Atlas dos Agrotóxicos 2022 mostra a pegada mundial de um negócio tóxico

Cada vez mais agrotóxicos estão sendo pulverizados em campos em todo o mundo, com consequências devastadoras para os seres humanos e a natureza. A pressão por uma mudança na agricultura está crescendo

self application

“Produzimos nosso atlas para chamar a atenção para o grande problema dos agrotóxicos. O problema está em toda parte quando se trata de agricultura, saúde, perda de espécies e poluição da água. É uma questão transversal de primeira ordem”, diz engenheira Susan Haffmans, da Pesticide Action Network, que desempenhou um papel de liderança na elaboração do “Atlas dos Agrotóxicos 2022“.  O Atlas foi apresentado em Berlim, juntamente com a Fundação Heinrich Böll, que é próxima do partido dos Verdes, da Aliança Alemã para o Ambiente e a Conservação da Natureza e o jornal mensal internacional “LE MONDE diplomatique. 

atlas 2022

Em 50 páginas, os especialistas descrevem o negócio multimilionário dos agrotóxicos, suas consequências e repercussões. “O atlas fornece dados e informações e se concentra em áreas específicas. Quais são essas substâncias? Onde estão os problemas? Que efeito os  agrotóxicos estão tendo sobre os pequenos agricultores do Sul global? Como as pessoas estão em perigo em diferentes partes do mundo? “Encontramos pesticidas em todos os lugares, mesmo que não vivamos perto do campo”, diz Haffmans.

Os agricultores são frequentemente envenenados

De acordo com um estudo científico recente publicado na revista Public Health, 385 milhões de pessoas na agricultura adoecem a cada ano por intoxicação aguda por agrotóxicos. Após o envenenamento, os trabalhadores agrícolas e os agricultores sentem-se fracos, têm dores de cabeça, vómitos, diarreia, erupções cutâneas, distúrbios do sistema nervoso ou desmaiam. Em casos graves, o coração, os pulmões ou os rins falham. Todos os anos, cerca de 11.000 pessoas relacionadas à agricultura morrem por envenenamento agudo por agrotóxicos, sendo que suicídios por uso de venenos agrícolas não foram contados no estudo.

Infografik Pestizide Vergiftungen weltweit PT

Trabalhadores agrícolas e pequenos agricultores no Sul global são especialmente afetados pelo envenenamento por agrotóxicos. Segundo o relatório, na Ásia existem cerca de 256 milhões de casos de intoxicação aguda por agrotóxicos, na África 116 milhões e na América Latina cerca de 12,3 milhões. Na Europa, um número significativamente menor de pessoas sofre de intoxicação aguda por  agrotóxicosna agricultura (1,6 milhão na Europa Ocidental e Meridional).

“Vemos que 44% das mulheres trabalhadoras e agricultoras em todo o mundo sofrem pelo menos uma intoxicação por ano. E em alguns países é muito mais. Em Burkina Faso, por exemplo, 83% das trabalhadoras agrícolas contraem pelo menos uma doença por causa dos agrotóxicos”, diz Haffmans. “E esses são apenas os envenenamentos agudos. A extensão desses envenenamentos agudos também é uma indicação de exposição crônica de longo prazo, que por sua vez está associada a doenças crônicas completamente diferentes”.

Segundo o relatório, existem várias razões para o número significativamente maior de envenenamentos nos países do sul: por um lado, muitos agrotóxicos altamente perigosos são pulverizados lá, e este estãoi muitas vezes também proibidos na Europa.

Além disso, muitos pequenos agricultores não usam roupas de proteção e não são informados sobre os perigos. “Em alguns casos, os fornecedores simplesmente colocam  agrotóxicos em pequenos sacos plásticos ou garrafas, sem rótulos, sem instruções de segurança sobre seu uso e sem avisos.

Infografik Pestizide pro Hektar weltweit PT

Por exemplo, de acordo com uma pesquisa com pequenos agricultores em Gana, menos de 30% usam luvas, óculos e proteção nasal ao manusear agrotóxicos. E de acordo com outra pesquisa na Etiópia, apenas 7% dos agricultores estão cientes do aviso para lavar as mãos após o uso de agrotóxicos.

Lucros são mais importantes que proteção à saúde

A venda de agrotóxicos é lucrativa. Os quatro maiores produtores de agrotóxicos são Syngenta (Suíça/China), Bayer e BASF (Alemanha) e a Corteva (EUA). Segundo o relatório “Atlas”, em 2020 estas empresas atingiram um volume de negócios conjunto de 31 bilhões de euros. Nos últimos anos, as vendas globais de agrotóxicos cresceram em média 4% ao ano.

Como regra geral, porém, as empresas não pagam nada por danos à saúde e ao meio ambiente, ou apenas se houver decisões judiciais correspondentes, como nos EUA. Lá, pessoas que pulverizaram o agrotóxico Roundup contendo glifosato ficaram gravemente doentes e 125.000 deles processaram a Bayer. O grupo já pagou alguns dos reclamantes e a Bayer reservou cerca de 10 bilhões de euros no balanço para pagar danos.

Infografik Pestizide im Obst und Gemüse Deutschland PT

Iniciativas para a mudança agrícola

“Temos que sair desse sistema agrícola baseado em agrotóxicos químicos”, diz Haffmans. Somente com uma mudança na agricultura a saúde e o meio ambiente poderão ser protegidos de forma sustentável.

Os 30 autores do “Atlas dos Agrotóxicos 2022” usam artigos e gráficos para mostrar as conexões e como os formuladores de políticas podem agir. “Nas últimas duas décadas, o Sri Lanka salvou comprovadamente quase 10.000 vidas ao banir agrotóxicos perigosos. Há também exemplos da Índia. Algumas regiões já cultivam completamente ou em grande parte sem agrotóxicos. Isso, por sua vez, incentiva outras regiões a seguirem o exemplo”, acrescentou. diz Haffmans.

color compass

Este texto foi publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Brasil, o “Paraíso dos Agrotóxicos”

cuidado veneno

Por Christian Russau para

A disputa política e social pelos “venenos agrícolas”, “agrotóxicos” ou “agrotóxicos” vem à tona e é expressão da expansão desenfreada dos “agrotóxicos” no Brasil, enquanto o governo Bolsonaro está constantemente permitindo a liberação de novos produtos. Em 36 meses de mandato de Jair Bolsonaro, foram aprovados 1.558 novos venenos agrícolas. E duas corporações alemãs estão na vanguarda desse negócio.

Nomen est omen, mas também expressão de narrativas sociais que concorrem entre si na disputa midiática sobre a soberania interpretativa – e, consequentemente, também sobre as relações sociais de poder. Sempre houve tentativas de controlar os debates políticos criando novas palavras, desarmá-las e influenciá-las na direção desejada. Na Alemanha, após o surgimento de críticas e resistência à energia nuclear, a indústria de energia nuclear tentou substituir o termo “energia nuclear” pelo termo “força nuclear”. Já no caso do Brasil, para compensar o apoio perdido no debate social por meio de renovação e ofuscação conceitual, uma coalizão de políticos e grandes agricultores, juntamente com representantes da indústria, começou a desenvolver a mídia e narrativas sociais sobre agrotóxicos para influenciar a atitude em relação a ingredientes ativos simplesmente mudando as palavras.

A partir de 1988, ano da atual constituição, passou a se utilizar a palavra “agrotóxicos” em documentos públicos. Isto de deu por que a seção 4 do Capítulo 5 da Constituição Brasileira, que trata dos direitos e obrigações da comunicação pública, há uma menção explícita a “agrotóxicos”.  Já em 1989, na Lei nº 7.802/1989, a palavra agrotóxicos é explicitamente mencionada nas disposições básicas sobre produção, armazenamento, uso e descarte de venenos agrícolas. O pano de fundo foi que grande parte dos autores das leis da época tinham de fato consciência da periculosidade e toxicidade dos agrotóxicos e sabiam da importância da terminologia utilizada pelo estado para gerenciar a aprovação deste tipo de produto para garantir a segurança e saúde dos a população. Conscientizar as pessoas sobre o perigo de uma possível intoxicação apenas escolhendo o termo.

No Brasil, porém, essa medida de precaução parece valer para uma proporção cada vez maior e mais poderosa de políticos: a preocupação com os riscos criados pelo uso de agrotóxicos já não conta tanto quanto a produção de maiores volumes de produção e lucros. De acordo com o projeto de lei 6.299/2002 em tramitação nas câmaras do Congresso Nacional brasileiro, o termo agrotóxicos deve ser retirado dos documentos oficiais e substituído por “agroquímicos” . Mas até isso vai alguns parlamentares: interior não é o suficiente: Muitos deles da banca ruralista preferem a adoção dos termos “defensivo agrícola” ou “defensivo fitossanitário”, o que mais se aproxima do “produto fitofarmacêutico” que hoje é comum na Alemanha. “Se o agricultor sabe que o produto é tóxico, ou o utiliza com cuidado redobrado ou procura outra forma de controlar a praga, patógeno ou planta invasora”, disse Adilson D. Paschoal, do Departamento de Entomologia da Faculdade de Agricultura da USP. Paschoal considera perigoso substituir o termo “veneno” por termos mais inofensivos: “Trata-se de um retrocesso inadmissível e unilateral, que visa ocultar a verdadeira natureza destes produtos, nomeadamente a sua toxicidade”.

E o governo Bolsonaro avança incansavelmente para consolidar o protagonismo do Brasil no consumo de agrotóxicos, em linha com os interesses das corporações e do agronegócio implacável com fins lucrativos: as últimas pesquisas do professor Marcos Pedlowski da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes no Estado do Rio de Janeiro, um total de 1.558 novos Agrotóxicos foram aprovados pelo governo nos 36 meses do governo Bolsonaro até 31 de dezembro de 2021.

Para promover o boom de exportação de culturas de rendimento como soja, milho, algodão, café e suco de laranja concentrados, que são exportados principalmente para o exterior, o Brasil está usando agrotóxicos de forma abundante. Em função disso, em poucas décadas, o país tornou-se o campeão mundial no consumo de agrotóxicos. Desde que mais de um milhão de toneladas de agrotóxicos foram pulverizados nas áreas agrícolas brasileiras em 2010, o país ostenta o título inglório de maior consumidor mundial de venenos agrícolas. E quando Tereza Cristina, lobista declarada dos agrotóxicos, tornou-se Ministra da Agricultura. “Brasil – o paraíso dos agrotóxicos” foi a manchete do prestigiado portal Carta Capital em junho de 2019.

E isso tem consequências. “Desde o início dos anos 2000, são vendidas muitas sementes geneticamente modificadas que não morrem se você as pulverizar com glifosato em uma grande área, por exemplo. A agricultura industrial no Brasil é totalmente dependente de agrotóxicos”, afirma o ativista Alan Tygel da campanha brasileira contra toxinas agrícolas (“Campanha permanente contra os agrotóxicos e pela vida”). Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso constatou que em 13 municípios (644.746 habitantes: interior segundo o último censo de 2015), nos quais soja, milho e algodão foram cultivados entre 1992 e 2014, houve 1.442 casos de estômago e esôfago – e câncer de pâncreas. Nos 13 municípios comparativos (219.801 habitantes: interior segundo o último censo de 2015), onde havia uso principalmente turístico em vez de uso agrícola), o número de casos de câncer foi de 53. Isso resulta em uma taxa de câncer de 223,65 por 100.000 habitantes em municípios usados ​​para agricultura: no interior, em municípios usados ​​principalmente para turismo, a taxa de câncer é 24,11 por 100.000 habitantes: dentro. Assim, em municípios onde os agrotóxicos são pulverizados avidamente, a taxa de câncer é estatisticamente maior por um fator de 8 . Além disso: No Brasil, milhares de cidadãos brasileiros são envenenados por toxinas agrícolas todos os anos. O número vem aumentando ano a ano: em 2007 foram 2.726 casos, em 2017 foram 7.200, um aumento de 164% .

Mas as regiões em que agrotóxicos não são usados para a agricultura também são afetadas por  veneos agrícolas. Por um lado, trata-se dos casos em que agrotóxicos pulverizados permanecem como resíduos nos alimentos consumidos. De acordo com os últimos dados disponíveis (2017/18) da Autoridade Nacional de Vigilância Sanitária ANVISA, 14 produtos agrícolas comuns (selecionados pela Anvisa: abacaxi, alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, cenoura, chuchu, goiaba, laranja, manga , pimentos, tomates e uvas) excederam os valores-limite admissíveis em 23% dos casos .

Outra área extremamente crítica é a da água potável. O Ministério da Saúde verifica de acordo com a regulamentação em vigor até agora 27 substâncias , algumas das quais podem causar sérios riscos à saúde em contato . Segundo a Anvisa, 16 dessas substâncias são “extremamente tóxicas” ou “altamente tóxicas”, enquanto onze estão associadas a doenças crônicas como câncer, malformações, distúrbios hormonais ou reprodutivos. O que chocou particularmente o público brasileiro em abril de 2019: em 2014, foram encontrados resíduos de agroquímicos na água potável em 75% dos testes. Em 2015 este valor subiu para 84%, em 2016 para 88% e em 2017 para 92%.

Quando questionados sobre a responsabilidade conjunta da Alemanha pela aplicação massiva de agrotóxicos no Brasil, o primeiro destinatário são os dois pesos pesados ​​do mercado mundial de venenos agrícolas:  duas empresas alemãs Bayer e Basf . O autor deste texto teve em 2016 um estudo dos ingredientes ativos oferecidos pela Bayer e Basf que são realizadas no Brasil. O objetivo do referido estudo era descobrir se e quais ingredientes ativos Bayer e Basf eram vendidos no Brasil que não são aprovados pela União Europeia (UE) de acordo com o Banco de Agrotóxicos  da organização . Esta investigação foi repetida três anos depois. O resultado foi que o número de agrotóxicos da Bayer e da Basf aumentou. Os ingredientes ativos vendidos no Brasil, mas não aprovados em nível da UE de acordo com o Banco de  Agrotóxicos  aumentaram de oito (2016) para 12 (2019) e no caso da Basf de nove (2016) para 13 (2019). Um novo estudo do Inkota, Misereor e da Fundação Rosa Luxemburgo para 2020 também mostrou dados idênticos para os ingredientes ativos vendidos pela Bayer e Basf no Brasil .

Desde que não seja proibida no Brasil, essas substâncias são vendidas lá por grupos como BASF e BAYER. A BAYER admitiu isso no final dos anos 1980. Em 1988, o então presidente do conselho, Hermann J. Strenger, disse: “Na verdade, por exemplo, não temos leis no Brasil como na República Federal da Alemanha”, acrescentou : “Mas estamos fazendo nossos investimentos no Brasil ou na Índia, nos EUA ou no Japão com as mesmas exigências que aqui.” Porém, mais de 30 anos depois, a BAYER ainda vende herbicidas, inseticidas e fungicidas no Brasil, assim como a BASF, que são proibidos na Europa.

E esse comportamento imprudente acaba afetando novamente nós consumidores na Alemanha. Em maio do ano passado, o Greenpeace testou frutas do Brasil para resíduos de toxinas agrícolas. O resultado: “Os testes de laboratório das 70 frutas revelam resíduos de um total de 35 diferentes substâncias ativas de pesticidas. Os níveis máximos legais foram excedidos um total de quatro vezes. As amostras analisadas consistem em casca e polpa. ”Um exemplo entre muitos: mais de 37% das limas importadas para a Alemanha no período de 2017-2020 vieram do Brasil, sendo quase 36.200 toneladas de limões. No passado, o agronegócio brasileiro sempre gostou de negar que resíduos de agrotóxicos poderiam ser encontrados em produtos cítricos. Em outras vezes era usado o argumento de que poderia haver resíduos na casca, que, no entanto, não são ingeridos. Resta agora saber se toda caipirinha em que os limites dos resíduos de agrotóxicos nos limões são respeitados,

E a política europeia? Continua a depender, por exemplo, do Acordo de Livre Comércio UE-MERCOSUL. E isso também tem algo a ver com a compra e venda de agrotóxicos. De qualquer forma, o Greenpeace adverte: “Se o planejado acordo UE-Mercosul for concluído, as tarifas sobre agrotóxicos cairão. Isso deve aumentar suas vendas e o comércio tóxico.” Como primeiro passo, espera-se que o acordo não se concretize, e como segundo passo que a coalizão “Semáforo” colocou nos acordos que gerou o novo governo alemão para a exportação de bens que são proibidos na Alemanha esteja seja cumprido. É claro que isso não afeta a questão da continuidade da produção dos mesmos princípios ativos no próprio Brasil, por exemplo, pelas filiais da Basf e da Bayer. É preciso um fim fundamental para o duplo padrão de lucro. E é necessária uma reviravolta agroecológica, no Brasil e na Alemanha, e em todos os lugares. Nesse sentido, há muito o que fazer.

color compass

Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pela Dachverband Kritische Aktionäre [Aqui!].

Poluição por agrotóxicos: especialista explica perigos de venenos agrícolas para o meio ambiente

Agrotóxicos podem atingir o solo, água e ar, afetando a saúde humana e o meio ambiente

agrotóxicos tomates

Em 2021, o Governo Federal liberou o registro de 500 agrotóxicos no país, configurando um novo recorde da série histórica iniciada em 2000 pelo Ministério da Agricultura. Além dos possíveis malefícios para a saúde, o uso excessivo de agrotóxicos também interfere no meio ambiente, aumentando o nível de poluição e afetando o ecossistema da região.

Isso acontece porque quando os agrotóxicos entram em contato com a terra, podem contaminar o solo e, consequentemente, reduzir o número de nutrientes. Já quando estes produtos atingem os lençóis freáticos, contaminam as águas subterrâneas. Por essa razão se comemora nesta terça-feira (11) o Dia do Combate à Poluição por Agrotóxicos.

“Estes efeitos ocasionam diversos problemas nas cadeias do meio ambiente. Por exemplo, a poluição por agrotóxico pode gerar mortes de insetos polinizadores e os inimigos naturais das pragas. Logo, possibilita o surgimento de novas pragas e, por consequência, a necessidade de utilizar mais agrotóxicos, gerando este efeito dominó”, explica o doutor em meio ambiente e professor da Rede UniFTC, Anderson Alves.

Anderson também explica que, além do solo e das águas, o ar também pode ser impactado com a poluição causada pelos pesticidas. “Veja bem, o que acontece é que esses produtos ficam circulando na atmosfera e podem desencadear uma série de intoxicações nas pessoas e de outros organismos vivos que respiram o ar contaminado”.

Danos invisíveis

Segundo o especialista, uma das coisas que torna o efeito dos agrotóxicos mais preocupante é porque ele causa problemas invisíveis. “Por exemplo: os peixes contaminados por agrotóxicos podem ser consumidos por pessoas, propagando um efeito em cadeia de disseminação do inseticida. O ser humano que consome hortaliças contaminadas também acumula veneno por meio do consumo de alimentos”, pontua.

Observatório dos Agrotóxicos: governo Bolsonaro bate recorde tóxico com mais 51 aprovações em 2021, totalizando 1.558 venenos liberados em 36 meses

agrotoxico-presidente

Os leitores do Blog do Pedlowski devem ter notado que o ano de 2021 foi bastante ativo nas publicações ligadas ao “Observatório dos Agrotóxicos” que foi criado logo no início de 2019 para documentar a promessa eleitoral (cumprida, é preciso que se diga) de acelerar a liberação de venenos agrícolas para atender a insaciável demanda do latifúndio agro-exportador de commodities.  

Como resultado da política de licenciamento “fast food” adotada pelo governo Bolsonaro, o Brasil se viu inundado por uma verdadeira tsunami de venenos agrícolas, a maioria proveniente de empresas chinesas e europeias, e com um número significativo deles banidos pela União Europeia em função de sua alta periculosidade para o meio ambiente e também para a saúde humana. 

Pois bem, como não podia ser diferente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), comandado pela ministra Tereza Cristina (DEM/MS), fez publicar hoje (31/12) o Ato Nº 55, de 23 de Dezembro de 2021 que traz a liberação de mais 51 agrotóxicos. Com isso, o governo Bolsonaro quebra o seu próprio recorde tóxico dos seus primeiros dois anos de mandato, alcançando um total de 1.558 agrotóxicos liberados em 36 meses de mandato.

É preciso que se diga que a imensa maioria dos agrotóxicos aprovados se destina para uso em poucas culturas agrícolas, todas elas voltadas para a exportação. No caso da soja e do milho, por exemplo, o objetivo é principalmente alimentar os rebanhos de animais na União Europeia e na China (principal parceiro comercial brasileiro).  Enquanto isso, ficamos imersos em um processo de agravamento da contaminação ambiental e também da população brasileira.

Como ainda não tive tempo para cria a planilha de dados para o Ato Nº 55, de 23 de Dezembro de 2021  (o que impede a atualização da base de dados com todos os agrotóxicos liberados pela dupla Jair Bolsonaro/Teresa Cristina), farei isso nos primeiros dias de 2022.

Mas uma coisa é certa: o combate a um modelo agrícola fortemente dependente de venenos agrícolas e da devastação dos biomas da Amazônia e do Cerrado deverá ser uma prioridade para aqueles que desejam viver em uma sociedade onde o ato de se alimentar não seja uma espécie de suicídio cotidiano. E a construção desse modelo agrícola alternativo de base ecológica só será possível com a derrota desse modelo viciado em venenos mortais e que não tem como prioridade saciar a fome, seja no Brasil ou no resto do mundo.

Governo Bolsonaro reforçou agricultura dependente de agrotóxicos com novo recorde de aprovações em 2021

agrotóxicos 1

Como já mostrado ao longo deste ano através das publicações do “Observatório dos Agrotóxicos”, o governo Bolsonaro quebrou um novo recorde de aprovações de agrotóxicos em 2021, tendo ultrapassado o total de 500 novas liberações.  E o pior é que dos agrotóxicos liberados até o início de dezembro, 94% (ou seja 470) eram de produtos genéricos, com uma quantidade significativa de substâncias banidas em outras partes do mundo por causa de sua alta periculosidade para seres humanos e o meio ambiente. Na prática, esses dados desmentem as alegações do governo Bolsonaro de que a tsunami de agrotóxicos se destinava a modernizar o portfólio existente e a baratear o custo desses produtos. É que nem uma das duas coisas aconteceu.

Mas se engana quem acha que os setores mais interessados nessa verdadeira tsunami de agrotóxicos altamente perigosos estão satisfeitos com a “agilidade” demonstrada pelo governo Bolsonaro. É que a aliança formada por produtores de venenos agrícolas e grandes latifundiários envolvidos na exportação de commodities agrícolas querem fazer aprovar em 2022 o chamado “Pacote do Veneno (o PL 6.299/2002) cujo objetivo é praticamente abolir a regulação existente para a produção e utilização de venenos agrícolas. Se aprovado, o Pacote do Veneno causará uma aceleração ainda maior no consumo de agrotóxicos, o que deverá contribuir para um aumento da contaminação de alimentos, águas e solos, além de expor os trabalhadores rurais que manuseiam esses produtos a taxas ainda maiores de adoecimento.

Há que se dizer que o uso massivo de agrotóxicos no Brasil decorre da implantação de grandes áreas de monoculturas de poucas commodities, que incluem a soja, o algodão, a cana de açúcar e o milho. Todas essas monoculturas contribuem para mais de 80% do consumo de agrotóxicos no Brasil. Desta forma, qualquer alegação de que esse abusivo de agrotóxicos se destina a garantir a produção de alimentos para a mesa dos brasileiros não passa de uma mentira grosseira. 

agrotoxicos comida

Aliás, falando sobre a relação existente o uso de agrotóxicos e o consumo de alimentos pelos brasileiros, é importante lembrar que a recente a publicação dos resultados do Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes em alimentos (PNCRC) mostrou um grave processo de contaminação não apenas por agrotóxicos, mas também por metais pesados. Isto objetivamente coloca em risco a saúde dos brasileiros que estão hoje submetidos a um modelo agrícola totalmente dependente de substâncias altamente perigosas para produzir.

Assim, dentre as muitas questões importantes a serem tratadas em 2022 está a aprovação do “Pacote do Veneno”, pois se esta questão for deixada apenas no âmbito do congresso nacional, a aprovação será inevitável

Albaugh compra Rotam e sinaliza mais concentração na venda de agrotóxicos

tractor

O site especializado “Agrolink” informou que a a empresa estadunidense Albaugh anunciou nesta terça-feira (21/12) a “compra da Rotam Global AgroSciences Limited, que tem sua sede em Hong Kong.  Segundo a Agrolink, pelo acordo firmado, a Albaugh adquiriu todas as ações em circulação da Rotam em uma transação total de aproximadamente US$ 197,5 milhões líquidos“.

O interessante é que verificando a base de dados construída para o “Observatório dos Agrotóxicos” contendo a lista de 1.507 aprovados até o final de novembro pelo governo Bolsonaro, pode-se verificar que as subsidiárias brasileiras da Albaugh e da Rotam foram beneficiadas por 66 liberações, sendo a maioria produzidas por empresas chinesas.

O que isto mostra é que esta “fusão” não apenas a reforça o processo de concentração que está em curso na indústria química de produção de venenos agrícolas, mas também a posição da China no fornecimento de agrotóxicos no Brasil, muitos deles proibidos em outras partes do mundo por serem extremamente tóxicos e causadores de graves problemas ambientais e à saúde humana.

Recorde tóxico: venda de agrotóxicos alcançou R$ 75,81 bilhões em 2021 no Brasil

pesticide-1

Por Leonardo Gottems, repórter da AgroPages, para a Agnews

 A receita líquida do mercado de defensivos agrícolas (i.e., venenos agrícolas, grifo meu) no Brasil deve chegar a US $ 13,3 bilhões (R$ 75,81 bilhões) em 2021, segundo o Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos de Defesa Vegetal).

A projeção foi apresentada em relatório da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), ao qual a AgroPages teve acesso em primeira mão.

Se confirmada, essa receita líquida das empresas de agrotóxicos aumentaria 7,3% em relação a 2020. No total, US $ 6,2 bilhões (R$ 35,34 bilhões) em produtos foram importados neste ano, uma queda de 10,1% em relação às compras do ano anterior.

Segundo o Sindiveg, que reúne as principais empresas agroquímicas formuladas com patentes no Brasil, estima-se o consumo de 536 mil toneladas de agrotóxicos “efetivamente aplicados” nas lavouras (conceito PAT = “produto por área tratada”). Se a projeção se confirmasse, também haveria uma queda de 10,1% em relação a 2020.

Segundo Ciro Marino, presidente-executivo da Abiquim, “o faturamento cresceu, mas os custos também. Com um bom equilíbrio, a única preocupação com a falta de competitividade é claramente expressa pela crescente participação das importações na carteira de atendimento às necessidades brasileiras. As estimativas já apontam para um déficit recorde do setor – em torno de US $ 45 bilhões ”, alertou.

Terceiro Trimestre

A área tratada com agrotóxicos cresceu 8,7% no terceiro trimestre de 2021 em relação ao mesmo período do ano anterior, afirmou o Sindiveg. No total, foram tratados 209,3 milhões de hectares, um acréscimo de 16,8 milhões de hectares. A soja foi o produto com maior área tratada (32% do total), seguida por pastagem (20%), trigo (12%), milho (10%), cana-de-açúcar (7%) e outras culturas.

“Esse resultado se deve a uma série de fatores, com destaque para o início do plantio de verão e a expectativa de alta na safra 2021-2022, além da expectativa de preços firmes para as principais commodities”, explicou Julio Borges, presidente do Sindiveg. Em volume, os defensivos agrícolas aplicados no 3º trimestre alcançaram 154,6 mil toneladas, aumento de 6,6% em relação ao mesmo período de 2020.

Entre os principais segmentos de produtos, houve crescimento de 14% no uso de fungicidas (de 12.800 t para 14.500 t), e de 12% no uso de inseticidas (de 14.800 t para 16.500 t). 7% no uso de tratamento de sementes (1.700 t a 1.800 t) e 4% no uso de herbicidas (de 104.800 t a 109.300 t). O Sindiveg encomendou esses dados à Spark Consultoria Estratégica.

O valor de mercado dos defensivos agrícolas (i.e., venenos agrícolas, grifo meu) aplicados atingiu US $ 1,7 bilhão no terceiro trimestre, aumentando 21,7% em comparação com julho-setembro de 2020 (US $ 1,4 bilhão). “A expectativa de crescimento da próxima safra é uma ótima notícia para todos os elos da cadeia produtiva. Porém, é importante destacar que o crescimento da área exige mais atenção dos produtores aos desafios fitossanitários, que não são poucos e estão sempre se renovando”, afirmou. Borges acrescentou.

O presidente do Sindiveg avaliou o crescimento da área tratada no terceiro trimestre, mas expressou preocupação com o cenário global, “que é instável e preocupa muito, devido à escassez de matérias-primas importadas, aumento de custos e, principalmente, falta de garantia de entrega de insumos pela China, nosso principal fornecedor. ”

“O Sindiveg está atento aos crescentes custos das matérias-primas importadas e aos problemas logísticos. Principalmente nas últimas semanas, temos enfrentado dificuldades no recebimento de insumos importantes. A organização e todas as indústrias associadas estão trabalhando incansavelmente para resolver a situação o mais rápido possível, para evitar uma possível falta de insumos (i.e., agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, grifo meu), mas o cenário é extremamente preocupante ”, concluiu Borges.

blue compass

Este texto foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo AgNews [Aqui!].

Venenos agrícolas mortais: um negócio tóxico e protegido por uma dupla moral

Os agrotóxicos podem ter consequências graves para a saúde humana. Muitos dos agrotóxicos que estão proibidos na União Europeia (UE) ainda são exportados. revelando uma dupla moralidade

hhps eu

Nos países do sul global quase não há monitoramento de resíduos de agrotóxicos em alimentos. Pequenos agricultores e trabalhadores agrícolas costumam aplicar os venenos sem roupas de proteção (trabalhadores agrícolas em um campo de batata na Indonésia, 16 de novembro de 2020)

Por Peter Clausing* para o JungeWelt

Os agrotóxicos são substâncias altamente biologicamente ativas cujo objetivo é matar organismos indesejáveis insetos, plantas ou fungos – ou inibir seu desenvolvimento. Portanto, é da natureza das coisas que as propriedades desses produtos químicos também representem um risco para os seres humanos e o meio ambiente.

Após décadas de relativo descuido, este facto tem sido levado em consideração tanto a nível mundial como na União Europeia. Um exemplo bem conhecido é a proibição do DDT, o infame inseticida organoclorado que se acumula na cadeia alimentar. No início da década de 1970 foi proibido na maioria dos países ocidentais, na República Federal da Alemanha em 1972. Desde 1991, a colocação de agrotóxicos no mercado da Comunidade Europeia foi regulamentada por uma Diretiva do Conselho, que foi substituída por um Regulamento (CE) 1107/2009 em 2011 tornou-se. Este último exige, entre outras coisas, que cada substância pesticida ativa seja submetida a um processo de reaprovação após 15 anos, no máximo, no qual o estado da ciência atual deve ser levado em consideração. Além disso, ingredientes ativos que representam um risco comprovado ou provável para a saúde humana, não podem ser aprovados. Fala-se aqui dos chamados critérios de corte para uma classificação em uma das duas categorias de risco mais altas (1 A ou 1 B) para uma toxicidade carcinogênica, mutagênica ou reprodutiva. Para compreensão, deve ser explicado que o termo “tóxico reprodutivo” abrange distúrbios do desenvolvimento e da fertilidade e que a categoria 1 A esconde um perigo “verificável” e 1 B um “provável” perigo para os humanos. As substâncias ativas classificadas desta forma são referidas no texto a seguir como »substâncias EU-1-A- / 1-B« – para diferenciá-las das categorias da Organização Mundial de Saúde (OMS) para toxicidade aguda, que também são designados como 1 A e 1 B.

Soluções amigáveis para a indústria

Mas, antes de mais nada, trata-se da classificação da UE nas categorias 1-A- / 1-B para câncer, danos genéticos e toxicidade reprodutiva. A interpretação dos dados científicos usados ​​para atribuir 1 A ou 1 B é um campo de conflito entre a indústria agroquímica e a ciência independente. Em contraste com o efeito diretamente fatal (veja abaixo), esses efeitos de longo prazo devem ser diferenciados da ocorrência espontânea de tumores, mutações no material genético ou malformações embrionárias, etc. Esta variabilidade biológica cria uma certa margem de interpretação, que pode ser usada para ignorar os efeitos ou, em caso de incerteza científica, para aplicar o princípio da precaução ancorado no regulamento de agrotóxicos da UE.

Uma análise dos relatórios de avaliação das autoridades mostra que elas continuam discutindo os efeitos, que não podem ser interpretados como outra coisa senão ceder à pressão do lobby do setor. No pior dos casos, as autoridades não estão apenas jogando fora o princípio da precaução, mas também violando suas próprias regras e diretrizes para chegar a uma conclusão favorável à indústria. O exemplo mais conhecido é a polêmica em torno da reaprovação do glifosato, em que, em 2016, algumas organizações não governamentais (ONGs) chegaram a entrar com ações criminais contra o Instituto Federal de Avaliação de Risco por fraude científica, embora sem qualquer processo judicial.

A classificação em relação ao efeito altamente tóxico, ou seja, o efeito imediatamente fatal, é menos controversa, porque aqui causa e efeito estão tão próximos que, de fato, quase não há espaço para interpretação. A OMS publicou pela primeira vez uma lista aqui em 1975, que é regularmente atualizada e a última versão da qual apareceu em 2019.¹ A OMS distingue entre substâncias extremamente tóxicas (Categoria 1 A) e substâncias altamente tóxicas (Categoria 1 B). Se a substância for engolida, os ingredientes ativos da OMS-1-A têm um efeito letal com menos de cinco miligramas por quilograma de peso corporal, as substâncias da categoria 1 B com menos de 50 miligramas.

Se você olhar no banco de dados de agrotóxicos da UE, verá que das atualmente 454 substâncias ativas aprovadas na UE, apenas nove pertencem à categoria 1 A / 1 B da OMS e três à categoria 1 A / 1 B da UE para danos de longo prazo. Por outro lado, 151 dessas substâncias 1-A / 1-B estão agora proibidas na UE. Além disso, existem princípios ativos que perderam a autorização de introdução no mercado por razões ambientais, mas que não podem ser aqui discutidos com mais detalhe devido à falta de espaço. Os únicos exemplos são o herbicida atrazina, que foi repetidamente encontrado em águas subterrâneas, e – devido à sua toxicidade para as abelhas – os chamados neonicotinóides, isto é, que incluem inseticidas como o tiaclopride.

No geral, o termo “agrotóxicos altamente perigosos” (HHPs em inglês) é usado para todos esses ingredientes ativos. Os critérios detalhados para os HHPs podem ser encontrados em um documento conjunto da FAO (Organização Mundial da Alimentação) e da OMS.2, no entanto, nenhuma substância ativa é mencionada. Essa deficiência foi corrigida pela PAN International, a rede internacional de ação de agrotóxicos, que publicou pela primeira vez uma lista de ingredientes ativos do HHP em 2009 usando os critérios da FAO/OMS. Esta lista é atualizada regularmente – a última versão, aliás, é deste ano.

Padrões duplos

O problema que mais nos preocupa são os chamados padrões duplos. Conforme descrito acima, os agrotóxicos que atendem aos critérios do HHP são uma grande ameaça para os seres humanos e o meio ambiente. Muitos deles estão proibidos na UE. Mas em outras partes do mundo eles continuam a ser comercializados.

Vamos primeiro dar uma olhada no desenvolvimento em termos de volume. De acordo com estatísticas do governo federal e da FAO, surge o seguinte quadro: Também na Alemanha, a quantidade de inseticidas, herbicidas e fungicidas usados ​​aumentou nos últimos 25 anos. Mas a quantidade vendida aumentou apenas 0,8 por cento ao ano de 1995 a 2019. Em contraste, o consumo global dessas três classes de ingredientes ativos cresceu três vezes mais rápido no mesmo período, em uma média de 2,4 por cento ao ano. Se em 1995 2,4 milhões de toneladas desses princípios ativos foram lançados no meio ambiente em todo o mundo, em 2019, último ano com cifras disponíveis, foram 3,9 milhões de toneladas. Mesmo que não haja números precisos em escala mundial, os HHPs provavelmente darão uma contribuição significativa. Para a UE, no entanto, os números sobre as exportações de HHP estão disponíveis ao público. O Acordo de Roterdã, vinculativo ao abrigo do direito internacional (em vigor desde 2004), obriga a UE a apresentar as chamadas notificações de exportação para a maioria dos HHPs oficialmente reconhecidos. Esta obrigação de informar os países-alvo sobre a importação planejada de HHPs com antecedência (referido como consentimento prévio informado) tem como objetivo principal proteger os países do sul global de importações descontroladas de HHPs (e outros produtos químicos altamente perigosos).

Com base nessas notificações de exportação e na avaliação de um banco de dados comercial, a organização suíça “Public Eye” e “Unearthed”, um grupo de nove jornalistas investigativos, chegou à conclusão de que as cinco principais empresas agroquímicas em 2018 ganharam um terço de suas vendas de agrotóxicos de HHPs alcançadas.³ Os cinco grupos são BASF, Bayer, Corteva Agriscience, FMC e Syngenta, duas empresas alemãs, duas americanas e uma suíça que, juntas, controlam mais de 65% do mercado global de agrotóxicos.

Existem também estatísticas de exportação disponíveis publicamente para a Alemanha. Esses são – de acordo com uma exigência legal – publicados anualmente pelo Instituto Federal de Defesa do Consumidor e Segurança Alimentar, mas não os números exatos, apenas ordens de grandeza. Além disso, as empresas exportadoras não são identificadas. No caminho para uma proibição de exportação de HHPs, uma maior transparência seria importante para poder nomear cavalos e cavaleiros. Essas estatísticas foram avaliadas em um estudo da rede de ação de agrotóxicos (PAN Alemanha). Mais de 25% de todos os agrotóxicos exportados da Alemanha em 2017 eram HHPs. E nove desses ingredientes ativos de agrotóxicos não tinham aprovação dentro da UE.

Suicídios e envenenamento

Então, quais são as consequências específicas de tais exportações? Eles são derivados das propriedades toxicológicas dos ingredientes ativos. Mesmo que o foco seja nos efeitos para a saúde a seguir, não se deve esquecer que também há danos ambientais consideráveis ​​- perda de biodiversidade, poluição do solo e da água e poluição do ar nas regiões rurais. Isso, por sua vez, pode causar danos à saúde. Uma particularidade neste contexto é o »ciclo tóxico«: as empresas químicas produzem e exportam agrotóxicos proibidos na UE, que depois regressam aos consumidores europeus na forma de resíduos de alimentos importados.

O mais óbvio, entretanto, é o envenenamento agudo por pesticida, e isso ocorre com muita frequência, mas raramente neste país. Agrotóxicos altamente tóxicos, que são relativamente facilmente acessíveis em muitos países do sul global e que eram usados ​​como agentes suicidas, alcançaram triste fama. Há alguns anos, a “epidemia de suicídio” de pequenos proprietários indianos endividados chegou às manchetes. Vários estudos mostraram que o argumento cínico “se aqueles em risco de suicídio não têm mais acesso aos HHPs, então eles pegam outra coisa” não se aplica. Por exemplo, a taxa nacional de suicídio caiu significativamente na Coreia do Sul depois que o herbicida paraquat foi proibido em 2011.

O envenenamento não intencional por agrotóxicos, que atinge grande parte dos agricultores e do proletariado rural nos países da África, Ásia e América Latina, tem recebido menos atenção da mídia, mas é extremamente dramático. No final de 2020, uma estimativa global de envenenamento por pesticida não intencional foi publicada, com a qual números confiáveis ​​estão finalmente disponíveis. ⁵ Depois de revisar mais de 1.600 publicações de 2006 a 2019, os dados de 157 publicações foram finalmente classificados como úteis e extraídos. Além disso, foram incluídos na estimativa os dados do registro global de mortalidade da OMS, que se baseia na chamada codificação CID-10. O número de intoxicações não intencionais por agrotóxicos é de cerca de 385 milhões por ano (das quais cerca de 11). 000 fatais), o que corresponde a cerca de 44 por cento dos trabalhadores agrícolas do mundo, foi um aumento dramático em comparação com a estimativa anterior. A estimativa publicada em 1990 em nome da OMS tinha chegado a cerca de 25 milhões de vítimas de envenenamento anualmente. 

Em 1990, o número de intoxicações agudas foi aparentemente muito subestimado, porque a estimativa de 2020 tem um banco de dados consideravelmente mais amplo e selecionado de forma transparente. No entanto, a quantidade de agrotóxicos usados ​​globalmente também aumentou em mais de 80% de 1990 até os dias atuais. Em 1990, o número de intoxicações agudas foi aparentemente muito subestimado, porque a estimativa de 2020 tem um banco de dados consideravelmente mais amplo e selecionado de forma transparente. No entanto, a quantidade de agrotóxicos usados ​​globalmente também aumentou em mais de 80% de 1990 até os dias atuais.  

Aumento do risco de câncer

As intoxicações agudas, porém, são apenas a ponta do iceberg. Por serem fáceis de entender, são relativamente bem documentados. Se, no entanto, cerca de 385 milhões de pessoas estão expostas a agrotóxicos a tal ponto que desenvolvem sintomas de envenenamento, pode-se presumir que estão mais ou menos permanentemente, embora sutil, expostas a agrotóxicos, uma exposição que, no entanto, é provável ser muitas vezes superior à população da UE devido a resíduos de agrotóxicos nos alimentos ou devido à exposição ocupacional. Mas mesmo na UE, os efeitos dos agrotóxicos são mensuráveis ​​na vida cotidiana: em um estudo francês publicado em 2018 com mais de 68.000 participantes, o risco de câncer era “pessoas que comeram alimentos totalmente orgânicos,

Nos países do sul global, a situação é completamente diferente. Não há virtualmente nenhum monitoramento de resíduos de agrotóxicos nos alimentos. Lá, os agricultores que aplicam agrotóxicos não se sentam em tratores com cabines de proteção, mas os pequenos agricultores e trabalhadores agrícolas aplicam agrotóxicos com pulverizadores de mochila – muitas vezes sem roupas de proteção e às vezes com os pés descalços. Relatórios dos sindicatos sul-africanos mostram que as roupas de proteção só são distribuídas quando as inspeções são solicitadas e que são coletadas novamente para serem guardadas para a próxima inspeção. As famílias mexicanas que realizam trabalho migratório em grande número nos estados do norte precisam levar seus filhos com eles, que ficam sentados na beira do campo, não importa o que aconteça no campo. E estudos na Argentina comprovam

Portanto, existem inúmeras e sérias razões para proibir a exportação de agrotóxicos que já não são permitidos na UE por razões de saúde ou ambientais. Que isso é possível fica demonstrado na França, onde essa lei entra em vigor no início do novo ano. A indústria química de lá tentou impedir essa lei por meio de uma ordem judicial, mas falhou devido a uma decisão da mais alta corte. No início deste ano, uma lei entrou em vigor na Suíça que proíbe a exportação de cinco agrotóxicos particularmente problemáticos. Mas na Alemanha, com seu forte lobby para a indústria química, nada mudou até agora. De acordo com um estudo publicado em abril, as duas grandes corporações Bayer e BASF continuam a comercializar agrotóxicos na África e na América Latina, que contêm ingredientes ativos 1-A/ 1-B proibidos na UE. ⁷ O governo alemão teve a oportunidade de agir desde 2012. 

Em um relatório dos Serviços Científicos do Bundestag, é indicado que o Parágrafo 25 da Lei de Proteção de Plantas habilita o Ministério da Agricultura a emitir uma portaria »a fim de evitar perigos significativos para a saúde humana ou animal que não possam ser remediados em qualquer outra forma (…) a exportação de certos produtos fitofarmacêuticos (…) a ser proibida em estados fora da União Europeia «. Não deve haver dúvida de que tais perigos “significativos” existem. No entanto, a opção oferecida pela Lei de Proteção de Plantas aparentemente nunca foi usada. Em um relatório dos Serviços Científicos do Bundestag, é indicado que o Parágrafo 25 da Lei de Proteção de Plantas habilita o Ministério da Agricultura a emitir uma portaria »a fim de evitar perigos significativos para a saúde humana ou animal que não possam ser remediados em qualquer outra forma (…) a exportação de certos produtos fitofarmacêuticos (…) a ser proibida em estados fora da União Europeia «. Não deve haver dúvida de que tais perigos “significativos” existem. 

No entanto, a opção oferecida pela Lei de Proteção de Plantas aparentemente nunca foi usada. Em um relatório dos Serviços Científicos do Bundestag, é indicado que o Parágrafo 25 da Lei de Proteção de Plantas habilita o Ministério da Agricultura a emitir uma portaria »a fim de evitar perigos significativos para a saúde humana ou animal que não possam ser remediados em qualquer outra forma (…) a exportação de certos produtos fitofarmacêuticos (…) a ser proibida em estados fora da União Europeia «. Não deve haver dúvida de que tais perigos “significativos” existem. No entanto, a opção oferecida pela Lei de Proteção de Plantas aparentemente nunca foi usada. Outros perigos para a saúde humana ou animal que não podem ser remediados (…) para proibir a exportação de certos produtos fitofarmacêuticos (…) para países fora da União Europeia «. Não deve haver dúvida de que tais perigos “significativos” existem. No entanto, a opção oferecida pela Lei de Proteção de Plantas aparentemente nunca foi usada. Outros perigos para a saúde humana ou animal que não podem ser remediados (…) para proibir a exportação de certos produtos fitofarmacêuticos (…) para países fora da União Europeia «. Não deve haver dúvida de que tais perigos “significativos” existem. No entanto, a opção oferecida pela Lei de Proteção de Plantas aparentemente nunca foi usada.

Em conversas pessoais, membros do Bundestag que estão comprometidos com a política de desenvolvimento, até mesmo de grupos parlamentares favoráveis ​​aos empresários, disseram pelo menos que era “ilógico” exportar agrotóxicos considerados muito perigosos na UE. O antigo governo federal, entretanto, continuou difícil de ser ouvido, e o que o novo governo fará ainda está para ser visto.

Ministério Silencioso

Incitada pela PAN Alemanha e pela Inkota, rede ativa na política de desenvolvimento, a ministra da Agricultura da CDU, Julia Klöckner, foi convidada a agir em um apelo assinado por 60 ONGs em outubro de 2020. Não houve resposta a esta carta. Também em outubro de 2020, a Comissão Europeia publicou o rascunho de sua estratégia de produtos químicos, que contém a passagem esperançosa para uma futura proibição de exportação de produtos químicos tóxicos que são proibidos na UE. Isso então teria que incluir agrotóxicos. Em novembro de 2020, a Esquerda e os Verdes apresentaram uma moção intergrupal para proibir a exportação de tais agrotóxicos, que foi debatida na sessão plenária do Bundestag em 11 de fevereiro de 2021. Como esperado, o pedido foi rejeitado. O governo federal se escondeu atrás disso,

É claro que uma proibição nacional ou mesmo da UE não resolverá finalmente nem o problema do envenenamento agudo nem o do envenenamento progressivo no sul global. É verdade que existem muitos outros participantes no mundo que continuarão a produzir e exportar HHPs. Mas justificar sua própria inação é um argumento preguiçoso. Porque a própria vontade de fazer campanha por um acordo global aumentará consideravelmente depois que uma proibição de exportação nacional ou em toda a UE for aprovada. E vontade política seria essencial para avançar nessa área. O que se encontra na página 151 do acordo de coalizão sobre o assunto é ainda mais decepcionante: »faremos uso das possibilidades legais para proibir a exportação de certos agrotóxicos, que não são homologados na UE por razões de proteção da saúde humana. «A proteção ambiental nem sequer é mencionada – a Bayer também poderá exportar seus agrotóxicos proibidos na UE e perigosos para as abelhas no futuro. 

Da mesma forma, não se busca uma lei correspondente, que então não poderia ser alterada tão rapidamente, aparentemente prefere-se reger por portaria, ou seja, esgotar as possibilidades jurídicas do parágrafo 25 da Lei de Proteção Vegetal. As ordenanças podem ser retiradas com relativa facilidade. E fala-se vago de “certos agrotóxicos”. O conteúdo da moção apresentada pelos Verdes e pela Esquerda em novembro de 2020 não está refletido no acordo de coalizão. “A proteção ambiental nem é mencionada – a Bayer continuará a poder exportar seus agrotóxicos, proibidos na UE e perigosos para as abelhas, no futuro. Da mesma forma, não se busca uma lei correspondente, que então não poderia ser alterada tão rapidamente, aparentemente prefere-se reger por portaria, ou seja, esgotar as possibilidades jurídicas do parágrafo 25 da Lei de Proteção Vegetal. As ordenanças podem ser retiradas com relativa facilidade. E fala-se vago de “certos agrotóxicos”. O conteúdo da moção apresentada pelos Verdes e pela Esquerda em novembro de 2020 não está refletido no acordo de coalizão. “A proteção ambiental nem é mencionada – a Bayer continuará a poder exportar seus agrotóxicos, proibidos na UE e perigosos para as abelhas, no futuro. Da mesma forma, não se busca uma lei correspondente, que então não poderia ser alterada tão rapidamente, aparentemente prefere-se reger por portaria, ou seja, esgotar as possibilidades jurídicas do parágrafo 25 da Lei de Proteção Vegetal. 

As ordenanças podem ser retiradas com relativa facilidade. E fala-se vago de “certos agrotóxicos”. O conteúdo da moção apresentada pelos Verdes e pela Esquerda em novembro de 2020 não está refletido no acordo de coalizão. Em vez disso, eles aparentemente querem governar por decreto, ou seja, exaurir as possibilidades legais da Seção 25 da Lei de Proteção de Plantas. As ordenanças podem ser retiradas com relativa facilidade. E fala-se vagamente de “certos agrotóxicos”. O conteúdo da moção apresentada pelos Verdes e pela Esquerda em novembro de 2020 não está refletido no acordo de coalizão. Em vez disso, eles aparentemente querem governar por decreto, ou seja, exaurir as possibilidades legais da Seção 25 da Lei de Proteção de Plantas. As ordenanças podem ser retiradas com relativa facilidade. E fala-se vago de “certos agrotóxicos”. O conteúdo da moção apresentada pelos Verdes e pela Esquerda em novembro de 2020 não está refletido no acordo de coalizão.

Proibição global vinculativa

Uma longa jornada exige um longo fôlego. Os esforços da rede de ação de agrotóxicos não se limitam à Alemanha, onde em 22 de junho de 2021, junto com Inkota, foram entregues ao governo federal 177 mil assinaturas exigindo a proibição das exportações. Uma campanha pelo banimento global dos HHPs está em andamento na PAN International há anos. O apelo correspondente já foi assinado por mais de 560 organizações de 111 países. No documento conjunto FAO-OMS sobre HHPs mencionado acima, são discutidas medidas para mitigar os efeitos negativos dessas substâncias. O fim do uso desses agrotóxicos por meio de ato administrativo é denominado “opção mais eficaz”. A FAO e a OMS já reconheceram que a proibição do HHP é necessária há anos.

Observações

1 A Classificação Recomendada pela OMS de Agrotóxicos por Perigo e diretrizes para a classificação, edição de 2019; apps.who.int/iris/rest/bitstreams/1278712/retrieve

2 FAO / OMS (2016): Diretrizes sobre Agrotóxicos Altamente Perigosos, Roma

3 Gaberell, L./Viret, G. (2020): Bilhões em vendas de agrotóxicos que são cancerígenos ou venenosos para abelhas. www.publiceye.ch/de/themen/pestizide/agrochemiekonzerne-machen-millionen-mit-krebserregend-pestiziden-oder-bienen-killern

4 PAN Alemanha (2019). Exportações tóxicas. pan-germany.org/download/giftige-exporte-ausfuhr-hochgefaehrlicher-pestizide-von-deutschland-in-die-welt

5 Boedeker, W. et al. (2020): A distribuição global de intoxicação aguda não intencional por agrotóxicos: estimativas baseadas em uma revisão sistemática. BMC Public Health 20, p. 1875

6 Baudry, J. (2018): Associação da frequência do consumo de alimentos orgânicos com o risco de câncer. JAMA Internal Medicine 178, pp. 1597-1606

7 Clausing, P. et al. (2021): Padrões duplos e toxinas agrícolas da Bayer e BASF. pan-germany.org/download/studie-doppelstandards-und-ackergifte-von-bayer-und-basf/

Peter Clausing é PhD em ciências agrícolas e toxicologia. Ele escreve sobre o tema da nutrição global e os perigos representados pelos agrotóxicos.

blue compass

Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Estudo mostra que 25% dos agrotóxicos vendidos no Brasil podem ser ilegais

apreensãoPolicial do Departamento de Operações de Fronteira descarrega agrotóxico escondido em sacos de sementes em uma apreensão realizada em Ponta Porã (MS) (Foto: Divulgação) – CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

Não bastasse a verdadeira tsunami de liberações de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo por serem extremamente perigosos, um estudo realizado pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF) mostra que em torno de 25% vendidos no Brasil entram no país de forma ilegal. O estudo do IDESF mostra uma evolução na quantidade de produtos que entraram ilegalmente o Brasil, sendo que houve também uma verificação nas substâncias que chegaram a um crescente mercado clandestino de agrotóxicos.

mercado ilegal 1

Entre os “campeões” do contrabando estão substâncias como Benzoato de Emamectina, Tiametoxam e Paraquat, mas a lista é muito maior, incluindo uma grande gama de agrotóxicos que incluem o Acetamiprido; Carbendazim; Cletodim; Clodinafope; Clorimuron; Clorpirifós; Endosulfan; Fipronil; Imazetapir; Imidaclorido;  Lambda Cialotrina;  e  Tiodicarbe.  

A distribuição das apreensões desses produtos que entram ilegalmente no país mostra que há uma associação quase perfeita com os estados que são considerados os “campeões” do agronegócio, reforçando a tese de que em vez de ser pop, o agro é tóxico (ver figura abaixo).

mercado ilegal 3

Um detalhe a mais é que os produtos ilegais chegam no Brasil, a maioria vinda via o Paraguai, em concentrações muito mais altas do que permitido legalmente no Brasil. Desta forma, o prejuízo ambiental e à saúde humana acaba sendo exponencializado, mesmo porque a maioria dessas substâncias é banida em outras partes do mundo por estarem associadas à ocorrência de fortes impactos ambientais e sanitários.

O interessante é que o estudo do IDESF mostra não apenas que os pontos de origem dessa quantidade expressiva de produtos ilegais são conhecidos pelas autoridades, mas que também as rotas de distribuição estão bem mapeadas (ver figura abaixo).

mercado ilegal 2

 

O fato é que o estudo do IDESF mostra que aparentemente existe dentro do Brasil é uma enorme tolerância para as operações ilegais de uma poderosa rede comercial clandestina de agrotóxicos e de sementes geneticamente modificadas.

Quem desejar ler o relatório do IDESF na íntegra, basta clicar [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: em mais 3 atos, governo Bolsonaro confirma opção por produtos banidos, supremacia chinesa e uso preferencial em monoculturas

chuva

Dando continuidade a um trabalho de acompanhamento iniciado em janeiro, o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski divulga hoje a lista completa dos 1.507 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019. A presente divulgação inclui ainda as planilhas relativas aos atos de No. 42, 47 e 49 publicados em setembro e novembro de 2021.

A disponibilização dos conteúdos específicos desses 3 atos e da lista completa dos 1.507 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro visa dotar pesquisadores e ativistas sociais de uma ferramenta que lhes permita aprofundar esforços em curso para entender o grau de dependência do modelo agro-exportador de venenos agrícolas altamente perigosos para o ambiente e para a saúde humana. 

Como venho acompanhando o processo de liberação “fast track” de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, sob a batuta firme da ministra Tereza Cristina (DEM/MS), considero que já seja possível verificar a presença de algumas características marcantes nessa verdadeira “tsunami” de venenos agrícolas, as quais procurarei dar indicações gerais logo abaixo.  

A presença marcante de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo

Brasil é 2º maior comprador de agrotóxicos proibidos na Europa - CicloVivo

Um dos elementos que considero fundamental para se entender a atual dinâmica de aprovação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro é a presença de uma quantidade significativa de agrotóxicos cujos princípios ativos já foram identificados como causadores de graves impactos sobre a saúde humana e sobre fauna, biota, solos e recursos hídricos. Alguns deles já foram banidos há algum tempo na União Europeia e em outros mercados importantes para agrotóxicos, como os EUA e a China. Alguns exemplos desses agrotóxicos banidos são: Ametrina, Atrazina, Acefato, Fipronil e Paraquate. Além disso, produtos, como por exemplo o Glifosato) que estão sendo banidos paulatinamente em outras partes do mundo, continua sendo liberados e classificados como sendo de baixo risco para a saúde humana, em que pese o conhecimento científico existente que aponta o contrário. Colocados juntos, os agrotóxicos banidos representam em torno de 30% dos produtos liberados pelo governo Bolsonaro, sendo que o banimento paulatino de novos produtos tenderá a aumentar esse valor nos próximos anos.

A forte dependência da indústria chinesa de agrotóxicos

pesticides china

Um elemento particularmente significativo é o fato de que o Brasil criou uma relação de duas mãos com a República Popular da China, com uma vantagem comparativo para o maior parceiro comercial brasileiro que compra soja e vende agrotóxicos e outros insumos agrícolas, realiza praticamente uma captura da agricultura brasileira. Essa captura fica evidente quando se vê que sem a China a produção agrícola brasileira não teria como ser escoada e que, ao mesmo tempo, o Brasil hoje não teria como substituir os insumos chineses, seja por causa de preços ou pelo fato de que a indústria chinesa está oferecendo produtos que já não estão sendo produzidos nos países centrais que originalmente produziam os agrotóxicos banidos que estão sendo liberados por aqui.

O peso das monoculturas de exportação no uso de agrotóxicos no Brasil

No Brasil, um continente de monoculturas banhado em agrotóxicos

Ao se verificar a lista de agrotóxicos liberados a partir de janeiro de 2019 é possível observar que a imensa maioria deles está sendo autorizada para culturas dominadas por monoculturas, tais como soja, algodão, milho e cana de açúcar.  Essa predominância de liberações tem relação direta com o nível de consumo, visto que essas quatro monoculturas são responsáveis por mais de 80% do consumo de agrotóxicos no Brasil. Essa característica além de desnudar todo o discurso de que precisamos do uso intensivo de agrotóxicos para garantir a produção de alimentos, também evidencia que a população brasileira está arcando com um alto custo em termos de poluição ambiental e ocupacional para garantir a acumulação de riqueza por grandes latifundiários e o setor financeiro que são os principais beneficiários de um modelo agrícola fortemente dependente do uso intensivo de substâncias altamente perigosas.

O resultado final deste modelo é a transformação do Brasil em uma zona de sacrifício ambiental e sanitário

tereza bolsonaro

A análise dos produtos liberados pelo governo Bolsonaro também desmonta o discurso de que a aprovação “fast track” de agrotóxicos visaria um processo de modernização do portfólio de venenos agrícolas usados na agricultura brasileira. A maioria dos produtos liberados contém princípios ativos que estão presentes há algum tempo no mercado, sendo que muitos deles foram descontinuados no norte global por serem altamente perigosos.  Assim, a liberação e venda desses produtos no Brasil, para uso principalmente na agricultura de exportação, não tem nada de modernizador, e atende apenas os interesses dos grandes latifundiários e as corporações transnacionais (com forte participação chinesa) que controlam o mercado global de agroquímicos.

O resultado disso tudo ainda não é possível de se determinar, até porque estamos em meio a um processo em desenvolvimento. Mas a professora Larissa Bombardi, que afirmou recentemente que o Brasil vivencia hoje um grande desastre industrial por causa dessa opção preferencial por venenos agrícolas altamente perigosos.

O acesso às bases de dados do Observatório dos Agrotóxicos

Como sempre ocorre quando são feitas as liberações de agrotóxicos, o Observatório dos Agrotóxicos está liberando a planilha total dos 1.507 agrotóxicos (Aqui!), e dos atos individuais  42 (Aqui!) 47 (Aqui!) e 49 (Aqui!).