Após acordo com Mercosul, empresário sueco promete cruzada contra produtos brasileiros

Em entrevista, empresário revela que está articulando ampliação de boicote entre outros supermercados europeus e lança plataforma para angariar apoio da população ao veto

Por Mariana Simões, Agência Pública/Repórter Brasil

“Um dia de manhã li no jornal que o governo Bolsonaro estava enlouquecendo com os pesticidas e que quase 200 pesticidas tinham sido liberados no mercado. Eu fiquei muito chateado e frustrado” explica, em tom indignado e com um sotaque carregado, o empresário sueco Johannes Cullberg, ao telefone. “Eu decidi que eu não posso apoiar esse tipo de comportamento. Percebi que a única maneira de demonstrar a minha insatisfação é boicotando todos os produtos brasileiros em nossas lojas”.

Johannes Cullberg é fundador e CEO do Paradiset, a maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia. Em junho, as suas lojas começaram a boicotar produtos brasileiros como suco de laranja, cacau, café, uma variedade de melões e outras frutas. Após ler sobre o acordo com o Mercosul, ele agora promete convencer outros varejistas a fazerem o mesmo.

Empresários bem-sucedido do varejo, Cullberg estabeleceu na Noruega a filial da Lidl, uma das maiores redes de supermercado de desconto do mundo. Johannes atuou como Diretor de Compras da Lidl por dois anos e nesse tempo inaugurou 25 lojas com mais de 1200 produtos. Em 2014, e interessou em promover a saúde e a sustentabilidade e por isso decidiu participar ativamente desse movimento.

“Nós temos três redes de supermercados grandes na Suécia e elas são todas muito parecidas. Então há quatro anos eu decidi fundar a minha própria rede,” conta o empresário. “O mercado se chama Paradiset, o que significa paraíso. Eu queria criar um estabelecimento que preza pelos meus valores. Na prática isso significa que as minhas lojas têm menos produtos porque só temos comida de verdade. O foco é a saúde e a sustentabilidade,” conclui.

publica 1Johannes Cullberg é fundador da maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia

Com quatro anos de vida, Paradiset já tem 4 lojas e 100 funcionários e a tendência, segundo Johannes, é expandir. Há um ano, o empresário liderou a primeira campanha de crowdfunding do mundo para beneficiar uma rede de supermercados. Levantou quase 2 milhões de euros em apenas 20 dias. Johannes acredita que a crescente influência da sua rede de supermercados vai ajudar a impulsionar a sua campanha contra os produtos brasileiros.

Quando a embaixada do Brasil na Suécia respondeu ao boicote enviando uma carta aberta, Johannes percebeu que a sua iniciativa já estava começando a surtir efeito. A carta frisava que “é preocupante que, embora muitos outros países tem um uso de pesticidas muito mais alto, só o Brasil tem sido mencionado na imprensa e na mídia”. Isso, segundo o comunicado, porque “o Brasil é o quinto ou sétimo colocado no mundo de acordo com parâmetros aplicados a pesticidas em estudos mundiais, sendo que esses rankings se baseiam em volume total por hectare ou por capita.”

A embaixada não mencionou o fato de que, no mesmo estudo mundial, feito pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) em 2013, o Brasil aparecia como líder mundial se considerarmos o total de agrotóxicos usados. Não há dados globais mais recentes.

“Na verdade, eu fiquei contente de ter recebido a carta da embaixada porque demonstrou que eu havia incomodado pessoas de alto escalão. Isso é um bom sinal. Espero que da próxima vez eu receba uma carta do governo brasileiro. Esse é o próximo passo”, diz o empresário.

Johannes decidiu também publicar uma resposta ao comunicado do governo brasileiro. “Deixa-me explicar novamente porque eu acho que um boicote de produtos brasileiros é necessário,” diz a carta. “De acordo com o European Network of Scientists for Social and Environmental Responsibility só em 2016 o Brasil registrou 4,208 casos de intoxicação por exposição a pesticidas e 355 mortes por químicas agrícolas. Eu contesto que esses números estão longe de ser aceitáveis para mim e não deveriam ser aceitáveis para ninguém.”

O boicote ganhou atenção na mídia brasileira e sueca e motivou Johannes a lançar depois uma campanha nas redes sociais com a hashtag #boycottbrazilianfood e uma petição online.

Mas Johannes diz que foi a notícia do acordo entre o Mercosul e a União Europeia que o motivou para elevar a discussão para um novo patamar. “Quando eu vi essa notícia sobre o acordo com a União Europeia e ainda por cima sabendo que a Comissária do Comércio da Comissão Europeia é sueca, eu fiquei muito chateado,” contou Johannes à reportagem.

“Agora eu vou em cima do governo sueco para ver como eu posso agitar as coisas na Suécia e na União Europeia porque me deixa louco que o Bolsonaro pode afetar tanta gente agora que está à frente do governo brasileiro. Se você pulveriza agrotóxicos nas comidas produzidas no Brasil, a gente também está consumindo isso na Suécia.”

Johannes já está começando a trilhar o caminho para levar a sua campanha adiante. O próximo passo, diz, é persuadir concorrentes na Suécia a aderirem ao boicote. “O segundo maior supermercado da Suécia está pensando em aderir ao boicote. Eu conheço os CEOs de todos os mercados. Eu acho que vou conseguir persuadi-los porque a campanha pode ser estrategicamente boa para eles em termos de relações públicas”.

O empresário acredita que os seus mais de quinze anos de experiência vão ajudá-los a impulsionar o boicote, em relação ao qual ele mantém a determinação.

“Se você não sabe como funcionam as grandes corporações vai ser difícil. Eu já fui CEO de empresas de grande porte cotadas na bolsa de valores. Então eu entendo o que motiva esse tipo de empresa. Eu sei conversar com os CEOs,” diz Johannes. “Eu quero que isso se transforme em uma iniciativa corporativa,” conclui.

Para poder conversar com os seus concorrentes Johannes diz que é importante traçar uma estratégia de divulgação baseada na ciência. Por isso, ele está se alinhando a comunidade científica e construindo com eles a linguagem da sua campanha.

“Estou contando com a ajuda de alguns professores de diversas universidades. Então eu vou juntar todos eles para utilizar o poder e o conhecimento dos especialistas. Eu acredito que é sempre bom utilizar a expertise de quem conhece melhor para poder utilizar uma linguagem [na campanha] que as corporações e outros possam compreender,” diz.

Além de atuar na frente empresarial, Johannes diz querer construir um movimento maior junto à sociedade civil na internet. Ele pretende usar o boicote para lançar luz sobre o uso alarmante de pesticidas na produção agrícola brasileira nas redes sociais e assim mobilizar as pessoas para deixar de consumir produtos brasileiros.

“Eu acho que isso tem tudo a ver com o poder do consumidor. O que eu estou dizendo é que se [os outros supermercados] não aderirem ao boicote agora, nós temos que mostrar a eles que não vamos consumir mais os produtos brasileiros. Então é isso eu estou tentando fazer é construir um movimento de baixo para cima porque acredito que isso é mais eficiente hoje,” diz o empresário.

publica 2Johannes lançou a campanha #boycottbrazilianfood para boicotar produtos brasileiros por uso de agrotóxicos

O dono do Paradiset diz que a sua determinação para lutar contra o uso de agrotóxicos está relacionada com uma profunda preocupação que ele tem pelo estado do nosso planeta. Inspirado pela ativista sueca de 16 anos Greta Thunberg, que lidera um movimento na Europa para frear os avanços das mudanças climáticas no mundo, Johannes diz também querer contribuir para um movimento maior.

“A minha motivação é deixar o planeta em um estado melhor do que eu o encontrei quando nasci. Para isso, vamos precisar tomar medidas sérias. Precisamos impedir homens como o Bolsonaro de fazer o que estão fazendo,” diz Johannes. “Temos que seguir o Acordo de Paris e atingir as metas impostas pela ONU e o que me preocupa é que o Bolsonaro e outros líderes mundiais estão dando meia volta e estão acelerando na direção oposta”.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela Agência Publica [Aqui!]. Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

Ministério da Agricultura engana a população com dados falsos sobre agrotóxicos

consumo agrotóxicos

Nosso consumo de agrotóxicos por hectare fica em 7kg/ha, e não 4,3kg/ha como afirma a FAO e o MAPA / Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

 

Imagem de perfil do ColunistaCampanha Contra os Agrotóxicos

No último 6 de agosto, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) publicou um release de imprensa intitulado “Esclarecimentos sobre Registros de Defensivos Agrícolas“. Em relação a este documento, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida declara que:

A publicação deste texto é claramente uma resposta à indignação crescente na sociedade brasileira em relação ao ritmo exorbitante de liberações de agrotóxicos após o início do governo Bolsonaro. Ao torcer e distorcer os dados para tentar se defender, como mostraremos a seguir, o governo tenta esconder que sua única missão é privilegiar as multinacionais fabricantes de agrotóxicos, facilitando a venda de agrotóxicos em detrimento da saúde da população;

O release afirma que, entre os agrotóxicos liberados este ano, há apenas duas substâncias novas. Esta afirmação contradiz, por si só, o mesmo release, que mais à frente afirma que “o objetivo de fazer a fila andar no Brasil é justamente aprovar novas moléculas, menos tóxicas e mais ambientalmente corretas, e assim substituir os produtos antigos”. Ou as novas liberações estão trazendo novidades, ou não estão. Os dois ao mesmo tempo não é possível.

Este discurso contraditório tem sido adotado também pela Ministra Tereza Cristina, por exemplo em matéria publicada pelo MAPA no mesmo dia: “Fazer a fila de registros andar traz defensivos mais eficientes e menos tóxicos, explica ministra“. Ora, se entre 290 agrotóxicos liberados em 2019 apenas 2 são novos, onde estão os agrotóxicos menos tóxicos e mais eficientes? Cabe lembrar que uma das duas “novidades” é o Sulfoxaflor, comprovadamente danoso às abelhas. Por sinal, 42% dos agrotóxicos registrados em 2019 são Extremamente ou Altamente Tóxicos. Isso, é claro, antes da mudança promovida pela Anvisa, que fará com que estas mesmas substâncias ganhem uma “roupa nova” e passem ser inofensivos.

A publicação afirma que “Não é correto comparar todos os defensivos que são utilizados na Europa, por exemplo, com os produtos usados no Brasil”, afirmando que os produtos que são proibidos por lá na verdade não são necessários na Europa, por conta das diferenças de culturas e temperatura. Este é um argumento muito usado pelo agronegócio, mas que não se sustenta.

Em excelente artigo recente, a professora Larissa Bombardi cita o exemplo de duas culturas plantadas tanto no Brasil quanto na Europa: uva e laranja, em condições climáticas similares. Entretanto, afirma a pesquisadora, dos 71 agrotóxicos autorizados para a uva no Brasil, 13 são proibidos na União Europeia, e, no caso da laranja, são autorizados 116 agrotóxicos no Brasil, dos quais 33 não são autorizados na União Europeia. A grande maioria dos agrotóxicos hoje banidos na União Europeia foram desenvolvidos por empresas europeias, e eram usados por lá até serem proibidos, ou até que alterações no marco regulatório fizeram com que o registro lá não fosse mais viável.

Prosseguindo na sua saga de incorreções, o MAPA afirma que, “Apesar do aumento do número de registros de defensivos agrícolas que vem ocorrendo nos últimos anos no país, a venda desses produtos registrou redução no período”. O título auspicioso esquece-se de mencionar “o período”. Ao longo do texto, vemos que se refere aos anos de 2016 e 2017, em que, segundo o Ibama, com base em dados informados pelas empresas (e frequentemente revisados para cima após inspeções nestas empresas), as vendas de agrotóxicos caíram de 541.861,09 toneladas para 539.944,95.

O texto não lembra que esta é a primeira queda desde 2009. E ora, qualquer pessoa com um mínimo de compreensão de matemática pode entender que uma redução de 0,3% não pode ser chamada de redução, especialmente se comparada ao aumento de 3,9% de 2015 para 2016, ou de 13,6% de 2012 para 2013, ou de 18,5% de 2009 para 2010. Inclusive, é importante que a variação do consumo de agrotóxicos seja observada à luz do crescimento econômico: em 2015 e 2016, o PIB brasileiro teve queda de -3%, e em 2017 houve um tímido aumento de 1%. Ainda assim, o ritmo de vendas de agrotóxicos seguiu em alta, ficando estável de 2016 para 2017. Ou seja: afirmar que houve redução do consumo de agrotóxicos no Brasil é uma grande mentira.

Finalmente, a grande distorção: “Segundo a FAO, o uso relativo de defensivos no Brasil é menor que o de muitos países da Europa”, e o Brasil estaria em 44º lugar num ranking de uso de agrotóxicos por área. Importante notar como agora se torna válido comparar a produção agrícola do Brasil com a Europa. No caso dos agrotóxicos banidos, o MAPA diz que a comparação não é possível. De todo modo, há dois grandes problemas na afirmação: (1) os dados da FAO estão errados. Eles contradizem os dados do Ibama, que o próprio MAPA utilizou. Para a FAO, o Brasil usou 377.176 toneladas de agrotóxicos em 2016. Mas como vimos acima, na conta feita pelo MAPA, o uso em 2016 foi 541.862 toneladas, um pequeno erro de 44%. A FAO já foi notificada sobre o equívoco. Mas também há um erro no denominador: segundo a FAO, utilizamos os agrotóxicos numa superfície de 87,5 milhões de hectares, quando a soma de lavouras temporárias e permanentes segundo o IBGE em 2016 foi de 76,7 milhões de hectares.

Assim, com estes dois “erros”, nosso consumo de agrotóxicos por hectare fica em 7kg/ha, e não 4,3kg/ha como afirma a FAO e o MAPA. Isto sem contar com os agrotóxicos contrabandeados, que segundo o Sindiveg representam 20% do total comercializado. Considerando os contrabandeados, o índice sobre para 8,5kg/ha.

No entanto, há um segundo problema grave com esta comparação: não é possível comparar o perfil do uso de agrotóxicos em países com práticas agrícolas totalmente distintas. Monocultivos de larga escala como soja, milho e algodão utilizam de fato menos agrotóxicos por hectare em relação à verduras como tomate, pimentão, e outros. Isso não significa, no entanto, que 60 kg de agrotóxicos utilizados em 10 hectares de soja sejam menos nocivos à saúde e ao meio ambiente do que a mesma quantidade de veneno utilizada em 1 hectare de tomate, por exemplo. No primeiro caso, por significar uma área maior, temos inclusive um maior potencial de exposição de pessoas e cursos d’água aos agrotóxicos.

Para citar ao menos um ponto positivo, aplaudimos o fato de que, segundo o documento, “Em menos de uma década, o número de produtores rurais orgânicos registrados no Brasil triplicou”. De fato, este é um grande feito. Porém, considerar o aumento da produção orgânica de responsabilidade do MAPA é mais fraude contida no documento. Este resultado se deve à luta dos movimentos sociais, que conquistaram. durante os governo Lula e Dilma. Políticas públicas como o PNAE, PAA, a certificação orgânica participativa e a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. A luta dos movimentos e a conquista destas políticas (que atualmente estão sendo destruídas), resultaram no significativo aumento da produção orgânica no Brasil, que, no entanto, ainda necessita de muita vontade política para se desenvolver. No mínimo, a mesma vontade política que se tem para liberar novos agrotóxicos.

Edição: Daniela Stefano

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato”  [Aqui!].

A modernidade envenenada de Tereza Cristina, a musa do veneno do governo Bolsonaro

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina-1024x585Os ministros Ricardo Salles e Tereza Cristina são os principais responsáveis pelo sucesso da desconstrução das políticas ambientais no Brasil: o primeiro permite o avanço explosivo do desmatamento na Amazônia e a segunda acelera a aprovação de venenos agrícolas, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

Indubitavelmente o governo Bolsonaro acumula muitas vitórias na implantação de sua pauta anti-ambiental, a maioria delas capitaneada pelo anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, e a pela ministra da Agricultura e “musa do veneno” Tereza Cristina (DEM/MS).

Graças à ação célere da dupla, o Brasil hoje vê-se imerso em uma disparada nas taxas de desmatamento na Amazônia e na aprovação “fast track” de venenos agrícolas que estão transformando o Brasil numa espécie de Chernobyl dos agrotóxicos, já que somente nos primeiros 7 meses de 2019 foram aprovadas 290 agrotóxicos para comercialização em diferentes partes do território nacional.

Hoje, a jornalista Lorena Rodrigues do “ESTADÃO” nos brinda com uma matéria em que Tereza Cristina faz uma espécie de celebração do seu sucesso como aprovadora mór de venenos agrícolas. Um detalhe para lá de instigante é o fato de que Tereza Cristina equipara a aprovação recorde de agrotóxicos altamente tóxicos para o ambiente e para a saúde humana como uma espécie de chegada à modernidade na agricultura brasileira.

tereza cristina venenos

Ainda segundo o relato de Lorena Rodrigues, Tereza Cristina teria alegado que “os produtos autorizados atualmente têm menos toxicidade e são melhores para o País”. Faltou à ministra dizer que para conseguir o feito de ter produtos aprovados sob a égide de serem menos tóxicos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mudou repentinamente seu sistema de classificação de graus de toxicidade, o que fez que dos 600 produtos anteriormente classificados como os mais tóxicos, tenham sobrado meros 98. Assim, convenhamos, até eu conseguiria o feito que Tereza Cristina está clamando ser seu.

Como examinei os 290 produtos aprovados pelo governo Bolsonaro e verifiquei o grau de toxicidade ambiental e humana, só posso concluir que a ministra e dublê de musa do veneno padece do desconhecimento do que anda aprovando ou é simplesmente cínica. A verdade é que os produtos que foram autorizados não são nem mais modernos do que os existentes no mercado e, tampouco, são menos tóxicos. Entre os agrotóxicos temos o Acefato e a Ametrina,  banidos pela União Europeia por causarem graves danos à saúde humana e ao meio ambiente. Só essas duas substancias tornam no mínimo falaciosa a declaração de Tereza Cristina de que “O Brasil não utiliza defensivos banidos lá fora, não é bem assim. Tem pesticidas que são usados aqui e não na Europa porque eles não têm a mesma cultura. O Brasil não utiliza nada que não pode ser usado“. O fato é que o Brasil utiliza sim substâncias banidas não apenas na União Europeia, mas também na China como é o caso do Paraquate

Um momento de sinceridade (talvez o único) que Tereza Cristina demonstrou foi de reconhecer a preocupação em não “assustar o consumidor estrangeiro”.  Mas, neste caso, o exemplo do alerta russo sobre o excesso de glifosato na soja brasileira e o boicote promovido pelo CEO da rede sueca Paradiset, Johannes Cullberg, indicam que o temor de Tereza Cristina é tardio, e que evidentemente cresce a sombra de que brevemente boa parte da produção agrícola brasileira seja impedida de entrar nos principais mercados mundiais. Seja por excesso de agrotóxicos banidos internacionalmente e aprovados pelo governo Bolsonaro sob a batuta de Tereza Cristina, seja pelo aumento explosivo das taxas de desmatamento na Amazônia.

Quando o isolamento sanitário acontecer e o Brasil ficar impedido de vender o grosso da sua produção agrícola, vamos ver como se comportarão Ricardo Salles e Tereza Cristina para explicar para o presidente Jair Bolsonaro (também autointitulado como “Johnny Bravo” que focinho de porco não é tomada.  A ver!

Desmatamento e farra dos agrotóxicos ampliam boicote aos produtos brasileiros na Suécia

Empresário Johannes Cullberg diz que campanha conta com universidades, organizações ambientais e a população. E deve crescer com o fim das férias no país

 
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Em suas lojas, Cullberg comercializa melões, suco de laranja, café, chocolate e água de coco, entre outros produtos brasileiros

São Paulo – Dono de uma rede de mercearias especializadas na venda de alimentos orgânicos na Suécia, a ParadisetJohannes Cullberg ficou conhecido internacionalmente no começo de junho, quando mandou retirar de todas as suas prateleiras os produtos brasileiros que comercializava – melões, suco de laranja, água de coco, café e chocolate, entre outros. A iniciativa de propor a outros lojistas que fizessem o mesmo, em reação à farra dos agrotóxicos no Brasil, desagradou o governo de Jair Bolsonaro (PSL).

Uma semana depois, em 12 de junho, a embaixada brasileira em Estocolmo divulgou carta aberta ao empresário, negando que o Brasil ocupe o primeiro lugar no ranking do consumo de agrotóxicos. Estaria entre o quinto e sétimo lugar, segundo o comunicado. Sobre as novas liberações, que já somam 290 em sete meses de governo, afirmou se tratar de uma necessidade do país de clima tropical, onde há grande variedade de pragas, insetos, fungos e bactérias e taxas de proliferação maiores que na Europa. E que isso aumenta os desafios e a exigência de agrotóxicos específicos para conter os elementos que prejudicam a agricultura e a produção. A embaixada destacou ainda que, como nas regiões tropicais é possível produzir até três safras por ano, a demanda por esses produtos acaba sendo bem maior.

resposta da Paradiset foi dada no dia seguinte. Também em carta aberta, Cullberg afirmou ser inaceitável para ele, como para qualquer pessoa, que a exposição a agrotóxicos tenha causado 4.208 casos de intoxicação e 355 mortes somente em 2016, como mostram dados da Rede Europeia de Cientistas para a Responsabilidade Socioambiental.  E salientou que, caso isso não fosse o bastante, em maio deste ano foi desmatada na Amazônia uma área de 739 quilômetros quadrados.  Como se uma área do tamanho de dois campos de futebol fosse desmatada a cada minuto.

Cullberg também se referiu ao anúncio de Bolsonaro de permitir a mineração na floresta Amazônica. “É totalmente incompreensível para mim, considerando que ele, como presidente, deveria ser o modelo para o país inteiro”. E clamou aos diplomatas brasileiros na Suécia: “Agora é tempo, mais do que nunca, em que precisamos proteger e cuidar da melhor maneira do nosso planeta. E não acelerar no sentido contrário, como o Sr. Bolsonaro está fazendo. As ações de Bolsonaro não afetam apenas o Brasil, mas o mundo inteiro”.

Ainda em sua carta, o sueco se voltou para a sociedade como um todo:  “Mesmo que o mercado do seu bairro escolha não boicotar os produtos brasileiros, você pode. Qualquer ação, por menor que seja, faz a diferença. Então, por favor, junte-se a mim nesta luta para que nosso planeta sobreviva. Nós não teremos uma segunda chance.”

Desde então, o empresário passou a liderar a campanha #BoycottBrazilianFood, que conta com a adesão crescente da população em geral, de organizações ambientalistas e de universidades. O crescente alarme sobre o aumento do desmatamento na Amazônia e da aprovação de novos agrotóxicos, segundo crê, têm contribuído para a conscientização da situação crítica não só para o Brasil como para todo o mundo.

Na semana passada, Cullberg concedeu entrevista por e-mail à RBA. Confira:

O que você pensa sobre a carta aberta do governo brasileiro?

Meu primeiro pensamento foi que, se a embaixada me pediu para parar, eu devo estar fazendo a coisa certa. Obviamente eu irritei alguém importante no governo Bolsonaro. Isso motivou-me ainda mais, e assim decidi ir além – o que, obviamente, não era a intenção da carta. Uma réplica mais madura teria sido convidar-me para discutir soluções potenciais, o que talvez possa ser um próximo passo. Como podemos ver, estamos apenas começando.

Desde que você anunciou o boicote, outros supermercados aderiram à campanha?

Na Suécia, há um oligopólio com três grandes cadeias cobrindo 86% do mercado. Todos eles seguem a mesma regra de não boicotar países a não ser que a Federação Sueca de Varejistas de Alimentos assim determine, o que depende da recomendação do governo sueco, da União Europeia ou Nações Unidas ou a União Europeia de fazê-lo. Por isso que agora estou em contato com líderes políticos suecos, no governo e na UE para apoiar o boicote. Eu também estou conversando separadamente com proprietários de mercados que têm ignorado as recomendações nacionais em alguns casos, para também tê-los junto. Mas a maioria deles está de férias. Portanto, é um trabalho em andamento, já que não é uma decisão pequena a ser tomada.

Qual é a situação atual da mobilização?

Logo após as férias suecas, iremos para a segunda fase. A meta é unir forças com companhias maiores que as minhas, e também com a indústria de alimentos, trazer políticos, somar forças com grandes organizações ambientais com aquelas pessoas que podem exercer pressão com sua “faca e garfo”, escolhendo não comprar mantimentos do Brasil que não sejam orgânicos, como carne bovina da JBS, por exemplo. Isso será feito pela educação nas mídias sociais.

Há muito apoio? Esse apoio vem de que setores?

Devido ao crescente alarme nos meios de comunicação sobre o aumento do desmatamento e da aprovação de mais agrotóxicos no Brasil, mais e mais pessoas estão se conscientizando da situação. Atualmente, o apoio vem das universidades, organizações ambientais e da população em geral, por isso, é atualmente um movimento ascendente. Grandes corporações são mais lentas para reagir devido a suas políticas e também porque o período de verão começou justamente quando eu lancei o boicote. Mas era preciso lançar.

Em janeiro, autoridades sanitárias russas advertiram o Brasil sobre a necessidade de reduzir o uso de agrotóxicos. Desde então, Bolsonaro já liberou 290 novos agrotóxicos. Na Europa, esse tema tem sido discutido?

Esse assunto não foi discutido o suficiente por duas razões: primeiramente há grandes forças econômicas de companhias como Bayer e Basf, que ativamente tentam silenciar qualquer discussão. Em segundo lugar eu penso que o conhecimento sobre o impacto dos agrotóxicos é muito baixo e as pessoas não percebem que todos nós somos afetados pelo aumento do uso de agrotóxicos no Brasil, já que recebemos parte deles em nossa alimentação, mesmo na Europa. Isso é algo que estou discutindo atualmente com especialistas da área. Penso em fazer podcasts para ajudar a educar as pessoas na Suécia sobre os efeitos negativos para a saúde.

Os jornais The Economist e The New York Times publicaram reportagem especial em que clamam aos líderes mundiais advertir Jair Bolsonaro, à indústria de alimentos para que deixe de comprar soja brasileira e que o comércio com o Brasil deve estar condicionado à proteção da Amazônia. Quais as suas expectativas a respeito?

É sempre bom quando uma mídia prestigiada como The Economist ou New York Times escreva sobre a situação, já que é mais “legítimo” e mais pessoas e líderes de negócios se tornam conscientes. Um artigo não vai mudar as coisas, mas quando a mensagem é repetida muitas vezes pode criar mudanças. O artigo do The Economist pode ser como uma faísca para criar o fogo selvagem necessário para ferir o Sr. Bolsonaro no único lugar que ele se importa: sua carteira.

Você acredita que a pressão internacional deve aumentar?

Eu também acredito que outros ativistas, como a sueca Greta Thunberg e o maravilhoso trabalho que ela está fazendo, pode ajudar o público em geral a entender que nós precisamos agir agora, não amanhã. É importante notar também que a Europa e os estados Unidos, historicamente, já destruíram muitos dos nossos recursos. E como a Amazônia é uma das poucas que ficaram no mundo, tem de ser protegida. Nós não podemos cometer os mesmos erros cometidos nos nossos ou em outros países no passado.

Outra coisa a ser observada é que a maioria dos agrotóxicos são vendidos a partir de países europeus e nós somos os que compram alimentos do Brasil, onde as lavouras avançam sobre áreas desmatadas e muitas vezes fazendas impõem condições de trabalho horríveis, a fim de tornar o custo dos alimentos produzidos a níveis insustentavelmente baixos.  Então somos todos, de um jeito ou de outro, responsáveis ​​pelo que está acontecendo no Brasil e em muitas outras partes do mundo. Mas também temos o poder de mudar isso.

Bolsonaro tem anunciado que pretende explorar a Amazônia em parceria com os Estados Unidos. O que você pensa sobre isso?

Bem, eu penso que Bolsonaro e Trump são as duas pessoas mais perigosas hoje em dia. E me impressiona como essas pessoas podem chegar ao poder em grandes nações como o Brasil e os Estados Unidos. A julgar pelas ações anteriores do Sr. Trump, eu acho que ele provavelmente se tornará o melhor amigo de Bolsonaro, o que deve ser evitado a todo custo. Seria uma amizade mortal para o planeta Terra.

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Esta entrevista foi originalmente publicada pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Anvisa retira tarja vermelha de 600 agrotóxicos; sobraram apenas 98

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Foto Nathalia Ceccon: Idaf/ES

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu retirar a tarja vermelha de 600 agrotóxicos e redistribuí-los entre outras categorias. Nesta quinta-feira (1), foi definido que apenas aqueles produtos que levam à morte serão definidos como “extremamente tóxico” ou “altamente tóxico”.

Ao todo, 698 produtos eram considerados extremamente tóxicos. Esse número foi reduzido para 43. Os outros foram redistribuídos entre as demais categorias estabelecidas pela anvisa: altamente tóxico (55); moderadamente tóxico (75); pouco tóxico (277); improvável de causar dano agudo (243) e não classificado – sem advertência (5).

De acordo com informações do G1, aqueles que podem causar intoxicação, sem risco de morte, vão levar a classificação “moderadamente tóxico” (tarja amarela), “pouco tóxico” (azul), ou “impossível de causar dano agudo” (azul).

Ao todo, cerca de de 1.942 produtos foram analisados, e 1.924 foram reclassificados. Os outros 18 não tiveram informações suficientes para serem redistribuídos. Vale ressaltar que o número de reavaliações equivale a 87,4% dos pesticidas disponíveis para comercialização no país, de acordo com o Ministério da Agricultura. São 2.201 ao todo.

O ritmo de liberações de agrotóxicos desde o início do governo Bolsonaro é o mais alto já registrado no período. Para um produto ser aprovado, ele tem que ter o aval da Anvisa, do Ibama e do Ministério da Agricultura.

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Este artigo foi originalmente pela Bahia Notícias [Aqui!].

Mito desfeito! Pesquisa indica que não há dose segura de agrotóxico

Trabalho do Instituto Butantã aponta riscos em dez dos principais pesticidas usados no País

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

RIO – Uma análise de dez agrotóxicos de largo uso no País revela que os pesticidas são extremamente tóxicos ao meio ambiente e à vida em qualquer concentração – mesmo quando utilizados em dosagens equivalentes a até um trigésimo do recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Encomendado pelo Ministério da Saúde e realizado pelo Instituto Butantã, o estudo comprova que não existe dose mínima totalmente não letal para os defensivos usados na agricultura brasileira.

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A metodologia é considerada de referência mundial; de acordo com Mônica, os produtos, ‘se não matam, causam anomalias’ Foto: JF DIORIO/ESTADÃO

“Não existem quantidades seguras”, diz a imunologista Mônica Lopes-Ferreira, diretora do Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada, responsável pela pesquisa. “Se (os agrotóxicos) não matam, causam anomalias. Nenhum peixe testado se manteve saudável.” A pesquisa foi originalmente encomendada pelo Ministério da Saúde à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em gesto considerado corriqueiro entre institutos de pesquisa, a Fiocruz pediu ao Instituto Butantã que realizasse o estudo, uma vez que tinha mais expertise nesse tipo de trabalho.

No Butantã fica a Plataforma Zebrafish – que usa a metodologia considerada de referência mundial para testar toxinas presentes na água, com os peixes-zebra (Danio rerio). Eles são 70% similares geneticamente aos seres humanos, têm um ciclo de vida curto (fácil de acompanhar todos os estágios) e são transparentes (é possível ver o que acontece em todo o organismo do animal em tempo real). O laboratório pertence ao Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS), apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

De acordo com o pedido do Ministério da Saúde, os cientistas testaram a toxicidade de dez pesticidas largamente utilizados no País. São eles: abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox, glifosato, malathion e piripoxifem. As substâncias são genéricas, usadas em diversas formulações comerciais.

Os pesquisadores testaram diferentes concentrações dos pesticidas, desde as doses mínimas indicadas até concentrações equivalentes a 1/30 dessas dosagens. As concentrações dos pesticidas foram diluídas na água de aquários contendo ovas fertilizadas de peixes-zebra. Em seguida, em intervalos de 24, 48, 72 e 96 horas, os embriões foram analisados no microscópio para avaliar se a exposição havia causado deformidades e também se tinha inviabilizado o desenvolvimento.

Testes

Cada substância, em cada uma das dosagens determinadas, foi testada em três aquários diferentes, cada um com 20 embriões – uma forma de triplicar resultados, garantindo acurácia. “Acompanhamos o desenvolvimento dos embriões, verificando se apresentavam alterações morfológicas, se estavam desenvolvendo a coluna vertebral, os olhos, a boca, se o coração continuava batendo”, explicou. “E, após o nascimento, também o nado dos peixinhos.”

Três dos dez pesticidas analisados (glifosato, melathion e piriproxifem) causaram a morte de todos os embriões de peixes em apenas 24 horas de exposição, independentemente da concentração do produto utilizada. Esse espectro foi da dosagem mínima indicada, 0,66mg/ml, até 0,022mg/ml, que teoricamente deveria ter se mostrado inofensiva.

O glifosato é, de longe, o defensivo mais usado na agricultura brasileira: representa um terço dos produtos utilizados.

Também é considerado muito perigoso. A substância é relacionada, em outros estudos, à mortandade de abelhas em todo o mundo. É apontada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como potencialmente cancerígena para mamíferos e seres humanos. O uso do glifosato é proibido na Áustria e será banido na França até 2022.

Os outros sete pesticidas analisados (abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox) causaram mortes de peixes em maior ou menor porcentagem, em todas as concentrações testadas. E mesmo entre os que sobreviveram “muitos apresentavam padrão de nado alterado que decorre da malformação das nadadeiras ou que podem sinalizar problemas neuromotores decorrentes da exposição ao veneno”.

Indícios

Os resultados obtidos nos peixes, segundo os cientistas, são um forte indício da toxicidade dos produtos ao meio ambiente. Eles também apontam que pode haver danos aos seres humanos. “Nunca poderemos dizer que será igual (ao que foi observado nos peixes)”, afirmou a pesquisadora. “Mas, como geneticamente somos 70% iguais a esses animais, é muito alta a probabilidade de que a exposição aos agrotóxicos nos cause problemas.”

De qualquer forma, sustenta a pesquisadora, o estudo é um importante alerta. “Essas substâncias podem causar sérios problemas aos trabalhadores que as manipulam e ao ecossistema como um todo”, disse. “Conforme o agrotóxico é borrifado nas verduras e nas frutas, ele cai no solo, na água, contamina todos os animais que estão ali e também o homem que se alimenta desses animais e desses vegetais. É uma cadeia.”

Responsável pelo Atlas Geografia dos Agrotóxicos no Brasil, Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), concorda com a colega. Para ela, os peixes funcionam como sentinelas, apontando um problema maior. “É o mesmo caso das abelhas, dos polinizadores”, afirmou. “Os sentinelas revelam que algo maior está acontecendo, algo que vai além daquela espécie.”

Pesquisador de Saúde Pública da Fiocruz, Luis Claudio Meirelles ocupou, por mais de uma década, a gerência geral de toxicologia da Anvisa. Segundo ele, a situação atual do País no que afirma respeito ao uso dos defensivos agrícolas é preocupante. “Somos campeões no uso de agrotóxicos no mundo e dispomos de uma estrutura de controle e vigilância muito aquém dos volumes utilizados e dos impactos provocados”, afirma.

“Além disso, os investimentos em pesquisa são muito baixos e, nos últimos tempos, tivemos uma liberação absurda de produtos, além de uma nova normatização para classificação e rotulagem de agrotóxicos. Socialmente, o País está perdendo. Estamos no caminho contrário do resto do mundo”, diz Meirelles.

3 perguntas para Leonardo Fernandes Fraceto, professor da Unesp de Sorocaba

1. O que aconteceria se o uso dessas dez substâncias testadas pelo Instituto Butantã fosse proibido? 

Não é possível banir esses dez produtos. A minha visão é que não há como produzir alimentos para suprir o que o mundo precisa sem usar moléculas e formas de controle de pragas. A questão é a toxicidade relacionada à concentração usada e o tempo de exposição.

2. A concentração e o tempo de exposição não são levados em conta?

Teoricamente, se as indicações de uso forem seguidas, não deveria haver problemas. Mas a questão é que está trazendo problemas. Temos resíduos, contaminação da água, uso maior do que o devido, enfim…

3. E qual seria a solução?

Acho que o grande erro da agricultura hoje é querer solução única, uma bala de prata. Não vejo como resolver esse problema com uma única solução. Tem de haver uma combinação de estratégias. Porque existem muitas estratégias: controle biológico de pragas, moléculas sintéticas, pesticidas de origem natural, óleos essenciais, formas de manejo de culturas, formas de monitoramento de plantações para checar os níveis de infestação. É preciso fazer associações, ter opções mais inteligentes do que pulverizar uma única substância em concentrações maiores que as recomendadas. Ou vamos continuar a ter problemas. 

Ministério e Anvisa afirmam não ter visto dados

O Ministério da Saúde confirmou que “encomendou a pesquisa à Fiocruz no fim de 2017”, mas destacou que não recebeu o estudo. “No que cabe ao tema dos agrotóxicos, o levantamento teve início em 2019 e, por isso, a pasta ainda não tem como compartilhar nem comentar os resultados.”

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que também não recebeu a pesquisa e, por isso, não seria possível “avaliar suas conclusões ou o peso das evidências”.

A agência esclareceu, no entanto, que acompanha todos os dados novos sobre produtos agrotóxicos e as novas evidências científicas são avaliadas. “Os produtos agrotóxicos são submetidos a um processo de reavaliação que consiste na revisão dos parâmetros de segurança à luz de novos dados e conhecimentos”, informou.

O órgão federal lembrou que esse procedimento é necessário porque, diferentemente do que acontece com outros produtos, o registro dos defensivos agrícolas não tem tempo de validade. A Anvisa informou ainda que, dos dez produtos citados, o carbofurano foi reavaliado em 2017 e está proibido. Disse ainda que o glifosato está em processo de reavaliação.

Para lembrar

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou este ano 290 agrotóxicos. Pelo ritmo das liberações, a tendência é de que seja batido o recorde de 2018, quando o governo de Michel Temer autorizou a comercialização de 450 substâncias. A maioria não é propriamente de novos produtos, mas sim de novas formulações para substâncias anteriormente liberadas, diz a Anvisa.

Embora aprovadas pelas regras brasileiras e consideradas seguras quando manuseadas corretamente e nas doses indicadas, muitas são proibidas nos EUA e na Europa. Mês passado, a Anvisa também fez reclassificação e mudou a rotulagem. Segundo a agência, essa decisão visa a seguir um padrão internacional. Porém, como alertaram cientistas, a nova classificação reduz significativamente o número de defensivos categorizados como “extremamente tóxicos”.

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Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal “Estadão” [Aqui!].

Jornal O Tempo faz especial sobre agrotóxicos

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Bruno C. Dias, com informações de O Tempo

Produzida pelos repórteres Gabriel Rodrigues e Alex Bessas  do jornal mineiro O Tempo, a matéria especial “Agrotóxico causa rombo nos gastos com saúde e licenças médicas” expõe o ritmo desenfreado com que as liberações de agrotóxicos têm ocorrido no governo Bolsonaro. Em um pouco mais de seis meses, já foram liberados 290 venenos – uma média de 1,3 por dia, equivalente a 69% do total de liberações do ano passado. Ainda há 560 venenos aguardando liberação.

Para entender os efeitos de uma quantidade nunca vista de produtos químicos disponíveis no mercado na saúde dos trabalhadores rurais e dos consumidores em geral, a reportagem ouviu os pesquisadores Marcelo Firpo e Luiz Claudio Meirelles, ambos integrantes do Grupo Temático Saúde e Ambiente, da Associação.

O texto destaca o custo das externalidades negativas por conta do uso dos agrotóxicos: para cada dólar gasto com os produtos, até  US$ 1,28 são necessários para gastos posteriores em saúde e licenças médicas. Ao fazer o cálculo a partir do valor de U$ 8,9 bilhões, montante gastos com agrotóxicos conforme anunciado pela entidade patronal do setor, o Sindiveg, em 2017, o Brasil gastou cerca de US$ 11,3 bilhões.  A base do cálculo está no artigo “Uso de agrotóxicos e impactos econômicos sobre a saúde, publicado em 2012 por Firpo e Wagner Soares.

A matéria expõe também a recente revisão na classificação dos agrotóxicos feita pela Anvisa. Segundo Meirelles, reduzir a classificação e valer-se apenas do risco de morte como critério para banimento é fazer vista grossa a produtos extremamente tóxicos e banidos dos mercados norte-americano e europeu. “Um produto como o glifosato, que a Agência Internacional de Pesquisas sobre o Câncer (IARC), da ONU, classificou como cancerígeno deveria ter uma retirada programada do mercado” diz o abrasquiano. Clique e leia a matéria completa.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) [Aqui!].