Uma ameaça invisível: agrotóxicos estão afetando a saúde e o desenvolvimento infantil

Por Pan UK

Um novo relatório publicado pelo UNICEF no início desta semana revela que a rápida expansão global do uso de agrotóxicos — que mais que dobrou entre 1990 e 2022 — superou em muito a proteção das crianças.

As crianças são expostas a agrotóxicos por meio de alimentos e água, uso em residências, jardins, escolas e espaços públicos. Elas também enfrentam exposição por meio da contaminação ambiental causada pela deriva da pulverização, manejo inadequado de agrotóxicos e  seus resíduos nas roupas. O uso contínuo de agrotóxicos altamente perigosos (HHPs), que apresentam riscos agudos ou crônicos particularmente graves, intensifica esses riscos.

A exposição durante a gravidez e na infância pode levar a problemas de saúde para toda a vida. Os agrotóxicos prejudicam o sistema imunológico, comprometem a função pulmonar e agravam a asma. A exposição também pode afetar a saúde reprodutiva e causar danos aos órgãos e cânceres infantis, incluindo leucemia.

Um número crescente de estudos demonstra os efeitos dos agrotóxicos nos resultados do nascimento e um risco aumentado de anomalias congênitas. A exposição pré-natal a agrotóxicos  está associada a fendas orais, anomalias cardiovasculares e defeitos do tubo neural. Alguns estudos mostraram que a exposição a pesticidas está associada ao risco de baixo peso ao nascer.

Uma área de grande preocupação clínica é a relação entre a exposição crônica a baixos níveis de agrotóxicos e o transtorno do espectro autista (TEA) e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Genotoxicidade refere-se à capacidade de uma substância danificar o material genético, o que pode levar a defeitos hereditários. Evidências crescentes mostram que crianças e adolescentes que vivem em áreas agrícolas ou trabalham na agricultura correm o risco de sofrer danos genotóxicos.

Existem mais de 1.000 substâncias químicas sintéticas, incluindo certos agrotóxicos, que são conhecidas ou potencialmente disruptoras endócrinas (EDCs); este é um número enorme e pode ser uma subestimação. Estudos epidemiológicos em humanos sugerem que as EDCs em crianças afetam o crescimento pré-natal, a função tireoidiana, o metabolismo da glicose, a obesidade, a puberdade e a fertilidade.

O relatório destaca que a verdadeira dimensão dos danos continua subestimada para as crianças em todo o mundo, com intoxicações e mortes por agrotóxicos significativamente subnotificadas nos sistemas globais de dados e riscos amplificados para os 83,4 milhões de crianças envolvidas no trabalho agrícola.

Exige uma ação urgente e coordenada nos âmbitos regulamentar, agrícola, do sistema de saúde e social, incluindo:

  1. Reforçar os padrões e a avaliação de riscos  para levar em conta as vulnerabilidades específicas das crianças.
  2. Eliminar gradualmente os agrotóxicos altamente perigosos , reduzir a toxicidade ambiental relacionada ao uso de agrotóxicos e incentivar o alinhamento com instrumentos internacionais, como a Convenção-Quadro Global sobre Produtos Químicos de 2023.
  3. Eliminar o trabalho infantil na agricultura  e proteger todas as crianças dos riscos dos agrotóxicos.
  4. Reduzir o risco associado aos agrotóxicos através da promoção de práticas agroecológicas, implementação do manejo integrado de pragas e vetores, limitação de aplicações não essenciais e desenvolvimento de alternativas sustentáveis.
  5. Reduzir os impactos  através do monitoramento, do estabelecimento de zonas de amortecimento em torno de onde as crianças vivem, aprendem e brincam, da melhoria do controle da deriva, da segurança alimentar e das medidas de proteção ocupacional.
  6. Ampliar a educação  sobre os riscos dos agrotóxicos, incluindo armazenamento e manuseio, prevenção em casa e exposição alimentar.
  7. Fortalecer os sistemas de saúde  através da criação de centros de informação toxicológica, treinamento de profissionais de saúde e vigilância epidemiológica.

Leia o relatório completo ” Subestimados e Ignorados: O impacto silencioso dos agrotóxicos nas crianças ” aqui 


Fonte: PAN UK

Plano Safra 2026/2027: governo Lula mantém prioridade para o latifúndio agroexportador e deixa a agricultura familiar em segundo plano

O anúncio do Plano Safra 2026/2027 confirma a permanência de uma das maiores contradições da política agrícola brasileira. Embora o governo Lula reafirme, em seus discursos, a importância estratégica da agricultura familiar para garantir a segurança alimentar da população, sua política de crédito rural continua concentrando a maior parte dos recursos públicos na agricultura empresarial voltada para a exportação de commodities. Os números do novo Plano Safra deixam pouca margem para dúvidas: o governo destina um volume de recursos muito superior ao agronegócio empresarial do que ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), preservando uma desigualdade histórica que sucessivos governos prometeram reduzir, mas nunca enfrentaram de forma consistente.

Enquanto isso, a agricultura familiar continua enfrentando dificuldades para acessar financiamento, assistência técnica, infraestrutura de armazenamento e canais de comercialização. Ainda assim, são justamente os agricultores familiares que produzem grande parte dos alimentos que abastecem diariamente a mesa dos brasileiros. Feijão, mandioca, frutas, hortaliças, leite e inúmeros outros produtos essenciais dependem muito mais do trabalho das pequenas propriedades do que das grandes monoculturas destinadas ao mercado internacional. Ao concentrar a maior parte do crédito no agronegócio exportador, o governo envia um sinal inequívoco sobre quais interesses considera prioritários.  Essa é uma escolha que enfraquece justamente o segmento mais importante para a segurança alimentar do país e reforça um modelo voltado prioritariamente para a geração de divisas por meio da exportação de commodities agrícolas.

Essa opção política se torna ainda mais difícil de justificar quando se analisa a situação financeira do próprio agronegócio. Nos últimos anos, grandes produtores rurais e empresas agrícolas acumularam pedidos de recuperação judicial, revelando um setor muito mais dependente do apoio estatal do que seus representantes costumam admitir. Apesar do discurso permanente sobre eficiência, competitividade e capacidade de gerar riqueza, boa parte do grande agronegócio enfrenta elevados níveis de endividamento e encontra cada vez mais dificuldades para sustentar seu próprio modelo de expansão sem o apoio do crédito subsidiado oferecido pelo Estado. Em outras palavras, o governo direciona a maior parcela dos recursos públicos justamente para um segmento que demonstra crescente dependência financeira, enquanto limita o apoio ao setor que efetivamente garante o abastecimento alimentar da população brasileira.

Essa política também produz profundas consequências ambientais. O crédito rural não apenas financia a produção agrícola; ele define a forma como o território brasileiro se organiza e se transforma. Quando o governo concentra recursos nas grandes monoculturas de soja, milho, algodão e outras commodities, ele estimula a expansão contínua da fronteira agrícola. Esse processo mantém forte pressão sobre a Amazônia e, principalmente, sobre o Cerrado, onde grandes proprietários continuam convertendo áreas de vegetação nativa em extensas plantações mecanizadas. Não existe neutralidade nessa escolha orçamentária. Quem financia determinado modelo agrícola também financia os impactos ambientais que esse modelo produz.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o desmatamento continua representando uma das principais fontes das emissões brasileiras de gases de efeito estufa. Embora o governo tenha obtido resultados importantes na redução do desmatamento ilegal em algumas áreas da Amazônia, a expansão da agricultura empresarial continua deslocando a fronteira agropecuária sobre regiões ambientalmente sensíveis, especialmente no Cerrado, bioma que abriga parte significativa das nascentes que alimentam as principais bacias hidrográficas do país. Ao ampliar o financiamento desse modelo produtivo, o Plano Safra reforça uma lógica territorial que caminha na direção oposta aos compromissos climáticos assumidos pelo próprio governo brasileiro.

O Plano Safra também fortalece um modelo agrícola profundamente dependente do uso intensivo de agrotóxicos. As grandes monoculturas de exportação alcançam seus atuais níveis de produtividade porque utilizam enormes quantidades de herbicidas, inseticidas e fungicidas ao longo de seus ciclos produtivos. Ao privilegiar financeiramente esse segmento, o governo também reforça a continuidade de um padrão tecnológico cuja sustentabilidade ambiental e sanitária enfrenta questionamentos cada vez mais sólidos por parte da comunidade científica.

Nos últimos anos, pesquisadores brasileiros e estrangeiros produziram um conjunto robusto de evidências que associam a exposição aos agrotóxicos ao aumento da incidência de doenças neurológicas, alterações hormonais, diferentes tipos de câncer, problemas reprodutivos e contaminação de solos, rios e aquíferos. Estudos recentes também demonstram impactos relevantes sobre polinizadores, organismos aquáticos e diversas espécies fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas. Em vez de utilizar o crédito rural para acelerar uma transição em direção a sistemas produtivos menos dependentes desses produtos, o governo continua destinando a maior parte dos recursos públicos justamente ao segmento que mais consome agrotóxicos no país.

O mesmo raciocínio vale para o consumo de água. Grandes monoculturas exigem volumes crescentes de recursos hídricos, sobretudo nas áreas irrigadas, justamente em um momento em que diversos aquíferos brasileiros apresentam sinais preocupantes de sobreexploração e em que os efeitos das mudanças climáticas tornam cada vez mais frequentes os períodos de estiagem prolongada. Ao estimular continuamente esse padrão produtivo, o governo amplia a pressão sobre recursos naturais que já demonstram claros sinais de esgotamento.

Essa orientação política revela uma contradição difícil de ignorar. O presidente Lula busca projetar o Brasil como liderança internacional no enfrentamento da crise climática e pretende transformar a realização da COP30 em uma vitrine da política ambiental brasileira. Entretanto, a principal política de financiamento da agricultura continua privilegiando um modelo baseado na concentração fundiária, na expansão das monoculturas, no consumo intensivo de água e no uso maciço de agrotóxicos. A distância entre o discurso ambiental e a política agrícola permanece significativa.

Não se trata de negar a importância econômica das exportações agrícolas nem de ignorar o papel que o agronegócio desempenha na balança comercial brasileira. O problema reside na enorme desproporção da distribuição dos recursos públicos e na ausência de critérios que condicionem o acesso ao crédito subsidiado à redução efetiva do desmatamento, do consumo de agrotóxicos, do desperdício de água e da concentração fundiária. O Estado dispõe de instrumentos suficientes para induzir uma agricultura mais diversificada, mais sustentável e mais comprometida com a produção de alimentos para a população brasileira. No entanto, continua utilizando o Plano Safra para fortalecer exatamente o modelo que concentra terras, amplia os conflitos socioambientais e aprofunda a dependência da economia nacional da exportação de commodities primárias.

Talvez a maior contradição do novo Plano Safra resida justamente em sua dimensão política. Ao concentrar a maior parte do crédito subsidiado no latifúndio agroexportador, o governo Lula fortalece um segmento que permanece amplamente identificado com o bolsonarismo e que, desde o início do atual mandato, atua sistematicamente contra as principais iniciativas do governo no Congresso Nacional e na disputa política mais ampla. Essa escolha expressa a lógica de concertação que tem orientado o governo desde 2023: na tentativa de reduzir conflitos com setores historicamente conservadores, o Palácio do Planalto amplia concessões sem conseguir alterar o alinhamento político desse segmento. Ao mesmo tempo, essa política contradiz os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral, quando Lula prometeu fortalecer a agricultura familiar, ampliar a produção agroecológica e conduzir a agricultura brasileira por uma trajetória social e ambientalmente mais sustentável. Na prática, o governo percorreu o caminho inverso. Em vez de utilizar o crédito rural para acelerar a transição para um modelo menos dependente do desmatamento, dos agrotóxicos e das grandes monoculturas de exportação, preferiu reforçar econômica e politicamente um setor que continua resistindo às mudanças necessárias e que permanece entre os principais adversários do próprio projeto político que levou Lula de volta à Presidência da República.

O veneno começa no berço: agrotóxicos contaminam alimentos destinados a bebês e crianças brasileiras

Estudo do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) identifica resíduos de glifosato, glufosinato, fipronil e outros pesticidas em ultraprocessados para a primeira infância, expondo as fragilidades da regulação sanitária e do modelo agroalimentar brasileiro

Um dos maiores paradoxos do atual sistema alimentar brasileiro é que os produtos destinados justamente ao grupo mais vulnerável da população – bebês e crianças pequenas – também estão sujeitos à contaminação por agrotóxicos. Essa é a principal conclusão do relatório Tem veneno nesse pacote – Volume 4: Produtos para primeira infância, elaborado pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), que analisou fórmulas infantis, compostos lácteos, cereais e engrossantes amplamente comercializados no país. 

Os resultados são preocupantes. Dos 12 produtos analisados, cinco apresentaram resíduos de agrotóxicos, demonstrando que a contaminação química ultrapassa as lavouras e chega aos alimentos ultraprocessados destinados à alimentação infantil. O estudo utilizou metodologia capaz de detectar 653 diferentes resíduos de agrotóxicos, além de outras substâncias químicas relacionadas ao processamento industrial, revelando um cenário que deveria provocar imediata preocupação das autoridades sanitárias e das famílias brasileiras.

O produto que apresentou o pior desempenho foi o Mingau de Multicereais Nutribom, da Nutrimental, no qual foram encontradas sete substâncias diferentes, tornando-o o campeão absoluto de contaminação entre os produtos avaliados. Embora o relatório destaque principalmente o número total de resíduos detectados, esse resultado evidencia a exposição das crianças a um verdadeiro “coquetel químico”, cujos efeitos combinados sobre o desenvolvimento infantil ainda são pouco conhecidos pela ciência.

Na segunda posição aparece o Cereal Infantil Mucilon Milho, da Nestlé, que apresentou resíduos de glifosato, glufosinato e pirimifós metílico, além do butóxido de piperonila, substância utilizada para potencializar a ação de inseticidas. A presença simultânea desses compostos em um alimento direcionado a bebês é particularmente inquietante, sobretudo quando se considera que organismos em desenvolvimento possuem maior sensibilidade à exposição química.

Dividindo a terceira colocação estão o Composto Lácteo Instantâneo Ninho Forti+ Fibras, da Nestlé, e o Composto Lácteo Piracanjuba Excellence. No primeiro foram detectados resíduos de fipronil total, fluazuron e dos sanitizantes BAC, BAC-C12 e BAC-C14. Já no produto da Piracanjuba foram encontrados resíduos de fipronil total, fluazuron e 2-fenilfenol, substância utilizada como desinfetante e conservante.

O Cereal Infantil Mucilon Multicereais, também da Nestlé, apresentou resíduos de pirimifós metílico, enquanto o Composto Milnutri Premium, da Danone, e o Meu Papá Cereal Infantil Milho, da Italac, não apresentaram resíduos detectáveis de agrotóxicos nas análises realizadas pelo Idec.

Além da presença de agrotóxicos, o estudo revelou achados inéditos. Pela primeira vez em uma investigação conduzida pelo Idec foram detectados resíduos de insumos farmacêuticos ativos (IFA) em fórmulas infantis, bem como resíduos de sanitizantes em aproximadamente um quarto dos produtos analisados. Também chamou atenção a identificação do butóxido de piperonila em duas amostras, composto conhecido por aumentar a eficácia e a toxicidade de diversos inseticidas.

Mas talvez o aspecto mais grave do relatório seja a constatação de uma importante lacuna regulatória. Segundo o Idec, a Anvisa ainda não estabelece limites máximos específicos de resíduos de agrotóxicos para alimentos ultraprocessados, inclusive aqueles destinados a lactentes e crianças de primeira infância. Em outras palavras, justamente os alimentos consumidos por um público extremamente vulnerável não contam com parâmetros próprios de segurança para esse tipo de contaminação.

O relatório também convida a refletir sobre um problema estrutural. A publicidade agressiva das fórmulas infantis, compostos lácteos e cereais industrializados, associada às dificuldades enfrentadas pelas famílias para manter o aleitamento materno exclusivo, transforma necessidades sociais reais em oportunidades de mercado. Em vez de fortalecer políticas públicas de apoio à amamentação e à alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente processados, consolida-se um modelo alimentar dependente de ultraprocessados produzidos a partir de uma agricultura intensiva no uso de agrotóxicos.

O estudo do Idec, portanto, vai muito além da simples identificação de resíduos químicos. Ele expõe as contradições de um sistema alimentar que transforma bebês em consumidores precoces de produtos ultraprocessados e demonstra como a lógica da produção em larga escala baseada em venenos agrícolas alcança até mesmo a alimentação da primeira infância. Em um país que afirma proteger suas crianças como prioridade absoluta, a presença de glifosato, glufosinato, fipronil, fluazuron, pirimifós metílico e outros contaminantes em alimentos destinados a esse público deveria provocar uma profunda revisão das políticas de regulação sanitária e do próprio modelo agrícola dominante. Afinal, o direito a uma alimentação saudável e livre de contaminação química deveria começar exatamente no início da vida.

Corpos contaminados, agricultura dependente de agrotóxicos

Pesquisa internacional evidencia que a exposição aos agrotóxicos é uma característica estrutural do modelo agrícola da Revolução Verde e reforça que a redução do uso de venenos é uma condição para a promoção da saúde, da justiça ambiental e da soberania alimentar

O artigo de Anouk Petitpierre, Aggrey Atuhaire, Christian H. Lindh, Ana M. Mora, Martin Röösli, Philipp Staudacher e Samuel Fuhrimann, publicado na revista The Lancet Planetary Health, traz uma contribuição importante para um tema que costuma permanecer invisível: a exposição cotidiana de pequenos agricultores aos agrotóxicos em países tropicais de baixa e média renda. Em vez de confiar apenas em questionários ou relatos dos trabalhadores, os autores analisaram biomarcadores presentes na urina de mais de 600 agricultores da Costa Rica e de Uganda, oferecendo um retrato objetivo da contaminação ocupacional.

O primeiro resultado impressiona pela contundência: todos os sete biomarcadores pesquisados foram encontrados em praticamente todos os participantes do estudo, confirmando que a exposição aos agrotóxicos é ampla e sistemática entre agricultores familiares, independentemente do país analisado.  Essa constatação desmonta a ideia frequentemente difundida de que o problema estaria restrito ao uso inadequado de equipamentos de proteção ou a comportamentos individuais. A contaminação aparece como uma característica estrutural do atual modelo agrícola.

Outro aspecto relevante é a comparação entre agricultores convencionais e orgânicos. Os pesquisadores verificaram que aqueles que trabalham exclusivamente com práticas orgânicas apresentam concentrações significativamente menores de diversos biomarcadores, com reduções que chegam a 68% em alguns casos. Também foi observado que agricultores que receberam treinamento sobre segurança no manejo de agrotóxicos exibiam níveis inferiores de exposição, embora essa redução tenha sido relativamente modesta quando comparada aos benefícios proporcionados pela adoção da agricultura orgânica.

Há, entretanto, um resultado particularmente provocador. O estudo não encontrou evidências de que o simples uso de equipamentos de proteção individual seja suficiente para reduzir a exposição. Em alguns casos, como no uso de luvas durante a aplicação de determinados inseticidas, a concentração dos biomarcadores foi até maior. Os autores sugerem que o problema decorre do uso inadequado dos equipamentos, da reutilização de luvas contaminadas e da ausência de procedimentos básicos de higiene, demonstrando que distribuir EPIs sem treinamento adequado pode produzir uma falsa sensação de segurança.

Embora o artigo tenha sido desenvolvido na Costa Rica e em Uganda, suas conclusões dialogam diretamente com a realidade brasileira. O Brasil ocupa há anos uma posição de destaque no consumo mundial de agrotóxicos e vem ampliando continuamente o registro de novos produtos, muitos deles contendo ingredientes ativos proibidos na União Europeia. Nesse contexto, a demonstração científica de que pequenos agricultores permanecem cronicamente expostos a múltiplos compostos químicos reforça a necessidade de superar uma visão centrada exclusivamente no “uso seguro” dos venenos agrícolas.

Os dados apresentados também dialogam com o conceito de injustiça ambiental. São justamente agricultores familiares, trabalhadores rurais e comunidades de menor renda que assumem os maiores riscos sanitários para sustentar um modelo agrícola altamente dependente de insumos químicos, enquanto os benefícios econômicos concentram-se nas grandes corporações que controlam o mercado global de sementes, fertilizantes e agrotóxicos. O estudo evidencia que essa desigualdade não é apenas econômica, mas também biológica: ela pode ser medida diretamente no organismo das pessoas.

Nesse sentido, a principal contribuição do trabalho vai além da demonstração de que a agricultura orgânica reduz a exposição aos agrotóxicos. O artigo aponta que uma transição para sistemas produtivos menos dependentes de insumos químicos exige políticas públicas robustas, apoio financeiro aos agricultores, programas permanentes de capacitação e investimentos em pesquisa sobre métodos alternativos de controle de pragas. Os próprios autores defendem que essa transformação depende de subsídios, assistência técnica e mecanismos que permitam aos pequenos produtores migrar para práticas agroecológicas sem sofrer perdas econômicas.

Em um momento em que o debate público frequentemente opõe produtividade e sustentabilidade como se fossem objetivos incompatíveis, o estudo publicado na The Lancet Planetary Health oferece uma evidência importante: reduzir a dependência dos agrotóxicos não é apenas uma questão ambiental, mas uma medida urgente de saúde pública, justiça social e proteção dos trabalhadores rurais que garantem a produção de alimentos.

Países da UE não chegam a um acordo sobre novas regras para regular agrotóxicos

Provavelmente caberá à Irlanda, que assumirá a Presidência do Conselho, encontrar um consensoBrasil – Agricultura – Plantações de soja pulverizadas com pesticida

Plantações de soja são pulverizadas com agrotóxicos em uma fazenda no Brasil. (Foto de Paulo Fridman/Corbis via Getty Images) 

Por Euractiv 

A proposta de Chipre sobre novas regras para agrotóxicos não obteve a aprovação dos embaixadores da UE na sexta-feira.

O pacote, apresentado pela Comissão em dezembro, inclui medidas para acelerar a adoção de agrotóxicos biológicos pelos agricultores e conceder aprovações ilimitadas para substâncias  sintéticas. Inclui também medidas rigorosas contra resíduos de produtos químicos proibidos na  União Europeia (UE) em alimentos importados.

Após semanas de negociações técnicas, Chipre, que detém a presidência rotativa do Conselho, acreditava ter chegado a uma versão final de compromisso equilibrada . No entanto, não conseguiu alcançar a maioria necessária para iniciar as negociações com o Parlamento.

Uma dúzia de países, incluindo Alemanha, Itália e Espanha, não endossaram o texto, disseram dois diplomatas à Euractiv .

A proposta de restringir as importações que contenham vestígios de certos agrotóxicos proibidos na UE, para proteger os agricultores europeus da concorrência desleal de países terceiros, tem sido um dos pontos mais controversos desde o início das negociações.

A medida gerou críticas dos parceiros comerciais da UE, bem como de Estados-membros como a Dinamarca e a Alemanha, devido ao seu potencial impacto no comércio.

Em contrapartida, países como a França e a Polônia, que estão em conflito com o acordo UE-Mercosul devido a supostos padrões mais baixos nas importações provenientes dos países do Mercosul, defenderam a inclusão da disposição. Ambos os governos também tomaram medidas para propor uma proibição nacional de certos resíduos de agrotóxicos nas importações, a fim de pressionar Bruxelas.

O texto de compromisso tentou conciliar ambos os lados, introduzindo a exigência de avaliações de impacto caso a caso da proibição de resíduos para cada substância, com foco nas implicações comerciais. Embora tenha conseguido convencer alguns países que inicialmente se opunham, como a Finlândia, isso não foi suficiente.

Mas não convenceu a Dinamarca, por exemplo, disse um diplomata dinamarquês. O país também se opôs ao apoio do texto à proposta da Comissão de duplicar o período de tolerância para substâncias proibidas.

As organizações de agricultores também se opuseram ao texto. “O texto de compromisso mais recente da Presidência continua insuficiente para proporcionar o nível de melhoria regulamentar necessário aos agricultores europeus”, afirmou a Copa-Cogeca, sindicato agrícola da UE , após a reunião dos embaixadores.

O processo voltará agora às negociações em nível técnico no grupo Antici, e muito provavelmente caberá à Irlanda, como futura Presidência do Conselho, encontrar um consenso.

Sofia Sanchez Manzanaro contribuiu para a reportagem.


Fonte: Euractiv

Agência europeia classifica TFA como altamente perigosa para saúde humana

POR PAN EUROPE

A Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA) classificou oficialmente o ácido trifluoroacético (TFA) como tóxico para a reprodução (Categoria 1B), concluindo que “pode prejudicar o bebê ainda não nascido” e é “suspeito de prejudicar a fertilidade” [1]. A PAN Europa insta as autoridades europeias a agirem imediatamente e banir todos os agrotóxicos que contenham PFAS (i.e., Substâncias Per e Polifluoroalquiladas) que liberem TFA no meio ambiente. 

O TFA é um PFAS persistente – um ‘químico eterno’ – e o contaminante mais difundido nos recursos hídricos, alimentos e meio ambiente da Europa. Também é um produto direto de decomposição de quase todos os agrotóxicos PFAS. A conclusão da ECHA sobre a toxicidade da TFA confirma o que cientistas e a sociedade civil alertaram nos últimos dois anos: a TFA é uma ameaça de fronteira planetária e ações vinculativas para reduzir as emissões são urgentes [2].

A decisão anunciada confirma o que venhamos alertando desde 2023: a TFA não é um metabólito inofensivo de PFAS. Pode ser tóxico para os humanos e o dano é maior durante os períodos mais vulneráveis da vida — gravidez e primeira infância”, disse a Dra. Angeliki Lysimachou, chefe de Ciência e Políticas da PAN Europe

A classificação segue uma avaliação científica abrangente apresentada na 77ª reunião do Comitê de Avaliação de Riscos (RAC) da ECHA na semana passada, sobre a proposta de classificação de perigo da TFA [3]. As conclusões do RAC baseiam-se em evidências que mostram danos ao desenvolvimento em filhotes de animais de laboratório após exposição pré-natal a TFA: malformações oculares e esqueléticas em coelhos; efeitos do sistema imunológico e da tireoide em ratos; Indicações de efeitos na qualidade do esperma. O RAC também classificou a TFA como móvel, persistente e tóxica, um perigo sério para o meio ambiente.

A PAN Europe participou das discussões do RAC como observadora e elogia os especialistas por sua avaliação rigorosa.

Aplaudimos o comitê RAC por sua avaliação rigorosa, objetiva e independente. As evidências foram cuidadosamente examinadas e a justificativa científica foi do mais alto padrão, como deveria ser em um comitê tão importante”, disse o Dr. Peter Clausing, toxicologista sênior da PAN Alemanha, que participou das discussões do RAC junto com a PAN Europe.

O resultado valida o próprio trabalho científico da PAN Europe, que analisou os mesmos estudos com animais e chegou a conclusões semelhantes. Em seu relatório Manufacturing Doubt, a PAN Europe critica como a indústria minimizou sistematicamente essas descobertas [4]. A rejeição do RAC à posição da indústria é muito bem-vinda.

A PAN Europe e sua rede documentaram repetidamente a ampla contaminação por TFA em toda a Europa, ligada ao uso de agrotóxicos PFAS, detectando a substância em rios, águas subterrâneas, água potável, águas minerais, vinhos e produtos alimentícios, com concentrações continuando a aumentar [5].

Atualmente, a EFSA está avaliando um valor de orientação baseado em saúde para níveis seguros de exposição à TFA – um processo que a rede da PAN Europe criticou por ser insuficientemente protetor [6]. Mas nenhum limiar seguro pode substituir a parada da contaminação na fonte: nas taxas atuais de aumento, a exposição atingirá níveis prejudiciais independentemente de onde o limite esteja definido.

A classificação tem implicações regulatórias diretas. Segundo a legislação da UE sobre pesticidas, substâncias que contaminam as águas subterrâneas com metabólitos de preocupação toxicológica não podem permanecer autorizadas nem ser reaprovadas.

A toxicidade do TFA agora está além de qualquer dúvida. Cada ano de atraso significa mais poluição que as futuras gerações terão que suportar. A lei dos agrotóxicos é clara: os formuladores de políticas em nível da UE e dos Estados-Membros agora são legalmente obrigados a proibir todos os agrotóxicos PFAS e substâncias emissoras de TFA – sem demora”, disse Salomé Roynel, Oficial de Políticas da PAN Europa.


Fonte: Pan Europe

Agrotóxicos, desmatamento e crise hídrica: como o agronegócio aprofunda as mudanças climáticas no Brasil

A destruição da Amazônia e do Cerrado para expandir monoculturas ameaça os rios, as chuvas e a segurança hídrica de todo o país, enquanto reforça a dependência de um modelo agrícola cada vez mais vulnerável à crise climática

Quando se fala em mudanças climáticas, a atenção costuma se concentrar na queima de combustíveis fósseis. No entanto, no caso brasileiro, a crise climática está intimamente ligada ao modelo agrícola dominante, baseado na expansão de monoculturas, no uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos e no avanço contínuo sobre a Amazônia e o Cerrado.

Segundo o IPCC, a agricultura, a silvicultura e as mudanças no uso da terra respondem por cerca de 22% das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto os sistemas agroalimentares como um todo são responsáveis por aproximadamente um terço das emissões mundiais. Nesse contexto, os agrotóxicos exercem um papel frequentemente negligenciado. Sua produção depende fortemente de combustíveis fósseis, envolve processos industriais intensivos em energia e gera emissões em todas as etapas de sua cadeia produtiva, desde a fabricação até o transporte e a aplicação nas lavouras.

Mas a principal contribuição dos agrotóxicos para a crise climática ocorre de forma indireta. O consumo crescente dessas substâncias está associado à expansão de monoculturas voltadas à exportação, como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, cuja expansão continua sendo um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

Na Amazônia, a remoção da cobertura florestal ameaça um dos mais importantes mecanismos reguladores do clima sul-americano. A floresta funciona como uma gigantesca bomba biótica que recicla e transporta umidade por meio dos chamados “rios voadores”, responsáveis por abastecer de chuvas extensas áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. À medida que a floresta é derrubada, diminui a evapotranspiração, reduzem-se as chuvas e prolongam-se os períodos de seca. Estudos recentes indicam que a combinação entre desmatamento e aquecimento global pode provocar reduções expressivas na precipitação e ampliar significativamente a duração da estação seca em partes da Amazônia.

Entretanto, se a Amazônia é essencial para a produção de chuvas, o Cerrado desempenha papel ainda mais estratégico na segurança hídrica nacional. Conhecido como o “berço das águas” ou a “caixa d’água do Brasil”, o bioma abriga as nascentes que alimentam algumas das principais bacias hidrográficas da América do Sul, incluindo os sistemas Amazônico, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná-Paraguai.

A importância do Cerrado decorre de uma característica singular: sua vegetação possui sistemas radiculares profundos, capazes de infiltrar grandes volumes de água no solo e alimentar aquíferos subterrâneos. Essa dinâmica garante a manutenção dos fluxos hídricos durante os períodos secos e sustenta rios que abastecem cidades, hidrelétricas e sistemas de irrigação em grande parte do território brasileiro.

Apesar dessa importância estratégica, o Cerrado tornou-se a principal fronteira de expansão do agronegócio brasileiro. Estima-se que cerca de metade de sua cobertura original já tenha sido destruída. A substituição da vegetação nativa por monoculturas mecanizadas reduz a infiltração de água, aumenta a erosão, diminui a recarga dos aquíferos e compromete a vazão dos rios. Como resultado, observam-se atrasos no início das chuvas, redução da precipitação média e crescente instabilidade hídrica em diversas regiões do país.

O problema torna-se ainda mais grave porque mudanças climáticas e uso de agrotóxicos formam um círculo vicioso. O aumento das temperaturas e das secas favorece a proliferação de pragas agrícolas, levando ao uso crescente desses produtos químicos. Ao mesmo tempo, a expansão das monoculturas dependentes agrotóxicos estimula novos desmatamentos, ampliando as emissões de gases de efeito estufa e aprofundando as alterações climáticas.

As consequências já são perceptíveis: secas mais frequentes, grande redução da vazão de rios, insegurança energética, perda de biodiversidade e crescente competição pelo acesso à água. Em outras palavras, o mesmo modelo agrícola que se apresenta como motor do crescimento econômico está contribuindo para enfraquecer os sistemas ecológicos que garantem a produção de chuvas, o armazenamento de água e a estabilidade climática dos quais depende a própria agricultura.

Por essa razão, a preservação da Amazônia e do Cerrado não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, já que se trata de uma condição indispensável para garantir segurança hídrica, estabilidade climática, produção de energia, soberania alimentar e desenvolvimento econômico de longo prazo. Continuar destruindo esses biomas para expandir monoculturas dependentes de agrotóxicos significa comprometer as bases naturais que sustentam o futuro do próprio Brasil.

Glifosato no Brasil: saúde pública sob ataque químico

A ofensiva do Ministério Público para banir o herbicida expõe os riscos sanitários do modelo agroexportador brasileiro e o enorme poder político da indústria química e do agronegócio sobre as estruturas regulatórias do Estado

A iniciativa do Ministério Público do Trabalho de buscar a proibição do glifosato no Brasil recoloca no centro do debate um dos maiores problemas sanitários e ambientais do modelo agroexportador brasileiro: a dependência extrema de um herbicida amplamente associado a riscos graves à saúde humana. Segundo a reportagem do Valor International, procuradores sustentam que o produto representa ameaça significativa aos trabalhadores rurais e à população exposta.

O glifosato tornou-se praticamente onipresente na agricultura brasileira, especialmente após a expansão das sementes transgênicas resistentes ao herbicida. O problema é que o acúmulo de evidências científicas ao longo das últimas décadas vem associando sua exposição a uma série de doenças, incluindo distúrbios endócrinos, danos neurológicos, problemas reprodutivos e, sobretudo, o Linfoma Não-Hodgkin. A classificação feita pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, como “provavelmente carcinogênico para humanos” continua sendo um marco incontornável nesse debate.

Além disso, há uma dimensão frequentemente invisibilizada: no Brasil, o uso do glifosato ocorre em um contexto de pulverização massiva e combinação com dezenas de outros agrotóxicos. Ou seja, a população não é exposta a uma substância isolada em condições laboratoriais controladas, mas a verdadeiros coquetéis químicos cujos efeitos sinérgicos permanecem insuficientemente estudados. O resultado é um enorme experimento toxicológico em escala nacional conduzido sobre trabalhadores rurais, comunidades camponesas e consumidores urbanos.

Apesar da gravidade das evidências, as chances de êxito do pleito do Ministério Público são limitadas. Isso ocorre porque o glifosato ocupa posição estrutural no atual modelo agrícola brasileiro. Sua proibição afetaria diretamente o agronegócio exportador baseado em monoculturas altamente dependentes de pacotes químicos. Trata-se de um setor que possui enorme influência política sobre o Congresso Nacional, governos estaduais, Ministério da Agricultura e parte relevante das agências regulatórias.

Há ainda um poderoso aparato discursivo construído pelas corporações do agronegócio e pela indústria química para apresentar o glifosato como “seguro quando usado corretamente”, apesar das crescentes controvérsias científicas e das sucessivas ações judiciais internacionais envolvendo a fabricante Bayer, que herdou os passivos da Monsanto. Nos Estados Unidos, milhares de processos já resultaram em indenizações bilionárias relacionadas ao desenvolvimento de câncer após exposição ao herbicida.

No caso brasileiro, o cenário se torna ainda mais difícil porque o Estado adotou, nos últimos anos, uma trajetória contínua de flexibilização regulatória e expansão acelerada dos registros de agrotóxicos. O país tornou-se um dos maiores mercados mundiais para substâncias que muitas vezes já foram restringidas ou banidas em outras regiões do planeta.

Por fim, é importante reconhecer que dificilmente haverá qualquer avanço substantivo na restrição ou eventual banimento do glifosato sem uma ampla mobilização social capaz de confrontar o enorme poder político e econômico exercido pelo agronegócio e pela indústria química no Brasil. A iniciativa do Ministério Público tende a enfrentar não apenas resistência jurídica, mas também uma intensa pressão de setores empresariais que tratam qualquer tentativa de controle sanitário e ambiental como ameaça direta ao modelo exportador baseado em monoculturas altamente dependentes de insumos químicos.

Nesse sentido, torna-se fundamental ampliar mecanismos de controle social sobre os processos de aprovação, monitoramento e reavaliação toxicológica dos agrotóxicos. Hoje, as grandes corporações químicas operam com ampla margem de influência sobre as estruturas regulatórias do Estado, enquanto populações expostas — trabalhadores rurais, comunidades camponesas, povos indígenas e consumidores urbanos — possuem participação extremamente limitada nas decisões que afetam diretamente sua saúde e seus territórios. O resultado é que o Brasil segue sendo transformado em um dos maiores mercados globais para substâncias altamente tóxicas, muitas vezes já proibidas em outros países, tudo em nome da manutenção de elevados níveis de produção de commodities agrícolas para exportação.

A discussão sobre o glifosato, portanto, ultrapassa o debate técnico sobre um único herbicida. Ela coloca em questão quem define os limites do risco aceitável em uma sociedade profundamente marcada pela desigualdade ambiental e pela captura corporativa das políticas públicas.

Assim, ainda que a ação do Ministério Público tenha enorme relevância política e sanitária, ela enfrenta uma correlação de forças extremamente desfavorável. O debate sobre o glifosato, no fundo, não é apenas técnico ou científico: ele expõe o conflito entre saúde pública e um modelo econômico profundamente dependente da intensificação química da agricultura brasileira.

Brasil, a “lixeira química” do agronegócio global

Em palestra no 1º Congresso de Agroecologia, realizada em 25 de maio em Florianópolis (SC), a professora Sonia Hess expôs como o avanço do agronegócio exportador aprofundou o consumo de agrotóxicos banidos na União Europeia, contaminando águas, alimentos e populações inteiras enquanto amplia a insegurança alimentar e a dependência econômica brasileira

A palestra ministrada pela professora Sonia Corina Hess no 1º Congresso de Agroecologia, realizado ontem, 25 de maio, apresentou um retrato contundente do papel que o Brasil vem desempenhando na expansão global do uso de agrotóxicos, evidenciando não apenas a dimensão quantitativa do problema, mas também suas implicações econômicas, sanitárias e ambientais. A apresentação mostrou que o país comercializou mais de 907 mil toneladas de agrotóxicos em 2024, o equivalente a 4,3 kg por habitante, consolidando sua posição como maior consumidor mundial desses produtos. O dado se torna ainda mais grave quando comparado ao crescimento relativamente modesto da área plantada no mesmo período, indicando uma intensificação da dependência química do modelo agrícola dominante.

Um dos pontos centrais da exposição foi a demonstração de que boa parte dos ingredientes ativos utilizados em larga escala no Brasil já foi banida na União Europeia devido aos seus impactos sobre a saúde humana e os ecossistemas. Substâncias como mancozebe, clorotalonil, atrazina e glufosinato de amônio continuam sendo aplicadas massivamente em lavouras brasileiras, mesmo associadas a câncer, infertilidade, desregulação endócrina, doenças neurodegenerativas e danos reprodutivos. Hess argumenta que o Brasil vem se convertendo em uma verdadeira “lixeira química”, absorvendo compostos rejeitados por países centrais, enquanto multinacionais como Bayer, BASF, Syngenta e Corteva seguem acumulando lucros bilionários com a continuidade desse modelo.

A palestra também desmonta a narrativa de que o uso crescente de agrotóxicos estaria associado à produção de alimentos para a população brasileira. Segundo os dados apresentados, 79% dos agrotóxicos aplicados no país concentram-se em apenas quatro culturas — soja, milho, cana-de-açúcar e algodão — fortemente vinculadas ao agronegócio exportador. Além disso, 93% da soja e 80% do milho produzidos no Brasil são destinados à alimentação animal, dentro e fora do país. Enquanto isso, culturas essenciais para a segurança alimentar, como feijão, arroz e trigo, enfrentam retração de área plantada e aumento da dependência de importações. O contraste revela uma política agrícola orientada prioritariamente para commodities e para os interesses do comércio internacional, especialmente da China, em detrimento da soberania alimentar brasileira.

Outro aspecto particularmente alarmante abordado por Sonia Hess foi a contaminação das águas de abastecimento público. Dados do Programa Qualidade da Água do Ministério Público de Santa Catarina mostraram a presença de resíduos de agrotóxicos em mais da metade dos municípios avaliados. Em muitos casos, a água considerada “potável” pela legislação brasileira ultrapassaria amplamente os limites permitidos na União Europeia. A situação evidencia o abismo regulatório existente entre o Brasil e países que adotam critérios mais protetivos à saúde pública, além de revelar a fragilidade das normas nacionais sobre potabilidade e monitoramento ambiental.

A professora Sonia Hess também relacionou a expansão do uso de agrotóxicos ao agravamento de problemas de saúde pública, destacando o crescimento contínuo dos óbitos por neoplasias e suicídios no Brasil. Embora a relação causal entre exposição química e adoecimento coletivo exija análises epidemiológicas complexas, a literatura científica apresentada na palestra reforça a existência de fortes evidências sobre os efeitos genotóxicos da exposição crônica aos agrotóxicos em trabalhadores rurais e populações residentes em áreas agrícolas.

Ao final, a professora Sonia Hess defendeu um conjunto de medidas estruturais para reverter o atual quadro. Entre elas, destacou a necessidade de rever o Plano Safra, reduzindo os incentivos direcionados ao agronegócio exportador e fortalecendo a agricultura familiar e agroecológica; eliminar benefícios fiscais concedidos a agrotóxicos proibidos na União Europeia; endurecer os parâmetros de qualidade da água e dos alimentos; e excluir da legislação brasileira ingredientes ativos já considerados inseguros em outros países. A agroecologia aparece, assim, não como um nicho alternativo de produção, mas como uma necessidade estratégica para a proteção da saúde coletiva, da biodiversidade e da soberania alimentar do país

Feijão envenenado e Estado lento: o retrato cruel da falência da fiscalização da contaminação alimentar por agrotóxicos no Brasil

Quando um alimento básico da mesa brasileira circula com níveis absurdos de contaminação, o problema deixa de ser um “desvio” e passa a revelar o funcionamento normal de um modelo agrícola e regulatório profundamente adoecido

A reportagem publicada pela Repórter Brasil e assinada pela jornalista Hélen Freitas expõe um caso que deveria provocar indignação nacional imediata: lotes de feijão com resíduos de agrotóxicos até 355 vezes acima do limite permitido permaneceram por mais de um ano sem recolhimento por parte do Estado brasileiro.

O dado é chocante por si só. Mas o mais grave talvez seja aquilo que ele revela sobre a lógica estrutural que rege o sistema de fiscalização de alimentos no Brasil. O problema não é apenas a presença de resíduos tóxicos em um dos principais itens da alimentação popular brasileira. O problema é que a contaminação foi identificada oficialmente pelo próprio Ministério da Agricultura, e ainda assim o mecanismo estatal de resposta operou numa velocidade incompatível com qualquer noção séria de proteção sanitária.

Segundo a reportagem, análises laboratoriais encontraram 17,73 mg/kg de glifosato em amostras de feijão-fradinho da marca Dona Dê, quando o limite permitido pela Anvisa é de apenas 0,05 mg/kg. O produto já estava embalado e pronto para distribuição em supermercados. Quando o recolhimento finalmente foi determinado, o lote já havia perdido a validade. Ou seja: o Estado brasileiro conseguiu transformar um procedimento de proteção sanitária em mera formalidade burocrática posterior ao consumo potencial do alimento contaminado.

A matéria mostra ainda que não se trata de um caso isolado. Autos de infração e laudos do Ministério da Agricultura apontam reincidência entre 2020 e 2025 envolvendo a empresa NJF Indústria e Comércio, responsável pelo empacotamento de marcas amplamente conhecidas no mercado nacional. Foram registradas autuações em vários estados por excesso de resíduos de glifosato, glufosinato, tiametoxam e até presença de substâncias não autorizadas para a cultura do feijão.

Esse episódio desmonta um dos discursos preferidos do agronegócio brasileiro: o de que o país possui um dos sistemas de controle sanitário “mais rigorosos do mundo”. Se o rigor existe, ele claramente não se traduz em proteção efetiva da população. Afinal, de que serve detectar contaminações extremas se os alimentos continuam circulando normalmente até desaparecerem das prateleiras pelo vencimento natural?

Mas existe um aspecto ainda mais grave e frequentemente ocultado no debate público brasileiro: os processos de avaliação toxicológica continuam sendo feitos, em grande medida, de forma isolada para cada princípio ativo. Em outras palavras, os limites de segurança são estabelecidos considerando os impactos individuais de cada agrotóxico, como se a população estivesse exposta separadamente a uma única substância por vez. O problema é que a realidade da alimentação contemporânea é completamente diferente.

Sempre que análises laboratoriais mais abrangentes são realizadas em alimentos no Brasil, o que aparece é a presença simultânea de múltiplos resíduos químicos diferentes. O consumidor brasileiro não está ingerindo apenas glifosato, apenas glufosinato ou apenas tiametoxam. Está sendo exposto diariamente a verdadeiros coquetéis de agrotóxicos, cujas interações sinérgicas permanecem insuficientemente estudadas e praticamente ignoradas pelos marcos regulatórios oficiais.

Isso significa que o sistema brasileiro de controle sanitário opera sobre uma ficção científica regulatória: a de que os compostos químicos agem isoladamente dentro do organismo humano. Entretanto, há crescente preocupação na literatura científica internacional com os chamados “efeitos combinados” ou “efeitos coquetel”, nos quais diferentes substâncias podem potencializar mutuamente seus impactos tóxicos, inclusive em doses consideradas “aceitáveis” individualmente.

O caso do feijão contaminado é particularmente simbólico porque envolve um alimento central na dieta brasileira, consumido diariamente por milhões de famílias pobres e trabalhadoras. Diferentemente de produtos de nicho ou mercadorias de exportação, o feijão atravessa todas as classes sociais e regiões do país. Isso significa que a exposição aos agrotóxicos não é um problema periférico ou restrito ao campo: ela se converteu em componente estrutural da alimentação cotidiana brasileira.

O glifosato, encontrado em níveis exorbitantes nas amostras analisadas, permanece cercado de controvérsias científicas internacionais. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da OMS classificou o composto como “provavelmente cancerígeno para humanos”. Ainda assim, o Brasil continua sendo um dos maiores consumidores globais dessa substância, em um ambiente regulatório marcado por pressão política do agronegócio, fragilidade institucional e sistemática flexibilização das regras de controle.

O drama é ampliado pela conhecida insuficiência estrutural dos órgãos de fiscalização. O país expandiu de forma exponencial o uso de agrotóxicos nas últimas décadas, mas não construiu capacidade proporcional de monitoramento laboratorial, rastreabilidade e vigilância sanitária. O resultado é um modelo em que a fiscalização frequentemente atua apenas depois da circulação comercial dos produtos contaminados — quando atua.

Nesse contexto, a lentidão dos órgãos de controle deixa de parecer mera incompetência administrativa e passa a assumir contornos de cumplicidade estrutural. Afinal, enquanto os procedimentos burocráticos se arrastam, milhões de brasileiros seguem consumindo alimentos contaminados e sendo submetidos diariamente a exposições químicas múltiplas cujos impactos acumulados permanecem largamente desconhecidos.

Existe ainda um componente político que raramente aparece de forma explícita no debate público: o Estado brasileiro trata a contaminação por agrotóxicos como um problema secundário porque sua prioridade real é garantir fluidez ao modelo agroexportador. Nesse contexto, a proteção da saúde coletiva tende a ser subordinada à necessidade de evitar “entraves” à circulação de commodities agrícolas e alimentos industrializados.

O caso revelado pela Repórter Brasil deveria servir como alerta máximo para o fato de que o debate sobre agrotóxicos no Brasil não diz respeito apenas à produção agrícola, mas à própria capacidade do Estado de garantir segurança alimentar mínima à sua população.

A pergunta central passa então a ser inevitável: quantos outros alimentos contaminados continuam circulando normalmente enquanto a burocracia estatal se move em câmera lenta e os órgãos de controle fingem não enxergar o experimento químico involuntário ao qual a população brasileira está sendo submetida diariamente?