Por trás do alimento: uma iniciativa jornalística para aumentar o conhecimento sobre os agrotóxicos em nossa comida

As organizações jornalísticas Agência Pública e Repórter Brasil, que, juntas, têm mais de 60 prêmios de jornalismo nacionais e internacionais,  acabam de lançar o site “Por Trás do Alimento”, uma iniciativa jornalística que visa investigar como são produzidos os alimentos produzidos pela agricultura brasileira, sejam para consumo interno ou para exportação [1].

agrotóxicos por trás dos alimentos

Essa é uma iniciativa fundamental, na medida em que a maioria dos brasileiros desconhece o fato de que desde 2008 somos o país que mais consome agrotóxicos no mundo.  Assim, essa iniciativa permitirá um maior conhecimento sobre os sistemas de produção de alimentos e os produtos químicos que são utilizados para manter um sistema que causa graves danos ao ambiente e à saúde humana.

O artigo de lançamento do “Por trás do alimento” é do jornalista José Brito e aborda o fato de que agrotóxicos proibidos na Europa são campeões de venda no Brasil [2].  Um dado impressionante sobre esta situação é que cerca de um terço dos ingredientes liberados para uso no Brasil estão proibidos na União Européia.  Entre estes produtos estão o paraquate, a atrazina e o acefato, todos conhecidos por causarem graves danos à saúde das pessoas que entram em contato com elas.

Lamentavelmente, a situação deverá se agravar agora que temos uma combinação trágica entre os ministros que comandarão os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, ambos conhecidos por defenderem regras ainda mais flexíveis para o uso de agrotóxicos que estão sendo banidos em todo o planeta.

Por outro lado, com o “Por trás do alimento”, poderemos ter o necessário acesso à informações importantes sobre os interesses econômicos e políticos em torno do uso de agrotóxicos na agricultura brasileira.


[1]https://portrasdoalimento.info/

[2] https://portrasdoalimento.info/2018/12/10/agrotoxicos-proibidos-na-europa-sao-campeoes-de-vendas-no-brasil/

 

Cientista revela projeto para salvar abelhas e enriquecer agricultores

Especialista informará ONU que o plantio urgente de flores silvestres atrai polinizadores e estimula as plantações de alimentos dos agricultores 

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Populações de abelhas despencaram em todo o mundo. A conferência da ONU debaterá formas de reduzir o uso de pesticidas nocivos. Foto: Michael Kooren / Reuters

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” [1]

O colapso das populações de abelhas pode ser revertido se os países adotarem uma nova estratégia favorável aos agricultores, disse o arquiteto de um novo masterplan para polinizadores na conferência da biodiversidade da ONU nesta semana.

Stefanie Christmann, do Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Áreas Secas, apresentará os resultados de um novo estudo que mostra ganhos substanciais em renda e biodiversidade, desde a colheita de um quarto de terra cultivável até o florescimento de culturas econômicas, como especiarias, sementes oleaginosas, plantas medicinais e forrageiras.

A Conferência das Partes no âmbito do Convenção sobre a Diversidade Biológica da ONU já está debatendo novas diretrizes sobre polinizadores que recomendarão a redução gradual do uso de pesticidas existentes, mas a pesquisa de Christmann sugere que isso pode ser feito sem dor financeira ou perda de produção.

A necessidade de uma mudança é cada vez mais evidente. Mais de 80% das culturas alimentares requerem polinização, mas as populações de insetos que fazem a maior parte deste trabalho entraram em colapso. Na Alemanha, esta queda é de até 75% nos últimos 25 anos. Porto Rico tem visto um declínio ainda mais acentuado. Os números não estão disponíveis na maioria dos países, mas quase todos relatam um declínio alarmante.

As respostas dos governos nacionais variaram muito. No início deste ano, o Brasil, um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, retrocedeu quando congressistas pró-agronegócio votaram pelo levantamento das restrições aos pesticidas proibidos em outros países.

Em contraste, a União Européia proibiu os inseticidas mais amplamente usados no mundo – conhecidos como neonicotinóides, e muitos países europeus estão plantando flores silvestres para atrair insetos.

Mas essa política é cara e traz pouca ou nenhuma renda para os agricultores. Christmann passou os últimos cinco anos trabalhando em uma abordagem diferente, que ela chama de “agricultura com polinizadores alternativos”, com testes de campo no Uzbequistão e no Marrocos. 

A essência da técnica é dedicar uma em cada quatro faixas de cultivo a cultivos de flores, como sementes oleaginosas e especiarias. Além disso, ela fornece aos polinizadores apoio aninhado barato, como madeira velha e solo batido que as abelhas que nidificam no solo podem se enterrar. Girassóis também foram plantados nas proximidades como abrigos de vento. 

“Há uma barreira muito baixa para que qualquer um, mesmo no país mais pobre, possa fazer isso. Não há equipamentos, nem tecnologia e apenas um pequeno investimento em sementes. Isso é muito fácil. Você pode demonstrar como fazer isso com fotos enviadas em um celular ”. Comparado com os campos de controle de monoculturas puras, foram encontrados benefícios “surpreendentes” para os agricultores e um aumento na abundância e diversidade de polinizadores. As culturas foram polinizadas de forma mais eficiente, houve menos pragas, como pulgões e pulgões, e os rendimentos aumentaram em quantidade e qualidade.

5018sóis foram plantados para atuar como um pára-brisa para áreas de apoio de nidificação de abelhas fotografia: Alamy

Em todas as quatro regiões climáticas diferentes que ela estudou, a renda total dos agricultores aumentou, embora os benefícios tenham sido mais marcantes em terras degradadas e fazendas sem abelhas. Os maiores ganhos foram em climas semi-áridos, onde a produção de abóbora subiu 561%, beringela 364%, favas 177% e melões 56%. Em áreas com chuva adequada, as colheitas de tomate duplicaram e a beringela subiu 250%. Nos campos de montanha, a produção de courgette triplicou e as abóboras duplicaram. 

Em outro estudo, financiado pelo Ministério do Meio Ambiente da Alemanha, Christmann testará um plano de cinco anos para passar do trabalho com pequenos projetos pilotos para produtores em grande escala, inserindo tiras floridas de canola e outras culturas comercializáveis para desmembrar as monoculturas.

Ela também espera ver mudanças nas políticas nacionais de paisagem. Trabalhando com os ministérios de turismo, agricultura e comunicação, ela visa aumentar a conscientização sobre os benefícios econômicos dos polinizadores silvestres e incentivar mais o plantio de flores silvestres, arbustos de bagas e árvores floridas.

“Todo o ambiente seria mais rico, mais bonito e mais resiliente às mudanças climáticas”, disse o evangelista de abelhas. “Teríamos muito mais insetos, flores e pássaros. E seria muito mais auto-sustentável. Até mesmo os países mais pobres do mundo poderiam fazer isso”.  

À medida que mais países apreciam as vantagens, ela espera que eles estejam dispostos a se unir à coalizão de países comprometidos em reverter o declínio dos polinizadores. Atualmente, existem apenas 24 países nesta “coalizão de vontade”, principalmente da Europa. Eventualmente, ela espera que haja apoio suficiente ao acordo ambiental multilateral sobre polinizadores, semelhante à convenção internacional sobre o comércio de espécies ameaçadas de extinção. “Espero que a conferência desta semana seja o primeiro passo para criar um acordo multilateral porque é disso que precisamos”, diz ela.  

Ela espera resistência de empresas agroquímicas. “Acho que a Monsanto não vai gostar disso porque quer vender seus pesticidas e essa abordagem reduz as pragas naturalmente”, diz ela.  

Christmann está acostumada com a adversidade. Quando ela sugeriu pela primeira vez um foco em polinizadores na conferência agrícola mundial em 2010, os delegados riram dela. Por muitos anos, ela lutou para obter fundos e por dois anos ela teve que usar suas economias para financiar seu trabalho em programas de polinização.  

Agora ela tem o apoio do governo alemão e uma voz no palco mundial, o único obstáculo é o tempo. “Isso não pode esperar. As abelhas, moscas e borboletas precisam de ação urgente. Tenho agora 59 anos e quero protegê-los globalmente antes de me aposentar, por isso tenho que me apressar”, diz ela.  

O declínio dos polinizadores será destacado em um novo relatório global sobre recursos genéticos para alimentos que será lançado no próximo ano. Com base em relatórios de governos de todo o mundo, o esboço mostrará que até os ministérios da agricultura – que há muito tempo resistem à ação de conservação – estão cientes da necessidade de mudança.  

“Os países estão dizendo que estamos usando muitos pesticidas e que o número de pássaros e abelhas está diminuindo. Precisamos fazer algo sobre isso ou nossos sistemas agrícolas não vão funcionar”, disse Irene Hoffmann, que lidera o estudo da Organização para Agricultura e Alimentação (FAO). “É frustrante e, às vezes, é assustador. A situação é terrível, mas há maneiras de resolvê-la”.


Texto publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [1]

Agrotóxicos e seus impactos na saúde do brasileiro

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Abaixo publico o excelente vídeo publicado pelo site Sul 21 que aborda os impactos causados na saúde dos brasileiros pelo uso intenso de agrotóxicos, incluindo aqueles que já foram banidos em outras partes do mundo [1].

 

O vídeo aborda ainda os riscos ainda maiores que passaremos a correr com a aprovação do chamado “Pacote do Veneno” que tem entre uma das suas principais apoiadoras a futura ministra da agricultura do governo Bolsonaro, a deputada do DEM sul matogrossense Tereza Cristina.


[1] https://www.sul21.com.br/tv-sul21/2018/11/como-a-producao-de-alimentos-com-agrotoxicos-impacta-na-vida-do-brasileiro/

O Atlas do uso de agrotóxicos no Brasil: uma obra fundamental para entendermos o quanto estamos sendo envenenados

agrotoxicos

A obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” de autoria da professora Larissa Mies Bombardi do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP) foi lançado em 2017, mas permanece injustamente desconhecida da maioria dos brasileiros.

atlas bombardi

Felizmente agora todos os interessados em entender o que eu chamo de geopolítica do veneno poderão baixar gratuitamente a versão eletrônica do atlas produzido pela professora Larissa Bombardi. Segundo o que está posto no blog que a pesquisadora mantém na internet, a disponibilização da versão e-book visa permitir que as informações contidas no atlas “possam circular e possam ser um importante instrumento de conscientização e, também, de suporte para políticas públicas que envolvam a proteção da população exposta aos agrotóxicos.”

Como alguém que vem estudando as formas e a intensidade do uso de agrotóxicos no Brasil há mais de uma década, considero que esta obra nos entrega informações preciosas sobre a disseminação territorial destas substâncias, e dos impactos já identificados sobre a saúde dos trabalhadores que as manuseiam cotidianamente.

Para baixar a obra da professora Larissa Bombardi, basta clicar [Aqui!]

Antas contaminadas alertam para uso de agrotóxicos proibidos no Brasil

Por Fábio Gallacci, Terra da Gente

Sentinelas: saúde comprometida das antas evidencia contaminação — Foto: Divulgação IPÊ

Sentinelas: saúde comprometida das antas evidencia contaminação — Foto: Divulgação IPÊ

O Brasil tem usado em suas áreas agrícolas agentes químicos e agrotóxicos que foram banidos em outros países há três décadas. São materiais que oferecem riscos à saúde humana e também aos animais que circulam por essas regiões.

A comprovação veio de uma pesquisa inédita realizada pela Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (Incab), grupo ligado ao Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). De acordo com um levantamento feito entre 2015 e 2017, no Mato Grosso do Sul, as antas do Cerrado, bioma que fica no epicentro do desenvolvimento agrícola do país, estão com a saúde altamente comprometida pela exposição a esses produtos.

A espécie pode ser considerada uma “sentinela”, que utiliza áreas de monocultura como passagem e tem contato com esses materiais com frequência. Isso mostra que o cenário de contaminação também afeta, consequentemente, as pessoas ao redor.

Os inseticidas foram os produtos mais constatados no organismo das antas  — Foto: Divulgação IPÊ

Os inseticidas foram os produtos mais constatados no organismo das antas — Foto: Divulgação IPÊ

No período do estudo, pesquisadores coletaram centenas de amostras biológicas de 116 antas capturadas em armadilhas – em uma ação que serviu para a colocação de colares de telemetria por satélite para monitoramento – ou de carcaças de antas mortas por atropelamento em rodovias de sete municípios do MS. As amostras foram avaliadas no Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox), da Unesp de Botucatu (SP), que é referência nacional para esse tipo de estudo.

O resultado foi que mais de 40% das amostras avaliadas estavam contaminadas com resíduos de produtos tóxicos, incluindo inseticidas organofosforados, piretróides, carbamatos e quatro diferentes tipos de metais pesados.

13 agentes químicos foram encontrados em 116 indivíduos  — Foto: Divulgação IPÊ

13 agentes químicos foram encontrados em 116 indivíduos — Foto: Divulgação IPÊ

“Encontramos um carbamato chamado Aldicarb, que é de uso proibido aqui no Brasil. Ele foi encontrado em conteúdo estomacal de algumas das antas analisadas. Isso comprova uma irregularidade na fiscalização e chama a atenção para a necessidade de medidas mais efetivas sobre o uso e o comércio desse agrotóxicos pelos órgãos competentes”, explica a pesquisadora Patrícia Medici, que se preocupa com a dificuldade em descobrir a origem do uso irregular.

“O problema é que a questão dos agrotóxicos é muito difusa. Nós jamais saberemos exatamente quem são os responsáveis pela aplicação dos produtos já que, no ponto onde fizemos o levantamento, são quase 3 mil quilômetros quadrados de área com um mosaico de diferentes usos da terra. O que temos é que foram 13 diferentes agentes químicos encontrados em 116 indivíduos, fato que serve de alerta para que a situação seja enfrentada”, diz.

“Temos que encarar essa problemática de uma forma diferente, oferecer as nossas informações e mostrar que a anta é uma sentinela que acusa o problema.”

AGENTE QUÍMICO

O Aldicarb é um agrotóxico de alta toxicidade, praguicida, também usado ilegalmente para a produção de raticida – conhecido como chumbinho. Ele é responsável por milhares de envenenamentos e mortes de pessoas, especialmente crianças, e de animais domésticos e silvestres, além da contaminação do solo, de alimentos, rios e lençóis freáticos.

Esse agente químico já é proibido em diversos países, como Alemanha e Suécia, desde 1990. Outros países europeus como Portugal, França, Itália, Reino Unido, Espanha, Grécia e Holanda deixaram de utilizar o produto em 2007. No Brasil, o Aldicarb é proibido desde 2012. Estimativas do governo, na época, apontavam que o produto seria responsável por quase 60% dos 8 mil casos de intoxicação relacionados a chumbinho no país, todos os anos.

Um único grama do veneno pode matar uma pessoa de até 60 quilos em meia hora. Se inalado, o produto percorre a corrente sanguínea e também pode levar rapidamente à morte. Nos animais, o efeito é bem semelhante, atingindo principalmente pulmões, fígado e rins.

Os indivíduos apresentaram lesões de fígado e rins — Foto: Divulgação IPÊ

Os indivíduos apresentaram lesões de fígado e rins — Foto: Divulgação IPÊ

“Verificamos que os 116 indivíduos amostrados estavam contaminados, a maioria deles por mais de um agente químico. Muitas lesões de fígado e rins. Isso pode levar os animais à morte, redução da longevidade e até mesmo influência em sua capacidade reprodutiva”, aponta Patrícia.

A pesquisa mostra ainda que as antas estão expostas a essas substâncias no ambiente que habitam por contato direto com as plantas, solo e água contaminados. A análise estomacal demonstrou exposição pela ingestão de plantas nativas contaminadas e de itens das culturas agrícolas eventualmente utilizados como recurso alimentar.

PULVERIZAÇÃO

Segundo dados do Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox), ocorre no Brasil uma média de 3.125 casos de intoxicação por agrotóxico de uso agrícola ao ano, ou oito intoxicações diárias. O Ministério da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) acreditam que, para cada caso notificado, existem outros 50 não notificados, o que aumentaria significativamente essa estatística, reforça a pesquisa.

Patrícia ressalta que o país tem um histórico de pulverização indiscriminada, sendo que em alguns estados não há nem protocolos estabelecidos para essa atividade. “Mesmo nas regiões onde há critérios, de maneira geral , eles não são respeitados”, diz a pesquisadora.

“No caso dos agrotóxicos, aqui no Brasil, não é mais uma questão de exposição, mas imposição. Isso está no nosso ambiente, na nossa água, na comida fresca, nos grãos, no leite materno, enfim, está em tudo.”

No mesmo período da coleta de amostras com as antas, a equipe da Incab realizou um levantamento de dados sobre o uso de agrotóxicos no estado do Mato Grosso do Sul, buscando dados e informações de inserções de imprensa, registros junto à Polícia Militar Ambiental e Tribunal de Justiça do MS.

Segundo as informações encontradas, a pulverização aérea é a forma de aplicação de agrotóxicos mais utilizada no estado, sendo ainda o método mais relacionado à ocorrência de contaminação do meio ambiente, especialmente por influência do vento e deriva do produto para áreas indesejadas.

No Mato Grosso do Sul, os inseticidas – principal grupo de agrotóxicos constatado no organismo das antas – são as substâncias responsáveis por mais de 70% dos casos de intoxicação aguda em humanos.

Substâncias autorizadas no Brasil estão proibidas para uso e comercialização em outros países — Foto: Arte/TG

Substâncias autorizadas no Brasil estão proibidas para uso e comercialização em outros países — Foto: Arte/TG

Mas se engana quem pensa que esse é um problema restrito ao Centro-Oeste. “Certamente, esse cenário de contaminação está sendo repetido em todas as outras regiões do país onde agrotóxicos são utilizados em larga escala. É um problema amplo, que afeta o meio ambiente e as pessoas. O Brasil, de maneira geral, pega muito leve em relação às restrições”, comenta Patrícia, dando um exemplo alarmante em relação à água.

“A grande maioria dos países da União Europeia aceita, no máximo, 0,5 micrograma de quaisquer agrotóxico ou metal pesado na água que é consumida pela população. Aqui, em alguma regiões, aceitamos até 5 mil microgramas desses produtos. É bastante chocante a leveza com a qual o nosso país leva essa problemática e a leveza com que deixam passar diversas oportunidades de criar critérios mais fortes para proteger a população”, lamenta.

“Não tem nenhum ser humano que não esteja contaminado por agrotóxicos e, quando se fala em Brasil, as áreas do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são onde existem as condições mais sérias.”

Muitas das substâncias autorizadas para uso nestas culturas no Brasil estão proibidas para uso e comercialização em outros países. Existem 504 ingredientes ativos com registro autorizado e uso permitido no Brasil. Destes, 149 (30%) são proibidos na União Europeia.

Em casos de intoxicação crônica os efeitos podem incluir malformações congênitas e câncer  — Foto: Arte/TG

Em casos de intoxicação crônica os efeitos podem incluir malformações congênitas e câncer — Foto: Arte/TG

A dimensão atual do uso de agrotóxicos no Brasil tem gerado um indiscutível impacto sobre a saúde da população humana, sobretudo de trabalhadores rurais. Entretanto, o problema não atinge somente áreas rurais e pequenas cidades, tendo relevância também em grandes centros urbanos, especialmente por conta da potência e do uso indiscriminado de agrotóxicos pelo país.

Além disso, o aumento na incidência de câncer entre trabalhadores rurais e pessoas envolvidas nas campanhas sanitárias, no final da década de 80, levou ao estudo mais detalhado sobre a interação dos agrotóxicos com o organismo no surgimento desses tumores, entre outras disfunções de base celular.

Uma série de pesquisas atuais correlaciona a maior incidência de câncer em determinadas regiões do país com a exposição prolongada à agrotóxicos. Entre 1980 e 2011, houve aumento das taxas de mortalidade por câncer de próstata em todas as regiões brasileiras, sendo que a região Centro-Oeste apresentou tendência crescente, assim como a expansão da atividade agropecuária.

Dados sugerem períodos de maiores níveis de contaminação ambiental — Foto: Arte/TG

Dados sugerem períodos de maiores níveis de contaminação ambiental — Foto: Arte/TG

A larga utilização de agrotóxicos no processo de produção agropecuária tem implicações importantes para o ambiente. A contaminação ambiental e acúmulo destas substâncias na água, ar, solo e sedimentos pode causar consequências significativas para as comunidades de seres vivos que compõem o ecossistema.

Poucos estudos avaliaram as consequências da contaminação ambiental por agrotóxicos em espécies da fauna. Todavia, efeitos adversos já são comprovados em populações de anfíbios e peixes de várias espécies.

Uma preocupação inerente à contaminação de recursos naturais é a dispersão de contaminantes para fora das áreas consideradas fonte, atingindo não somente comunidades do entorno das áreas de uso e aplicação de agrotóxicos, como também comunidades afastadas.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2018/10/29/antas-contaminadas-alertam-uso-de-agrotoxicos-proibidos-no-brasil.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=share-bar-desktop&utm_campaign=share-bar&fbclid=IwAR3Lfr_PNEY4heK9HpF6Gg9YGoqmRFFnKqwYXVHeefzl0wWYP7by0-Ml-Fc

Estudo associa agrotóxicos organofosforados a uma série de doenças em fetos e crianças. Banir sería a solução

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Um artigo publicado pela revista PLOS Medicine de autoria de um grupo de pesquisadores de instituições de pesquisa dos EUA e do Canadá liderados pela Dra. Irva Hertz-Picciotto da Universidade da California-Davis traz revelações importantes sobre os impactos trazidos pelo uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos da classe dos organofosforados [1].

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Além dos impactos diretos sobre os agricultores que manipulam e aplicam esta classe de agrotóxicos, os pesquisadores estabeleceram efeitos sobre a saúde até de fetos em desenvolvimento no útero, o que vem a causar problemas cognitivos e comportamentais, bem como deficiências no processo de desenvolvimento neurocomportamentais. Segundo o que apontam os pesquisadores,  os resultados associados à  exposição de fetos a agrotóxicos organofosforados normalmente  incluem a ocorrencia de reflexos primitivos anormais em recém-nascidos; atrasos no desenvolvimento mental e motor entre crianças em nível pré-escolar, bem como  a diminuição da memória de trabalho e visual e na velocidade de processamento, compreensão verbal, raciocínio perceptivo e QI entre crianças em idade escolar. As exposições pré-natais a organofosforados também elevariam os riscos para sintomas ou diagnósticos de transtorno de déficit de atenção / hiperatividade (TDAH) e transtorno do espectro do autismo (TEA)

O mapa abaixo mostra o nível de uso de organofosforados nos países em que a série temporal adotada pelos pesquisadores estava disponível, o que não foi o caso do Brasil que aparece em cinza. Entretanto, se observarmos os níveis de países como Argentina, EUA e Índia é possível afirmar que os efeitos colaterais trazidos por esta classe de produto estão amplamente disseminados em países com este nível de uso.

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Agora imaginemos o que ocorrerá no Brasil caso a plataforma de liberação “ampla, geral e irrestrita” que os latifundiários pretendem impor vier a ser aplicada em conjunção com uma retração nos investimentos em saúde pública. O nosso país certamente se tornará um dos principais epicentros das consequências deletérias do uso descontrolado de agrotóxicos no mundo, sejam eles organofosforados ou não.

Enquanto isso, no que depender das descobertas trazidas por este estudo, outros países serão instados a banir os organofosforados, ampliando as proibições que já estão sendo amplamente aplicadas para esta classe de agrotóxicos.


[1] https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1002671