Os “Doze Sujos” e a geopolítica do veneno: como o sistema alimentar global normalizou a contaminação cotidiana

Novo relatório sobre resíduos de agrotóxicos revela mais do que um problema sanitário: expõe um modelo agrícola dependente de químicos, cadeias globais de exportação e a captura corporativa da alimentação 

Durante décadas, o capitalismo agrícola vendeu ao mundo a promessa de abundância. A chamada “revolução verde” transformou sementes em mercadorias patenteadas, fertilizantes em instrumentos de dependência econômica e agrotóxicos em condição estrutural da produção em larga escala. Agora, um novo relatório divulgado nos EUA reacende uma pergunta incômoda: o que exatamente estamos colocando no prato?

O levantamento anual conhecido como Dirty Dozen (“Doze Sujos”), produzido a partir de dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e divulgado pelo Environmental Working Group (EWG), identificou níveis elevados de resíduos de agrotóxicos em alimentos consumidos diariamente, mesmo após lavagem doméstica. Espinafre, morango e uva lideram a lista de produtos com maior contaminação química detectada em 2026. 

Mais de 54 mil amostras de frutas e legumes foram analisadas. O resultado impressiona não apenas pela escala, mas pela persistência dos contaminantes: 264 agrotóxicos diferentes foram encontrados nos alimentos avaliados. Em muitos casos, quatro ou mais substâncias químicas apareciam simultaneamente na mesma amostra.  

O dado mais perturbador talvez seja outro: os resíduos permaneceram presentes mesmo após processos de higienização semelhantes aos realizados em cozinhas domésticas. Isso significa que a contaminação não está apenas na superfície dos alimentos. Ela penetra o próprio sistema alimentar industrializado. A lista dos “Doze Sujos” inclui ainda nectarinas, pêssegos, cerejas, maçãs, amoras, peras, batatas e mirtilos. Muitos desses produtos possuem cascas finas ou elevada sensibilidade a fungos e insetos, o que leva ao uso intensivo de agrotóxicos durante o cultivo.  

Mas o debate não pode ser reduzido a uma simples recomendação individual de “lavar melhor os alimentos” ou “consumir orgânicos”. O que está em jogo é um modelo agrícola profundamente subordinado às grandes corporações químicas e ao imperativo da produtividade permanente.

Desde os anos 1990, a agricultura global passou por um processo radical de financeirização e concentração empresarial. Poucas multinacionais controlam sementes, agrotóxicos, fertilizantes e sistemas logísticos. Nesse arranjo, o agricultor torna-se dependente de pacotes tecnológicos completos — frequentemente incompatíveis com práticas agroecológicas ou sistemas biodiversos. O resultado é uma agricultura que produz commodities em escala planetária, mas também produz contaminação difusa, degradação ambiental e exposição química permanente.

Os impactos sobre a saúde humana já não pertencem apenas ao campo das hipóteses. Estudos anteriores relacionaram a exposição prolongada a agrotóxicos a problemas hormonais, infertilidade masculina, alterações neurológicas, cânceres e doenças cardiovasculares. Crianças e fetos aparecem entre os grupos mais vulneráveis. A própria American Academy of Pediatrics alerta para riscos como baixo peso ao nascer, dificuldades de aprendizagem e problemas de desenvolvimento cognitivo.  

O relatório também menciona a presença de PFAS — os chamados “químicos eternos” — substâncias extremamente persistentes no ambiente e associadas a múltiplos efeitos tóxicos.  

No Sul Global, entretanto, o problema ganha contornos ainda mais dramáticos. Países exportadores de commodities agrícolas frequentemente flexibilizam regulações ambientais para manter competitividade nos mercados internacionais. O Brasil tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos dessa dinâmica. Nos últimos anos, o nosso país ampliou autorizações para novos agrotóxicos e consolidou uma das maiores dependências químicas do planeta. Enquanto o agronegócio se apresenta como símbolo de modernização econômica, amplia-se silenciosamente a exposição populacional a substâncias potencialmente perigosas — especialmente entre trabalhadores rurais, populações periféricas e consumidores de baixa renda, que raramente têm acesso regular a alimentos orgânicos.

Nas redes sociais e fóruns online, cresce a percepção de que o atual modelo agroexportador produz riqueza concentrada, mas socializa riscos ambientais e sanitários. Em discussões públicas recentes, usuários brasileiros relacionam diretamente a expansão do agronegócio à intensificação do uso de agrotóxicos e à fragilidade dos mecanismos de controle estatal. 

Existe, portanto, uma dimensão política central nesse debate. O problema dos agrotóxicos não decorre apenas de “falhas” regulatórias. Ele nasce da lógica estrutural de um sistema alimentar organizado para maximizar produtividade, padronização e lucro corporativo, mesmo às custas da saúde coletiva e da integridade ecológica.

A retórica dominante insiste em apresentar os agrotóxicos como um “mal necessário” para alimentar o mundo. Contudo, essa narrativa omite que boa parte da produção agrícola global não se destina diretamente à alimentação humana, mas à exportação de commodities, produção de ração animal e cadeias industriais altamente concentradas.

Os “Doze Sujos” revelam, assim, algo maior que uma lista de alimentos contaminados. Eles expõem o paradoxo central da agricultura contemporânea: um sistema capaz de produzir abundância material sem garantir segurança alimentar real.

No centro desse modelo, a comida deixa de ser direito e transforma-se em plataforma de acumulação financeira. O alimento torna-se mercadoria química. E o consumidor, um sujeito permanentemente exposto a riscos invisíveis normalizados pela rotina.

Talvez a pergunta mais importante não seja quais frutas possuem mais agrotóxicos. A questão decisiva é por que aceitamos como inevitável um sistema alimentar baseado em contaminação crônica, dependência química e degradação ambiental em larga escala.

O ar também está contaminado por agrotóxicos, mostra estudo

Artigo científico alerta que a dispersão aérea de agrotóxicos é muito maior do que admitem os modelos regulatórios atuais

O novo artigo publicado no periódico científico Journal of Hazardous Materials lança um alerta contundente sobre um tema que continua sendo sistematicamente subestimado pelas autoridades regulatórias e pelo agronegócio global: a contaminação atmosférica por agrotóxicos. Intitulado “Pesticide fate and transport in the atmosphere and implications for risk assessment”, o estudo coordenado por Carole Bedos e dezenas de pesquisadores europeus demonstra que os agrotóxicos não permanecem confinados às áreas onde são aplicados. Pelo contrário, eles entram na atmosfera em grandes quantidades, circulam por centenas ou até milhares de quilômetros e acabam contaminando ecossistemas, populações humanas, áreas urbanas, reservas ambientais e até regiões remotas como o Ártico.

Os autores explicam que a atmosfera funciona como um enorme reservatório e meio de transporte desses compostos químicos. A contaminação ocorre principalmente por dois mecanismos: a deriva da pulverização durante a aplicação e a volatilização posterior a partir do solo, da vegetação e da água superficial. Em alguns casos, até 60% do volume aplicado pode alcançar a atmosfera imediatamente após a pulverização. Além disso, resíduos presentes no solo podem voltar ao ar por meio da erosão eólica, mantendo o ciclo de contaminação ativo durante dias ou semanas.

O estudo destaca que, durante décadas, acreditou-se que o problema da dispersão atmosférica dos agrotóxicos era apenas local. Hoje, porém, o monitoramento científico mostra algo muito mais grave: resíduos de pesticidas são encontrados em chuvas, poeira doméstica, insetos de áreas de preservação, alimentos orgânicos e solos de propriedades que sequer utilizam produtos sintéticos. A presença desses compostos em áreas distantes dos locais de aplicação demonstra que o transporte atmosférico possui escala continental e global.

Outro aspecto alarmante abordado pela pesquisa é que muitos agrotóxicos sofrem transformações químicas na atmosfera, produzindo compostos secundários potencialmente ainda mais tóxicos. Reações com radicais hidroxila, ozônio e nitratos podem gerar subprodutos associados à formação de ozônio troposférico e aerossóis secundários, elementos diretamente ligados à poluição atmosférica e a doenças respiratórias e cardiovasculares. Em alguns casos, os produtos da degradação podem apresentar toxicidade superior à do composto original.

Os pesquisadores também chamam atenção para um problema quase invisível nos debates públicos: os chamados coformulantes presentes nas formulações comerciais dos agrotóxicos. Esses produtos incluem solventes, surfactantes e hidrocarbonetos aromáticos que podem representar mais de 98% da composição total de determinadas formulações. Muitos desses compostos possuem alta volatilidade e forte capacidade de gerar ozônio e partículas finas na atmosfera, agravando problemas de saúde pública e contribuindo para processos de aquecimento climático.

Segundo os autores, os atuais modelos regulatórios europeus e internacionais subestimam fortemente a dimensão atmosférica da contaminação por agrotóxicos. As avaliações de risco normalmente concentram-se apenas nos impactos locais e imediatos, ignorando o transporte de médio e longo alcance, a formação de produtos de transformação e os efeitos combinados das misturas químicas presentes no ambiente. O artigo afirma que existe uma lacuna crítica entre o conhecimento científico acumulado e os mecanismos regulatórios efetivamente utilizados para autorizar pesticidas.

A revisão científica também ressalta que as mudanças climáticas podem ampliar ainda mais esses processos, embora o tema não tenha sido aprofundado no artigo. O aumento das temperaturas, a intensificação das secas e o crescimento dos eventos extremos tendem a favorecer tanto a volatilização quanto a redistribuição atmosférica dos agrotóxicos, criando novos cenários de exposição humana e ambiental.

O trabalho termina defendendo mudanças urgentes nas políticas de monitoramento e regulação. Entre as recomendações estão o fortalecimento das redes de monitoramento atmosférico, a incorporação obrigatória da análise de produtos de degradação, o desenvolvimento de modelos mais sofisticados para prever transporte de longa distância e a adoção de avaliações de risco cumulativo capazes de considerar a exposição simultânea a múltiplos contaminantes.

Mais do que uma revisão técnica, o artigo desmonta um dos pilares discursivos mais utilizados para justificar o uso intensivo de agrotóxicos: a ideia de que os impactos estariam restritos às áreas agrícolas. As evidências reunidas mostram exatamente o contrário. Quando um agrotóxico é lançado no ambiente, ele rapidamente ultrapassa cercas, propriedades e fronteiras nacionais. A atmosfera transforma-se então em um vetor silencioso de contaminação planetária, conectando lavouras intensivas, centros urbanos, ecossistemas frágeis e populações humanas em uma mesma rede de exposição química difusa e permanente.

O mercado da carne e a geopolítica da contaminação

A crise envolvendo antibióticos banidos em carnes brasileiras mostra como o acordo com a União Europeia preserva assimetrias históricas: aos países sul-americanos cabem as commodities e os passivos sanitários; à Europa, o controle das regras, dos mercados e das barreiras

O episódio envolvendo a decisão da União Europeia de excluir temporariamente o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e outros produtos de origem animal possui implicações muito mais profundas do que uma mera disputa comercial sanitária. O que está em jogo é a credibilidade internacional do sistema agropecuário brasileiro e, sobretudo, a crescente associação entre o agronegócio exportador e práticas produtivas consideradas incompatíveis com os novos padrões globais de saúde pública e segurança alimentar.

Do ponto de vista econômico, o impacto potencial é expressivo. A União Europeia representa um dos mercados de maior valor agregado para a carne brasileira. A ameaça de interrupção dessas exportações tende a produzir efeitos em cadeia: pressão sobre frigoríficos, insegurança em contratos internacionais, perda de competitividade e fortalecimento de concorrentes como Argentina, Uruguai e Paraguai — todos mantidos na lista europeia de países aptos a exportar.

Politicamente, a situação é ainda mais delicada porque ocorre em um momento em que o governo brasileiro tenta consolidar internacionalmente a imagem de um país ambiental e sanitariamente alinhado às exigências globais. A decisão europeia funciona, portanto, como um constrangimento direto ao discurso oficial de modernização regulatória e de confiabilidade do agronegócio brasileiro.

Ao mesmo tempo, o episódio fornece munição política tanto para setores europeus protecionistas quanto para críticos internos do modelo agroexportador brasileiro. Agricultores europeus vêm pressionando Bruxelas há meses contra a entrada ampliada de produtos agropecuários do Mercosul, alegando concorrência desleal baseada justamente em padrões sanitários e ambientais mais permissivos. Nesse sentido, a controvérsia dos antibióticos oferece uma justificativa técnica poderosa para medidas que também possuem forte dimensão econômica e geopolítica.

Mas talvez a questão mais perturbadora esteja no que essa crise revela sobre o mercado interno brasileiro.

Se determinados antibióticos ou antimicrobianos são considerados inadequados ou perigosos para consumidores europeus, surge inevitavelmente uma pergunta: qual é exatamente o nível de exposição da população brasileira a essas substâncias? A crise abre uma linha inquisitória extremamente sensível sobre a existência de um possível “duplo padrão sanitário”: um sistema rigoroso para atender mercados externos exigentes e outro muito mais permissivo para o consumo doméstico.

A discussão deixa de ser apenas comercial e passa a envolver saúde pública. O uso intensivo de antibióticos na pecuária está associado internacionalmente à seleção de bactérias resistentes, capazes de comprometer tratamentos médicos humanos. Ou seja, não se trata apenas de resíduos químicos na carne, mas da possibilidade de fortalecimento silencioso de superbactérias resistentes a medicamentos.

Nesse contexto, torna-se inevitável questionar:

  • quais substâncias continuam sendo utilizadas na pecuária brasileira apesar de restrições internacionais;
  • qual é o nível efetivo de fiscalização realizado sobre frigoríficos e confinamentos;
  • quantos testes são feitos no mercado interno;
  • e por que consumidores brasileiros deveriam aceitar padrões sanitários inferiores aos exigidos para consumidores europeus.

As reações públicas revelam, inclusive, um dado preocupante: parte da população passou a interpretar a possível permanência dessas carnes no mercado interno apenas como oportunidade de queda de preços. Isso expõe uma contradição social dramática: a deterioração do poder de compra é tamanha que parcelas da população passam a relativizar riscos sanitários em nome do acesso à proteína animal.

A questão dos antibióticos banidos também se soma diretamente ao debate sobre os agrotóxicos proibidos na União Europeia, formando um quadro mais amplo de divergência regulatória entre Brasil e Europa. O país já convive com críticas internacionais relacionadas ao uso extensivo de princípios ativos vetados em território europeu. Agora, a controvérsia alcança também a pecuária, ampliando a percepção externa de que o Brasil estaria se consolidando como um espaço de flexibilização sanitária e ambiental para maximização da competitividade agroexportadora.

E há aqui uma ironia particularmente incômoda. Assim como ocorre com diversos agrotóxicos proibidos na Europa mas exportados para países periféricos, parte significativa dos antibióticos e insumos veterinários utilizados globalmente é produzida justamente por corporações sediadas em países da própria União Europeia. Ou seja, substâncias consideradas inadequadas para consumo interno europeu continuam gerando lucros para empresas europeias quando destinadas a mercados externos menos protegidos regulatoriamente.

O resultado é uma hipocrisia sanitária difícil de ignorar: a Europa proíbe o consumo doméstico de determinadas substâncias, mas tolera — e  lucra diretamente com — sua circulação em países do Sul Global como o Brasil. Ao mesmo tempo, quando os efeitos desse modelo retornam sob a forma de resíduos em carnes exportadas ou risco de resistência antimicrobiana global, o bloco europeu ergue barreiras sanitárias para proteger seus próprios consumidores.

A diferença é que os consumidores brasileiros não dispõem do mesmo nível de proteção regulatória, rastreabilidade e fiscalização existente na União Europeia. Assim, cria-se uma divisão sanitária internacional profundamente desigual: os riscos são externalizados para populações periféricas enquanto os mercados centrais preservam para si padrões mais rigorosos de segurança alimentar.

No limite, a crise atual pode marcar o início de uma transformação profunda no comércio internacional de alimentos. O que antes era debatido apenas em torno de tarifas e subsídios passa agora a envolver rastreabilidade sanitária, padrões ambientais, antibióticos, bem-estar animal e resíduos químicos. E isso coloca o Brasil diante de uma escolha estratégica: adaptar-se às exigências crescentes dos mercados globais ou correr o risco de se tornar um exportador associado a produtos considerados sanitariamente problemáticos.

Este episódio também exemplifica de maneira cristalina os limites e as profundas desigualdades estruturais do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. Enquanto a Europa mantém plena capacidade de erguer barreiras sanitárias, ambientais e regulatórias contra produtos sul-americanos sempre que seus interesses econômicos ou políticos forem ameaçados, dificilmente os países do Mercosul possuirão margem semelhante para bloquear a entrada de produtos industriais europeus. É difícil imaginar, por exemplo, que Brasil ou Argentina consigam impor restrições equivalentes contra veículos europeus baseados em tecnologias já relativamente ultrapassadas — especialmente automóveis movidos a combustão — mesmo quando existirem alternativas chinesas mais modernas, mais eficientes e frequentemente mais baratas. O desequilíbrio é evidente: a Europa preserva o direito de proteger seu mercado, sua indústria e seus consumidores com todo o peso de sua estrutura regulatória, enquanto aos países sul-americanos resta sobretudo a posição de exportadores de commodities sujeitos a exigências crescentes e frequentemente assimétricas.

No fundo, o caso das carnes contaminadas por antibióticos proibidos revela algo maior: o acordo Mercosul–União Europeia parece ter sido desenhado sobre pesos e contrapesos profundamente desiguais, nos quais os países do Sul assumem os riscos sanitários, ambientais e econômicos, enquanto os países centrais preservam para si o poder de decidir quais produtos podem circular, em quais condições e em benefício de quem.

Monitorar a água, liberar o veneno: o paradoxo dos agrotóxicos no governo Lula

O governo lança ferramentas de monitoramento hídrico ao mesmo tempo em que consolida o Brasil como o líder mundial de consumo de agrotóxicos

O anúncio do governo Lula sobre a criação de um painel de monitoramento de agrotóxicos nas bacias hidrográficas brasileiras expõe uma contradição política difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que o Ministério do Meio Ambiente apresenta a iniciativa como um avanço em transparência e prevenção de riscos ambientais, o próprio governo Lula vem acumulando recordes na liberação de novos agrotóxicos, incluindo princípios ativos proibidos na União Europeia devido aos seus comprovados riscos à saúde humana e ao meio ambiente. O resultado é um cenário paradoxal: monitora-se cada vez mais a contaminação da água enquanto se amplia simultaneamente a autorização para o uso das substâncias responsáveis por essa mesma contaminação. 

O discurso oficial procura associar o monitoramento à ideia de responsabilidade ambiental e sustentabilidade agrícola. Contudo, essa narrativa entra em choque com a política concreta de expansão do mercado de agrotóxicos no Brasil. Desde o início do atual governo, centenas de novos registros comerciais de agrotóxicos foram autorizados, muitos deles contendo substâncias que países europeus já decidiram retirar de circulação por seu potencial cancerígeno, neurotóxico, desregulador endócrino ou persistente no ambiente. Assim, o monitoramento anunciado corre o risco de funcionar mais como instrumento de gestão da contaminação do que como política efetiva de prevenção.

A contradição se torna ainda mais evidente quando autoridades federais afirmam que “competitividade e sustentabilidade não podem caminhar separadas”, enquanto a estrutura regulatória brasileira continua profundamente orientada para atender às demandas do agronegócio exportador dependente de agrotóxicos. Na prática, o país permanece consolidando sua posição como um dos maiores mercados consumidores de agrotóxicos do planeta, inclusive de princípios ativos rejeitados em outras partes do mundo.

Há ainda uma questão estrutural que fragiliza o alcance real dessa iniciativa. Após a aprovação do chamado “Pacote do Veneno”, o poder decisório sobre a liberação de novos agrotóxicos foi significativamente concentrado no Ministério da Agricultura, historicamente mais permeável às pressões das corporações multinacionais que monopolizam a produção de venenos agrícolas e das grandes entidades do agronegócio. Isso significa que, mesmo que o monitoramento identifique níveis preocupantes de contaminação em rios, aquíferos e bacias hidrográficas, não existe garantia de que essas informações resultarão em restrições efetivas ou na proibição das substâncias detectadas.

O problema é que monitorar não equivale automaticamente a proteger. Um painel pode produzir mapas sofisticados, estatísticas detalhadas e relatórios públicos, mas continuará sendo insuficiente se não houver disposição política para enfrentar as causas da contaminação. E essas causas estão diretamente ligadas ao modelo agrícola dominante e à contínua flexibilização regulatória promovida pelo próprio Estado brasileiro.

Os dados apresentados no lançamento do painel já revelam um quadro preocupante. Mais de 10 mil análises foram realizadas, com detecção de agrotóxicos em 7,2% das amostras, sendo o S-Metolacloro o composto mais frequentemente encontrado. O fato de substâncias químicas aparecerem de maneira recorrente nos recursos hídricos brasileiros deveria acender um alerta sanitário nacional, sobretudo em um país onde milhões de pessoas dependem diretamente dessas águas para abastecimento, pesca, agricultura familiar e consumo cotidiano.

Nesse contexto, a iniciativa do governo parece caminhar sobre uma linha ambígua: de um lado, reconhece oficialmente os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos; de outro, mantém e amplia a política de liberação dessas substâncias. Sem enfrentar essa contradição central, o risco é que o monitoramento se transforme apenas em um grande inventário da contaminação progressiva das águas brasileiras — um mecanismo de observação da crise, mas não de sua contenção.

Observatório dos agrotóxicos: a marcha do veneno segue sem freios

Nova rodada de liberações de agrotóxicos reforça um modelo agrícola sustentado pela contaminação ambiental e pelo adoecimento coletivo

Apesar de todas as evidências científicas de que o Brasil já se encontra sob grave risco ambiental e sanitário em razão do uso intensivo de agrotóxicos — sendo parte significativa deles composta por substâncias banidas na União Europeia — o governo Lula publicou hoje o Ato nº 29, de 7 de maio de 2026, autorizando a comercialização de mais 44 agrotóxicos do tipo “Produto Técnico”. 

As características observadas nas centenas de liberações ocorridas durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se repetem, compondo uma espécie de “museu de velhas novidades”: produtos cujos princípios ativos já circulam amplamente no mercado, com predominância quase absoluta de formulações produzidas por empresas chinesas (ver gráfico abaixo).

O que se observa nessa nova rodada de liberações é a completa ausência de compromisso com a redução dos riscos — amplamente conhecidos e documentados — que esses compostos representam tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana. Em vez de estimular uma transição para modelos agrícolas menos dependentes de insumos tóxicos, o país aprofunda sua submissão a uma lógica produtiva baseada na contaminação sistemática do solo, da água e dos alimentos.

Tudo isso ocorre para sustentar um modelo agrícola estruturalmente deficitário, cuja aparência de viabilidade depende da aplicação crescente de venenos agrícolas. E a pergunta que permanece é: quem paga a conta desse sistema envenenado? Pagamos todos nós — por meio das isenções fiscais bilionárias concedidas ao agronegócio químico e, sobretudo, com o próprio corpo. Pagamos no aumento das doenças crônicas, nos casos de intoxicação silenciosa, na contaminação da água que chega às casas, no adoecimento de trabalhadores rurais e no comprometimento do futuro das próximas gerações. Enquanto os lucros se concentram nas mãos de poucas corporações, socializam-se os danos, o sofrimento e a degradação ambiental.

O Brasil segue, assim, avançando perigosamente rumo a um horizonte em que o veneno deixa de ser exceção para se tornar parte naturalizada da nossa paisagem cotidiana.

Contaminação passiva por agrotóxicos em agricultores continua sem solução

Estudo da Faculdade de Saúde Pública mostra que contradições institucionais, econômicas e políticas contribuem para a permanência do problema

Por Jornal USP no Ar 

Uma tese da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo investiga a contaminação passiva por agrotóxicos que afeta agricultores em assentamentos rurais no Pontal do Paranapanema e demonstra que contradições institucionais, econômicas e políticas contribuem para a permanência do problema.  

A linha de pesquisa do responsável pelo estudo, Fábio Nogueira de Vasconcelos, estuda a saúde do trabalhador. Ele detalha que o interesse da pesquisa partiu da recorrência de casos de contaminação em assentamentos rurais e da necessidade de entender por que esse problema persiste, apesar das denúncias e das tentativas de intervenção. A região do Pontal do Paranapanema fica no oeste do Estado de São Paulo. Historicamente, a região passa por problemas de disputa agrária, desmatamento e conflitos sociais.

Vasconcelos detalha que o objetivo da pesquisa era tentar entender quem eram os envolvidos, como a contaminação ocorria e os impactos na vida dos agricultores. Para isso, foram feitas entrevistas com órgãos públicos, moradores e uma tentativa de incluir uma usina que atua na região. Entretanto, a empresa se recusou a participar da pesquisa e, por isso, o estudo teve de mudar o foco do que estava gerando o problema para como os trabalhadores estão resistindo a essa contaminação.

Estratégias de resistência

Os agricultores da região tentam se adaptar da maneira que podem. Através de mudanças no que é plantado, uso de sombrite para proteger as hortaliças e até mesmo uma ação judicial contra a usina, que comprovou a contaminação. O especialista detalha que a empresa tem forte influência na região, emprega muitas pessoas e por isso há uma forte chantagem econômica e omissão de informações.

Vasconcelos relata que o poder público, mesmo sem agir diretamente em favor da usina, aparece inerte diante do conflito. A fiscalização é ineficiente e há pouca efetividade das medidas institucionais. Para a tese, essa inércia acaba contribuindo para a manutenção do problema.

Intervenções para educar

Uma forma de mudar a realidade daquelas pessoas, segundo a pesquisa, é através do aprendizado.  “O que esse agricultor pode aprender e pode desenvolver como ferramenta para si, para ele saber manusear um químico, ou então o que a pessoa que não quer usar químico, o que ela precisa fazer para não utilizar o químico. Então, de fato, as intervenções vêm para educar e para gerar reflexão crítica”, explicou.

Para Vasconcelos, também seria importante tentar promover um diálogo com a empresa citada, contudo, isso pode ser difícil. “O fator diálogo em si  já é ameaçador para essa usina, porque ela entende muito como uma ameaça, como uma ameaça de gerar evidências de que o que ela está gerando, o produto que ela gera, é um problema. É um problema social”, comentou o entrevistado.

O trabalho propõe olhar para a contaminação não apenas como questão técnica (tipo de produto, forma de aplicação, toxicidade), mas como uma rede de relações sociais, econômicas e políticas. 


Fonte: Jornal da USP

Glifosato: ciência em disputa, exposição massiva e os limites da regulação

Entre evidências emergentes e disputas institucionais, o herbicida mais usado do mundo desafia os paradigmas da saúde pública contemporânea

O glifosato tornou-se, nas últimas décadas, um símbolo paradigmático das contradições do modelo agroindustrial contemporâneo. Herbicida mais utilizado no mundo, sua trajetória acompanha a expansão de monoculturas intensivas e o avanço dos organismos geneticamente modificados tolerantes a herbicidas. Mas, à medida que seu uso se intensificou, também se acumularam evidências científicas que apontam para riscos relevantes à saúde humana e ao ambiente — evidências estas que permanecem no centro de uma disputa persistente entre indústria, agências reguladoras e comunidade científica.

Desde sua introdução comercial nos anos 1970 e, sobretudo, após a difusão das culturas “Roundup Ready” nos anos 1990, o glifosato passou de insumo agrícola a contaminante ambiental onipresente. Estudos indicam aumentos expressivos na exposição humana, com detecção frequente em amostras biológicas e alimentos. Esse cenário sugere não apenas um problema ocupacional, restrito a trabalhadores rurais, mas uma exposição difusa, crônica e de baixa dose, característica das sociedades contemporâneas altamente químicas.

A controvérsia central reside na avaliação de seus efeitos à saúde. Enquanto empresas e parte das agências reguladoras sustentam a segurança do produto quando utilizado conforme as recomendações, um corpo crescente de literatura independente aponta para associações com câncer, doenças hepáticas e renais, disfunções endócrinas, alterações reprodutivas e impactos neurológicos. A classificação do glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos” por uma agência internacional de referência marcou um ponto de inflexão nesse debate, ao reconhecer a consistência de evidências experimentais e epidemiológicas, ainda que não conclusivas.

Mais recentemente, estudos têm ampliado a preocupação ao demonstrar efeitos em baixas doses — níveis considerados “seguros” pelos parâmetros regulatórios atuais. Pesquisas toxicológicas e epidemiológicas indicam alterações genéticas, epigenéticas e hormonais, além de impactos no microbioma intestinal e possíveis efeitos intergeracionais. Esse conjunto de achados desafia um dos pilares da toxicologia clássica — a ideia de que “a dose faz o veneno” — ao sugerir que exposições prolongadas e combinadas podem produzir efeitos complexos e cumulativos.

Outro aspecto central da controvérsia diz respeito à própria produção do conhecimento científico. Documentos internos tornados públicos em processos judiciais, assim como análises independentes, revelaram práticas de influência corporativa sobre a literatura científica e sobre processos regulatórios. Estudos financiados pela indústria, frequentemente utilizados por agências governamentais, foram criticados por falhas metodológicas, falta de transparência e inadequação aos padrões científicos contemporâneos. Esse cenário levanta questões estruturais sobre conflitos de interesse e a captura regulatória em áreas de alta complexidade técnica.

A divergência entre avaliações científicas e decisões regulatórias também evidencia limites institucionais. Enquanto algumas agências continuam a afirmar a segurança do glifosato, decisões judiciais e revisões independentes têm questionado essas conclusões, apontando para lacunas nos processos de avaliação de risco. A própria noção de “uso seguro” torna-se problemática quando considerada à luz de exposições ambientais difusas, múltiplas vias de contato e populações vulneráveis, como gestantes e crianças.

Do ponto de vista político-econômico, o caso do glifosato revela a profunda interdependência entre agricultura industrial, mercados globais de commodities e regimes regulatórios nacionais. A dificuldade de restringir ou banir o produto não decorre apenas de incertezas científicas, mas também de sua centralidade nos sistemas produtivos contemporâneos. Nesse sentido, a controvérsia sobre o glifosato não é apenas um debate técnico, mas uma disputa sobre modelos de desenvolvimento, segurança alimentar e sustentabilidade.

Diante desse quadro, cresce entre cientistas e profissionais de saúde a defesa do princípio da precaução. Essa abordagem propõe que, na presença de evidências plausíveis de risco — ainda que não definitivas —, medidas de proteção devem ser adotadas para reduzir a exposição da população. Trata-se de uma inversão importante na lógica regulatória: em vez de exigir prova absoluta de dano, reconhece-se a necessidade de agir diante da incerteza, sobretudo quando os potenciais impactos são amplos e duradouros.

O caso do glifosato, portanto, ultrapassa o debate sobre um único herbicida. Ele expõe as tensões entre ciência, economia e política em um mundo marcado pela dependência de substâncias químicas em larga escala. Mais do que uma controvérsia isolada, trata-se de um laboratório contemporâneo das limitações dos sistemas de regulação frente à complexidade dos riscos ambientais e sanitários do século XXI.


Texto adaptado com base em publicação feita pelo site “U.S. Right to Know” [Aqui! ].

Entre moléculas e doenças: estuda revela o efeito oculto das misturas de agrotóxicos

Misturas de agrotóxicos expõem limites da regulação e revelam conexões ocultas com o câncer 

Um estudo recente publicado na revista Nature Health — “Mapeamento da relação entre misturas de agrotóxicos e risco de câncer em escala nacional por meio da exposômica espacial”, de Jorge Honles e colaboradores (2026) propõe uma mudança profunda na forma como compreendemos a relação entre exposição ambiental e câncer. Em vez de analisar substâncias isoladas, como tradicionalmente faz a toxicologia, os autores adotam uma abordagem integrativa e inovadora para investigar os efeitos de misturas de agrotóxicos em condições reais de exposição. Ao combinar modelagem ambiental de alta resolução, inferência bayesiana e dados epidemiológicos abrangentes, o estudo identifica uma associação espacial consistente entre áreas com maior exposição ambiental a agrotóxicos e maior incidência de câncer no Peru, desafiando pressupostos consolidados sobre a não carcinogenicidade dessas substâncias quando avaliadas individualmente.

O ponto de partida do trabalho é um problema conhecido, mas ainda insuficientemente enfrentado: seres humanos não são expostos a compostos químicos de forma isolada, mas sim a combinações complexas que interagem entre si e com o organismo ao longo do tempo. A toxicologia clássica, ao focar em um ingrediente ativo por vez, tende a subestimar os efeitos emergentes dessas misturas, que podem apresentar comportamentos não lineares e sinérgicos. No estudo, foram considerados 31 ingredientes ativos amplamente utilizados na agricultura peruana — nenhum deles classificado como carcinogênico direto para humanos. Ainda assim, quando modelados em conjunto, revelaram padrões espaciais robustos de associação com a incidência de câncer, sugerindo que o risco pode emergir precisamente da combinação dessas substâncias, e não de sua ação isolada.

A sofisticação metodológica do estudo permite avançar significativamente na caracterização desse risco. Os autores desenvolveram um modelo ambiental baseado em processos que simula o transporte, a degradação e a dispersão dos agrotóxicos no ambiente ao longo de seis anos, integrando variáveis como solo, clima e topografia em uma grade espacial de alta resolução. Esse modelo foi então conectado a dados de mais de 150 mil casos de câncer registrados no país, possibilitando a identificação de aglomerados espaciais de incidência elevada. O uso de inferência bayesiana permitiu estimar riscos relativos com base na exposição ambiental modelada, revelando centenas de pontos críticos onde a associação entre agrotóxicos e câncer é estatisticamente significativa.

Mas o estudo vai além da correlação espacial ao incorporar uma dimensão biológica inovadora: a estratificação dos cânceres segundo sua linhagem de desenvolvimento celular. Em vez de agrupar tumores apenas por órgão afetado, os autores os classificam com base em sua origem embrionária, o que permite identificar vulnerabilidades compartilhadas entre diferentes tipos de tecido. Essa abordagem revelou padrões específicos de suscetibilidade que seriam invisíveis em classificações tradicionais, sugerindo que certos programas celulares podem ser particularmente sensíveis à exposição ambiental a agrotóxicos.

Um dos achados mais impactantes emerge da análise molecular de tecidos hepáticos em regiões de alta exposição. O fígado, por sua função central no metabolismo de substâncias químicas, atua como um verdadeiro sentinela biológico. Os pesquisadores identificaram uma assinatura transcriptômica específica associada à exposição a agrotóxicos, caracterizada não por danos diretos ao DNA, mas por perturbações em circuitos regulatórios que mantêm a identidade celular. Trata-se de um mecanismo de carcinogênese não genotóxico, no qual a célula não é “quebrada”, mas progressivamente desorganizada, entrando em um estado instável que pode, sob determinadas condições, evoluir para transformação maligna. Esse processo parece ocorrer de forma precoce, antes mesmo do surgimento de tumores, o que levanta preocupações adicionais sobre exposições crônicas e de longo prazo.

Esses achados são particularmente relevantes no contexto das desigualdades socioambientais. O estudo mostra que os riscos mais elevados estão concentrados em áreas rurais sob intensa pressão agrícola, frequentemente habitadas por populações indígenas e camponesas. Nessas regiões, a exposição a agrotóxicos se combina com outros fatores estruturais, como acesso limitado à saúde e condições socioeconômicas adversas, produzindo um cenário de vulnerabilidade ampliada. Assim, o mapa do risco ambiental também se revela um mapa da desigualdade, evidenciando que os impactos da contaminação não são distribuídos de forma equitativa.

As implicações políticas e regulatórias desse trabalho são profundas. Ao demonstrar que misturas de agrotóxicos podem estar associadas ao risco de câncer mesmo quando seus componentes individuais são considerados seguros, o estudo expõe limitações importantes nos modelos atuais de avaliação de risco. A regulação baseada em substâncias isoladas pode ser insuficiente para capturar os efeitos reais das exposições ambientais, especialmente em contextos de uso intensivo e contínuo. Além disso, a influência de fatores climáticos, como eventos associados ao El Niño, sugere que mudanças ambientais globais podem intensificar ainda mais esses riscos no futuro.

Embora os autores reconheçam limitações — como a ausência de medidas individuais diretas de exposição — a convergência entre evidências geoespaciais, epidemiológicas e moleculares confere robustez aos resultados. Mais do que estabelecer uma causalidade definitiva, o estudo constrói um argumento consistente e biologicamente plausível de que a exposição a misturas de agrotóxicos pode desempenhar um papel relevante na gênese do câncer em contextos reais.

Em última instância, o trabalho aponta para a necessidade de um novo paradigma na ciência da saúde ambiental. Ao integrar diferentes escalas — do território ao tecido, do ambiente à célula — ele redefine o exposoma como uma ferramenta concreta para compreender como múltiplas exposições moldam o risco de doença. Em um mundo marcado pela intensificação agrícola e pelas pressões ambientais crescentes, essa abordagem não apenas amplia nosso entendimento científico, mas também impõe uma questão urgente: estamos preparados para enfrentar riscos que não são visíveis, isoláveis ou simples — mas profundamente entrelaçados com a forma como produzimos, vivemos e ocupamos o espaço?

Análise de dados oficiais revela aumento expressivo no uso de glifosato no Reino Unido desde 1990

A tractor spraying fields. Credit Foto-up / Shutterstock.org

Por Sustainable Pulse 

Uma análise recente de dados oficiais do governo, realizada pela PAN UK, revela que a quantidade de glifosato aplicada às plantações no Reino Unido aumentou de 200 toneladas métricas por ano em 1990 para mais de 2.200 toneladas em 2024, um aumento de 1000%.

Observou-se um aumento significativo em uma ampla gama de culturas. Por exemplo, mais de 66 toneladas de glifosato foram aplicadas em batatas britânicas em 2024, um aumento em relação às 1,5 tonelada aplicadas em 1990. Durante o mesmo período, a área de terras agrícolas no Reino Unido tratadas com o herbicida tóxico aumentou dez vezes, chegando a mais de 2,6 milhões de hectares em 2024, dezesseis vezes o tamanho da Grande Londres. A grande maioria desses aumentos ocorreu no setor de culturas aráveis, com destaque para os cereais (trigo, cevada e milho).

Embora os dados fora do setor agrícola sejam muito mais fragmentados, o uso de glifosato por governos locais em espaços públicos, como parques, áreas de lazer e ruas, também parece ter crescido drasticamente. De acordo com estatísticas oficiais do governo do Reino Unido, os conselhos locais utilizaram aproximadamente 60 toneladas de produtos à base de glifosato em 2020. No  entanto, o  maior levantamento já realizado  sobre o uso de agrotóxicos por conselhos, publicado no ano passado, revelou que eles utilizaram pelo menos 354 toneladas de agrotóxicos em 2024, sendo que a grande maioria continha glifosato.

Esses aumentos expressivos serão minuciosamente analisados ​​ainda este ano, já que o governo do Reino Unido precisa decidir até meados de dezembro se renovará a aprovação do glifosato. Caso optem por conceder a licença máxima de 15 anos, é improvável que haja oportunidade de revisão da decisão até 2041.

“Estes números revelam que o vício em glifosato no Reino Unido saiu completamente do controle. O uso excessivo deste produto químico tóxico está causando uma série de problemas, e ainda assim continuamos a pulverizá-lo nos alimentos que consumimos e nos locais onde nossas crianças brincam. Sabemos que o glifosato está ligado a diversos tipos de câncer e outras doenças potencialmente fatais. Além disso, ele prejudica o meio ambiente, poluindo nossas águas e afetando a vida selvagem. O governo precisa urgentemente se comprometer a eliminar gradualmente – e, em última instância, proibir – o glifosato e apoiar os agricultores e as administrações locais na adoção de alternativas seguras e sustentáveis. Caso contrário, todos continuaremos a pagar o preço.” Nick Mole, Analista de Políticas, PAN UK

O glifosato – frequentemente conhecido por sua marca mais comum, Roundup – tem sido alvo de controvérsia há muitos anos devido ao crescente número de evidências que demonstram seu potencial para causar danos irreversíveis à saúde humana e ao meio ambiente. Nos EUA, foi objeto de uma série de processos judiciais que levaram o fabricante a pagar US$ 11 bilhões a pacientes com câncer que alegam que o herbicida causou linfoma não Hodgkin ou outros tipos de câncer relacionados.  O governo francês reconheceu a ligação entre a doença de Parkinson e o glifosato e tem pago indenizações a agricultores.

Também foi demonstrado que o produto químico tem impactos ambientais negativos de grande alcance, desde a contaminação da água até danos diretos e indiretos a uma variedade de animais selvagens, incluindo anfíbios ,  abelhas e outros polinizadores.

Devido ao uso excessivo, as ervas daninhas no Reino Unido estão se tornando resistentes ao glifosato. Os primeiros casos de resistência foram confirmados em 2025 e estão se tornando cada vez mais comuns.  A resistência já é um problema antigo nos EUA, onde o glifosato é usado em grandes quantidades.

Em 2023, a Uniao Europeia proibiu o uso de glifosato na dessecação pré-colheita , uma prática que consiste em pulverizar a plantação com produtos químicos pouco antes da colheita para secá-la.  No entanto, o Reino Unido continua permitindo o uso de glifosato como dessecante pré-colheita, apesar de frequentemente resultar em altos níveis de resíduos nos alimentos.

“A clara evidência do aumento do uso de glifosato nessa escala deveria servir de alerta. Isso mostra que temos dependido demais de um único produto químico, principalmente em nossos sistemas de cultivo. Precisamos reduzir o uso de glifosato, e poderíamos começar com seu uso como dessecante pré-colheita em culturas destinadas à cadeia de suprimentos alimentares. Também devemos evitar múltiplas aplicações no mesmo campo na mesma safra. Os agricultores precisam de alternativas práticas, bons conselhos e incentivos adequados do governo e da cadeia de suprimentos para reduzir o uso de pesticidas. E devemos evitar simplesmente pressionar os agricultores a adotarem outro produto ou sistemas de cultivo excessivos que levam a resultados ruins para a natureza e nossos solos”, concluiu Martin Lines, agricultor e CEO da Nature Friendly Farming Network.

O Reino Unido e a UE estão atualmente negociando um novo Acordo SPS, que provavelmente levará o Reino Unido a adotar a licença de dez anos concedida pela UE para o glifosato em 2023. Enquanto isso, o governo britânico deve  tomar sua própria decisão  sobre o glifosato até 15 de dezembro de 2026 e afirmou que lançará uma consulta pública de 60 dias em junho.


Fonte: Sustainable Pulse

Permitir a presença de resíduos de agrotóxicos proibidos em alimentos importados pode infringir a legislação da UE, conclui novo parecer jurídico

Um novo parecer jurídico independente, encomendado pela PAN Europe, foodwatch e pelo Instituto Veblen, questiona a legalidade da prática da Comissão Europeia de permitir resíduos de agrotóxicos proibidos em alimentos importados para a União Europeia (UE). As conclusões não deixam dúvidas: a Comissão tem o poder de pôr fim a esta prática hoje e deve fazê-lo para todos os 88 pesticidas proibidos cujos resíduos ainda são permitidos em alimentos importados.  Em vez disso, a proposta Omnibus oferece medidas paliativas burocráticas que apenas abordariam alguns deles

Por Pan Europe

Resíduos de pelo menos 88 substâncias perigosas, incluindo carcinógenos, desreguladores hormonais e “químicos eternos”, cujo uso é proibido nas explorações agrícolas europeias, são permitidos em produtos alimentares de uso diário vendidos no mercado europeu [2]. Chegam aos pratos dos cidadãos através de importações de países onde ainda são vendidos e utilizados. [3] Durante anos, a Comissão defendeu esta prática, alegando que não tem outra opção ao abrigo da legislação da UE. 

Um novo parecer jurídico independente, encomendado pela PAN Europe, foodwatch e pelo Instituto Veblen, expõe esse argumento pelo que ele é: uma desculpa. O parecer jurídico conclui que a Comissão já tem o poder de proibir resíduos de agrotóxicos proibidos em alimentos importados e que, ao não o fazer, provavelmente está violando suas obrigações legais perante a legislação da UE. Isso é particularmente relevante para substâncias que foram proibidas devido a preocupações com a saúde.

Em vez de usar os poderes que já detém, a Comissão optou por apresentar uma nova proposta legal: o Regulamento Ómnibus sobre Segurança Alimentar e de Rações. Mas a proposta mal arranha a superfície do problema, ao mesmo tempo que acrescenta camadas de burocracia. Abrange apenas um subconjunto restrito de cerca de 22% das substâncias proibidas na UE [4], introduz considerações socioeconômicas no que deveria ser uma decisão baseada na saúde e trata a obrigação da Comissão de agir como opcional. A grande maioria dos agrotóxicos proibidos continuaria a chegar aos pratos europeus. Entretanto, a causa principal, o comércio contínuo de  agrotóxicos proibidos na UE para países terceiros, apesar da promessa da Comissão em 2020 de o pôr fim, permanece totalmente sem solução. [5]

“ Este parecer jurídico elimina qualquer desculpa para a inação da Comissão. É cristalino que a Comissão tem o poder de impedir a entrada de resíduos de agrotóxicos altamente tóxicos proibidos na UE. Exigimos a proibição imediata de resíduos de quaisquer agrotóxicos proibidos ”, afirmou Salomé Roynel, responsável política da PAN Europe.

“ Quem compra alimentos na Europa tem todos os motivos para esperar que eles atendam aos nossos padrões de segurança. Em vez disso, a Comissão Europeia tem permitido silenciosamente que resíduos de substâncias químicas cancerígenas e disruptoras endócrinas cheguem aos nossos pratos por meio de importações. Isso é inaceitável, e a Lei Omnibus, da forma como está, não resolverá o problema ”, acrescentou Natacha Cingotti, Líder de Estratégias de Campanhas da foodwatch. 

“ Este duplo padrão não afeta apenas os consumidores europeus. Exporta danos aos trabalhadores agrícolas, às comunidades e aos ecossistemas nos países onde estas substâncias proibidas ainda são utilizadas, muitas vezes por empresas sediadas na UE. Uma resposta coerente da UE deve abordar tanto as importações como as exportações ”, concluiu Stéphanie Kpenou, responsável pela política comercial do Instituto Veblen.

A PAN Europe, a foodwatch e o Instituto Veblen apelam ao Parlamento Europeu e ao Conselho para que não cedam às propostas incluídas no Regulamento Omnibus. Em vez disso, devem usar o seu poder de controlo para introduzir uma obrigação clara e automática de proibir resíduos de qualquer agrotóxico não aprovado na UE.

Link para o Resumo da Política

Contatos

  • PAN Europe, Salomé Roynel, Responsável de Políticas, salome@pan-europe.info , +32 (0) 2 318 62 55
  • foodwatch, Natacha Cingotti, Líder de Estratégia de Campanhas, natacha.cingotti@foodwatch.org ou Andreas Winkler, media@foodwatch.org , +49 (0) 1 74 / 3 75 16 89
  • Instituto Veblen, Stéphanie Kpenou, Diretora de Política Comercial, kpenou@veblen-institute.org , +33 (0) 7 86 43 92 99

Notas

[1] Link para  estudo jurídico

[2] Lista baseada em substâncias ativas proibidas e restritas incluídas no Regulamento de Consentimento Prévio Informado (PIC) | PAN Europa

[3] Relatório da União Europeia de 2023 sobre resíduos de agrotóxicos nos alimentos; Relatório: Agrotóxicos proibidos no abastecimento alimentar da Europa

[4] A proposta abrangente engloba substâncias ativas que são carcinogénicas, mutagénicas e tóxicas para a reprodução (CMR) das categorias 1A/1B, desreguladores endócrinos para humanos ou organismos não-alvo, poluentes orgânicos persistentes (POP), substâncias persistentes, bioacumulativas e tóxicas (PBT) ou muito persistentes e muito bioacumulativas (vPvB). Calculámos, com base nos dados disponíveis, que 20 das 88 substâncias cumprem estes critérios. Embora existam listas oficiais para substâncias CMR e desreguladores endócrinos, não foi estabelecida nenhuma lista oficial equivalente de substâncias PBT/vPvB a nível da UE. Este número deve, portanto, ser considerado uma estimativa. 

[5] Estratégia química para a sustentabilidade, ONGs e sindicatos exigem o fim da produção, exportação e importação de agrotóxicos proibidos pela UE.


Fonte: Pan Europe