Estudo independente mostra que alimentos servidos às Forças Armadas dos EUA estão contaminados com agrotóxicos, medicamentos veterinários e metais pesados

Testes laboratoriais independentes encomendados pela Moms Across America , com o apoio do Children’s Health Defense Military Chapter e da Centner Academy , revelam que a comida das forças armadas americanas, incluindo as refeições prontas para consumo (MREs) e outros itens racionados e de refeitório, têm baixos níveis de nutrientes e estão contaminadas com uma mistura de agrotóxicos, medicamentos veterinários proibidos, metais pesados ​​e glifosato em níveis que representam sérias ameaças à saúde humana. 

Por Sustainable Pulse 

Testes laboratoriais independentes encomendados pela Moms Across America, com o apoio do Children’s Health Defense Military Chapter e da Centner Academy, revelaram na quarta-feira que os alimentos das forças armadas dos EUA, incluindo as refeições prontas para consumo (MREs) e outros itens racionados e de refeitório, estão contaminados com uma mistura de agrotóxicos, medicamentos veterinários proibidos, beta-agonistas e esteroides amplamente utilizados na produção de carne bovina e suína nos EUA para promover o crescimento, metais pesados ​​e glifosato em níveis que representam sérias ameaças à saúde humana.

A cada ano, mais de 1,5 bilhão de refeições militares e 37 milhões de refeições prontas para consumo (MREs) são servidas aos militares da ativa dos EUA, tornando as Forças Armadas americanas uma das compradoras e influenciadoras mais poderosas no abastecimento alimentar, tanto nos EUA quanto globalmente. A saúde, o preparo e a segurança das tropas americanas dependem dessas refeições para manter o desempenho físico, a função cognitiva e o bem-estar a longo prazo.

As forças armadas dos EUA parecem estar ficando para trás na área de alimentos limpos e seguros, visto que, em 2014, o exército chinês ordenou que todos os postos de abastecimento militar permitissem apenas a compra de grãos e óleo alimentar não transgênicos, devido a preocupações com a segurança sanitária relacionadas aos transgênicos e aos pesticidas associados, que agora se comprovou estarem contaminando os suprimentos alimentares das forças armadas americanas.

“Apoiamos o compromisso do Presidente Trump em aumentar o orçamento das Forças Armadas para garantir a segurança dos americanos e criar as Forças Armadas mais poderosas do mundo”, disse Zen Honeycutt, Diretora Executiva Fundadora da Moms Across America. 

“Como Comandante-em-Chefe da nossa nação, apelamos para que ele seja um verdadeiro herói, garantindo o nosso poder global ao fornecer as refeições mais seguras e saudáveis ​​de todas as forças armadas do mundo. Apelamos para que as tropas americanas tenham acesso a comida americana – carne orgânica de criação regenerativa e produtos orgânicos, ricos em nutrientes e não tóxicos”, concluiu Honeycutt.

Os testes laboratoriais independentes incluíram um total de 40 amostras, sendo 16 amostras provenientes de 6 refeitórios de bases militares e 24 rações MRE (Medidas de Refeição Prontas para Consumo) analisadas para detectar substâncias químicas e nutrientes tóxicos. As amostras continham ingredientes como trigo, milho transgênico, soja transgênica e carne. Os resultados incluíram:

  • Agrotóxicos 100% das amostras de alimentos militares testadas continham resíduos nocivos de pesticidas. Mais de 70% das amostras continham múltiplos  agrotóxicos (variando de 2 a 26) e até 15 a 26 resíduos diferentes de agrotóxicos em um único item. Um total de 62 agrotóxicos e misturas químicas estavam presentes, sem avaliação dos efeitos cumulativos ou sinérgicos na saúde.
  • Glifosato  95% das amostras de alimentos militares continham níveis detectáveis ​​de glifosato/AMPA.
  • Medicamentos veterinários – Foram detectados 5 medicamentos veterinários, incluindo ractopamina e acetato de trembolona, ​​substâncias promotoras de crescimento amplamente utilizadas na produção de carne bovina e suína nos EUA, mas proibidas em outros 160 países, incluindo China, União Europeia e Rússia; outros 3 medicamentos encontrados são proibidos na maioria dos países ou não aprovados para uso humano – indicando provável contaminação por carne importada.
  • Metais pesados ​​ 100% das amostras testadas continham arsênio, cádmio, chumbo, mercúrio e alumínio. Em algumas amostras, os níveis de arsênio, cádmio e alumínio encontrados foram de 430% a 17.300% superiores às diretrizes da EPA para água potável. 

“Como uma veterana orgulhosa do Exército dos Estados Unidos, entendo em primeira mão as exigências físicas e mentais extremas impostas aos nossos militares para que se mantenham prontos para a missão. Treinamento, foco e resiliência são essenciais, e a alimentação desempenha um papel fundamental no apoio a todos os três. É preocupante que muitos militares estejam atuando em ambientes alimentares que não apoiam consistentemente sua saúde ou bem-estar a longo prazo. A orientação nutricional limitada e a forte dependência de alimentos ultraprocessados ​​refletem desafios mais amplos em nosso sistema alimentar — desafios que afetam tanto as comunidades militares quanto as civis”, declarou Charlene Guzman, Líder de Comunicação Estratégica e Relações Públicas do Projeto Não-OGM, ex-contratada do USDA e veterana do Exército, em reação aos resultados dos testes.

“Nossos militares e suas famílias fazem sacrifícios diários a serviço deste país. Em troca, temos a responsabilidade de garantir que estejam adequadamente nutridos com alimentos que promovam força, recuperação e bem-estar a longo prazo. Proporcionar acesso a alimentos limpos e ricos em nutrientes não é um luxo — é uma medida básica de cuidado, dignidade e respeito por aqueles que servem”, concluiu Guzman.


Fonte: Sustainable Pulse

Pesquisa detecta ampla contaminação por agrotóxicos das águas de Santa Catarina

Estudo na água feito a pedido do Ministério Público alerta para poluição com agrotóxicos no meio ambiente

Um estudo feito nas águas que abastecem os 295 municípios catarinenses, e apresentado ao Grupo de Trabalho da Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA) nesta quarta-feira (28/1), acendeu um alerta ao Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) para a presença de agrotóxicos no meio ambiente – incluindo aqueles de uso proibido no Brasil. Com base no levantamento, elaborado a pedido do Centro de Apoio Operacional do Consumidor (CCO) do MPSC, a Instituição pretende atuar para reduzir os impactos que o excesso desses resíduos químicos pode causar na vida das pessoas, especialmente no médio e no longo prazo. 

A ideia inicial é atacar o problema de forma integrada com as áreas do consumidor, da saúde pública e do meio ambiente e em diferentes frentes: de forma regionalizada, com grupos de trabalho fixos e sugestão de instauração de procedimentos administrativos nas Promotorias das comarcas onde se identificou maior concentração de substâncias diferentes no meio ambiente (veja mais abaixo); e, no âmbito nacional, com a sensibilização do Ministério da Saúde sobre a necessidade de revisão da Portaria n. 888/2021, que define os limites aceitáveis de resíduos químicos na água potável. 

Parecer Técnico N. 01/2024

“O que nós pretendemos é, por meio da apresentação de dados, colaborar com o debate nacional sobre a definição dos parâmetros de potabilidade da água, porque entendemos que a plena proteção à vida e à saúde do consumidor está atrelada à melhora da qualidade do produto ofertado para a população”, disse a Coordenadora do CCO, Promotora de Justiça Aline Restel Trennepohl. 

O levantamento ocorreu entre 2018 e 2023 dentro do Programa Alimento Sem Risco, do MPSC, que atua no monitoramento e no combate ao uso indiscriminado de agrotóxicos, e foi custeado pelo Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL).  

As análises foram realizadas em laboratórios credenciados, com coleta nas águas tratadas que abastecem todos os municípios do estado, abrangendo mananciais superficiais e subterrâneos. O objetivo foi identificar quais substâncias estão presentes, em que concentrações, e comparar com os limites da legislação brasileira. 

O estudo revelou que, embora os níveis estejam dentro dos limites permitidos pela legislação brasileira, 155 municípios (52,5%) apresentam resíduos de agrotóxicos na água potável, indicando poluição ambiental que atinge não apenas os recursos hídricos – como água tratada, poços artesianos e bicas –, mas também o solo e o ar. 

“Em uma reunião com a Secretaria de Estado da Saúde, por sua Superintendência de Vigilância em Saúde e a Diretoria de Vigilância Sanitária, a equipe técnica avaliou que a água é a última matriz por onde o agrotóxico vai passar. Sendo assim, estamos falando de todo um ambiente poluído, de resíduos que, antes de chegar à água, ocuparam o ar e o solo”, explicou Aline.  

Ao todo, 42 resíduos ativos foram encontrados nas águas analisadas. Entre os detectados, cinco estão banidos no Brasil, de acordo com a Anvisa: benomil (por ter carbendazim – este banido – como ingrediente ativo), carbofurano, haloxifobe metílico, metolacloro e molinato.  

Os agrotóxicos de uso proibido foram detectados em Balneário Camboriú, Rancho Queimado, Imbuia, Canelinha, Itaiópolis, Ituporanga e São João do Sul. Os demais, em municípios espalhados por todo o estado.  

As concentrações identificadas estavam abaixo dos parâmetros nacionais de potabilidade, atendendo aos valores máximos permitidos (VMP) para cada substância contemplada na Portaria n. 888/2021, o que faz com que, pela legislação brasileira, essas águas não sejam consideradas impróprias para consumo (entenda mais abaixo).  

Parecer Técnico N. 01/2024

“Embora contenha resíduos de agrotóxicos, a água distribuída pela rede de abastecimento em Santa Catarina é segura ao consumo e não oferece risco imediato ao consumidor. Os processos de tratamento garantem proteção contra inúmeros contaminantes perigosos aos humanos e animais, a exemplo de bactérias e parasitas. A água não tratada, advinda de poços ou bicas, além de não estar livre da contaminação pelos resíduos de agrotóxicos, traz mais ameaças diretas ao seu consumidor do que a entregue pela rede geral de distribuição. Por isso deve ser evitada”, salientou Aline.    

A principal preocupação está na exposição crônica, ou seja, no contato constante e contínuo que a população tem com esses resíduos. Estudos científicos indicam que o contato sucessivo, seja por ar, pele ou ingestão, pode gerar efeitos cumulativos e aumentar o risco, a longo prazo, para doenças como linfoma não-Hodgkin, câncer de estômago, próstata e tireoide, além de alterações endócrinas e neurológicas. 

Municípios com maior número de resíduos 

Entre os municípios onde foram detectados resíduos de agrotóxicos na água tratada, os dados revelam diferenças significativas entre as regiões catarinenses. 

Na mesorregião Oeste, 63 dos 118 municípios apresentaram ao menos um ingrediente ativo. No Norte, foram 11 de 26 (42,3%), enquanto na Serra, 10 dos 30 (33,3%). Na Grande Florianópolis, 12 dos 21 municípios analisados (57,1%) tiveram resíduos, e no Sul do estado o índice chegou a 35 de 46 (76,1%). Já no Vale do Itajaí, 24 dos 54 municípios (44,4%) registraram algum tipo de poluição. 

O diagnóstico aponta o Vale do Itajaí como uma das regiões mais críticas. Embora a maioria dos municípios tenha apresentado um, dois ou três ingredientes ativos, casos como Ituporanga e Imbuia chamam atenção pela presença simultânea de diversos resíduos químicos.  

Em Imbuia, por exemplo, foram identificados 17 tipos diferentes de resíduos de agrotóxicos, incluindo dois ingredientes ativos proibidos no Brasil desde 2019, mas encontrados em amostras de 2022 e 2023. Também em Imbuia foi encontrado um fungicida em concentração superior a 12 microgramas por litro (µg/L), patamar considerado elevado por especialistas.  

Já em Ituporanga, as análises apontaram a presença simultânea de 23 ingredientes ativos de agrotóxicos, com nove substâncias acima de 1,000 micrograma por litro (µg/L). Na região, também foram encontrados resíduos de fungicidas banidos no país.  

Para a região, em especial nas cidades onde a presença simultânea de diversos resíduos foi identificada, o MPSC, em parceria com a Diretoria de Vigilância Sanitária de Santa Catarina, Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, pretende fomentar a criação de grupos de trabalho intersetoriais. Esses grupos envolverão equipes de saúde, assistência social, agricultura e proteção ao consumidor e atuarão com busca ativa de pacientes, além de conscientização sobre o uso e manuseio de agrotóxicos. 

O Centro de Apoio Operacional do Consumidor considera essencial que os órgãos sanitários trabalhem de forma organizada e planejada, especialmente nas regiões mais críticas do estado, para melhorar a situação e garantir mais segurança para todos. 

Legislação brasileira 

Apesar desses resultados, a Portaria n. 888/2021 do Ministério da Saúde considera essas águas próprias para consumo, porque as concentrações encontradas estão abaixo dos VMP definidos para cada substância.  

Esses parâmetros foram fixados com margem de segurança ampla, muito inferiores às doses que poderiam causar efeitos agudos, garantindo que a água seja considerada segura pela Vigilância Sanitária. 

Os VMP têm justamente essa função: assegurar que a água distribuída esteja muito abaixo das concentrações que causariam dano imediato à saúde. Isso garante que, segundo os padrões da Vigilância Sanitária, a água seja considerada segura para consumo. 

A lei brasileira, no entanto, não considera a simultaneidade das substâncias presentes para estabelecer risco. Por essa perspectiva, a Coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Consumidor foi a Brasília em busca de uma sensibilização em âmbito nacional para uma revisão legislativa.  

Em uma reunião com equipe técnica em dezembro, o MPSC apresentou o estudo. No encontro, colocou-se à disposição do governo federal e salientou a importância de uma revisão na portaria. 

Além disso, o Ministério Público continua com sua atuação no controle do uso de agrotóxicos por meio do Programa Alimento Sem Risco. Com ele, a testagem acontece nos alimentos de origem vegetal.  

Alimento Sem Risco 

Programa Alimento Sem Risco atua no monitoramento e no combate ao uso indiscriminado de resíduos de agrotóxicos, bem como no estímulo à rastreabilidade dos produtos, na fiscalização do comércio de agrotóxicos, além de impedir o uso de produtos banidos no exterior. 
 
A iniciativa também incentiva o desenvolvimento de estudos técnicos e pesquisas, bem como busca coibir irregularidades no mercado de produtos orgânicos.  

Desde 2010, quando surgiu, mais de 8.300 amostras de vegetais já foram analisadas por um laboratório especializado na pesquisa de resíduos de agrotóxicos. Nos primeiros cinco anos do Programa Alimento Sem Risco, cerca de 200 ingredientes ativos eram pesquisados em cada amostra. A partir de 2017, o total de ingredientes ativos passou para mais de 420 moléculas, possibilitando um diagnóstico mais amplo do uso de agrotóxicos. 
 
Os resultados gerais das análises indicam que houve queda do percentual de produtos fora da conformidade legal, que são aqueles nos quais foram usados agrotóxicos não autorizados para a cultura, acima do limite máximo permitido ou de uso proibido. Era de 34,4%, em 2011, e caiu para 11,4% em outubro de 2025. 
 
Até outubro de 2025, a partir da atuação das Promotorias de Justiça do Consumidor no estado, mais de 500 acordos extrajudiciais na forma de termos de compromisso de ajustamento de conduta foram firmados, visando promover medidas de adequação do cultivo e do comércio. 
 
Anualmente, são examinadas amostras de alface, abacaxi, arroz, banana, batata, berinjela, brócolis, cebola, cenoura, feijão, laranja, maçã, mamão, mandioca, manga, maracujá, morango, pepino, pêssego, pimentão, repolho, rúcula, tomate, trigo e uva, entre outros produtos. 


Fonte: Coordenadoria de Comunicação Social do MPSC

Agrotóxicos são a nova face do complexo de vira-latas de um Brasil transformado na lixeira química do mundo

Por  Sonia Corina Hess*

Em 2025 foram aprovados 914 novos agrotóxicos para uso no Brasil. Desses, 152 (16%) continham ingredientes ativos biológicos, incluindo microorganismos, óleos e extratos vegetais, e 140 (92%) de tais pesticidas naturais eram fabricados por empresas instaladas no Brasil. Por outro lado, dentre os 762 agrotóxicos químicos registrados (83% do total), 666 (73%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China. Além disso, em 393 desses 762 agrotóxicos (51%) havia pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia (banidos, ou sem registro, ou com registro pendente).

Somando-se os números relativos ao atual governo, de 2023 a 2025, foram aprovados 2.135 novos agrotóxicos, sendo 346 (16%) produtos biológicos e 302 deles (87%) fabricados no Brasil. Dentre os 1.789 agrotóxicos químicos aprovados naquele período, 1.511 (84%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China e 867 (48%) continham pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia.

No período de 2019 a 2022, no governo anterior, foram aprovados 2.170 novos agrotóxicos, sendo 278 (13%) produtos biológicos, dos quais 254 (91%) eram fabricados no Brasil. Dentre os 1.892 agrotóxicos químicos, 1.465 (77%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China, e 1.056 (49%) continham pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia.

A maioria dos 1.419 agrotóxicos formulados aprovados entre 2023 e 2025 tinha uso autorizado em plantações de soja (895/63%), algodão (671/ 47%), milho (639/45%) e cana-de-açúcar, (404/28%). Também no período de 2019 a 2022, a maioria dos 1.014 agrotóxicos formulados aprovados tinha uso autorizado em plantações de soja (614/ 61%), algodão (443/44%), milho (428/42%) e cana-de-açúcar (336/33%). Tais proporções são compatíveis com as estimativas do uso de agrotóxicos naqueles cultivos industriais no Brasil, 52% do total sendo aplicados em plantações de soja, 10% no milho, 10% na cana-de-açúcar e 7% no algodão.

Os dados apresentados revelam uma realidade que tem perdurado mesmo com a mudança de governos no Brasil. O país depende da China para produzir os ingredientes ativos presentes em torno de 80% dos agrotóxicos químicos autorizados, e metade dos produtos químicos aprovados contém pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia. Além disso, a maioria dos agrotóxicos aprovados tem uso direcionado a plantações de soja, algodão, milho e cana-de-açúcar, que não são alimentos direcionados a seres humanos, mas sim, à alimentação de animais, bioenergia e outros usos.

Até quando aceitaremos que o Brasil figure como a maior lixeira química do mundo, onde as multinacionais vendem a preços elevados os agrotóxicos que foram banidos em outros países, sendo considerados lixo por lá? Até quando teremos que beber, respirar e comer esse lixo que contamina os nossos corpos, os animais, as águas, o ar e o solo? Até quando aceitaremos essa situação vexatória, nos comportando como vira-latas simpáticos, enquanto que as muiltinacionais químicas atuam com a truculência típica dos cães furiosos, insistindo em ferir a nossa dignidade e a nossa saúde?

Fontes dos dados podem ser conhecidas [Aqui!].


* Sonia Corina Hess é professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina

Biodiversidade em perigo: agrotóxicos causam diminuição na quantidade de aves

En route pour les alternatives aux pesticides - Natura Sciences

Por Ulrike Bickel para “Amerika21”

Paris. Um novo estudo da França mostra o declínio das populações de aves com o uso frequente de agrotóxicos. O resultado é particularmente relevante para a América Latina, já que a região consome mais agroquímicos do mundo. Somente entre 2000 e 2020, a participação da região no consumo global de pesticidas aumentou de 44 para 51%, segundo a Organização das Nações Unidas para as Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Isso foi apontado pelo estudo “Eles nos envenenam” do Center for Reproductive Rights.

Na América Latina, a conexão entre o uso de agrotóxicos e a extinção de espécies também é conhecida há anos, não apenas desde o relatório da Plataforma Intergovernamental de Ciência-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) sobre polinizadores, serviços ecossistêmicos e produção de alimentos em 2016. O uso de agrotóxicos sintéticos tem sido associado ao declínio das populações de insetos, aves e outros animais benéficos na América Latina há décadas.

O novo estudo francês, publicado em 14 de janeiro na revista Proceedings of the Royal Society B, compara dados sobre vendas de agrotóxicos com observações de espécies comuns de aves na França. Para 84% das espécies estudadas, quanto mais pesticidas eram vendidos, menor a população. O estudo demonstra o papel direto e indireto dos pesticidas no declínio da biodiversidade, como destacado pelo jornal Le Monde e por agências europeias.

Diversos estudos já mostraram que agrotóxicos podem ter efeitos prejudiciais em uma ampla variedade de espécies, incluindo abelhas, minhocas e aves, bem como na saúde humana. Já em 2021, um estudo documentou que a população de aves de campo e urbanas na França havia diminuído 30% nas últimas três décadas.

O estudo traz novas percepções sobre as causas: a análise conecta dois bancos de dados sobre a venda de agrotóxicos na França e a observação de aves comuns. Segundo a primeira autora Anne-Christine Monnet, pesquisadora do Centro de Ecologia e Ciências da Conservação do Museu Nacional de História Natural da França, a correlação é negativa para 84,4% das espécies estudadas: quanto mais agrotóxicos são vendidos, menor a abundância da espécie e de sua população. O efeito é muito forte, e muitas espécies são afetadas.

O estudo examina pela primeira vez os efeitos de 242 diferentes ingredientes ativos de agrotóxicos em toda a França. Foca em todos os tipos de aves comumente encontradas em áreas agrícolas, incluindo rouxinolos, pintassilgos e falcões. Além disso, os pesquisadores separaram o efeito direto dos agrotóxicos de outros fatores relacionados à intensificação da agricultura, como tamanho das parcelas, diversidade paisagística, sebes, tipo de cultura e uso de arado.

Os cientistas do Museu Nacional de História Natural da França e da Universidade de Poitiers utilizaram dados de 2017 do Registro Nacional de Vendas de Pesticidas por Distribuidores Autorizados por CEP.

Para confirmar que o volume de vendas refletia a poluição local, os pesquisadores compararam os dados com outro banco de dados de resíduos de agrotóxicos em águas superficiais. Eles encontraram muitas correlações positivas: quanto mais substâncias tóxicas eram aplicadas, mais resíduos eram encontrados na água.

Os dados foram cruzados com o monitoramento em tempo real de aves comuns, um programa científico que captura variações na biodiversidade na França. Das 64 espécies de aves que utilizam regularmente os habitats agrícolas estudados, 54 foram estatisticamente significativas ou quase significativamente menos comuns nas regiões onde os pesticidas eram mais vendidos. A contaminação dos campos afeta todas as espécies de aves.

De acordo com a Fundação para Pesquisa em Biodiversidade, que não participou do estudo, os resultados são muito significativos. A maioria das espécies estudadas reagiu negativamente ao aumento do uso de pesticidas. Os agrotóxicos afetam as aves tanto diretamente quando comem sementes tratadas ou insetos ou plantas contaminadas, quanto indiretamente ao reduzir as fontes de alimento disponíveis, como insetos.

O estudo, portanto, comprova descobertas da América Latina, onde os efeitos negativos do uso de agrotóxicos na saúde e no meio ambiente são há muito tempo documentados em regiões agrícolas intensivas (relatou o Amerika21).


Fonte: Amerika21

Segurança alimentar abrangente: a ofensiva dos lobbies agroquímicos para vender cada vez mais agrotóxicos

Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia apresentou sua proposta abrangente sobre segurança alimentar. Sob o pretexto de simplificação, esse texto desmantela as regras que regem a comercialização de agrotóxicos e define uma nova categoria de substâncias, supostamente mais ecológicas, denominadas “produtos de biocontrole”. Isso representa uma excelente oportunidade para o greenwashing por parte dos fabricantes de agrotóxicos e seus lobistas, que participaram ativamente da elaboração da definição mais ampla e permissiva possível de biocontrole

L'offensive de l'agrochimie pour vendre toujours plus de pesticides

Por Pollinis 

Desmantelar todas as regras que regem a comercialização de agrotóxicos para acelerar o desenvolvimento de produtos “mais ecológicos” . Por mais paradoxal que pareça, essa é a intenção declarada da Comissão Europeia ao apresentar sua proposta abrangente sobre segurança alimentar em 16 de dezembro.

Por trás dessa fachada de discurso, o texto propõe principalmente inúmeras medidas de desregulamentação com consequências catastróficas para a biodiversidade e a saúde humana : autorizações vitalícias para agrotóxicos, limitação da consideração de dados científicos recentes na avaliação dos riscos dos agrotóxicos, extensão do prazo de utilização de certos produtos após a sua proibição, priorização sistemática dos interesses econômicos em detrimento do princípio da precaução.

As corporações químicas atacam a Comissão Europeia

Este conjunto de propostas faz parte de uma agenda de simplificação regulamentar que se tornou uma obsessão para a Comissão Europeia, apresentada como uma forma de impulsionar a competitividade das empresas em todo o continente. Desde o início do seu segundo mandato, em fevereiro de 2025, Ursula von der Leyen apresentou cerca de dez propostas abrangentes. Todas elas propõem revisões à legislação europeia já adotada, particularmente no que diz respeito ao Pacto Ecológico Europeu, resultando em retrocessos sociais e ambientais significativos.

Isso representa uma grande vantagem para a indústria e seus lobistas , que veem essa nova agenda política como uma oportunidade para revogar regulamentações que poderiam prejudicar suas operações e lucros. O relatório abrangente sobre segurança alimentar não é exceção. Desde o início de 2025, a CropLife Europe – que representa os interesses dos fabricantes de agrotóxicos no continente – vem realizando inúmeras reuniões com a Comissão. Em um ano, o grupo de lobby se reuniu com os gabinetes de diversos Comissários 18 vezes, mais do que durante todo o mandato anterior da Comissão, de 2019 a 2024.1Um terço das reuniões agendadas para 2025 menciona explicitamente o projeto de simplificação de normas em sua pauta.

As empresas agroquímicas também enviaram seus próprios lobistas para pressionar a Comissão, em um ritmo muito mais acelerado do que nos anos anteriores. A Bayer, por exemplo, garantiu 34 reuniões em 2025 – em comparação com 20 durante todo o mandato anterior da Comissão (2019-2024). Destas, dez reuniões deste ano se concentraram explicitamente em questões agrícolas.2, oito mencionam a simplificação como um objetivo.

Biocontrole, um cavalo de Troia para agrotóxicos em Bruxelas

Essa intensa pressão parece ter surtido efeito, como demonstra o desmantelamento das regulamentações que regem a comercialização de agrotóxicos, proposto no projeto de lei abrangente, mas também a introdução no texto de uma nova categoria de substâncias: produtos de biocontrole . Esse conceito, cujos contornos ainda são um tanto vagos, é agora utilizado por diversos atores (cientistas, industriais, políticos, etc.) para se referir tanto a técnicas agroecológicas quanto a produtos de diferentes tipos, associados a uma imagem mais ambientalmente amigável. 

De que substâncias estamos falando exatamente? Elas realmente representam menos riscos do que os agrotóxicos? Todas essas questões essenciais permanecem sem resposta por enquanto, mas podem encontrar respostas no relatório abrangente sobre segurança alimentar, que propõe a primeira definição europeia de biocontrole. Nesse contexto de criação de uma nova categoria de produto e aproveitando-se da persistente ambiguidade legal em torno desse conceito, os grupos de pressão da indústria agroquímica estão trabalhando com a Comissão Europeia para impor sua definição ideal : a mais ampla possível, abrangendo o máximo de produtos possível.

A redação atualmente proposta pela Comissão no documento abrangente, que é muito vaga, deixa ampla margem para que a indústria a interprete em seu benefício . “Substâncias de biocontrole são definidas como: microrganismos; substâncias inorgânicas encontradas na natureza, com exceção de metais pesados ​​e seus sais; ou substâncias de origem biológica ou sintética que sejam funcionalmente idênticas e estruturalmente semelhantes a estas.”3 

Longe de permitir apenas produtos de origem natural, essa terminologia também abre as portas para substâncias “produzidas sinteticamente” em laboratório, desde que sejam “funcionalmente idênticas e estruturalmente semelhantes” a moléculas existentes na natureza. A definição, portanto, coloca em pé de igualdade práticas agroecológicas comprovadas ao longo de décadas, como o sabão preto para o controle de pulgões, e novas biotecnologias sobre as quais ainda temos pouca experiência, como os pesticidas genéticos.

Para os fabricantes, influenciar a própria definição de biocontrole tornou-se uma questão crucial. Ao explorarem a imagem supostamente mais ecológica dessas substâncias, eles exigem que os produtos dessa nova categoria se beneficiem de um quadro regulatório significativamente mais flexível para acelerar sua entrada no mercado europeu. O rótulo de biocontrole se tornaria, portanto, uma oportunidade altamente lucrativa de greenwashing para as empresas , permitindo-lhes continuar comercializando produtos potencialmente tóxicos, apresentando-os como alternativas ecológicas aos agrotóxicos. Diversas medidas no projeto de lei omnibus refletem essa abordagem. Por exemplo, o texto propõe a concessão de autorizações de comercialização temporárias para esses produtos por um período de cinco anos, mesmo antes de a União Europeia concluir sua avaliação da toxicidade de seus princípios ativos.

1Fonte: Transparência Internacional UE Dados para 2025 e 2019-2024.2A Bayer também é um grupo farmacêutico. Das 34 reuniões solicitadas à Comissão, algumas dizem respeito, portanto, a questões não agrícolas.3A tradução foi realizada pela POLLINIS; a Comissão ainda não publicou nenhuma tradução francesa do seu texto.

Uma definição de biocontrole ditada por lobistas

Diante da potencial oportunidade econômica apresentada por essa nova categoria de pesticidas, os lobistas vêm preparando o terreno para essa questão há vários anos. De acordo com documentos obtidos pela POLLINIS, a CropLife contatou a Comissão logo no início para defender sua própria definição de biocontrole , a mais ampla possível. Em 23 de setembro de 2024, a pedido do grupo de lobby, membros da Direção-Geral da Saúde da Comissão Europeia (DG Saúde)4 Eles conversaram com 13 especialistas da CropLife – metade empregados diretamente pelo grupo de lobby, os demais provenientes de empresas associadas, incluindo gigantes como Syngenta, Bayer, BASF e Corteva. Isso proporcionou ao grupo de lobby a oportunidade de compartilhar sua definição de biocontrole, bem como seus pontos de vista sobre os protocolos que deveriam ser usados ​​para avaliar os riscos desses produtos.

Um memorando, encaminhado à Direção-Geral da Saúde após esta reunião, revela a terminologia que o grupo de pressão deseja favorecer. A CropLife expressa a esperança de que a definição adotada seja “suficientemente ampla para permitir e incentivar a inovação”. Os produtos de biocontrole são descritos como substâncias ativas “derivadas da natureza, sejam elas naturais ou sintetizadas”. Para as moléculas sintetizadas em laboratório, especifica-se que elas devem ser “estruturalmente semelhantes e funcionalmente idênticas às encontradas na natureza”.5Termos muito próximos da definição de biocontrole divulgada pela Comissão em dezembro de 2025 , como parte do acordo abrangente sobre segurança alimentar.

4O atual Comissário Europeu para a Saúde, Olivér Várhelyi, é o relator do relatório abrangente sobre segurança alimentar para a Comissão Europeia.5Citação completa em inglês: “Os biopesticidas são substâncias ativas, conforme definidas pelo Regulamento (CE) n.º 1107/2009, derivadas da natureza, seja por ocorrência natural ou por síntese, desde que sejam estruturalmente semelhantes e funcionalmente idênticas às suas contrapartes naturais.”

Este memorando demonstra claramente a intenção de influenciar os debates futuros sobre o biocontrole . O corpo do e-mail contendo o documento, enviado pelo grupo de pressão em 25 de setembro de 2024, indica que se destina a membros do SCoPAFF (Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações), antes da reunião agendada para o início de outubro de 2024. Este comitê técnico opaco, que a POLLINIS já investigou , reúne representantes dos Estados-Membros da UE e desempenha um papel fundamental na tomada de decisões agrícolas da Comissão Europeia, particularmente em questões relacionadas à regulamentação de pesticidas.

A ata da reunião da SCoPAFF de outubro de 2024 também menciona a infame nota enviada pela CropLife à Comissão . ” A Comissão compartilhou uma nota da indústria na qual saudava o fato de que certas propostas de emendas se alinhavam claramente com a definição desejada de biocontrole, o que não era o objetivo da Comissão “, enfatiza a ata, antes de acrescentar: ” embora essa ideia provavelmente seja incorporada em propostas futuras “. Nesse ponto, a SCoPAFF estava certa: com a definição de biocontrole atualmente proposta pela Comissão no documento abrangente, os lobbies da indústria de pesticidas têm motivos para estar satisfeitos.

Tudo ainda pode mudar.O projeto de lei abrangente sobre segurança alimentar está apenas no início de sua jornada legislativa; ele ainda precisa ser examinado no primeiro semestre de 2026 pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia.


Fonte:  Pollinis

Mais agrotóxico, menos pássaros: estudo francês comprova efeito de venenos agrícolas na biodiversidade

Um estudo francês publicado nesta quarta-feira (14) cruza dados sobre vendas de pesticidas e monitoramento de aves comuns e revela que, nas regiões onde os produtos fitossanitários são mais usados, a abundância de aves cai significativamente. Para 84% das espécies analisadas, quanto mais pesticida vendido, menor sua população. A pesquisa evidencia o papel direto e indireto dos pesticidas no declínio da biodiversidade, destacou o jornal Le Monde e as principais agências europeias

Desde a década de 1990, cerca de um terço das populações de aves que vivem em áreas agrícolas teria desaparecido. (imagem ilustrativa) FRANCOIS NASCIMBENI / AFP

Por RFI 

Abelhas, minhocas, pássaros… Diversos estudos já demonstraram que os agrotóxicos podem causar efeitos prejudiciais em uma ampla variedade de espécies. Ainda assim, entender e medir com precisão o impacto desses produtos sobre a biodiversidade continua complexo. A pesquisa publicada nesta quarta-feira na revista Proceedings of the Royal Society B traz novos elementos: na França, a população de aves é menor nas áreas onde os pesticidas são mais comprados.

A análise que cruza duas bases de dados — sobre a comercialização de agrotóxicos na França e o acompanhamento de aves comuns — mostra o papel dos produtos fitossanitários no colapso da biodiversidade. 

“Para 84,4% das espécies analisadas, a correlação é negativa: quanto mais pesticidas vendidos, menor a abundância de espécies e população”, resume Anne‑Christine Monnet, primeira autora e pesquisadora do Centro de Ecologia e Ciências da Conservação (Museu Nacional de História Natural da França/CNRS/Sorbonne).

“O efeito é muito forte. Muitas espécies são afetadas.” Na França, a população de aves comuns do campo e de áreas urbanas caiu quase 30% nas últimas três décadas”, atestou a pesquisadora.

Diferentemente de estudos anteriores, esta pesquisa analisa os efeitos de 242 substâncias diferentes, cobrindo toda a França metropolitana, e não apenas de um ou dois pesticidas específicos. Ela se concentra em todas as espécies de aves comuns que frequentam ambientes agrícolas, e não apenas naquelas especializadas nesses habitats. Além disso, os pesquisadores tentaram separar o efeito direto dos pesticidas de outros fatores ligados à intensificação da agricultura, como o tamanho das propriedades e a diversidade da paisagem.

Rouxinóis, pintassilgos e gaviões

Para chegar a esses resultados, os cientistas do Museu Nacional de História Natural da França (MNHN) e da Universidade de Poitiers usaram dados de 2017 do Registro Nacional de Vendas de Produtos Fitossanitários por distribuidores autorizados. Essa base pública, criada em 2006 e acessível desde 2019, reúne informações sobre vendas de agrotóxicos associadas aos códigos postais dos compradores.

Para confirmar que o volume de vendas refletia a contaminação ambiental local, os pesquisadores compararam os dados com outra base sobre resíduos de pesticidas em águas superficiais. “Encontramos muitas correlações positivas”, diz Anne-Christine Monnet. “Quanto mais substâncias tóxicas, mais resíduos aparecem na água.”

Os dados foram cruzados com o monitoramento em tempo real de aves comuns, um programa de ciência que registra variações na abundância de espécies na França. Entre os 64 tipos de aves presentes em ambientes agrícolas analisados — como rouxinóis, pintassilgos e gaviões — 54 apresentaram menor abundância nas regiões onde os pesticidas eram mais vendidos, de forma estatisticamente significativa ou próxima disso. “A contaminação dos campos afeta não apenas as espécies altamente dependentes desses habitats, mas todas as que os utilizam regularmente”, explicam os pesquisadores.

“Os resultados são muito fortes, mesmo quando análises desse tipo costumam ter limitações”, observa Stanislas Rigal, pesquisador da Fundação para a Pesquisa sobre a Biodiversidade, que não participou do estudo. A maioria das espécies analisadas responde negativamente ao aumento do uso de pesticidas.

Como os agrotóxicos afetam as aves

O impacto pode ser direto, quando os pássaros ingerem sementes tratadas ou se alimentam de insetos ou plantas contaminadas. Também há efeito indireto, ao reduzir recursos disponíveis, como insetos que serviriam de alimento.

Para garantir que os efeitos observados não fossem confundidos com outros fatores da agricultura intensiva, os pesquisadores incluíram em seus modelos variáveis como tipo de cultivo, tamanho das parcelas, extensão de cercas vivas, uso de arado, entre outros. “Assim, podemos verificar se os efeitos negativos dos pesticidas estão realmente ligados ao produto, e não ao tipo de cultura, por exemplo”, explica Monnet.

Os autores destacam ainda que, embora o acesso ao registro de vendas de pesticidas represente um avanço importante para estudar seu impacto, a base poderia ser aprimorada ao relacionar as vendas com as parcelas específicas onde os produtos são aplicados.


Fonte: RFI

Soja e agrotóxicos sufocam comunidades tradicionais da Amazônia

Pesquisa documenta dificuldades respiratórias e alimentares de indígenas e quilombolas causadas pelo uso de glifosato em terras griladas no Baixo Tapajós

A foto mostra uma grande área agrícola já colhida ou preparada para plantio, com o solo exposto e restos de palha seca. Próximo à borda da plantação há uma floresta densa, com árvores altas e vegetação tropical fechada. No canto esquerdo da imagem, uma máquina agrícola vermelha, equipada com uma barra pulverizadora longa, está trabalhando no campo.Pequenos fragmentos florestais mascaram dimensão da devastação ocasionada por platações de soja no Baixo Tapajós – Foto: Bruno Kelly

Por Jean Silva, com arte de  Gustavo Radaelli, para o Jornal da USP 

Plantações de soja, agrotóxicos e grilagem de terras na Amazônia brasileira: esse é o cenário. Em meio ao vasto território, existe um mito de a região florestal estar vazia, apesar de os povos tradicionais tentarem manter suas formas de vida. Por 18 meses de estudo etnográfico, Fabio Zuker, pesquisador da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP investigou a expulsão por sufocamento no Baixo Tapajós devido ao uso de glifosato em plantações de soja de terras griladas. Os casos ilustram dificuldades respiratórias, alimentares e econômicas como formas de expulsar indígenas, quilombolas e ribeirinhos de suas terras.

O artigo intitulado Expulsion by suffocation: Soybean plantations, toxicity, and land grabbing in the Brazilian Amazon foi publicado na revista Environment and Planning E: Nature and Space.

“O sufocamento acontece de forma literal e metafórica. Literalmente, as pessoas não conseguem respirar devido à intensa aplicação de agrotóxicos. Elas se trancam em suas casas, relatando dificuldade para respirar”, conta Zuker. Em metáfora, é uma alusão à supressão da capacidade dessas comunidades manterem sua produção, seu modo de vida, manterem-se junto a esse território e às relações com outras espécies das quais dependem para viver. No trabalho, o pesquisador evidencia como um imaginário colonial-militar de vazio é produzido através de danos químicos lentos.

“A ideia é que o vazio na Amazônia é produzido, e não natural. Foi criado ao longo da história, desde a Marcha para o Oeste no governo Vargas até o Plano de Integração Nacional da ditadura militar”, contextualiza. 

No trabalho de antropologia, o pesquisador quis dar um tratamento reflexivo e crítico ao processo de expulsão por sufocamento. Por isso, encarou a “farsa” do vazio como uma categoria que permite compreender o processo de fabricação da paisagem, na qual pequenos pedaços de floresta e comunidades escondem a dimensão da devastação ambiental.

“O vazio é produzido pelas próprias atividades [violentas] que o ocupam, como o uso de agrotóxicos. Uma produção intencional desse espaço esvaziado” – Fabio Zuker

Violência e resistência

No contexto da pesquisa, a expansão do agro é colocada como uma forma de morte induzida quimicamente pelo uso de agrotóxicos no Baixo Tapajós. Em conversa com lideranças das comunidades, o pesquisador constatou também a existência de uma floresta que é quase uma maquiagem. “Pequenos trechos de floresta na beira de estrada. São as bolhas que sobram aqui e ali”, indica Zuker. 

Em diálogo com Beto, morador e trabalhador rural da região, o pesquisador chama essas bolhas de “farsa das comunidades”. “Só tem umas casinhas ali, na beira da estrada. E nada mais. Antes havia uma comunidade grande aqui. Só umas árvores ali. É tudo soja atrás”, relata o morador.

 A farsa indicada é criada pelas comunidades remanescentes e pelos fragmentos de mata que, da beira da estrada, escondem os vastos campos de soja que invadem a paisagem. De outro lado, o pesquisador destaca os processos de resistência para impedir toda essa lógica de “vazio”.

“Tem um problema grande nas ciências sociais, que é focar exclusivamente numa narrativa da violência, da destruição, uma narrativa do apagamento. O que está colocado em jogo é uma tensão, é uma força que leva para a violência, para o apagamento, para o processo de sufocamento. Por outro lado, há uma resistência constante de coletivos indígenas, quilombolas, ribeirinhos que se contrapõe a essa expulsão”, continua. Ele alega que essa é uma forma de contra plantation ao se colocarem contra a incorporação de seus territórios numa lógica de violência do sistema de produção global de grãos e proteínas vegetais.

Uma casa antiga de madeira parcialmente escondida pela vegetação densa de tábuas claras já desgastadas tem um telhado simples e uma pequena abertura frontal da porta — tomada pela sombra e por plantas que cresceram para dentro do espaço. Arbustos, cipós e árvores envolvem quase toda a fachada, cobrindo paredes e avançando pelo telhado.

No território, existem múltiplos seres, não humanos ou humanos, defendendo o território para que ali se multipliquem outras formas de vida – Foto: Bruno Kelly

Junto com os tupinambás do Baixo Tapajós, a pesquisa resgatou a ideia de um território vivo em contraposição ao vazio. E em um lugar onde coexistem múltiplos seres: não humanos que têm um papel fundamental na defesa do território e defendem junto com os humanos a integridade dele para que ali se multipliquem outras formas de vida. “Todos esses encantados, esses outros seres que compõem esse território de múltiplas formas de vida, não somem. Eles têm a possibilidade de reaparecer e voltar esse léxico. Um processo de retomadas, de mobilizações contra o avanço do agronegócio”, explica o pesquisador.

Soluções

O esforço de documentar esse fenômeno da região amazônica vem de campos diferentes do saber, que buscam evidenciar a dimensão de danos causados por agrotóxicos. “Junto com análises de ciências sociais, conseguimos demonstrar também a partir de narrativas, de histórias de vida, de casos, um padrão de violência local”, explica Zuker. Essa complementaridade é necessária devido à dificuldade de produzir conhecimento sobre os efeitos de uma substância invisível que age no longo prazo. 

“Além de ser difícil traçar os resultados por um período extenso, [a pesquisa nesse assunto] é também reprimida por conta de pessoas poderosas com muitos interesses e muita entrada na política local”, alerta. Ainda assim, ele defende que os índices de desenvolvimento humano das comunidades amazônicas devem acontecer com a floresta viva e em pé. “Nada indica que o desmatamento seja um caminho importante para que exista uma melhoria na vida dessas pessoas”, afirma. Pelo contrário, a floresta e os ecossistemas são partes fundamentais para essas populações de acordo com sua pesquisa. 

Sobre o uso de agrotóxicos, Zuker defende melhores práticas regulatórias e de fiscalização para evitar a lógica de expulsão. “Um elemento fundamental é a não comercialização no Brasil de agrotóxicos que são proibidos nos seus países de origem”, indica. Contudo, ele ressalta a importância do diálogo de diferentes setores para promoção do respeito à existência ecológica e do conhecimento local nessas e em outras regiões que são ameaçadas pela monocultura e pela mineração.

O artigo intitulado Expulsion by suffocation: Soybean plantations, toxicity, and land grabbing in the Brazilian Amazon pode ser acessado clicando aqui.

Para mais informações: fabiozuker@gmail.com, com Fabio Zuker

*Estagiário sob orientação de Tabita Said

**Estagiário sob orientação de Moisés Dorado


Fonte: Jornal da USP

Acordo EU-Mercosul: Uma declaração de falência para a União Europeia

“Parem a UE-Mercosul” – agricultores na Polônia também foram às ruas para protestar contra o acordo de livre comércio com os países sul-americanos e sua poderosa indústria agrícola.

“Parem a UE-Mercosul” – agricultores na Polônia também foram às ruas para protestar contra o acordo de livre comércio com os países sul-americanos e sua poderosa indústria agrícola. Foto: AFP/Wojtek Radwanski
Por Martin Ling para “Neues Deutschland”

A União Europeia (UE) mantém-se fiel à sua essência: abrir mercados no exterior para garantir lucros às empresas do bloco é o princípio orientador da realpolitik. As preocupações ambientais e sociais são, na melhor das hipóteses, abordadas apenas com cláusulas não vinculativas em acordos de livre comércio. O que se aplica ao acordo de livre comércio concluído com o México em 2000, que foi o primeiro tratado comercial a consagrar uma cláusula de direitos humanos, também se aplica ao acordo de livre comércio com os países sul-americanos do Mercosul: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

A UE esperava finalizar o acordo do Mercosul no ano passado, após 26 anos de negociações, mas foi impedida pela resistência da França e da Itália. O governo de direita da Itália, liderado por Giorgia Meloni, aprovou o acordo após promessas de aumento do financiamento para os agricultores da UE. Isso garantiu a maioria necessária de pelo menos 15 Estados-membros da UE, representando pelo menos 65% da população da UE. A facção do “não”, liderada pela França e incluindo Irlanda, Polônia, Hungria e Áustria, que teme principalmente que seus próprios agricultores sofram, foi, portanto, derrotada na votação.

O acordo consagrou o chamado mecanismo de contramedidas. Este instrumento permite que as partes contratantes tomem contramedidas caso novas leis de proteção dos direitos humanos e do meio ambiente impactem negativamente as concessões comerciais. Uma potencial expansão dos direitos humanos e ambientais por meio de legislação é, portanto, declarada uma barreira comercial. Não poderia ser mais claro o que importa: comércio lucrativo, se necessário, à custa do progresso em direitos humanos e ambientais. O fato de a UE não ter invocado a cláusula de direitos humanos contra o México sequer uma vez desde 2000, um país onde as forças de segurança do Estado são conhecidas por cometerem violações massivas de direitos humanos com impunidade, diz muito.

Do ponto de vista da UE, o acordo de livre comércio significa mais exportações de carros e agrotóxicos e mais importações de carne barata e matérias-primas. Ignora a necessidade do século XXI de promover uma transformação socioecológica rumo a um sistema econômico que possibilite uma vida melhor para todos, em todas as regiões. Além disso, agrava a destruição ambiental e a desigualdade social. O acordo é mais uma condenação contundente da Comissão Europeia.


Fonte: Neues Deutschland

Acordo Mercosul-UE é um pacto neocolonial que aumentará o caos ambiental e social

O anúncio de que o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia será finalmente assinado vem sendo apresentado como uma espécie de salvação da lavoura. Entre apoiadores do governo Lula, o tratado é celebrado como mais uma demonstração da suposta habilidade negociadora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no cenário internacional.

No entanto, uma leitura minimamente atenta das análises já produzidas sobre o acordo revela um quadro bem menos alentador. Os termos de troca embutidos no tratado colocam o Mercosul em posição claramente desfavorável. Enquanto a União Europeia amplia o acesso de seus produtos industrializados aos mercados sul-americanos, os países do Mercosul entram com aquilo que historicamente lhes foi reservado: commodities agrícolas e minerais. Não é preciso grande sofisticação em economia política para perceber que os principais beneficiários do acordo serão as economias industriais europeias, com destaque para a Alemanha.

Além disso, o aprofundamento da especialização primário-exportadora tende a intensificar pressões já elevadas sobre florestas, territórios e povos tradicionais. A expansão da fronteira agromineral, estimulada pela lógica do acordo, deve agravar conflitos socioambientais existentes e elevar o grau de violência em regiões já marcadas por disputas fundiárias e degradação ambiental. E tome mais desmatamento e degradação florestal!

Outro efeito colateral pouco discutido diz respeito ao uso de agrotóxicos. O acordo cria condições favoráveis para a ampliação do consumo de substâncias altamente tóxicas, muitas das quais já foram banidas na própria União Europeia. Não por acaso, grandes corporações químicas europeias — como Bayer e BASF — figuram entre as mais interessadas na ratificação do tratado. É no Mercosul que esses produtos encontram mercados permissivos, capazes de absorver aquilo que os países-sede dessas empresas não permitem mais utilizar. A assinatura do acordo tende, portanto, a consolidar espaços desregulados para a comercialização de venenos rejeitados no Norte global.

Em síntese, o acordo Mercosul–União Europeia sacramenta um processo de recolonização econômica. Ele reatualiza o velho modelo fazenda-indústria que sustentou o enriquecimento europeu no século XIX, ao mesmo tempo em que manteve suas colônias sul-americanas presas a relações de troca profundamente desiguais. A diferença é que, agora, esse arranjo será vendido como triunfo do multilateralismo e da diplomacia moderna — quando, na essência, se trata de um pacote nitidamente neocolonial.

Uso de agrotóxicos proibidos causa proibição de importação de frutas produzidas no Mercosul pela França

FRANCE TO SUSPEND IMPORTS OF CERTAIN FRUITS OVER BANNED PESTICIDE RESIDUES

A França suspenderá a importação de frutas que contenham resíduos de pesticidas proibidos na UE , anunciou no domingo o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu  

Por Diário do Centro do Mundo

A França anunciou a suspensão da importação de frutas provenientes do Mercosul que contenham resíduos de agrotóxicos proibidos na União Europeia. A decisão foi comunicada no início da noite deste domingo (4) pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu e tende a acirrar as negociações do acordo comercial entre os dois blocos.

Em “carta aberta aos agricultores da França”, Lecornu afirmou: “Portarias serão adotadas pelo governo esta semana para suspender a importação de gêneros alimentícios provenientes de países da América do Sul, como abacates e maçãs, contendo resíduos de cinco substâncias, no entanto, já proibidas na Europa”.

Em publicação na rede X, ele citou mancozebe, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim, além de indicar impacto sobre abacate, maçã, manga, goiaba, cítricos e uvas.

Segundo o premiê, “os controles sobre as importações serão maciçamente reforçados, nas fronteiras e dentro do território [francês]”. Ele acrescentou: “Acabo de endurecer as instruções a esse respeito. Cabe, doravante, à União Europeia amplificar rapidamente essas ações na escala de todo o mercado europeu”.

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Efeito nas negociações com o Mercosul

A França é a principal opositora do acordo de redução tarifária com o Mercosul, sob pressão de agricultores locais. Em dezembro, com apoio da Itália, Paris conseguiu adiar a assinatura final para janeiro, alegando a necessidade de salvaguardas e controles sanitários.

O adiamento irritou o presidente Lula (PT), que concordou em postergar a cerimônia após conversa com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni.

O Brasil sinaliza que pode abandonar as negociações se houver nova postergação, enquanto a França atua para barrar a entrada em vigor do acordo, que ainda depende do Parlamento Europeu.


Fonte: Diário do Centro do Mundo