Balanço anual do Blog do Pedlowski e as perspectivas para 2026

Este espaço existe há 15 anos e, desde então, o Blog do Pedlowski busca oferecer informações sobre uma gama de temas para os quais inexiste cobertura abrangente nas mídias tradicionais. Entre os tópicos abordados estão as questões relacionadas ao colapso climático, ao processo de alteração da cobertura vegetal na Amazônia, aos impactos do uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos e às transformações que têm afetado a capacidade de se produzir ciência de qualidade.

O blog também tem servido como espaço de disseminação de informações sobre os impactos de grandes empreendimentos portuários sobre o ambiente e sobre as populações que vivem nas áreas escolhidas para sua implantação. Um dos focos permanentes de atenção — e uma das razões centrais para a criação do Blog do Pedlowski — é o Porto do Açu. Implantado em terras que outrora abrigavam formas singulares de relação entre sociedade e natureza, esse empreendimento tem produzido alterações profundas. No momento, o impacto mais visível é a destruição associada ao avanço da erosão na Praia do Açu.

Posso adiantar que todos esses temas continuarão a ser tratados em 2026. Apesar das pressões que se buscam impor para que o Blog do Pedlowski deixe de existir, sigo convicto de que este espaço mantém sua relevância e cumpre plenamente o propósito para o qual foi criado.

Aproveito para agradecer aos milhares de leitores espalhados por diferentes regiões do mundo, cuja atenção e acompanhamento têm garantido ao Blog do Pedlowski a visibilidade necessária para a continuidade de seu trabalho. Agradeço ainda os colaboradores do blog que enriqueceram este espaço com suas ideias e informações, tornando-o mais plural e abrangente.

Ao longo de seus 15 anos de existência, o Blog do Pedlowski se consolidou como um espaço crítico e independente de produção e circulação de informações sobre temas socioambientais negligenciados pela grande mídia. Ao articular ciência, política e território, o blog reafirma seu compromisso com a denúncia dos impactos de modelos predatórios do Capitalismo, com a defesa das populações afetadas e com a valorização do conhecimento científico como ferramenta essencial para a compreensão e a transformação da realidade.

O colapso climático e o fortalecimento da ordem agroquímica-mineral apontam para um 2026 desafiador

Foto: Licia Rubstein

Por Marcos Pedlowski para “Nova Democracia”

Os últimos meses têm sido marcados por uma sucessão de eventos meteorológicos extremos em diferentes partes do planeta. No Brasil, o tornado que destruiu grande parte da cidade de Rio Bonito do Iguaçu no Paraná se transformou em um símbolo eloquente da materialização dos cenários mais críticos anunciados pela ciência climática. Estamos, gostemos ou não, diante da confirmação empírica das piores projeções. O que chama atenção, entretanto, não é apenas a gravidade dos acontecimentos, mas o fato de que essa evidência crescente não tem sido acompanhada por decisões políticas à altura do desafio. Ao contrário, seguimos sem qualquer estratégia consistente de adaptação, mesmo diante da aceleração inequívoca das temperaturas globais e da frequência acelerada de eventos meteorológicos extremos..

Entretanto, a indisposição de governos e corporações capitalistas em promover o faseamento dos combustíveis fósseis não pode ser atribuída à ignorância ou à incerteza científica. Como já apontava o geógrafo francês Yves Lacoste, o conhecimento aprofundado da realidade está concentrado nos grandes Estados e nos centros de poder que efetivamente tomam decisões estratégicas. Assim, o que se observa, portanto, não é um erro de avaliação, mas escolhas deliberadas. As decisões que aceleram o colapso climático, frequentemente apresentadas como irracionais ou contraditórias, obedecem a uma lógica fria e instrumental: preservar a ordem capitalista existente, ainda que isso implique o sacrifício de bilhões de pessoas e a deterioração irreversível das bases ecológicas da vida.

Além disso, é preciso rejeitar a narrativa enganosa de que o colapso climático afetará a todos de maneira equivalente. Ele será profundamente desigual, tanto do ponto de vista geográfico quanto social. As regiões tropicais experimentarão impactos mais severos, e as populações pobres arcarão com os custos mais elevados de um planeta mais quente e mais seco. Essa assimetria ajuda a explicar por que os países centrais do capitalismo combinam políticas cada vez mais rígidas de fechamento de fronteiras com a intensificação da pilhagem de recursos naturais nos países periféricos. Trata-se da atualização da velha ordem colonial sob novas condições climáticas, destinada a preservar a troca desigual. Diante desse cenário, qualquer discurso sobre solidariedade internacional soa vazio quando confrontado com as práticas concretas que estruturam o sistema de trocas globais, incluindo formas explícitas de espoliação.

No entanto, essa ausência de solidariedade não se limita às relações entre Estados nacionais. No Brasil, os acontecimentos de 2025 evidenciam que as diferentes frações da burguesia nacional também optaram por acelerar mecanismos de exploração que aprofundam o colapso climático. Essa escolha se expressa de maneira cristalina nas decisões recentes do Congresso Nacional na área ambiental. A aprovação do chamado PL da Devastação representa um marco nesse processo, ao institucionalizar a destruição ambiental e reforçar a condição neocolonial do país. Quando articulada à tese do Marco Temporal, igualmente aprovada, revela-se um compromisso inequívoco com os interesses do latifúndio agroexportador, para o qual a transformação do Brasil em uma zona de sacrifício ambiental não constitui problema, mas estratégia.

Essa lógica foi reforçada pela decisão majoritária do Supremo Tribunal Federal (STF) de manter as isenções fiscais e tributárias bilionárias concedidas aos fabricantes de agrotóxicos. A ratificação de benefícios imorais para os fabricantes de agrotóxicos proibidos nos países que sediam as empresas fabricantes, em razão de sua elevada toxicidade, ultrapassa em muito uma controvérsia fiscal. Ao preservar esses incentivos, o STF legitima a consolidação do Brasil como área de sacrifício ambiental e sanitário, aprofundando sua inserção subordinada na economia global.  Esta é uma escolha política, ainda que travestida de decisão técnica ou jurídica.

Ao mesmo tempo, enquanto a ciência alerta para as múltiplas interações entre os padrões de produção capitalista e a crise climática, o governo federal insiste em aprofundar relações comerciais de caráter neocolonial com a União Europeia. O acordo Mercosul–UE é exemplar nesse sentido, ao projetar consequências sociais e ambientais dramáticas, entre elas o aumento do fluxo Norte–Sul de agrotóxicos altamente perigosos. Além dos impactos diretos sobre a saúde humana e os ecossistemas, esses produtos contribuem para a ampliação das emissões de gases de efeito estufa, agravando exatamente a crise que as forças do negacionismo sutil dizem querer mitigar.

Diante desse conjunto de elementos, é forçoso concluir que a disputa eleitoral de 2026 que ocorrerá no Brasil tende a se configurar como um simulacro. As forças que controlam o sistema político-partidário brasileiro compartilham, em linhas gerais, o compromisso com a ordem agroquímica-mineral que define a inserção do país na economia mundial. A crise climática, nesse contexto, não aparece como um desvio inesperado, mas como o resultado lógico de escolhas políticas, econômicas e institucionais reiteradas ao longo do tempo. Não se trata de falta de informação ou de alternativas técnicas, mas de uma aposta consciente na intensificação da exploração ambiental e social. 

Romper esse ciclo de destruição programada e nos preparar para o necessário processo de adaptação exigirá mais do que ajustes marginais ou pactos eleitorais: requer o enfrentamento direto dos fundamentos do modelo vigente e da lógica de poder que o sustenta — algo que só forças dispostas a efetivamente romper com o status quo capitalista poderão realizar.


Fonte: Nova Democracia

Não é notícia velha: Brasil bate novo recorde de autorizações de agrotóxicos em 2025

Leonardo Fernandes para “Brasil de Fato”  

Parece notícia requentada, mas não é. Em 2025, o Brasil bateu um novo recorde na liberação de agrotóxicos para uso agrícola. A apuração exclusiva do Brasil de Fato mostra que foram 725 novos produtos liberados de fevereiro ao início de dezembro deste ano, o que representou um aumento de quase 10% em relação a 2024, quando o país já havia batido o recorde de liberação até aquele momento, com o ingresso de 663 novos produtos no mercado brasileiro.

Jaqueline Andrade, assessora jurídica da organização Terra de Direitos, lembra que o mercado de agrotóxicos no Brasil movimenta bilhões de reais com a colaboração do Estado, enquanto a população amarga as duras consequências dessa política.

“Isso significa que a gente tem mais água contaminada, a gente tem mais alimento contaminado e a gente tem mais pessoas diretamente intoxicadas, seja de forma aguda ou de forma crônica pelos agrotóxicos”, pontua Andrade.

“Nosso país é uma verdadeira lixeira química, nosso país está envenenado. E todas as estruturas estão caminhando em prol do agronegócio, seja em torno de subsídio, seja em torno de lei, seja em torno da permissividade que o governo dá para arrecadação bilionária dessas empresas no ramo dos agrotóxicos, em detrimento do ônus sofrido por toda a sociedade brasileira e dos impactos que isso tem causado”, afirma Andrade, que atribui esse alto volume de liberações à aprovação da Lei 14.785/2023, conhecida como o pacote do veneno”, que flexibilizou as normas e enfraqueceu o papel da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), no procedimento para o registro dos venenos.

Diante do empoderamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) promovido pela lei, Jakeline Pivato, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, considera que o Mapa se tornou um “cartório de venenos”.

“O aumento contínuo nos registros de agrotóxicos no Brasil mostra que o Mapa virou um verdadeiro cartório de venenos. Basta um carimbo, e está aprovado. É impensável que estes agrotóxicos estejam sendo submetidos de fato aos estudos necessários para garantir a sua segurança. Se estivéssemos tratando de novas substâncias, menos tóxicas e mais eficientes, seria um esforço louvável; porém, o que vemos são novos registros de velhas moléculas, inclusive de glifosato e atrazina, já comprovadamente cancerígenos de acordo com a Organização Mundial da Saúde”, aponta Pivato.

Mas não era para reduzir?

O novo recorde ocorre no mesmo ano em que foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que estabelece diretrizes para políticas públicas na direção de reduzir o uso dessas substâncias químicas tóxicas na agricultura brasileira, o que despertou questionamentos das organizações da sociedade civil.

“O que a gente questiona é: qual é o compromisso do governo brasileiro na redução no uso de agrotóxicos que deveria ser institucionalizada pelo Pronara, que inclusive está sob ameaça do Congresso Nacional de ser revogado”, questiona Andrade, em referência à aprovação, no final de novembro deste ano, na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 443/2025, de autoria do deputado federal Rodolfo Nogueira (PL/MS), que busca sustar o decreto presidencial de criação do Pronara.

Por outro lado, Pivato lembra que o programa foi construído com a participação dos movimentos e organizações sociais, que trabalharam pela assinatura do decreto em julho passado, e cobra sua implementação. “É urgente que o Pronara comece a funcionar de fato, e que possa colocar um freio nesta festa do agronegócio”, defende.

Brasil: lixão tóxico do mundo

Entre os dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil, sete são proibidos em outros países por comprovada relação com doenças graves, como distúrbios neurológicos, má-formação fetal, abortos espontâneos e vários tipos de câncer.

Entre os mais utilizados, está a atrazina, herbicida amplamente usado em plantações de cana-de-açúcar, soja e milho, que agora é objeto de uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS), que busca a proibição de seu uso e a reavaliação imediata pelos órgãos de controle.

A ação foi movida a partir de estudos que comprovaram a contaminação por atrazina em dois rios importantes que cortam o Mato Grosso do Sul: o rio Dourados e o rio Paraguai. A substância foi identificada em águas superficiais, de chuva e, inclusive, nas torneiras de comunidades ribeirinhas e indígenas.

Procurado pelo Brasil de Fato para comentar os dados recentes de liberação de agrotóxicos, o procurador federal Marco Antonio Delfino, autor da ação no Mato Grosso do Sul, alertou para o fato de que grande parte dos produtos liberados são genéricos, sobre os quais há pouca fiscalização.

“A produção de genéricos não vem acompanhada de um incremento no processo de fiscalização. Tanto dos produtos produzidos quanto dos insumos utilizados”, afirma o procurador, fazendo referência em seguida ao famoso “Agente Laranja”, substância química utilizada pelo exército dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã (1964-1975) e posteriormente aplicada como herbicida para uso agrícola.

“É importante recordar que o Agente Laranja, o principal efeito dele não foi o efeito da junção de dois agrotóxicos, mas justamente os resíduos tóxicos advindos do processo de fabricação. Então, uma liberação massiva de genéricos desacompanhada de uma fiscalização presente pelo Estado brasileiro é muito provavelmente um indício de muitos agrotóxicos com um alto nível de resíduos tóxicos, que vão causar danos tanto à saúde quanto ao meio ambiente”, comenta o procurador.

O Brasil de Fato entrou em contato com o Ministério da Agricultura e Pecuária, solicitando a comparação dos dados da pesquisa com os computados pelo ministério, além de uma posição da pasta em relação ao recorde de liberações de agrotóxicos em 2025. O MAPA apenas confirmou o recebimento da demanda, informando que foi encaminhada à área responsável, e que daria retorno assim que possível. No entanto, a resposta não foi recebida até o momento desta publicação. As informações serão agregadas à matéria tão logo sejam recebidas.


Fonte: Brasil de Fato

Agrotóxicos utilizados no Brasil comprometem a sobrevivência e capacidade de voo de abelhas, mostra estudo 

Abelha é fundamental na polinização de diversas culturas; estudo avaliou em laboratório efeito dos inseticidas nos insetos

Agência BORI

Um estudo desenvolvido na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), em condições de laboratório, revela que a exposição das abelhas africanizadas aos inseticidas clorantraniliprole e ciantraniliprole reduz a sobrevivência e prejudica a capacidade de voo, fator essencial para atividades como coleta de néctar, polinização e retorno à colmeia.  

Os resultados serão detalhados no artigo “Survival and flight ability of Apis mellifera after exposure to anthranilic diamide insecticides”, publicado no Brazilian Journal of Biology. O trabalho, apoiado pela Capes (Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), é resultado de uma pesquisa de mestrado da UFCG e foi orientado por Ewerton Marinho da Costa, engenheiro agrônomo, doutor em fitotecnia e docente da instituição.

Segundo o pesquisador, a ideia foi responder a uma demanda crescente dos próprios agricultores. “A principal motivação foi gerar informações para auxiliar na conservação das abelhas em áreas agrícolas. Essa é uma demanda dos produtores, que precisam de subsídios em relação aos efeitos de inseticidas sobre as abelhas para adoção de estratégias mitigadoras de risco”, afirma Costa.

A pesquisa comparou a mortalidade e as implicações motoras em abelhas expostas de duas maneiras: por pulverização direta e pela ingestão de dieta contaminada. As análises foram realizadas em laboratório. Os resultados mostraram baixa mortalidade para ambos os inseticidas, mas com diferenças importantes entre os modos de exposição. “Observamos que a exposição direta foi mais prejudicial às abelhas. Dentre os dois inseticidas, o ciantraniliprole causou os maiores percentuais de mortalidade”, relata o professor.

Além da sobrevivência, a equipe avaliou a capacidade de voo das abelhas, essencial para a polinização e para a manutenção da colônia. Costa enfatiza que impactos subletais podem comprometer todo o ciclo de produção agrícola. “A capacidade de voo das abelhas foi afetada, mesmo que de maneira sutil, após a exposição direta às gotículas da pulverização com os inseticidas”, diz. A comparação foi feita com abelhas pulverizadas com água destilada.

De acordo com o engenheiro agrônomo, estudar a capacidade de voo é crucial porque existem inseticidas que podem não proporcionar elevada mortalidade, mas podem prejudicar a mobilidade dos insetos. Qualquer prejuízo na mobilidade pode proporcionar falhas na polinização e redução drástica na obtenção de alimento. 

Os cientistas também se surpreenderam com alguns resultados. “Mesmo conhecendo o mecanismo de ação dos inseticidas, surpreendeu o fato da baixa mortalidade proporcionada em ambos os modos de exposição em comparação com o controle positivo. Outro ponto que gerou impacto foi o efeito adverso na capacidade de voo”, destaca Costa. “Os resultados serão utilizados para orientar produtores sobre formas de mitigação de riscos para abelhas em condições de campo, destacando os ingredientes ativos mais prejudiciais e aqueles que causam baixa ou praticamente nenhuma mortalidade”, diz.

Apesar dos avanços, o pesquisador reforça que é necessário avaliar os inseticidas em condições reais de campo, levando em consideração fatores ambientais como temperatura, vento e horário de aplicação.


Fonte: Agência Bori

O agro é tóxico, com STF, com tudo

A maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) acaba de dar um gordo presente de Natal aos fabricantes e grandes usuários de agrotóxicos ao julgar improcedentes as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) 5553 7755, que questionavam benefícios fiscais concedidos à comercialização de agrotóxicos.   

Com isso, como já mostrado aqui no Blog do Pedlowski, continuaremos sendo vítimas de uma combinação mortífera entre farra fiscal e envenenamento por agrotóxicos banidos em outras partes do mundo por sua alta periculosidade ambiental e para a saúde humana.

O ministro Nunes Marques, último a votar, coroou o julgamento ao destacar que “desonerações a insumos agrícolas são prática comum em outros países para garantir competitividade internacional e que o ordenamento jurídico brasileiro tem mecanismos adequados de controle dessas políticas”.  O curioso é que enquanto boa parte dos países da Europa estão não apenas restringindo, mas objetivamente diminuindo o uso de agrotóxicos, o Brasil não apenas se tornou o epicentro mundial do consumo de agrotóxicos altamente perigosos, mas também faz isso concedendo isenções mais do que generosas para empresas multicionais virem aqui para despejar substâncias que ninguém mais que usar.

Há ainda que se notar que enquanto se permite a continuidade dessa farra fiscal que gera adoecimento em massa, temos, por outro lado, o encurtamento das verbas para a saúde. Assim, enquanto se multiplicam casos de câncer e de outras doenças causadas pelo contato direto e indireto com esses venenos agrícolas, a maioria da população fica sem ter como cuidar daquilo que resulta do uso excessivo e abusivo de agrotóxicos.

Há ainda que se ressaltar que perto de 80% dos agrotóxicos utilizados no Brasil são para as monoculturas de exportação, o que beneficia os grandes latifundiários brasileiros. Esse é um tipo explícito de injustiça tributária, na medida em que o Brasil possui uma lógica tributária regressiva onde os mais pobres são os que mais pagam impostos.  Por outro lado, os latifundiários ainda possuem outras vantagens para aumentarem suas fortunas, como é o caso da Lei Kandir que os isenta de pagar o Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS) para aquilo que é exportado.

Como já escrevi em outras ocasiões, a questão do combate aos agrotóxicos deveria ser uma das pautas fundamentais para quem se dizer da esquerda no Brasil. É que não há nada mais aviltante para a classe trabalhadora do que ter que ter de suar sangue por salários miseráveis e ainda ser contaminado por venenos podersos via a ingestão de alimentos e água que estão contaminados por agrotóxicos.

Finalmente, para aqueles que depositam suas esperanças no poder moderador do STF, fica evidente com esse julgamento o erro desse tipo de aposta. É que a despeito de votações aqui e acolá, esse é um tribunal conservador e alinhado com as forças agrárias que estão hoje na raiz da destruição dos biomas florestais e da contaminação ambiental que estão transformando o Brasil em uma imensa lixeira química de agrotóxicos indesejados em outras partes do mundo.

Pesquisadores da Universidade de Cambridge identificam 168 substâncias químicas tóxicas para bactérias intestinais benéficas

Por Sustainable Pulse 

Uma triagem laboratorial em larga escala, realizada por pesquisadores da Universidade de Cambridge, identificou 168 substâncias químicas produzidas pelo homem que são tóxicas para as bactérias presentes no intestino humano saudável. Essas substâncias inibem o crescimento de bactérias intestinais consideradas vitais para a saúde. A maioria dessas substâncias, que provavelmente entram em nosso organismo por meio de alimentos, água e exposição ambiental, não era anteriormente considerada como tendo qualquer efeito sobre as bactérias.

À medida que as bactérias alteram sua função para tentar resistir aos poluentes químicos, algumas também se tornam resistentes a antibióticos como a ciprofloxacina. Se isso acontecer no intestino humano, poderá dificultar o tratamento de infecções.

A nova pesquisa, liderada pela Universidade de Cambridge, testou o efeito de 1076 contaminantes químicos em 22 espécies de bactérias intestinais em laboratório. Os produtos químicos que têm efeito tóxico sobre as bactérias intestinais incluem agrotóxicos como herbicidas, por exemplo, o glifosato , e inseticidas pulverizados em plantações, além de produtos químicos industriais usados ​​em retardantes de chama e plásticos.

O microbioma intestinal humano é composto por cerca de 4.500 tipos diferentes de bactérias, todas trabalhando para manter o bom funcionamento do nosso corpo. Quando o microbioma é desequilibrado, isso pode ter efeitos abrangentes na nossa saúde, incluindo problemas digestivos, obesidade e impactos no sistema imunológico e na saúde mental.

As avaliações padrão de segurança química não consideram o microbioma intestinal humano porque os produtos químicos são formulados para agir em alvos específicos; por exemplo, os inseticidas devem ter como alvo os insetos.

Os pesquisadores utilizaram seus dados para criar um modelo de aprendizado de máquina capaz de prever se substâncias químicas industriais – sejam elas já em uso ou em desenvolvimento – serão prejudiciais às bactérias intestinais humanas. A pesquisa, incluindo o novo modelo de aprendizado de máquina, foi  publicada na revista Nature Microbiology .

A Dra. Indra Roux, pesquisadora da Unidade de Toxicologia do MRC da Universidade de Cambridge e primeira autora do estudo, afirmou: “Descobrimos que muitos produtos químicos projetados para agir apenas em um tipo de alvo, como insetos ou fungos, também afetam as bactérias intestinais. Ficamos surpresos com a intensidade dos efeitos de alguns desses produtos químicos. Por exemplo, muitos produtos químicos industriais, como retardantes de chama e plastificantes – com os quais temos contato regular – não eram considerados como tendo qualquer efeito sobre os organismos vivos, mas têm.”

O professor Kiran Patil, da Unidade de Toxicologia do MRC da Universidade de Cambridge e autor principal do estudo, afirmou: “O verdadeiro poder deste estudo em larga escala reside no fato de agora termos os dados necessários para prever os efeitos de novos produtos químicos, com o objetivo de avançarmos para um futuro em que os novos produtos químicos sejam seguros desde a sua concepção.”

O Dr. Stephan Kamrad, da Unidade de Toxicologia do MRC da Universidade de Cambridge, que também participou do estudo, afirmou: “As avaliações de segurança de novos produtos químicos para uso humano devem garantir que eles também sejam seguros para as nossas bactérias intestinais, que podem ser expostas a esses produtos químicos através da nossa alimentação e água.”

Há pouca informação disponível sobre os efeitos diretos de substâncias químicas ambientais em nosso microbioma intestinal e, consequentemente, em nossa saúde. Os pesquisadores afirmam que é provável que nossas bactérias intestinais estejam sendo expostas regularmente às substâncias químicas testadas, mas as concentrações exatas que chegam ao intestino são desconhecidas. Estudos futuros que monitorem a exposição de todo o nosso organismo serão necessários para avaliar o risco.

Patil afirmou: “Agora que começamos a descobrir essas interações em um ambiente de laboratório, é importante começar a coletar mais dados sobre exposição química no mundo real, para ver se existem efeitos semelhantes em nossos corpos.”

Entretanto, os pesquisadores sugerem que a melhor maneira de tentar evitar a exposição a poluentes químicos é lavar as frutas e verduras antes de consumi-las e não usar agrotóxicos no jardim.


Fonte: Sustainable Pulse

Beirando o colapso: Nuvens de 2,4-D prejudicam produção de uvas, maçãs, azeitonas e hortaliças no RS

Lavouras sofrem com a deriva das pulverizações intensas sobre plantações de soja. A Justiça proibiu o agente químico, mas o governo Leite reverteu. MPF e diversos setores pedem o fim do registro do 2,4-D e derivados

Sabor, saúde e cultura: RS abastece indústria de vinhos e sucos. Foto: Fábio Ribeiro dos Santos/Embrapa

Por Cida de Oliveira* para o Blog do Pedlowski

Maior produtor brasileiro de uvas, com cerca de 90% do total nacional destinado à fabricação de sucos, vinhos e espumantes, o Rio Grande do Sul (RS) também se destaca na produção de frutas, azeite e hortaliças. Segundo a Radiografia da Agropecuária Gaúcha 2024, do governo estadual, mais de 88% da noz-pecã vem de pomares gaúchos, assim como mais de 70% dos pêssegos e 42% das maçãs brasileiras. E tem a maior área de cultivo de oliveiras, que produziu em 2023 mais de 193 mil litros de azeite.

Toda essa produção –que inclui ainda a erva-mate, fumo, mel, plantas e árvores nativas de várias espécies –vem sendo prejudicada por uma outra cultura importante. A soja, que representa 40% da produção agrícola gaúcha, com 18 milhões de toneladas na safra 2023/2024, segundo o governo. A terceira maior produção nacional, com 18,3 milhões de toneladas, colado ao Paraná, com 18,7 milhões de toneladas. O Mato Grosso é o primeiro, com 39,3 milhões de toneladas.

A área de soja mais que dobrou em 23 anos. Segundo o IBGE e a Companhia Brasileira de Abastecimento (Conab) houve um salto de 3,1 milhões de hectares em 2000 para mais de 6,6 milhões de hectares em 2023. O avanço ocorreu principalmente sobre regiões tradicionalmente voltadas à fruticultura, vitivinicultura, olericultura, olivicultura e até de pastagem no bioma Pampa.

Para dar conta, as vendas do 2,4-D também saltaram. O Ibama informa que em 2000 foram vendidas no estado 18.590 toneladas de agrotóxicos em geral. E no período de 2019 a 2023, foram 34.877 toneladas somente de 2,4-D. Em todos os anos do período, o RS ficou atrás apenas do Mato Grosso, protagonista na produção agrícola nacional, onde foram comercializadas 47.677 toneladas. E no ano com vendas mais aquecidas, 2021, foram 8.706 toneladas. Como destaca o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, esse mercado gigantesco se deve também ao uso em plantas transgênicas tolerantes ao agrotóxico. E ao aumento do número de plantas indesejáveis que criam resistência ao glifosato. Mas não é só: “Os agricultores estão percebendo o surgimento de mais plantas indesejáveis resistentes também ao herbicida 2,4-D. E por isso vão aumentando as dosagens usadas nas pulverizações. Uma combinação de novas áreas de cultivo de grãos com o aumento do uso nas áreas antigas resulta em maior consumo no total”, disse ao Blog do Pedlowski.

Parte de todo esse herbicida, porém, é desviada para bem além das lavouras alvo durante a pulverização –a chamada deriva, que está na raiz da queda da produtividade das diversas culturas que mencionamos na abertura desta reportagem. Isso porque esse desvio de gotículas e vapores pode alcançar longas distâncias, de até 40 quilômetros, atingindo plantações vizinhas ou distantes. Inclusive aquelas sensíveis ao produto. E podem também contaminar culturas orgânicas, agroecológicas, assentamentos e territórios de populações tradicionais.

Danos irreparáveis

Os danos da deriva dessas pulverizações “são irreparáveis”, afirmou ao Blog do Pedlowski Sérgio Poletto, que é presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Assalariados Rurais de Vacaria e Muitos Capões, que representa empregados de empresas da agropecuária e produtores na produção agrícola familiar.

“A toxicidade do 2,4-D danifica, impede o crescimento e causa a mortandade de inúmeras espécies vegetais da circunvizinhança e até mesmo em locais mais afastados da propriedade rural”, disse Poletto. “A gente tem perdas significativas no setor da uva, que é o maior impactado. Mas tem a questão da maçã, oliveiras, nozes pecã e as hortaliças. É toda essa conjuntura no estado, com perda significativa. Esses danos aumentando a cada ano, a cada safra aqui no RS. Existem produtores e cooperativas de vinho que estão fechando as portas; estão à beira do colapso”, disse a liderança, que percorre o estado dialogando com esses grupos e especialistas e ver de perto a situação.

Uma pesquisa recente da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) mostra que o herbicida presente na deriva, mesmo em baixa concentração, causa distúrbios fisiológicos significativos em mudas de nogueira-pecã e de oliveira. Isso leva à redução no crescimento, alteração na fotossíntese e danos celulares irreversíveis em culturas de alta imponência econômica e ecológica.

Outra pesquisa da mesma universidade constatou, após 30 dias de exposição, efeitos nefastos sobre o crescimento, na produção de compostos fenólicos e no desenvolvimento de brotações de videiras. E isso mesmo em simulação com níveis residuais e subletais de 2,4-D. Segundo a autora, “desde 2014 o plantio de novas mudas passou a ser inviabilizado, uma vez que, a partir da intensificação dos episódios de deriva de herbicidas hormonais na região, as mudas não conseguem mais se estabelecer e, em um período de até três anos, acabam morrendo”.

O Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) também vem alertando sobre problemas e queda na produtividade do azeite gaúcho. Segundo a entidade , olivicultores esperavam produzir em torno de 1 milhão de litros de azeite na safra de 2023, mas conseguiram cerca de 600 mil litros. Em 2024 foi pior: 192 mil litros. Há relatos de produtores que pensam em desistir. E quem pretende entrar no setor tem preocupações com a soja.  

Apesar dos impactos nocivos da deriva do 2,4-D serem relados há décadas, o governo do Rio Grande do Sul publicou instruções normativas (nº 05/2019, 08/2019, 09/2019, 12/2022 e 13/2022) que são ineficazes. Produtores não preenchem declarações essenciais para o monitoramento e proteção da circunvizinhança. Foram também oferecidos cursos de boas práticas para aplicação, que foram alvos de críticas. “Claro que houve os cursos de formação e qualificação em todo o estado, mas o produtor de soja não segue essas regras. Ele não vai medir as condições de vento, temperatura e umidade. Aplica quando precisa e pronto. E o pior é que ninguém fiscaliza isso”, afirmou Sergio Poletto.

Essa realidade, segundo a liderança, expõe também a urgência de medidas para proteger a saúde dos trabalhadores expostos às pulverizações. “São eles que aplicam o veneno, que estão diretamente expostos à deriva, muitas vezes sem nenhum equipamento de proteção individual”, ressaltou. E lembrou que há estudos sobre o potencial da substância de causar problemas hormonais e reprodutivos, diversos tipos de câncer, linfoma não-Hodgkin, alterações genéticas e malformações congênitas. Segundo relatórios da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o 2,4-D pode ser categorizado como tóxico ao DNA das células, ao sistema reprodutivo e neurológico, além de desregulador do sistema endócrino. O agente ativo, aliás, é proibido na Dinamarca, Suécia e Noruega, e em alguns estados do Canadá e províncias da África do Sul.

Veneno chegou a ser proibido

No início de setembro, a Justiça concedeu limiar à ação civil pública movida pela Associação dos Vitivinicultores da Campanha Gaúcha e Associação Gaúcha de Produtores de Maçã e concedeu liminarmente a proibição do uso e comercialização do herbicida no estado. E determinou que o estado instale um sistema seguro de monitoramento e fiscalização e que apresente, em 120 dias, projeto de sistema de monitoramento e a delimitação das zonas de exclusão. Mas o governo de Eduardo Leite (PSD) recorreu. Alegou prejuízos econômicos e administrativos aos produtores de grãos que já compraram insumos para o início da safra 2025/2026. A Justiça acatou e derrubou a proibição, torando-se alvo de críticas e repúdio de diversas instituições. A ação segue em análise.

Em atenção à Justica, o governo anunciou no final de novembro que criaria, por decreto, zonas de exclusão para o uso do herbicida. E que, de início, seriam contempladas regiões na Fronteira Oeste, o Pampa e o entorno de Jaguari, as principais produtora de oliveiras. Mas há críticas. “Essas zonas de exclusão divulgadas não resolvem a raiz do problema, que é a deriva do herbicida, que continuam. Dependendo do vento, da umidade, do calor, pode chegar a 30, 40 quilômetros do ponto de aplicação. E até mais. Então se criam áreas de exclusão bem menores que o alcance da deriva, o que não vai resolver o problema dos produtores de orgânicos”, disse Poletto.

Na mesma época, o Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos divulgou nota em defesa da imediata suspensão da comercialização e uso do 2,4-D, do fim do registro da substância e seus derivados no país, políticas públicas de incentivo à agroecologia e o fortalecimento da fiscalização e do monitoramento de resíduos de agrotóxicos em alimentos e no meio ambiente, incluindo o 2,4-D e seus derivados. O Fórum é um espaço que reúne mais de 70 instituições, como órgãos públicos, conselhos, sociedade civil, sindicatos e universidades.

Em entrevista ao Blog do Pedlowski, a procuradora da República Ana Paula Carvalho de Medeiros, coordenadora adjunta do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (FGCIA), defendeu que o Estado tome medidas que aumentem a proteção à saúde e meio ambiente, como é de sua competência. “E não o contrário”, disse, referindo-se ao recurso do governo Leite contra a proibição. Ela citou o exemplo do governo do Ceará, que em 2019 proibiu a pulverização aérea de agrotóxicos em todo o estado. “A constitucionalidade da lei foi questionada, mas confirmada pelo Supremo Tribunal Federal em 2023”, lembrou. Uma manobra, no entanto, conseguiu autorizar o uso de drones no lugar de aviões agrícolas.

Ela lembrou que uma iniciativa legislativa no estado para proibir o 2,4-D foi apresentada em 2109 (Projeto de Lei 214/19), com apoio do Fórum. Apesar da importância, não prosperou e, conforme o Blog do Pedlowski apurou, se encontra atualmente arquivado.

O fórum gaúcho também é contrário aos incentivos tributários à indústria dos agrotóxicos. Levantamento de um grupo de pesquisa em justiça ambiental, alimentos, saberes e sustentabilidade da Universidade do Vale do Taquari (RS), calculou a renúncia de todos os estados e o Distrito Federal 2017. E atualizou os valores para 2023, com base no IPCA. O RS abriu mão de R$ 973,7 milhões em 2023 referente ao Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). É como se tivesse pagando para as indústrias causarem danos à saúde e meio ambiente.


*Cida de Oliveira é jornalista e colaboradora do Blog do Pedlowski

Dirty Dozen: Um coquetel de agrotóxicos contamina a mesa dos britânicos

A PAN UK está pedindo ao Governo Britânico que repense sua nova estratégia de redução de pesticidas, que agora cobre apenas culturas como grãos

Download the Dirty Dozen shopping list

Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Milhões de compradores no Reino Unido adquirem alimentos básicos do dia a dia, incluindo pão, frutas, vegetais, toda semana, confiando que são seguros para consumo.

Mas análises e estudos recentes sugerem que muitos desses produtos contêm múltiplos resíduos de agrotóxicos cujos efeitos a longo prazo na saúde humana permanecem pouco compreendidos.

LEIA: O relatório Dirty Dozen.

De acordo com uma nova análise da Pesticide Action Network UK (PAN UK), três quartos das frutas e um quarto dos vegetais testados pelo governo britânico contêm um coquetel de agrotóxicos.

Produtos químicos

Os cientistas detectaram 123 agrotóxicos diferentes em apenas 17 tipos diferentes de produtos examinados. Entre eles estão substâncias químicas ligadas ao câncer, e outras conhecidas por desestabilizar os hormônios humanos, os sistemas que moldam a fertilidade e o desenvolvimento saudável.

As uvas surgiram como um dos alimentos mais contaminados, com uma única amostra contendo resíduos de 16 agrotóxicos diferentes.

Os consumidores frequentemente ouvem dizer que resíduos químicos permanecem “dentro dos limites seguros”. Os reguladores afirmam que permanecer abaixo dos níveis máximos de resíduos (MRLs) é considerado seguro.

As regras foram criadas em torno de produtos químicos isolados, assumindo que cada um provavelmente não causaria danos se aplicado corretamente – mesmo que raramente comamos apenas um.

Muitos cientistas e ativistas argumentam que esse sistema não leva em conta os efeitos combinados de múltiplos produtos químicos tóxicos consumidos ao longo dos anos, ou mesmo décadas.

Coquetel

Nick Mole, que liderou a análise para a PAN UK, alerta que esse ponto cego na regulamentação nos deixa perigosamente expostos.

“Os limites de segurança são definidos para um agrotóxico por vez, ignorando completamente o fato de que é muito comum a comida conter múltiplos produtos químicos.

“A verdade é que sabemos muito pouco sobre como esses produtos químicos interagem entre si, ou o que essa exposição a centenas de agrotóxicos diferentes está fazendo com nossa saúde a longo prazo.

“Sabemos que agrotóxicos podem se tornar mais tóxicos quando combinados, um fenômeno conhecido comoefeito coquetel.”

Ele concluiu: “Dado o quão alto é o risco, o governo deveria fazer tudo o que puder para eliminar agrotóxicos dos nossos alimentos.”

Toxina

Uma nova lista de ‘dúzia suja’ revela os produtos com maior probabilidade de conter múltiplos produtos químicos. Toranja vem primeiro, seguida pelas uvas e limas. Cada um deles aparece regularmente em promoções de supermercados celebrando frescor e bem-estar – mas por trás do marketing, a contaminação é generalizada.

A PAN UK analisou os resultados dos testes para descobrir quais Agrotóxicos Altamente Perigosos (HHPs) apareceram mais em nossas frutas e vegetais.

Estamos consumindo justamente os produtos químicos considerados perigosos demais para serem pulverizados aqui em nossas fazendas. 

Dois fungicidas lideraram a lista: imazalil e tiabendazol. Eles foram encontrados em cerca de 9% das amostras, principalmente em frutas como bananas, toranja e melões.

Eles são usados para impedir o crescimento de mofo durante o armazenamento e transporte, mas há sérias preocupações quanto à sua segurança. Ambos são suspeitos de prejudicar hormônios e podem até estar ligados ao câncer.

Até mesmo a comida da qual dependemos mais do que de qualquer outra, nosso pão diário, é afetada. Os testes do governo descobriram que quase todos os pães continham clormequat, uma toxina para o desenvolvimento que os cientistas alertam que pode prejudicar nossos bebês e crianças.

Fazendas

Mais de 25% das amostras de pão continha glifosato, o herbicida mais utilizado no Reino Unido, repetidamente associado a cânceres e outras doenças crônicas.

Quase 50% do pão testado continha vários produtos químicos. Até mesmo a torrada da nação se tornou fonte de exposição química.

Embora os órgãos reguladores argumentem que os níveis de exposição detectados no pão estão bem abaixo dos limiares considerados perigosos, a ausência de estudos abrangentes sobre toxicidade da mistura faz com que a incerteza permaneça.

A exposição crônica e de baixa dose ao longo de décadas, essencialmente uma vida inteira de consumo diário, não foi estudada a fundo.

Um detalhe particularmente preocupante está mais escondido nos dados: quase um terço dos pesticidas detectados não são aprovados para uso em fazendas britânicas.

Trading

Culturas cultivadas no exterior usando produtos químicos proibidos no Reino Unido ainda podem ser importadas e vendidas nas prateleiras britânicas. Os próprios órgãos consultivos do governo alertaram que isso prejudica injustamente os agricultores locais que trabalham sob regras mais rígidas e, pior ainda, expõe os consumidores a riscos que os reguladores já reconhecem serem grandes demais.

Estamos consumindo justamente os produtos químicos considerados perigosos demais para serem pulverizados aqui em nossas fazendas.

A Grã-Bretanha corre o risco de importar produtos contendo altos níveis de pesticidas, incluindo Agrotóxicos Altamente Perigosos (HHPs) já proibidos no país. Por exemplo, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e metade deles são HHPs.

Ainda assim, o ministro britânico do comércio, Sir Chris Bryant, que se descreve como um “latinófilo apaixonado”, disse ao Politico que o acordo Reino Unido-Mercosul (bloco comercial sul-americano incluindo Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia) é uma escolha óbvia.

Bryant comentou: “Tive conversas muito positivas na Argentina e com o Brasil, mas ainda não tive conversas com o Uruguai e o Paraguai.”

Arável

A PAN UK está pedindo ao Governo Britânico que repense sua nova estratégia de redução de agrotóxicos, que agora cobre apenas culturas como grãos.

Argumenta que frutas e vegetais – os alimentos que nós e nossos filhos mais comemos, e onde os resíduos químicos costumam ser mais altos – devem ser incluídos se o plano quiser realmente proteger as pessoas e o meio ambiente.

A organização também está pedindo apoio para ajudar os agricultores a fazer a transição para métodos mais seguros e para eliminar e banir os HHPs conhecidos por prejudicar a saúde humana.

Mole enfatiza que o sistema atual não pode realisticamente nos proteger da exposição.

Ele disse: “Agrotóxicos aparecem em milhões de combinações diferentes e concentrações variadas em nossos alimentos, então é simplesmente impossível projetar um sistema sofisticado o suficiente para nos proteger desses coquetéis químicos. A única solução é reduzir significativamente nosso uso geral de pesticidas.

“Este ano, o governo introduziu uma meta para reduzir agrotóxicos no setor arável. Mas esses dados mais recentes dos testes revelam que – pelo bem da nossa saúde – precisamos urgentemente expandir a meta para abranger também frutas e vegetais.”

Radical

Isso não é uma preocupação ambiental distante; É uma questão de saúde pública que estamos em nossas agendas.

A maioria das famílias não tem o luxo de encher suas cestas com alternativas orgânicas. Os pais não deveriam precisar analisar planilhas de substâncias químicas ao fazer as compras semanais.

E os agricultores frequentemente dizem que não têm realmente escolha – o sistema os pressiona a usar produtos químicos, ao mesmo tempo em que dificulta que ganhem a vida de forma justa e se mantenham competitivos.

A comida deve nutrir, não prejudicar nosso corpo. Querer comida que não venha acompanhada de produtos químicos não deve ser visto como radical, é uma expectativa básica de que o que alimentamos nossas famílias não as prejudicará, e que as pessoas que cultivam também não corram risco.


Fonte: The Ecologist

Deserto Verde e a rearticulação dos defensores da monocultura do eucalipto no território fluminense

Monocultura de eucalipto em expansão na região de Morro do Coco, norte do município de Campos dos Goytacazes 

Por Rede Alerta contra Desertos Verdes (RADV)

A retomada do debate em torno da monocultura do eucalipto no estado do Rio de Janeiro, capitaneada por grupos empresariais, setores do governo Claudio Castro (PL) e representantes de órgãos federais, exige uma reflexão crítica sobre os rumos da política agrária fluminense e seus possíveis impactos socioambientais.

O Fórum Florestal Fluminense (FFF), criado em 2008, vem se consolidando como um espaço estratégico de articulação entre representantes do setor industrial, governo do estado, de associações de classe e de órgãos de pesquisa federais e estaduais. Sua atuação recente, entretanto, revela a retomada de antigos projetos de expansão da monocultura do eucalipto — propostas já questionadas e barradas no passado pela sociedade civil organizada, em defesa dos interesses ambientais e territoriais da população fluminense.

É importante destacar que o Fórum Florestal Fluminense, surgiu a partir de uma parceria entre a Associação Profissional dos Engenheiros Florestais do Rio de Janeiro (APEFERJ), o Instituto BioAtlântica (IBio), a então empresa Aracruz Celulose (atual Suzano) e federações empresariais como a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN). Dentre os objetivos principais do Fórum Florestal Fluminense, podemos citar: discutir normas de licenciamento ambiental, fomentar políticas de incentivo à silvicultura industrial e a ampliação da cadeia produtiva florestal no estado. Desde sua origem, o Fórum defende a criação de mecanismos que facilitem a entrada, no território fluminense, de grandes empresas do setor de papel e celulose — especialmente a Suzano, já consolidada nos estados vizinhos do Espírito Santo e de São Paulo. 

Entre 2008 e 2016, o Fórum Florestal Fluminense promoveu diversos encontros em municípios como Campos dos Goytacazes, Nova Friburgo, Macaé e Rio Claro. Após um período de inatividade, o Fórum Florestal Fluminense retomou suas ações em outubro de 2021 e intensificou sua atuação em agosto de 2022, quando promoveu um evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Na ocasião, apresentou propostas para o “desenvolvimento florestal” no estado do Rio de Janeiro a representantes políticos, incluindo candidatos de “esquerda”, que pleiteavam o governo estadual e o parlamento fluminense.

Cabe destacar que, dentre os atores que compõem o Fórum, a FIRJAN tem se destacado como principal porta voz da expansão da monocultura do eucalipto no estado. A entidade vem promovendo eventos de grande visibilidade, como o seminário “Economia Verde: Firjan, Governo e Especialistas Analisam o Potencial Econômico da Silvicultura no RJ”, realizado em maio de 2023, lotando o auditório da própria FIRJAN.

Nesse encontro, lideranças empresariais como Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira (então presidente da FIRJAN) e Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo e presidente da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ) defenderam a silvicultura industrial como solução para “gerar empregos”, “recuperar áreas degradadas” e reduzir a dependência da madeira importada no estado do Rio de Janeiro — o que, segundo eles, representaria modernização e sustentabilidade econômica para o espaço agrário fluminense. Estiveram presentes também no evento, Thiago Pampolha – então Secretário de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS) e Vice-governador do Estado do Rio de Janeiro, Diogo Ladvocat – representante da Suzano, Joésio Perin – Vice-Presidente na STCP Engenharia, entre outros representantes de setores empresariais e da política fluminense. 

Entretanto, esse discurso da chamada “economia verde”, propagado por representantes do setor industrial, precisa ser questionado. Apesar de se autoproclamarem como defensores do reflorestamento e da sustentabilidade, o modelo promovido por esses grupos, baseia-se em plantações homogêneas de eucalipto — uma monocultura voltada majoritariamente à produção de celulose para exportação. Na prática, trata-se de um modelo agroexportador, altamente dependente de grandes extensões de terra, que tende a acentuar conflitos fundiários, aumentar a concentração da terra, pressionar os recursos hídricos, impactar a biodiversidade regional e aumentar a insegurança alimentar. Esses problemas e muitos outros já foram amplamente documentados em estados onde existe a monocultura do eucalipto em larga escala e a atuação da Suzano, tais como o Espírito Santo e a Bahia.

Muito embora o Rio de Janeiro ainda não possua extensas áreas de eucalipto (pouco mais de 20 mil hectares), novos empreendimentos estão sendo planejados, especialmente no Norte Fluminense. Destaca-se a atuação recente da empresa Tree Agroflorestal S.A, que projeta o plantio de cerca de 30 mil hectares de eucalipto em Campos dos Goytacazes — município historicamente marcado pela concentração fundiária, pelos conflitos no campo, pelo desmatamento e pela monocultura.

 Em recente publicação nas suas redes sociais, o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho afirmou:

“O desenvolvimento da nossa cidade segue firme! Antes, terras sem uso e improdutivas agora estão sendo arrendadas para o plantio de eucalipto. Já temos uma empresa investindo R$ 80 milhões nesse projeto, gerando mais de 100 empregos! Essa conquista só foi possível graças à alteração na lei municipal, que agora permite o plantio de eucalipto em áreas específicas, garantindo um uso sustentável e estratégico dessas terras. Seguimos trabalhando para atrair mais investimentos e transformar o agronegócio em um dos grandes motores da nossa economia!”

Mas não parou por aí: ele afirmou que esse investimento só foi possível com a aprovação da Lei Municipal nº 9.333/2023 que revogou a Lei Municipal nº 7.282/2002, facilitando o cultivo de eucalipto no município. Com isso, o intuito é, a curto prazo, viabilizar o aumento do cultivo de eucalipto no município, para que a médio prazo, possa se instalar uma empresa de celulose em Campos. Ninguém tem dúvida, pelas tentativas anteriores e pelas articulações em curso, que essa empresa seria, preferencialmente, a SUZANO.

Buscando antecipar-se às críticas sociais e ambientais decorrentes das experiências negativas da monocultura do eucalipto em outros estados, o Fórum Florestal Fluminense, com apoio da FIRJAN e de setores do governo estadual, tem defendido a atualização dos dados sobre as terras disponíveis nos chamados Distritos Florestais (Decreto 45.597/2016), que somam um total de 600 mil hectares, sendo 324 mil hectares com “potencial” para a monocultura do eucalipto.

Figura 1: Áreas dos Distritos Florestais do Estado do Rio de Janeiro

Fonte: http://www.seas.rj.gov.br

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¹ Atualmente, existem cinco Distritos Florestais no Rio de Janeiro, que abrangem municípios das regiões Norte1 (Campos dos Goytacazes, Cardoso Moreira, Italva, São Francisco do Itabapoana e Bom Jesus de Itabapoana), Norte 2 (Campos dos Goytacazes, Quissamã, Carapebus, Conceição de Macabu Santa Maria Madalena e Macaé), Noroeste (Itaperuna, Laje do Muriaé, Miracema, Santo Antônio do Pádua e São José de Ubá), Serrana (Carmo, São Sebastião do Alto e Cantagalo) e Médio Paraíba (Paraíba do Sul, Paty do Alferes, Rio das Flores, Quatis, Valença e Vassouras).

A criação dos Distritos Florestais, alinhada com a mudança na legislação, através da aprovação da Lei Estadual nº 9.972/2023 (Política Estadual de Desenvolvimento Florestal), foi festejada por defensores da monocultura do eucalipto no evento da FIRJAN, pois as facilidades criadas pela nova legislação poderão garantir viabilidade para o projeto dos Distritos Florestais e da silvicultura industrial sair do papel. 

Com a nova lei, o governo estadual fará o licenciamento prévio dos Distritos Florestais, assim cada empresa ou grande produtor que se instalar nessas regiões precisará só de uma licença autodeclaratória. Essa lei facilitadora para a introdução da monocultura do eucalipto em larga escala foi aprovada pelos deputados estaduais no apagar das luzes da legislatura anterior (2019 – 2022) e o govenador Claudio Castro, sancionou no início do seu segundo mandato (janeiro de 2023), “passando a boiada” do licenciamento ambiental e “escancarando” o território fluminense para a monocultura do eucalipto. 

Essa estratégia em curso é vendida como uma forma de ordenamento produtivo de espaços ditos “abandonados” e, com isso, busca-se neutralizar críticas sobre os impactos fundiários, produtivos e ambientais da expansão da monocultura do eucalipto no RJ. Ao mesmo tempo em que afirmam existir terras suficientes para implantar projetos industriais, omitem os riscos de novas formas de territorialização do capital, que podem se dar por meio da subordinação de pequenos produtores à lógica empresarial do setor celulósico-papeleiro, marcado inclusive, pelo endividamento dos produtores que participaram da última tentativa frustrada de exportar essa atividade industrial para a região, empreendida pela então Aracruz Celulose\Fibria e pelo pai do atual prefeito de Campos e na época govenador do estado RJ, o senhor Anthony Garotinho.  Projeto fracassado que teve continuidade nas gestões de Sérgio Cabral\Carlos Minc e do governador Pezão, deixando um passivo de dívidas, abandono e perda de terras por partes dos produtores no Norte e Noroeste Fluminense.

A atual ofensiva em defesa da monocultura do eucalipto no Rio de Janeiro, liderada por setores empresariais e legitimada pelo Fórum Florestal Fluminense, representa, portanto, um projeto de reconfiguração territorial que ameaça a diversidade ambiental e social no estado do RJ. Sob o rótulo da “sustentabilidade” e da “economia verde”, observa-se a tentativa de expansão de um modelo produtivo concentrador, com graves implicações socioambientais, que representará, novamente, sérios riscos, para termos a formação de um deserto verde no estado do Rio de Janeiro.

A Rede Alerta contra os Desertos Verdes (RADV) vem a público avisar a sociedade que a rearticulação de grupos ligados à implantação da monocultura do eucalipto em larga escala tem avançado, sobretudo na alteração de legislações, tanto no campo estadual quanto municipal, com claro intuito de facilitar a expansão da área plantada com eucalipto e a chegada de uma grande empresa de papel e celulose. Tudo isso, com apoio político e utilização de recursos públicos, inviabilizando a construção de um projeto de reforma agrária popular e agroecológico, afetando a segurança hídrica nas bacias hidrográficas do estado e a soberania territorial fluminense.

Por todas essas razões, conclamamos a sociedade civil, os movimentos sociais, pesquisadores, universidades e outros setores, a reafirmar a necessidade de um debate público amplo, com diferentes segmentos da sociedade, com a presença das populações do campo que poderão ser afetadas pela monocultura do eucalipto. É necessário reorganizar as forças progressistas no campo estadual, para que sejam capazes de denunciar os impactos dessa política e propor alternativas de uso do território que priorizem a vida, a diversidade e a justiça socioambiental. 

Uma grande oportunidade está em curso, com o Projeto de Lei nº 5516/2025, de autoria da Deputada Estadual Marina do MST, que tem por finalidade alterar a Lei Estadual nº 9.972/2023 e a Lei Estadual nº 5.067/2007, tendo como objetivo, reforçar a proteção de solos, águas e biodiversidade na Política Estadual de Desenvolvimento Florestal, estabelecendo com nitidez a diferença entre floresta e monocultura

Mais do que nunca, é hora de irmos à luta!

Rede Alerta contra Desertos Verdes (RADV)

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Fonte: Rede Alerta contra Desertos Verdes (RADV)

Agrotóxicos comuns e substâncias químicas presentes no plástico sufocam bactérias intestinais saudáveis

1. Kiran Patil no laboratório. Crédito: Jonathan Settle, Universidade de Cambridge.

Por Brian Bienkowski para “The New Lede” 

De acordo com um novo estudo, mais de cem substâncias químicas presentes em agrotóxicos, plásticos e outros produtos aos quais as pessoas são rotineiramente expostas inibem o crescimento de bactérias intestinais benéficas à saúde.

Nos últimos anos, especialistas em saúde têm se concentrado cada vez mais na importância do microbioma intestinal e no que pode prejudicá-lo. Os seres humanos possuem, em média, centenas de tipos de bactérias intestinais que são essenciais para a digestão, o controle do peso, o funcionamento do sistema imunológico e a saúde mental. Essas bactérias, juntamente com outros tipos de microrganismos, como vírus e fungos, formam o que é conhecido como microbioma intestinal. Alterações na microbiota intestinal têm sido associadas a diversos problemas de saúde, incluindo alergias, doença de Parkinson e diabetes tipo 2.  

O novo estudo, publicado na revista Nature Microbiology e que se baseia em evidências anteriores de que certos pesticidas e produtos químicos afetam a saúde intestinal, alerta que a maioria dos testes de segurança química atuais não leva em consideração os impactos na saúde intestinal, embora seja provável que as pessoas sejam expostas regularmente a muitos dos produtos químicos testados. 

“Certos produtos químicos industriais e agrícolas podem inibir o crescimento de bactérias intestinais e selecionar aquelas que apresentam maior resistência a antibióticos”, disse Indra Roux, autora principal do estudo e pesquisadora da Unidade de Toxicologia do Conselho de Pesquisa Médica da Universidade de Cambridge. “Isso pode perturbar o funcionamento normal do microbioma e reduzir a eficácia dos antibióticos.”

Roux e seus colegas, em experimentos de laboratório, examinaram o impacto de 1.076 substâncias químicas — incluindo 829 agrotóxicos — em 22 espécies de bactérias intestinais e descobriram que 168 contaminantes eram tóxicos para essas bactérias. A maioria das substâncias que inibiram o crescimento bacteriano não era anteriormente considerada antibacteriana, e entre os contaminantes estavam diversos herbicidas, fungicidas, retardantes de chama e aditivos plásticos populares. Fungicidas e produtos químicos industriais foram os que apresentaram maior probabilidade de afetar a microbiota intestinal.

“Certos produtos químicos industriais e agrícolas podem inibir o crescimento de bactérias intestinais e selecionar aquelas que apresentam maior resistência a antibióticos.” – Indra Roux, Universidade de Cambridge

Roux afirmou que não está totalmente claro como os contaminantes sufocam as bactérias, mas eles investigaram como algumas bactérias intestinais sobrevivem ao estresse causado pelos poluentes e os experimentos mostraram que “alguns mecanismos de resistência a poluentes se sobrepõem à resistência a antibióticos”. 

“Se efeitos semelhantes ocorrerem no intestino humano, poderão tornar as infecções mais difíceis de tratar”, acrescentou ela. 

Alguns contaminantes comuns afetaram mais bactérias intestinais do que outros. Por exemplo, o retardante de chama tetrabromobisfenol A (TBBPA) e o closantel, um antiparasitário usado em bovinos, inibiram o crescimento de 19 cepas de bactérias. 

O fungicida e composto antibacteriano hexaclorofeno liderou a lista, inibindo 20 cepas de bactérias. O uso do hexaclorofeno já é restrito pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) devido a preocupações com a saúde, e a Agência de Proteção Ambiental dos EUA revogou todas as autorizações de uso alimentar para a substância química em 1995.  

Pesquisadores já haviam alertado sobre o impacto de certos agrotóxicos na saúde intestinal. Por exemplo, outro estudo divulgado este mês descobriu que o herbicida mais usado no mundo, o glifosato — o ingrediente ativo do Roundup, que é alvo de milhares de processos judiciais por alegações de câncer — perturba a microbiota intestinal mesmo em níveis de exposição muito baixos em estudos de laboratório. Este é apenas o estudo mais recente a associar o herbicida a distúrbios na saúde intestinal, com pesquisas anteriores sugerindo que os efeitos do glifosato no microbioma intestinal são causados ​​pelo mesmo mecanismo pelo qual o herbicida age para matar ervas daninhas e outras plantas. E há evidências de que o diquat, um produto químico cada vez mais usado para substituir o glifosato, tem efeitos semelhantes . 

A Bayer, empresa alemã que adquiriu a Monsanto, fabricante do glifosato, contestou estudos que associam seu herbicida à alteração da microbiota intestinal, afirmando em um relatório de julho de 2024 que “esses estudos não são representativos das condições reais do trato gastrointestinal”. O novo estudo incluiu o glifosato, mas não encontrou impactos significativos. 

Os pesquisadores utilizaram a mesma concentração de cada substância química, portanto, as descobertas não se traduzem necessariamente em exposição humana, disse Roux, acrescentando que o trabalho pode, no entanto, orientar sobre quais compostos e efeitos focar em estudos futuros.  

Além de agrotóxicos e produtos químicos industriais, pesquisadores descobriram que certos aditivos alimentares, como conservantes, emulsificantes e adoçantes artificiais, podem perturbar a microbiota intestinal. 

Os autores do novo estudo afirmam que os órgãos reguladores não estão testando adequadamente os impactos dos produtos químicos na saúde intestinal. Eles usaram seus dados para criar um protótipo de modelo de aprendizado de máquina capaz de prever se os produtos químicos prejudicarão as bactérias intestinais e o publicaram juntamente com o novo estudo.

A autora principal, Kiran Patil, professora e pesquisadora da Unidade de Toxicologia do Conselho de Pesquisa Médica da Universidade de Cambridge, afirmou que, embora o novo modelo possa eventualmente ajudar a desenvolver produtos químicos mais seguros, é importante que pesquisas futuras coletem dados de exposição no mundo real para verificar se os produtos químicos estão afetando o intestino humano de maneira semelhante ao que foi observado em laboratório. 

Imagem em destaque: Kiran Patil, professor e pesquisador da Unidade de Toxicologia do Conselho de Pesquisa Médica da Universidade de Cambridge, em seu laboratório. (Crédito: Jonathan Settle/Universidade de Cambridge)


Fonte: The New Lede