Segurança alimentar abrangente: a ofensiva dos lobbies agroquímicos para vender cada vez mais agrotóxicos

Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia apresentou sua proposta abrangente sobre segurança alimentar. Sob o pretexto de simplificação, esse texto desmantela as regras que regem a comercialização de agrotóxicos e define uma nova categoria de substâncias, supostamente mais ecológicas, denominadas “produtos de biocontrole”. Isso representa uma excelente oportunidade para o greenwashing por parte dos fabricantes de agrotóxicos e seus lobistas, que participaram ativamente da elaboração da definição mais ampla e permissiva possível de biocontrole

L'offensive de l'agrochimie pour vendre toujours plus de pesticides

Por Pollinis 

Desmantelar todas as regras que regem a comercialização de agrotóxicos para acelerar o desenvolvimento de produtos “mais ecológicos” . Por mais paradoxal que pareça, essa é a intenção declarada da Comissão Europeia ao apresentar sua proposta abrangente sobre segurança alimentar em 16 de dezembro.

Por trás dessa fachada de discurso, o texto propõe principalmente inúmeras medidas de desregulamentação com consequências catastróficas para a biodiversidade e a saúde humana : autorizações vitalícias para agrotóxicos, limitação da consideração de dados científicos recentes na avaliação dos riscos dos agrotóxicos, extensão do prazo de utilização de certos produtos após a sua proibição, priorização sistemática dos interesses econômicos em detrimento do princípio da precaução.

As corporações químicas atacam a Comissão Europeia

Este conjunto de propostas faz parte de uma agenda de simplificação regulamentar que se tornou uma obsessão para a Comissão Europeia, apresentada como uma forma de impulsionar a competitividade das empresas em todo o continente. Desde o início do seu segundo mandato, em fevereiro de 2025, Ursula von der Leyen apresentou cerca de dez propostas abrangentes. Todas elas propõem revisões à legislação europeia já adotada, particularmente no que diz respeito ao Pacto Ecológico Europeu, resultando em retrocessos sociais e ambientais significativos.

Isso representa uma grande vantagem para a indústria e seus lobistas , que veem essa nova agenda política como uma oportunidade para revogar regulamentações que poderiam prejudicar suas operações e lucros. O relatório abrangente sobre segurança alimentar não é exceção. Desde o início de 2025, a CropLife Europe – que representa os interesses dos fabricantes de agrotóxicos no continente – vem realizando inúmeras reuniões com a Comissão. Em um ano, o grupo de lobby se reuniu com os gabinetes de diversos Comissários 18 vezes, mais do que durante todo o mandato anterior da Comissão, de 2019 a 2024.1Um terço das reuniões agendadas para 2025 menciona explicitamente o projeto de simplificação de normas em sua pauta.

As empresas agroquímicas também enviaram seus próprios lobistas para pressionar a Comissão, em um ritmo muito mais acelerado do que nos anos anteriores. A Bayer, por exemplo, garantiu 34 reuniões em 2025 – em comparação com 20 durante todo o mandato anterior da Comissão (2019-2024). Destas, dez reuniões deste ano se concentraram explicitamente em questões agrícolas.2, oito mencionam a simplificação como um objetivo.

Biocontrole, um cavalo de Troia para agrotóxicos em Bruxelas

Essa intensa pressão parece ter surtido efeito, como demonstra o desmantelamento das regulamentações que regem a comercialização de agrotóxicos, proposto no projeto de lei abrangente, mas também a introdução no texto de uma nova categoria de substâncias: produtos de biocontrole . Esse conceito, cujos contornos ainda são um tanto vagos, é agora utilizado por diversos atores (cientistas, industriais, políticos, etc.) para se referir tanto a técnicas agroecológicas quanto a produtos de diferentes tipos, associados a uma imagem mais ambientalmente amigável. 

De que substâncias estamos falando exatamente? Elas realmente representam menos riscos do que os agrotóxicos? Todas essas questões essenciais permanecem sem resposta por enquanto, mas podem encontrar respostas no relatório abrangente sobre segurança alimentar, que propõe a primeira definição europeia de biocontrole. Nesse contexto de criação de uma nova categoria de produto e aproveitando-se da persistente ambiguidade legal em torno desse conceito, os grupos de pressão da indústria agroquímica estão trabalhando com a Comissão Europeia para impor sua definição ideal : a mais ampla possível, abrangendo o máximo de produtos possível.

A redação atualmente proposta pela Comissão no documento abrangente, que é muito vaga, deixa ampla margem para que a indústria a interprete em seu benefício . “Substâncias de biocontrole são definidas como: microrganismos; substâncias inorgânicas encontradas na natureza, com exceção de metais pesados ​​e seus sais; ou substâncias de origem biológica ou sintética que sejam funcionalmente idênticas e estruturalmente semelhantes a estas.”3 

Longe de permitir apenas produtos de origem natural, essa terminologia também abre as portas para substâncias “produzidas sinteticamente” em laboratório, desde que sejam “funcionalmente idênticas e estruturalmente semelhantes” a moléculas existentes na natureza. A definição, portanto, coloca em pé de igualdade práticas agroecológicas comprovadas ao longo de décadas, como o sabão preto para o controle de pulgões, e novas biotecnologias sobre as quais ainda temos pouca experiência, como os pesticidas genéticos.

Para os fabricantes, influenciar a própria definição de biocontrole tornou-se uma questão crucial. Ao explorarem a imagem supostamente mais ecológica dessas substâncias, eles exigem que os produtos dessa nova categoria se beneficiem de um quadro regulatório significativamente mais flexível para acelerar sua entrada no mercado europeu. O rótulo de biocontrole se tornaria, portanto, uma oportunidade altamente lucrativa de greenwashing para as empresas , permitindo-lhes continuar comercializando produtos potencialmente tóxicos, apresentando-os como alternativas ecológicas aos agrotóxicos. Diversas medidas no projeto de lei omnibus refletem essa abordagem. Por exemplo, o texto propõe a concessão de autorizações de comercialização temporárias para esses produtos por um período de cinco anos, mesmo antes de a União Europeia concluir sua avaliação da toxicidade de seus princípios ativos.

1Fonte: Transparência Internacional UE Dados para 2025 e 2019-2024.2A Bayer também é um grupo farmacêutico. Das 34 reuniões solicitadas à Comissão, algumas dizem respeito, portanto, a questões não agrícolas.3A tradução foi realizada pela POLLINIS; a Comissão ainda não publicou nenhuma tradução francesa do seu texto.

Uma definição de biocontrole ditada por lobistas

Diante da potencial oportunidade econômica apresentada por essa nova categoria de pesticidas, os lobistas vêm preparando o terreno para essa questão há vários anos. De acordo com documentos obtidos pela POLLINIS, a CropLife contatou a Comissão logo no início para defender sua própria definição de biocontrole , a mais ampla possível. Em 23 de setembro de 2024, a pedido do grupo de lobby, membros da Direção-Geral da Saúde da Comissão Europeia (DG Saúde)4 Eles conversaram com 13 especialistas da CropLife – metade empregados diretamente pelo grupo de lobby, os demais provenientes de empresas associadas, incluindo gigantes como Syngenta, Bayer, BASF e Corteva. Isso proporcionou ao grupo de lobby a oportunidade de compartilhar sua definição de biocontrole, bem como seus pontos de vista sobre os protocolos que deveriam ser usados ​​para avaliar os riscos desses produtos.

Um memorando, encaminhado à Direção-Geral da Saúde após esta reunião, revela a terminologia que o grupo de pressão deseja favorecer. A CropLife expressa a esperança de que a definição adotada seja “suficientemente ampla para permitir e incentivar a inovação”. Os produtos de biocontrole são descritos como substâncias ativas “derivadas da natureza, sejam elas naturais ou sintetizadas”. Para as moléculas sintetizadas em laboratório, especifica-se que elas devem ser “estruturalmente semelhantes e funcionalmente idênticas às encontradas na natureza”.5Termos muito próximos da definição de biocontrole divulgada pela Comissão em dezembro de 2025 , como parte do acordo abrangente sobre segurança alimentar.

4O atual Comissário Europeu para a Saúde, Olivér Várhelyi, é o relator do relatório abrangente sobre segurança alimentar para a Comissão Europeia.5Citação completa em inglês: “Os biopesticidas são substâncias ativas, conforme definidas pelo Regulamento (CE) n.º 1107/2009, derivadas da natureza, seja por ocorrência natural ou por síntese, desde que sejam estruturalmente semelhantes e funcionalmente idênticas às suas contrapartes naturais.”

Este memorando demonstra claramente a intenção de influenciar os debates futuros sobre o biocontrole . O corpo do e-mail contendo o documento, enviado pelo grupo de pressão em 25 de setembro de 2024, indica que se destina a membros do SCoPAFF (Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações), antes da reunião agendada para o início de outubro de 2024. Este comitê técnico opaco, que a POLLINIS já investigou , reúne representantes dos Estados-Membros da UE e desempenha um papel fundamental na tomada de decisões agrícolas da Comissão Europeia, particularmente em questões relacionadas à regulamentação de pesticidas.

A ata da reunião da SCoPAFF de outubro de 2024 também menciona a infame nota enviada pela CropLife à Comissão . ” A Comissão compartilhou uma nota da indústria na qual saudava o fato de que certas propostas de emendas se alinhavam claramente com a definição desejada de biocontrole, o que não era o objetivo da Comissão “, enfatiza a ata, antes de acrescentar: ” embora essa ideia provavelmente seja incorporada em propostas futuras “. Nesse ponto, a SCoPAFF estava certa: com a definição de biocontrole atualmente proposta pela Comissão no documento abrangente, os lobbies da indústria de pesticidas têm motivos para estar satisfeitos.

Tudo ainda pode mudar.O projeto de lei abrangente sobre segurança alimentar está apenas no início de sua jornada legislativa; ele ainda precisa ser examinado no primeiro semestre de 2026 pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia.


Fonte:  Pollinis

Mais agrotóxico, menos pássaros: estudo francês comprova efeito de venenos agrícolas na biodiversidade

Um estudo francês publicado nesta quarta-feira (14) cruza dados sobre vendas de pesticidas e monitoramento de aves comuns e revela que, nas regiões onde os produtos fitossanitários são mais usados, a abundância de aves cai significativamente. Para 84% das espécies analisadas, quanto mais pesticida vendido, menor sua população. A pesquisa evidencia o papel direto e indireto dos pesticidas no declínio da biodiversidade, destacou o jornal Le Monde e as principais agências europeias

Desde a década de 1990, cerca de um terço das populações de aves que vivem em áreas agrícolas teria desaparecido. (imagem ilustrativa) FRANCOIS NASCIMBENI / AFP

Por RFI 

Abelhas, minhocas, pássaros… Diversos estudos já demonstraram que os agrotóxicos podem causar efeitos prejudiciais em uma ampla variedade de espécies. Ainda assim, entender e medir com precisão o impacto desses produtos sobre a biodiversidade continua complexo. A pesquisa publicada nesta quarta-feira na revista Proceedings of the Royal Society B traz novos elementos: na França, a população de aves é menor nas áreas onde os pesticidas são mais comprados.

A análise que cruza duas bases de dados — sobre a comercialização de agrotóxicos na França e o acompanhamento de aves comuns — mostra o papel dos produtos fitossanitários no colapso da biodiversidade. 

“Para 84,4% das espécies analisadas, a correlação é negativa: quanto mais pesticidas vendidos, menor a abundância de espécies e população”, resume Anne‑Christine Monnet, primeira autora e pesquisadora do Centro de Ecologia e Ciências da Conservação (Museu Nacional de História Natural da França/CNRS/Sorbonne).

“O efeito é muito forte. Muitas espécies são afetadas.” Na França, a população de aves comuns do campo e de áreas urbanas caiu quase 30% nas últimas três décadas”, atestou a pesquisadora.

Diferentemente de estudos anteriores, esta pesquisa analisa os efeitos de 242 substâncias diferentes, cobrindo toda a França metropolitana, e não apenas de um ou dois pesticidas específicos. Ela se concentra em todas as espécies de aves comuns que frequentam ambientes agrícolas, e não apenas naquelas especializadas nesses habitats. Além disso, os pesquisadores tentaram separar o efeito direto dos pesticidas de outros fatores ligados à intensificação da agricultura, como o tamanho das propriedades e a diversidade da paisagem.

Rouxinóis, pintassilgos e gaviões

Para chegar a esses resultados, os cientistas do Museu Nacional de História Natural da França (MNHN) e da Universidade de Poitiers usaram dados de 2017 do Registro Nacional de Vendas de Produtos Fitossanitários por distribuidores autorizados. Essa base pública, criada em 2006 e acessível desde 2019, reúne informações sobre vendas de agrotóxicos associadas aos códigos postais dos compradores.

Para confirmar que o volume de vendas refletia a contaminação ambiental local, os pesquisadores compararam os dados com outra base sobre resíduos de pesticidas em águas superficiais. “Encontramos muitas correlações positivas”, diz Anne-Christine Monnet. “Quanto mais substâncias tóxicas, mais resíduos aparecem na água.”

Os dados foram cruzados com o monitoramento em tempo real de aves comuns, um programa de ciência que registra variações na abundância de espécies na França. Entre os 64 tipos de aves presentes em ambientes agrícolas analisados — como rouxinóis, pintassilgos e gaviões — 54 apresentaram menor abundância nas regiões onde os pesticidas eram mais vendidos, de forma estatisticamente significativa ou próxima disso. “A contaminação dos campos afeta não apenas as espécies altamente dependentes desses habitats, mas todas as que os utilizam regularmente”, explicam os pesquisadores.

“Os resultados são muito fortes, mesmo quando análises desse tipo costumam ter limitações”, observa Stanislas Rigal, pesquisador da Fundação para a Pesquisa sobre a Biodiversidade, que não participou do estudo. A maioria das espécies analisadas responde negativamente ao aumento do uso de pesticidas.

Como os agrotóxicos afetam as aves

O impacto pode ser direto, quando os pássaros ingerem sementes tratadas ou se alimentam de insetos ou plantas contaminadas. Também há efeito indireto, ao reduzir recursos disponíveis, como insetos que serviriam de alimento.

Para garantir que os efeitos observados não fossem confundidos com outros fatores da agricultura intensiva, os pesquisadores incluíram em seus modelos variáveis como tipo de cultivo, tamanho das parcelas, extensão de cercas vivas, uso de arado, entre outros. “Assim, podemos verificar se os efeitos negativos dos pesticidas estão realmente ligados ao produto, e não ao tipo de cultura, por exemplo”, explica Monnet.

Os autores destacam ainda que, embora o acesso ao registro de vendas de pesticidas represente um avanço importante para estudar seu impacto, a base poderia ser aprimorada ao relacionar as vendas com as parcelas específicas onde os produtos são aplicados.


Fonte: RFI

Soja e agrotóxicos sufocam comunidades tradicionais da Amazônia

Pesquisa documenta dificuldades respiratórias e alimentares de indígenas e quilombolas causadas pelo uso de glifosato em terras griladas no Baixo Tapajós

A foto mostra uma grande área agrícola já colhida ou preparada para plantio, com o solo exposto e restos de palha seca. Próximo à borda da plantação há uma floresta densa, com árvores altas e vegetação tropical fechada. No canto esquerdo da imagem, uma máquina agrícola vermelha, equipada com uma barra pulverizadora longa, está trabalhando no campo.Pequenos fragmentos florestais mascaram dimensão da devastação ocasionada por platações de soja no Baixo Tapajós – Foto: Bruno Kelly

Por Jean Silva, com arte de  Gustavo Radaelli, para o Jornal da USP 

Plantações de soja, agrotóxicos e grilagem de terras na Amazônia brasileira: esse é o cenário. Em meio ao vasto território, existe um mito de a região florestal estar vazia, apesar de os povos tradicionais tentarem manter suas formas de vida. Por 18 meses de estudo etnográfico, Fabio Zuker, pesquisador da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP investigou a expulsão por sufocamento no Baixo Tapajós devido ao uso de glifosato em plantações de soja de terras griladas. Os casos ilustram dificuldades respiratórias, alimentares e econômicas como formas de expulsar indígenas, quilombolas e ribeirinhos de suas terras.

O artigo intitulado Expulsion by suffocation: Soybean plantations, toxicity, and land grabbing in the Brazilian Amazon foi publicado na revista Environment and Planning E: Nature and Space.

“O sufocamento acontece de forma literal e metafórica. Literalmente, as pessoas não conseguem respirar devido à intensa aplicação de agrotóxicos. Elas se trancam em suas casas, relatando dificuldade para respirar”, conta Zuker. Em metáfora, é uma alusão à supressão da capacidade dessas comunidades manterem sua produção, seu modo de vida, manterem-se junto a esse território e às relações com outras espécies das quais dependem para viver. No trabalho, o pesquisador evidencia como um imaginário colonial-militar de vazio é produzido através de danos químicos lentos.

“A ideia é que o vazio na Amazônia é produzido, e não natural. Foi criado ao longo da história, desde a Marcha para o Oeste no governo Vargas até o Plano de Integração Nacional da ditadura militar”, contextualiza. 

No trabalho de antropologia, o pesquisador quis dar um tratamento reflexivo e crítico ao processo de expulsão por sufocamento. Por isso, encarou a “farsa” do vazio como uma categoria que permite compreender o processo de fabricação da paisagem, na qual pequenos pedaços de floresta e comunidades escondem a dimensão da devastação ambiental.

“O vazio é produzido pelas próprias atividades [violentas] que o ocupam, como o uso de agrotóxicos. Uma produção intencional desse espaço esvaziado” – Fabio Zuker

Violência e resistência

No contexto da pesquisa, a expansão do agro é colocada como uma forma de morte induzida quimicamente pelo uso de agrotóxicos no Baixo Tapajós. Em conversa com lideranças das comunidades, o pesquisador constatou também a existência de uma floresta que é quase uma maquiagem. “Pequenos trechos de floresta na beira de estrada. São as bolhas que sobram aqui e ali”, indica Zuker. 

Em diálogo com Beto, morador e trabalhador rural da região, o pesquisador chama essas bolhas de “farsa das comunidades”. “Só tem umas casinhas ali, na beira da estrada. E nada mais. Antes havia uma comunidade grande aqui. Só umas árvores ali. É tudo soja atrás”, relata o morador.

 A farsa indicada é criada pelas comunidades remanescentes e pelos fragmentos de mata que, da beira da estrada, escondem os vastos campos de soja que invadem a paisagem. De outro lado, o pesquisador destaca os processos de resistência para impedir toda essa lógica de “vazio”.

“Tem um problema grande nas ciências sociais, que é focar exclusivamente numa narrativa da violência, da destruição, uma narrativa do apagamento. O que está colocado em jogo é uma tensão, é uma força que leva para a violência, para o apagamento, para o processo de sufocamento. Por outro lado, há uma resistência constante de coletivos indígenas, quilombolas, ribeirinhos que se contrapõe a essa expulsão”, continua. Ele alega que essa é uma forma de contra plantation ao se colocarem contra a incorporação de seus territórios numa lógica de violência do sistema de produção global de grãos e proteínas vegetais.

Uma casa antiga de madeira parcialmente escondida pela vegetação densa de tábuas claras já desgastadas tem um telhado simples e uma pequena abertura frontal da porta — tomada pela sombra e por plantas que cresceram para dentro do espaço. Arbustos, cipós e árvores envolvem quase toda a fachada, cobrindo paredes e avançando pelo telhado.

No território, existem múltiplos seres, não humanos ou humanos, defendendo o território para que ali se multipliquem outras formas de vida – Foto: Bruno Kelly

Junto com os tupinambás do Baixo Tapajós, a pesquisa resgatou a ideia de um território vivo em contraposição ao vazio. E em um lugar onde coexistem múltiplos seres: não humanos que têm um papel fundamental na defesa do território e defendem junto com os humanos a integridade dele para que ali se multipliquem outras formas de vida. “Todos esses encantados, esses outros seres que compõem esse território de múltiplas formas de vida, não somem. Eles têm a possibilidade de reaparecer e voltar esse léxico. Um processo de retomadas, de mobilizações contra o avanço do agronegócio”, explica o pesquisador.

Soluções

O esforço de documentar esse fenômeno da região amazônica vem de campos diferentes do saber, que buscam evidenciar a dimensão de danos causados por agrotóxicos. “Junto com análises de ciências sociais, conseguimos demonstrar também a partir de narrativas, de histórias de vida, de casos, um padrão de violência local”, explica Zuker. Essa complementaridade é necessária devido à dificuldade de produzir conhecimento sobre os efeitos de uma substância invisível que age no longo prazo. 

“Além de ser difícil traçar os resultados por um período extenso, [a pesquisa nesse assunto] é também reprimida por conta de pessoas poderosas com muitos interesses e muita entrada na política local”, alerta. Ainda assim, ele defende que os índices de desenvolvimento humano das comunidades amazônicas devem acontecer com a floresta viva e em pé. “Nada indica que o desmatamento seja um caminho importante para que exista uma melhoria na vida dessas pessoas”, afirma. Pelo contrário, a floresta e os ecossistemas são partes fundamentais para essas populações de acordo com sua pesquisa. 

Sobre o uso de agrotóxicos, Zuker defende melhores práticas regulatórias e de fiscalização para evitar a lógica de expulsão. “Um elemento fundamental é a não comercialização no Brasil de agrotóxicos que são proibidos nos seus países de origem”, indica. Contudo, ele ressalta a importância do diálogo de diferentes setores para promoção do respeito à existência ecológica e do conhecimento local nessas e em outras regiões que são ameaçadas pela monocultura e pela mineração.

O artigo intitulado Expulsion by suffocation: Soybean plantations, toxicity, and land grabbing in the Brazilian Amazon pode ser acessado clicando aqui.

Para mais informações: fabiozuker@gmail.com, com Fabio Zuker

*Estagiário sob orientação de Tabita Said

**Estagiário sob orientação de Moisés Dorado


Fonte: Jornal da USP

Acordo EU-Mercosul: Uma declaração de falência para a União Europeia

“Parem a UE-Mercosul” – agricultores na Polônia também foram às ruas para protestar contra o acordo de livre comércio com os países sul-americanos e sua poderosa indústria agrícola.

“Parem a UE-Mercosul” – agricultores na Polônia também foram às ruas para protestar contra o acordo de livre comércio com os países sul-americanos e sua poderosa indústria agrícola. Foto: AFP/Wojtek Radwanski
Por Martin Ling para “Neues Deutschland”

A União Europeia (UE) mantém-se fiel à sua essência: abrir mercados no exterior para garantir lucros às empresas do bloco é o princípio orientador da realpolitik. As preocupações ambientais e sociais são, na melhor das hipóteses, abordadas apenas com cláusulas não vinculativas em acordos de livre comércio. O que se aplica ao acordo de livre comércio concluído com o México em 2000, que foi o primeiro tratado comercial a consagrar uma cláusula de direitos humanos, também se aplica ao acordo de livre comércio com os países sul-americanos do Mercosul: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

A UE esperava finalizar o acordo do Mercosul no ano passado, após 26 anos de negociações, mas foi impedida pela resistência da França e da Itália. O governo de direita da Itália, liderado por Giorgia Meloni, aprovou o acordo após promessas de aumento do financiamento para os agricultores da UE. Isso garantiu a maioria necessária de pelo menos 15 Estados-membros da UE, representando pelo menos 65% da população da UE. A facção do “não”, liderada pela França e incluindo Irlanda, Polônia, Hungria e Áustria, que teme principalmente que seus próprios agricultores sofram, foi, portanto, derrotada na votação.

O acordo consagrou o chamado mecanismo de contramedidas. Este instrumento permite que as partes contratantes tomem contramedidas caso novas leis de proteção dos direitos humanos e do meio ambiente impactem negativamente as concessões comerciais. Uma potencial expansão dos direitos humanos e ambientais por meio de legislação é, portanto, declarada uma barreira comercial. Não poderia ser mais claro o que importa: comércio lucrativo, se necessário, à custa do progresso em direitos humanos e ambientais. O fato de a UE não ter invocado a cláusula de direitos humanos contra o México sequer uma vez desde 2000, um país onde as forças de segurança do Estado são conhecidas por cometerem violações massivas de direitos humanos com impunidade, diz muito.

Do ponto de vista da UE, o acordo de livre comércio significa mais exportações de carros e agrotóxicos e mais importações de carne barata e matérias-primas. Ignora a necessidade do século XXI de promover uma transformação socioecológica rumo a um sistema econômico que possibilite uma vida melhor para todos, em todas as regiões. Além disso, agrava a destruição ambiental e a desigualdade social. O acordo é mais uma condenação contundente da Comissão Europeia.


Fonte: Neues Deutschland

Acordo Mercosul-UE é um pacto neocolonial que aumentará o caos ambiental e social

O anúncio de que o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia será finalmente assinado vem sendo apresentado como uma espécie de salvação da lavoura. Entre apoiadores do governo Lula, o tratado é celebrado como mais uma demonstração da suposta habilidade negociadora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no cenário internacional.

No entanto, uma leitura minimamente atenta das análises já produzidas sobre o acordo revela um quadro bem menos alentador. Os termos de troca embutidos no tratado colocam o Mercosul em posição claramente desfavorável. Enquanto a União Europeia amplia o acesso de seus produtos industrializados aos mercados sul-americanos, os países do Mercosul entram com aquilo que historicamente lhes foi reservado: commodities agrícolas e minerais. Não é preciso grande sofisticação em economia política para perceber que os principais beneficiários do acordo serão as economias industriais europeias, com destaque para a Alemanha.

Além disso, o aprofundamento da especialização primário-exportadora tende a intensificar pressões já elevadas sobre florestas, territórios e povos tradicionais. A expansão da fronteira agromineral, estimulada pela lógica do acordo, deve agravar conflitos socioambientais existentes e elevar o grau de violência em regiões já marcadas por disputas fundiárias e degradação ambiental. E tome mais desmatamento e degradação florestal!

Outro efeito colateral pouco discutido diz respeito ao uso de agrotóxicos. O acordo cria condições favoráveis para a ampliação do consumo de substâncias altamente tóxicas, muitas das quais já foram banidas na própria União Europeia. Não por acaso, grandes corporações químicas europeias — como Bayer e BASF — figuram entre as mais interessadas na ratificação do tratado. É no Mercosul que esses produtos encontram mercados permissivos, capazes de absorver aquilo que os países-sede dessas empresas não permitem mais utilizar. A assinatura do acordo tende, portanto, a consolidar espaços desregulados para a comercialização de venenos rejeitados no Norte global.

Em síntese, o acordo Mercosul–União Europeia sacramenta um processo de recolonização econômica. Ele reatualiza o velho modelo fazenda-indústria que sustentou o enriquecimento europeu no século XIX, ao mesmo tempo em que manteve suas colônias sul-americanas presas a relações de troca profundamente desiguais. A diferença é que, agora, esse arranjo será vendido como triunfo do multilateralismo e da diplomacia moderna — quando, na essência, se trata de um pacote nitidamente neocolonial.

Uso de agrotóxicos proibidos causa proibição de importação de frutas produzidas no Mercosul pela França

FRANCE TO SUSPEND IMPORTS OF CERTAIN FRUITS OVER BANNED PESTICIDE RESIDUES

A França suspenderá a importação de frutas que contenham resíduos de pesticidas proibidos na UE , anunciou no domingo o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu  

Por Diário do Centro do Mundo

A França anunciou a suspensão da importação de frutas provenientes do Mercosul que contenham resíduos de agrotóxicos proibidos na União Europeia. A decisão foi comunicada no início da noite deste domingo (4) pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu e tende a acirrar as negociações do acordo comercial entre os dois blocos.

Em “carta aberta aos agricultores da França”, Lecornu afirmou: “Portarias serão adotadas pelo governo esta semana para suspender a importação de gêneros alimentícios provenientes de países da América do Sul, como abacates e maçãs, contendo resíduos de cinco substâncias, no entanto, já proibidas na Europa”.

Em publicação na rede X, ele citou mancozebe, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim, além de indicar impacto sobre abacate, maçã, manga, goiaba, cítricos e uvas.

Segundo o premiê, “os controles sobre as importações serão maciçamente reforçados, nas fronteiras e dentro do território [francês]”. Ele acrescentou: “Acabo de endurecer as instruções a esse respeito. Cabe, doravante, à União Europeia amplificar rapidamente essas ações na escala de todo o mercado europeu”.

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Efeito nas negociações com o Mercosul

A França é a principal opositora do acordo de redução tarifária com o Mercosul, sob pressão de agricultores locais. Em dezembro, com apoio da Itália, Paris conseguiu adiar a assinatura final para janeiro, alegando a necessidade de salvaguardas e controles sanitários.

O adiamento irritou o presidente Lula (PT), que concordou em postergar a cerimônia após conversa com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni.

O Brasil sinaliza que pode abandonar as negociações se houver nova postergação, enquanto a França atua para barrar a entrada em vigor do acordo, que ainda depende do Parlamento Europeu.


Fonte: Diário do Centro do Mundo

Organizações pedem que a Anvisa suspenda o uso de 3 agrotóxicos após novas descobertas científicas

Por Yudi Soares para “Terra Brasil Notícias”

O debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil ganhou novo fôlego em 2025 após entidades da sociedade civil solicitarem oficialmente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a suspensão das vendas de três ingredientes ativos amplamente utilizados: glifosato, atrazina e alacloro, em um contexto de recordes sucessivos no consumo dessas substâncias e de questionamentos sobre a integridade científica de estudos que embasaram decisões regulatórias anteriores.

Por que o glifosato está no centro da discussão no Brasil?

Por mais de duas décadas, decisões regulatórias sobre sua segurança se apoiaram em um estudo publicado no ano 2000, cuja independência científica passou a ser fortemente questionada.

Em 2025, veio à tona que funcionários da empresa Monsanto teriam participado da elaboração do artigo de forma não transparente, levando à sua retratação pela revista científica. Como esse estudo serviu de base para pareceres da Anvisa que mantiveram o glifosato liberado em 2020, entidades passaram a exigir reavaliação urgente com critérios atualizados, transparência e maior escrutínio público.

Quais são os números mais recentes sobre agrotóxicos no Brasil?

A discussão sobre o glifosato se insere em um cenário mais amplo de crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil. Em 2024, o Ibama registrou aproximadamente 908 mil toneladas de ingredientes ativos comercializados, um aumento superior a 20% em relação a 2023, o maior volume já registrado na série histórica.

Entre esses ingredientes, o glifosato segue na liderança, com mais de 230 mil toneladas vendidas em 2024, seguido de compostos como o mancozebe, que subiu de posição após forte crescimento. Embora os dados do Ibama sejam autodeclaratórios e passíveis de revisão, eles confirmam uma tendência de expansão em volume e faturamento, também apontada pelo Sindiveg.

Quais são os riscos de câncer associados à atrazina e ao alacloro?

Além do glifosato, a atrazina e o alacloro também foram incluídos no pedido de reavaliação apresentado à Anvisa. Em novembro de 2025, especialistas internacionais em saúde classificaram essas duas substâncias como prováveis causadoras de câncer em humanos, aumentando a pressão por medidas de precaução.

A atrazina ocupa lugar de destaque no mercado nacional, com dezenas de milhares de toneladas comercializadas anualmente, o que amplia o potencial de exposição populacional. Diante dessa classificação de risco, as entidades defendem a aplicação do princípio da precaução, com suspensão temporária do uso enquanto uma nova análise toxicológica abrangente é conduzida.

Quais fatores são considerados na reavaliação toxicológica de agrotóxicos?

As entidades que assinam o pedido à Anvisa argumentam que uma reavaliação séria deve considerar não apenas estudos laboratoriais, mas também evidências de campo e impactos cumulativos. Nessa perspectiva, o processo precisa analisar efeitos à saúde humana, ao meio ambiente e às condições de trabalho no campo, de forma integrada.

Para tornar essa análise mais robusta, costumam ser avaliados diversos aspectos científicos e regulatórios, que ajudam a orientar decisões sobre restrições, cancelamentos ou mudanças de uso autorizado:

  • Novas evidências científicas sobre efeitos à saúde humana, incluindo estudos epidemiológicos;
  • Impactos ambientais, como contaminação de solo, água e biodiversidade;
  • Exposição ocupacional de trabalhadores rurais e condições de aplicação;
  • Resíduos em alimentos consumidos pela população e padrões de consumo.

Como o aumento do uso de agrotóxicos impacta a sociedade brasileira?

O crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil é acompanhado por preocupações com saúde pública e meio ambiente, como contaminação da água, do solo e dos alimentos. Casos de intoxicação aguda em trabalhadores expostos diretamente e suspeitas de efeitos crônicos na população em geral reforçam a necessidade de políticas de redução e controle mais rigoroso.

Paralelamente, o país registra número recorde de liberações de novos produtos: em 2025, de fevereiro ao início de dezembro, foram autorizados mais de 700 agrotóxicos para uso agrícola, superando 2024. Esse avanço coexiste com iniciativas como o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que busca estimular práticas agrícolas menos dependentes de químicos sintéticos e fortalecer a vigilância em saúde.

Quais caminhos vêm sendo discutidos para reduzir a dependência de agrotóxicos?

No contexto atual, o debate sobre políticas de redução de agrotóxicos envolve diferentes frentes de ação governamental, científica e social. Documentos técnicos e propostas oficiais costumam apontar a necessidade de combinar mudanças regulatórias com incentivos a alternativas produtivas mais sustentáveis.

De forma geral, são mencionadas três linhas de atuação que podem apoiar uma transição gradual para modelos de produção menos dependentes de pesticidas químicos, conciliando produtividade com proteção à saúde e ao meio ambiente:

  1. Revisão regulatória: reavaliar ingredientes ativos, atualizar monografias, restringir usos específicos ou cancelar registros de substâncias com evidências consistentes de risco;
  2. Estímulo a alternativas: incentivar o manejo integrado de pragas, a agroecologia e insumos biológicos, reduzindo a necessidade de produtos químicos tradicionais;
  3. Transparência e monitoramento: ampliar sistemas de vigilância em saúde, controle de resíduos em alimentos e divulgação de informações acessíveis sobre riscos e usos permitidos.

Fonte: Terra Brasil Notícias

Balanço anual do Blog do Pedlowski e as perspectivas para 2026

Este espaço existe há 15 anos e, desde então, o Blog do Pedlowski busca oferecer informações sobre uma gama de temas para os quais inexiste cobertura abrangente nas mídias tradicionais. Entre os tópicos abordados estão as questões relacionadas ao colapso climático, ao processo de alteração da cobertura vegetal na Amazônia, aos impactos do uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos e às transformações que têm afetado a capacidade de se produzir ciência de qualidade.

O blog também tem servido como espaço de disseminação de informações sobre os impactos de grandes empreendimentos portuários sobre o ambiente e sobre as populações que vivem nas áreas escolhidas para sua implantação. Um dos focos permanentes de atenção — e uma das razões centrais para a criação do Blog do Pedlowski — é o Porto do Açu. Implantado em terras que outrora abrigavam formas singulares de relação entre sociedade e natureza, esse empreendimento tem produzido alterações profundas. No momento, o impacto mais visível é a destruição associada ao avanço da erosão na Praia do Açu.

Posso adiantar que todos esses temas continuarão a ser tratados em 2026. Apesar das pressões que se buscam impor para que o Blog do Pedlowski deixe de existir, sigo convicto de que este espaço mantém sua relevância e cumpre plenamente o propósito para o qual foi criado.

Aproveito para agradecer aos milhares de leitores espalhados por diferentes regiões do mundo, cuja atenção e acompanhamento têm garantido ao Blog do Pedlowski a visibilidade necessária para a continuidade de seu trabalho. Agradeço ainda os colaboradores do blog que enriqueceram este espaço com suas ideias e informações, tornando-o mais plural e abrangente.

Ao longo de seus 15 anos de existência, o Blog do Pedlowski se consolidou como um espaço crítico e independente de produção e circulação de informações sobre temas socioambientais negligenciados pela grande mídia. Ao articular ciência, política e território, o blog reafirma seu compromisso com a denúncia dos impactos de modelos predatórios do Capitalismo, com a defesa das populações afetadas e com a valorização do conhecimento científico como ferramenta essencial para a compreensão e a transformação da realidade.

O colapso climático e o fortalecimento da ordem agroquímica-mineral apontam para um 2026 desafiador

Foto: Licia Rubstein

Por Marcos Pedlowski para “Nova Democracia”

Os últimos meses têm sido marcados por uma sucessão de eventos meteorológicos extremos em diferentes partes do planeta. No Brasil, o tornado que destruiu grande parte da cidade de Rio Bonito do Iguaçu no Paraná se transformou em um símbolo eloquente da materialização dos cenários mais críticos anunciados pela ciência climática. Estamos, gostemos ou não, diante da confirmação empírica das piores projeções. O que chama atenção, entretanto, não é apenas a gravidade dos acontecimentos, mas o fato de que essa evidência crescente não tem sido acompanhada por decisões políticas à altura do desafio. Ao contrário, seguimos sem qualquer estratégia consistente de adaptação, mesmo diante da aceleração inequívoca das temperaturas globais e da frequência acelerada de eventos meteorológicos extremos..

Entretanto, a indisposição de governos e corporações capitalistas em promover o faseamento dos combustíveis fósseis não pode ser atribuída à ignorância ou à incerteza científica. Como já apontava o geógrafo francês Yves Lacoste, o conhecimento aprofundado da realidade está concentrado nos grandes Estados e nos centros de poder que efetivamente tomam decisões estratégicas. Assim, o que se observa, portanto, não é um erro de avaliação, mas escolhas deliberadas. As decisões que aceleram o colapso climático, frequentemente apresentadas como irracionais ou contraditórias, obedecem a uma lógica fria e instrumental: preservar a ordem capitalista existente, ainda que isso implique o sacrifício de bilhões de pessoas e a deterioração irreversível das bases ecológicas da vida.

Além disso, é preciso rejeitar a narrativa enganosa de que o colapso climático afetará a todos de maneira equivalente. Ele será profundamente desigual, tanto do ponto de vista geográfico quanto social. As regiões tropicais experimentarão impactos mais severos, e as populações pobres arcarão com os custos mais elevados de um planeta mais quente e mais seco. Essa assimetria ajuda a explicar por que os países centrais do capitalismo combinam políticas cada vez mais rígidas de fechamento de fronteiras com a intensificação da pilhagem de recursos naturais nos países periféricos. Trata-se da atualização da velha ordem colonial sob novas condições climáticas, destinada a preservar a troca desigual. Diante desse cenário, qualquer discurso sobre solidariedade internacional soa vazio quando confrontado com as práticas concretas que estruturam o sistema de trocas globais, incluindo formas explícitas de espoliação.

No entanto, essa ausência de solidariedade não se limita às relações entre Estados nacionais. No Brasil, os acontecimentos de 2025 evidenciam que as diferentes frações da burguesia nacional também optaram por acelerar mecanismos de exploração que aprofundam o colapso climático. Essa escolha se expressa de maneira cristalina nas decisões recentes do Congresso Nacional na área ambiental. A aprovação do chamado PL da Devastação representa um marco nesse processo, ao institucionalizar a destruição ambiental e reforçar a condição neocolonial do país. Quando articulada à tese do Marco Temporal, igualmente aprovada, revela-se um compromisso inequívoco com os interesses do latifúndio agroexportador, para o qual a transformação do Brasil em uma zona de sacrifício ambiental não constitui problema, mas estratégia.

Essa lógica foi reforçada pela decisão majoritária do Supremo Tribunal Federal (STF) de manter as isenções fiscais e tributárias bilionárias concedidas aos fabricantes de agrotóxicos. A ratificação de benefícios imorais para os fabricantes de agrotóxicos proibidos nos países que sediam as empresas fabricantes, em razão de sua elevada toxicidade, ultrapassa em muito uma controvérsia fiscal. Ao preservar esses incentivos, o STF legitima a consolidação do Brasil como área de sacrifício ambiental e sanitário, aprofundando sua inserção subordinada na economia global.  Esta é uma escolha política, ainda que travestida de decisão técnica ou jurídica.

Ao mesmo tempo, enquanto a ciência alerta para as múltiplas interações entre os padrões de produção capitalista e a crise climática, o governo federal insiste em aprofundar relações comerciais de caráter neocolonial com a União Europeia. O acordo Mercosul–UE é exemplar nesse sentido, ao projetar consequências sociais e ambientais dramáticas, entre elas o aumento do fluxo Norte–Sul de agrotóxicos altamente perigosos. Além dos impactos diretos sobre a saúde humana e os ecossistemas, esses produtos contribuem para a ampliação das emissões de gases de efeito estufa, agravando exatamente a crise que as forças do negacionismo sutil dizem querer mitigar.

Diante desse conjunto de elementos, é forçoso concluir que a disputa eleitoral de 2026 que ocorrerá no Brasil tende a se configurar como um simulacro. As forças que controlam o sistema político-partidário brasileiro compartilham, em linhas gerais, o compromisso com a ordem agroquímica-mineral que define a inserção do país na economia mundial. A crise climática, nesse contexto, não aparece como um desvio inesperado, mas como o resultado lógico de escolhas políticas, econômicas e institucionais reiteradas ao longo do tempo. Não se trata de falta de informação ou de alternativas técnicas, mas de uma aposta consciente na intensificação da exploração ambiental e social. 

Romper esse ciclo de destruição programada e nos preparar para o necessário processo de adaptação exigirá mais do que ajustes marginais ou pactos eleitorais: requer o enfrentamento direto dos fundamentos do modelo vigente e da lógica de poder que o sustenta — algo que só forças dispostas a efetivamente romper com o status quo capitalista poderão realizar.


Fonte: Nova Democracia

Não é notícia velha: Brasil bate novo recorde de autorizações de agrotóxicos em 2025

Leonardo Fernandes para “Brasil de Fato”  

Parece notícia requentada, mas não é. Em 2025, o Brasil bateu um novo recorde na liberação de agrotóxicos para uso agrícola. A apuração exclusiva do Brasil de Fato mostra que foram 725 novos produtos liberados de fevereiro ao início de dezembro deste ano, o que representou um aumento de quase 10% em relação a 2024, quando o país já havia batido o recorde de liberação até aquele momento, com o ingresso de 663 novos produtos no mercado brasileiro.

Jaqueline Andrade, assessora jurídica da organização Terra de Direitos, lembra que o mercado de agrotóxicos no Brasil movimenta bilhões de reais com a colaboração do Estado, enquanto a população amarga as duras consequências dessa política.

“Isso significa que a gente tem mais água contaminada, a gente tem mais alimento contaminado e a gente tem mais pessoas diretamente intoxicadas, seja de forma aguda ou de forma crônica pelos agrotóxicos”, pontua Andrade.

“Nosso país é uma verdadeira lixeira química, nosso país está envenenado. E todas as estruturas estão caminhando em prol do agronegócio, seja em torno de subsídio, seja em torno de lei, seja em torno da permissividade que o governo dá para arrecadação bilionária dessas empresas no ramo dos agrotóxicos, em detrimento do ônus sofrido por toda a sociedade brasileira e dos impactos que isso tem causado”, afirma Andrade, que atribui esse alto volume de liberações à aprovação da Lei 14.785/2023, conhecida como o pacote do veneno”, que flexibilizou as normas e enfraqueceu o papel da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), no procedimento para o registro dos venenos.

Diante do empoderamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) promovido pela lei, Jakeline Pivato, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, considera que o Mapa se tornou um “cartório de venenos”.

“O aumento contínuo nos registros de agrotóxicos no Brasil mostra que o Mapa virou um verdadeiro cartório de venenos. Basta um carimbo, e está aprovado. É impensável que estes agrotóxicos estejam sendo submetidos de fato aos estudos necessários para garantir a sua segurança. Se estivéssemos tratando de novas substâncias, menos tóxicas e mais eficientes, seria um esforço louvável; porém, o que vemos são novos registros de velhas moléculas, inclusive de glifosato e atrazina, já comprovadamente cancerígenos de acordo com a Organização Mundial da Saúde”, aponta Pivato.

Mas não era para reduzir?

O novo recorde ocorre no mesmo ano em que foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que estabelece diretrizes para políticas públicas na direção de reduzir o uso dessas substâncias químicas tóxicas na agricultura brasileira, o que despertou questionamentos das organizações da sociedade civil.

“O que a gente questiona é: qual é o compromisso do governo brasileiro na redução no uso de agrotóxicos que deveria ser institucionalizada pelo Pronara, que inclusive está sob ameaça do Congresso Nacional de ser revogado”, questiona Andrade, em referência à aprovação, no final de novembro deste ano, na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 443/2025, de autoria do deputado federal Rodolfo Nogueira (PL/MS), que busca sustar o decreto presidencial de criação do Pronara.

Por outro lado, Pivato lembra que o programa foi construído com a participação dos movimentos e organizações sociais, que trabalharam pela assinatura do decreto em julho passado, e cobra sua implementação. “É urgente que o Pronara comece a funcionar de fato, e que possa colocar um freio nesta festa do agronegócio”, defende.

Brasil: lixão tóxico do mundo

Entre os dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil, sete são proibidos em outros países por comprovada relação com doenças graves, como distúrbios neurológicos, má-formação fetal, abortos espontâneos e vários tipos de câncer.

Entre os mais utilizados, está a atrazina, herbicida amplamente usado em plantações de cana-de-açúcar, soja e milho, que agora é objeto de uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS), que busca a proibição de seu uso e a reavaliação imediata pelos órgãos de controle.

A ação foi movida a partir de estudos que comprovaram a contaminação por atrazina em dois rios importantes que cortam o Mato Grosso do Sul: o rio Dourados e o rio Paraguai. A substância foi identificada em águas superficiais, de chuva e, inclusive, nas torneiras de comunidades ribeirinhas e indígenas.

Procurado pelo Brasil de Fato para comentar os dados recentes de liberação de agrotóxicos, o procurador federal Marco Antonio Delfino, autor da ação no Mato Grosso do Sul, alertou para o fato de que grande parte dos produtos liberados são genéricos, sobre os quais há pouca fiscalização.

“A produção de genéricos não vem acompanhada de um incremento no processo de fiscalização. Tanto dos produtos produzidos quanto dos insumos utilizados”, afirma o procurador, fazendo referência em seguida ao famoso “Agente Laranja”, substância química utilizada pelo exército dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã (1964-1975) e posteriormente aplicada como herbicida para uso agrícola.

“É importante recordar que o Agente Laranja, o principal efeito dele não foi o efeito da junção de dois agrotóxicos, mas justamente os resíduos tóxicos advindos do processo de fabricação. Então, uma liberação massiva de genéricos desacompanhada de uma fiscalização presente pelo Estado brasileiro é muito provavelmente um indício de muitos agrotóxicos com um alto nível de resíduos tóxicos, que vão causar danos tanto à saúde quanto ao meio ambiente”, comenta o procurador.

O Brasil de Fato entrou em contato com o Ministério da Agricultura e Pecuária, solicitando a comparação dos dados da pesquisa com os computados pelo ministério, além de uma posição da pasta em relação ao recorde de liberações de agrotóxicos em 2025. O MAPA apenas confirmou o recebimento da demanda, informando que foi encaminhada à área responsável, e que daria retorno assim que possível. No entanto, a resposta não foi recebida até o momento desta publicação. As informações serão agregadas à matéria tão logo sejam recebidas.


Fonte: Brasil de Fato