Agrotóxicos no ar: estudo francês identifica 32 substâncias identificadas como “prioritárias” para controle

Os resultados da primeira campanha nacional realizada na França para medir a presença de agrotóxicos na atmosfera mostram a presença de glifosato e até produtos proibidos.

pulverizaçãoO Glifosato é pulverizado em um campo de milho no noroeste da França, em 11 de maio de 2018. JEAN-FRANCOIS MONIER / AFP

Por Stéphane Mandard para o Le Monde

Os agrotóxicos não são encontrados apenas na água ou nos alimentos, mas também poluem o ar que respiramos. Porém, se houver limites a serem excedidos em água e alimentos, eles não estarão sujeitos à supervisão regulatória no ar e, tampouco, a padrões de avaliação. Para avaliar melhor a exposição da população francesa e, finalmente, definir uma estratégia nacional de monitoramento de pesticidas na atmosfera, a Agência Nacional de Segurança Sanitária (ANSES), o Instituto Nacional de Meio Ambiente e Riscos Industriais ( Ineris) e a rede de Associações Aprovadas de Monitoramento da Qualidade do Ar (AASQA), federadas pela Atmo France, uniram forças para liderar a primeira Campanha Nacional de Pesticidas Exploratórios Nacionais (CNEP).

Os resultados foram divulgados quinta-feira, 2 de julho. No total, 75 substâncias diferentes foram identificadas, 32 das quais são consideradas “prioritárias” pela ANSES devido aos seus efeitos potencialmente cancerígenos ou de agirem como desreguladores endócrinos. Entre os produtos mais frequentemente encontrados estão o Glifosato, Folpel (mais conhecido como “fungicida da videira”) e o Lindano, um inseticida que é proibido na União Europeia desde 1998.

As amostras foram coletadas entre junho de 2018 e junho de 2019 em 50 locais espalhados por todo o território francês (França metropolitana, departamentos e regiões ultramarinas) e levando em consideração os diferentes tipos de áreas residenciais (50% dos locais) áreas urbanas-periurbanas e 50% rurais) e produção agrícola: lavouras de campo (26%), viticultura (18%), arboricultura (20%), jardinagem de mercado (10%), pecuária (6%). A grande maioria dos sensores foi, no entanto, colocada a mais de 150-200 metros do primeiro lote, o que exclui os residentes de propriedades agrícolas, os primeiros expostos, desta fotografia. Outro estudo realizado com a Public Health France, chamado PestiRiv, tem como objetivo avaliar a exposição de moradores de áreas vitícolas.

“Avalie rapidamente a situação do Lindano”

Cerca de 100.000 dados foram analisados. A partir dessa base, a ANSES estabeleceu “uma primeira interpretação da saúde” , que não pretende ser uma avaliação de risco. Essa análise não “destaca, à luz do conhecimento atual, um forte problema de saúde associado à exposição da população em geral pelo ar externo, fonte externa de emissão de proximidade” , deseja tranquilizar desde o início a agência. Uma afirmação que faz seus parceiros tossirem. A ANSES, no entanto, identifica trinta e duas substâncias prioritárias para as quais “investigações aprofundadas são necessárias” . Desses trinta e dois agrotóxicos, nove são proibidos. Para a ANSES, a prioridade é “avalie rapidamente a situação do Lindano”. A agência considera esse inseticida como “uma das substâncias mais perigosas (com efeitos cancerígenos e / ou reprotóxicos e / ou endócrinos)” . Apesar de proibido na agricultura desde 1998 (e em preparações contra piolhos ou pulgas desde 2006), o Lindano é a substância mais comumente encontrada: foi detectada em 80% das amostras (incluindo 98% na França continental).

Para a ANSES, é agora uma questão de identificar os motivos da persistência do Lindano no ambiente e, em seguida, estimar as exposições cumulativas pelas diferentes rotas (respiratórias, alimentares, cutâneas) e meios de exposição (fora do ar e do ar). interior…). A agência afirma que continuará “trabalho semelhante” para as outras oito substâncias proibidas (epoxiconazol, fenarimol, iprodiona, linuron, pentaclorofenol, clorotalonil, clorpirifós-etil e oxadiazon).

“A ANSES está abrindo portas “, comenta um especialista familiarizado com o assunto. É fácil lidar com produtos já proibidos, mas e todos os outros que ainda são amplamente utilizados? “ . Uma pergunta que se aplica principalmente ao glifosato. Listado como provável agente cancerígeno, o herbicida produzido pela Bayer, muito difamado atualmente, é a terceira substância mais comumente encontrada (56% das amostras). É uma das nove substâncias “frequentemente quantificadas”, ou seja, identificadas em pelo menos 20% das amostras, de acordo com a classificação adotada pela Ineris. Entre esses nove agrotóxicos, o glifosato é o que apresenta as menores concentrações médias anuais (0,04 ng / m 3 ) quando os outros são maiores que 0,12 ng / m3 . Mas eles são dificilmente mais fracos do que o lindane (0,06 ng / m 3 ).

“Acelere na supervisão regulatória sustentável”

E o Folpel? Utilizado contra o oídio, o “fungicida da videira” é classificado como cancerígeno, mutagênico e provavelmente reprotóxico pela Organização Mundial da Saúde. De todas as substâncias medidas na França continental, o Folpel é o agrotóxico com os mais altos níveis de concentração (1,03 ng / m 3 em média por ano), atrás do Prosulfocarbe (2,61 ng / m 3 ), um herbicida .

E as médias anuais nacionais dão uma indicação que pode ser enganosa. Escondem diferenças locais e variações sazonais significativas. Assim, a concentração média anual de folpel atinge 3 ng / m 3 , na zona vinícola. Concentrações que podem exceder 100 ng / m 3 semanalmente durante os períodos de tratamento da videira entre junho e setembro. Encontramos os mesmos picos com Prosulfocarbe e culturas de campo de outubro a dezembro e de abril a junho.

Isso não impede, para a ANSES, que  ainda seja necessário um trabalho adicional de especialização” para todas essas outras substâncias “prioritárias” . “Em algum momento, ainda teremos que acelerar o monitoramento regulatório de longo prazo de agrotóxicos no ar com valores de referência de saúde “, impaciente Emmanuelle Drab-Sommesous, diretora da Atmo Grand-Est e representante de pesticidas da Atmo- França. Medimos há vinte anos. “

Sem esperar, as associações de monitoramento da qualidade do ar recomendam a multiplicação dos locais de medição para produzir “informações locais,
confiáveis ​​e representativas”,
 essenciais em um contexto às vezes tenso; o estabelecimento de uma plataforma nacional para o registro de produtos fitofarmacêuticos para centralizar tanto a compra de agrotóxicos quanto seu uso, ou a inclusão do controle de agrotóxicos presentes ar nas políticas de saúde ambiental.

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Este artigo foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: a pandemia dos agrotóxicos avança com mais 27 liberações, totalizando 212 em 2020

pandemia pesticidesEm meio à pandemia da COVID-19, governo Bolsonaro continua avançando a boiada na liberação de agrotóxicos, incluindo produtos banidos na União Europeia e nos EUA

Em uma nova demonstração de que naquilo que se faz eficiente o governo Bolsonaro não para, o Ministério da Agricultura publicou no Diário Oficial da União da última 4a. feira (16/06) o Ato No. 36 de 05 de junho que libera mais 27 agrotóxicos para comercialização no mercado brasileiro.  Com essa nova rodada de aprovações, o total de agrotóxicos liberados em 2020 já alcança 212, o que implica em um total de 715 ao longo dos 18 meses que já dura o mandato do presidente Jair Bolsonaro, o que se configura em um recorde histórico de liberação de venenos agrícolas liberados no Brasil.

Ao examinar a lista de aprovados foi possível detectar mais uma vez a aprovação de cerca de 30% de produtos contendo princípios ativos proibidos na União Europeia, e a continuidade de uma prática peculiar que é produzir formulações que contém de conterem produtos proibidos e aprovados pela EU (ver gráfico abaixo).

ato 36 status euStatus dos agrotóxicos liberados pelo Ato 36 na União Europeia

Outro aspecto que se mostra persistente nessa nova rodada de aprovações é o fato de que a China continua sendo o país que mais vende os produtos técnicos (em outras palavras, a matéria prima de onde são geradas as formulações vendidas no mercado brasileiro) (ver gráfico abaixo).

ato 36 paises

País de origem do fabricante primário dos 27 agrotóxicos liberados pelo Ato 36

Este padrão a crescente dupla dependência da agricultura de exportação brasileira em relação à China, na medida em que os chineses compram a maior parte da soja produzida no Brasil, enquanto são os principais fornecedores de agrotóxicos que terminam abastecendo principalmente essa cultura. Tal dependência tende a se agravar, na medida em que crescem as possibilidades de boicote às commodities agrícolas brasileiras em outras partes do mundo, justamente por causa do uso excessivo de agrotóxicos considerados como altamente perigosos e que, por isso, já foram banidos por alguns dos principais parceiros comerciais do Brasil, a começar pela União Europeia.

Em relação aos produtos aprovados, os mesmos consistem do que pode se chamar de um “museu de velhas novidades”, na medida em que a maioria deles já estão sendo vendidos no Brasil. Entretanto, vale ressaltar a aprovação de outra formulação do herbicida Dicamba que teve sua venda proibida recentemente proibida nos EUA por ter tido seus impactos tóxicos subestimados durante o seu processo de liberação.

A verdade é que o argumento de que a verdadeira pandemia de novos agrotóxicos no mercado brasileiro, que já é o maior do mundo, serviria para trazer ao Brasil produtos mais modernos e menos tóxicos não se confirma na prática, visto que a maioria dos produtos liberados já estão no mercado. Resta saber agora se o argumento do barateamento dos novos/velhos produtos sobreviverá na prática. Aliás, há que se frisar que chega a ser inacreditável que produtos proibidos  na União Europeia estejam sendo colocados na Categoria 5  (Inprovável de causar dano agudo) para toxicidade humana no Brasil.

Quem desejar acessar a planilha específica do Ato 36, basta clicar [Aqui!]. Já para acessar a base completa de 2020, basta clicar [Aqui!]

Helicóptero utilizado para realizar desmatamento ilegal (com agrotóxicos) é apreendido em Mato Grosso

Na ação realizada a 63 km do município de Colniza (Noroeste de Cuiabá), duas pessoas foram conduzidas para a delegacia de polícia. O piloto do helicóptero não foi localizado.  A aeronave apreendida será periciada e removida

heli1MT apreende helicóptero usado para pulverizar agrotóxico na Floresta Amazônica
Créditos: Sema-MT – Foto por: Sema-MT

Por Juliana Carvalho | Sema-MT

Uma operação integrada da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), polícias Civil e Militar e Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) flagrou a pulverização de agrotóxico em floresta nativa, áreas de regeneração e pasto, ocasionando danos visíveis à flora.

Esta é a primeira vez que Mato Grosso apreende um helicóptero sendo utilizado para realizar desmatamento ilegal. A equipe considerou o crime um atentado contra a saúde pública e o meio ambiente.

Na ação realizada a 63 quilômetros do município de Colniza (Noroeste de Cuiabá), duas pessoas foram conduzidas para a delegacia de polícia. O piloto do helicóptero não foi localizado.  A aeronave apreendida será periciada e removida, enquanto os produtos utilizados na pulverização serão periciados no local.

A operação ocorreu nesta segunda-feira (15.06) e foi motivada por denúncia anônima que relatou o uso de agrotóxico por diversas propriedades no entorno da Vila Maguila, distrito de Colniza.

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MT apreende helicóptero usado para pulverizar agrotóxico na Floresta Amazônica
Créditos: Sema-MT

Após um trabalho pelo Núcleo de Inteligência e Operações Integradas (NIOC) da Sema, a área foi identificada e o Ciopaer foi acionado para sobrevoar a área. Os agentes identificaram a vegetação amarelada e localizaram a aeronave com os pulverizadores acoplados.

A equipe também encontrou os tanques utilizados no armazenamento de agrotóxicos, nas margens de um lago que aparenta ser uma nascente hídrica represada. As investigações iniciais apontam para a contaminação da lagoa.

De acordo com o relato de um dos conduzidos, foram pulverizados 83 galões de 20 litros de agrotóxicos em duas propriedades, em uma área aproximada de 850 hectares e estavam preparando para realizar o trabalho na terceira propriedade.

heli2O suspeito relatou ainda que todo material era manipulado às margens da nascente. Demais sanções administrativas estão sendo calculadas e a Polícia Civil conduz o inquérito criminal

Desmatamento ilegal zero

A ação realizada em Nova Bandeirantes integra Operação Amazônia Arco Norte do Governo de Mato Grosso em parceria com a Operação Verde Brasil do Governo Federal, visando zerar o desmatamento ilegal em Mato Grosso.

Desde o início da Operação, em maio, foram aplicados R$ 101 milhões em multas por crimes contra a flora, como desmatamento, exploração florestal e queimadas ilegais, dentre outros. Foram embargados mais de 21 mil hectares e apreendidos 44 tratores.

Desde janeiro, Mato Grosso aplicou R$ 555 milhões por crimes contra a flora e embargados 78 mil hectares. As ações conduzidas resultaram na apreensão de 116 tratores e 27 caminhões.

Atividade essencial

As atividades de fiscalização ambiental, que incluem as ações de monitoramento e controle de crimes ambientais como desmatamento e exploração florestal ilegais, pesca predatória, caça ilegal, poluição causada por empreendimentos, dentre outros, seguem em pleno funcionamento durante a pandemia do Covid-19.

De acordo com artigo 8° do decreto Estadual 432/2020, a fiscalização ambiental é considerada atividade essencial no Estado. Ao se deparar com crimes ambientais, o cidadão pode fazer denúncias pelo 0800 65 3838 ou via aplicativo MT Cidadão (disponível para IOS e Android).

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Este artigo foi publicado originalmente pelo portal oficial do governo do estado do Mato Grosso [Aqui!].

Relatório do Greenpeace/Alemanha aponta que Acordo EU/Mercosul aumenta as ameaças à biodiversidade

As duas dimensões dos venenos agrícolas: como as empresas da UE e da Alemanha se beneficiam do comércio de pesticidas perigosos para a biodiversidade

 

greenpeace pestizides

O Governo alemão não impede as empresas europeias de exportarem para o Brasil e distribuírem  ingredientes ativos de agrotóxicos altamente venenosos para as abelhas, e que estão proibidos na União Europeia (UE).  Estes fatos são apresentados em um estudo produzido pelo Greenpeace, que foi lançado no Dia Mundial da Biodiversidade que foi celebrado este ano no dia 22 de maio. Os agrotóxicos são uma parte essencial da agricultura industrializada, que, por sua vez, é parcialmente responsável pela perda da biodiversidade.

Segundo a análise apresentada no relatório do Greenpeace/Alemanha, por  exemplo, muito mais de metade dos ingredientes ativos comercializados pela Bayer e pela BASF no Brasil estão classificados como agrotóxicos altamente perigosos, e alguns deles estão proiboidos na UE.  Exemplo disso são os ingredientes ativos do fipronil, imidaclopride e clorpirifos, que são altamente perigosos para as abelhas (para mais informações ver (Aqui!).

“Estes agrotóxicos são venenosos para a biodiversidade”, diz Jürgen Knirsch, especialista do Greenpeace em questões comerciais. “É por isso que já não estão no mercado europeu. Mas a UE está fazendo um jogo duplo: O que é demasiado perigoso aqui ainda pode obviamente vir para o campo no Brasil – o principal é que o lucro está certo”.  O Brasil é de imensa importância para a biodiversidade, mas ao mesmo tempo é um dos maiores consumidores de pesticidas do mundo. E está a crescer rapidamente. “O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, não quer saber da preservação da biodiversidade, da proteção do clima ou da saúde humana”. Por conseguinte, a Greenpeace apela no sentido da aplicação de uma política comercial sustentável com regras vinculativas em  matéria de protecção do clima e das espécies, de proteção dos direitos humanos, e de normas laborais fundamentais.

Acordo UE-Mercosul: mais venenos para a biodiversidade

A UE negociou um acordo comercial com os Estados do Mercosul – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – que agravaria muitos problemas sociais e ambientais nos seus países-membros. O acordo, atualmente em processo de ratificação, permitirá aos países do Mercosul exportar grandes quantidades de carne bovina e de frango para a UE em condições pautais favoráveis. Isto aumentaria a procura de soja forrageira – que é cultivada com agrotóxicos altamente tóxicos, como o clorpirifos e o fipronil.  Os agrotóxicos, por sua vez,  serão exportados por empresas europeias para a América do Sul, embora já não sejam mais permitidas na Europa.  Espera-se também que o acordo elimine as tarifas existentes sobre a importação de agrotóxicos, o que provavelmente irá aumentar ainda mais as vendas.

A biodiversidade já está sob enorme pressão; por exemplo, só em Janeiro de 2019, morreram 500 milhões de abelhas no estado brasileiro de Santa Catarina devido aos
agrotóxicos utilizados no cultivo da soja.  Na Europa, a resistência ao acordo do Mercosul está aumentando. Mas enquanto países como a Áustria e  a França pedem melhorias nos termos do acordo,  a Alemanha, entre todos os países, está exercendo pressão no sentido de uma ratificação rápida. “Se a Alemanha não puser termo ao acordo na sua forma atual, será uma recompensa e uma confirmação para  as políticas de Bolsonaro, que está a espezinhar a proteção ambiental”, resume Knirsch. “Como vai ocupar a Presidência do Conselho da UE no segundo semestre de 2020, o governo alemão tem os meios para agir”.

Para baixar o relatório do Greenpeace da Alemanha, basta clicar [Aqui!]

Os interessados em obter maiores informações sobre este relatório devem contactar Jürgen Knirsch, Tel. 0171 8780 816 ou a assessora de imprensa Agneta Melzer, Tel. 0171
7249543. 

Le Monde faz matéria sobre Tereza Cristina, a “Madame Desmatamento”

Tereza Cristina madame desmatamentoTereza Cristina, a “Madame Desmatamento, no seu escritório no Ministério da Agricultura em Brasília. 

Os leitores do jornal francês “Le Monde” foram premiados hoje com uma ampla matéria sobre os feitos da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a quem o jornalista Bruno Meyerfeld conferiu, com rara felicidade, o título de “Mme Déforestation”, ou “Madame Desmatamento”.  Essa matéria apresenta Tereza Cristina como o “rosto respeitável de um governo de loucos”, mas nem por isso menos responsável pelos números estratosféricos de desmatamento que vão marcar o ano de 2020 como um dos piores desde que o acompanhamento foi iniciado para medir a perda anual de florestas na Amazônia brasileira.

tereza cristina le monde

Um número que deverá causar espanto aos leitores franceses é o dos 1.202 km2   de floresta tropical que desapareceram nos primeiros quatro meses de 2020,  o equivalente a mais de 1.400 campos de futebol por dia.  Este valor recorde de desmatamento, ressalta a matéria, ocorreu no meio da estação das chuvas, e se soma aos 10.000 km2 destruídos no ano passado.

Bruno Meyerfield também informa na matéria o apelido de “Musa do Veneno” que Tereza Cristina ganhou enquanto ocupava o posto de líder da famigerada “Frente Parlamentar da Agricultura (FPA), mais conhecida como “bancada ruralista”, onde defendeu com unhas e dentes a aprovação desenfreada de agrotóxicos altamente venenosos, coisa que agora ela faz com incrível celeridade enquanto segura a caneta de ministra da Agricultura.

Um ponto que é marcado na reportagem é a fala de Tereza Cristina no sentido de que ela é ouvida por Jair Bolsonaro, que lhe dá “total liberdade para expressar sua opinião”.  Até onde essa liberdade total vai é sempre uma questão a se medir, mas não há dúvida que Tereza Cristina vem realizando com maestria o papel duplo de fazer avançar os interesses daqueles que se beneficiam com o avanço o processo de desmatamento que, muitas vezes, agem juntos com os produtores de agrotóxicos que são despejados nas áreas que estão perdendo florestas.  Não é por outra razão que Tereza Cristina favorece por um lado a liberação de um número recorde de agrotóxicos banidos na União Europeia e, por outro, se posiciona de forma inequívoca na defesa da “MP da Grilagem de Terras”. 

Por tudo que aparece na matéria do “Le Monde” é que considero um equívoco deixar Tereza Cristina operando tranquilamente no segundo plano que ela escolheu, enquanto toda a atenção é jogada sobre o improbo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles.  É que objetivamente, Ricardo Salles vem jogando o papel de “boi de piranha” e não de “passador de boiada”, já que é Tereza Cristina quem operacionaliza a ação devastadora do latifúndio agro-exportador sobre nossos ecossistemas naturais.  Mas, felizmente, sempre há um “Le Monde” da vida para nos mostrar isso, já que a mídia corporativa brasileira prefere se omitir em nome de seus próprios interesses.

 

Multinacionais são financiadoras ocultas da Frente Parlamentar da Agropecuária

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Empresas como Bayer, Basf, BRF, JBS, Bunge, Syngenta e Cargill compõem as associações do agronegócio cujos recursos custeiam o Instituto Pensar Agro (IPA), por sua vez o motor logístico da FPA, o principal braço da bancada ruralista

Por Priscilla Arroyo para o “De olho nos ruralistas”

O Instituto Pensar Agropecuária (IPA) é praticamente invisível. Não tem site oficial e há poucas informações públicas sobre as atividades que mantém. O IPA se apresenta como uma instituição que presta suporte técnico à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), grupo de associações e empresas do setor que reúne 257 deputados e senadores. É o braço institucional mais conhecido da bancada ruralista, a maior do Congresso.

Na presidência da FPA está o deputado Alceu Moreira (MDB-RS). Ele assumiu o cargo em fevereiro, sucedendo Tereza Cristina, atual ministra da Agricultura. Na prática, o IPA e a FPA se confundem: as instituições têm o mesmo e-mail para contato e o mesmo endereço – uma casa no Lago Sul, em Brasília, onde os parlamentares se reúnem todas as terças-feiras.
As verbas do IPA são direcionadas para a FPA. Até aí, fato conhecido – e relatado pelos próprios congressistas. Fato menos conhecido: esses recursos são oriundos da contribuição de 38 associações mantenedoras do IPA, que pagam uma mensalidade de pelo menos R$ 20 mil cada uma. Isso significa R$ 760 mil no caixa por mês. E quem mantém as associações? Multinacionais. Grandes empresas brasileiras do setor. Bancos.

De Olho nos Ruralistas identificou as empresas ligadas a doze dessas associações e listou as que têm mais relevância na economia. Dessa lista, fazem parte 22 das 50 maiores companhias do agronegócio no Brasil, de acordo com a revista Forbes. Bayer, Basf, BRF, JBS, Syngenta, Bunge e Cargill são algumas delas.

Confira a lista:

FPA-financiamento

Líder mundial em sementes e pesticidas, a alemã Bayer lidera também o levantamento ao apoiar cinco entidades que financiam o Instituto Pensar Agropecuária. Entre elas estão a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan). A Monsanto, que pertence à Bayer desde o ano passado, contribui com três mantenedoras do IPA. A empresa produz o Roundup, um dos pesticidas mais usados no mundo e alvo de milhares de processos judiciais nos Estados Unidos por conta das suspeitas de causar câncer.

A produtora de químicos Basf dá suporte a quatro entidades, entre as quais o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). A Cargill, que processa e exporta grãos e está presente em 17 estados e em 191 municípios do Brasil, está entre as empresas que compõem a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) – ambos apoiadores do IPA.

A lista de mantenedores indiretos da bancada ruralista inclui duas grandes multinacionais do tabaco, a Souza Cruz e a Philip Morris, ambas fiadoras da Associação Brasileira da Indústria do Fumo. Corporações como Nestlé, Aurora e Danone, da Viva Lácteos. Ou o grupo André Maggi, capitaneado pelo ministro da Agricultura do governo Temer, Blairo Maggi. A empresa ajuda a bancar a Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Aprass) – uma das associações que têm mais influência na FPA, ao lado da Aprosoja.

“Tem dinheiro da Cargill? Tem”, diz o principal executivo 

O IPA, ou Instituto Pensar Agro, como também é conhecido, foi criado em 2011 e se apresenta como uma entidade representativa do setor que “debate estratégias para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro”. Possui cerca de dez funcionários, a maioria técnicos, que produzem material de apoio para a formulação de projetos de lei e discussões protagonizadas pelos 225 deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária, ou 44% do total de votos da Casa. No Senado, o grupo ocupa 32 das 81 cadeiras.

 

mourão terezaTereza Cristina, Hamilton Mourão, Bolsonaro e Alceu Moreira: aliança. (Foto: Reprodução)

Os votos da FPA mostraram-se decisivos para a derrubada da presidente Dilma Rousseff, em 2016, com 50% dos votos, e manutenção do presidente Temer no poder, em 2017, com 55% dos votos. Esse braço da bancada ruralista – que se reúne também em organizações temáticas mais específicas, como o setor sucroalcooleiro e a silvicultura – foi também um dos fiadores da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

A relação entre os técnicos do IPA e os parlamentares da FPA é cultivada por meio de almoços semanais, nos quais são definidas as pautas a serem discutidas no Congresso. A imprensa é convidada a participar desses almoços, no saguão, à espera dos deputados e senadores que se reúnem em local fechado.

Na reunião desta terça-feira (21/05), por exemplo, foi convidado o secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Luiz Antônio Nabhan Garcia, a face remanescente da União Democrática Ruralista (UDR). Entre as pautas estão o Código Florestal e o licenciamento ambiental – a bancada ruralista defende um licenciamento mais “flexível”.

Foi em um desses encontros semanais no Lago Sul, em 2016, que a equipe do De Olho nos Ruralistas foi expulsa pelo principal executivo do IPA, João Henrique Hummel. Intitulando-se “dono da casa“, ele disse que os repórteres – que haviam acabado de entrevistar Alceu Moreira e o gaúcho Luís Carlos Heinze (PP-RS) – não podiam estar ali, por se tratar de lugar privado. Após o episódio, a assessoria de imprensa da FPA confirmou que o acesso era público, sem restrições a este ou aquele veículo.

Notem no vídeo que Hummel carregava uma pasta da Aprosoja, uma das associações que mantêm o IPA:

Em “Uma análise sobre a Frente Parlamentar da Agropecuária”, trabalho de graduação de Andressa Gonçalves Ferreira na Universidade de Brasília, a pesquisadora diz que “cabe também ao IPA, em conjunto com as entidades mantenedoras, custear as ações e estudos fornecidos à FPA”. Ela dedicou a monografia a colegas de trabalho nas duas instituições.

O próprio João Henrique Hummel explicou em junho, em entrevista que a Agência Pública definiu como “conversa com um lobista”, a origem dos recursos do Instituto Pensar Agro. “Tem dinheiro da Cargill? Tem”, disse ele ao repórter Vasconcelo Quadros. “Ela contribui com as associações, e as associações pagam aqui”.

Múltis e bancos se apresentam como sustentáveis

Além das gigantes do agronegócio, há importantes representantes do setor financeiro entre os integrantes da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), como Banco do Brasil, Santander e Itaú BBA –  divisão de atacado da maior instituição financeira do país. Fazem parte ainda dessa lista o Sicredi, a B3 (antiga Bovespa, bolsa de valores do Brasil) e o banco holandês Rabobank.

Entre as companhias que têm capital aberto e figuram na lista de apoiadoras das associações mantenedoras do IPA, algumas  fazem parte também do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, uma relação das empresas que têm alto nível de eficiência econômica, equilíbrio ambiental e justiça social de acordo com métricas da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Nessa lista, além de Banco do Brasil e Santander, estão a Duratex, uma das maiores produtoras de painéis de madeira do Brasil, e a Klabin, uma das mais relevantes produtoras e exportadoras de papéis. Ambas estão associadas à Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), uma das mantenedoras do Instituto Pensar Agro.

A lista de empresas que financiam indiretamente a Frente Parlamentar da Agropecuária é maior do que a reunida pelo De Olho nos Ruralistas – que não conseguiu identificar os financiadores de 26 das 38 associações que compõem o IPA. Entre elas está uma das principais, a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja).

Mas há pistas. Em setembro, a Aprosoja-MT  aprovou em assembleia a criação de um fundo para construir a Ferrogrão, ferrovia entre Sinop (MT) e Miritituba (PA). A obra orçada em R$ 12,7 bilhões foi uma ideia de cinco grandes multinacionais: Amaggi, ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company.

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) – uma associação sem fins lucrativos – apoia 74 entidades filantrópicas no estado, entre elas a Santa Casa de Cuiabá e o Hospital do Câncer.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pelo site do Observatório do Agronegócio no Brasil, o “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

Palestra virtual sobre impactos ambientais e sobre a saúde humana dos agrotóxicos na UNIRIO

cartaz palestra online Dr. Marcos Pedlowsky

No dia 14 de maio ofereci  uma palestra virtual para discentes do curso de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) sobre os impactos ambientais e sobre a saúde humana do uso de agrotóxicos no Brasil. 

Essa palestra virtual agora foi disponibilizada pela coordenação de curso de Ciências Ambientais, e pode ser acessada Aqui!

Observatório dos Agrotóxicos: afinal quantos produtos foram liberados pelo governo Bolsonaro e por que importa ter o número certo?

Brazil's pesticide poisoning problem poses global dilemma, say criticsO ritmo acelerado de aprovações de agrotóxicos altamente perigosos pelo governo Bolsonaro cria um dilema para os importadores de commodities agrícolas brasileiras

Desde janeiro de 2019, acompanho a enxurrada de aprovações de novos (que na maioria são velhos) agrotóxicos pelo governo Bolsonaro.  Para fazer isso, contabilizei os chamados “Atos” que são emitidos pelo Ministério da Agricultura para anunciar a conclusão do processo de avaliação e objetivamente liberar a comercialização dos produtos aprovados em território nacional.

Afora as mudanças que ocorreram na forma de classificação de toxicidade humana e ambiental e das incongruências na forma de reportar a categoria tóxica desses produtos, houve ainda a separação do anúncio em produtos que são aprovados para venda imediata (os chamados produtos formulados) e aqueles que serão adquiridos pelas empresas para produzir os primeiros (os chamados produtos técnicos). 

Para mim tudo isso é feito para gerar dificuldade no acompanhamento e avaliação dos produtos que estão sendo liberados, já que uma parcela significativa deles está proibida em outras partes do mundo. Tenho usado o status dos produtos aprovados pelo Brasil na União Europeia como um indicador de que estamos usando agrotóxicos que foram banidos em outras partes do mundo.  Mas a União Europeia é apenas uma referência, pois temos produtos sendo aprovados que já se encontram banidos nos países que os produzem. O caso mais representativo é o da herbicida Paraquate que está banido na União Europeia onde ele foi criado, e passará a ser completamente banido a partir de setembro no país que hoje controla a sua produção, a China.

Mas toda essas mudanças também tido como resultado a dificuldade de se saber quantos produtos já foram efetivamente liberados durante os pouco mais de 16 meses de governo Bolsonaro.  É que diferentes fontes jornalísticas estão fazendo contagens distintas da quantidade aprovada, justamente por causa da dificuldade de se acompanhar a publicação dos atos, ou mesmo por decisões de quais produtos devem ser incluídos na conta do governo Bolsonaro.

Lendo uma uma matéria publicada pelo portal de notícias da Rede Globo, o G1, pode-se ver um gráfico que aponta a aprovação de 474 agrotóxicos e outros 150 em 2020, um total de 624. Já em uma outra publicada pela parceria da ONG Repórter Brasil com a Agência Pública, aparece a aprovação de 475 agrotóxicos em 2020 e 150 em 2020, o que soma 625 agrotóxicos liberados.

Entretanto, somando os números de aprovações em atos publicados em 2019, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski somou 503 agrotóxicos, enquanto que para 2020 já foram contabilizados 185 agrotóxicos, o que dá um “grande total” de 688 agrotóxicos que tiveram sua aprovação publicada pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019 (ver gráfico abaixo).

agrotóxicos aprovados 2005-2020

Essa diferença de números pode ser apenas uma faceta pela qual a transformação do Brasil em uma espécie de refúgio para agrotóxicos altamente perigosos e banidos em outras do ponto do mundo é reportada, mas é significativa. É que se não soubermos os números corretos, fica difícil fazer qualquer análise mais efetiva.

Mas também me preocupa que se aceite a separação adotada entre produtos formulados e produtos técnicos na hora de se fazer a contagem dos agrotóxicos liberados. É que, afinal de contas, os produtos técnicos serão transformados essencialmente em produtos formulados similares e chegarão da mesma forma ao mercado consumidor formado principalmente por grandes proprietários de terras envolvidos na exportação de commodities agrícolas.

Outra questão é que a maioria das matérias jornalísticas, até de forma compreensível, passa ao largo de análises mais complexas sobre o que pode ser chamado de “economia política dos venenos agrícolas” que é caracterizado por uma complexa troca de propriedade intelectual entre grandes corporações como a Basf, a Bayer e ChemChina que visa não apenas transferir a produção de determinados agrotóxicos altamente perigosos dos países desenvolvidos para países da chamada periferia capitalista onde o processo de regulação de venenos agrícolas é mais frágil, possibilitando que determinados produtos tenham uma espécie de sobrevida mercadológica, ainda que causando graves processos de contaminação humana e ambiental.

agrotóxicos liberados

Mas já que não se pode cobrar de jornalistas que façam análises mais profundas sobre a economia política dos agrotóxicos, que pelo menos ele trabalhem com o número certo dos produtos liberados.  Afinal, é a partir daí que as análises mais aprofundadas poderão ser feitas por quem pode fazê-las.

Mistura de agrotóxicos na água continua sem controle, Fiocruz propõe regras mais rígidas

Brasil deveria seguir o padrão europeu para controle de agrotóxicos na água, sugere Fiocruz sobre novas regras do Ministério da Saúde. Fundação propõe número maior de substâncias a serem monitoradas, mais rigidez nos volumes permitidos e um sistema de alerta para a população

torneira

Por Ana Aranha – Repórter Brasil/Agência Pública

Nem todo mundo sabe, mesmo porque esses dados são pouco divulgados, mas a água que sai da nossa torneira pode carregar diversos agrotóxicos. Eles são carregados pelas chuvas e pelos rios para as redes de abastecimento das grandes cidades. São crescentes os estudos sobre os impactos para a saúde humana, já que os agrotóxicos não são barrados pelos filtros caseiros e são poucos os tratamentos disponíveis para as empresas de abastecimento de água.

O que se pode fazer é controlar quais e em qual quantidade vamos bebê-los. As regras para isso estão atualmente abertas para serem discutidas dentro de consulta pública feita pelo Ministério da Saúde que vai até o dia 4 de junho. A proposta em debate, porém, ignora um dos mais novos fenômenos que afeta a nossa água: a mistura de diferentes agrotóxicos. 

“O risco no caso das misturas são as interações entre os componentes delas”, afirma Fábio Kummrow, professor de toxicologia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Pode ocorrer efeito aditivo, quando se somam os efeitos de substâncias com o mesmo mecanismo de ação. Ou o sinérgico, quando o efeito final é maior que o esperado da soma – isso pode acontecer entre substâncias com ação diferente”. 

No Brasil não funciona, hoje, um procedimento de alerta para a detecção de agrotóxicos na água (Foto: Mrjn Photography/Unsplash)

Entre os agrotóxicos encontrados na água do Brasil, há aqueles classificados como “prováveis cancerígenos” pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e outros apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, como puberdade precoce e problemas reprodutivos.

Além de não fixar um parâmetro de controle para a mistura, a revisão das regras também deixou passar a chance de incluir no monitoramento dois dos agrotóxicos mais utilizados no Brasil: o paraquate e o imidacloprido. Devido à sua alta toxicidade e risco à saúde humana, o paraquate está com data marcada para ser proibido, em setembro deste ano. Já o imidacloprido, um dos inseticidas suspeitos pelas mortes das abelhas, foi o agrotóxico mais encontrado nos alimentos testados pela Anvisa entre 2017 e 2018. 

Para evitar que substâncias assim cheguem também à nossa água, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicou hoje documento recomendando mudanças para tornar esse controle mais rígido. “Consideramos a proposta do Ministério da Saúde um avanço em comparação à anterior, mas ela pode ser aprimorada”, afirma a pesquisadora em saúde pública Aline Gurgel, vice coordenadora do grupo de trabalho sobre agrotóxicos na Fiocruz.

“Não pode deixar que o problema fique evidente só na ponta, que é o tratamento final da água, tem que atuar na fonte da contaminação”, afirma Ana Cristina, que monitora os dados de vigilância da água na Fiocruz

As novas regras do Ministério da Saúde aumentam de 27 para 37 o número de substâncias a serem testadas. As concessionárias são obrigadas por lei a testar a água para checar a presença desses agrotóxicos a cada semestre. Embora o número tenha aumentado, a Fiocruz recomenda a inclusão de mais 35 substâncias, entre elas o paraquate e imidacloprido, que hoje não são testados na água. A fundação recomenda também uma redução geral nos valores máximos permitidos para o volume de cada agrotóxico na água. Além da criação de um mecanismo para controlar a mistura de diferentes substâncias.

As recomendações têm a União Europeia como referência. Partindo do princípio de que a água não deveria ter agrotóxicos, o bloco tem os parâmetros mais rígidos do mundo. Além de baixos limites individuais para o volume de cada ingrediente na água (máximo de 0,1 micrograma por litro), há também um limite máximo para a soma de diferentes substâncias (0,5 microgramas por litro). 

Aqui, como em muitos outros países, toleramos quantidades maiores. O mais criticado deles é o glifosato, com valor máximo permitido de 500 microgramas por litro – volume mil vezes mais permissivo do que o europeu pode beber. Isso acontece porque, enquanto a Europa passou a régua mais rígida possível, com um valor igualmente baixo para todas as substâncias, os nossos parâmetros são calculados individualmente para cada agrotóxico. Esse cálculo é feito a partir de testes em animais de laboratório que muitas vezes são realizados pelas empresas produtoras de agrotóxicos. O Brasil nunca teve tem um limite para a soma de diferentes agrotóxicos na água. 

“O ideal seria adotar o princípio da precaução, como a União Europeia, com o máximo de 0,5 microgramas por litro para a soma de todas as substâncias”, afirma Gurgel, vice coordenadora do grupo de trabalho dos agrotóxicos da Fiocruz. “Mas sabemos que esse não é o parâmetro usado pelo Brasil. Por isso sugerimos que se fixe um limite para a presença de diferentes substâncias na água, estabelecendo tanto uma concentração máxima, que é a soma dos níveis de todas as substâncias detectadas, quanto um limite no número de substâncias presentes em uma única amostra””.

“A União Europeia é o único exemplo de um valor único para a soma”, argumenta o engenheiro Rafael Bastos, especialista na área e coordenador do grupo de trabalho que reuniu dezenas de especialistas e representantes de diferentes setores para revisar a portaria do Ministério da Saúde. “Na Europa, o parâmetro para a água foi um instrumento de controle para o uso de agrotóxicos. Mas a luta para diminuir o uso de agrotóxicos na sociedade se dá em outro fóruns e não no seio de uma norma de potabilidade da água”.

Lentidão no controle, rapidez na liberação

O tema da mistura de substâncias na água chegou a ser debatido pelo grupo de especialistas que revisou as regras. Mas, segundo Bastos, não houve consenso sobre qual seria o melhor método para se fixar um parâmetro de controle. “Definir isso, neste momento, seria uma discussão açodada. Terminamos o processo abrindo esse tema como ordem do dia para a próxima revisão”.

Em tese, a cada cinco anos o grupo de especialistas atualiza as regras brasileiras sobre controle dos agrotóxicos na água. A ideia é que essas regras sejam revisadas à luz das novidades científicas e mudanças de mercado, como quais substâncias passaram a ser mais utilizadas. Na prática, porém, cada revisão tem levado cerca de dez anos para ser concluída. 

O ritmo lento é ainda mais preocupante agora que o governo de Jair Bolsonaro tem mostrado celeridade recorde na liberação de novos produtos. “A gente faz todo um processo para avançar de 27 para 37 agrotóxicos sendo testados na água, mas o Estado autoriza centenas de substâncias, não temos condições de acompanhar essa velocidade”, afirma Bastos. Apenas nessa semana foram 22 novos produtos liberados pela Anvisa, somando 625 aprovados sob Bolsonaro.

O necessário avanço sobre o controle das misturas de agrotóxicos na água, porém, também sofre devido à ainda incipiente produção científica no Brasil. “Antes de ter uma legislação, precisamos de mais estudos avaliando o efeito dessas misturas”, afirma Kummrow, da Unifesp. Ele defende que essas pesquisas sejam feitas no Brasil, com foco na interação entre as substâncias mais presentes na nossa água, conforme recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

No documento que fixa as diretrizes internacionais para esse controle, a OMS recomenda a pesquisa específica sobre interação entre agrotóxicos encontrados na água de cada país. É o que já começou a fazer a agência de proteção ambiental americana com estudos para investigar a mistura da atrazina e da simazina. 

A Fiocruz cobra que uma nova regulação estabeleça ações obrigatórias para empresas de abastecimento de água e secretarias municipais e estaduais de saúde e de agricultura (Foto: Jed Owen/Unsplash)

Outra dificuldade são os gastos envolvidos em tirar do papel uma lei mais restritiva. “Ao adotar um padrão rígido, como o Europeu, isso vai exigir maior tecnologia para o tratamento, o que vai encarecer a água”, afirma Kummrow. “Isso pode levar a população a buscar outras alternativas, como poços, e acabar usando fontes ainda menos confiáveis”. 

O argumento é contestado por Gurgel, da Fiocruz, para quem as medidas necessárias para melhorar a qualidade da água devem ser vistas como um investimento fundamental na saúde. “São investimentos para a redução de doenças e agravos relacionados à exposição aos agrotóxicos. Esse investimento terá reflexos para agravos crônicos, que necessitam de tratamento de longo prazo e representam custos elevados para o sistema de saúde, que incluem a aquisição de medicamentos, ocupação de leitos, consultas com especialistas. Não há custo maior que a perda da saúde ou da vida”, conclui.

Ao contrário do que ocorre em outros países, no Brasil as empresas que produzem agrotóxicos não se envolvem com o monitoramento da água. O sistema é custeado apenas cofres públicos e pelas empresas de abastecimento.

Alertas para a população e responsáveis

No Brasil não funciona, hoje, um procedimento de alerta para a detecção de agrotóxicos na água. “As concessionárias não divulgam essas informações de forma clara para a população, nem mesmo quando são encontradas quantidades acima do valor máximo permitido”, alerta a química Ana Cristina Simões Rosa, da Fiocruz. 

O problema de informação é tão grave que, entre 2014 e 2017, mais da metade dos municípios sequer enviou os resultados dos testes realizados na água para o Sisagua, o sistema nacional que integra informações locais e é gerido pelo Ministério da Saúde. Outros lançaram as informações de modo errado, desrespeitando as orientações do ministério, que segue método padronizado, o mesmo usado por governos e universidades em todo o mundo. 

Detecções acima do valor máximo permitido entre 2014 e 2017

Fonte: Controle do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (SISAGUA) / Ministério da Saúde (2014-2017)

Este problema foi revelado pela publicação do mapa dos agrotóxicos na água, uma parceria da ONG Suíça Public Eye com a Repórter Brasil e a Agência Pública. O mapa divulgou, de forma inédita, os dados de detecção em todo o Brasil de acordo com as informações disponíveis no Sisagua. Em decorrência da publicação, foram tantos os questionamentos enviados pelas empresas de abastecimento que o Ministério da Saúde teve de convocar uma reunião para esclarecer a metodologia que deveria ser aplicada por todos. O encontro teve a presença de representantes das empresas de abastecimento, do Inmetro, dos laboratórios de saúde pública, das Secretarias de Saúde e da Anvisa. A Fiocruz recomenda que, na revisão da portaria da água, o Ministério da Saúde reforce os esclarecimentos que foram pauta da reunião.

A fundação também argumenta que os dados não podem ficar restritos ao debate entre técnicos. E sugere a criação de níveis de alertas simples e claros para comunicar os casos de detecção à população, assim como para acionar os órgãos responsáveis em tomar ações. 

O nível 1 e 2 seriam para quando se detecta a presença de agrotóxico na água, mesmo que abaixo do valor máximo permitido. Para a Fiocruz, esses casos não devem ser menosprezados, pois também são situações de “não conformidade”, já que “a concentração esperada para qualquer agrotóxico em água é zero”.

Já quando os níveis individuais ou da mistura estiverem acima do permitido, deveria soar o alerta máximo de emergência. 

Em todos esses cenários, além de divulgar a informação de modo claro, a fundação cobra que a nova regulação estabeleça ações obrigatórias a serem tomadas pelas empresas de abastecimento de água, assim como secretarias municipais e estaduais de saúde e de agricultura, coisa que não acontece hoje, conforme revelou matéria da Repórter Brasil e Agência Pública. A recomendação é que o sistema mobilize os órgãos responsáveis em lidar com o problema na ponta (com o tratamento da água e diminuição do abastecimento) e na sua origem (a fiscalização na aplicação de agrotóxicos nas plantações).

Ana Cristina Simões Rosa, que monitora os dados de vigilância da água em metade dos estados brasileiros pela Fiocruz, defende a importância de uma atuação responsável das pastas ligadas à saúde e agricultura nesse processo. “Não pode deixar que o problema fique evidente só na ponta, que é o tratamento final da água, tem que atuar na fonte da contaminação”, afirma. “Uma vez que a contaminação esteja ocorrendo, é necessário monitorar o máximo possível dos agrotóxicos utilizados no país, na água que todos nós consumimos”.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela “Repórter Brasil” [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: Governo Bolsonaro autoriza mais 22 agrotóxicos e o total em 2020 já chegou a 185

A enxurrada de aprovação de agrotóxicos segue firme fazendo a festa das multinacionais que produzem venenos agrícolas

Sempre menciono neste blog que quando se trata de aprovar agrotóxicos, o governo Bolsonaro (tendo a ministra Tereza Cristina à frente do time do veneno) é altamente eficiente. É que hoje, em plena pandemia e quando o Brasil já contabiliza mais de 12.000 mortos pela COVID-19, o Ministério da Agricultura publicou o Ato No. 31 de 4 de Maio de 2020 onde são liberados mais 22 produtos, vários deles proibidos na União Europeia. O total para 2020 agora é de 185 agrotóxicos, no que pode ser chamado “um museu de velhas novidades”, pois a maioria dos produtos liberados já estão liberados para venda no Brasil. Há ainda que se lembrar que agora o “grande total” do governo Bolsonaro chegou a 688 produtos em pouco mais de 16 meses de duração do mandato de Jair Bolsonaro.

A partir de análises rápidas, já pude identificar o padrão habitual de cerca de 30% de produtos proibidos na União Europeia, e uma predominância de empresas chinesas no fornecimento dos produtos aprovados nesta rodada (ver gráfico abaixo).

agrotoxicosl liberados ato 31

Uma pequena diferença é que as empresas chinesas são os produtores primários de “apenas”  40,9 % dos agrotóxicos liberados. Além disso, há que se notar a presença de produtos da Basf e da Du Pont. 

Também me parece importante notar que dos 6 agrotóxicos liberados que são proibidos na União Europeia, 4 são produzidos por diferentes empresas chinesas e 2 pela multinacional estadunidense DuPont em sua planta localizada na Espanha.

Quem desejar acessar a planilha com os dados do Ato No. 31, basta clicar Aqui! . Já para baixar a planilha completa de 2020, basta clicar Aqui!