Experimentos indicam que agrotóxicos e fertilizantes desequilibram ecossistemas aquáticos

Contaminantes provocaram desaparecimento de predadores e interferiram em papeis ecológicos de organismos aquáticos

Duas pesquisadoras vestidas de azul abastecendo tanques de água cobertos de águas. Os tanques estão instalados em uma área rural, gramado e com árvores ao fundo

Pesquisadores enchendo os tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto próximo a áreas agrícolas para análise da água e monitoramento dos macroinvertebrados como larvas, insetos, moluscos e minhocas – Foto: Allan Pretti Ogura

Por Ivanir Ferreira,  Arte: Leonor T. Shiroma, para “Jornal da USP” 

Em meio à expansão do setor sucroenergético brasileiro que demanda uso intensivo de defensivos agrícolas, pesquisa da USP alerta para os impactos desses contaminantes na base da cadeia alimentar aquática, com efeitos indiretos sobre peixes e outros predadores. O estudo mostra que os macroinvertebrados bentônicos — como larvas de insetos, moluscos e minhocas — estão entre os organismos mais sensíveis às substâncias. A aplicação isolada ou combinada do inseticida fipronil e do herbicida 2,4-D (herbicida), além da vinhaça — resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar —, levou ao desaparecimento de predadores e a desequilíbrios ecossistêmicos. A contaminação comprometeu funções essenciais desempenhadas por esses organismos, como a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e o controle populacional de espécies.

A coleta e a análise das amostras de água, assim como o monitoramento dos macroinvertebrados, foram realizados em tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto, próximos a áreas agrícolas no município de Itirapina (SP), onde a cana-de-açúcar é a principal atividade econômica. As observações ocorreram 7, 14, 28, 75 e 150 dias após a exposição aos contaminantes.

Os resultados foram publicados no artigo científico Impacts of pesticides and vinasse on the composition and functional diversity of aquatic macroinvertebrates exposed in a mesocosm system, assinado, entre outros autores, pela professora Raquel Aparecida Moreira, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, e pelo pesquisador Thandy Junio da Silva Pinto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Montagem de imagens de tanque de água turva e poluida, contendo insetos, caramujos e invertebrados boiando na superfícei.Macroinvertebrados – Larvas, insetos, moluscos e minhocas afetados pelos poluentes – Foto: Allan Pretti Ogura

Vinhaça

Imagem de uma mulher branca de cabelos pretos e longos. Sorri e veste uma blusa branca. Fundo, campo de flores.
Raquel Aparecida Moreira, FZEA/ USP – Foto: Arquivo pessoal

A professora Raquel destaca que os resultados confirmaram a toxicidade da vinhaça e seu elevado potencial de impacto ambiental, especialmente quando aplicada em conjunto com agrotóxicos, prática comum na agricultura brasileira. Segundo a pesquisadora, a vinhaça é um resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar e é utilizada como fertilizante, por [td1.1]fertirrigação. O produto apresenta altas concentrações de nutrientes, como potássio, magnésio, fósforo e nitrogênio.

“É justamente a elevada carga de nutrientes e de matéria orgânica que compromete o ecossistema aquático”, relata. A vinhaça analisada apresentou Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) de 46.500 miligramas por litro e Demanda Química de Oxigênio (DQO) de 107.000 miligramas por litro — indicadores de grande quantidade de matéria orgânica e alto consumo de oxigênio na água.

“A redução do oxigênio pode ter consequências graves. Se os níveis caem muito, peixes e outros organismos aquáticos podem morrer por asfixia. Por isso, a DBO é um dos principais parâmetros para medir a qualidade da água e o grau de poluição de rios e lagoas”, explica Raquel.

Imagem de vários tanques de águas instalados em uma área rural para monitoramento da qualidade da água e dos macroinvertebrados que vivem no ambiente aquáticoVisão geral dos mesocosmos instalados próximos a áreas agrícolas – Foto: Allan Pretti Ogura

Contaminação por fertilizantes e agrotóxicos potencializa efeitos

Thandy da Silva Pinto- afirma que, nas amostras em que a vinhaça foi aplicada junto aos agrotóxicos, houve prolongamento da permanência do fipronil na água e aceleração da degradação do 2,4-D em subprodutos (metabólitos) que, segundo o pesquisador podem ser tão ou mais tóxicos que a molécula original.

De acordo com o pesquisador, essas alterações químicas tiveram impacto direto sobre a fauna aquática. “Na prática, o ecossistema deixa de funcionar de forma equilibrada, mesmo que nem todas as espécies desapareçam”, diz. Nos tanques contaminados com 2,4-D, foi registrado aumento de organismos conhecidos como coletores-catadores — que se alimentam de partículas orgânicas — e redução acentuada de raspadores, grupo essencial no controle de algas, sobretudo na amostragem realizada aos 75 dias.

Homem branco, cabelos e olhos castanhos, usa jaleco branco e camiseta azul.
Thandy Junio da Silva Pinto, Unicamp – Foto: Arquivo pessoal

O fipronil foi o contaminante mais tóxico. Nas amostras contaminadas com inseticida, os pesquisadores observaram ausência total de predadores após a exposição. O mesmo ocorreu quando os dois agrotóxicos foram aplicados em conjunto.

Já nos ambientes com aplicação exclusiva de vinhaça, houve predominância de predadores e redução de coletores-catadores. Quando a vinhaça e os agrotóxicoss foram utilizados simultaneamente, os coletores-catadores permaneceram até o sétimo dia, mas posteriormente foram registradas mudanças significativas na composição dos grupos funcionais, evidenciando o efeito combinado dos poluentes.

Os pesquisadores destacam que os resultados reforçam a necessidade de monitoramento contínuo e de critérios mais rigorosos para o uso combinado de agrotóxicos e fertilizantes em áreas próximas a corpos d’água. Segundo eles, a adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis é fundamental para reduzir os riscos de contaminação e evitar impactos duradouros sobre a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

Mais informações: Raquel Aparecida Moreira, raquelmoreira@usp.br e Thandy Junio da Silva Pinto, thandyjuniosilva@gmail.com


Fonte: Jornal da USP

Agrotóxicos disparam no Brasil e crescem 2,6 vezes mais que a área plantada

Um levantamento realizado pela pesquisadora Sonia Hess, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ajuda a dimensionar uma tendência preocupante na agricultura brasileira. O gráfico abaixo mostra que, entre 2019 e 2024, o consumo de agrotóxicos no Brasil cresceu muito mais rapidamente do que a área cultivada.

Enquanto a área plantada aumentou 17,98%, a quantidade de agrotóxicos comercializados no país saltou 46,25% no mesmo período. Em outras palavras, o uso desses produtos cresceu 2,6 vezes mais do que a expansão da área agrícola.

Esse descompasso não é um detalhe estatístico. Uma parte significativa desse aumento está associada ao uso de agrotóxicos que já foram banidos em diversos países, devido aos seus efeitos nocivos sobre o meio ambiente e a saúde humana. No Brasil, muitos desses produtos chegam ao mercado por meio da importação de agrotóxicos genéricos, produzidos majoritariamente na China.

O paradoxo é evidente. Cerca de 80% dos agrotóxicos utilizados no Brasil são aplicados em culturas voltadas à exportação, e a China figura justamente como o principal destino de boa parte dessas commodities agrícolas. Assim, produtos químicos proibidos em várias partes do mundo acabam sendo amplamente utilizados aqui para produzir alimentos e matérias-primas destinados ao mercado internacional.

O resultado é uma grave situação de injustiça ambiental: os impactos ambientais e sanitários ficam no Brasil, enquanto os benefícios econômicos da produção agrícola se concentram nas cadeias globais de comércio.

Diante desse cenário, torna-se urgente tirar do papel a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos e ampliar os investimentos em modelos de produção capazes de reduzir a dependência desses insumos. Promover a produção de alimentos livres de agrotóxicos não é apenas uma questão ambiental — é também uma medida essencial para proteger a saúde da população brasileira e os ecossistemas do país.

Resíduos de PFAS oriundos de agrotóxicos estão presentes em produtos agrícolas da Califórnia

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Por Shannon Kelleher para “The New Lede”

A agricultura da Califórnia enfrenta um problema com PFAS, com traços de “químicos eternos” provenientes de agrotóxicos encontrados em 37% de quase mil amostras de produtos agrícolas cultivados convencionalmente no estado, de acordo com uma nova análise de dados de 2023 do Departamento de Regulamentação de Pesticidas da Califórnia (CDPR).

análise , publicada em 11 de março pelo Environment Working Group (EWG), encontrou resíduos de substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS) em 40 tipos de frutas e vegetais. Os produtos individuais frequentemente continham múltiplos tipos de substâncias químicas PFAS, com resíduos de 10 PFAS diferentes encontrados em morangos, e mais de 90% dos nectarinas, ameixas e pêssegos testados para fludioxonil, um pesticida PFAS considerado um disruptor endócrino pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos. 

Os autores descobriram que, anualmente, 2,5 milhões de libras de agrotóxicos  contendo PFAS são aplicadas em terras agrícolas da Califórnia, contaminando potencialmente o solo e a água locais. Quase metade dos vegetais e mais de três quartos das frutas e nozes consumidas nos Estados Unidos são cultivadas na Califórnia.

“Estamos ingerindo PFAS, bebendo PFAS, respirando PFAS”, disse Sakereh Maskal, Líder de Políticas e Defesa da Rede de Ação contra Pesticidas e Agroecologia. “A ganância insaciável da indústria química transformou nossos corpos em zonas de sacrifício em nome do lucro.”

Os compostos PFAS são prevalentes no meio ambiente em todo o mundo, onde permanecem por anos sem se decompor, e também nos corpos de humanos e animais, com estudos encontrando-os no sangue de cerca de 98% dos americanos. Alguns PFAS foram associados a certos tipos de câncer, colesterol alto, diminuição da eficácia de vacinas e outros problemas de saúde.

“Num momento em que os americanos exigem um sistema alimentar mais saudável, descobrimos que os principais alimentos básicos de uma dieta saudável estão contaminados com substâncias químicas associadas a sérios danos à saúde”, disse Bernadette Del Chiaro, vice-presidente sênior do EWG para a Califórnia, em um comunicado .

As conclusões surgem num momento em que as ações regulatórias da administração Trump sobre agrotóxicos se tornam cada vez mais contrárias ao movimento Make America Healthy Again (MAHA). No mês passado, a administração citou razões de segurança nacional para justificar o pedido de aumento da produção do controverso herbicida glifosato, vendido como Roundup, uma medida que enfureceu os membros do movimento MAHA .

A análise do EWG surge na sequência da publicação, em dezembro de 2025, do relatório mais recente do Departamento de Agricultura dos EUA sobre agrotóxicos , baseado em dados de 2024. O relatório encontrou resíduos de pelo menos um agrotóxico em mais de 57% das quase 10.000 amostras de alimentos testadas, com menos de 1% dos produtos contendo resíduos acima do limite legal estabelecido pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). O grupo Beyond Pesticides criticou as tolerâncias da EPA por não considerarem adequadamente populações vulneráveis, como trabalhadores rurais e crianças, e a exposição a misturas de produtos químicos.

Aumento do uso de pesticidas contendo PFAS

Cientistas e especialistas afirmam que os agrotóxicos  contendo PFAS representam uma área de crescente preocupação, com pesquisas recentes encontrando PFAS no sangue de peixes em águas próximas a áreas agrícolas e florestais. Um estudo de 2024 constatou que os PFAS são adicionados cada vez mais a pesticidas, representando agora 14% de todos os ingredientes ativos desses produtos químicos.

Resultados de testes independentes, divulgados em uma análise separada esta semana pelo grupo Public Employees for Environmental Responsibility (PEER), encontraram múltiplos produtos químicos PFAS no herbicida Indaziflam (vendido como Rejuvra), aplicado em plantações para controlar gramíneas invasoras. O produto está sendo pulverizado ou seu uso está sendo considerado em milhões de hectares de terras federais. 

“A descoberta de substâncias químicas tóxicas em um produto destinado ao uso em áreas de grande escala deveria soar o alarme”, disse Chandra Rosenthal, defensora de terras públicas da PEER, em um comunicado . “Nossas terras públicas não devem ser expostas a substâncias químicas cujos impactos permanecem desconhecidos.”

A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) está atualmente analisando pedidos dos departamentos de agricultura do Arkansas e do Missouri para conceder uma isenção emergencial ao pesticida PFAS tetflupirolimet, que não foi registrado pela EPA – uma medida que permitiria a aplicação do produto químico no solo com menos rigor regulatório . Os estados propõem usar o herbicida para controlar a grama-arroz invasora, que reduz drasticamente a produtividade das lavouras e se tornou resistente a diversos outros herbicidas. Se concedida, a isenção permitiria o tratamento de até 546.000 acres de arrozais no Arkansas e 100.000 acres no Missouri. 

“Esta não é uma situação de emergência”, disse Sarah Alexander, diretora executiva da Associação de Agricultores e Jardineiros Orgânicos do Maine, observando que a resistência a herbicidas é um problema comum e previsível na agricultura convencional e que existem alternativas na agricultura orgânica.

“Acho que usar isenções emergenciais para aprovações de pesticidas PFAS é um precedente muito perigoso”, disse ela.

A EPA afirmou que ainda não foi tomada nenhuma decisão sobre os pedidos de isenção emergencial dos estados. 

“Todas as ações tomadas pela EPA de Trump são guiadas pelo Estado de Direito, pela Ciência de Alto Padrão e pela Transparência Radical”, disse um porta-voz da agência.


Fonte: The New Lede

Agrotóxico banido, metais e aditivo para plásticos: boias encontram três tipos de poluentes no Dilúvio e no Guaíba

Projeto-piloto foi desenvolvido em parceria da prefeitura de Porto Alegre com a iniciativa privada

Camila Hermes / Agencia RBS

Caravela que ficava localizada próximo à foz do DilúvioCamila Hermes / Agencia RBS

Por Marcelo Gonzatto para a “Gaúcha ZH” 

Um relatório que deverá ser entregue nesta semana à prefeitura de Porto Alegre detalha o nível de poluentes presentes no Arroio Dilúvio e no Guaíba — manancial de onde é captada água que, após tratada, é servida à população. O estudo é fruto de um projeto inovador desenvolvido pela empresa paulista Infinito Mare em parceria com a prefeitura e a Heineken, pelo qual foram instaladas grandes boias azuis em três pontos da Capital.

A análise das algas que se desenvolveram nas chamadas “caravelas” revelou a presença de metais em concentrações muito acima do tolerado, de aditivos usados em plásticos e até de um agrotóxico banido do Brasil desde 2009 por sua periculosidade, o dicloro-difenil-tricloroetano (DDT) (veja detalhes abaixo).

A iniciativa conjunta foi realizada ao longo de três meses no final do ano passado em um ponto do Dilúvio e dois no Guaíba, nas proximidades do Parque do Pontal — a empresa decidiu manter as duas boias localizadas mais ao Sul. A Heineken ajudou a financiar o projeto, que se baseia em uma estrutura inovadora desenvolvida pela Infinito Mare.

As boias circulares têm, na parte inferior, uma espécie de tela na qual naturalmente se desenvolvem algas. Esses vegetais realizam uma dupla função: ajudam a “filtrar” a água, removendo impurezas, e acabam incorporando em sua estrutura partes desses elementos. Assim, ao analisar as algas de forma periódica, é possível fazer um mapeamento de poluentes que passaram pelo local em algum momento. Foram filtrados 330 mil litros de água ao longo do período. As algas captam gás carbônico do ar, ao mesmo tempo em que oxigenam o líquido.

— As algas retiram os elementos da natureza, da água, para crescer e, quando crescem, têm como característica reter vários elementos de forma química e de forma física. Quanto mais crescem, mais acumulam esses elementos. Então, o nosso período (de análise) foi para entender exatamente qual era esse potencial de acúmulo — explica o CEO da Infinito Mare, Bruno Libardoni.

Os poluentes encontrados

De forma preliminar, foram encontrados três tipos principais de poluentes por meio de amostras enviadas à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS):

  • DDT: agrotóxico associado a danos no sistema nervoso. Usado para combater mosquito transmissor da malária e para conter pragas em plantações, teve o uso agrícola proibido ainda nos anos 1980. No final dos anos 1990, deixou de ser usado para o controle de mosquitos. A proibição total em solo brasileiro (fabricação, importação, venda ou armazenamento) ocorreu em 2009.
  • Metais: ferro, manganês, alumínio e cobre em concentrações, em alguns casos, milhares de vezes acima do que a legislação tolera. As presenças de manganês e alumínio, que podem causar impacto neurológico, estavam 5 mil e 139 mil vezes acima do permitido, respectivamente. Além dos metais, também foi registrada alta concentração de fósforo, nutriente que pode multiplicar o número de micro-organismos e comprometer a qualidade da água. Essas substâncias são encontradas em efluentes urbanos e industriais.
  • Ftalatos: elementos químicos encontrados em plásticos flexíveis, embalagens, cosméticos e outros produtos, com impacto sobre o sistema hormonal humano. Podem se desprender desses materiais e contaminar os cursos d’água em caso de descarte irregular.
Camila Hermes / Agencia RBS
Envolvidos discutem continuidade do programa para monitoramento de mais longo prazoCamila Hermes / Agencia RBS

A engenheira química Cristiane Oliveira, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e líder do Grupo de Pesquisa do Laboratório de Poluição Ambiental (Lapam/UFCSPA), afirma que agrotóxicos como o DDT voltaram a aparecer em amostras de água da Capital nos últimos anos. Uma hipótese para isso é que a enchente de 2024 teria lavado solos onde esses contaminantes estavam armazenados há muito tempo e os conduzido até córregos, rios e lagos.

— O DDT é um poluente orgânico persistente, ou seja, permanece no ambiente por vários anos porque é muito estável. Então, pode ser um DDT lançado antes de 2009, mas que estava naqueles sedimentos. Como tivemos muita transposição de solos durante a enchente, pode voltar a aparecer — avalia Cristiane.

Por meio de nota, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que “a água distribuída à população de Porto Alegre passa por rigoroso controle de qualidade em todas as etapas do abastecimento, desde o manancial até a rede de distribuição”, e que “são realizadas análises frequentes da água bruta e da água tratada, incluindo monitoramento contínuo nas Estações de Tratamento e em mais de 350 pontos da rede de distribuição em toda a cidade. Todos os resultados obtidos pelo Dmae atendem aos limites estabelecidos na legislação de potabilidade, garantindo que a água distribuída é própria para consumo” (leia a íntegra ao final da reportagem).

Cristiane Oliveira afirma que os métodos de depuração existentes hoje são capazes de eliminar esses contaminantes, mas é preciso seguir monitorando a qualidade da água bruta com atenção.

— A gente tem hoje um tratamento que ainda segura (os poluentes), mas a nossa preocupação é com o futuro. Caso esses poluentes orgânicos comecem a ficar muito elevados, a estação (de tratamento) vai precisar incluir uma operação mais avançada — analisa a especialista da UFCSPA.

Conforme o CEO da Infinito Mare, ainda está em discussão com a prefeitura a continuidade do programa para monitoramento de mais longo prazo. A empresa já desenvolveu uma iniciativa semelhante em Belo Horizonte, vem atuando no Rio de Janeiro e tem planos para a região metropolitana de Curitiba e Santos, entre outras ações. Recentemente, o projeto da caravela recebeu prêmios como o Design For a Better World, no Brasil, e o IF Design Award, na Alemanha.

— O projeto visa a servir como uma ferramenta para aumentar o potencial de inteligência do monitoramento ecológico, e a gente promover serviços ambientais enquanto realiza esse monitoramento. O objetivo é “ouvir” a natureza e trazer soluções para o futuro próximo — complementa Libardoni.

O que diz a nota do Dmae

“O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que a água distribuída à população de Porto Alegre passa por rigoroso controle de qualidade em todas as etapas do abastecimento, desde o manancial até a rede de distribuição. O monitoramento segue as diretrizes da Portaria de Consolidação nº 5/2017 _ Anexo XX do Ministério da Saúde, atualizada pela Portaria GM/MS nº 888/2021, além da Portaria SES/RS nº 320/2014.

São realizadas análises frequentes da água bruta e da água tratada, incluindo monitoramento contínuo nas Estações de Tratamento e em mais de 350 pontos da rede de distribuição em toda a cidade. Todos os resultados obtidos pelo Dmae atendem aos limites estabelecidos na legislação de potabilidade, garantindo que a água distribuída é própria para consumo.

Em relação ao projeto-piloto conduzido pela empresa Infinito Mare, a Prefeitura ainda não recebeu o relatório final do estudo. Quando o documento for encaminhado oficialmente, os dados serão analisados e comparados com o monitoramento realizado pelo Dmae no mesmo período e local. O Departamento também realiza monitoramento permanente das águas do Arroio Dilúvio em 11 pontos. De forma preliminar, qualquer interpretação dos resultados do estudo exige avaliação detalhada da metodologia empregada, incluindo critérios de amostragem e forma de expressão dos dados.”


Fonte: Gaúcha ZH

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras

Estudo identifica pela primeira vez resistência ao herbicida em Solanum americanum, espécie comum em áreas agrícolas

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras -

Por Jéssica para “São Carlos Agora” 

Pesquisadores do Laboratório de Produtos Naturais (LPN) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) identificaram diferentes espécies de plantas invasoras, agronomicamente conhecidas como “plantas daninhas”, com capacidade de resistir à ação do herbicida glifosato. Entre elas está Solanum americanum, cuja resistência foi registrada pela primeira vez para a espécie, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

A investigação teve início durante o doutorado de Gabriel da Silva Amaral, no Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UFSCar, sob a orientação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no Departamento de Química (DQ) da Instituição, a partir de relatos de produtores rurais que observavam falhas recorrentes no controle de plantas invasoras. Com base nessas observações, os pesquisadores coletaram sementes de espécies que haviam sobrevivido à última aplicação do herbicida (dose de campo) em pomares de laranja-doce e limão-taiti. O material foi então submetido a testes laboratoriais para avaliar a resposta das plantas ao herbicida.

Como surge a resistência

O glifosato é o herbicida mais utilizado no país e um dos mais empregados no mundo. Ainda assim, algumas populações de plantas invasoras vêm apresentando redução na sensibilidade ao produto, devido ao uso indiscriminado deste. Essa resistência não ocorre de forma imediata, é resultado de um processo evolutivo gradual.

Quando um herbicida é usado repetidamente, ele não afeta todas as plantas da mesma forma. Algumas já possuem pequenas diferenças genéticas que as tornam menos sensíveis ao produto. Com o tempo, essas plantas sobrevivem às aplicações e se multiplicam, fazendo com que a população passe a responder cada vez menos a ação do herbicida. Esses indivíduos sobrevivem, se reproduzem e transmitem essas características às gerações seguintes. Com o tempo, esses traços passam a predominar, formando populações resistentes.

Testes confirmam a resistência

Segundo Amaral, o estudo trouxe uma constatação inédita. “Elucidamos que Solanum americanum apresenta resistência ao glifosato. É o primeiro registro desse tipo de resistência para a espécie no Brasil e no mundo. A descoberta amplia o conjunto de plantas invasoras que passam a representar desafio para a citricultura, especialmente em sistemas com uso contínuo do herbicida”, afirma. 

Os testes indicaram que algumas espécies, como Amaranthus deflexus, Amaranthus hybridus e Tridax procumbens, permaneceram sensíveis ao produto. Já Bidens pilosa apresentou comportamento distinto: embora a maioria das populações tenha respondido ao glifosato, amostras coletadas na região de Olímpia exibiram sinais de resistência, com redução significativa na mortalidade das plantas tratadas com glifosato.

Outras espécies já reconhecidas por dificultar o manejo agrícola, como Conyza bonariensis, Digitaria insularis e Chloris elata, apresentaram resistência. Em alguns casos, nem mesmo doses elevadas do herbicida foram suficientes para garantir o controle.

Para confirmar que as plantas eram realmente resistentes, e não apenas sobreviventes ocasionais, os pesquisadores realizaram teste bioquímico que avalia o funcionamento da via metabólica alvo do glifosato. O herbicida atua bloqueando a chamada via do chiquimato, responsável pela produção de aminoácidos essenciais ao desenvolvimento da planta. Quando essa via é interrompida, a planta deixa de sintetizar compostos indispensáveis para seu crescimento e sobrevivência. Como consequência desse bloqueio, o ácido chiquímico, uma molécula intermediária da via, passa a se acumular.

Em plantas sensíveis ao herbicida, esse acúmulo é elevado, sinalizando que o metabolismo foi efetivamente interrompido. Já nas populações analisadas como resistentes, os níveis de ácido chiquímico foram significativamente menores. Isso indica que o glifosato não conseguiu bloquear completamente a via metabólica. Ao demonstrar que a via permanece ativa nas plantas resistentes, o estudo confirma que não se trata de uma sobrevivência casual, mas de uma alteração fisiológica consistente que reduz a eficácia do herbicida.

Além do impacto direto no controle das plantas invasoras, o uso contínuo do herbicida pode afetar outros componentes do sistema produtivo. “O glifosato não atua apenas sobre as plantas indesejadas. Ele também pode interferir em bactérias e fungos do solo que desempenham papel importante na saúde da lavoura. Aplicações frequentes ou em doses elevadas podem reduzir esses microrganismos benéficos e comprometer a ciclagem de nutrientes”, explica Amaral.

A ocorrência simultânea de múltiplas espécies resistentes em um mesmo pomar é uma problemática constante. Nas áreas analisadas, que envolvem os municípios de Araras, Cordeirópolis, Mogi-Mirim e Olímpia, os cientistas identificaram a convivência de duas, três ou até cinco espécies resistentes lado a lado. Essa sobreposição torna o manejo mais complexo, uma vez que estratégias eficazes para uma espécie podem não funcionar para outra, elevando custos e limitando as alternativas disponíveis aos produtores.

A identificação dessas populações resistentes é fundamental para compreender como o uso contínuo de herbicidas pode alterar o equilíbrio no campo. É necessário orientar estratégias de manejo mais diversificadas e sustentáveis, reduzindo a dependência de uma única ferramenta de controle.

A pesquisa foi desenvolvida frente ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Controle Biorracional de Insetos Pragas e Fitopatógenos (CBIP), sob coordenação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no DQ. Os resultados foram publicados e podem ser conferidos no site da revista AgriEngineering.

O projeto recebeu apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, processos 14/50918-7 e 2012/25299-6).


Fonte: São Carlos Agora

Estudo revela impactos silenciosos do uso intensivo de venenos sobre comunidades indígenas e camponesas no MS

Pesquisa aponta danos alimentares, doenças crônicas e falhas públicas em áreas indígenas e camponesas

Estudo revela impactos silenciosos do uso intensivo de venenos sobre comunidades

Moradia localizada ao lado de lavoura. (Foto: Katiuscia Galhera) 

Por Inara Silva para “Campo Grande News” 

Um relatório inédito sobre os impactos dos agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas de Mato Grosso do Sul traz à tona um cenário de exposição contínua, invisibilidade institucional e mudanças forçadas no modo de vida tradicional. Intitulado “Impactos de agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas no MS”, o relatório foi produzido por pesquisadoras vinculadas à Fundação Oswaldo Cruz, à UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e à Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, articulando pesquisa acadêmica e organizações da sociedade civil.

Resultado de uma pesquisa realizada entre março e agosto de 2025, o estudo foi divulgado esta semana e reúne entrevistas, questionários, observações de campo e análise de dados públicos para compreender como o modelo agrícola baseado em monoculturas afeta populações que não utilizam esses produtos, mas vivem ao lado de quem os utiliza.

Entre as principais constatações, está o fato de que essas populações vivem dentro da chamada “zona de deriva” (fenômeno em que o produto aplicado nas lavouras é transportado pelo vento), atingindo casas, fontes de água, plantações de subsistência e até o interior das aldeias.

Cerca de 90% dos entrevistados afirmaram que suas áreas de agricultura para subsistência, muitas delas organizadas como quintais agroflorestais, são afetadas pela pulverização, o que reduz o desenvolvimento de cultivos agroecológicos e compromete a produção de alimentos tradicionais. O impacto direto, segundo o relatório, representa prejuízo à soberania alimentar dessas famílias.

Bananeiras com as folhas secas, provavelmente, impactadas pelo agrotóxico, segundo os moradores. (Foto: Katiuscia Galhera)

Pesquisa qualitativa

Segundo os autores, o estudo oferece uma compreensão inicial das experiências relacionadas à exposição aos agrotóxicos na região analisada. Por isso, adotou uma abordagem qualitativa, exploratória e com diversidade territorial dos participantes. A ideia é complementar pesquisas quantitativas já realizadas na região e documentar evidências concretas de exposição e seus efeitos no cotidiano das comunidades.

“O objetivo não é transformar pessoas em objetos de pesquisa, mas reconhecê-las como protagonistas. Elas participam da análise, ajudam a interpretar os dados e constroem o conhecimento conosco”, explica a doutora em Recursos Genéticos e Vegetais, Fernanda Savicki de Almeida, pesquisadora da Fiocruz Ceará.

A distribuição espacial envolveu populações da região central do Estado, como Campo Grande e Sidrolândia; do sul , em municípios como Dourados, Itaporã, Caarapó e Rio Brilhante; além da região sudoeste, com Ponta Porã e Amambai, e da região sudeste, em Ivinhema.

De forma geral, há uma cobertura de todo o Estado. Segundo Fernanda Savicki, como se trata de uma análise reflexiva, o resultado mostra uma tendência muito forte do que acontece em todo o Mato Grosso do Sul.

Entre os respondentes, 59% se identificaram como indígenas, 20,5% como negros (pretos ou pardos) e 20,5% como brancos. As mulheres representam 61,4% das pessoas ouvidas, homens 36,4% e 2,3% se identificam como travestis.


Localização das comunidades visitadas pelos pesquisadores (Foto: reprodução)

Territórios cercados

O trabalho concentrou-se em áreas indígenas como Laranjeira Yvyrapikuê, Guyra Kambi’y, Avaeté II, Guyraroka e Passo Piraju, hoje rodeadas por extensas plantações mecanizadas de soja, milho e, em menor escala, algodão e cana-de-açúcar.

Mesmo sem cultivar essas commodities, moradores relatam contato frequente com pulverizações realizadas nas propriedades vizinhas. Entre os sinais observados no campo estavam frutos deformados, folhas queimadas e o enfraquecimento de hortas tradicionais, elementos que os próprios moradores associam à exposição constante aos agrotóxicos.

Segundo a pesquisadora Katiuscia Galhera, o estudo identificou um descompasso entre a instrução normativa que regula a pulverização de agrotóxicos e a realidade observada em comunidades rurais e indígenas. Pela legislação, deve existir uma distância de 500 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e 250 metros de moradias isoladas. Contudo, segundo a pesquisadora, as medições feitas in loco revelaram cenários em que as lavouras estavam a apenas 50 metros e, em alguns casos, até menos, das residências e áreas de convivência.

Entre os achados documentados estão:

  • cheiro intenso de veneno após pulverizações, inclusive perto de moradias;
    resíduos percebidos sobre plantas, solo e estruturas comunitárias;
  • insegurança quanto à qualidade da água consumida;
  • necessidade de interromper atividades cotidianas durante aplicações;
  • perda parcial de lavouras destinadas ao autoconsumo.
  • Ambiente contaminado, saúde afetada.

Imagem apresenta os sintomas relatados pelos respondentes (Foto: Reprodução)

A maioria dos entrevistados descreve contato frequente com produtos químicos:

  • 77,3% afirmam viver ou trabalhar em áreas diretamente expostas;
    63% relatam convivência com o problema há mais de um ano;
    86,4% dizem já ter passado por ao menos um episódio de intoxicação;

Segundo os pesquisadores, trata-se de um quadro de exposição subcrônica ou crônica, quando o contato ocorre repetidamente, mesmo em doses consideradas menores.

Os sintomas relatados coincidem com descrições da literatura científica: dor nos olhos (50%), náuseas e gosto ruim na boca (45,5%), dor de estômago (43,2%), diarreia (40,9%), secreções nasais (38,6%), fraqueza (36,4%), além de vômitos, tosse, espirros, febre e tontura. Há ainda registros de convulsões e sangramento nasal em menor proporção.

A principal via de intoxicação relatada é a respiratória (82,5%), seguida por contato com pele ou olhos (27,5%) e ingestão de alimentos contaminados (20%). A pulverização terrestre foi mencionada em 85% dos casos, além de aplicações por aeronaves ou drones (47,5%), poeira química (40%) e contaminação da água (32,5%).

Dados oficiais

Informações do Painel de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos indicam que, entre 2006 e 2024, foram registradas 4.192 notificações de intoxicação exógena por agrotóxicos no Estado, uma média de 20,25 casos por mês.

A residência aparece como principal local de ocorrência, com 2.788 registros, superando o ambiente de trabalho (909) e outros locais. O dado converge com a pesquisa de campo, na qual 77,3% afirmaram que casa e trabalho são o mesmo espaço de exposição.

Outro destaque é que, em Mato Grosso do Sul, os agrotóxicos de uso agrícola lideram as notificações (1.416 casos), diferentemente do cenário nacional, onde predominam intoxicações por raticidas.

Municípios com maiores índices de ocorrência coincidem com regiões de expansão agrícola, como o Cone Sul, caso de Laguna Caarapã e Caarapó, e áreas do norte e nordeste do Estado, onde predominam lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar e eucalipto.

Lavoura ao lado de área indígena. (Foto: Katiuscia Galhera)

Relatos comunitários

Além dos episódios agudos, os entrevistados relataram doenças crônicas associadas aos sistemas circulatório, respiratório, hepático e renal, além de alergias, problemas dermatológicos, alterações hormonais, imunológicas e casos de câncer. O conjunto de dados sugere compatibilidade entre esses perfis de adoecimento e efeitos conhecidos da exposição prolongada a agrotóxicos.

Há também elevado número de relatos comunitários sobre nascimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista em contextos de uso intensivo de glifosato, além de recém-nascidos com cardiopatias congênitas.

Um estudo com prontuários de bebês internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Neonatal do Hospital Universitário da Grande Dourados mostrou que, entre 2019 e 2021, 55,31% dos 358 recém-nascidos examinados apresentaram diagnóstico de cardiopatia congênita. O relatório ressalta que não estabelece causalidade direta, mas aponta a coexistência desses agravos com a intensificação do uso de herbicidas na região.

Impactos no cotidiano

A contaminação e o avanço das lavouras também alteram práticas culturais, calendários agrícolas tradicionais e formas de ocupação do território. Os locais de exposição relatados incluem retomadas indígenas (36,4%), reservas ou aldeias (27,2%), assentamentos rurais (25%) e acampamentos.

O relatório classifica essa dinâmica como processo de injustiça ambiental, no qual populações que não se beneficiam economicamente do agronegócio concentram os riscos sanitários e territoriais da atividade.

Segundo a pesquisadora Fernanda Savick, a pressão ambiental inviabiliza práticas que sustentam a identidade dessas comunidades, como a produção de alimentos, a relação com a água, a transmissão de conhecimentos e a organização social.

“Estamos inviabilizando modos de vida que têm a ver com cultura, ambiente, educação e identidade. Isso vai além da questão ambiental, há também um processo simbólico. Por isso, podemos falar em injustiça, ou até de racismo ambiental,” destaca a pesquisadora ao afirmar que retirar ou fragilizar o vínculo dessas populações com o território significa comprometer sua própria sobrevivência.

“São violações de direitos em várias dimensões, não apenas no acesso à terra,” resume Savicki.

Pesquisadores flagram frutos deformados e folhas queimadas (Foto: Katiuscia Galhera)

Falhas institucionais

Apesar das evidências, os especialistas apontam lacunas no monitoramento, subnotificação de casos e ausência de políticas públicas estruturadas. Apenas parte dos atendimentos de saúde relacionados à exposição chega a ser registrada nos sistemas oficiais.

Para os autores, o problema vem sendo tratado como questão exclusivamente agrícola, quando envolve saúde pública, ordenamento territorial, direitos humanos e desenvolvimento regional.

Os pesquisadores destacam que a pesquisa não pretende apenas denunciar situações pontuais, mas qualificar o debate público com base em evidências construídas junto às populações afetadas.

“A ideia é transformar dados em reflexão e reflexão em políticas concretas”, afirma Savicki.

Recomendações – Entre as medidas consideradas urgentes, o estudo propõe:

  • criação de zonas de amortecimento entre lavouras e comunidades;
  • fortalecimento da vigilância em saúde no SUS (Sistema Único de Saúde);
  • monitoramento permanente de água, solo e ar;
  • restrição da pulverização aérea próxima a moradias;
  • instalação de laboratório público para análise de resíduos;
  • participação das comunidades nas decisões territoriais;
  • incentivo a modelos produtivos menos dependentes de insumos químicos

Fonte: Campo Grande News

Envenenados: Brasil bate recorde de intoxicação por agrotóxico, com 27 contaminados por dia em 2025

O Brasil viveu em 2025 o pior ano em intoxicações por agrotóxicos desde 2015, com 9.729 casos, revelam dados do Ministério da Saúde analisados pela Repórter Brasil; nos últimos 11 anos, um quarto das vítimas foram crianças de 1 a 4 anos

Brasil bate recorde de intoxicação por agrotóxico, com 27 contaminados por  dia

Por Hélen Freitas/Edição Igor Ojeda para “Repórter Brasil” 

O Brasil viveu em 2025 o pior ano em intoxicações por agrotóxicos dos últimos 11 anos, revelam dados do Ministério da Saúde analisados pela Repórter Brasil. Foram 9.729 casos registrados — alta de 84% em comparação a 2015. Em média, 27 pessoas por dia se intoxicaram no ano passado.

Entre 2015 e 2025, um quarto das vítimas foram crianças de 1 a 4 anos, a segunda faixa etária com mais casos (17.476). A primeira é entre 20 e 39 anos, com 23.045 notificações de intoxicação, cerca de um terço do total. Nessa faixa etária, 54% dos incidentes no ano passado tiveram relação com o trabalho, dos quais 80% estavam relacionados a agrotóxicos de uso agrícola. 

Os números, compilados pelo Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), mostram ainda que, desde 2015, o país somou 73.391 intoxicações por agrotóxicos. A série teve queda em 2020, mas voltou a subir a partir do ano seguinte. A análise considera apenas os chamados “casos não intencionais”, excluindo suicídios, abortos, homicídios e outros episódios em que a contaminação foi deliberada.

No mesmo período, o Brasil bateu recordes de aprovação e comercialização de agrotóxicos. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, um aumento de 38% em relação ao ano anterior, segundo dados do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) publicados no Diário Oficial da União. 

Já as vendas chegaram a 825,8 mil toneladas em 2024, crescimento de 9,3% em comparação a 2023, de acordo com dados do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

Para especialistas ouvidos pela reportagem, o aumento das intoxicações está diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo dessas substâncias. “De modo geral, quanto mais agrotóxicos disponíveis, isso tende a fazer com que o preço se reduza, fazendo com que o consumo aumente. Se o consumo aumentar, a população vai estar mais exposta e isso pode fazer com que as intoxicações aumentem”, afirma Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa.

Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil
Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil

Agrotóxicos agrícolas são os principais causadores das intoxicações no trabalho

O Espírito Santo foi o estado com maior índice de intoxicações em 2025, seja em números absolutos ou proporcionais. Foram 941 registros — quase um em cada dez casos do país — e uma taxa de 23 casos por 100 mil habitantes. Em seguida, proporcionalmente, aparecem Tocantins (16 por 100 mil) e Rondônia, Acre e Roraima (com 11 casos por 100 mil habitantes cada), todos estados da região Norte, marcada pela expansão do agronegócio e pressão sobre áreas de floresta.

As principais vítimas das intoxicações não intencionais são homens de 20 a 39 anos: das 3.059 pessoas dessa faixa etária afetadas em 2025, 73% eram do sexo masculino. Especialistas apontam que a concentração de intoxicações entre adultos jovens e de meia-idade está ligada à predominância masculina no trabalho rural e à alta demanda por trabalhadores nesse período da vida.  

Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil
Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil

O Ministério do Trabalho e Emprego criticou o alto número de casos relacionados a lavradores no campo. “Não é admissível que interesses econômicos se sobreponham à proteção da saúde dos trabalhadores”, diz nota enviada à Repórter Brasil.

A reportagem questionou o Ministério da Agricultura e Pecuária sobre o recorde de registros de agrotóxicos, a relação entre o aumento da oferta e o crescimento das intoxicações, além de medidas de fiscalização no campo. 

A pasta, responsável por autorizar e reavaliar agrotóxicos segundo a nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, não respondeu às perguntas e orientou apenas que a apuração fosse direcionada à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A Anvisa afirma que as notificações de intoxicação humana são um dos elementos usados para orientar a reavaliação de produtos já registrados e para embasar tecnicamente as análises toxicológicas. “As intoxicações são avaliadas e consideradas nos pareceres de exposição humana elaborados para subsidiar o processo decisório da reanálise”, cita nota enviada à reportagem. 

Diz, ainda, que suas decisões dependem de uma análise mais ampla de risco. “As decisões regulatórias da Anvisa incorporam predominantemente evidências experimentais, epidemiológicas e modelagens de exposição capazes de prever efeitos crônicos antes que eles se manifestem na população”.

Já o Ministério da Saúde pontua que monitora as intoxicações pelo Sinan, de notificação obrigatória, e atribui parte do aumento das notificações ao reforço das ações de vigilância. “No ano passado, o Ciclo de Webinários da VSPEA [Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, programa dos SUS] tratou de temas como diagnóstico, tratamento e notificação de intoxicações exógenas, visando aprimorar a atuação de equipes da vigilância, atenção primária e especializada. Parte do aumento dos registros deve-se a esse incremento na vigilância”, diz o texto. Confira aqui as respostas completas do Ministério do Trabalho, da Anvisa e do Ministério da Saúde.

Crianças pequenas podem se intoxicar até dentro de casa e através do leite materno

O número de intoxicações em crianças de 1 a 4 anos — um quarto das notificações desde 2015 — preocupa os especialistas ouvidos pela reportagem. Segundo Wanderlei Pignati, professor da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) e pesquisador referência no país sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, diversos fatores fazem com que esse grupo esteja entre os mais expostos. Um deles é que o sistema imunológico ainda não está completamente formado nessa fase. 

Pesquisa orientada por Pignati no Mato Grosso, além disso, já confirmou a presença de resíduos de agrotóxicos no leite materno. Muitos pesticidas são lipofílicos, ou seja, tendem a se acumular em tecidos gordurosos, como as glândulas mamárias.

Já a agrônoma Fernanda Savicki, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Ceará, ressalta que os limites de tolerância a resíduos químicos são calculados para adultos de cerca de 70 kg, o que torna qualquer exposição proporcionalmente muito mais grave para uma criança pequena. 

Ela destaca também que crianças dessa faixa etária aparecem com frequência nos dados porque são o grupo mais monitorado pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Com vacinas frequentes e consultas pediátricas regulares, qualquer alteração de saúde é mais facilmente percebida e notificada do que em adultos. Além disso, diz, sintomas como diarreia, vômito ou manchas na pele em bebês geram preocupação imediata nos pais, que procuram o serviço de saúde com mais frequência.

“Qualquer tipo de variação na saúde dessas crianças vai ser muito mais verificada e notificada do que, por exemplo, em crianças maiores, adolescentes e adultos”, afirma a pesquisadora da Fiocruz.

Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil
Infográfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil

Agrotóxicos são um problema de saúde pública, defende pesquisadora da Fiocruz

Especialistas ouvidos pela Repórter Brasilafirmam que o Brasil lida com os agrotóxicos sob uma lógica de mercado que ignora seus impactos na sociedade. Para eles, a nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, agrava esse cenário e representa um retrocesso regulatório. 

Ao baratear e facilitar o acesso a essas substâncias, a medida pode intensificar o ciclo de “envenenamento” da população brasileira, alertam. “Já faz tempo que as intoxicações por agrotóxicos não deveriam ser mais vistas como casos isolados, mas como um problema de saúde pública”, afirma Fernanda Savicki, da Fiocruz.

A intoxicação aguda — aquela que aparece logo após a exposição — representa 89% de todos os casos desde 2015, revelam os dados analisados pela Repórter Brasil. Doenças crônicas associadas ao uso prolongado, como câncer e desregulação endócrina, levam anos para surgir e são mais difíceis de relacionar diretamente à exposição.

Os números podem ser muito maiores. A Organização Mundial da Saúde estima que apenas uma em cada 50 intoxicações por agrotóxicos seja registrada no mundo. Sintomas como tontura, febre, náusea e diarreia muitas vezes são anotados como viroses ou indisposições alimentares, sem investigação de uma possível causa tóxica.

Jaqueline Andrade, assessora jurídica da organização Terra de Direitos, afirma que, no caso dos povos indígenas, a subnotificação é alimentada por desinformação e preconceito. Ela conta que, ao questionar oficialmente secretarias municipais de saúde sobre intoxicações do povo Avá-Guarani, no Paraná, ouviu respostas como: “eles fumam cachimbo o dia inteiro” ou “vivem sem saneamento, então não dá para dizer que é agrotóxico”. Ela relata, ainda, que trabalhadores evitam denunciar casos por medo de sofrer retaliações ou perder o emprego.

Na avaliação de Wanderlei Pignati, professor da UFMT, o registro de intoxicações por agrotóxicos esbarra na precariedade da estrutura de saúde do trabalhador pelo país, na pressão de empregadores para que episódios do tipo não sejam notificados oficialmente e na falta de interesse do poder público, que estaria priorizando os retornos econômicos gerados pela comercialização desses produtos.

Savicki ressalta que a subnotificação impede o Estado de medir o impacto real dos agrotóxicos no SUS. A Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) estima que, somente considerando casos agudos, cada dólar gasto com agrotóxicos gera um custo de 1,29 dólar para o sistema de saúde.


Agrotóxicos estão mais tóxicos em todo o mundo, aponta estudo publicado pela Science

Brasil é um dos países longe da meta estabelecida pela ONU

Por Rafael Cardoso para “Agência Brasil” 

O grau de toxicidade dos pesticidas aumentou em todo o mundo de 2013 e 2019, com o Brasil entre os países líderes. A conclusão está em um estudo publicado este mês na revista Science e contraria a meta de redução de riscos dos pesticidas até 2030, estabelecida na 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP15).

Pesquisadores alemães da universidade de Kaiserslautern-Landau avaliaram 625 agrotóxicos em 201 países. Eles utilizaram o indicador de Toxicidade Total Aplicada (TAT), que considera o volume usado e o grau de toxicidade de cada substância.

Seis de oito grupos de espécies estão mais vulneráveis aos níveis crescentes de toxicidade. São eles: artrópodes terrestres (como insetos, aracnídeos e lacraias), cuja toxicidade aumentou 6,4% ao ano; organismos do solo (4,6%), peixes (4,4%); invertebrados aquáticos (2,9%), polinizadores (2,3%) e plantas terrestres (1,9%).

O TAT global diminuiu apenas para plantas aquáticas (−1,7%) e vertebrados terrestres (−0,5% ao ano). Humanos fazem parte desse último grupo.

“O aumento das tendências globais de TAT representa um desafio para o alcance da meta de redução de risco de agrotóxicos da ONU e demonstra a presença de ameaças à biodiversidade em nível global”, diz um dos trechos do estudo.

Brasil em destaque

O Brasil aparece como um dos principais protagonistas desse cenário. O estudo identifica o país como detentor de uma das maiores intensidades de toxicidade por área agrícola em todo o planeta, ao lado de China, Argentina, Estados Unidos e Ucrânia.

Além disso, Brasil, China, Estados Unidos e Índia respondem juntos por 53% a 68% da toxicidade total aplicada no mundo.

A relevância brasileira está diretamente ligada ao peso do agronegócio, especialmente de culturas extensivas. Embora cereais tradicionais e frutas ocupem grandes áreas, a toxicidade associada a culturas como soja, algodão e milho exerce impacto significativamente maior em relação à extensão cultivada.

Tipos de agrotóxicos

Um dos achados mais relevantes do estudo indica que o problema é altamente concentrado: em média, apenas 20 agrotóxicos por país respondem por mais de 90% da toxicidade total aplicada.

O levantamento aponta que diferentes classes químicas dominam os impactos. Classes de inseticidas, como piretroides e organofosforados, contribuíram com mais de 80% do TAT de invertebrados aquáticos, peixes e artrópodes terrestres. Neonicotinoides, organofosforados e lactonas representaram mais de 80% do TAT de polinizadores.

Organofosforados, juntamente com outras classes de inseticidas, foram os que mais contribuíram para os TATs de vertebrados terrestres. Herbicidas acetamida e bipiridil contribuíram com mais de 80% para o TAT das plantas aquáticas, enquanto uma mistura mais ampla de herbicidas (incluindo acetamida, sulfonilureia e outros) definiu o TAT das plantas terrestres. Herbicidas de alto volume, como acetoclor, paraquat e glifosato, pertencem a essas classes e têm sido associados a riscos ambientais e à saúde humana.

Fungicidas conazol e benzimidazol, juntamente com os inseticidas neonicotinoides, ​​aplicados no revestimento de sementes, contribuíram principalmente para o TAT dos organismos do solo.

Meta global distante

O estudo também avaliou a trajetória de 65 países. O diagnóstico é de que, sem mudanças estruturais, apenas um país (Chile) atingirá a meta da ONU de redução de 50% da toxicidade dos pesticidas até 2030.

Segundo os pesquisadores, China, Japão e Venezuela estão no caminho para atingir a meta e apresentam tendências de queda em todos os indicadores. Mas precisam de uma aceleração nas mudanças de uso de agrotóxicos.

Tailândia, Dinamarca, Equador e Guatemala estão se afastando da meta, com pelo menos um indicador dobrando nos últimos 15 anos. Eles precisam reverter as tendências de rápido aumento para voltar a trajetória anterior.

Todos os outros países do estudo, o que inclui o Brasil, precisam retornar os riscos de agrotóxicos aos níveis de mais de 15 anos atrás. O que significa reverter padrões de uso das substâncias consolidadas há décadas, em termos de volume e toxicidade das misturas.

Os pesquisadores indicam três frentes principais para conter a escalada dos riscos: substituição de agrotóxicos altamente tóxicos, expansão da agricultura orgânica e adoção de alternativas não químicas. Tecnologias de controle biológico, diversificação agrícola e manejo mais preciso são apontadas como estratégias capazes de reduzir impactos sem comprometer produtividade.


Fonte: Agência Brasil

Glifosato, condenado nos EUA por relação com câncer, é o agrotóxico mais presente em ultraprocessados no Brasil

De acordo com o Idec, metade dos produtos apresentam substância, que foi detectada em quase um terço das amostras no último relatório do instituto

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Pulverização de agrotóxicos em área agrícola. O glifosato é o herbicida mais utilizado no Brasil e no mundo. Foto: Pexels/Arjun MJ

Por Forum 

A Bayer apresentou nos Estados Unidos uma proposta de acordo que pode chegar a US$ 7,25 bilhões (cerca de R$ 37 bilhões) para encerrar processos judiciais relacionados ao herbicida Roundup. O produto é alvo de milhares de ações movidas por pessoas e é considerado um provável carcinógeno pela Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O plano foi protocolado em um tribunal estadual do Missouri e prevê a criação de um fundo de indenização, com pagamentos distribuídos ao longo de até 21 anos. Para que o acordo seja validado, é necessária a adesão de um número mínimo de autores das ações. Caso a participação seja considerada insuficiente, a empresa poderá retirar a proposta.

No Brasil, o glifosato se tornou ao longo dos anos o herbicida mais usado nas lavouras, principalmente em cultivos de soja transgênica, e o consumo de herbicidas no país mais que dobrou na última década, impulsionado pela expansão agrícola e pela resistência de plantas daninhas, o que consolidou a substância como base da agricultura química nacional.

Entre os anos de 2010 e 2020, o volume de herbicidas ativos comercializados saltou de 157,5 mil para 329,7 mil toneladas por ano, um crescimento de 128%, segundo um estudo realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), realizado em parceria com a Universidade de Rio Verde e publicado na revista científica Agriculture.

Estudos indicam o surgimento de impactos ambientais e potenciais riscos à saúde em áreas de aplicação intensiva, como aumento de mortalidade infantil em localidades próximas a lavouras, e debates sobre limites mais permissivos de resíduos em água potável em comparação com países europeus. No governo de Jair Bolsonaro, a política agrícola foi marcada pela aprovação acelerada de agrotóxicos, e também do glifosato, favorável a sua base eleitoral, o agronegócio, com autoridades defendendo a liberação técnica do uso desses químicos e registrando recordes de novos pesticidas autorizados em poucos anos, muitos dos quais são proibidos ou restritos em outras regiões.

Glifosato em ultraprocessados e água

Resíduos de glifosato foram identificados em alimentos ultraprocessados no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).  Foi identificada na pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote” a presença de agrotóxicos em metade das amostras: das 24 avaliadas, 12 apresentaram resíduos dessas substâncias, sendo o glifosato o mais recorrente, detectado em 7 produtos.

O estudo também apontou que a farinha de trigo, ingrediente comum em itens como empanados, biscoitos e macarrão instantâneo. continua sendo uma das principais fontes de contaminação. Entre as categorias analisadas, apenas os produtos do tipo petit suisse não apresentaram resíduos de agrotóxicos em nenhuma das amostras testadas.

Além disso, o Brasil detém a maior reserva de água doce superficial do mundo, representando aproximadamente 12% do total global. Além disso, abriga a maior floresta úmida, a Amazônia, e vastas extensões de áreas continentais alagadas, como o Pantanal e o Araguaia, e extensas bacias hidrográficas espalhadas pelo território. O país figura entre os principais consumidores globais de agrotóxicos.

Isso aponta para o risco de contaminação das principais reservas hídricas do país e um impacto significativo na diversidade biológica. Segundo estatísticas mais recentes, a agricultura irrigada responde por 66,1% do total de águas superficiais e subterrâneas utilizadas no Brasil, totalizando 83 bilhões de litros diários. Considerando também o consumo voltado para a pecuária, a proporção se eleva para 77,7%.

De acordo com um estudo publicado pelo Atlas dos Agrotóxicos em dezembro de 2023, na contaminação das águas, “as substâncias tóxicas podem impactar tanto as águas superficiais quanto as subterrâneas por meio da lixiviação, um processo de ‘lavagem’ do solo no qual nutrientes e elementos químicos são transportados para os corpos hídricos. Além disso, a percolação, que é o movimento da água através do solo, contribui para o fluxo dessas substâncias em direção aos reservatórios subterrâneos”, destaca estudo.

A presença de contaminação é influenciada também por características como o tipo de solo, clima, padrões de uso e ocupação do solo, e as propriedades físico-químicas dos compostos utilizados. Os agrotóxicos podem percorrer  extensas distâncias por meio de processos como a evapotranspiração, que é a conversão da água em vapor da superfície terrestre para a atmosfera, e pela ação dos ventos. A água evaporada é transportada pelos ventos, alimentando as precipitações em diversas regiões, fenômeno conhecido como “rios voadores”.

Apesar do Brasil dispor do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiágua), responsável por investigar a presença de agrotóxicos e outros parâmetros nos municípios do país, a pesquisa ressalta que há uma escassez de estudos analíticos sobre a presença de contaminantes agrotóxicos nas águas, principalmente por dificuldades financeiras e logísticas.

Combinações de agrotóxicos são comumente detectadas em pesquisas científicas e análises do Vigiágua, mas os efeitos da exposição a essas misturas ainda são pouco explorados e inadequadamente incorporados às legislações que estabelecem os parâmetros para o monitoramento de agrotóxicos na água no país. “Além disso, há limitações normativas quanto ao monitoramento de agrotóxicos em água. Uma delas refere-se ao baixo número de parâmetros de agrotóxicos previstos para serem monitorados pelos Ministérios da Saúde (MS) e do Meio Ambiente”, diz trecho do documento.

Entre 2018 e 2021, a análise de 41.780 amostras revelou que em menos de 10% das detecções os resultados ultrapassaram o limite de quantificação. A atrazina, metolacloro, glifosato e 2,4-D foram os agrotóxicos mais frequentemente quantificados. Contudo, um percentual significativamente maior de agrotóxicos foi identificado em níveis não quantificáveis, sugerindo a possibilidade de limitações nas técnicas analíticas em uso, sem necessariamente indicar a ausência de riscos.

Outra pesquisa, realizada pelo Pesticide Atlas em 2022, fez uma comparação da concentração de glifosato em águas potáveis brasileiras e europeias. A substância da Bayer defendida pelos agricultores é de alto risco e foi liberada pelo governo Bolsonaro ainda na pandemia, em 2020, permanecendo em uso por quatro anos.

No estudo, foi constatado que o Brasil permite quantidades de glifosato maiores na água em relação à União Europeia. Enquanto aqui são permitidos 500 microgramas por litro, nos países europeus, por litro, é liberado apenas 0,1 micrograma, o que revela uma quantidade 5 mil vezes maior de autorização da substância tóxica no Brasil.

Quando surgiu o glifosato?

O herbicida foi desenvolvido na década de 1970 pela Monsanto, multinacional norte-americana que se tornou uma das principais referências globais na produção de insumos agrícolas. Antes, a substância foi descoberta em 1950 pelo químico suíço Henri Martin e, inicialmente, era usada como produto de limpeza de metais. A empresa também esteve envolvida na fabricação de produtos químicos militares décadas antes, como na Guerra do Vietña, o que contribuiu para os impactos da indústria química. Com o sucesso comercial do glifosato após sua associação a sementes geneticamente modificadas, o produto se tornou o herbicida mais utilizado no mundo, tamanho que a empresa lançou o produto Roundup.

Em 2018, a Bayer, conglomerado alemão do setor farmacêutico e químico, concluiu a compra da Monsanto por US$ 63 bilhões. Desde então, o glifosato passou a integrar o portfólio da Bayer, que mantém a comercialização do herbicida em diversos países. Ao mesmo tempo, a empresa enfrenta disputas judiciais e pressão de organizações de saúde e ambientais. Parte dessas preocupações decorre de estudos científicos que apontam associação entre a exposição prolongada ao glifosato e maior risco de determinados tipos de câncer, embora o debate científico não seja unânime e haja divergências entre agências regulatórias sobre o grau de risco e a relação causal direta. Além do setor agrícola, o grupo Bayer também atua na produção de medicamentos, incluindo tratamentos oncológicos, fato citado por críticos como exemplo das contradições presentes no modelo de negócios de grandes conglomerados químicos e farmacêuticos.


Fonte: Forum

Professor da USP denuncia lobby do agronegócio para censurar livros didáticos e ocultar consenso científico

Daniel Cara alerta que setor pressiona editoras a substituir ‘agrotóxico’ por ‘defensivo agrícola’ e omitir impactos

PRESSÃO DO AGRO ALTERA CONTEÚDOS DE LIVROS ESCOLARES, DENUNCIAM EDITORES  Desmatamento, mudanças climáticas e agrotóxicos são alguns dos temas na  mira do agronegócio, que busca imagem 'mais positiva'; Ofensiva sobre  editoras é

Por José Bernardes e Tabitha Ramalho para “Jornal Brasil de Fato” 

As salas de aula enfrentam uma nova batalha silenciosa, segundo o professor Daniel Cara, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Ele revela que editoras de livros didáticos estão sendo pressionadas por lobistas do agronegócio a substituir termos científicos consolidados, como “agrotóxico”, por eufemismos como “defensivo agrícola”. A investida, que já acontecia no Congresso Nacional, agora foca diretamente no mercado editorial.

A denúncia foi originalmente sistematizada pelas professoras Andressa Pellanda e Marcele Frossá, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, e revela uma escalada na estratégia do setor. “Esse lobby pulou o Poder Executivo e chegou diretamente à pressão empresarial. É a pressão dos empresários do agronegócio sobre os empresários das editoras”, explica.

Cara lembra que, em 2024, esteve na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, ao lado de comunidades quilombolas, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), denunciando o lançamento de agrotóxicos sobre escolas no campo. “Uma crítica como essa não vai poder estar retratada num livro de geografia, biologia ou história? Isso demonstra o espaço e o poder que a extrema direita nunca deixou de disputar”, afirmou.

Para Cara, o ataque à escola e o ataque ao conhecimento científico são faces da mesma moeda. “A escola é o principal espaço de sociabilidade dos jovens. É lá que se aprende a conviver com a diferença, a questionar, a duvidar. Por isso é o alvo preferencial.”

Ele adverte que, se a esquerda muitas vezes abandona a disputa pedagógica, a extrema direita nunca a negligencia. “O livro didático é o material curricular efetivo da maioria das escolas brasileiras, graças ao gigante Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Controlá-lo é controlar o que se ensina.”

O professor conclui com um chamado à vigilância. “Vivemos sob alto uso de agrotóxicos e baixíssima soberania alimentar. O que existe de positivo se deve aos movimentos sociais. O consenso científico não é pacífico, precisa ser disputado todos os dias. E a escola é o território central dessa disputa.”


Fonte:  Jornal Brasil de Fato