Agrotóxicos: entre o que se aplica, o que chega à cultura e o que efetivamente alcança o alvo

Quase três décadas de avanços tecnológicos tornaram a pulverização mais precisa, mas não eliminaram as perdas para outros compartimentos ambientais nem resolveram a enorme distância entre a quantidade aplicada e aquela que efetivamente alcança o organismo-alvo

Quando David Pimentel e Lois Levitan publicaram, em 1986, o artigo Pesticides: Amounts Applied and Amounts Reaching Pests, chamaram atenção para uma característica desconcertante do modelo de controle químico de pragas: frequentemente, menos de 0,1% dos agrotóxicos aplicados às culturas alcançava efetivamente as pragas-alvo. A eficiência, entretanto, variava muito conforme o tipo de aplicação. O problema levantado pelos autores era justamente a enorme distância existente entre a quantidade lançada no ambiente e aquela que efetivamente cumpria a finalidade para a qual havia sido aplicada.

Vinte e oito anos depois, Peter Kryger Jensen e Merete Halkjær Olesen abordaram o problema por outro ângulo. Em uma revisão publicada na revista Crop Protection, os pesquisadores analisaram estudos de balanço de massa das pulverizações, procurando determinar quanto do produto aplicado ficava depositado sobre a cultura, quanto chegava ao solo e quanto era transportado para fora da área tratada por deriva.

A comparação entre os dois trabalhos exige uma distinção fundamental. Chegar à cultura não significa chegar à praga. Pimentel e Levitan estavam interessados principalmente na parcela que efetivamente alcançava o organismo que se pretendia controlar. Jensen e Olesen analisaram sobretudo a eficiência física da pulverização. Assim, uma aplicação pode apresentar elevada deposição sobre folhas e frutos e, ainda assim, apenas uma pequena parcela da dose original alcançar o inseto, patógeno ou planta daninha que justificou sua utilização.

A tecnologia avançou, mas as perdas permaneceram

Entre os dois estudos ocorreu um importante desenvolvimento tecnológico. Melhorias nos bicos, controle do tamanho das gotas, assistência de ar, sistemas de reciclagem e equipamentos como os tunnel sprayers aumentaram substancialmente a capacidade de colocar o produto sobre a vegetação e reduzir determinadas formas de perda.  Jensen e Olesen encontraram situações em que a deposição sobre a cultura ultrapassava 70% ou mesmo 80%, mas também demonstraram enorme variação conforme cultura, estágio de desenvolvimento e tecnologia utilizada. Em videiras, por exemplo, pulverizadores convencionais apresentaram frações não contabilizadas entre aproximadamente 10,8% e 25,7%, enquanto nos sistemas em túnel esses valores ficaram entre 0% e 7,3%.

Isso demonstra um ganho tecnológico real. Mas não significa que o problema ambiental tenha desaparecido.  O fato é que em aplicações convencionais sobre macieiras, 20% a 40% da quantidade aplicada não foi recuperada nas plantas ou no solo. Em outros sistemas de fruticultura, a fração não contabilizada alcançou 38,2% na laranja, 50,4% no pêssego e 61,8% na tangerina. Além disso, as condições meteorológicas alteraram radicalmente os resultados: em um experimento com macieiras, a recuperação da dose caiu de 91% pela manhã para apenas 68% ao meio-dia, sob temperatura mais elevada e menor umidade relativa.

O paradoxo da eficiência

Há, entretanto, uma segunda dimensão que precisa ser incorporada a essa discussão. Enquanto aperfeiçoamos as tecnologias de aplicação, ampliamos enormemente a escala em que os agrotóxicos são utilizados pela agricultura. E isso significa que o problema não pode ser analisado apenas em termos percentuais.   Mas uma redução relativa das perdas não implica necessariamente redução da quantidade absoluta de substâncias químicas transferidas para o ambiente.  É que se a quantidade total aplicada aumenta, mesmo uma porcentagem menor de perda pode representar uma massa considerável de agrotóxicos alcançando lugares que nunca foram seus alvos.

E aquilo que não chega ao alvo não simplesmente desaparece. Jensen e Olesen lembram que as perdas durante a aplicação são inevitáveis e que a deposição no solo constitui uma fonte potencial de lixiviação e contaminação das águas superficiais e subterrâneas. Os autores também chamam atenção para a deriva aérea, cuja quantificação continua metodologicamente difícil e que pode representar uma fração significativa do produto aplicado.

Assim, o que aparece como “perda” do ponto de vista agronômico deve ser entendido ambientalmente como transferência. O produto pode chegar ao solo, às águas superficiais e subterrâneas e à atmosfera e, por essas diferentes rotas, criar condições de exposição de organismos não alvo. É nesse contexto mais amplo que precisam ser considerados os impactos sobre plantas, microrganismos, insetos, polinizadores, organismos aquáticos, aves e também seres humanos. A extensão concreta desses efeitos, entretanto, precisa ser estabelecida por estudos toxicológicos e ambientais específicos, pois não foi objeto da revisão de Jensen e Olesen.

Mais precisão não resolve uma questão de escala

Colocados lado a lado, os dois estudos revelam uma contradição importante. Em 28 anos, aperfeiçoamos consideravelmente a capacidade de entregar o agrotóxico à cultura, mas não eliminamos sua transferência para compartimentos que não constituíam o alvo. Tampouco Jensen e Olesen oferecem evidências de que essa melhoria na deposição tenha produzido um aumento equivalente na fração da dose original que efetivamente alcança o organismo que se pretende controlar.

Por isso, o valor de menos de 0,1% apresentado por Pimentel e Levitan não deve ser simplesmente transportado para os dias atuais como se décadas de inovação tecnológica não tivessem ocorrido. Mas também não há nesses trabalhos evidência de que o problema fundamental identificado em 1986 tenha sido resolvido. Talvez esteja aí o aspecto mais inquietante dessa comparação.  A melhoria tecnológica tornou mais eficiente o processo de pulverização, mas simultaneamente aumentamos a escala na qual pulverizamos. Quando essas duas tendências são combinadas, ganhos relativos de eficiência podem ser anulados pelo crescimento absoluto da quantidade utilizada, mantendo ou mesmo ampliando a pressão química exercida sobre os sistemas ambientais.

A pergunta relevante, portanto, não deveria ser apenas quanto do agrotóxico conseguimos colocar sobre uma lavoura. Deveríamos perguntar quanto efetivamente chega ao organismo-alvo, quanto é necessário aplicar para produzir esse resultado e onde termina todo o restante. Afinal, aperfeiçoar a entrega é importante. Mas, diante da expansão do uso dessas substâncias, a questão ambiental fundamental continua sendo outra: quanto mais agrotóxico colocamos em circulação, maior é a importância de saber quanto dele vai parar justamente onde nunca deveria ter chegado.

Dossiê reúne uma década de evidências científicas sobre a relação entre agrotóxicos e câncer

Produzido pela Naturaleza de Derechos, documento sistematiza estudos publicados entre 2015 e 2026 e reforça a urgência de rever a regulação dos agrotóxicos diante da exposição ambiental e alimentar das populações 

A organização argentina Naturaleza de Derechos acaba de apresentar o Dossiê de Evidências Científicas 2015-2026 — Agrotóxicos & Câncer, publicação que reúne e sistematiza as evidências produzidas ao longo da última década sobre a relação entre a exposição a agrotóxicos e diferentes processos carcinogênicos.

O mérito do trabalho está justamente em reunir diferentes linhas de investigação que, consideradas em conjunto, permitem observar a dimensão do problema. O dossiê incorpora estudos epidemiológicos em seres humanos, estudos de coorte e de caso-controle, bioensaios experimentais e pesquisas sobre genotoxicidade, alterações epigenéticas, estresse oxidativo, imunotoxicidade e biomarcadores, além de trabalhos sobre os efeitos da exposição simultânea a diferentes substâncias.

É preciso tratar esse debate sem eufemismos. Quando se fala em câncer, está em questão um dos mais graves problemas de saúde pública. E quando as evidências científicas apontam para substâncias associadas a processos carcinogênicos presentes no ambiente, na água, nos territórios onde as pessoas vivem e nos alimentos que consomem, o problema deixa de ser apenas ambiental ou ocupacional para envolver diretamente a saúde coletiva e a segurança alimentar.

Segundo a sistematização apresentada no dossiê, a literatura científica aponta associações entre a exposição a determinados agrotóxicos e diferentes tipos de câncer, incluindo neoplasias hematológicas, câncer colorretal, câncer de mama, câncer de tireoide e tumores do sistema nervoso central. Ao mesmo tempo, estudos experimentais e mecanísticos vêm identificando processos biológicos relacionados à carcinogênese, ampliando a compreensão sobre as diferentes maneiras pelas quais essas substâncias podem produzir danos celulares.

Outro aspecto importante destacado pela publicação é que a exposição humana não ocorre de maneira isolada. Na vida real, as pessoas entram em contato com diferentes princípios ativos, formulações comerciais, metabólitos e coformulantes, por múltiplas vias e muitas vezes simultaneamente. Por isso, pesquisas mais recentes têm avançado na avaliação das misturas e de cenários de exposição mais próximos daqueles efetivamente experimentados pelas populações.

A questão ganha ainda maior relevância quando se considera a alimentação. O dossiê dedica um capítulo específico à exposição alimentar, relacionando as evidências científicas sobre câncer aos resultados de El Plato Fumigado 2024, também produzido pela Naturaleza de Derechos a partir de dados oficiais de monitoramento de resíduos do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (SENASA).

Os resultados de El Plato Fumigado 2024 tornam o problema bastante concreto: substâncias que despertam preocupação científica por seus possíveis efeitos sobre a saúde também aparecem como resíduos em alimentos comercializados e consumidos pela população argentina. Portanto, não estamos diante apenas de uma discussão abstrata sobre toxicologia, mas de uma questão diretamente relacionada ao funcionamento cotidiano do sistema alimentar.

Nesse contexto, o novo dossiê reforça a necessidade de uma reavaliação regulatória abrangente e periódica dos agrotóxicos pelo SENASA, incorporando as evidências científicas mais recentes. Essa revisão deveria considerar não apenas os princípios ativos isoladamente, mas também as formulações comerciais, metabólitos, coformulantes, misturas e as diferentes vias pelas quais ocorre a exposição humana.

A discussão ultrapassa o caso argentino. Para um país como o Brasil, que possui extensas áreas agrícolas submetidas ao uso intensivo de agrotóxicos, as questões levantadas pela Naturaleza de Derechos deveriam receber atenção especial. Afinal, os possíveis impactos não se restringem aos trabalhadores que aplicam essas substâncias, alcançando também populações rurais, comunidades próximas às áreas agrícolas, recursos hídricos potencialmente contaminados e consumidores expostos por meio dos alimentos.

O Dossiê de Evidências Científicas 2015-2026 — Agrotóxicos & Câncer oferece, assim, uma contribuição importante para um debate que não pode continuar sendo tratado como secundário. Quando diferentes linhas de investigação acumulam evidências sobre possíveis relações entre determinadas exposições e processos carcinogênicos, a prevenção precisa ocupar posição central nas políticas de saúde pública e nos sistemas regulatórios.

A verdade é que esperar que todas as dúvidas científicas desapareçam antes de adotar medidas preventivas, significa de forma objetiva, transferir para a população os riscos decorrentes da incerteza. Quando a exposição ocorre pelo ambiente, pela água, pelo trabalho e pelos alimentos, cabe aos órgãos reguladores acompanhar o avanço do conhecimento científico e adotar medidas capazes de proteger efetivamente a saúde humana.

A mensagem que emerge do trabalho produzido pela Naturaleza de Derechos é clara: diante do acúmulo de evidências científicas e da exposição cotidiana das populações, a prevenção não pode ser tratada como uma alternativa facultativa. Ela deve constituir uma obrigação sanitária e regulatória, na qual a proteção da saúde humana prevaleça sobre os interesses econômicos associados à manutenção do uso de substâncias sobre as quais pesam evidências relevantes de risco.

Glifosato não precisa matar as abelhas para ameaçá-las: estudo revela alterações no forrageamento e na química cerebral

Pesquisa publicada no Journal of Experimental Biology mostra que exposição subletal ao herbicida reduz a atividade de forrageamento das abelhas e altera processos neuroquímicos, somando-se a um conjunto crescente de evidências sobre impactos do glifosato em organismos não alvo e possíveis riscos à saúde humana

Durante décadas, uma das principais linhas de defesa utilizadas para sustentar a suposta segurança ambiental do glifosato esteve baseada no argumento de que seu mecanismo de ação teria como alvo uma via metabólica presente em plantas e microrganismos, mas inexistente nos animais. Um estudo publicado em maio de 2025 no Journal of Experimental Biology acrescenta novas evidências de que essa interpretação é insuficiente para compreender os efeitos ecológicos do herbicida.

O artigo, intitulado “Sublethal glyphosate exposure reduces honey bee foraging and alters the balance of biogenic amines in the brain“, tem como primeira autora Laura C. McHenry, pesquisadora que realizou o trabalho no Departamento de Entomologia da Virginia Tech, nos Estados Unidos. O estudo foi desenvolvido juntamente com Roger Schürch, McAlister Council-Troche, Aaron D. Gross, Lindsay E. Johnson, Bradley D. Ohlinger e Margaret J. Couvillon.

A importância da pesquisa começa justamente pelo conceito de exposição subletal. Em vez de perguntar apenas se determinada concentração de glifosato mata uma abelha, McHenry e seus colaboradores investigaram algo ecologicamente mais complexo: se uma concentração que não provoca mortalidade imediata é capaz de modificar comportamentos essenciais para a sobrevivência das abelhas e, consequentemente, para o funcionamento das colônias.

Os pesquisadores treinaram grupos de abelhas (Apis mellifera) das mesmas colmeias para visitar alimentadores artificiais contendo solução de sacarose. Um grupo recebeu apenas a solução açucarada, enquanto outro foi exposto a uma solução contendo glifosato na concentração de 5 mg de equivalente ácido por litro. Posteriormente, os pesquisadores compararam o comportamento de forrageamento e recrutamento das abelhas e analisaram substâncias relacionadas ao funcionamento do sistema nervoso desses insetos.

O resultado merece atenção: as abelhas expostas ao glifosato reduziram em 13,4% sua atividade de forrageamento. Os pesquisadores também encontraram alterações envolvendo a tiramina e relações entre tiramina, octopamina e tirosina no cérebro das abelhas. Essas chamadas aminas biogênicas desempenham funções importantes na regulação do comportamento dos insetos.

Isso significa que a toxicidade ambiental não pode ser medida exclusivamente contando organismos mortos. Uma abelha pode permanecer viva e, ainda assim, ter reduzida sua capacidade de executar atividades fundamentais para a colônia. Forragear significa localizar recursos, coletar néctar e pólen e contribuir para a manutenção energética e nutricional da colmeia. Uma redução persistente nessa atividade pode adquirir consequências que ultrapassam amplamente o indivíduo contaminado.

E existe aqui uma dimensão ainda maior. As abelhas estão entre os principais polinizadores dos ecossistemas terrestres e desempenham um papel fundamental tanto na reprodução de plantas silvestres quanto na produção agrícola. Assim, alterações aparentemente discretas no comportamento individual podem potencialmente produzir consequências em cascata quando milhões de indivíduos são continuamente expostos em paisagens agrícolas dominadas pelo uso intensivo de agrotóxicos.

O estudo de McHenry e colaboradores também não aparece isoladamente. Pesquisas anteriores já haviam identificado diversos efeitos subletais do glifosato sobre abelhas, incluindo alterações da homeostase fisiológica, desregulação imunológica, mudanças nos padrões de sono, redução da capacidade de navegação, menor resposta à sacarose e prejuízos à aprendizagem associativa e à retenção da memória olfativa. Os próprios autores recuperam essa literatura ao contextualizar seus resultados.

Outro resultado particularmente importante havia sido publicado em 2018 na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Erick V. S. Motta, Kasie Raymann e Nancy A. Moran demonstraram que o glifosato pode modificar a microbiota intestinal das abelhas, reduzindo populações de bactérias benéficas. As abelhas expostas tornaram-se posteriormente mais vulneráveis à bactéria oportunista Serratia marcescens. Em outras palavras, o herbicida pode produzir efeitos indiretos sobre um animal justamente porque interfere nos microrganismos dos quais esse animal depende.

Essa constatação desmonta uma simplificação recorrente no discurso sobre a segurança do glifosato. O fato de os animais não possuírem a via do chiquimato, que constitui o alvo primário do herbicida nas plantas, não significa automaticamente que estejam protegidos de seus efeitos. Animais vivem associados a comunidades microbianas, enquanto processos de estresse oxidativo, alterações metabólicas e outros mecanismos podem oferecer caminhos adicionais de toxicidade.

O problema vai muito além das abelhas

A literatura científica disponível indica que os efeitos potenciais do glifosato e de suas formulações comerciais precisam ser examinados em uma escala ecotoxicológica muito mais ampla. Estudos com organismos aquáticos, por exemplo, vêm relatando alterações fisiológicas, histológicas, metabólicas e comportamentais. Uma revisão sobre glifosato e seu principal produto de degradação, o AMPA, reuniu evidências de impactos em organismos aquáticos, particularmente peixes.

Uma síntese mais recente da ecotoxicidade do glifosato em ambientes aquáticos identificou efeitos associados a mecanismos como estresse oxidativo, inibição enzimática e alterações endócrinas, com possíveis consequências neurológicas, reprodutivas e de desenvolvimento em diferentes grupos taxonômicos. Isso é especialmente preocupante porque a utilização agrícola em grande escala cria múltiplas rotas pelas quais resíduos podem alcançar solos, águas superficiais e organismos que jamais foram o alvo da aplicação do herbicida.

Temos, portanto, um problema típico da agricultura quimicamente intensiva: o agrotóxico é aplicado para controlar uma espécie ou conjunto de espécies consideradas indesejáveis, mas sua circulação não respeita as fronteiras do campo cultivado. Deriva, escoamento superficial, transporte pelo solo e contaminação da água ampliam espacialmente a exposição e transformam uma decisão agronômica localizada em um problema potencialmente ecossistêmico.

E os seres humanos?

Quando passamos para a saúde humana, é necessário reconhecer que existe uma controvérsia científica e regulatória importante. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato no Grupo 2A, isto é, como “provavelmente carcinogênico para humanos”. A avaliação considerou evidência limitada de carcinogenicidade em seres humanos, evidência suficiente em animais experimentais e fortes evidências de genotoxicidade.

A associação epidemiológica com câncer continua sendo debatida. Uma meta-análise publicada em 2019 encontrou associação entre as categorias de maior exposição a herbicidas à base de glifosato e maior risco de linfoma não Hodgkin. Por outro lado, uma meta-análise posterior não encontrou associação estatisticamente significativa para linfoma não Hodgkin considerado em conjunto, embora tenha indicado que uma associação com determinados subtipos, particularmente o linfoma difuso de grandes células B, não poderia ser descartada.

Essa divergência é importante porque mostra que não se deve apresentar como consenso científico aquilo que continua sendo objeto de disputa. Também revela a diferença entre identificação de perigo e avaliação de risco. A classificação da IARC procura determinar se uma substância possui capacidade de provocar câncer sob determinadas condições de exposição; avaliações regulatórias procuram estimar o risco considerando níveis e formas específicas de exposição.

É justamente por isso que existe contraste entre instituições. Em 2023, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) informou que sua revisão não identificara “áreas críticas de preocupação” que impedissem a renovação da autorização do glifosato, embora tenha reconhecido lacunas de dados em determinados aspectos da avaliação.

Entretanto, novas evidências experimentais continuam aparecendo. Em 2025, pesquisadores ligados ao Global Glyphosate Study publicaram na revista Environmental Health os resultados de um experimento de carcinogenicidade realizado com ratos Sprague-Dawley expostos desde a vida pré-natal ao glifosato e a formulações comerciais contendo o herbicida. O estudo encontrou aumento estatisticamente significativo de diferentes tipos de tumores nos grupos expostos, inclusive em algumas das doses estudadas dentro de faixas utilizadas como referência regulatória.

Nenhum desses estudos, isoladamente, encerra a discussão sobre os riscos do glifosato. Mas o conjunto das evidências torna cada vez mais difícil sustentar a imagem de uma substância ambientalmente inócua simplesmente porque sua toxicidade aguda para determinados animais é relativamente baixa.

A morte não pode continuar sendo a única medida da toxicidade

É justamente nesse ponto que o trabalho liderado por Laura C. McHenry adquire relevância especial. A pergunta fundamental deixa de ser “quanto glifosato é necessário para matar uma abelha?” e passa a ser “o que acontece com uma abelha que permanece viva depois de ser exposta ao glifosato?”.

Essa mudança parece pequena, mas possui enormes implicações para a maneira como avaliamos agrotóxicos. Um organismo pode sobreviver e apresentar alterações na memória, orientação espacial, alimentação, reprodução, imunidade, microbiota ou comportamento. Quando esses efeitos atingem organismos sociais como as abelhas, alterações individuais podem potencialmente repercutir sobre a organização da colônia inteira.

E quando o organismo afetado é um polinizador, as consequências potenciais avançam ainda mais pela cadeia ecológica.  A pesquisa publicada no Journal of Experimental Biology contribui, portanto, para questionar um paradigma regulatório excessivamente concentrado na toxicidade aguda. Ecossistemas não são constituídos simplesmente por organismos “vivos” ou “mortos”. Eles dependem de relações ecológicas, comportamentos, processos fisiológicos, reprodução, comunicação, competição, mutualismos e inúmeras outras interações.

O glifosato pode não matar imediatamente uma abelha exposta a uma determinada concentração. Mas uma abelha que forrageia menos, navega pior, apresenta alterações neuroquímicas ou possui microbiota intestinal modificada não é ecologicamente equivalente a uma abelha não exposta.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das principais lições desse novo estudo: quando milhões de organismos são submetidos repetidamente a exposições subletais, aquilo que parece pequeno no laboratório pode deixar de ser pequeno na escala de uma paisagem agrícola inteira.  A pergunta que deveria orientar políticas públicas e sistemas de avaliação ambiental, portanto, não é apenas quanto de um agrotóxico um organismo consegue suportar antes de morrer. A questão deveria ser muito mais exigente: quanto é possível alterar silenciosamente o funcionamento dos organismos antes de comprometer também o funcionamento dos ecossistemas dos quais dependemos?

Os agrotóxicos não estão apenas nos deixando doentes, eles estão cozinhando o planeta

Por Lee Evslin para “The New Lede”

Escrevo isto como pediatra que passou mais de uma década documentando como os agrotóxicos afetam direta e negativamente a saúde das crianças. Mas há uma segunda história escondida dentro daquela que costumo contar, e ela raramente entra no debate: o mesmo sistema de agricultura industrial baseado em agrotóxicos sintéticos e fertilizantes nitrogenados também está silenciosamente destruindo o planeta.

O recente aquecimento recorde do Oceano Pacífico, as mortes causadas pelo calor na Europa, os incêndios florestais em todo o mundo e a onda de calor que assola os EUA criam uma necessidade urgente de compreender todos os principais fatores que impulsionam as mudanças climáticas, incluindo aqueles sobre os quais normalmente não falamos.

Descobriu-se que os sistemas alimentares globais produzem  16 bilhões de toneladas métricas  de CO2 equivalente por ano, ou aproximadamente  um terço  de todas as emissões de gases de efeito estufa causadas pela atividade humana. Dois insumos agrícolas em particular, os agrotóxicos e os fertilizantes nitrogenados sintéticos, merecem muito mais atenção do que geralmente recebem nas discussões sobre saúde ou clima.

Os agrotóxicos e as mudanças climáticas representam um ciclo vicioso  Pesquisadores descreveram recentemente um padrão com consequências perigosamente abrangentes. 

  1. Os agrotóxicos são produzidos a partir de combustíveis fósseis, e sua produção consome muita energia. A fabricação de um quilograma de ingrediente ativo de  agrotóxico requer, em média, cerca de dez vezes mais energia do que a fabricação de um quilograma de fertilizante nitrogenado.
  2. Os agrotóxicos continuam a emitir substâncias mesmo após a aplicação. Muitos volatilizam-se para o ar como compostos que contribuem para a formação de ozono, e os fumigantes de solo amplamente utilizados  aumentam drasticamente as emissões de óxido nitroso do soloOs agrotóxicos também perturbam as comunidades microbianas do solo. Isto  degrada um dos sistemas naturais de remoção de carbono mais importantes da agricultura .
  3. O agravamento das mudanças climáticas enfraquece as plantações e pode gerar mais insetos e ervas daninhas mais resistentes. Essa combinação exige ainda mais agrotóxicos e fertilizantes.
  4. Resultado final: mudanças climáticas cada vez piores e um número crescente de substâncias químicas perigosas em nossos alimentos, nossa água e em todos os nossos corpos.

Os fertilizantes nitrogenados atuam como superpoluentes  Quando o uso intensivo de agrotóxicos degrada o solo, o uso abundante de fertilizantes torna-se vital apenas para manter o crescimento das plantações. O fertilizante nitrogenado sintético é fabricado combinando nitrogênio atmosférico com hidrogênio proveniente do gás natural sob calor e pressão extremos, um processo que, por si só, responde por cerca de  39%  da pegada climática do fertilizante.

Mas, assim como acontece com os agrotóxicos, o problema maior surge depois que o produto chega ao campo. Os micróbios do solo convertem o nitrogênio aplicado em óxido nitroso, um gás com um poder de aquecimento cerca de  273 vezes maior que o do dióxido de carbono. Uma avaliação recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente constatou que as emissões de óxido nitroso provenientes da agricultura aumentaram 40% entre 1980 e 2020 , e o classificou como um “superpoluente” devido ao seu papel duplo no aquecimento global e na destruição da camada de ozônio.

Além disso, os agricultores aplicam rotineiramente  muito mais nitrogênio do que as culturas conseguem utilizar , chegando a 5,8 milhões de toneladas métricas em excesso somente em 2023 no cinturão do milho e da soja, produzindo emissões equivalentes à circulação de 8 a 14 milhões de carros a gasolina adicionais. O nitrogênio não utilizado não desaparece simplesmente. Ele se infiltra no lençol freático e chega aos cursos d’água, alimentando a  proliferação de algas e a eutrofização  , que geram ainda mais gases de efeito estufa.

O problema do solo  Um solo saudável é um dos maiores reservatórios de carbono do planeta, mas a agricultura intensiva em produtos químicos esgota esse reservatório em vez de o aumentar. O contraste na captura de carbono entre a agricultura convencional atual e a agricultura orgânica/regenerativa é dramático. Os sistemas orgânicos  sequestram carbono do solo a uma taxa aproximadamente quatorze vezes maior do  que a agricultura convencional. Práticas regenerativas, quando aplicadas corretamente, poderiam  sequestrar até 23 gigatoneladas de CO2 até 2050 , e  o plantio direto, por si só, já foi associado a reduções de CO2 de até 47% .

As empresas de sementes químicas frequentemente afirmam que as culturas transgênicas Roundup Ready também facilitam e tornam mais comum o plantio direto, permitindo que os agricultores eliminem ervas daninhas com produtos químicos em vez de arar. Mas até mesmo essa solução está se desfazendo. Com a disseminação de ervas daninhas resistentes ao glifosato,  a intensidade do preparo do solo aumentou novamente desde 2008 , e uma análise amplamente citada constatou que a alegação subjacente de redução de carbono pelo plantio direto com base em produtos químicos pode ser  um artefato de amostragem superficial do solo  , em vez de um ganho líquido real. A solução para o solo pode ser menos duradoura do que a indústria alega e vem acompanhada da própria dependência química que impulsiona a crise de saúde.

E a crise de saúde não é hipotética  Um  estudo de 2025 do Centro Médico da Universidade de Nebraska  descobriu que um aumento de 10% na exposição a misturas de agrotóxicos estava associado a um aumento de 36% nos casos de câncer cerebral e do sistema nervoso central em crianças e a um aumento de 23% nos casos de leucemia. Um  relatório de Iowa de 2026  relacionou a taxa de câncer do estado, agora a segunda mais alta do país, em parte à exposição a agrotóxicos. Não se trata dos mesmos produtos químicos aparecendo por coincidência em duas notícias ruins diferentes. Trata-se do mesmo modelo de negócios.

A argumentação climática contra esse sistema não é especulativa. Ela se baseia em um crescente corpo de pesquisas sobre o ciclo de vida e emissões em campo, abrangendo fabricação, aplicação e efeitos subsequentes nos ecossistemas. Como essas emissões são difusas, espalhadas por milhões de fazendas em vez de concentradas em algumas chaminés, elas escaparam do escrutínio regulatório que aplicamos a usinas de energia e frotas de veículos. Isso está começando a mudar à medida que os pesquisadores constroem um levantamento mais completo da cadeia de suprimentos de agroquímicos. As políticas públicas, porém, ainda não acompanharam essa mudança.

Não estamos obrigados a escolher entre alimentar as pessoas e manter o planeta e as pessoas que nele habitam saudáveis.

Reduzir a aplicação desnecessária de nitrogênio, intensificar a fiscalização de agrotóxicos e investir em práticas regenerativas nos ajudará a reconstruir o carbono do solo e a reduzir a dependência de agrotóxicos e fertilizantes. As duas lutas, saúde e clima, nunca foram separadas. Já passou da hora de começarmos a tratá-las como tal.

(Os artigos de opinião publicados no The New Lede representam os pontos de vista dos autores e não necessariamente a perspectiva dos editores do TNL.)

Lee A. Evslin, MD, FAAP, é pediatra certificado e ex-CEO de hospital. Foi membro da Força-Tarefa de  Agrotóxicos patrocinada pelo estado do Havaí e recebeu reconhecimento especial da Academia Americana de Pediatria por seu trabalho legislativo, que ajudou a tornar o Havaí o primeiro estado a proibir o clorpirifós. É autor do livro ”  Café da Manhã na Monsanto: O Roundup em nossos alimentos está nos deixando mais doentes, mais gordos e mais tristes?”  e foi palestrante principal na Cúpula de Ciência da Assembleia Geral da ONU de 2022, sobre o tema da toxicidade do glifosato.


Fonte: The New Lede

Estudo revela que agrotóxicos de uso corrente danificam o DNA das células intestinais humanas — mesmo em doses muito baixas

Por Sustainable Pulse

Cientistas do projeto SPRINT, na União Europeia, testaram dez agrotóxicos amplamente utilizados em fazendas europeias — incluindo o herbicida glifosato, diversos inseticidas e alguns fungicidas — para verificar se eles danificam o DNA em células intestinais humanas cultivadas em laboratório. Eles também testaram dois “coquetéis” realistas, feitos combinando vários desses agrotóxicos, já que, na vida real, as pessoas raramente são expostas a apenas um produto químico por vez.

Os resultados, revisados ​​por pares, comprovaram que a maioria dos agrotóxicos causou danos ao DNA, e alguns o fizeram em concentrações muito menores do que as relatadas anteriormente — em alguns casos, próximas aos níveis que os órgãos reguladores consideram atualmente “seguros” para exposição diária.

“As conclusões do projeto SPRINT destacaram a presença ubíqua e os efeitos tóxicos das misturas de agrotóxicos, mesmo em baixas doses”, afirmou o Dr. Daniele Mandrioli, Investigador Principal e Líder do Grupo de Trabalho de Toxicologia do SPRINT.

Por que este estudo foi realizado

Em todo o mundo, são aplicados agrotóxicos em plantações para afastar insetos, ervas daninhas e fungos. Como parte de um amplo projeto de pesquisa europeu chamado SPRINT, pesquisadores já haviam descoberto que resíduos de múltiplos agrotóxicos estão praticamente em todos os lugares nas regiões agrícolas — no solo, na água, nas plantações, na poeira doméstica e até mesmo no ar dentro das casas dos agricultores. O que não estava claro era se esses produtos químicos, sozinhos ou misturados, poderiam de fato prejudicar as células humanas nos níveis aos quais as pessoas estão realisticamente expostas.

Um importante sinal de alerta para o perigo a longo prazo de um produto químico é se ele é “genotóxico” — ou seja, se danifica ou altera o DNA. Danos ao DNA são uma das vias bem estabelecidas que podem levar ao câncer e outras doenças crônicas ao longo do tempo. Portanto, testar a genotoxicidade de agrotóxicos é uma etapa padrão e importante para determinar se eles são seguros para uso.

Como funciona o teste

Os pesquisadores utilizaram um teste laboratorial consagrado e reconhecido internacionalmente, chamado ensaio de micronúcleos . Eis a ideia básica, em termos simples:

  • Células intestinais humanas (de uma linhagem celular chamada Caco-2, comumente usada como modelo para o revestimento intestinal) foram cultivadas em placas de Petri e brevemente expostas a um agrotóxico.
  • Em seguida, as células foram deixadas dividir-se uma vez e, posteriormente, adicionou-se uma substância química que as impedia de se dividirem em duas células separadas (para que os cientistas pudessem ter certeza de que cada célula realmente tentou se dividir).
  • Ao microscópio, os técnicos procuravam minúsculos aglomerados extras de material genético fora do núcleo principal, chamados micronúcleos . Eles se formam quando os cromossomos de uma célula são danificados ou dispersos durante a divisão celular — são basicamente um sinal visível de que algo deu errado com o DNA.
  • Mais micronúcleos = mais danos ao DNA causados ​​pela substância testada.

A equipe também verificou se as doses utilizadas não estavam simplesmente matando um grande número de células (o que tornaria os resultados não confiáveis) — uma etapa fundamental de controle de qualidade exigida pelas diretrizes internacionais de testes.

O que eles testaram

Dez agrotóxicos foram testados individualmente, cada um em cinco doses que variaram de muito baixa (0,01 miligramas por litro) até uma dose alta (100 mg/L):

  • Inseticidas: lambda-cialotrina, cipermetrina, deltametrina, acetamiprida
  • Fungicidas: tebuconazol, ciprodinil, fluopiram, imazalil
  • Herbicida: glifosato
  • Sinergista/coformulante: butóxido de piperonila (um ingrediente adicionado a alguns inseticidas para melhorar a eficácia do princípio ativo)

Eles também testaram duas misturas realistas: uma combinação de 3 agrotóxicos (acetamiprida + glifosato + tebuconazol) e uma combinação de 8 agrotóxicos (adicionando cipermetrina, ciprodinil, deltametrina, lambda-cialotrina e butóxido de piperonila à mistura).

O que eles descobriram

A maioria dos agrotóxicos danificou o DNA. Nove das dez substâncias causaram um aumento significativo de micronúcleos em uma ou mais doses. Apenas o imazalil não pôde ser avaliado adequadamente, pois era muito tóxico para as células mesmo em baixas doses, o que tornou a medição do dano ao DNA não confiável.

O glifosato destacou-se como o mais prejudicial. Causou danos ao DNA em todas as doses testadas, incluindo a mais baixa (0,01 mg/L) — uma concentração bem abaixo dos níveis que demonstraram causar danos em outros tipos de células, como as sanguíneas. Na dose mais alta, o glifosato causou ainda mais danos ao DNA do que o composto químico de “controle positivo” (um composto já conhecido por ser altamente prejudicial, usado para confirmar o funcionamento correto do teste). Isso é notável, visto que a segurança do glifosato tem sido debatida publicamente há anos — a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer o classificou como um provável carcinógeno humano em 2015, uma conclusão contestada por alguns órgãos reguladores.

Alguns agrotóxicos causaram danos que não aumentaram de forma constante com a dose — a cipermetrina, o acetamiprido e o ciprodinil apresentaram danos em algumas doses (frequentemente as mais baixas), mas não em um padrão crescente constante. Os pesquisadores observam que esses resultados merecem confirmação em estudos de acompanhamento.

Três substâncias foram recentemente identificadas como prejudiciais, contradizendo suposições anteriores:

  • O butóxido de piperonila — um aditivo usado em muitos inseticidas piretroides — nunca havia demonstrado causar danos às células humanas, apesar de ser considerado não genotóxico.
  • Anteriormente, acreditava-se que o ciprodinil e a deltametrina não danificavam o DNA, com base em estudos mais antigos em células sanguíneas, mas demonstraram danos claros nessas células intestinais.

As misturas de agrotóxicos também causaram danos.  A mistura de três agrotóxicos causou danos significativos ao DNA mesmo na dose mais baixa, mais do que qualquer um de seus ingredientes isoladamente nessa dose — sugerindo que os efeitos individuais dos produtos químicos se somam.

Por que as baixas doses são importantes?

Uma característica fundamental deste estudo é que ele testou concentrações mais baixas do que a maioria das pesquisas anteriores — chegando perto dos níveis oficiais de “ingestão diária aceitável” (IDA), as doses que os órgãos reguladores consideram atualmente seguras para consumo ao longo da vida. A detecção de danos ao DNA nesses níveis ou próximos a eles é significativa, pois sugere que os limites de segurança atuais para algumas dessas substâncias químicas podem precisar ser revistos.

Esta pesquisa soma-se a um crescente conjunto de evidências de que agrotóxicos agrícolas comuns — incluindo alguns que há muito se supõem seguros do ponto de vista de danos ao DNA — podem prejudicar as células humanas em concentrações surpreendentemente baixas, às vezes próximas aos níveis de exposição atualmente permitidos.


Fonte: Sustainable Pulse

Amplo estudo realizado em Nova York reforça a evidência que associa o glifosato ao risco de parto prematuro

Por Julie Zenderoudi para “The New Lede”

Mulheres grávidas expostas ao glifosato, o herbicida mais  amplamente utilizado no mundo, podem enfrentar um risco maior de partos prematuros, de acordo com um dos maiores estudos já realizados sobre essa relação. 

O estudo, liderado pelo New York University (NYU) Langone Health e publicado na revista Environmental Pollution , mostrou que mulheres grávidas com maior exposição ao glifosato, o ingrediente ativo do herbicida Roundup, apresentaram um risco significativamente maior de entrar em trabalho de parto espontâneo prematuro. Embora pesquisas anteriores já tivessem associado a exposição ao glifosato a gestações mais curtas, o estudo da NYU é um dos maiores a examinar a exposição durante a gravidez e o parto prematuro em humanos.

“Este estudo reforça a ideia de que a exposição ao glifosato durante a gravidez é generalizada e pode estar ligada ao risco de parto prematuro. Mesmo associações modestas são importantes porque a gravidez é um período sensível, e pequenos riscos podem se traduzir em grandes impactos populacionais”, disse Jessie Buckley, professora de epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, em um e-mail.

“A gravidez é um período sensível, e pequenos riscos podem se traduzir em grandes impactos populacionais.” — Jessie Buckley, Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill

Pesquisadores coletaram amostras de urina de 1.450 mulheres que deram à luz entre 2016 e 2019 e descobriram que aquelas com níveis mais altos de glifosato durante o meio da gravidez tinham maior probabilidade de entrar em trabalho de parto espontâneo — ou seja, entrar em trabalho de parto naturalmente antes de 37 semanas, em vez de ter o parto induzido medicamente — em comparação com aquelas com níveis mais baixos.

O parto prematuro é uma das principais causas de doenças e morte em recém-nascidos. Bebês prematuros podem enfrentar uma série de problemas de saúde, incluindo infecções e dificuldades de aprendizagem e desenvolvimento a longo prazo.

As participantes planejavam dar à luz em hospitais da cidade de Nova York, longe de áreas agrícolas, o que sugere que a exposição provavelmente ocorreu por meio dos alimentos. “Não é como se estivessem em populações agrícolas onde há pulverização em larga escala e dispersão de resíduos de herbicidas pelo ar”, disse o Dr. Leonardo Trasande, autor sênior do estudo e professor de pediatria na Escola de Medicina Grossman da NYU.

Buckley observou que a exposição ao glifosato não é algo que as pessoas possam necessariamente evitar. “A exposição ao glifosato é fundamentalmente um problema sistêmico. Reduções reais exigem decisões políticas sobre como e onde o glifosato é usado”, disse Buckley. “Embora a dieta possa influenciar a exposição pessoal, mudanças como a escolha de alimentos orgânicos não estão igualmente disponíveis para todos. Escolhas individuais não podem substituir ações preventivas que eliminem o risco de exposição em primeiro lugar.”

O estudo surge um mês depois de o Supremo Tribunal ter decidido a favor da Monsanto, agora propriedade da Bayer, limitando os processos judiciais de consumidores contra empresas de pesticidas. A decisão no caso Monsanto v. Durnell determinou que as empresas de pesticidas não podem ser responsabilizadas por omitirem avisos sobre o risco de cancro, desde que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) tenha considerado esses avisos desnecessários.

Em fevereiro, o governo Trump assinou uma ordem executiva protegendo a produção de glifosato. A ordem foi amplamente criticada por grupos de saúde pública e ambientalistas.

Um porta-voz da Ruveon, subsidiária da Bayer que administra seus produtos à base de glifosato, afirmou que estão analisando a publicação. “O glifosato tem sido usado com segurança há 50 anos e está entre os produtos de sua categoria mais extensivamente estudados”, diz o comunicado, acrescentando que “nenhuma autoridade regulatória no mundo determinou que o glifosato cause danos reprodutivos ou ao desenvolvimento”.

Trasande acredita que os resultados apresentados no estudo destacam a necessidade de regulamentações mais rigorosas para proteger a saúde de gestantes e bebês, dois grupos especialmente vulneráveis ​​a substâncias químicas no meio ambiente. “Certamente, isso reforça ainda mais a necessidade de mudanças, tanto individuais quanto sociais, em relação ao que comemos e como produzimos [alimentos].”

Imagem em destaque por Eduardo Ramos no Unsplash


Fonte: The New Lede

Livro sobre exposição humana a agrotóxicos é semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico

Por Karen Moraes para o “Portal da Faculdade de Ciêncas Médicas”

A obra Exposição humana a agrotóxicos: problema de saúde coletiva e atuação do SUS, de autoria de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, professor do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, foi indicada como semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026. O título concorre na categoria Enfermagem, Farmácia, Saúde Coletiva e Serviço Social.

A indicação foi anunciada em 15 de julho pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Publicado pela Pontes Editores em 2025, o livro está disponível em versão impressa e também como e-book gratuito. Os cinco finalistas serão divulgados em 27 de julho, durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), com anúncio simultâneo no site oficial do prêmio. A cerimônia de premiação ocorrerá em 11 de agosto.

Lançada em 2025 durante o Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, o Simpósio Internacional de Pesquisa em Enfermagem e um evento na Associação de Docentes da Unicamp (ADunicamp), a publicação reúne resultados de pesquisas, atividades de ensino e ações de extensão desenvolvidas pelo autor. “Os capítulos foram pensados para compor uma obra didática, mas também com nível técnico, voltada a profissionais da saúde e estudantes de graduação e pós-graduação”, afirmou Alonzo.

Exemplares empilhados do livro "Exposição Humana a Agrotóxicos: Problema de Saúde Coletiva e Atuação do SUS", de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, expostos sobre uma mesa.Exemplar impresso de obra indicada ao Jabuti Acadêmico

No capítulo central, Alonzo desenvolve a principal tese do livro: a de que o contato com essas substâncias deve ser compreendido como um problema de saúde coletiva. Segundo o autor, o crescimento do número de formulações e produtos comerciais disponíveis no mercado amplia os riscos para a população. “Quanto maior a utilização, aumentam a exposição, os danos ambientais, a presença de resíduos e o acesso da população a esses agrotóxicos, que também são usados em tentativas de suicídio.”

Alonzo explica que os impactos à saúde podem ser imediatos ou surgir anos após o contato com essas substâncias. “Há efeitos agudos e crônicos. Algumas pessoas adoecem, sofrem intoxicações e podem morrer. Outras, em decorrência da exposição prolongada aos resíduos, desenvolvem danos em diferentes órgãos e sistemas, como o nervoso (central e periférico), respiratório, cardiovascular, gastrointestinal, imunológico e endócrino, além do fígado, dos rins, da pele, das mucosas e de diversos tipos de câncer.”

Também podem ocorrer danos à saúde reprodutiva, como abortos, alterações na qualidade dos óvulos e do sêmen, malformações congênitas e baixo peso ao nascer. Em crianças e adolescentes, o pesquisador relaciona o contato com as substâncias a prejuízos cognitivos e de aprendizagem, além do aumento do risco de alguns tipos de câncer infantil, especialmente tumores cerebrais e leucemias, associados tanto à exposição dos pais quanto dos próprios filhos.

Um homem de barba e camisa listrada gesticula enquanto conversa com uma mulher de blazer vermelho e broche contra agrotóxicos, cercados por outras pessoas em uma feira ou evento.Lançamento do livro no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em Brasília

A disponibilização gratuita do e-book, segundo Alonzo, busca ampliar o acesso de estudantes e profissionais de saúde a um material didático ainda escasso sobre o tema. “A literatura disponível hoje sobre intoxicações é voltada principalmente para situações agudas e de pronto-socorro. O livro propõe uma abordagem diferente, com estratégias direcionadas aos profissionais da atenção primária.”

A estrutura da obra acompanha uma sequência didática. Os primeiros capítulos apresentam conceitos básicos e a classificação dos agrotóxicos; na sequência, são abordadas formas de identificar pessoas expostas na rotina dos serviços de saúde; por fim, o livro reúne orientações para a investigação clínica e o manejo desses casos.

“No primeiro capítulo, o livro explica de forma simples como os agrotóxicos são classificados e agrupados. Mais adiante, apresenta estratégias para que os profissionais de saúde identifiquem pessoas expostas na rotina das unidades. O último capítulo mostra como realizar a história clínica e a anamnese, além de abordar o diagnóstico, as orientações e as condutas para esses pacientes.”

Homem de camisa listrada e barba grisalha discursa com microfone ao lado de uma projeção do livro "Exposição Humana a Agrotóxicos", de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, com QR codes para acesso.

Herling Alonzo apresenta livro em sessão

 

Para Alonzo, a principal contribuição da publicação é oferecer um material voltado especificamente aos profissionais da atenção primária e aos estudantes da área da saúde, preenchendo uma lacuna na formação sobre os impactos da exposição aos agrotóxicos e o atendimento às pessoas expostas.

O autor e o prêmio

Formado em Medicina e Cirurgia pela Universidad Nacional Autónoma de Honduras, Alonzo fez pós-graduações em Toxicologia Clínica e Ambiental no Uruguai e em Saúde Ocupacional em Israel, antes de consolidar, no Brasil, sua carreira acadêmica na área de Saúde Coletiva.

Criado em 2024 com apoio da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da SBPC, e com participação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) a partir deste ano, o Prêmio Jabuti Acadêmico é uma iniciativa da CBL para reconhecer livros acadêmicos, científicos, técnicos, profissionais e didáticos nacionais. 


Fonte: Portal da Faculdade de Ciências Médicas

Contrabando de agrotóxicos: um crime que começa na fronteira e termina nas lavouras brasileiras

Uma nova apreensão de Paraquat, herbicida banido no Brasil e em dezenas de outros países devido aos seus graves riscos à saúde humana, expõe a necessidade de punir não apenas os contrabandistas, mas também quem financia esse mercado ilegal ao comprar produtos proibidos

Uma reportagem publicada pela Gazeta do Triângulo relata a apreensão de aproximadamente oito toneladas do herbicida Paraquat, contrabandeadas do Paraguai e interceptadas em uma operação conjunta das polícias Federal, Civil, Militar e Penal na BR-050, entre Uberlândia e Araguari. A carga, avaliada em cerca de R$ 1 milhão, seguia de Cascavel (PR) para Catalão (GO), e o motorista acabou preso por contrabando. 

Embora expressiva, essa apreensão está longe de constituir um fato isolado. Ao contrário, ela integra uma sequência cada vez mais frequente de operações policiais que desmantelam carregamentos ilegais de agrotóxicos provenientes do Paraguai. A repetição desses casos indica que o Brasil enfrenta uma verdadeira epidemia de contrabando de agrotóxicos, impulsionada por uma rede criminosa bem estruturada e, sobretudo, por uma demanda constante dentro do próprio setor agropecuário.

O caso torna-se ainda mais grave porque o produto apreendido foi o Paraquat, um dos herbicidas mais controversos do mundo. Diversos estudos científicos associaram sua exposição a intoxicações agudas, danos pulmonares irreversíveis e a um aumento do risco de desenvolvimento da doença de Parkinson. Esses riscos levaram dezenas de países a proibir seu uso, incluindo o Brasil, onde sua comercialização deixou de ser permitida justamente em razão dos perigos que representa para trabalhadores rurais e para a saúde pública.

A insistência em trazer clandestinamente esse herbicida ao território brasileiro revela uma realidade desconfortável. Se existe uma oferta permanente cruzando a fronteira, é porque existe uma clientela disposta a adquiri-la. O contrabando não sobrevive apenas graças aos atravessadores, motoristas e organizações criminosas. Ele depende igualmente daqueles que compram deliberadamente agrotóxicos ilegais para reduzir custos ou manter o acesso a substâncias cuja utilização foi proibida após criteriosa avaliação toxicológica.

Esse aspecto merece especial atenção. Durante anos, a fiscalização concentrou seus esforços nas rotas do contrabando e nas organizações criminosas responsáveis pela entrada clandestina desses produtos no país. Esta é, sem dúvida,  uma ação necessária. Entretanto, nenhuma organização criminosa manteria uma estrutura logística sofisticada para importar ilegalmente toneladas de agrotóxicos se não existisse um amplo mercado consumidor disposto a adquiri-los. Em outras palavras, cada carga apreendida revela a existência de compradores que aguardavam sua chegada.

Por isso, concentrar toda a repressão apenas sobre quem transporta essas cargas significa atacar apenas a parte mais visível do problema. É indispensável identificar e responsabilizar criminal e administrativamente quem financia esse mercado clandestino. Sejam comerciantes que abastecem lojas de insumos agrícolas, sejam proprietários rurais que adquirem conscientemente produtos contrabandeados, todos participam da mesma cadeia ilícita e contribuem para manter um mercado que coloca em risco trabalhadores, consumidores e o meio ambiente.

Também não se pode ignorar os impactos ambientais dessa prática. O uso clandestino de agrotóxicos proibidos dificulta qualquer controle oficial sobre aplicação, armazenamento e destinação de embalagens. Como resultado, cresce o potencial de contaminação de solos, rios, aquíferos e da biodiversidade, além da exposição de polinizadores, peixes, aves e outros organismos não alvo a substâncias cuja elevada toxicidade já motivou sua retirada do mercado legal. Quando se trata do Paraquat, esses riscos tornam-se ainda maiores, pois sua elevada persistência e toxicidade ampliam os danos potenciais para os ecossistemas e para as populações expostas.

A sucessão de apreensões de cargas ilegais provenientes do Paraguai demonstra que o contrabando de agrotóxicos deixou de ser um episódio esporádico para se transformar em um problema estrutural da agricultura brasileira. Enquanto esse comércio continuar sendo tratado apenas como uma questão de segurança nas fronteiras, novas operações policiais continuarão produzindo manchetes sem alterar a lógica econômica que sustenta esse mercado clandestino.

O verdadeiro enfrentamento exige romper toda a cadeia do crime. Isso significa prender os contrabandistas, desarticular as organizações criminosas que atuam nas fronteiras, fortalecer os mecanismos de rastreabilidade dos insumos agrícolas e, principalmente, aplicar punições exemplares aos comerciantes e produtores rurais que alimentam esse mercado ao adquirir agrotóxicos contrabandeados. Sem reduzir essa demanda interna, o fluxo de cargas ilegais vindas do Paraguai continuará encontrando destino certo nas lavouras brasileiras, colocando em risco a saúde da população, degradando os ecossistemas e fortalecendo um dos ramos mais lucrativos do crime organizado no campo.

Canetas emagrecedoras e agrotóxicos: quando dois mercados ilegais cruzam a mesma fronteira

A apreensão conjunta de canetas emagrecedoras clandestinas e agrotóxicos contrabandeados na Ponte da Amizade revela a convergência de dois mercados ilegais que já movimentam enormes volumes de recursos e ameaçam tanto a saúde pública quanto a segurança alimentar

Uma apreensão realizada na Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu, revelou uma cena que simboliza de forma quase didática os riscos do avanço do mercado ilegal no Brasil. Durante a fiscalização, agentes da Receita Federal localizaram milhares de canetas emagrecedoras à base de semaglutida, semelhantes ao Ozempic, escondidas entre centenas de caixas de agrotóxicos contrabandeados. A operação escancarou um fato preocupante: duas cadeias ilícitas extremamente lucrativas passaram a compartilhar as mesmas rotas logísticas do crime organizado.

À primeira vista, alguém pode imaginar que o maior problema resida na proximidade física entre medicamentos e agrotóxicos. Sem dúvida, transportar medicamentos que exigem controle rigoroso de temperatura e condições sanitárias ao lado de substâncias altamente tóxicas aumenta o risco de contaminação, degradação do princípio ativo e exposição química dos consumidores. Quem compra uma dessas canetas no mercado clandestino não recebe qualquer garantia sobre sua procedência, armazenamento ou composição. Na prática, pode injetar no próprio organismo um produto falsificado, deteriorado ou contaminado por resíduos de agrotóxicos.

Entretanto, o aspecto mais inquietante talvez seja outro. Esse episódio não significa que esses dois tipos de contrabando tenham surgido agora ou que normalmente circulem separados. Muito pelo contrário. O comércio ilegal de canetas emagrecedoras e o de agrotóxicos proibidos movimentam grandes volumes de recursos há anos e utilizam as mesmas rotas clandestinas entre Paraguai e Brasil. A fiscalização apenas flagrou, desta vez, uma carga que reunia os dois produtos antes que ela alcançasse o mercado brasileiro.

Esse detalhe merece atenção porque revela a crescente integração entre diferentes mercados ilegais. As mesmas organizações criminosas que transportam cigarros, eletrônicos e drogas também passaram a explorar produtos de alto valor agregado, como medicamentos para emagrecimento, e insumos agrícolas proibidos que encontram demanda constante no campo brasileiro. O crime organizado diversifica seus negócios, reduz riscos e amplia seus lucros com uma infraestrutura logística já consolidada.

Surge daí um duplo perigo. O primeiro atinge diretamente quem compra esses produtos. Consumidores atraídos pelos preços menores das canetas clandestinas correm o risco de adquirir medicamentos sem qualquer controle sanitário, sujeitos à falsificação, perda de eficácia ou contaminação. O enorme sucesso comercial da semaglutida criou um mercado paralelo altamente lucrativo, alimentado pela escassez do produto, pelos preços elevados nas farmácias e pela busca incessante por soluções rápidas para emagrecer.

Mais do que um episódio policial, essa operação lança um alerta sobre a sofisticação crescente do crime organizado. Ao mesmo tempo, expõe uma contradição preocupante da sociedade contemporânea: a busca por soluções rápidas — seja para emagrecer, seja para reduzir custos na produção agrícola — fortalece mercados clandestinos que colocam em risco tanto a saúde individual quanto a saúde coletiva. No caso dos agrotóxicos ilegais, especialmente daqueles que já receberam banimento em diversos países devido à sua elevada toxicidade, os impactos vão muito além da lavoura. O uso de agrotóxicos contamina solos, rios e aquíferos, reduz populações de polinizadores e outros organismos benéficos, afeta peixes, anfíbios e aves e compromete processos ecológicos essenciais para a manutenção da biodiversidade e da produção de alimentos. O fato de medicamentos clandestinos e agrotóxicos proibidos terem viajado juntos nesta carga não constitui uma exceção extraordinária. Essa apreensão apenas tornou visível uma realidade que, muito provavelmente, cruza diariamente as fronteiras brasileiras: a mesma logística criminosa que lucra com a falsa promessa de saúde também alimenta um modelo de produção agrícola que cobra um preço elevado da natureza e da sociedade.

MPF abre inquérito para investigar contaminação por agrotóxicos em terra indígena no MT

Investigação apura possível contaminação na Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal, após estudo identificar resíduos de agrotóxicos em plantas medicinais consumidas por indígenas

Por Redação da Única News

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil para investigar uma possível contaminação por agrotóxicos na Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal (473 km de Cuiabá). A medida foi publicada nesta sexta-feira (10) e tem como objetivo aprofundar as investigações sobre os impactos à saúde da comunidade indígena Nambikwara e ao meio ambiente.

Segundo a portaria, a investigação começou após uma reportagem denunciar o uso de agrotóxicos proibidos internacionalmente nas proximidades da terra indígena.

O documento cita um estudo do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que encontrou resíduos de agrotóxicos em 88% das amostras de plantas medicinais cultivadas pelos indígenas, como breozinho, pata-de-vaca e raiz-doce. Entre as substâncias identificadas estão carbofurano, atrazina, clorpirifós, tiametoxam e acetamiprido. Segundo o MPF, algumas delas são proibidas na União Europeia e, no caso do carbofurano, também no Brasil.

A portaria também menciona relatos de lideranças indígenas sobre o aumento de problemas de saúde na comunidade, incluindo doenças respiratórias, fortes dores de cabeça e casos de aborto espontâneo. Conforme o MPF, há suspeitas de que esses problemas estejam relacionados à pulverização aérea de agrotóxicos e à contaminação de corpos d’água próximos ao território indígena.

Outro ponto destacado é que Sapezal figura como o segundo maior consumidor de agrotóxicos de Mato Grosso, o que, segundo o Ministério Público Federal, pode ampliar a exposição da população indígena às substâncias utilizadas nas lavouras de soja e algodão que cercam a terra indígena.

Com a conversão da notícia de fato em inquérito civil, o MPF pretende monitorar a presença de resíduos de agrotóxicos em produtos consumidos pela comunidade, mapear possíveis pulverizações irregulares no entorno da Terra Indígena Tirecatinga e adotar medidas para reduzir os impactos à saúde e à subsistência dos indígenas Nambikwara.

Entre as primeiras providências determinadas estão a solicitação de informações técnicas ao Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT), à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT), ao Ministério da Saúde, ao Ibama e ao Ministério do Meio Ambiente, além do compartilhamento dos autos com o Ofício de Populações Indígenas do MPF em Mato Grosso para atuação conjunta.


Fonte: Única News