da entrevista/conversa foi a catástrofe climática que se abate neste momento sobre o estado do Rio Grande do Sul. 

Ao longo da entrevista, pudemos conversar não apenas sobre os mecanismos climáticos que explicam a ocorrência de chuvas extremas, mas também dos problemas que causam a falta de respostas mais efetivas aos problemas que esses eventos disparam.

Coloco abaixo a entrevista para quem desejar saber mais do que foi abordado ao longo de pouco de mais uma hora de conversa.

À espera do pico do El Niño

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As altas temperaturas dos últimos dias deveriam estar despertando um senso de urgência em todos os governantes brasileiros, mas a maioria deles parece estar entretida com outras coisas.  Já as pessoas que não governam, mas são governadas por eles, tenta sobreviver do jeito que dá, especialmente aqueles que compõe a imensa maioria pobre da população brasileira que não dispõe das condições financeiras para sequer ventilar suas casas.

A questão que esses dias quentes atualizam é a da necessidade de que comecemos um urgente processo de adaptação climática nas nossas cidades, pois a situação ainda vai piorar muito em face da indisposição de se controlar a emissão de combustíveis fósseis que estão na raiz dos problemas climáticos que estamos atravessando.

Tenho me interessado pela questão da adaptação climática, pois já está apontado pela comunidade científica que uma das facetas da crise climática é que ela será sentida de forma diferenciada e se abaterá mais pesadamente sobre os pobres. Basta pensar na capacidade de pagar as contas de eletricidade e água que vão encarecer ainda mais no futuro, ou no espaço reduzido que os pobres têm comparativamente aos ricos dentro de suas casas.  Com casas menores e densamente povoadas, os efeitos das alterações climáticas serão muito mais sentidas pelos pobres.

Mas o que significa adaptação climática?

Mas falando em adaptação climática, o que significaria em um país de características tropicais como o Brasil se tornar mais adaptado? A primeira coisa seria considerar a necessidade de inserir ferramentas de ajuste climático nos chamados planos diretores para que o principal instrumento de gestão municipal possa refletir as demandas de adaptação a um clima em transição para mais quente.

Muitos não conhecem, mas existe uma iniciativa chamada “Programas Cidades Sustentáveis” (PCS) que se apresenta, entre outras coisas, como uma ferramenta para gerir alternativas de adaptação. Ao verificar quantos municípios brasileiros já aderiram, verifiquei que dentre os 5.568 existentes, apenas 290 já se tornaram signatários (ou seja, apenas 5,3%), e 145 concentrados na região Sul (exatos 50%). 

Ainda que se possa considerar que o PCS seja apenas uma das muitas iniciativas do gênero, essa baixa adesão me parece refletir bem o estado da arte da compreensão da maioria dos governantes brasileiros sobre a necessidade de começarmos a internalizar nos planos diretores municipais as prioridades que a mudança climática está impondo de forma inexorável.

Campos dos Goytacazes: um exemplo que combina extrema segregação social, problemas climáticos e despreparo para a adaptação

Agora pensando em Campos dos Goytacazes, cidade onde vivo há quase 26 anos, o que chama a atenção é o fato de que apesar de se ter um prefeito “jovem” no comando do executivo municipal, há uma completa ignorância sobre os problemas que já estão por aqui.

Assim é que a simples análise do atual Plano Diretor Municipal apontará que não há qualquer menção à adaptação climática. Não bastasse isso, o que se assiste nas ruas é a remoção tresloucada das poucas árvores existentes nos espaços públicos, a aplicação de camadas asfálticas escuras, e a imposição de um modelo de cidade segregada que coloca os mais pobres isolados em áreas desprovidas de elementos essenciais como água e esgoto, enquanto que os ricos se isolam em condominados de alto luxo nos quais o governo municipal destina a infraestrutura que é negada aos pobres.

Há ainda que se considerar que sendo a água um dos elementos mais afetados pelo aquecimento global,  uma concessionária privada continua exercendo um controle férreo sobre quem recebe ou não o líquido precioso para suprir necessidades básicas.  Aí já se sabe como fica a situação, pois os mais pobres são aqueles que ficam na ponta de lança de formas draconianas de distribuição e de cobrança.

Não se pode esquecer que um dos primeiros atos do prefeito Wladimir Garotinho foi extinguir a secretária municipal de Meio Ambiente, tornando um mero apêndice de um hipertrofiada secretária municpal de Planejamento Urbano, Mobilidade e Meio Ambiente. Não surpreende então que não haja atual qualquer vislumbre de que estamos evoluindo em termos de planejamento urbano, mobilidade ou, pior ainda, meio ambiente.

Assim, é que chegamos a uma condição em pleno século XXI em que o município de Campos dos Goytacazes continua completamente estagnado no tocante a um ajuste cada vez mais urgente na forma de tratar a questão ambiental.

E o pico do El Niño ainda vai chegar….

Sendo habitante de Campos dos Goytacazes ou de qualquer um dos 5.278 em que os prefeitos continuam alienados da necessidade de adotar políticas de ajuste climático, uma coisa é certa: o atual ciclo de altíssimas temperaturas só deverá se encerrar no primeiro trimestre de 2024, e pior ainda está por vir porque o atual episódio do El Niño ainda nem chegou ao seu pico. 

Assim, ainda que não parece, a questão climática precisa ser pautada de forma direta e inexorável por todos os que se preocupam com a capacidade de nossas cidades de estarem minimamente adaptadas para os impactos mais duros das mudanças climáticas que deixaram definitivamente o domínio do debate teórico dos cientístas para se tornar um elemento central no planejamento urbano.

 

Impactos climáticos: as lutas e conflitos para se adaptar

Lidar com os efeitos da mudança climática está se tornando uma questão cada vez mais central – e abriga um potencial infinito de conflito

267851Deslizamento de terra na Noruega após fortes tempestades. Foto: AP/Cornelius Poppe

Por Deixe Thiele para o “Neues Deutschland”

Na diplomacia climática internacional, as questões de adaptação à crise climática têm sido uma vertente central das negociações. O semáforo acaba de submeter uma lei de adaptação climática ao Bundestag. Sem surpresa, concentra-se em aspectos técnicos, por exemplo, prescrevendo a consideração de impactos climáticos na construção pública e no planejamento de infraestrutura – sem critérios rígidos. No entanto, metas mensuráveis ​​devem seguir.

Lidar com a crise climática, sem dúvida, requer genialidade da engenharia. E, de fato, a adaptação há muito é planejada silenciosamente, onde quer que as consequências das mudanças climáticas possam ser reconhecidas com sobriedade, longe de debates públicos e armadilhas políticas – em empresas, empresas de infraestrutura e administrações municipais, na agricultura, nas forças armadas.

Mas os canteiros de obras muito mais profundos serão sociais. É preciso adequar o modo de vida e de produção – para maior resiliência, diferentes ritmos de trabalho, gerenciamento de desastres como tarefa permanente . Mas como? Todo ajuste concebível significa conflito: sobre a distribuição de recursos, condições de trabalho, co-determinação, privilégios. Mas quando se trata das condições em que ocorrem os ajustes, o modo dominante continua sendo o da repressão e da destematização. Cada vez mais agressivo, como no campo liberal-conservador, ou gentil e meio envergonhado, como no espectro de centro-esquerda.

Discutidas abertamente ou não, as lutas para se conformar estão se tornando os conflitos políticos centrais deste século. Eles intervirão em todas as áreas da vida, sobreporão todas as linhas políticas de conflito, serão negociados em todos os lugares. Um abastecimento de água cada vez mais escasso é distribuído de forma justa ou apropriado pelas corporações? A sesta do meio-dia é travada para proteger a saúde nos países cada vez mais quentes da Europa Central , contra toda a tradição protestante? Como o regime europeu de fronteiras reage aos chamados refugiados climáticos? Quem paga pela proteção civil, quem paga pela reconstrução após o próximo desastre? Quem arca com os custos nos países dramaticamente afetados do Sul Global, que quase nada contribuem para a crise climática?

Graças ao desenvolvimento dinâmico da crise climática, as lutas de adaptação estão se tornando um fenômeno permanente. Se o estado da luta contra o aquecimento global pode ser lido de forma bastante objetiva a partir dos valores de CO2 e temperatura, as complexas lutas de adaptação tornam-se mais confusas e menos “perdidas” ou “ganhas” em sua totalidade.

Há muito tempo estamos no meio disso: em todas as lutas culturais contemporâneas e tendências de fascização, as questões de assimilação desempenham um papel importante – às vezes mais, às vezes menos explicitamente. Isso talvez seja mais vívido nas fronteiras externas da UE. O acordo sobre uma restrição drástica do direito de asilo também deve ser entendido como uma preparação para um mundo em que cada vez mais pessoas fugirão. A narrativa dos “refugiados climáticos” é muito simplista, ignorando os conflitos locais e as relações econômicas globais desiguais, mas: As catástrofes climáticas sem dúvida aumentam a dinâmica do deslocamento. Aqueles que agora declaram que não há alternativa à execução duma hipoteca também sabem disso.

Para a justiça climática, as lutas de adaptação são, em última análise, mais decisivas do que as de redução de emissões: um clima instável significa um caos duradouro, mas no final depende de como a sociedade lida com isso. Um mundo de dois graus pode significar realidades de vida coletiva completamente diferentes. Existe o modelo autoritário “Fortaleza Europa” – e existe um modelo solidário de segurança local de abastecimento e forte infraestrutura pública com fronteiras abertas. O drama do século 21 acontecerá entre esses pólos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland [Aqui!].

A crise climática e o apartheid social brasileiro fazem novas vítimas na Baixada Fluminense e na Costa Verde

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Após um breve hiato desde que se viu as cenas dramáticas na cidade de Petrópolis, estes últimos dias foram marcados por tragédias semelhantes na Baixada Fluminense e na chamada Costa Verde (principalmente em Angra dos Reis e Paraty) onde chuvas torrenciais causaram a morte de dezenas de habitantes de áreas pobres. A receita que se vê é a mesma de Petrópolis: chuvas fora do normal, características do atual período de mudanças climáticas, causam desmoronamentos e inundações instantâneas de áreas habitadas por pessoas pobres.

O problema é que tais cenas vão se tornar cada vez mais corriqueiras em um país afetado por mudanças climáticas causadas pelo funcionamento do sistema capitalista que, por um lado, gera altos níveis de poluição atmosférica e, por outro, empurra milhões de seus cidadãos para ocuparem áreas ecologicamente frágeis e desprovidas de infraestrutura compatível para enfrentar a situação que se abre.

De forma objetiva é forçoso reconhecer que os efeitos das mudanças climáticas tenderão a recair sobre os ombros daqueles segmentos que são politica e economicamente mais frágeis, já que os ricos não só evitam se instalar em locais propensos à quedas de encostas e serem inundados, mas quando o fazem possuem toda a condição de se retirar para outros lugares mais seguros, seja temporária ou definitivamente.

O fato é que não se pode separar os efeitos das mudanças climáticas do padrão de urbanização segregado que predomina no Brasil. Quem tenta separar essa conexão está claramente a serviço da perpetuação de um modelo de urbanização que aposta na perpetuação de um forma muito específica de apartheid social, o qual foi construído no período colonial e cuidadosamente mantido desde que se deu a independência em 1822.

Por isso é que no caso de países como o Brasil o chamado processo de adaptação climática das cidades terá que ser antecedido (ou pelo menos ocorrer simultaneamente) pelo desmantelamento do apartheid social que predomina na maioria das nossas cidades.

Um mês da tragédia em Petrópolis: ação do Greenpeace Brasil homenageia as vítimas e cobra medidas do Estado para evitar novas catástrofes

Ato simbólico com 233 sinalizadores e coroas de flores simbolizam a urgência de ações para o enfrentamento da crise climática

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Ativistas do Greenpeace Brasil homenageiam as vítimas de Petrópolis no Palácio Guanabara, na cidade do Rio de Janeiro, e pressionam para que seja decretado emergência climática | Foto: Gabrielle Souza / Greenpeace

Rio de Janeiro, 15 de março de 2022 – Hoje (15) completa um mês das chuvas intensas que culminaram em uma grande tragédia na cidade de Petrópolis (RJ). Nesta manhã, o Greenpeace Brasil levou para a frente do Palácio Guanabara, sede do governo do Rio de Janeiro, 233 sinalizadores e coroas de flores representando as 233 vidas perdidas e contabilizadas até o momento. A ação teve como objetivo prestar homenagem às vítimas das enchentes e deslizamentos que atingiram o município no mês passado, além de pressionar o governador Cláudio Castro para que decrete Emergência Climática e execute imediatamente o plano de adaptação.

Apesar do Rio de Janeiro possuir este plano, não existem estratégias de implementação, prazos ou etapas de execução, e tampouco orçamento. Aliás, o governo do estado não usou nem metade do orçamento previsto para o ano passado do Programa de Prevenção de Catástrofes do Rio de Janeiro. Em 2021, foram utilizados R$165 milhões dos R$402 milhões disponíveis – dinheiro que poderia ter sido destinado a obras de infraestrutura.

Para o porta-voz de Clima e Justiça do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, a ação da organização em frente ao Palácio Guanabara é uma forma de pressionar o poder público para que mais tragédias como essa não ocorram: “As fortes chuvas no mês de fevereiro levaram 233 vidas em Petrópolis, mas o que ocorreu na região é um exemplo da falta de implementação de direitos básicos e execução de um plano de adaptação climática no Estado. O Rio de Janeiro precisa decretar Emergência Climática e implementar efetivamente o seu plano de adaptação, elaborando-o junto às populações mais impactadas. Essas são ações fundamentais para que o Estado se antecipe às próximas catástrofes”.

Além de ações como essa em frente ao Palácio Guanabara, o Greenpeace Brasil também tem trabalhado para fortalecer iniciativas que já estão sendo desenvolvidas nos territórios. No caso de Petrópolis, a organização destinou recursos por meio de parceiros locais para a compra de mantimentos, roupas e necessidades urgentes para as famílias atingidas pela catástrofe, além de iniciar uma petição para que os estados decretem Emergência Climática e executem planos de adaptação, evitando que novas tragédias ocorram e que mais vidas sejam perdidas.

Confira as principais imagens da ação