Para gigantes químicos europeus, o Brasil é um mercado aberto para pesticidas tóxicos proibidos em casa

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Por Pedro Grigori – Agência Pública / Repórter Brasil em 10 de setembro de 2020 | Traduzido para o inglês por Roberto Cataldo

O Brasil é o maior usuário mundial de agrotóxicos, incluindo mais de uma dezena de produtos considerados altamente perigosos, graças a uma legislação permissiva que permite que algumas das maiores empresas agroquímicas da Europa continuem vendendo produtos proibidos em seu mercado doméstico.

A toxicidade desses agrotóxicos levantou preocupações: 22 deles são classificados como agrotóxicos altamente perigosos, ou HHPs, pela Pesticide Action Network (PAN), uma coalizão global que defende alternativas ecológicas para agrotóxicos químicos. A classificação é baseada em critérios desenvolvidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO): em humanos, podem ser tóxicos para o sistema reprodutivo, prejudiciais ao DNA, ou carcinogênicos, além de fatais para abelhas e outros polinizadores.

Embora esses produtos tenham sido proibidos em outros países, empresas como Bayer, BASF e Syngenta faturam milhões de dólares vendendo-os no Brasil. De acordo com o IBAMA, o órgão ambiental brasileiro, mais de 63.000 toneladas de apenas 10 desses 22 agrotóxicos foram vendidas em 2018. As vendas dos outros 12 produtos não foram informadas devido ao sigilo comercial; O IBAMA só divulga dados sobre ingredientes ativos fabricados por três ou mais empresas. Também não desdobra os valores vendidos por cada empresa.

As companhias

O mercado global de pesticidas gerou US $ 34,4 bilhões em 2017, de acordo com a FAO. E o setor é cada vez mais controlado por um punhado de empresas. Com sede na Suíça, a Syngenta faz parte do grupo ChemChina, líder mundial no setor. A alemã Bayer vem em segundo lugar. Ela experimentou um grande crescimento em 2018 após adquirir a Monsanto, que produz o Roundup, um herbicida à base de glifosato, o agrotóxico mais vendido do mundo. Completando os três primeiros está a BASF da Alemanha. Juntas, as três empresas controlam 54,7% da indústria agroquímica mundial.

As líderes do mercado de agrotóxicos

O ciclo global de venda de agrotóxicos gerou US$ 34 bilhões em 2017. Um pequeno número de empresas ficou com a maior parte das vendas

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Em 2018, 36,7% e 24,9% dos ingredientes ativos vendidos mundialmente pela Bayer e BASF, respectivamente, eram altamente perigosos na definição do PAN, de acordo com um relatório que lista as vendas de empresas agroquímicas alemãs para países em desenvolvimento. O relatório foi elaborado pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos, Rede INKOTA, Fundação Rosa Luxemburgo, MISEREOR e a organização sul-africana Khanyisa.

De acordo com o estudo, procedimentos de registro mais flexíveis tornam mais fácil a entrada de pesticidas altamente perigosos nos mercados do Sul global. O Brasil é um exemplo: 44% das substâncias aqui registradas foram banidas da União Européia , segundo relatório divulgado em julho pelo ex-presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), Gerson Teixeira.

Alan Tygel, porta-voz da Campanha Contra os Pesticidas e Pela Vida, explica por que o estudo começou com a Alemanha: “O país é o segundo maior exportador de agrotóxicos do mundo por causa desses dois grandes fabricantes. Exporta 233 ingredientes ativos – nove dos quais são proibidos na UE, mas produzidos na Alemanha e depois exportados.

“Dos 233 ingredientes ativos exportados pela Alemanha, 62 são considerados altamente perigosos”, acrescenta.

O relatório mostra que metade dos 24 ingredientes vendidos pela Bayer e BASF no Brasil são altamente perigosos. Um deles é o fipronil, princípio ativo utilizado em inseticidas comercializados pela BASF. O produto entrou na lista da PAN por seus efeitos fatais nas abelhas. Na década de 1990, ela foi responsabilizada pela grande mortandade de abelhas na França. Em 2017, milhões de ovos de galinha foram contaminados por Fipronil na Bélgica e na Holanda. Naquele mesmo ano, o produto foi banido de toda a UE por apresentar “alto risco agudo para as abelhas [quando usado] no tratamento de sementes de milho”, segundo a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA).

No Brasil, os apicultores a apontam como a principal causa da morte de mais de 500 milhões de abelhas em 2018-2019. Segundo o Ibama, foram comercializadas no país 1.600 toneladas só em 2018, para serem utilizadas no cultivo de algodão, batata, soja e milho.

Outro item polêmico da lista é o fungicida Carbendazim, da Bayer, banido do mercado europeu desde 2016. Seus potenciais danos incluem defeitos genéticos, redução da fertilidade e problemas fetais, além de ser muito tóxico para corpos d’água, segundo para o relatório da Campanha Contra os Pesticidas. O produto também está na lista da PAN porque pode danificar o DNA e ser tóxico para o sistema reprodutivo.

Segundo o Ibama, as vendas do carbendazim no Brasil somaram 4,8 mil toneladas em 2018. Em dezembro do ano passado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) começou a reavaliar o produto para decidir se deveria permanecer no mercado. O processo é lento e pode levar mais de uma década, como aconteceu recentemente com o Glifosato, cujo registro foi renovado após 11 anos em reavaliação. Enquanto isso, o Carbendazim continua sendo vendido para o cultivo de feijão preto, soja, trigo e laranja.

O relatório apela ao governo alemão para proibir as exportações de ingredientes ativos de agrotóxicos que não são permitidos na UE. “Não temos dados sobre qual empresa produz as substâncias importadas ou para quais países elas são exportadas”, diz a pesquisadora alemã Lena Luig, da Rede INKOTA, uma das colaboradoras do relatório.

verduas com venenoUm procedimento de registro de pesticidas mais flexível torna mais fácil a entrada de pesticidas altamente perigosos em determinados países, como o Brasil. Imagem Matheus Cenali / Pexels.

Syngenta ganha bilhões com a venda de agrotóxicos perigosos para países pobres, diz estudo

No ano passado, a ONG suíça Public Eye divulgou um relatório mostrando como a Syngenta ganha bilhões de dólares vendendo pesticidas altamente perigosos, especialmente para países de baixa e média renda. Esses mesmos pesticidas são proibidos na Suíça, país de origem da Syngenta.

Usando dados exclusivos fornecidos pela empresa líder em inteligência de agronegócio, Phillips McDougall, a Public Eye estima que a Syngenta ganhou cerca de US $ 3,9 bilhões com a venda de pesticidas altamente perigosos em 2017 – mais de 40% de suas vendas de pesticidas naquele ano.

Cerca de dois terços dessas vendas foram realizadas em países de baixa e média renda, sendo o Brasil o maior mercado individual.

De acordo com o relatório, “51 dos 120 ingredientes ativos de agrotóxicos no portfólio da Syngenta não estão autorizados para uso em seu país de origem, a Suíça; 16 deles foram proibidos devido ao impacto na saúde humana e no meio ambiente. Mas a Syngenta continua vendendo-os em países de baixa renda. ”

O relatório lista 10 ingredientes ativos vendidos pela empresa no Brasil que são proibidos na UE e aparecem na lista de produtos altamente perigosos do PAN. Um deles é o herbicida Atrazina, quarto agrotóxico mais usado no Brasil, com 287 mil toneladas vendidas em 2018, segundo o Ibama.

O produto é utilizado no cultivo de cana-de-açúcar, milho e sorgo. Foi banido da UE por causar distúrbios endócrinos que afetam o sistema hormonal. “A atrazina foi proibida na Suíça e na UE por muitos anos por causa de sua contaminação de longo alcance e duradoura de fontes de água potável”, disse Carla Hoinkes, pesquisadora agrícola da Public Eye e uma das autoras do relatório.

Outro sucesso de vendas da lista é o paraquat, o sexto pesticida mais usado no Brasil, com 13,1 mil toneladas vendidas. Devido à sua alta toxicidade, foi proibido na Suíça desde 1989 e na UE desde 2017. “O Paraquate é tão tóxico que a ingestão acidental de um único gole pode matar você. Agora está proibido em mais de 55 países, mas a Syngenta continua vendendo onde ainda é permitido ”, diz Hoinkes.

Em 2017, a agência reguladora de saúde brasileira ANVISA decidiu que o Paraquate deveria ser retirado do mercado do país. A proibição deve começar em 22 de setembro deste ano, mas enfrenta fortes esforços de lobby da indústria do agronegócioque formou uma “Força-Tarefa Paraquate” para tentar reverter a decisão .

Os dados de vendas de um dos principais produtos da Syngenta, o inseticida Tiametoxame, não estão disponíveis publicamente devido a segredos comerciais. Membro da família dos inseticidas neonicotinóides, é fatal para polinizadores como as abelhas. “O Tiametoxame da Syngenta, assim como o Imidaclopride da Bayer [que vendeu 10.000 toneladas no Brasil em 2018], é um inseticida neonicotinóide ‘matador de abelhas’ que foi banido dos campos europeus e suíços em 2018, após uma longa batalha legal”, diz Hoinkes. “De acordo com a FAO e a OMS, um crescente corpo de evidências sugere que os inseticidas neonicotinoides ‘estão causando efeitos prejudiciais às abelhas e outros insetos benéficos em grande escala’”.

As empresas dizem que não há riscos

Os fabricantes de agrotóxicos não têm problemas em vender no Brasil produtos proibidos na Europa.

De acordo com a BASF, existem grandes diferenças em culturas, solo, clima, pragas e práticas agrícolas em todo o mundo. “Diferentes pragas exigem soluções diferentes e todos os produtos da BASF são exaustivamente testados, avaliados e aprovados pelas autoridades competentes de cada país, seguindo procedimentos oficiais e legais estabelecidos nos respectivos países antes de serem comercializados”, disse a empresa em um comunicado.

Afirmou ainda que, por razões de mercado, optou por não renovar os registros de alguns princípios ativos na Europa. “Em muitos casos, o princípio ativo não é renovado ou registrado na Europa porque a ocorrência de pragas, doenças e ervas daninhas em clima temperado não o justifica ou porque não há cultura economicamente importante.” Dos 12 ingredientes produzidos pela BASF e citados no relatório da Campanha Contra os Pesticidas, apenas o Saflufenacil nunca teve uma licença solicitada para o mercado europeu. Os demais nunca foram autorizados ou acabaram sendo excluídos daquele mercado após reavaliações.

Bayer disse que a falta de aprovação de um determinado pesticida na UE “de forma alguma determina sua segurança” e que “não significa um duplo padrão”.

“Nossos requisitos internos de segurança garantem que nossos produtos atendam aos padrões globais mínimos em todos os lugares, independentemente de quão desenvolvido e rigoroso seja o sistema regulatório de cada país. Desde 2016, a Bayer se comprometeu a vender apenas defensivos agrícolas cujos ingredientes ativos estejam registrados em pelo menos um país da OCDE ”, disse a empresa.

A Syngenta disse que é importante considerar as diferenças nas práticas agrícolas ao redor do mundo, incluindo os tipos de safras cultivadas e as condições a que estão expostas, bem como os tipos de pragas. “Os produtos usados ​​[no Brasil], de clima tropical e sob alta pressão de pragas e doenças, podem não ser tão necessários em países onde o inverno rigoroso – muitas vezes marcado pela neve – reduz naturalmente a pressão das pragas. Ou seja, se não houver demanda por determinado agrotóxico, não há necessidade de registrar ou renovar o registro do produto naquele país ”, afirmou.

A CropLife Brasil, uma associação de fabricantes de agrotóxicos que inclui Bayer, BASF e Syngenta, disse que o relatório ignora que o uso adequado de pesticidas é fundamental para determinar sua toxicidade para usuários, suas famílias e consumidores. “As condições agrícolas relativas à flora, fauna e clima em diferentes países resultam em uma grande variedade de insetos / pragas, ervas daninhas e doenças que afetam as plantas. Isso significa que diferentes agrotóxicos estarão disponíveis para agricultores na Europa e em outras regiões. Portanto, o fato de um defensivo agrícola não ser aprovado na UE de forma alguma determina sua segurança ”, disse a CropLife em um comunicado.

Hoinkes disse que há um caso a ser feito para necessidades agronômicas específicas, mas não muito. “Na maioria dos casos está provado que a UE proibiu ou restringiu severamente o uso de um pesticida ou grupo de pesticidas devido a preocupações com o meio ambiente ou a saúde humana”, diz ela.

Ela cita os exemplos de Fipronil, Paraquate, Atrazina e Tiametoxam. “Portanto, empresas como a Syngenta ou a Bayer estão de fato usando ‘padrões duplos’ para diferentes países – devido a regulamentações mais fracas ou aplicação inadequada em certos contextos políticos – para continuar vendendo agrotóxicos altamente perigosos proibidos em seus próprios territórios por serem extremamente tóxicos para os humanos, matar abelhas, persistem na água potável ou são suspeitas de causar câncer, defeitos de nascença ou outras doenças crônicas. ”

Questionado se acredita que há riscos em permitir a comercialização interna de produtos proibidos na UE e se essas proibições são levadas em consideração na avaliação de agrotóxicos, o Ministério da Agricultura do Brasil (Mapa) disse que o país é “soberano para regular” e tem as competências técnicas expertise para analisar pesticidas. “Se são vendidos aqui, significa que foram rigorosamente analisados ​​pelo MAPA, ANVISA e IBAMA, e foram aprovados por cada um desses órgãos de acordo com suas respectivas competências”. Leia o comunicado completo do Ministério da Agricultura do Brasil .

As empresas também questionaram os critérios do PAN para classificar os pesticidas como altamente perigosos. Toxicidade aguda, dano crônico à saúde, riscos ambientais e estar listado em convenções e acordos internacionais para a regulamentação de pesticidas são avaliados. A lista do PAN atualmente inclui 310 ingredientes ativos .

A BASF afirma que os conceitos sustentados por ONGs como o PAN “impõem restrições além das estabelecidas por agências governamentais internacionalmente reconhecidas, como a FAO e a OMS”. Nem a FAO nem a OMS são agências governamentais. A empresa também disse que “as agências reguladoras em cada país são os melhores juízes das necessidades de suas regiões”.

Syngenta disse que a lista do PAN “não é reconhecida por nenhuma organização nacional ou internacional”. A empresa acrescentou que Public Eye, a ONG suíça que publicou o relatório crítico, “busca minar a agricultura de inovação, sem a qual os alimentos seriam mais escassos, mais caros e menos seguros”.

Alan Tygel, da Campanha Contra os Pesticidas, diz que a lista do PAN é baseada em critérios definidos em 2006 por duas agências da ONU: a OMS e a FAO. “Essas duas agências definiram os critérios, mas nunca listaram os agrotóxicos. A parte interessante e importante do [relatório do PAN] é precisamente que ele nomeia esses pesticidas altamente perigosos ”, diz ele.

Leia as declarações completas da BASF, Bayer, Syngenta e CropLife.

Este relatório faz parte do Por trás do alimento, um projeto conjunto da Agência Pública e da Repórter Brasil para investigar o uso de agrotóxicos no Brasil, e foi publicado pela primeira vez aqui em português em 18 de junho de 2020. Leia a cobertura completa no site do projeto.

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Este foi publicado em inglês pelo Mongabay [Aqui!].

Agrotóxicos proibidos para uso na União Europeia são exportados pelo Reino Unido

As brechas comerciais permitem que produtos químicos sejam enviados para países em desenvolvimento, bem como para EUA, Japão e Austrália

sungentaA Syngenta é uma das duas empresas que exporta das instalações do Reino Unido grandes quantidades de pesticidas, de acordo com documentos obtidos pelo Greenpeace do Reino Unido e pela ONG suíça Public Eye. Fotografia: Colaborador da AFP / AFP / Getty

Por Fiona Harcey para o The Guardian

Agrotóxicos altamente tóxicos que são proibidos para uso no Reino Unido estão sendo exportados para países com regulamentações menos rigorosas, sob brechas nas regras de comércio internacional.

Duas empresas, Syngenta e Ineos, estão exportando de instalações do Reino Unido grandes quantidades de pesticidas à base de produtos químicos que seriam ilegais para uso na UE, de acordo com documentos obtidos pela investigação Unearthed do Greenpeace do Reino Unido e pela ONG suíça Public Eye, em pedidos de liberdade de informação .

Os dados de notificação de exportação para 2018 mostraram que a Syngenta planejava enviar mais de 28.000 toneladas de pesticida contendo paraquat, que foi proibido para uso no Reino Unido em 2007. O paraquat , que é fatal em pequenas doses se ingerido, pode causar danos aos pulmões, olhos, rins e coração através de exposição a longo prazo.

Inovyn, uma subsidiária da empresa de produtos químicos Ineos, fez notificações de exportação de 4.000 toneladas do fumigante de solo 1,3-dicloropropeno, um suposto carcinógeno proibido na UE devido aos riscos que representa para a vida selvagem e as águas subterrâneas. O Reino Unido foi responsável por cerca de 40% das exportações destes e de produtos semelhantes da UE em 2018, ano a que se aplicam os documentos.

Embora a exportação desses produtos seja legal, apesar das restrições ao seu uso na Europa , os ativistas querem que a prática seja banida por causa do provável dano aos países importadores.

Baskut Tuncak, que de 2014 a 2020 foi o relator especial da ONU sobre as implicações para os direitos humanos da gestão e eliminação ambientalmente saudáveis ​​de substâncias perigosas e resíduos, disse: “O Reino Unido deve encerrar urgentemente a exportação de paraquat e 1,3-dicloropropeno . Esses pesticidas estão entre os piores dos piores, inquestionavelmente perigosos para a saúde humana. ”

Em julho, Tuncak e 35 especialistas do Conselho de Direitos Humanos pediram o fim dessas exportações das nações ricas para o mundo em desenvolvimento . A França está decretando uma proibição, que entrará em vigor a partir de 2022, mas outros países estão relutantes em colocar restrições em suas indústrias.

Alguns dos agrotóxicos são destinados a países em desenvolvimento , incluindo Colômbia, Equador, México, Índia e Indonésia. Grandes quantidades também são vendidas para nações ricas: os EUA e a Austrália compram grandes quantidades de paraquat, de acordo com os dados, e o Japão leva paraquat e 1,3-dicloropropeno.

“Só porque um país é rico não significa que não haja graves violações dos direitos humanos e abusos cometidos contra comunidades vulneráveis”, disse Tuncak. “Nos Estados Unidos, onde três vezes mais produtos pesticidas são registrados para uso, os trabalhadores agrícolas sofrem mais lesões e doenças relacionadas a produtos químicos do que qualquer outra força de trabalho. A dimensão racial não pode ser ignorada, com tantos trabalhadores agrícolas e alimentícios oriundos de migrantes e minorias ”.

Doug Parr, cientista-chefe do Greenpeace no Reino Unido, disse que vender os pesticidas era “hipocrisia exploradora” e pediu aos ministros que acabem com a prática. “O Reino Unido está no centro de um escândalo europeu de pesticidas que permite que gigantes da química inundem outros países – muitos deles nações mais pobres – com produtos químicos tóxicos em grande escala”, disse ele. “Esses agrotóxicos são tão perigosos que tomamos a decisão muito sensata de proibir seu uso em nosso próprio país e em toda a Europa. O que nos dá o direito de pensar que é moralmente defensável continuar a produzi-los e enviá-los ao redor do mundo? ”

Outros países europeus também estão exportando milhares de toneladas de agrotóxicos que seriam desqualificados para uso na Europa. Nos termos da legislação da UE, as empresas que exportam certas substâncias devem notificar os governos sob uma regra conhecida como regulamento de consentimento prévio informado, supervisionado pela Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA), que fornece uma lista das exportações. De acordo com o último relatório da agência , de dezembro passado, Reino Unido, Bélgica, Holanda e Espanha exportaram juntos 9.016 toneladas de 1,3-dicloropropeno, e a quantidade de paraquat e do herbicida trifluralina exportada pelo Reino Unido, Espanha e Itália foi de 15.983 toneladas.

O Greenpeace disse que seus dados diferem dos publicados pela UE porque são provenientes de notificações de exportação, então não havia certeza de que as quantias exatas destinadas a serem enviadas para o exterior eram exportadas, enquanto os dados da ECHA agrupavam diferentes produtos químicos para diversos fins.

Um porta-voz da Ineos disse ao Guardian que seu 1,3-dicloropropeno foi exportado sob licença apenas para o Japão, por meio do procedimento de consentimento prévio informado da ECHA, e que era o produto mais eficaz contra doenças de plantas causadas por nematóides (lombrigas), ajudando a proteger importantes colheitas de alimentos.

“As autoridades japonesas aprovam a importação licenciada para garantir que tenham todos os detalhes relevantes para o produto em relação à sua segurança, uso e regulamentação”, disse o porta-voz. “É importante ressaltar que o produto ainda é utilizado dentro da UE em países como França, Espanha e Itália onde há infestação de lavouras, sob procedimentos emergenciais sujeitos a homologações nacionais. É amplamente utilizado em muitos outros países além do Japão e da UE. ”

Um porta-voz da Syngenta disse: “A indústria de defensivos agrícolas é uma das mais regulamentadas do mundo, com produtos sujeitos a uma avaliação extensa antes de serem aprovados para registro e venda. Para ser exportado e vendido, qualquer produto acabado precisa estar em conformidade com os requisitos regulamentares específicos dos países importadores.

“Os EUA são um exemplo de um desses locais de exportação. O Paraquate foi submetido a análises e avaliações científicas detalhadas pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos durante muitos anos e foi considerado seguro e apropriado para uso. Cumprimos o estado de direito onde quer que operemos. ”

Um porta-voz do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais disse: “As decisões sobre o uso de agrotóxicos são baseadas em uma avaliação científica cuidadosa dos riscos, e isso não mudará após o período de transição [Brexit]. Continuaremos a garantir que nossos elevados padrões ambientais e de saúde humana sejam mantidos à medida que implementamos nosso próprio regime regulatório independente de pesticidas. Os produtos químicos atualmente proibidos não se tornarão elegíveis para uso na Grã-Bretanha. ”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian [Aqui!].

Pesquisa mostra que escoamento de agrotóxico neonicotinóide pode afetar a saúde de camarões e ostras

abc 1O estudo descobriu que a saúde das ostras e camarões foi afetada pelo imidaclopride. ( ABC News: Gregor Salmon )

Por Kim Honan para o jornal ABC

Uma nova pesquisa da Southern Cross University sobre o escoamento de agrotóxicos revelou que um produto químico agrícola amplamente utilizado pode afetar camarões e ostras.

Pontos chave:

  • O imidaclopride é usado como inseticida, fungicida e parasiticida na Austrália e é proibido na Europa
  • O escoamento deste agrotóxico resulta na redução da qualidade da carne dos camarões, enfraquecimento do sistema imunológico nas ostras e acúmulo na carne dos frutos do mar que os consumidores potencialmente comem
  • A indústria pesqueira diz que o problema precisa ser sinalizado com bandeira vermelha, enquanto o corpo da baga máxima diz que o produto químico tem mais de 300 usos diferentes na Austrália

Cientistas do National Marine Science Centre em Coffs Harbour, na costa norte de New South Wales, descobriram que o imidaclopride – que foi aprovado para uso na Austrália como inseticida, fungicida e parasiticida – pode afetar o comportamento alimentar dos camarões.

A diretora do centro, Kirsten Benkendorff, disse que as espécies de frutos do mar estão particularmente preocupadas em como o agrotóxico solúvel em água pode afetar os camarões.

“Eles estão intimamente relacionados aos insetos e, por isso, levantamos a hipótese de que eles podem ser muito suscetíveis aos inseticidas e isso é definitivamente o que descobrimos”, disse ela.

Um estudo de laboratório demonstrou que a exposição ao pesticida, por meio de água ou ração contaminada, pode resultar em deficiência nutricional e redução da qualidade da carne de camarões tigre pretos.

abc 2Uma nova pesquisa descobriu que um agrotóxico neonicotinóide amplamente usado pode afetar camarões e ostras. ( Fornecido: Southern Cross University )

“As concentrações ambientais que detectamos foram de até 250 microgramas por litro, e os camarões e ostras foram impactados em cerca de 1 a 5 microgramas por litro em termos de efeitos subletais”, disse o professor Benkendorff.

“Os camarões realmente começam a morrer em torno das concentrações ambientais [de] 400 microgramas por litro.

“É o que chamamos de LC50, ou a dose letal 50, onde você esperaria que 50 por cento da população morresse.”

Mas os pesquisadores também descobriram em um estudo separado que a exposição ao neonicotinóide também pode enfraquecer o sistema imunológico das ostras de Sydney.

“Portanto, os efeitos sobre os camarões em concentrações realmente muito baixas são bastante graves e as ostras são mais resistentes do que os camarões”, disse o professor Benkendorff.

“Mas definitivamente vimos impactos em seu sistema imunológico, o que significa que eles provavelmente seriam suscetíveis a doenças.”

abc 3Butcherine liderou a pesquisa sobre o impacto da imidiclopride em camarões tigre pretos. ( Fornecido: Southern Cross University )

A pesquisa também analisou como os agrotóxicos se acumulavam na carne de camarões e ostras.

“Isso é certamente algo preocupante do ponto de vista de que eles os levam do meio ambiente”, disse o professor Benkendorff.

“E então esses resíduos de agrotóxicos estão na carne que então potencialmente comemos.”

Ela disse que embora mais estudos sejam necessários, a pesquisa identificou a necessidade de uma gestão eficaz do uso de agrotóxicos e do escoamento nas áreas costeiras.

abc 5Kirsten Benkendorff com o estudante de doutorado Peter Butcherine. ( Fornecido: Southern Cross University )

Indústria pesqueira de NSW ‘extremamente alarmada’ por pesquisas

A principal executiva da Associação de Pescadores Profissionais de NSW, Tricia Beatty, diz que a pesquisa levanta uma bandeira vermelha e que o governo de NSW deve tomar medidas imediatas.

“Nossa indústria vem dizendo há anos que estamos muito preocupados com o impacto químico a montante de nossa indústria”, disse ela.

“Nossa indústria vale US $ 500 milhões para a economia de NSW, mas, não apenas isso, também somos a espinha dorsal de muitas das comunidades regionais costeiras.

“A Austrália precisa dar uma olhada no que está acontecendo na Europa com a proibição desses tipos de produtos químicos e reproduzí-los aqui.”

abc 6A Sra. Beatty diz que os resultados da pesquisa são extremamente alarmantes. ( ABC News: Kerrin Thomas )

A indústria também está preocupada que o agrotóxico possa afetar outras espécies marinhas.

“Não apenas em outros crustáceos e moluscos, mas em toda a cadeia alimentar; muitas espécies em nossos estuários comem esses camarões”, disse a Sra. Beatty.

Agrotóxicos neonicotinoides – que são proibidos na França e na União Europeia desde 2018 – estão sob revisão pela Autoridade Australiana de Agrotóxicos e Medicamentos Veterinários (APVMA).

A APVMA informou que iniciou a revisão em 2019 “no seguimento da avaliação de novas informações científicas sobre os riscos ao ambiente, e para garantir que as instruções de segurança dos produtos cumprem as normas contemporâneas”.

Espera-se que uma proposta de decisão regulatória seja publicada até abril de 2021, seguida de três meses de consulta antes de uma decisão final sobre o produto químico ser tomada.

Indústria de frutas vermelhas defende o uso de agrotóxicos

Enquanto os pesquisadores apontam os produtores de frutas silvestres como um dos principais usuários de imidaclopride na Costa de Coffs, o órgão máximo da indústria defendeu o uso deste produto químico.

abc 7Rachel Mackenzie, da Berries Australia, defendeu o uso do imidaclopride pela indústria de frutas vermelhas. ( ABC Rural: Kim Honan )

A diretora executiva da Berries Australia, Rachel Mackenzie, diz que deve ser reconhecido o quão amplamente usado o produto químico é.

“É em Baygon, é no controle de pulgas que as pessoas usam para seus cães, é amplamente usado no controle de cupins para novos desenvolvimentos; este não é um problema de bagas”, disse ela.

“Em segundo lugar, os estudos foram feitos em laboratório, em condições de laboratório e, obviamente, são extremamente preliminares.

Vamos deixar de lado o fato de que este é um problema da indústria de frutas silvestres e pensar no fato de que este produto está registrado para mais de 300 utilizações na Austrália.”

A Sra. Mackenzie disse que a indústria acataria 100 por cento com a decisão da APVMA na conclusão de sua revisão em neonicotinóides.

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal australiano ABC [Aqui!].

Ervas daninhas são necessárias para uma boa saúde das colheitas

A diversidade de plantas daninhas representa uma esperança para a preservação da biodiversidade em ambientes agrícolas, sem impactar a produtividade

weedingAgricultores retiram as ervas daninhas e transplanta as colheitas na Amber Waves Farm em Amagansett, Nova York, EUA, 11 de julho de 2019. REUTERS / Lindsay Morris

Por Aline Nippert para o Le Monde

As ervas daninhas têm nomes errados. “As ervas daninhas são vistas como as principais pragas da agricultura”, observa Sabrina Gaba, diretora de pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente (Inrae). Essas plantas selvagens competem com as safras pelo acesso aos recursos (luz, nutrientes no solo) e, portanto, são quase sistematicamente eliminadas. “Em geral, espalhando herbicidas”, explica a pesquisadora.

No entanto, a pesquisa em agroecologia – um campo de pesquisa que reúne ecologia científica e agronomia – demonstra, semente por semente, os papéis essenciais que papoulas, mirtilos, gerânios e outros indesejáveis ​​desempenham em certas áreas de cultivo: são o lar de insetos auxiliares e polinizadores, bem como microrganismos essenciais para a fertilidade do solo. “O objetivo final da agroecologia é, entre outras coisas, dispensar o uso de agrotóxicos”, diz Fabrice Le Bellec, diretor de pesquisas do Centro de Pesquisas Agronômicas para o Desenvolvimento (Cirad).

Na França, a agroecologia está em alta desde a implementação do plano Ecophyto I. Estabelecido em 2008 no final do Grenelle de l’environnement, deveria ter possibilitado reduzir pela metade o uso de pesticidas em dez anos. . Uma meta longe de ser alcançada: o uso de agrotóxicos aumentou 25% entre 2010 e 2020 na França . “Esse plano, no entanto, contribuiu para o financiamento de pesquisas para apoiar os produtores na transição agroecológica” , enfatiza Le Bellec. Desde então, dois novos planos (Ecophyto II em 2015, depois Ecophyto II + em 2019) foram lançados, postergando o prazo de redução do uso de agrotóxicos em 50% até 2025.

Evidência científica

“Uma mudança de paradigma está em andamento! “ Enthuses Paolo Barberi, professor de agronomia da Escola Superior Santa Ana de Pisa, referindo-se ao reconhecimento do papel das ervas daninhas na agricultura.

O projeto Disco-Weed (Cesab-FRB), liderado por Sabrina Gaba e concluído em 2019, contribui para esta reversão axiológica. “  Mostramos que essa flora silvestre pode ser mantida sem perder em termos de produtividade”, resume o piloto do programa. “  A força dessas publicações é que elas baseiam suas análises em dezenas de fazendas. Os dados são sólidos ” , garante o especialista italiano.

Entre os estudos recentes da Disco-Weed, o publicado na Frontiers in Sustainable Food Systems confirma os benefícios das mal chamadas “ervas daninhas”. Quanto mais diversificadas e abundantes forem as espécies de ervas daninhas em uma parcela agrícola, maior será o número de funções ecológicas – polinização, controle de pragas, fertilidade do solo -. “Por isso, fornecem serviços essenciais para o bom funcionamento de todos os ecossistemas, inclusive os agrícolas”, destaca o autor principal.

Deixe as ervas daninhas crescerem, é esse o segredo de fazer sem pesticidas? “  Não é tão simples. As ervas daninhas cumprem uma dupla função: são necessárias para a sobrevivência das lavouras, mas competem com as plantas cultivadas pelo acesso aos recursos, explica Sabrina Gaba. Trata-se de encontrar o equilíbrio certo. “

Rumo ao aumento da renda

É neste ponto que o estudo é o mais inovador: o aumento do número de funções ecológicas (que dependem da abundância e diversidade de plantas daninhas) não conduz à queda da produtividade. Por outro lado, o rendimento diminui à medida que aumenta a quantidade de ervas daninhas.

O espaço de manobra, portanto, está na diversificação das espécies. Resultados “encorajadores”, segundo Fabrice Le Bellec: “A renda dos agricultores – que depende de sua produção, mas também de seu orçamento em insumos químicos – é um grande problema na transição agroecológica. “

Para chegar a essas conclusões, os cientistas analisaram dados de 78 campos de trigo e 45 campos de colza, todos sob cultivo intensivo, e 61 prados coletados em 2016 no departamento de Deux-Sèvres, dentro ” um espaço dedicado à observação científica e à experimentação supervisionada pelo CNRS (área de oficinas de Plaine e Val de Sèvre ). “Para quantificar a capacidade de controle de pragas, dispersamos pulgões nas áreas estudadas”, explica a pesquisadora. Depois de um tempo, contamos o número de pragas restantes, o que nos permitiu estimar o potencial de regulação biológica. “

Área de refúgio

Resta ver como promover a diversidade de ervas daninhas em campos cultivados convencionais. Outro estudo da Disco Weed foi publicado em 8 de julho na revista Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences , fornece algumas respostas.

“Queríamos saber como as ervas daninhas se desenvolvem nas lavouras” , resume Bérenger Bourgeois, principal autor do artigo. As ervas daninhas estudadas são sobreviventes: “  Os habitats são zerados todos os anos, o solo é arado, os herbicidas são pulverizados e a competição com as plantas é intensa”, acrescenta Sabrina Gaba.

O artigo destaca, em escala de paisagem, uma correlação positiva entre a diversidade de espécies de plantas daninhas no campo estudado (convencional) e o número de parcelas orgânicas no entorno. “Parcelas rotuladas orgânicas representam um reservatório de ervas daninhas ”, comenta o principal signatário do estudo. As suas sementes são então difundidas à escala da paisagem e permitem preservar uma boa diversidade de ervas daninhas, não só no campo orgânico, mas em toda a área. “Os resultados não me surpreendem, comenta Paolo Barberi. Questionar as práticas agrícolas é essencial para proteger a vida nos campos de cultivo. “

A equipe de pesquisadores também confirma a importância das bordas das parcelas, muitas vezes gramíneas, na dispersão das ervas daninhas para o campo aberto e insiste no seu papel na manutenção da biodiversidade. “É uma área de refúgio para polinizadores”, diz Bérenger  Bourgeois. “Observamos uma dispersão em duas etapas , sintetiza Sabrina Gaba. Primeiro, as sementes chegam à borda da parcela. Em seguida, eles se dispersam para o interior do campo, a uma distância moderada. “

“Protegendo a biodiversidade”

“Esses resultados provam que os defensores do ‘compartilhamento de terras’ têm razão, que mostram que, no nível da paisagem, apenas mosaicos heterogêneos – misturando diferentes tipos de culturas e parcelas na agricultura orgânica com elementos semi-naturais como prados ou sebes – ajude a proteger a biodiversidade ”, contextualiza Paolo Barberi.

Pelo contrário, os defensores da “economia fundiária” defendem uma separação estrita entre as zonas destinadas à protecção da fauna e da flora (não cultivadas) e as terras destinadas à produção agrícola. “Este é um debate crucial sobre a questão da conservação da biodiversidade na agricultura”, insiste o Sr. Barberi.

Juntamente com as práticas agrícolas, as políticas de planejamento do uso da terra também têm um papel a desempenhar na reabilitação de ervas daninhas não amadas. “Você sabe o que dizem na indústria sobre ‘ervas daninhas’? ri Fabrice Le Bellec. Estas são as plantas cuja virtude ainda não descobrimos. “

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Este artigo foi escrito originalmente em francês e publicado pelo Le Monde [Aqui!  ].

O Brasil de Bolsonaro segue em ritmo de “agro-suicídio”

bolso amazoniaAs ações de desmanche da governança ambiental e dos instrumentos de comando e controle pelo governo Bolsonaro colocam o Brasil em um ritmo de “agro-suicídio” que custará muito caro aos interesses nacionais

Emprestei o título desta postagem de um trecho de um tweet do professor Raoni Rajão em que ele comenta a mudança de postura da chanceler alemã Angela Merkel em relação à ratificação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul em função, principalmente, da condição de “wild wild west” que o governo Bolsonaro instalou na Amazônia com o desmanche promovido nos mecanismos de governança e de comando e controle.

Mas eu diria que a condição de “agro-suicídio em marcha” que acomete o Brasil neste momento é construída por muitas outras coisas que cedo ou tarde, já venho avisando isso há antes, colocaram as exportações de commodities brasileiras em uma espécie de “lista negra”, levando a nossa economia a um estado de completa anomia, visto a dependência proeminente da balança comercial brasileira em relação à exportação de produtos primários.

Uma faceta que apareceu repetidas vezes é o alto teor de resíduos de agrotóxicos que as principais commodities brasileiras, a começar pela soja, estão levando daqui de volta aos países que produzem e mantém proibidos em suas próprias fronteiras os venenos agrícolas que aqui são usados com sofreguidão.

boicote bolsonaroCampanha de boicote aos produtos brasileiros promovida por ONG alemã já ultrapassou 400 mil signatários

O primeiro importante anúncio que foi dado e solenemente ignorado pelas autoridades brasileiras foi o anúncio do Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia (Rosselkhoznadzor) de que poderia proibir as importações de soja brasileira, caso não fosse tomadas providências para diminuir a quantidade de resíduos de Glifosato presente na principal commodity agrícola brasileira. Depois disso foi a Nestlé que anunciou restrições sobre a importação de café brasileiro pelo mesmo motivo.  

Mas um fator que está acelerando a disposição de se impor um banimento das commodities brasileiras é, sem dúvida, a situação explosiva no desmatamento na Amazônia que, sob o governo Bolsonaro, está claramente fora de controle. Além de redes de supermercado no Reino Unido e Alemanha que estão ameaçando suspender a importação de carne brasileira produzida em áreas de desmatamento ilegal, a gigante norueguesa da produção de salmão em cativeiro, Intrafish, foi mais além e baniu a Cargill da sua lista de fornecedores de soja por causa da suposta indisposição da corporação estadunidense de combater a derrubada das florestas amazônicas.

Mas um elemento que contribui para a péssima imagem e as nuvens carregadas que pairam no horizonte das commodities agrícolas brasileiras é sem dúvida nenhuma o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, cuja imagem está mais tostada do que churrasquinho esquecido no fogo. Ricardo Salles, autor da máxima “passar a boiada, de baciada” é visto em muitos círculos internacionais, e com justa razão, como o principal responsável pelo que está acontecendo na Amazônia.

garimpeirosAvião da FAB foi usado para levar garimpeiros ilegais do PA para reunião com ministro Ricardo Salles em Brasília

Uma última estrepulia de Salles, a qual deverá piorar ainda mais a péssima imagem brasileira, foi a constatação que ele usou um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para transportar garimpeiros de ouro que operam clandestinamente na Terra Indígena Munduruku para reunião no Ministério do Meio Ambiente, sob a alegação de que estes eram representantes dos Munduruku, fato esse negado por lideranças deste povo indígena.

Mesmo que Salles se arrisque aqui, quando muito, a tomar um tapinha nas mãos, a circulação dessa informação deverá deteriorar ainda mais sua capacidade de negociar qualquer coisa em reuniões multilaterais, reforçando mais o seu perfil de “culpado inútil” que usa as estruturas do Estado brasileiro para promover interesses não republicanos.

Como a estação de queimadas na Amazônia ainda está longe de chegar ao seu auge em 2020,  o mais provável é que ainda vejamos cenas ainda mais dramáticas do que aquelas vistas em 2019, quando manifestações importantes já ocorreram em diversas partes do mundo contra o Brasil, servindo depois como combustível para diversas campanhas de boicote aos produtos brasileiros.

O governo Bolsonaro e seus aliados no latifúndio agro-exportador continuam ignorando olimpicamente todas as ameaças que pairam sobre as commodities brasileiras por causa dos malfeitos na área ambiental, especialmente na Amazônia.  Eles parecem contar com a fome mundial em torno das commodities brasileiras para continuar levando a vida na base da motosserra e do trator de esteira. Na prática, eles se acham mais inteligentes que o resto do mundo, e continuam com seu comportamento de colonizado altivo como se houvesse a possibilidade de um tratamento de igualdade entre forças tão díspares no cenário geopolítico existente.

Mas a verdade é que essa é uma estimativa equivocada e os ponteiros do relógio continuam avançando para um confronto entre as necessidades de comprar soja e a de manter algum tipo de controle sobre as mudanças climáticas. Por isso é que, na prática, o Brasil está cometendo o que Raoni Rajão corretamente chama de “agro-suicídio brasileiro”. Depois que a vaca for para o brejo que ninguém finja surpresa, pois os sinais de fumaça são muitos.

Observatório dos agrotóxicos: com mais 28 agrotóxicos aprovados, governo Bolsonaro alcança 278 liberações em 2020

 

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O Diário Oficial da União publicou no dia de ontem (20/08) o Ato No. 48 de 2020 por meio do qual o Ministério da Agricultura, comandado pela “musa do veneno”, a ministra Tereza Cristina (DEM/MS), liberou mais 28 agrotóxicos, totalizando 278 apenas em 2020, chegando a 781 “novos produtos” liberados para comercialização no já abundante mercado de agrotóxicos do Brasil.

Analisando a origem dos países que sediam o fabricante primário de cada um dos produtos liberados, o Ato 48 trouxe uma novidade que é a dominância do Brasil, seguido pela China (ver gráfico abaixo).

Países fabricantes

Essa diferença em relação a todos os atos promulgados anteriormente pelo governo Bolsonaro foi o fato de que no Ato 48 consta a aprovação de 10 agrotóxicos de natureza biológica, área em que os fabricantes nacionais ocupam a primazia no mercado brasileira. Mas é interessante que apesar de todos esses agrotóxicos de base biológica, o Ato No. 48 ainda trouxe 8 agrotóxicos proibidos pela União Europeia, perfazendo 28,6% do total de produtos liberados, montante que é bastante próximo da costumeira taxa de aprovação de produtos proibidos na UE que é em média de 30%. (ver gráfico abaixo).

Um aspecto interessante é que os herbicidas continuam sendo o tipo mais comum de agrotóxico aprovado no Brasil. Mas o Ato 48 também trouxe uma forte concentração de nematicidas, todos de base biológica. Os nematóides vem se tornando uma das principais tipos de alvos do uso de agrotóxicos no Brasil, muito em função do tipo de agricultura baseado em grandes extensões de monoculturas (ver gráfico abaixo).

função agrotóxico

Um aspecto que a leitura do Ato No. 48 também propiciou foi notar que cada vez mais existem discrepâncias na hora de alocar o grau de toxicidade humana dos produtos aprovados, com vários sendo aprovados sem sequer serem classificados. Além disso, dada a modificação nos critérios de definição de risco para a saúde humana, as classificações de toxicidade ambiental apresentam níveis de maior risco. Tal parece decorrer dos critérios de classificação que foram modificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária no ano passado, quando o risco de morte risco de morte passou a ser  único critério para classificar a toxicidade de um produto no Brasil.

Nessa toada de liberações de produtos altamente tóxicos, muitos deles proibidos pela União Europeia, e em meio à pandemia da COVID-19, o Brasil caminha firme para se tornar uma zona de sacrifício para onde as grandes fabricantes de venenos agrícolas enviam produtos que estão sendo “faseados” em outras partes do mundo. Simples lógica do lucro sobre a saúde humana e do meio ambiente.

Para quem desejar baixar a base com os agrotóxicos liberados pelo Ato No. 48, basta clicar  [Aqui!]. Já quem desejar baixar a base completa para todos os agrotóxicos liberados em 2020, basta clicar [Aqui! ].

Brasil: aumento repentino de novos registros de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro

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Por Akela News

São Paulo. No Brasil, sob o governo do presidente de extrema direita  de Jair Bolsonaro, há um surto de novos registros de agrotóxicos – explica Larissa Bombardi, professora e pesquisadora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo em um vídeo recém-publicado . Bombardi é considerada uma dos cientistas mais talentosas na área de agrotóxicos do Brasil. No vídeo, ela descreve algumas das principais características dos altos níveis de substâncias altamente perigosas que foram recentemente aprovadas nos primeiros 18 meses do governo Bolsonaro, ou seja, desde o início de 2019.

É enorme o aumento nas aprovações de agrotóxicos em relação ao governo do Partido dos Trabalhadores (PT), que foi derrubado por um golpe parlamentar em 2016, e que registrou cerca de 98 novos agrotóxicos anualmente desde 2003. Metade dos 680 novos registros entre o início de 2019 e o final de junho de 2020 são herbicidas, um terço de inseticidas e um sexto de outros venenos. Dos 113 ingredientes ativos de agrotóxicos contidos nos 680 produtos, um terço está proibido na União Europeia (UE) devido à sua alta toxicidade para os seres humanos e o meio ambiente.

Como exemplo dos sete “venenos agrícolas” mais vendidos no Brasil, a professora Bombardi destacou o ingrediente ativo acefato, um inseticida proibido na Europa desde 2003.  O acefato é neurotóxico e citóxico (tóxico para as celulas) e danifica os embriões no útero das mães. O herbicida atrazina fabricado pelas empresas químicas Syngenta (Suíça) e Bayer-Monsanto, que é ilegal na UE desde 2004 e na Suíça desde 2007, também causa câncer de Parkinson, de estômago, de próstata, de ovário e linfático, bem como a síndrome de  Non-Hodgkin (a outro tipo de câncer). Além disso, a autoridade de homologação brasileira, a ANVISA, realizou uma curiosa reclassificação da toxicidade de todos os agrotóxicos vendidos no Brasil em agosto do ano passado, em que a toxicidade de muitas substâncias anteriormente classificadas como “altamente tóxicas” foi significativamente rebaixada e, portanto, minimizada.

Segundo Marcos Pedlowski, professor associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, o problema não existe apenas para os brasileiros, mas também para todos os países que importam os produtos tóxicos que o Brasil produz em seus latifúndios voltados para a exportação.

Christoph Then, da organização alemã Testbiotech, especializada em agrotóxicos e engenharia genética, há muito tempo critica o fato de 30 a 40 milhões de toneladas de soja serem importadas para a UE de países como o Brasil, mas também da Argentina e dos Estados Unidos, a maioria geneticamente modificada e que seria pulverizada maciçamente com misturas de herbicidas. Essas misturas de herbicidas contém glifosato e outros herbicidas altamente tóxicos. A safra importada é regularmente poluída com resíduos correspondentes. Até mesmo a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) concluiu que os dados disponíveis são insuficientes para avaliar os riscos para a saúde dos consumidores na UE.

De acordo com Pedlowski, o governo Bolsonaro também aproveitou a oportunidade para “passar a boiada” na área de aprovação de agrotóxicos. Desde que o vídeo da professora Bombardi foi publicado na semana passada, mais 29 agrotóxicos já foram aprovados pelo Ministério da Agricultura, sob a direção da Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, conhecida pela sociedade civil como “Musa do Veneno”.

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Este artigo foi publicado originalmente em alemão pela Akela News [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: em plena pandemia, governo Bolsonaro autoriza mais 38 agrotóxicos e já chega a 245 em 2020

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Na última 6a. feira (31/07), o governo Bolsonaro fez publicar o Ato 43 de 2020 por meio do qual foram liberados mais 38 agrotóxicos para comercialização no Brasil. Com isso, o total liberado nos primeiros sete meses deste ano chegou a 245 agrotóxico(sendo 223 deles durante a pandemia da COVID-19) que para os 19 meses da presidência de Jair Bolsonaro, o “grande total” é de 748 agrotóxicos, um verdadeiro recorde para o já densamente ocupado mercado brasileiro de venenos agrícolas.

Ao analisar os agrotóxicos aprovados, um fato que pode ser considerado positivo é que 13 dos produtos aprovados são agrotóxicos biológicos cujo potencial de toxicidade humana e ambiental é menor. Por outro lado,  o Ato 43 incluiu a aprovação de 15 produtos compostos por princípios ativos que estão proibidos na União Europeia, representando 43% do total liberado, o que ficou acima da proporção normal de “proibidões” banidos na União Europeia e vendidos no Brasil que é de 30%.

Entre os agrotóxicos liberados pelo Ato 43,  e que contém substâncias proibidas pela UE estão a Ametrina, a Atrazina e o “matador de abelhas” Fipronil.   No caso da Atrazina, como mostrado recentemente aqui, este agrotóxico é responsável por diversas doenças graves, mas curiosamente foi classificado como sendo de Categoria 5 para toxicidade humana, o que significa que o produto seria “improvável de causar dano agudo” (ver figuras abaixo para ver as principais doenças já identificadas como associadas à atrazina).  

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É interessante notar que o discurso do governo Bolsonaro para explicar a enxurrada de novos agrotóxicos era de que os “novos produtos” serviriam para modernizar o portfólio disponível para os agricultores brasileiros (na verdade a maioria do agrotóxico consumido no Brasil se concentra nas grandes monoculturas de exportação como a soja e o milho). Agora, o discurso é de que “os novos registros são importantes pois diminuem a concentração do mercado de defensivos (agressivos, quer dizer) e aumentam a concorrência, o que resulta em um comércio mais justo e em menores custos de produção para a agricultura brasileira”, como destacou o coordenador-geral de Agrotóxicos e Afins, Bruno Breitenbach. 

Mas o discurso de baratear o custo de agrotóxicos provavelmente também não resistirá ao tempo, visto que apesar de uma diminuição no volume importado por causa da pandemia da COVID-19, os custos em dólar relacionados à compra de venenos agrícolas estão aumentando.   O fato é que o mercado brasileiros de agrotóxicos é um verdadeiro maná para as grandes corporações que fabricam venenos agrícolas, visto que apenas entre 2000 e 2019, o total de vendas atingiu estratosféricos US$ 143,4 bilhões, sendo que o recorde geral de vendas ocorreu no primeiro ano do governo Bolsonaro  (ver figura abaixo).

Vendas de agrotóxicos no Brasil 20002019

Eu não tenho dúvidas que é em função das altas taxas de lucros obtidas pelas corporações multinacionais que controlam o mercado global de venenos agrícolas que há essa pressa toda em aprovar produtos banidos até nos países sede de empresas como a Bayer, Basf e Syngenta (no caso Alemanha e Suíça). Já para o Brasil e os brasileiros sobra é muita contaminação e doenças letais.

Quem desejar baixar o arquivo relativo aos produtos liberados pelo Ato 43 de 2020, basta clicar [Aqui!]. Já para baixar o arquivo contendo todos os produtos aprovados entre 01  de janeiro e 31 de julho de 2020, basta clicar [Aqui!].

 

Gigantes dos agrotóxicos são principais financiadores de Congresso Brasileiro do Agronegócio

Bayer e FMC patrocinam evento que terá a presença dos ministros da Agricultura, da Infraestrutura e do presidente do BC; pesquisa da ONG suíça Public Eye e do Greenpeace mostra Brasil como principal consumidor de produtos altamente tóxicos no campo

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Por Leonardo Fuhrmann para o “De olho nos ruralistas”

Grandes empresas produtoras de agrotóxicos e uma organização ligada a elas estão entre os principais financiadores da 19ª edição do Congresso Brasileiro do Agronegócio, encontro organizado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e pela B3, que será transmitido online, em razão da pandemia de Covid-19, na manhã desta segunda-feira (03). Estão previstas as participações dos ministros da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

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Ministra da Agricultura, Tereza Cristina no congresso de 2019; em 2020, de volta. (Foto: Twitter)

As produtoras de agrotóxicos Bayer, que adquiriu a Monsanto, e FMC Agrícola estão entre os patrocinadores master. Fazem parte dessa lista a fabricante de sementes transgênicas Agroceres, a Mosaic Fertilizantes, a empresa de crédito Sicredi, o BB Seguros, a Empresa Maranhense de Administração Portuária (Porto do Itaqui) e a organização Croplife Brasil — que, por sua vez, representa empresas ligadas a agrotóxicos e transgênicos.

Entre os demais patrocinadores estão outras empresas do agronegócio, como as gigantes Cargill, New Holland e Case IH, a Yara, a Cooxupé, o Grupo Jacto e o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev). O Inpev reúne dezenas de empresas do agronegócio e algumas de agrotóxicos, como Adama, Basf, Dow, Bayer e Croplife. A lista de patrocinadores é completada por empresas do setor financeiro: Bradesco, Itaú BBA, Rabobank e CME Group, a Bolsa de Chicago.

Os ministros Tereza Cristina e Tarcísio Freitas participam da mesa de abertura, logo às 9 horas, ao lado do presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Alceu Moreira (MDB-RS), e de representantes da Abag, da B3 e do secretário da Agricultura e do Abastecimento do Estado de São Paulo, Gustavo Junqueira. O primeiro painel de debates, às 9h45 terá, entre outros, o presidente da Cargill no Brasil, Paulo Sousa. O segundo, às 11 horas, terá um depoimento do presidente do Banco Central, com comentários do diretor de Agronegócios do Itaú BBA.

Alceu Moreira esteve entre os parlamentares que pressionaram, nos últimos meses, pela liberação do paraquat, um agrotóxico proibido na União Europeia: “Veja como estes líderes ruralistas pressionaram por liberação de agrotóxico banido“.

Croplife faz lobby mundial para empresas do setor 

Croplife Brasil foi criada em outubro do ano passado e é presidida por Christian Lohbauer, ex-vice-presidente de Assuntos Corporativos da Bayer Brasil. Fundador do Partido Novo, Lohbauer foi vice na chapa de João Amoedo na eleição presidencial de 2018 e é um nome especulado pelo partido para a disputa da eleição municipal da capital paulista neste ano.

Lohbauer também foi, segundo seu currículo oficial, gerente de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), diretor executivo da Associação Brasileira dos Exportadores de Frangos (Abef) e presidente executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR). Atualmente, é diretor do Conselho de Agricultura da Fiesp (Cosag/Fiesp) e sócio da Lohbauer Consultoria Internacional.

A Bayer e a FMC participam da Croplife Brasil, assim como a Syngenta, a Basf, e outras trinta empresas ligadas à produção e comercialização de produtos químicos e transgênicos para a agropecuária. A filial brasileira é associada da Croplife International, uma organização conhecida mundialmente por fazer lobby para as grandes empresas do setor.

Basf, Bayer, Corteva (do grupo DowDuPont), FMC, Sumitomo Chemical e Syngenta são as empresas que fazem parte da Croplife, a matriz, que reúne também organizações empresariais regionais e é coordenada por um executivo da Bayer. A Croplife Brasil e a Associação das Empresas de Biotecnologia na Agricultura e Agroindústria (AgroBio) fazem parte da organização estrangeira.

Croplife Latin America representa a Bayer CropScience, a FMC, a Syngenta, a Basf e a Sumitomo Chemical. Ela é presidida por José Perdomo, que trabalhou durante 28 anos na Dupont. A primeira prioridade da organização é “promover e apoiar as leis que, com critérios científicos, regulem os marcos legais que forneçam respeito pela propriedade intelectual, os quais devem ter relação com os acordos internacionais para a proteção das culturas, a biotecnologia, produtos biológicos e novas tecnologias”.

Syngenta, Bayer, Basf, Corteva e FMC vendem 80% dos venenos


Protesto da Public Eye em Berna, na Suíça. (Foto: Divulgação/Public Eye)

O interesse dos grandes produtores globais de agrotóxicos pelo encontro brasileiro não é por acaso. Uma investigação feita pela Unearthed, divisão de jornalismo investigativo do Greenpeace britânico, e pela ONG suíça Public Eye mostrou que o Brasil é o maior consumidor de pesticidas classificados como seriamente perigosos para a saúde ou o ambiente.

O estudo, divulgado em fevereiro, levou em conta as vendas no mercado global desses produtos em 2018, antes mesmo do governo Bolsonaro, que tem adotado uma política agressiva de liberação de agrotóxicos e de redução de barreiras a sua aplicação. Dois terços desse total foram adquiridos para a monocultura de soja, principal commodity brasileira no mercado internacional, em boa parte utilizada para a produção de ração animal.

As ONGs fizeram sua investigação a partir de dados da Phillips McDougall, uma das principais empresas globais de inteligência que atuam no setor de agropecuária. A empresa identificou que o mercado dos  agrotóxicos altamente perigosos movimentou US$ 9,9 bilhões naquele ano. Deste total, US$ 2,2 bilhões foram adquiridos pelo mercado brasileiro. Destacam que o consumo do agronegócio brasileiro deve ser ainda maior, pois a empresa conseguiu monitorar apenas metade do mercado nacional de agrotóxicos.

Ainda segundo a pesquisa, apenas cinco empresas foram responsáveis por 80% das vendas de agrotóxicos no país e 75% das vendas dos altamente tóxicos. São elas as cinco gigantes do setor: Syngenta, Bayer, Basf, Corteva e FMC. Todas integrantes da Croplife international e de sua filial brasileira. Destaca ainda que muitos desses agrotóxicos altamente perigosos têm o uso proibido no país de origem dessas empresas, mesmo que seja produzido lá.

A geógrafa Larissa Mies Bombardi, autora da publicação Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, afirma que, apesar de ter uma política rigorosa para o uso de agrotóxicos em seu território, a União Europeia não controla os produtos fabricados por empresas de seus países, como mostrou um estudo recente do Greenpeace da Alemanha.

Os agrotóxicos proibidos chegam a ser produzidos em território europeu e exportados para países com legislação mais permissiva, caso do Brasil. Nas regiões em que são utilizados, esses venenos causam danos à saúde das pessoas, contaminação da água e do solo e desequilíbrio ambiental, como a mortandade de abelhas no Rio Grande do Sul.

Gigantes da imprensa brasileira apoiam evento

O Congresso Brasileiro do Agronegócio tem o apoio institucional de 32 publicações da imprensa especializada, entre elas dois veículos ligados aos maiores grupos empresarias do Brasil: o Valor Econômico, das Organizações Globo, e o terraviva, da Rede Bandeirantes.

O jornalista William Waack será o moderador dos três painéis do encontro. Ele já havia participado do congresso em anos anteriores. Atualmente na CNN Brasil, Waack foi demitido da Rede Globo em 2017, depois da divulgação de um vídeo em que ele faz um comentário racista a um entrevistado em uma conversa fora do ar.

Leonardo Fuhrmann é repórter do De Olho nos Ruralistas |

Foto principal (Nacho Lemus/Telesur): protesto do MST na sede da Bayer, em São Paulo, em 2019

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Este texto foi inicialmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

O Diagnóstico, documentário mostra os danos dos agrotóxicos à saúde

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O documentário é dirigido por Beto Novaes, professor aposentado e coordenador do projeto Educação Através das Imagens, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No filme, conhecemos a história de Lídia e vemos as diferentes dimensões que o agrotóxico causa nos planos individual e coletivo. A importância do tema tratado no documentário abrange toda a sociedade e, inclusive, o sistema de saúde.

Beto Novaes desenvolve, desde meados dos anos 1970, pesquisas e atividades de extensão baseadas no uso de imagens sobre trabalho e trabalhadores, em sua maioria no setor rural. A intenção, com o projeto, é aproximar a pesquisa acadêmica da sociedade, através das imagens. Por isso, trabalha temas como a exploração do trabalho e as migrações no mundo rural, trabalho infantil e das mulheres, resistências dos trabalhadores, agroecologia e enfrentamento aos agrotóxicos, como em O Diagnóstico.