Novo estudo avança conhecimento da ciência ao relacionar a exposição a agrotóxicos ao câncer

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Por Carey Gillam para “The New Lede”

Um novo estudo sobre a exposição a agrotóxicos no Peru revela uma associação mecânica entre a exposição e o câncer, e demonstra como “misturas complexas de agrotóxicos” podem contribuir para o desenvolvimento de câncer em pessoas, mesmo em níveis de exposição atualmente considerados seguros.

Os autores do estudo, publicado na Nature Health , afirmaram que as descobertas questionam as abordagens toxicológicas clássicas, baseadas na avaliação de substâncias isoladas e no estabelecimento de limites de segurança, e demonstram a importância de se analisar os impactos de misturas de múltiplos agrotóxicos.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e outras agências reguladoras ao redor do mundo normalmente avaliam os agrotóxicos individualmente e não em combinação, uma prática que tem sido alvo de críticas.

“Há muito tempo presumimos que os riscos dos pesticidas são avaliados individualmente, mas, na realidade, as pessoas estão constantemente expostas a misturas complexas em seu ambiente cotidiano — e nossas descobertas sugerem que essa realidade negligenciada pode ser um componente importante do risco de câncer”, disse o coautor do estudo, Stephane Bertani, diretor de pesquisa em biologia molecular do Instituto Francês de Pesquisa Científica Internacional (IRD).

Além do IRD, a equipe de pesquisa incluiu cientistas do Instituto Pasteur e do Instituto Nacional de Doenças Neoplásicas (INEN).

A equipe afirmou que seu estudo é o primeiro a destacar os mecanismos biológicos pelos quais a exposição a agrotóxicos pode contribuir para o desenvolvimento de certos tipos de câncer.

Os pesquisadores se concentraram no Peru, combinando dados ambientais com informações sobre mais de 150.000 pessoas diagnosticadas com câncer entre 2007 e 2020, contidas em registros nacionais de câncer, e análises biológicas.

O estudo envolveu o mapeamento das áreas do Peru mais expostas à contaminação por agrotóxicos entre 2014 e 2019. Os autores afirmaram ter descoberto que certos tumores, mesmo aqueles que afetam diferentes órgãos, compartilham vulnerabilidades biológicas comuns ligadas à sua origem celular, que podem ser enfraquecidas pela exposição a agrotóxicos.

“Análises moleculares realizadas em tecido hepático, um órgão fundamental no processamento de substâncias químicas e considerado um indicador de exposição ambiental, mostram que os agrotóxicos interferem nos mecanismos que mantêm a identidade celular e o funcionamento normal”, afirma um comunicado de imprensa que acompanha o novo estudo.

“Essas alterações biológicas surgem antes do desenvolvimento do câncer, sugerindo efeitos precoces, cumulativos e silenciosos. Elas podem tornar os tecidos mais vulneráveis ​​a outros fatores, como infecções, inflamações ou fatores ambientais”, afirma o comunicado à imprensa.

Bruce Lanphear, professor de ciências da saúde na Universidade Simon Fraser, afirmou que o estudo representa um passo na “direção certa” em termos de análise de misturas de agrotóxicos, exposições no mundo real e plausibilidade biológica, mas “não chega a demonstrar que os agrotóxicos são a causa dos padrões de câncer observados”.

“O próximo passo é simples, embora não seja fácil: medir a que as pessoas estão realmente expostas e acompanhá-las ao longo do tempo”, disse Lanphear. “Isso significa combinar o biomonitoramento com estudos de coorte ou de caso-controle, levando em consideração outros fatores de risco importantes e relacionando as exposições individuais a alterações biológicas precoces e doenças.”

O estudo incluiu informações sobre a exposição a 31 agrotóxicos diferentes, incluindo atrazina, glifosato e 2,4-D – todos herbicidas de uso comum; bem como clorpirifós, imidaclopride e permetrina – inseticidas de uso comum. Ao todo, 19 inseticidas, 7 fungicidas e 5 herbicidas fizeram parte do estudo. Nenhum deles é atualmente classificado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer como carcinogênico, embora vários sejam classificados como provavelmente ou possivelmente carcinogênicos.

Nos Estados Unidos, dezenas de milhares de pessoas processaram a Monsanto, fabricante do glifosato, e sua proprietária, a Bayer, alegando que a exposição a produtos à base de glifosato causou o desenvolvimento de câncer. A Suprema Corte dos EUA deve analisar, no final de abril, um recurso da Bayer no qual a empresa argumenta que não deve ser responsabilizada por não alertar sobre os riscos de câncer, caso a Agência de Proteção Ambiental (EPA) não tenha exigido tais advertências.

Análises realizadas por dois grupos de saúde pública sem fins lucrativos constataram, no entanto, que a EPA tem um histórico de não exigir avisos sobre o risco de câncer em agrotóxicos, mesmo quando a própria agência determina que os ingredientes de um produto são cancerígenos.

Imagem em destaque por Dibakar Roy  no  Unsplash.


Fonte: The New Lede

Observatório dos Agrotóxicos: No dia do Golpe de 1964, governo Lula libera mais 48 agrotóxicos

O governo Lula continua em sua marcha firme para quebrar todos os recordes de aprovação de agrotóxicos na história, no melhor estilo do “nunca antes na história desse país”.  É que hoje (31/03) o Diário Oficial da União publicou o Ato Nº 16, de 27 de março 2026 liberando mais 48 agrotóxicos do tipo “Produto Técnico”.  Com isso, o governo Lula superou o número de aprovações de agrotóxicos realizadas durante o mandato de Jair Bolsonaro.

Em um rápido exame dos produtos aprovados, o que temos é um museu de velhas novidades, a maioria produzida por empresas chinesas, fato que confirma uma trajetória de trocas de desiguais com o principal comprador de soja brasileira. Há que se lembrar que a cultura da soja consome sozinha quase 60% dos agrotóxicos consumidos no Brasil, sendo o principal vetor de contaminação ambiental da agricultura brasileira.

Curiosamente a publicação do Ato Nº 16 se dá no mesmo dia do golpe militar de 1964, o que confirma a continuidade da herança química do regime militar que adotou diversas medidas para garantir o crescimento do consumo de agrotóxicos no Brasil que até aquele período era insignificante. Com isso, temos uma continuidade do legado químico da ditadura militar sob a batuta de um governo que se pretende de esquerda.

Iowa registra alta de câncer e coloca agroquímicos sob suspeita

Por Brian Bienkowski para “The New Lede” 

Os habitantes de Iowa estão sofrendo com taxas mais altas de mais de uma dúzia de tipos de câncer ligados a agrotóxicos e poluentes do que o resto do país, e pesquisadores afirmam que o risco da exposição a pesticidas por si só pode rivalizar com o do tabagismo, de acordo com um novo relatório.

Iowa tem a segunda maior taxa de câncer do país e é um dos três únicos estados onde a incidência de câncer está aumentando , de acordo com os Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Para muitos tipos de câncer, os números do estado superam em muito as médias nacionais. Por exemplo, a taxa de câncer de próstata em Iowa é de 129 pessoas por 100.000 habitantes, em comparação com a média dos EUA de 116 pessoas. A taxa de câncer de mama no estado é de 137 pessoas por 100.000 habitantes, em comparação com a média dos EUA de 131 pessoas. 

A taxa geral de câncer no estado é de 498 pessoas por 100.000 habitantes — 10% maior que a taxa nacional.

“Isso está afetando todos os cantos do estado. Não há limites… Democratas, Republicanos, áreas urbanas e rurais”, disse Sarah Green, diretora executiva do Conselho Ambiental de Iowa (IEC), que publicou o novo relatório em conjunto com o Instituto Harkin, um instituto de pesquisa de políticas públicas localizado na Universidade Drake, em Iowa. 

Os pesquisadores analisaram dados sobre câncer e poluição, bem como pesquisas científicas existentes, realizaram sessões de escuta com moradores de Iowa ao longo do último ano e restringiram o relatório a quatro riscos ambientais: agrotóxicos, substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS), nitratos e radônio, devido à sua presença generalizada no estado. 

O relatório constatou que 13 dos 16 tipos de câncer — incluindo câncer de mama, câncer cerebral, linfoma não Hodgkin e câncer de próstata — que estão ligados à exposição a pesticidas, substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS), nitrato e radônio, afetam os habitantes de Iowa em taxas muito mais altas do que a população dos EUA, de acordo com os dados mais recentes.

“Iowa se destaca como um caso atípico em comparação com a maioria dos outros estados em termos de exposição a esses fatores de risco ambiental”, afirma o relatório. 

Os resultados surgem num momento em que políticos estaduais e autoridades de saúde pública expressam crescente preocupação com o aumento das taxas de câncer no estado e buscam respostas. Enquanto alguns moradores e defensores da saúde e do meio ambiente apontam para os agrotóxicos, grupos do setor agrícola e seus aliados políticos defendem o uso de pesticidas e fertilizantes como seguro.    

“Iowa se destaca como um caso atípico em comparação com a maioria dos outros estados em termos de exposição a esses fatores de risco ambiental.” 

Os autores do relatório enfatizaram que o câncer é complexo e não pode ser atribuído a um único fator, mas afirmaram que suas pesquisas sugerem que a grande quantidade de pesticidas, fertilizantes, esterco e outros poluentes provavelmente está causando doenças nos habitantes de Iowa. 

“Temos um dos maiores índices de uso de agrotóxicos em todo o país e também alguns dos níveis mais altos de nitrato em nossos cursos d’água”, disse Adam Shriver, coautor do relatório e diretor de políticas de bem-estar e nutrição do Instituto Harkin. “Esses produtos químicos provavelmente estão desempenhando um papel bastante significativo na crise de Iowa.” 

Produtos químicos agrícolas e câncer 

Iowa possui quase 87.000 fazendas , sendo o primeiro estado produtor de milho, carne suína e ovos. Também está entre os cinco principais estados produtores de soja e pecuária. Dos 35,7 milhões de acres de terra de Iowa, aproximadamente 31 milhões são dedicados à agricultura , e o estado sofre há muito tempo com o excesso de pesticidas, fertilizantes e esterco que contaminam seus cursos d’água. 

O novo relatório focou nos três agrotóxicos mais usados ​​em Iowa: glifosato, acetoclor e atrazina. O estado está rotineiramente entre os cinco principais estados no uso desses três agrotóxicos, e o relatório constatou que eles estão ligados a vários tipos de câncer que estão aumentando em Iowa, incluindo câncer de pâncreas, oral, renal e de mama.

“O impacto do uso de pesticidas na incidência de câncer pode ser semelhante ao do tabagismo”, escreveram os autores. Eles alertaram que muitos outros agrotóxicos são usados ​​no estado, e que muitos deles provavelmente também contribuem para as taxas de câncer, além de haver um efeito “combinado” devido à exposição das pessoas a diversos tipos de pesticidas.

O relatório também abordou um dos contaminantes mais frequentes em Iowa: o nitrato, uma forma de nitrogênio usada como fertilizante e também associada a alguns tipos de câncer. Pesquisas científicas mostram que a exposição ao nitrato está ligada a vários tipos de câncer, incluindo o câncer de rim, cuja incidência está aumentando em Iowa. O contaminante também está associado a cânceres de bexiga e de ovário que, embora não estejam aumentando em Iowa, estão presentes no estado em níveis muito mais altos do que nos Estados Unidos em geral. 

Fertilizantes agrícolas e esterco provenientes de grandes operações pecuárias são as principais fontes de nitratos . Iowa é o estado com o maior número de operações concentradas de alimentação animal (CAFOs, na sigla em inglês) nos Estados Unidos. Além disso, bilhões de quilos de fertilizantes sintéticos são aplicados em plantações todos os anos, causando problemas generalizados de poluição da água. Por exemplo, os rios Des Moines e Raccoon, em Iowa, estão entre o 1% dos rios com maior concentração de nitratos no país, segundo o relatório, sendo que 80% da contaminação provém da agricultura. 

No entanto, alguns agricultores do estado veem a redução da poluição agrícola como uma vitória econômica e para a saúde pública. Matthew Bormann, que cultiva em Iowa há mais de um quarto de século, começou a aplicar nitrogênio apenas na época certa (quando as plantas o absorvem), a fazer rotação de culturas de cobertura para melhorar o solo e a reduzir a quantidade de aração que realiza em suas plantações de milho e soja há cerca de 15 anos. 

“Isso facilitou muito o nosso trabalho na agricultura”, disse ele, acrescentando que as mudanças melhoraram a saúde do solo, reduziram a erosão e diminuíram a quantidade de fertilizantes que escoam para os cursos d’água.

Bormann, que faz parte do grupo agrícola The Lobe Rangers (nomeado em homenagem à região de Des Moines Lobe, onde cultiva), deixa claro que não é um ativista, mas sim um agricultor que deseja ajudar a liderar mudanças no estado. 

“Precisamos que os agricultores adotem práticas para melhorar a qualidade da água, e não estamos vendo isso na escala necessária”, disse ele. 

Grupos do setor agrícola de Iowa têm resistido a regulamentações mais rigorosas sobre o esterco animal, o uso de pesticidas ou fertilizantes, alegando que são ferramentas essenciais para o cultivo e que sua segurança já foi comprovada. O Iowa Farm Bureau e a Iowa Corn Growers Association não responderam aos pedidos de comentários sobre a possível ligação entre produtos químicos agrícolas e o câncer. 

“Os agricultores muitas vezes se sentem tão presos a esse sistema quanto o resto de nós”, disse Colleen Fowle, diretora do programa de água do IEC e coautora do relatório. “Os agricultores nem sempre sentem que têm a capacidade de tomar as decisões que desejam para suas próprias terras.” 

Inação política   

A prevalência do câncer em Iowa está influenciando a política estadual, com legisladores de ambos os partidos debatendo a crise. A agricultura contribui com cerca de US$ 159,5 bilhões para a economia do estado – aproximadamente um terço da produção econômica total de Iowa, segundo o Iowa Farm Bureau. 

A governadora de Iowa, Kim Reynolds
A governadora de Iowa, Kim Reynolds, em seu discurso sobre a situação do estado em janeiro.

Durante seu discurso sobre o Estado da União em janeiro, a governadora Kim Reynolds, republicana, afirmou: “Todos os anos, mais de 20.000 habitantes de Iowa são diagnosticados com essa doença terrível. Todos nesta sala foram afetados por ela de alguma forma”. Ela prosseguiu enfatizando a importância dos exames de detecção precoce na luta contra o câncer e promovendo a iniciativa “Cidades Saudáveis” do estado, que fortalecerá os centros de tratamento do câncer e “financiará os oncologistas, os equipamentos e a tecnologia médica avançada necessários para fornecer esse tratamento especializado”.

Os legisladores democratas do estado têm se mostrado mais dispostos a apontar os pesticidas e a poluição agrícola como prováveis ​​causas das taxas de câncer no estado.

“Este relatório corroborará o que a maioria dos habitantes de Iowa já sabe instintivamente: um dos principais fatores que impulsionam nossa crise de câncer está em nosso meio ambiente”, disse o médico e representante estadual Austin Baeth.

Baeth afirmou que a única iniciativa legislativa estadual recente sobre substâncias cancerígenas ambientais foi relacionada à mitigação do radônio.

“Neste momento, minha tarefa é fazer com que meus colegas do lado republicano admitam que existe, de fato, um problema de poluição da água”, disse ele. O jornal The New Lede entrou em contato com o deputado estadual republicano Dean Fisher, que preside a comissão de proteção ambiental do estado, mas não obteve resposta. 

O Instituto Harkin e o IEC não são os únicos grupos no estado que investigam as causas do câncer. No início deste mês, pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Iowa apresentaram informações preliminares de uma parceria de um ano com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do estado para entender melhor a alta taxa de câncer em Iowa. Os pesquisadores enfatizaram que o estudo, que ainda está em andamento, sugere que não há uma única razão para o aumento das taxas. No entanto, eles disseram aos legisladores estaduais que regulamentações mais rigorosas sobre pesticidas provavelmente ajudariam a reduzir as taxas de câncer no estado. 

“Neste momento, minha tarefa é fazer com que meus colegas do lado republicano admitam que existe, de fato, um problema de poluição da água.” – Austin Baeth, representante estadual de Iowa

Além disso, na semana passada, uma nova análise da Food & Water Watch associou o uso intensivo do herbicida glifosato a taxas elevadas de linfoma não Hodgkin (LNH), particularmente no Centro-Oeste dos Estados Unidos. Um mapa dos pontos críticos mostra aglomerados de taxas de LNH especialmente altas em muitas partes de Iowa. 

Apelos por monitoramento e controle da poluição  

O novo relatório oferece diversas sugestões para ajudar a aliviar o fardo do câncer no estado, incluindo limites mais rigorosos para a poluição da água, monitoramento reforçado da água e mais pesquisas sobre câncer e riscos ambientais. 

“Deveríamos estar financiando a rede de monitoramento da água e medindo os níveis de nitratos e agrotóxicos em nossos cursos d’água”, disse Shriver. “A legislatura estadual basicamente cortou esse financiamento há dois anos… então é meio absurdo dizer ‘não temos informações suficientes’ ao mesmo tempo em que se corta o fluxo de mais informações.” 

O relatório também apresenta recomendações políticas específicas para reduzir o nível máximo atual de contaminante nitrato de 10 mg/L (miligramas por litro) na água potável e para adotar as diretrizes federais implementadas há mais de uma década — que Iowa nunca adotou — que limitam os agentes cancerígenos na água e nos tecidos dos peixes.

Bormann afirmou que as medidas voluntárias atuais voltadas para os agricultores — como a estratégia estadual de redução de nutrientes — não estão funcionando.

“A agricultura é um negócio onde as pessoas se acomodam e não precisam mudar porque estão confortáveis ​​com a situação atual”, disse ele. “Se os agricultores tivessem que mudar suas práticas para se qualificarem para o seguro agrícola ou para os pagamentos de programas agrícolas, veríamos uma mudança no cenário da noite para o dia.”

Imagem em destaque: Getty Images/Unsplash + 


Fonte: The New Lede

21 anos de transgênicos no Brasil: uso de agrotóxicos cresce 300%

Por Paulo Brack para “Via Biodiversa”

Introdução

Em 24 de março de 2026 completaram-se 21 anos da Lei 11.105/2005, a chamadaLei de Biossegurança, que permitiu a liberação dos transgênicos no Brasil. Entre os principais argumentos para essa aprovação estavam o suposto favorecimento da produção de culturas vegetais, em especial de grãos como a soja e o milho, com uma alegada diminuição do uso de agrotóxicos, principalmente herbicidas e inseticidas, além de um prometido benefício de qualidade de alimentos, o que nunca aconteceu.  Nossa crítica segue sempre ainda mais comprovada, como já ocorreu em outras ocasiões, nos 10 anos da referida Lei, e também nos 20 anos de retrocessos, em artigo no Sul21, em 2025, pelo Movimento Ciência Cidadã (MCC) e também em reportagem do Brasil de Fato.

É importante lembrar que a tecnologia dos organismos geneticamente modificados (OGMs) incorpora a engenharia genética, onde parte de genes de um organismo diferente, inclusive de reinos distintos (ex. de uma bactéria) seria inserido em plantas e animais de outras espécies ou grupos para o que se chama de “melhoramento” genético, porém com grau de artificialização no código genético de seres vivos, o que vai contra o Princípio da Precaução.  

A transgenia foi desenvolvida e permanece em variedades comerciais prioritárias para o agronegócio, visando de forma reducionista a resistência de plantas, em especial soja, milho e algodão, a herbicidas (inicialmente com resistência de soja e milho GMs ao herbicida glifosato) e a insetos (com a incorporação de evento transgênico do Bacillus thurigiensis, Bt, com potencial inseticida a lagartas). Houve também o desenvolvimento de microrganismos transgênicos, para usos como vacinas ou leveduras, o que representava, de certa forma, algum controle inicialmente em pesquisas confinadas, neste caso, a laboratórios.

Entretanto, no que toca principalmente às culturas agrícolas, desde a pesquisa no campo até a liberação comercial, os riscos ultrapassam o confinamento de laboratórios. As plantas GMs também se multiplicam, em novas gerações transgênicas, acarretando contaminação genética a plantas convencionais, não GMs, em todos os setores de sua cadeia de comercialização (caminhões, silos, etc.) e também no campo.

As críticas centrais aos OGMna agricultura eram muitas e proviam de vários setores, desde os agricultores agroecológicos, consumidores, parte da academia e movimentos ambientalistas, que destacavam os efeitos colaterais dos transgênicos, hoje confirmados, tais como: 1) risco de os organismos alvo adquirirem resistência aos principais herbicidas, ou mesmo insetos tornarem-se inócuos às plantas transgênicas Bt, gerando a necessidade de outras tantas variedades geneticamente modificadas e, o pior, induzindo o crescimento do uso de agrotóxicos, seja em quantidade ou em tipos mais potentes e ainda mais tóxicos e com aumento de intoxicações; 2)  contaminação de sementes convencionais ou crioulas, já que não há mecanismos de controle efetivo da segregação entre as sementes ou plantas transgênicas e não transgênicas; 3) concentração e controle ainda maior das novas variedades de sementes pelo oligopólio mundial de empresas que dominam essas tecnologias, de sementes e agroquímicos praticamente em venda casada, com a cobrança de royalties, encarecendo o custo da produção; e 4) aumento do potencial de efeitos adversos à saúde de pessoas, aos animais e aos ecossistemas.

Um pouco do histórico dos transgênicos no Brasil

Inicialmente, no início do milênio, ardorosos defensores do uso desta tecnologia garantiam que as culturas vegetais alimentícias teriam melhor qualidade nutricional por meio dos transgênicos e que estes trariam diminuição do uso de agrotóxicos, sem falar que o país ganharia em avanços de ciência e tecnologia nacionais e que empresas nacionais se desenvolveriam no ramo, com benefícios para o país. Estas e outras promessas, nunca cumpridas, há mais de 20 anos eram motivos para os seus defensores acusarem os opositores aos OGMs como representantes do “atraso”.

De qualquer forma, cabe destacar que avanço da transgenia, o que também caracteriza ataque à biossegurança brasileira, correspondeu ao controle de empresas multinacionais de biotecnologia, há cerca de 30 anos, com a aprovação da primeira Lei de Biossegurança (Lei nº 8.974, de 1995). Esta Lei foi aprovada sem grande atenção pública, pois pouco se conhecia sobre o assunto na época. Aquela aprovação fez parte da estratégia de transnacionais se inserirem no país, garantindo maior segurança jurídica aos seus negócios. Na ocasião, o Brasil não havia aderido comercialmente à tecnologia, ao contrário de outros grandes produtores mundiais de soja, como EUA e Argentina.

Inicialmente, a Monsanto celebrou um convênio com a Embrapa, garantindo para si a propriedade intelectual da tecnologia, enquanto a Embrapa ficaria com alguns registros dos cultivares transgênicos. O tão esperado avanço das pesquisas nacionais não ocorreu, já que mais de 90 % das culturas vegetais transgênicas utilizadas na alimentação são propriedade de um oligopólio de empresas transnacionais.

Em 1996, um ano após a aprovação da primeira Lei de Biossegurança, foi criada a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), prevista inicialmente para analisar a liberação de experimentos com transgênicos, vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). O fato da CTNBio estar ligada a esse ministério, e não aos ministérios de Meio Ambiente ou da Saúde, fortaleceu uma visão de desenvolvimento tecnológico produtivista, impedindo-se a possibilidade de o processo de liberação estar submetido ao Ibama e/ou à Anvisa, já que o tema da biossegurança deveria ter sido compartilhado pelos órgãos públicos de controle de meio ambiente e da saúde. Esse vínculo da CTNBio ao MCT, com um colegiado onde atuam em maior número os membros de setores do governo ou pesquisadores representantes de universidades e centros de pesquisa que desenvolvem transgênicos, criou um conflito de interesses incontornável

Nestas três décadas, contando com a primeira Lei de Biossegurança (1995), sempre foram hegemônicos os interesses do desenvolvimento científico e tecnológico para a produção de transgênicos, mesmo que um número reduzido de membros tivesse representantes da sociedade ou dos Ministérios de Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário, resistentes a essas liberações. Em todo o histórico da CTNBio, sua composição de membros reforçava essa abordagem técnico-produtivista, na medida em que geneticistas e biotecnólogos ocupavam as vagas de membros que poderiam ser, verdadeiramente, especialistas em biossegurança. Ademais, a Comissão nunca teve espaço de debate sobre os riscos da tecnologia, ao contrário, praticamente nunca negou as mais de uma centena e meia de aprovações de OGMs. 

Na primeira década de criação, as reuniões plenárias da CTNBio eram fechadas ao público, e sempre com presença dominante de representantes do setor interessado no desenvolvimento de transgênicos, “de interesse científico e tecnológico nacional”. Neste cenário, antes mesmo das liberações comerciais, os experimentos com eventos transgênicos eram e seguem sendo aprovados sem estudos necessários dos potenciais impactos à saúde e ao meio ambiente.

A safra pirata

O debate começou a ganhar alguma relevância pública em 1997, quando a CTNBio autorizou a importação de soja e farelo transgênicos. No dia 14 de dezembro de 1997, o Greenpeace, contestando àquela decisão, impediu o atracamento do navio Sanko Robust, de bandeira norte-americana, que trazia 34,5 mil toneladas de soja transgênica para o porto de São Francisco, no Estado de Santa Catarina.

Naquele mesmo ano, o Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) e o Greenpeace realizaram a abertura de primeira ação judicial contra os transgênicos no Brasil. A sociedade civil, alertada sobre o tema, iniciou mobilizações e cobranças às autoridades governamentais. No mesmo período, em 2002, surgiram denúncias comprovadas quanto à presença de extensas áreas cultivadas ilegalmente, no Rio Grande do Sul, com sementes de soja transgênica contrabandeadas da Argentina.

Esses são alguns dos marcos iniciais relacionados à constituição da frente Por Um Brasil Livre de Transgênicos. A iniciativa articulou ecologistas, agroecologistas, agricultores familiares, consumidores, cientistas, ativistas e pesquisadores posicionados contrariamente à proliferação sem controle e sem limites de OGMs.

Quando se intensificava a oposição às multinacionais da biotecnologia e do agronegócio, foi aprovada uma Medida Provisória 131/2003, transformada na Lei 10.814/2003 que, contrariando a opinião pública e atendendo interesses do agronegócio e às empresas do setor, permitiu a colheita e a comercialização da soja transgênica plantada ilegalmente com sementes contrabandeadas naquele período, principalmente da Argentina para o Rio Grande do Sul.

Na sequência, o  governo Lula se comprometeu a revisar a Lei de Biossegurança. Inicialmente, se previa a participação da Anvisa, do Ibama e do Ministério da Agricultura para autorizar e proceder o registro dos transgênicos a fim de garantir isonomia de competência dos ministérios, mesmo após a CTNBio recomendar a aprovação de OGMs. Desta forma, havia a possibilidade de a liberação dos transgênicos ser impedida por qualquer dos órgãos reguladores. Infelizmente, a pressão econômica derrubou esta possibilidade, mesmo após período de intensas negociações entre os ministérios e a sociedade civil. A nova Lei de Biossegurança de 2005 jogou por terra a obrigatoriedade de estudos de impacto ambiental, que deveriam ser conduzidos pelo Ibama, pois o enquadramento como agente de alteração ambiental dava amparo na Constituição Federal e na Política Nacional de Meio Ambiente (Lei n. 6938/1981), bem como o poder de veto, por parte da Anvisa e do Ibama, foram retirados da lei.

As decisões da CTNBio passaram a ser “vinculantes”, ou seja, na prática as recomendações da Comissão adquiriram poder de lei. Como agravante, o eventual veto previsto no Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS), formado por ministros de pastas envolvidas com o tema, nunca se cumpriu, até porque este Conselho reuniu-se poucas vezes, somente nos primeiros anos da Lei de 2005. As recomendações “técnicas” pela aprovação de transgênicos pela Comissão adquiriam status de imposição política, sem nenhum espaço para o contraditório. 

Em 2003, os Professores Rubens Nodari e Pedro Guerra já haviam alertado:  “As biotecnologias modernas são ferramentas de grande potencial de reprogramação dos seres vivos. Contudo, o maior problema na análise de risco destes organismos gerados pela biotecnologia é que seus efeitos não podem ser previstos em sua totalidade. Os riscos à saúde humana incluem aqueles inesperados, alergias, toxicidade e intolerância. No ambiente, as consequências são a transferência lateral de genes, a poluição genética e os efeitos prejudiciais a organismos não-alvo. O princípio da equivalência substancial, até agora utilizado, deveria ser abandonado em favor de um [estudo] cientificamente embasado. Com a aprovação em janeiro de 2002 do Protocolo Internacional de Biossegurança, o princípio da precaução foi estabelecido como básico e a rotulagem tornou-se obrigatória. A percepção pública obriga empresas e cientistas a um maior uso da ciência na análise de risco antes do consumo destes alimentos”.

Mudanças posteriores na legislação, por meio de Instruções Normativas da própria CTNBio, flexibilizaram ainda mais a liberação de transgênicos, reduzindo exigências ambientais e validando análises predominantemente baseadas em estudos das próprias empresas, com amostragens inadequadas e insuficientes, sem contar a ausência de plano de monitoramento, que deveria ser realizado por setor independente, e de estudos quanto à avaliação de riscos. Avançou, além disso, o plantio de OGMs em zonas de amortecimento de Unidades de Conservação, em Áreas Prioritárias para a Biodiversidade e contaminação de sementes crioulas em Terras Indígenas e territórios de comunidades tradicionais. Entre tantos agravantes, foi  alterado para menos o quórum mínimo para decisões da CTNBio, de maneira a assegurar maioria permanente de votos favoráveis à liberação de OGMs. 

Totalitarismo tecnológico, oligopólio de sementes geneticamente modificadas e as liberações comerciais de culturas transgênicas

Segundo Sílvia Ribeiro, jornalista e ativista uruguaia do Grupo ETC, o oligopólio mundial das empresas produtoras de transgênicos é formado por Bayer-Monsanto, Corteva, Syngenta e BASF, que controlariam 99% dos cultivos transgênicos, além de dois terços da produção global de agrotóxicos e mais da metade de todas as sementes comerciais no mundo. 

No caso do Brasil, passado este período pelo menos até meados de 2024, com base nas informações da própria CTNBio, poderíamos trazer aqui o quantitativo de liberações (Quadro 1), disponível na página eletrônica do colegiado. Os resultados apresentados, demonstram que entre as 141 culturas vegetais comerciais liberadas entre 2005 e 2024 em diferentes eventos (herbicidas, inseticidas, etc.) separados ou combinados, a maioria corresponde a milho transgênico (74 eventos), seguido de algodão (25), soja (22), eucalipto (10), cana-de-açúcar (7), farinha de trigo (2) e feijão (1). O trigo transgênico foi aprovado pela CTNBio, em 2023, porém não consta no quadro apresentado pelo sítio-e do Colegiado.

Quanto às empresas detentoras de transgênicos liberados comercialmente, cabe destacar a Monsanto com 37 (19 de milho, 11 de algodão e 7 de soja), e a Bayer, que incorporou a Monsanto, com 10 (seis de algodão, três de soja e uma de milho), somando-se as duas possuem 47 eventos transgênicos, praticamente ⅓ do total, com eventos em sua maioria herbicidas combinados. 

Neste período, a Embrapa somente teve dois registros de transgênicos, sendo um feijão, em 2011, tolerante a um tipo de vírus, e outro com soja, em 2009, em parceria com a BASF, tolerante a herbicidas. Ou seja, a principal empresa brasileira, que defendia esta tecnologia para que a mesma fosse dominada pela ciência brasileira, só teve o desenvolvimento e a aprovação de dois eventos há pelo menos 15 anos, e nada mais a partir de 2011. 

Quadro 1. Resumo Geral de Plantas Geneticamente modificadas aprovadas para Comercialização até 17 de julho de 2024, pela CTNBio.

Cultura GM Quantidade de eventos transgênicos Tipos de eventos*
Milho 74 10 Herb., 64 outros ou combinados
Algodão 25 06 Herb., 19 outros ou combinados
Soja 22 12 Herb.; 10 outros ou combinados
Eucalipto 10 05 Herb., 10 outros ou combinados
Cana-de-açúcar 7 07 Inseticidas
Farinha de trigo 2 01 herbicida e combinado
Feijão 1 Resistente ao Vírus do Mosaico dourado do feijoeiro
TOTAL 141 41 herb.; 100 outros ou combinados

Informações CTNBio (julho de 2024) * = Combinados, ou piramidados, podem ter ação conjunta como inseticidas, herbicidas, tolerantes à seca, aumento do crescimento, etc.

O crescimento do uso de agrotóxicos em 300%, em 20 anos, e 408%, em 25 anos! 

Segundo dados do Ibama, o uso de agrotóxicos no Brasil aumentou cerca de 300% no uso destes produtos, entre os anos de 2005 e 2024, e alcançou 408% entre 2000 e 2024. No ano de 2024, a 432.666 toneladas (52,4%) dos agrotóxicos corresponderam a herbicidas, 148.381 toneladas (18%) a fungicidas e 100.721 mil toneladas (12%) a inseticidas o que indica que estes produtos não podem ser  denominados pesticidas ou praguicidas, pois plantas eventualmente indesejáveis, pelo agronegócio, não são pestes ou pragas. Os cinco estados brasileiros que mais utilizaram agrotóxicos em 2024 foram: Mato Grosso (205,5 mil toneladas, ou 20% dos agrotóxicos usados em todo o país); São Paulo (115,4 mil toneladas); Rio Grande do Sul (88,9 mil toneladas); Paraná (79,2 mil toneladas); e Goias (71,9 mil toneladas). 

Também cabe destacar que em 2024, entre os 10 (dez) ingredientes ativos (IA) mais vendidos no Brasil, que correspondem a 69% do valor total de 826 mil toneladas, 7 (sete) deles são proibidos na União Europeia. Entre os 10 IA mais comercializados, os herbicidas correspondem a 6 (seis) deles, despontando o glifosato em primeiro lugar, com 28% do total comercializado em 2024.   

Quadro 2. Os 10 ingredientes mais vendidos no Brasil em 2024

Apesar do valor de 826 mil toneladas de agrotóxicos no ano de 2024, podem ser adicionados a este valor cerca de 20% a 25% de agrotóxicos não contabilizados, decorrentes de contrabando, segundo o Ministério Público de São Paulo, com alguns produtos proibidos no Brasil, sendo o caso do herbicida Paraquat. Ou seja, existe um enorme conjunto de venenos agrícolas não registrados oficialmente, mas estimados por órgãos de controle, o que significa que já devemos estar beirando 1 milhão de toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos a cada ano. Em nível mundial, o Brasil é o maior mercado de venda de venenos agrícolas, representando valores de 13 a 20 bilhões de dólares anuais, beneficiando, sobretudo, meia dúzia dos maiores oligopólios de venda de agrotóxicos (Bayer, Syngenta, Basf, Corteva, UPL e FMC).

E a produção de alimentos?

Ao contrário do que era propalado, não ocorreu melhoria na qualidade dos alimentos, principalmente em relação ao alegado arroz dourado, geneticamente modificado para a síntese de β-caroteno, molécula precursora da vitamina A, que tampouco ganhou interesse das indústrias e nem teve comprovação de que teria vantagens em relação às outras variedades de plantas alimentícias de diferentes espécies não transgênicas.

No que se refere ao plantio de grãos transgênicos, a soja desponta com mais de 95% sendo GM, porém não há valores referenciais seguros, e o controle deveria ser de responsabilidade do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). 

Como agravante, a contaminação dos recursos genéticos tradicionais compromete a oferta e garantia de sementes não modificadas. Isto coloca em riscos a produção orgânica e agroecológica, assim como a segurança e a soberania alimentar e nutricional.

O desenvolvimento da área de produção de soja no Brasil é tamanha que, entre as 27 unidades da federação, 11 estados têm a soja como principal produto de exportação, A maioria dos outros estados brasileiros apresenta também produtos primários como item principal de exportação, como minério de ferro, aço, petróleo, açúcar, combustíveis, madeiras da Amazônia, alcançando no total cerca de 90% dos territórios da República com a liderança de matéria prima e/ou commodity (Brack e Mosmann, 2025, pg 111). Esta profunda dependência de exportação de commodities gera expansão da escala de produção, para compensar a ausência de valor agregado dos produtos.

O agronegócio segue produzindo para exportar, como mostra a Figura 3, não sendo necessariamente alimentos. Os cultivos de soja e milho, em sua maioria transgênicos, são destinados em grande parte para a exportação, com grãos utilizados para alimentar animais confinados, em outros continentes. 

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), por meio de seus relatórios mensais e anuais de produção de grãos, em um período de meio século, desde 1976, tivemos no Brasil um crescimento em 597% da área de monocultivos de soja, enquanto as áreas de produção de arroz e feijão, alimentos básicos dos brasileiros, reduziram-se, respectivamente, em 74% e 42,7% (Quadro 3), ao mesmo tempo em que a população do país praticamente dobrou no mesmo período. Não raramente, o país tem que importar arroz e feijão, enquanto incrementa a substituição das áreas de alimentos para humanos por commodities (soja e milho), destinadas a alimentar animais confinados (Figura 2).  

Quadro 3. Áreas de produção de grãos no Brasil , em safras de 1976/77; 2024/25 e 2025/26, em milhões de toneladas. 

 Safra/Período

 

 1976/77  2024/25  2025/26 Evolução no Período 1976/77 a 2025/26
Culturas Hectares Hectares Hectares (%)
FEIJÃO 4.538.700 2.705.600 2.600,600 -42,7%
ARROZ 5.992.300 1.747.700 1.559.900 -74%
TRIGO 3.153.300 2.546.400 2.318.300 -26%
SOJA 6.949.000 47.637.200 48.434.400             + 597%
MILHO 11.797.300 21.679.700 22.525.600 +90,9%

 

 Quadro 4. Estimativa de produção de grãos no Brasil, entre as safras de 2024/25 e 2025/26, em mil toneladas.

Cultura 2024/25 2025/26
ARROZ 12.757,7 10.914,6
FEIJÃO 3.059,9 2.966,1
MILHO 141.157,6 138.448,2
SOJA 171.480,5 177.985,0
TRIGO 7.873,4 6.904,8

Com base no Quadro 4, podemos verificar que a produção de feijão é de 1,7% da quantidade total de produção de soja. Em relação à quantidade de arroz, este percentual é de 6,1% da produção de soja. Esta situação, ao contrário dos valores de expansão contínua de produção de soja, a redução da produção de arroz e feijão, seja em área ou em toneladas de grãos, faz com que o Brasil seja obrigado a importar arroz e feijão para garantir a segurança alimentar da população.

Conclusão

Entre os 141 eventos transgênicos liberados comercialmente no Brasil, até meados de 2024, tem o milho com mais da metade (74), apesar de ser a segunda cultura em área de plantio (22 milhões de hectares), atrás da soja (48 milhões de hectares), tem 22 eventos transgênicos.

As monoculturas de exportação, com duas culturas transgênicas em destaque (milho e soja) esgotam o solo, fizeram aumentar o uso de agrotóxicos em 300% em 20 anos a partir de 2005. Entre os dez agrotóxicos mais usados no Brasil, que correspondem a 69% do total de produtos usados no país, sete estão proibidos na União Europeia

Não há solução de agricultura que garanta a saúde, a segurança e a soberania alimentares, neste modelo de dependência e artificialização interna (plantas geneticamente modificadas), externa (monoculturas quimicodependentes) e divisão internacional do trabalho (onze estados cujo principal produto de exportação é a soja), dominado por um oligopólio de seis empresas transnacionais que controlam sementes transgênicas, associadas ao uso de agrotóxicos, para alimentar animais, enquanto diminuem as áreas de plantios de alimentos para seres humanos, em 42% para feijão e 74% para o arroz nos últimos cinquenta anos.

Necessitamos de inversão de investimentos, com massivo apoio à agroecologia, à agricultura familiar e zero financiamento para as monoculturas, o máximo de impostos para os agrotóxicos Caminhos para recuperação dos sistemas ecológicos com sociobiodiversidade: restauração dos sistemas ecológicos e a interrupção de qualquer financiamento para a expansão das monoculturas, como infelizmente vem ocorrendo via Plano Safra e financiamento de bancos às monoculturas transgênicas dependentes de alta carga de agrotóxicos e outros insumos. A transição depende também de pesquisas e extensão, além de instituições de pesquisa que tratam destes temas para recuperar os sistemas ecológicos e a sociobiodiversidade.

É necessário que se interrompa o financiamento às monoculturas quimicodependentes, sobretudo o chamado Plano Safra, com recursos públicos voltados em grande parte para as grandes lavouras convencionais, em especial a soja entre 2025/26, com aportes de 516 bilhões de reais em forma de juros subsidiados pelo governo federal. Por outro lado, devemos cobrar o Programa Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos, invertendo o investimento, principalmente aplicando-se em agroecologia e fortalecendo o Programa Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, com o banimento dos biocidas agrícolas sintéticos, dominados por empresas transnacionais do agronegócio.

O Brasil, como a maioria dos demais países do Cone Sul ou Sul Global, possui um enorme manancial de alimentos nativos, com um patrimônio resguardado e cultivado por povos indígenas e tradicionais, por meio de milhares de plantas alimentícias e de outros usos com manejo sustentável de nossos recursos biodiversos (medicinais, fibras, madeira, lenha, cosméticos, tintoriais, melíferas, artesanato, etc.) negligenciados pelo círculo vicioso das monoculturas e demais commodities. Lembremos que este modelo insustentável foi um dos principais responsáveis pelo PL da Devastação, agora transformado em uma anticonstitucional Lei 15.190/2025 que visa o fim do Licenciamento Ambiental.

A mudança necessária, em dar espaço devido às sementes crioulas ou não transgênicas, só se tornará realidade com o maior envolvimento da sociedade e comprometimento do governo e demais agentes públicos, na busca da soberania alimentar sociobiodiversa, associada a cada bioma do Brasil. A luta também inclui o trabalho digno no campo e na cidade, com Reforma Agrária e no controle real destes venenos em nossos alimentos e na água (rastrear a garantia da não existência de resíduos de agrotóxicos), preservando a saúde de todos contra produtos que representem riscos à vida saudável, diversa e digna para todos os seres vivos.

Município de Ipê, RS


Fonte: Via Biodiversa

Abelhas nativas são as mais atingidas por agrotóxicos, mas legislações vigentes não consideram o grupo

Segundo especialistas, leis e políticas públicas vigentes foram baseadas em estudos de toxicidade aplicados unicamente em Apis mellifera – a mais usada na produção do mel –, ignorando o impacto desses produtos nas espécies sem ferrão, fundamentais para a polinização de lavouras e de ambientes naturais.

Por Carolina Fioratti para “Jornal da UNESP” 

As abelhas são a espécie mais importante do planeta Terra. Pelo menos, é o que diz o Earthwatch Institute, instituição ambientalista com mais de 50 anos de atuação. A distinção não é à toa: esses pequenos insetos desempenham serviços ambientais fundamentais à produção agrícola, trabalhando arduamente para transferir os grãos de pólen de uma flor para outra e, dessa forma, aumentar a produtividade das plantações. 

Apesar dessa reconhecida importância, durante a polinização, as abelhas frequentemente ficam expostas a agrotóxicos que são aplicados nas lavouras para combater pragas. Em contato com esses produtos químicos, as abelhas acabam levando esses produtos tóxicos para dentro dos favos, o que pode causar a mortandade de colmeias inteiras.

No Brasil, as abelhas Apis mellifera (produto de um cruzamento entre espécies europeias e africanas) são resguardadas pela legislação vigente, ou seja, há regras sobre a aplicação de agrotóxicos que protegem a espécie e minimizam os efeitos nocivos destes produtos sobre elas. No entanto, as abelhas sem ferrão (meliponíneos), que são nativas, não possuem proteção direta e, infelizmente, são as principais afetadas pelos agrotóxicos. 

Tal afirmação é apoiada por estudo publicado no início deste ano no periódico Pesticide Biochemistry and Physiology. Nele, pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, no câmpus de Botucatu, em conjunto com cientistas da Universidade Southern Cross, na Austrália, revisaram 115 experimentos de toxicidade envolvendo abelhas sem ferrão e extraíram que, em 72% dos ensaios, as abelhas sem ferrão apresentaram uma maior sensibilidade aos agrotóxicos. A conclusão serve como alerta e reforça que medidas legislativas não devem ser tomadas unicamente com base em Apis mellifera. 

Em entrevista ao Jornal da Unesp, Isabella Lippi, autora principal do artigo, explicou que o grupo de pesquisa não é contra o uso dos pesticidas e reconhece sua importância para a produtividade agrícola. Por meio de seus estudos, os pesquisadores buscam, na verdade, alertar quanto à aplicação racional desses produtos, tentando reduzir ao máximo os efeitos nocivos aos polinizadores. O efeito desses insumos químicos nas abelhas foi objeto do doutorado da pesquisadora realizado na Unesp. Em 2025, o trabalho recebeu menção honrosa no prêmio Capes de Tese e, atualmente, Isabella realiza uma estágio de pós-doutorado na Universidade Southern Cross. 

Favo de Apis mellifera, grandes produtoras de mel, com cria e operárias jovens responsáveis por alimentar as larvas e a rainha com geleia real. (Créditos: Fototeca Cristiano Menezes, FCM)

Efeitos nocivos dos agrotóxicos nas abelhas

As abelhas Apis mellifera são conhecidas, além da polinização, pela capacidade de produzir mel em grande quantidade. A apicultura apresenta vantagens ao pequeno produtor, que consegue obter alguma renda mesmo a partir de uma pequena caixa repleta de insetos. O investimento e o trabalho são muito menores quando comparados, por exemplo, aos custos e ao esforço despendido na produção pecuária. Entretanto, ainda que rentável, essa é uma produção frágil: o contato desses insetos com os agrotóxicos pode matar colmeias inteiras, prejudicando o ecossistema e também a economia.

As abelhas sem ferrão também produzem mel, porém em muito menor quantidade quando comparadas à versão introduzida no país. Por conta disso, sua produção melífera é considerada rara e costuma chegar ao consumidor por um preço mais caro, uma característica que pode ser de grande valia para os produtores de abelhas nativas. Para além da questão econômica, as polinizadoras locais se destacam pelo trabalho exercido em culturas menores e cultivadas em estufas, como é o caso do pimentão, tomate e morango. Outra característica importante é a sua disposição em polinizar as plantas nativas, o que as torna essenciais para a manutenção da biodiversidade local.

Esse vínculo estabelecido com espécies vegetais nativas faz com que esses insetos voadores também sejam utilizados em projetos de regeneração florestal em áreas danificadas. “Há alguns programas de reflorestamento em áreas devastadas que visam a recuperação local a partir da inserção de vegetação nativa e, algumas vezes, ocorre esse mix de polinização entre abelhas sem ferrão e Apis mellifera”, explica Lippi. Segundo a pesquisadora, iniciativas desse tipo podem ser observadas em algumas áreas de mineração que ficam ativas por décadas e, quando são desativadas, precisam passar por processos de reflorestamento.

Ao entrar em contato com agrotóxicos aplicados na lavoura, entretanto, as abelhas podem se intoxicar e colocar todos esses serviços ambientais em risco. Essa intoxicação pode ocorrer por ingestão ou pelo contato direto com o produto e, uma vez que os insetos retornam para as colmeias, elas acabam espalhando o veneno por meio de interações sociais como limpeza mútua, trofalaxia (processo de alimentação) ou pelo contato com a cera (substância secretada pelas abelhas operárias para construir favos). 

O estudo publicado por Isabella reforça que os agrotóxicos atingem as Apis mellifera e as abelhas sem ferrão de maneiras diferentes, já que as espécies possuem tamanho corporal, atividades de voo e comportamentos sazonais diferentes. As abelhas sem ferrão coletam, por exemplo, folhas e lama para construir seus ninhos, enquanto a Apis mellifera produz favos de mel na colmeia. Por isso, alertam os pesquisadores, é preciso olhar também para as rotas de exposição das abelhas ao discutir os riscos de contaminação por agrotóxicos. “Quando pensamos na abelha sem ferrão, temos que pensar na terra que está ali perto e pode ficar contaminada. O inseto pode acabar coletando a resina de uma árvore que ficou perto ou então suas folhas, sendo necessário ampliar o leque de avaliação de risco antes de aplicar o pesticida”, exemplifica Lippi.

Vale atentar para o fato de que o estudo publicado pelos pesquisadores da Unesp e da Austrália considera apenas 24 espécies de abelhas nativas, sendo que há mais de 300 delas no Brasil. Além disso, ele faz uma revisão sistemática, não tendo sido feitos experimentos extras de toxicidade que demonstrem os efeitos negativos de agrotóxicos em abelhas sem ferrão. Na visão dos autores, o trabalho é um pontapé inicial para que mais pesquisas sejam feitas considerando essas espécies ainda não contempladas nas regras ambientais vigentes.

Legislação não considerou abelhas sem ferrão

Desde 2017, as empresas produtoras de agrotóxicos devem seguir no Brasil a Instrução Normativa (IN) do Ibama nº 2. O documento estabelece diretrizes, requisitos e procedimentos para a avaliação de riscos dos ativos de agrotóxicos para insetos polinizadores. 

Para que isso fosse possível, pesquisadores tiveram que realizar procedimentos padronizados que comprovassem os riscos de contaminação para a Apis mellifera, exclusivamente. A abelha foi escolhida como modelo por ser endêmica de diferentes partes do globo e, consequentemente, permitir uma padronização dos estudos. Os protocolos apresentados pelos cientistas são aprovados ou reprovados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) – fórum internacional que reúne 38 países e apoia os governos na avaliação e mitigação dos riscos dos pesticidas agrícolas.

Está em desenvolvimento, no Brasil, um protocolo para aplicação de uma nova legislação que inclui as abelhas sem ferrão. No entanto, o projeto está parado devido a dificuldade em executar o ring test, procedimento em que vários laboratórios ao redor do globo realizam o mesmo ensaio de toxicidade para identificar o problema e, dessa forma, é possível chegar a uma conclusão padronizada. “Entre o protocolo existir e a gente padronizar e registrar na OCDE levam anos. Para registrar, é preciso ter vários países com o mesmo interesse, e nisso há o empecilho dessas espécies estarem presentes principalmente no hemisfério sul, mas não em outros locais do mapa”, explica Roberta Nocelli, pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no câmpus de Araras. 

As abelhas sem ferrão são mantidas em potes para controle durante testes de toxicidade de agrotóxico. (Créditos: Roberta Nocelli)

Nocelli, que participa da elaboração do novo protocolo, cita ainda uma segunda problemática que tem prejudicado não só a biodiversidade, mas também a saúde da população pelo uso inadequado de agrotóxicos no Brasil. Trata-se do PL 1459/2022, aprovado em 2023, que reduziu as competências de órgãos fiscalizadores e flexibilizou o registro desses produtos. 

“Antigamente, para que um agrotóxico fosse registrado, era necessário o aval de três órgãos federais: o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para analisar a eficácia agronômica, a Anvisa, através do Ministério da Saúde, para avaliar a segurança para a saúde humana, e o Ibama, pelo Ministério do Meio Ambiente, que olhava para a segurança ambiental”, explica a pesquisadora. “Hoje, os órgãos fazem a avaliação, mas não tem poder de veto. Eles entregam os dados ao Ministério da Agricultura, que decide sozinho sobre a aprovação.”

Nocelli trabalha em parceria com Osmar Malaspina, pesquisador do Instituto de Biociências da Unesp, no câmpus de Rio Claro. Malaspina investiga o impacto dos agrotóxicos sobre as populações de abelhas desde meados de 2000, tendo já embasado a criação de políticas públicas sobre o tema. Por meio de seus projetos de pesquisa, os cientistas tiveram influência em debates sobre o uso do fipronil em plantações. Esse é um pesticida altamente tóxico para o meio ambiente e que promove alterações no sistema nervoso central dos insetos. 

Em 2024, o Ibama suspendeu, como medida cautelar, a aplicação do fipronil por pulverização foliar em área total, ou seja, não dirigida ao solo ou às plantas. Outros países como Colômbia, Uruguai, Costa Rica, Vietnã, África do Sul e toda a União Europeia já proíbem o uso do agrotóxico em seus territórios. Apesar da conquista, os pesquisadores destacam que é importante encarar essa medida como um pequeno passo para a resolução de um enorme problema, afinal suspensão não é o mesmo que proibição. Além disso, ele é facilmente encontrado em casas de produtos agrícolas, podendo ser utilizado em fazendas ou mesmo dentro de casa sem restrições.  

Malaspina, no entanto, acredita que o atual cenário de mortalidade das abelhas e os esforços de conscientização por parte de pesquisadores já estão provocando mudanças no setor. Diversas companhias estão produzindo bioinsumos – produtos que utilizam organismos ou extratos naturais para o combate a pragas, doenças e plantas daninhas. “As empresas perceberam que, se continuarem usando inseticidas, pagarão um preço muito grande lá na frente”, afirma o docente.

E os esforços não devem parar: Malaspina e Nocelli integram agora o PollinERA, um projeto internacional financiado pela União Europeia cujo objetivo é realizar o maior levantamento de sensibilidade a agrotóxicos de insetos polinizadores (não exclusivo com abelhas). Os trabalhos do grupo devem gerar desde artigos científicos, contribuindo para o conhecimento na área, até novos protocolos para a European Food Safety Agency (EFSA). A expectativa é que surjam sempre novos estudos na área, em âmbito nacional e internacional, para embasar políticas públicas e defender as abelhas e toda a biodiversidade. “Apesar de termos dado um passo para trás na questão de legislação, temos dado muitos passos para frente na questão de produção de conhecimento”, avalia Nocelli. 

Imagem acima: abelhas uruçu-nordestina (Melipona scutellaris) abrigadas em uma colmeia (Crédito: Roberta Nocelli)


Fonte: Jornal da UNESP

Experimentos indicam que agrotóxicos e fertilizantes desequilibram ecossistemas aquáticos

Contaminantes provocaram desaparecimento de predadores e interferiram em papeis ecológicos de organismos aquáticos

Duas pesquisadoras vestidas de azul abastecendo tanques de água cobertos de águas. Os tanques estão instalados em uma área rural, gramado e com árvores ao fundo

Pesquisadores enchendo os tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto próximo a áreas agrícolas para análise da água e monitoramento dos macroinvertebrados como larvas, insetos, moluscos e minhocas – Foto: Allan Pretti Ogura

Por Ivanir Ferreira,  Arte: Leonor T. Shiroma, para “Jornal da USP” 

Em meio à expansão do setor sucroenergético brasileiro que demanda uso intensivo de defensivos agrícolas, pesquisa da USP alerta para os impactos desses contaminantes na base da cadeia alimentar aquática, com efeitos indiretos sobre peixes e outros predadores. O estudo mostra que os macroinvertebrados bentônicos — como larvas de insetos, moluscos e minhocas — estão entre os organismos mais sensíveis às substâncias. A aplicação isolada ou combinada do inseticida fipronil e do herbicida 2,4-D (herbicida), além da vinhaça — resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar —, levou ao desaparecimento de predadores e a desequilíbrios ecossistêmicos. A contaminação comprometeu funções essenciais desempenhadas por esses organismos, como a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e o controle populacional de espécies.

A coleta e a análise das amostras de água, assim como o monitoramento dos macroinvertebrados, foram realizados em tanques experimentais (mesocosmos) instalados a céu aberto, próximos a áreas agrícolas no município de Itirapina (SP), onde a cana-de-açúcar é a principal atividade econômica. As observações ocorreram 7, 14, 28, 75 e 150 dias após a exposição aos contaminantes.

Os resultados foram publicados no artigo científico Impacts of pesticides and vinasse on the composition and functional diversity of aquatic macroinvertebrates exposed in a mesocosm system, assinado, entre outros autores, pela professora Raquel Aparecida Moreira, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, e pelo pesquisador Thandy Junio da Silva Pinto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Montagem de imagens de tanque de água turva e poluida, contendo insetos, caramujos e invertebrados boiando na superfícei.Macroinvertebrados – Larvas, insetos, moluscos e minhocas afetados pelos poluentes – Foto: Allan Pretti Ogura

Vinhaça

Imagem de uma mulher branca de cabelos pretos e longos. Sorri e veste uma blusa branca. Fundo, campo de flores.
Raquel Aparecida Moreira, FZEA/ USP – Foto: Arquivo pessoal

A professora Raquel destaca que os resultados confirmaram a toxicidade da vinhaça e seu elevado potencial de impacto ambiental, especialmente quando aplicada em conjunto com agrotóxicos, prática comum na agricultura brasileira. Segundo a pesquisadora, a vinhaça é um resíduo líquido da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar e é utilizada como fertilizante, por [td1.1]fertirrigação. O produto apresenta altas concentrações de nutrientes, como potássio, magnésio, fósforo e nitrogênio.

“É justamente a elevada carga de nutrientes e de matéria orgânica que compromete o ecossistema aquático”, relata. A vinhaça analisada apresentou Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) de 46.500 miligramas por litro e Demanda Química de Oxigênio (DQO) de 107.000 miligramas por litro — indicadores de grande quantidade de matéria orgânica e alto consumo de oxigênio na água.

“A redução do oxigênio pode ter consequências graves. Se os níveis caem muito, peixes e outros organismos aquáticos podem morrer por asfixia. Por isso, a DBO é um dos principais parâmetros para medir a qualidade da água e o grau de poluição de rios e lagoas”, explica Raquel.

Imagem de vários tanques de águas instalados em uma área rural para monitoramento da qualidade da água e dos macroinvertebrados que vivem no ambiente aquáticoVisão geral dos mesocosmos instalados próximos a áreas agrícolas – Foto: Allan Pretti Ogura

Contaminação por fertilizantes e agrotóxicos potencializa efeitos

Thandy da Silva Pinto- afirma que, nas amostras em que a vinhaça foi aplicada junto aos agrotóxicos, houve prolongamento da permanência do fipronil na água e aceleração da degradação do 2,4-D em subprodutos (metabólitos) que, segundo o pesquisador podem ser tão ou mais tóxicos que a molécula original.

De acordo com o pesquisador, essas alterações químicas tiveram impacto direto sobre a fauna aquática. “Na prática, o ecossistema deixa de funcionar de forma equilibrada, mesmo que nem todas as espécies desapareçam”, diz. Nos tanques contaminados com 2,4-D, foi registrado aumento de organismos conhecidos como coletores-catadores — que se alimentam de partículas orgânicas — e redução acentuada de raspadores, grupo essencial no controle de algas, sobretudo na amostragem realizada aos 75 dias.

Homem branco, cabelos e olhos castanhos, usa jaleco branco e camiseta azul.
Thandy Junio da Silva Pinto, Unicamp – Foto: Arquivo pessoal

O fipronil foi o contaminante mais tóxico. Nas amostras contaminadas com inseticida, os pesquisadores observaram ausência total de predadores após a exposição. O mesmo ocorreu quando os dois agrotóxicos foram aplicados em conjunto.

Já nos ambientes com aplicação exclusiva de vinhaça, houve predominância de predadores e redução de coletores-catadores. Quando a vinhaça e os agrotóxicoss foram utilizados simultaneamente, os coletores-catadores permaneceram até o sétimo dia, mas posteriormente foram registradas mudanças significativas na composição dos grupos funcionais, evidenciando o efeito combinado dos poluentes.

Os pesquisadores destacam que os resultados reforçam a necessidade de monitoramento contínuo e de critérios mais rigorosos para o uso combinado de agrotóxicos e fertilizantes em áreas próximas a corpos d’água. Segundo eles, a adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis é fundamental para reduzir os riscos de contaminação e evitar impactos duradouros sobre a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

Mais informações: Raquel Aparecida Moreira, raquelmoreira@usp.br e Thandy Junio da Silva Pinto, thandyjuniosilva@gmail.com


Fonte: Jornal da USP

Agrotóxicos disparam no Brasil e crescem 2,6 vezes mais que a área plantada

Um levantamento realizado pela pesquisadora Sonia Hess, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ajuda a dimensionar uma tendência preocupante na agricultura brasileira. O gráfico abaixo mostra que, entre 2019 e 2024, o consumo de agrotóxicos no Brasil cresceu muito mais rapidamente do que a área cultivada.

Enquanto a área plantada aumentou 17,98%, a quantidade de agrotóxicos comercializados no país saltou 46,25% no mesmo período. Em outras palavras, o uso desses produtos cresceu 2,6 vezes mais do que a expansão da área agrícola.

Esse descompasso não é um detalhe estatístico. Uma parte significativa desse aumento está associada ao uso de agrotóxicos que já foram banidos em diversos países, devido aos seus efeitos nocivos sobre o meio ambiente e a saúde humana. No Brasil, muitos desses produtos chegam ao mercado por meio da importação de agrotóxicos genéricos, produzidos majoritariamente na China.

O paradoxo é evidente. Cerca de 80% dos agrotóxicos utilizados no Brasil são aplicados em culturas voltadas à exportação, e a China figura justamente como o principal destino de boa parte dessas commodities agrícolas. Assim, produtos químicos proibidos em várias partes do mundo acabam sendo amplamente utilizados aqui para produzir alimentos e matérias-primas destinados ao mercado internacional.

O resultado é uma grave situação de injustiça ambiental: os impactos ambientais e sanitários ficam no Brasil, enquanto os benefícios econômicos da produção agrícola se concentram nas cadeias globais de comércio.

Diante desse cenário, torna-se urgente tirar do papel a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos e ampliar os investimentos em modelos de produção capazes de reduzir a dependência desses insumos. Promover a produção de alimentos livres de agrotóxicos não é apenas uma questão ambiental — é também uma medida essencial para proteger a saúde da população brasileira e os ecossistemas do país.

Resíduos de PFAS oriundos de agrotóxicos estão presentes em produtos agrícolas da Califórnia

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Por Shannon Kelleher para “The New Lede”

A agricultura da Califórnia enfrenta um problema com PFAS, com traços de “químicos eternos” provenientes de agrotóxicos encontrados em 37% de quase mil amostras de produtos agrícolas cultivados convencionalmente no estado, de acordo com uma nova análise de dados de 2023 do Departamento de Regulamentação de Pesticidas da Califórnia (CDPR).

análise , publicada em 11 de março pelo Environment Working Group (EWG), encontrou resíduos de substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS) em 40 tipos de frutas e vegetais. Os produtos individuais frequentemente continham múltiplos tipos de substâncias químicas PFAS, com resíduos de 10 PFAS diferentes encontrados em morangos, e mais de 90% dos nectarinas, ameixas e pêssegos testados para fludioxonil, um pesticida PFAS considerado um disruptor endócrino pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos. 

Os autores descobriram que, anualmente, 2,5 milhões de libras de agrotóxicos  contendo PFAS são aplicadas em terras agrícolas da Califórnia, contaminando potencialmente o solo e a água locais. Quase metade dos vegetais e mais de três quartos das frutas e nozes consumidas nos Estados Unidos são cultivadas na Califórnia.

“Estamos ingerindo PFAS, bebendo PFAS, respirando PFAS”, disse Sakereh Maskal, Líder de Políticas e Defesa da Rede de Ação contra Pesticidas e Agroecologia. “A ganância insaciável da indústria química transformou nossos corpos em zonas de sacrifício em nome do lucro.”

Os compostos PFAS são prevalentes no meio ambiente em todo o mundo, onde permanecem por anos sem se decompor, e também nos corpos de humanos e animais, com estudos encontrando-os no sangue de cerca de 98% dos americanos. Alguns PFAS foram associados a certos tipos de câncer, colesterol alto, diminuição da eficácia de vacinas e outros problemas de saúde.

“Num momento em que os americanos exigem um sistema alimentar mais saudável, descobrimos que os principais alimentos básicos de uma dieta saudável estão contaminados com substâncias químicas associadas a sérios danos à saúde”, disse Bernadette Del Chiaro, vice-presidente sênior do EWG para a Califórnia, em um comunicado .

As conclusões surgem num momento em que as ações regulatórias da administração Trump sobre agrotóxicos se tornam cada vez mais contrárias ao movimento Make America Healthy Again (MAHA). No mês passado, a administração citou razões de segurança nacional para justificar o pedido de aumento da produção do controverso herbicida glifosato, vendido como Roundup, uma medida que enfureceu os membros do movimento MAHA .

A análise do EWG surge na sequência da publicação, em dezembro de 2025, do relatório mais recente do Departamento de Agricultura dos EUA sobre agrotóxicos , baseado em dados de 2024. O relatório encontrou resíduos de pelo menos um agrotóxico em mais de 57% das quase 10.000 amostras de alimentos testadas, com menos de 1% dos produtos contendo resíduos acima do limite legal estabelecido pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). O grupo Beyond Pesticides criticou as tolerâncias da EPA por não considerarem adequadamente populações vulneráveis, como trabalhadores rurais e crianças, e a exposição a misturas de produtos químicos.

Aumento do uso de pesticidas contendo PFAS

Cientistas e especialistas afirmam que os agrotóxicos  contendo PFAS representam uma área de crescente preocupação, com pesquisas recentes encontrando PFAS no sangue de peixes em águas próximas a áreas agrícolas e florestais. Um estudo de 2024 constatou que os PFAS são adicionados cada vez mais a pesticidas, representando agora 14% de todos os ingredientes ativos desses produtos químicos.

Resultados de testes independentes, divulgados em uma análise separada esta semana pelo grupo Public Employees for Environmental Responsibility (PEER), encontraram múltiplos produtos químicos PFAS no herbicida Indaziflam (vendido como Rejuvra), aplicado em plantações para controlar gramíneas invasoras. O produto está sendo pulverizado ou seu uso está sendo considerado em milhões de hectares de terras federais. 

“A descoberta de substâncias químicas tóxicas em um produto destinado ao uso em áreas de grande escala deveria soar o alarme”, disse Chandra Rosenthal, defensora de terras públicas da PEER, em um comunicado . “Nossas terras públicas não devem ser expostas a substâncias químicas cujos impactos permanecem desconhecidos.”

A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) está atualmente analisando pedidos dos departamentos de agricultura do Arkansas e do Missouri para conceder uma isenção emergencial ao pesticida PFAS tetflupirolimet, que não foi registrado pela EPA – uma medida que permitiria a aplicação do produto químico no solo com menos rigor regulatório . Os estados propõem usar o herbicida para controlar a grama-arroz invasora, que reduz drasticamente a produtividade das lavouras e se tornou resistente a diversos outros herbicidas. Se concedida, a isenção permitiria o tratamento de até 546.000 acres de arrozais no Arkansas e 100.000 acres no Missouri. 

“Esta não é uma situação de emergência”, disse Sarah Alexander, diretora executiva da Associação de Agricultores e Jardineiros Orgânicos do Maine, observando que a resistência a herbicidas é um problema comum e previsível na agricultura convencional e que existem alternativas na agricultura orgânica.

“Acho que usar isenções emergenciais para aprovações de pesticidas PFAS é um precedente muito perigoso”, disse ela.

A EPA afirmou que ainda não foi tomada nenhuma decisão sobre os pedidos de isenção emergencial dos estados. 

“Todas as ações tomadas pela EPA de Trump são guiadas pelo Estado de Direito, pela Ciência de Alto Padrão e pela Transparência Radical”, disse um porta-voz da agência.


Fonte: The New Lede

Agrotóxico banido, metais e aditivo para plásticos: boias encontram três tipos de poluentes no Dilúvio e no Guaíba

Projeto-piloto foi desenvolvido em parceria da prefeitura de Porto Alegre com a iniciativa privada

Camila Hermes / Agencia RBS

Caravela que ficava localizada próximo à foz do DilúvioCamila Hermes / Agencia RBS

Por Marcelo Gonzatto para a “Gaúcha ZH” 

Um relatório que deverá ser entregue nesta semana à prefeitura de Porto Alegre detalha o nível de poluentes presentes no Arroio Dilúvio e no Guaíba — manancial de onde é captada água que, após tratada, é servida à população. O estudo é fruto de um projeto inovador desenvolvido pela empresa paulista Infinito Mare em parceria com a prefeitura e a Heineken, pelo qual foram instaladas grandes boias azuis em três pontos da Capital.

A análise das algas que se desenvolveram nas chamadas “caravelas” revelou a presença de metais em concentrações muito acima do tolerado, de aditivos usados em plásticos e até de um agrotóxico banido do Brasil desde 2009 por sua periculosidade, o dicloro-difenil-tricloroetano (DDT) (veja detalhes abaixo).

A iniciativa conjunta foi realizada ao longo de três meses no final do ano passado em um ponto do Dilúvio e dois no Guaíba, nas proximidades do Parque do Pontal — a empresa decidiu manter as duas boias localizadas mais ao Sul. A Heineken ajudou a financiar o projeto, que se baseia em uma estrutura inovadora desenvolvida pela Infinito Mare.

As boias circulares têm, na parte inferior, uma espécie de tela na qual naturalmente se desenvolvem algas. Esses vegetais realizam uma dupla função: ajudam a “filtrar” a água, removendo impurezas, e acabam incorporando em sua estrutura partes desses elementos. Assim, ao analisar as algas de forma periódica, é possível fazer um mapeamento de poluentes que passaram pelo local em algum momento. Foram filtrados 330 mil litros de água ao longo do período. As algas captam gás carbônico do ar, ao mesmo tempo em que oxigenam o líquido.

— As algas retiram os elementos da natureza, da água, para crescer e, quando crescem, têm como característica reter vários elementos de forma química e de forma física. Quanto mais crescem, mais acumulam esses elementos. Então, o nosso período (de análise) foi para entender exatamente qual era esse potencial de acúmulo — explica o CEO da Infinito Mare, Bruno Libardoni.

Os poluentes encontrados

De forma preliminar, foram encontrados três tipos principais de poluentes por meio de amostras enviadas à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS):

  • DDT: agrotóxico associado a danos no sistema nervoso. Usado para combater mosquito transmissor da malária e para conter pragas em plantações, teve o uso agrícola proibido ainda nos anos 1980. No final dos anos 1990, deixou de ser usado para o controle de mosquitos. A proibição total em solo brasileiro (fabricação, importação, venda ou armazenamento) ocorreu em 2009.
  • Metais: ferro, manganês, alumínio e cobre em concentrações, em alguns casos, milhares de vezes acima do que a legislação tolera. As presenças de manganês e alumínio, que podem causar impacto neurológico, estavam 5 mil e 139 mil vezes acima do permitido, respectivamente. Além dos metais, também foi registrada alta concentração de fósforo, nutriente que pode multiplicar o número de micro-organismos e comprometer a qualidade da água. Essas substâncias são encontradas em efluentes urbanos e industriais.
  • Ftalatos: elementos químicos encontrados em plásticos flexíveis, embalagens, cosméticos e outros produtos, com impacto sobre o sistema hormonal humano. Podem se desprender desses materiais e contaminar os cursos d’água em caso de descarte irregular.
Camila Hermes / Agencia RBS
Envolvidos discutem continuidade do programa para monitoramento de mais longo prazoCamila Hermes / Agencia RBS

A engenheira química Cristiane Oliveira, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e líder do Grupo de Pesquisa do Laboratório de Poluição Ambiental (Lapam/UFCSPA), afirma que agrotóxicos como o DDT voltaram a aparecer em amostras de água da Capital nos últimos anos. Uma hipótese para isso é que a enchente de 2024 teria lavado solos onde esses contaminantes estavam armazenados há muito tempo e os conduzido até córregos, rios e lagos.

— O DDT é um poluente orgânico persistente, ou seja, permanece no ambiente por vários anos porque é muito estável. Então, pode ser um DDT lançado antes de 2009, mas que estava naqueles sedimentos. Como tivemos muita transposição de solos durante a enchente, pode voltar a aparecer — avalia Cristiane.

Por meio de nota, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que “a água distribuída à população de Porto Alegre passa por rigoroso controle de qualidade em todas as etapas do abastecimento, desde o manancial até a rede de distribuição”, e que “são realizadas análises frequentes da água bruta e da água tratada, incluindo monitoramento contínuo nas Estações de Tratamento e em mais de 350 pontos da rede de distribuição em toda a cidade. Todos os resultados obtidos pelo Dmae atendem aos limites estabelecidos na legislação de potabilidade, garantindo que a água distribuída é própria para consumo” (leia a íntegra ao final da reportagem).

Cristiane Oliveira afirma que os métodos de depuração existentes hoje são capazes de eliminar esses contaminantes, mas é preciso seguir monitorando a qualidade da água bruta com atenção.

— A gente tem hoje um tratamento que ainda segura (os poluentes), mas a nossa preocupação é com o futuro. Caso esses poluentes orgânicos comecem a ficar muito elevados, a estação (de tratamento) vai precisar incluir uma operação mais avançada — analisa a especialista da UFCSPA.

Conforme o CEO da Infinito Mare, ainda está em discussão com a prefeitura a continuidade do programa para monitoramento de mais longo prazo. A empresa já desenvolveu uma iniciativa semelhante em Belo Horizonte, vem atuando no Rio de Janeiro e tem planos para a região metropolitana de Curitiba e Santos, entre outras ações. Recentemente, o projeto da caravela recebeu prêmios como o Design For a Better World, no Brasil, e o IF Design Award, na Alemanha.

— O projeto visa a servir como uma ferramenta para aumentar o potencial de inteligência do monitoramento ecológico, e a gente promover serviços ambientais enquanto realiza esse monitoramento. O objetivo é “ouvir” a natureza e trazer soluções para o futuro próximo — complementa Libardoni.

O que diz a nota do Dmae

“O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que a água distribuída à população de Porto Alegre passa por rigoroso controle de qualidade em todas as etapas do abastecimento, desde o manancial até a rede de distribuição. O monitoramento segue as diretrizes da Portaria de Consolidação nº 5/2017 _ Anexo XX do Ministério da Saúde, atualizada pela Portaria GM/MS nº 888/2021, além da Portaria SES/RS nº 320/2014.

São realizadas análises frequentes da água bruta e da água tratada, incluindo monitoramento contínuo nas Estações de Tratamento e em mais de 350 pontos da rede de distribuição em toda a cidade. Todos os resultados obtidos pelo Dmae atendem aos limites estabelecidos na legislação de potabilidade, garantindo que a água distribuída é própria para consumo.

Em relação ao projeto-piloto conduzido pela empresa Infinito Mare, a Prefeitura ainda não recebeu o relatório final do estudo. Quando o documento for encaminhado oficialmente, os dados serão analisados e comparados com o monitoramento realizado pelo Dmae no mesmo período e local. O Departamento também realiza monitoramento permanente das águas do Arroio Dilúvio em 11 pontos. De forma preliminar, qualquer interpretação dos resultados do estudo exige avaliação detalhada da metodologia empregada, incluindo critérios de amostragem e forma de expressão dos dados.”


Fonte: Gaúcha ZH

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras

Estudo identifica pela primeira vez resistência ao herbicida em Solanum americanum, espécie comum em áreas agrícolas

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras -

Por Jéssica para “São Carlos Agora” 

Pesquisadores do Laboratório de Produtos Naturais (LPN) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) identificaram diferentes espécies de plantas invasoras, agronomicamente conhecidas como “plantas daninhas”, com capacidade de resistir à ação do herbicida glifosato. Entre elas está Solanum americanum, cuja resistência foi registrada pela primeira vez para a espécie, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

A investigação teve início durante o doutorado de Gabriel da Silva Amaral, no Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UFSCar, sob a orientação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no Departamento de Química (DQ) da Instituição, a partir de relatos de produtores rurais que observavam falhas recorrentes no controle de plantas invasoras. Com base nessas observações, os pesquisadores coletaram sementes de espécies que haviam sobrevivido à última aplicação do herbicida (dose de campo) em pomares de laranja-doce e limão-taiti. O material foi então submetido a testes laboratoriais para avaliar a resposta das plantas ao herbicida.

Como surge a resistência

O glifosato é o herbicida mais utilizado no país e um dos mais empregados no mundo. Ainda assim, algumas populações de plantas invasoras vêm apresentando redução na sensibilidade ao produto, devido ao uso indiscriminado deste. Essa resistência não ocorre de forma imediata, é resultado de um processo evolutivo gradual.

Quando um herbicida é usado repetidamente, ele não afeta todas as plantas da mesma forma. Algumas já possuem pequenas diferenças genéticas que as tornam menos sensíveis ao produto. Com o tempo, essas plantas sobrevivem às aplicações e se multiplicam, fazendo com que a população passe a responder cada vez menos a ação do herbicida. Esses indivíduos sobrevivem, se reproduzem e transmitem essas características às gerações seguintes. Com o tempo, esses traços passam a predominar, formando populações resistentes.

Testes confirmam a resistência

Segundo Amaral, o estudo trouxe uma constatação inédita. “Elucidamos que Solanum americanum apresenta resistência ao glifosato. É o primeiro registro desse tipo de resistência para a espécie no Brasil e no mundo. A descoberta amplia o conjunto de plantas invasoras que passam a representar desafio para a citricultura, especialmente em sistemas com uso contínuo do herbicida”, afirma. 

Os testes indicaram que algumas espécies, como Amaranthus deflexus, Amaranthus hybridus e Tridax procumbens, permaneceram sensíveis ao produto. Já Bidens pilosa apresentou comportamento distinto: embora a maioria das populações tenha respondido ao glifosato, amostras coletadas na região de Olímpia exibiram sinais de resistência, com redução significativa na mortalidade das plantas tratadas com glifosato.

Outras espécies já reconhecidas por dificultar o manejo agrícola, como Conyza bonariensis, Digitaria insularis e Chloris elata, apresentaram resistência. Em alguns casos, nem mesmo doses elevadas do herbicida foram suficientes para garantir o controle.

Para confirmar que as plantas eram realmente resistentes, e não apenas sobreviventes ocasionais, os pesquisadores realizaram teste bioquímico que avalia o funcionamento da via metabólica alvo do glifosato. O herbicida atua bloqueando a chamada via do chiquimato, responsável pela produção de aminoácidos essenciais ao desenvolvimento da planta. Quando essa via é interrompida, a planta deixa de sintetizar compostos indispensáveis para seu crescimento e sobrevivência. Como consequência desse bloqueio, o ácido chiquímico, uma molécula intermediária da via, passa a se acumular.

Em plantas sensíveis ao herbicida, esse acúmulo é elevado, sinalizando que o metabolismo foi efetivamente interrompido. Já nas populações analisadas como resistentes, os níveis de ácido chiquímico foram significativamente menores. Isso indica que o glifosato não conseguiu bloquear completamente a via metabólica. Ao demonstrar que a via permanece ativa nas plantas resistentes, o estudo confirma que não se trata de uma sobrevivência casual, mas de uma alteração fisiológica consistente que reduz a eficácia do herbicida.

Além do impacto direto no controle das plantas invasoras, o uso contínuo do herbicida pode afetar outros componentes do sistema produtivo. “O glifosato não atua apenas sobre as plantas indesejadas. Ele também pode interferir em bactérias e fungos do solo que desempenham papel importante na saúde da lavoura. Aplicações frequentes ou em doses elevadas podem reduzir esses microrganismos benéficos e comprometer a ciclagem de nutrientes”, explica Amaral.

A ocorrência simultânea de múltiplas espécies resistentes em um mesmo pomar é uma problemática constante. Nas áreas analisadas, que envolvem os municípios de Araras, Cordeirópolis, Mogi-Mirim e Olímpia, os cientistas identificaram a convivência de duas, três ou até cinco espécies resistentes lado a lado. Essa sobreposição torna o manejo mais complexo, uma vez que estratégias eficazes para uma espécie podem não funcionar para outra, elevando custos e limitando as alternativas disponíveis aos produtores.

A identificação dessas populações resistentes é fundamental para compreender como o uso contínuo de herbicidas pode alterar o equilíbrio no campo. É necessário orientar estratégias de manejo mais diversificadas e sustentáveis, reduzindo a dependência de uma única ferramenta de controle.

A pesquisa foi desenvolvida frente ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Controle Biorracional de Insetos Pragas e Fitopatógenos (CBIP), sob coordenação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no DQ. Os resultados foram publicados e podem ser conferidos no site da revista AgriEngineering.

O projeto recebeu apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, processos 14/50918-7 e 2012/25299-6).


Fonte: São Carlos Agora