Crise ambiental no rio Tocantins: 12 toneladas de agrotóxicos foram derramadas com queda de ponte

Entre os produtos químicos derramados em queda de ponte, o 2,4-D tem fácil propagação pela água

ponte estreitoPor Rodrigo Chagas para o Brasil de Fato 

queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que conectava os municípios de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), além dos impactos socioeconômicos, pode desencadear uma grave crise ambiental. No domingo (22), três caminhões carregados com agrotóxicos e ácido sulfúrico caíram no rio Tocantins, espalhando 25,2 mil litros de agrotóxicos e 76 toneladas de ácido, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA).

Entre os produtos derramados, estavam quase nove toneladas do herbicida 2,4-D, permitido no Brasil, mas proibido na Dinamarca, em Moçambique e no Vietnã devido à sua toxicidade. Também já foi proibido na Austrália e no Canadá. Na União Europeia, há um processo em curso para o banimento definitivo do composto.

O 2,4-D é o mesmo usado como componente do chamado “agente laranja”, um desfolhante químico altamente tóxico que também foi usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A arma química era usada pelas tropas estadunidenses para desmatar florestas e impedir que soldados vietnamitas se escondessem na vegetação.

Danilo Rheinheimer dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência na análise de agrotóxicos em água, alerta que os impactos ambientais e à saúde são profundos e duradouros. “Essa conversa de que os agrotóxicos são facilmente biodegradáveis não é verdadeira. Eles têm alta permanência, especialmente na água”, explica.

Segundo ele, mesmo que medições posteriores não constatem mais a presença dos produtos na água, não é possível garantir que o ambiente não estará contaminado. “Produtos como o 2,4-D e o picloram impregnam nas rochas e nos biofilmes epilíticos do fundo do rio, contaminando tudo por anos.” 

“Os agrotóxicos não desaparecem simplesmente à medida que o rio segue seu curso. Eles se diluem, mas deixam um rastro. Mesmo 40 ou 50 quilômetros rio abaixo, as moléculas podem estar presentes, contaminando a fauna aquática e os organismos bentônicos, como moluscos e peixes”, detalha Rheinheimer.

O professor reforça que a contaminação pode alcançar toda a cadeia alimentar, com riscos para a saúde humana. “Bactérias, algas e peixes que não morrerem agora ficarão contaminados, passando esse impacto para toda a cadeia trófica. Isso é um desastre terrível,” conclui.

O peso do 2,4-D: um veneno de longo prazo

Entre os produtos químicos derramados no acidente, o 2,4-D chama atenção por seus efeitos nocivos. Classificado como um “gatilho hormonal”, o herbicida é associado a casos de câncer e proibido na União Europeia.

“Com o derramamento de quase 9 mil quilos desse veneno, os efeitos não serão localizados ou temporários. Estamos falando de algo que vai se impregnar nos sedimentos e permanecer ativo por muitos anos, talvez décadas,” afirma Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e membro da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Melgarejo reforça que a desestruturação causada por esse tipo de contaminação não aparece de imediato. “Os problemas de saúde, como casos de câncer, podem surgir décadas depois, mas suas raízes estarão neste desastre e na irresponsabilidade que permitiu a fabricação e o transporte desse veneno no Brasil,” denuncia.

Outro produto transportado era o acetamiprid, inseticida da classe dos neonicotinóides. Ele é amplamente reconhecido por seu impacto devastador sobre abelhas e aves. Já o picloram, outro agrotóxico envolvido, será proibido na União Europeia a partir de 2028, devido à sua toxicidade persistente e riscos ambientais.

O acidente ocorrido na ponte Juscelino Kubitschek onde dois caminhões  carregados de agrotóxico e ácido sulfúrico caíram sob o rio fez com que 19  cidades ficassem impedidas de consumir água do rio

Detalhes da carga derramada

Os pesticidas transportados nos caminhões incluíam:

  • Carnadine (acetampirid): inseticida neonicotinóide, com 500 litros transportados, totalizando 100 kg de princípio ativo.

  • Pique (picloram): herbicida, com 2.700 litros transportados, totalizando 1.048 kg de princípio ativo.

  • Tractor (picloram): herbicida, com 22.080 litros transportados, totalizando 2.274 kg de princípio ativo.

  • Tractor (2,4-D): herbicida hormonal, com 22.080 litros transportados, totalizando 8.964 kg de princípio ativo.

O total transportado chegou a 12.386 kg de princípios ativos altamente tóxicos.

Medidas emergenciais e alertas à população

Por precaução, o governo do Maranhão recomendou a suspensão da captação de água nos municípios banhados pelo rio Tocantins. As prefeituras de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO) emitiram alertas para que a população evite contato com a água devido ao risco de queimaduras químicas e intoxicação.

A Agência Nacional de Águas (ANA) iniciou coletas em cinco pontos do rio para monitorar os parâmetros de qualidade da água.

No entanto, segundo Heinheimer, as medidas emergenciais podem não ser suficientes. “Mesmo que o monitoramento aponte baixos níveis de contaminação agora, os resíduos estarão impregnados nos sedimentos, e os impactos continuarão a surgir ao longo do tempo,” alerta.

Queda de ponte entre Tocantins e Maranhão tem relação com impacto do agronegócio na região, diz pesquisadora

A tragédia evidenciou problemas estruturais históricos denunciados pela população local. Construída na década de 1960, a Ponte Juscelino Kubitschek está localizada na região do Matopiba, epicentro do crescimento do agronegócio no Brasil. Nas últimas décadas, a produção de commodities como soja e milho transformou a paisagem da região e sobrecarregou a infraestrutura de transporte.

“O desabamento da ponte é um marcador de alerta de que precisamos de fiscalização e comprometimento com essas infraestruturas. Isso também está diretamente relacionado ao avanço voraz do agronegócio, que impulsiona o transporte pesado e agrava os impactos ambientais,” destaca Gilvânia Ferreira, doutoranda em Estudos Sociais Agrários.

Nos últimos dez anos, a produção de grãos no Matopiba aumentou 92%, de 18 milhões de toneladas na safra 2013/14 para 35 milhões atualmente. Os principais produtos são soja, milho e algodão. Um estudo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostra que a escalada vai continuar e pode chegar a 37% nos próximos 10 anos.

A professora ressalta que os danos não são apenas econômicos, mas sociais e ambientais. “Essa ponte simboliza a destruição de territórios e modos de vida. O avanço da monocultura prejudica a produção familiar, contamina as águas e coloca em risco a saúde humana e dos animais,” explica.

Enquanto o Ministério Público e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes apuram as causas do acidente, o Ministro dos Transportes, Renan Filho, prometeu a reconstrução da ponte até 2025. Porém, especialistas e moradores alertam que, sem mudanças estruturais e no modelo de produção agrícola predominante, tragédias como esta continuarão a ocorrer.

Edição: Geisa Marques


Fonte: Brasil de Fato

Rios secando em meio ao avanço do desmatamento sinalizam para grave crise hídrica no Brasil

crise hidrica

Quando se olha para a situação geral dos rios brasileiros, a avaliação está longe de ser boa. É que tudo indica que estamos testemunhando um processo de ressecamento nas bacias ligadas às florestas da Amazônia e do Cerrado.  E o pior é que a voracidade do latifúndio agro-exportador por mais desmatamento está sendo alimentada por um conjuntov de projetos de logística orientados para a pavimentação de estradas como a BR-319 e a construção de ferrovias como a Ferrogrão

Para piorar esse cenário em diferentes estados e municípios o cenário de 2024 foi marcado pela aprovação de uma série de leis para fragilizar leis ambientais com o único objetivo de facilitar ainda mais a ação destruidora das monoculturas, mesmo em estados como o Rio Grande do Sul que foi devastado por eventos extremos de chuvas.  

Um componente extra dessa tempestade perfeita é o aumento da poluição nos rios, especialmente pelo lançado de substâncias tóxicas associadas às atividades de mineração e das monoculturas.  As evidências científicas já apontam para o aumento da carga de metais pesados (especialmente a do mercúrio liberada pelo garimpo de ouro) e de agrotóxicos em grandes rios brasileiros.

O que teremos com o somatório desses componentes sinaliza para rios cada vez mais secos e poluídos em meio a um crescente aumento da população urbana.  Eu não me surpreenderia se já em 2025 começarmos a ver uma crise persistente em estados importantes como Rio de Janeiro e São Paulo, especialmente nas suas principais áreas metropolitanas.

O fato inescapável é que estamos na antessala de uma grave crise hídrica e que não se resumirá à oscilações sazonais nas intensidades de precipitação. Por isso, é urgente que se refaça uma profunda reorganização dos mecanismos de controle social do acesso à água. Os atuais comitês de bacias hidrográficas já se mostraram insuficientes para enfrentar uma crise do tamanho que estamos enfrentando. Até porque eles são ferramentas para o gerenciamento privado das águas, e o que está posto vai muito além desse cenário.

 

Pulverização aérea: agrotóxicos aumentam em 27 vezes o risco de câncer, diz estudo da UFC

Na última sexta-feira (13), o grupo fechou os resultados da etapa mais recente dos estudos desenvolvidos desde 2011 com agricultores da região da Chapada do Apodi

drones

Do Portal do Deputado Estadual Renato Roseno

Um trabalhador rural que é exposto a agrotóxicos por meio da pulverização aérea tem vinte e sete vezes mais chance de desenvolver algum tipo de neoplasia do que um agricultor que não teve contato com o veneno. A denúncia é de um grupo de pesquisadores vinculados ao Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Na última sexta-feira (13), o grupo fechou os resultados da etapa mais recente dos estudos desenvolvidos desde 2011 com agricultores da região da Chapada do Apodi. A partir de 2022, os pesquisadores adotaram uma nova tecnologia para o sequenciamento genético da população estudada, chamada Next Generation Sequencing (Sequenciamento de Última Geração).

“Na população mundial, de cada 100 indivíduos, nós vamos encontrar apenas um com alguma mutação genética indutora de câncer. Ou seja, 1%. Entre os agricultores, esse percentual de mutação sobe para a casa de 27%”, explica o hematologista Ronald Feitosa Pinheiro, professor livre-docente pela Escola Paulista de Medicina, professor associado da UFC e um dos coordenadores da pesquisa. Ele destaca também que esse percentual pode chegar a 80% caso sejam considerados critérios mais abertos em termos de idade e de metodologia.

Em 2021, os primeiros resultados da pesquisa foram publicados na prestigiada revista científica Enviromental Toxicology and Pharmacology. À época, os pesquisadores apontaram que a exposição ao agrotóxico era um dos principais fatores de aumento do risco de distúrbios hematológicos em trabalhadores agrícolas devido ao seu potencial carcinogênico (causador do câncer).

“Naquele momento, com a tecnologia que nós tínhamos, que era a expressão gênica e citogenética, nós mostramos que o DNA (dos trabalhadores) estava alterado, que a expressão de genes que corrigem o DNA quando ele está lesionado estava reduzida”, explica o professor. “Agora, com essa nova tecnologia, nós somos capazes de ler o DNA da pessoa na mesma região mais de mil vezes. E ai você identifica mutações genéticas que podem predispor ao câncer”.

Segundo Ronald, esse tipo de estudo, com a utilização da tecnologia NSG, é inédito porque nunca foi feita em populações de agricultores que trabalhavam com agrotóxicos. “São resultados que saíram na última sexta-feira, após uma análise muito aprofundada e muito séria, que usa uma metodologia descrita apenas em 2022, que á analise de oncogenicidade de uma mutação, para dizer se uma mutação realmente é indutora de câncer”, explica.

Os pesquisadores também destacam que esse é o primeiro estudo realizado no mundo que avalia mutações indutoras do câncer em indivíduos expostos ambientalmente, mas que não têm câncer ainda. Isso é importante, ensina o professor, porque permite retirar o individuo dessa exposição ambiental e protegê-lo dentro do “nível do possível”. “Às vezes, você passa 30 ou 40 anos com a mutação antes da eclosão do câncer”, ele explica.

Os próximos passos do estudo são a apresentação desses dados mais recentes no Congresso de Síndrome Mielodisplásica e Leucemia Aguda, marcado para a cidade de Rotterdam em maio do próximo ano; e a preparação de um artigo com os resultados finais da pesquisa que será submetido à revista Nature, principal publicação de divulgação científica do mundo. “Pela primeira, nós demostramos isso (a associação entre a pulverização aérea de agrotóxicos e os casos de câncer) com tecnologia de ponta”, defende Ronald.

A pesquisadora Roberta Taiane Germano de Oliveira, que participa do estudo, destaca que o agrotóxico é um produto químico e, como vários produtos químicos, ele vai lesar o DNA. “O que a gente procurou? Exatamente, esses danos causados por esse produto químico no DNA. E nós encontramos danos que só são encontrados em pessoas que tem câncer na medula”.

Ela explica que o nome desse fenômeno é “chip”. “Porque é como um chip que vai ser inserido no seu DNA e vai lhe acompanhar pelo resto da vida”, afirma. “Ou seja, uma vez que você tem essa mutação no DNA, você sempre está correndo risco de ter um câncer de medula. E foi uma mutação causada por um produto químico, o agrotóxico”.

Os pesquisadores alertam também que a pulverização é central nesse processo de contaminação. Desde o início do trabalho, o grupo acompanha o quadro de saúde de 58 trabalhadores da região do Apodi, área muito exposta à pulverização aérea antes da lei Zé Maria do Tomé (lei 16.820/19), de autoria do deputado estadual Renato Roseno (PSOL), que proibiu essa prática em território cearense.

“Nós tivemos muitos relatos de trabalhadores que tomaram banho de veneno enquanto estavam na lavoura”, afirma Ronald, que destaca que o drone não é uma tecnologia segura para o uso na agricultura. “Não tem como você controlar a pulverização aérea porque você não consegue controlar o ar. Nós estamos falando de previsão climática. A gente sabe que o vento segue a teoria do caos, em um segundo ele muda completamente de eixo e isso é capaz de derrubar um avião, por exemplo. Você imagina, então, um drone aplicando veneno…”


Fonte: Portal do Deputado Estadual Renato Roseno

Reino Unido proibirá agrotóxicos que matam abelhas, mas tipos altamente tóxicos ainda podem ser permitidos

Ministros estabelecem planos para proibir os neonicotinoides, mas consideram a solicitação de agricultores para usar o Cruiser S

Uma abelha em uma flor

Helena Horton,  Repórter de meio ambiente, para o The Guardian

Agrotóxicos que matam abelhas serão proibidos pelo governo do Reino Unido, enquanto os ministros definem planos para proibir o uso de neonicotinoides.

No entanto, o neonicotinoide altamente tóxico Cruiser SB poderá ser autorizado para uso no ano que vem , já que os ministros estão considerando solicitações da National Farmers’ Union e da British Sugar.

Este poderoso agrotóxico envenena as abelhas destruindo seus sistemas nervosos. O Prof Dave Goulson, especialista em abelhas da Universidade de Sussex, disse que uma colher de chá do produto químico é suficiente para matar 1,25 bilhão de abelhas. Mesmo em doses não fatais, pode causar problemas cognitivos que dificultam a busca de néctar pelas abelhas, e os produtos químicos podem permanecer no solo por anos.

Os ministros dizem que identificaram opções legislativas que impediriam legalmente o uso futuro de três neonicotinoides específicos – clotianidina, imidacloprida e tiametoxam – por completo.

Paul de Zylva, defensor da natureza na Friends of the Earth, disse: “O fim da pantomima anual do governo anterior de conceder o uso ‘emergencial’ desses agrotóxicos profundamente prejudiciais já deveria ter acontecido há muito tempo. Mas ainda não estamos fora de perigo – o governo deve seguir adiante se comprometendo totalmente com uma proibição completa em janeiro. E deve ir ainda mais longe, descartando o atual e fraco plano nacional de ação sobre pesticidas e, em vez disso, produzir uma versão confiável.”

O ex-secretário do Meio Ambiente Michael Gove prometeu em 2017 que os ministros usariam o Brexit para impedir o uso de agrotóxico que destroem as populações de abelhas.

Em vez disso, a UE proibiu todas as autorizações de emergência de agrotóxico neonicotinoides, enquanto desde 2021 o governo do Reino Unido permite o uso emergencial de tiametoxame todos os anos.

Embora os agrotóxico sejam proibidos para uso geral, há autorização de emergência durante condições climáticas em que uma praga chamada vírus amarelo prospera em plantas de beterraba. Essas condições foram atendidas no Reino Unido todos os anos.

O Departamento de Meio Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais está sendo investigado pelo órgão de fiscalização do Escritório de Proteção Ambiental depois que o governo anterior autorizou o uso do agrotóxico neste ano.


Fonte: The Guardian

Isenções fiscais para agrotóxicos deixam fatura para a saúde da população e o SUS

Inclusão das substâncias na lista de setores com menos tributos e adiamento de programa de controle impulsionam problema

Brasil é uma das nações que mais consomem agrotóxicos em todo o mundo – Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz)

Por Juliana Passos e Nara Lacerda para o Brasil de Fato 

O fim de 2024 chega com um banho de água fria para a luta pelo controle do uso de agrotóxicos em território nacional. Nesta semana, o Congresso Nacional aprovou a reforma tributária e incluiu os venenos agrícolas na lista de produtos beneficiados com 60% de redução de tributos, se forem registrados no Ministério da Agricultura. 

Outro exemplo emblemático da falta de progresso vem do executivo. O Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), em discussão desde 2014, foi adiado. Prevista para ser lançada neste mês, a política não saiu do papel. Há a expectativa de que o Pronara seja anunciado no primeiro semestre de 2025. 

O atraso foi tema de análise pela organização internacional Humans Rights Watch (Observatório dos Direitos Humanos, em tradução livre), divulgada no último dia 3. O texto, assinado por Julia Bleckner, pesquisadora sênior da iniciativa de saúde global da entidade, alerta que o avanço no tema é urgente, já que o Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. 

Segundo o artigo, “embora o plano original tenha sido elaborado em 2014, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) o impediu repetidamente de avançar. A falha dos ministérios envolvidos em chegar a um acordo é um golpe para os cientistas, ativistas e agricultores familiares brasileiros que defendem o plano há mais de uma década”. 

Em entrevista ao podcast Repórter SUS, a pesquisadora Karen Friedrich, servidora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante do grupo de trabalho saúde e ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), afirma que o país não avançou nos últimos anos, principalmente levando em consideração o fato de que o governo federal está sob uma gestão de bases populares. Ela ressalta, no entanto, que o estrago começou bem antes

“Precisamos analisar não apenas os últimos dois anos, mas também o que os antecedeu. Durante os governos de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL) tivemos a tramitação do pacote do veneno e vários atos infralegais, que não demandam nem consulta ao Congresso Nacional, flexibilizaram o uso de agrotóxicos. Esses atos, provenientes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Agricultura, permitiram que a liberação de agrotóxicos continuasse no governo Lula como era feita no governo Bolsonaro.” 

Enquanto o Brasil via a confirmação de que o plano de controle continuaria emperrado, uma pesquisa internacional reforçou os riscos do glifosato para o cérebro. A substância é usada em centenas de produtos vendidos no país.

O estudo, publicado no periódico Neuroinflammation, revelou que a exposição ao químico, mesmo em curto prazo, pode causar danos permanentes. A pesquisa, conduzida pela Universidade Estadual do Arizona e pelo Instituto de Pesquisa Genômica Translacional (TGen), mostrou que o glifosato se acumula no cérebro e pode desencadear processos inflamatórios associados a doenças neurodegenerativas.  

Outro alerta importante veio da Fiocruz e da Abrasco. Uma carta pública manifesta preocupação com a pulverização aérea de agrotóxicos com drones. As entidades argumentam que a prática coloca em risco a saúde de trabalhadores rurais, comunidades tradicionais e indígenas, além de contaminar o meio ambiente.  

“A pulverização aérea é uma das práticas mais nocivas que existem”, alerta Karen Friedrich. Ela ressalta que garantir a segurança desse tipo de prática depende de fatores muito diversos, como a quantidade dispersada, o tamanho das gotículas, o vento, a temperatura e outras condições de difícil controle. 

“As condições climáticas do país são muito diversas e mais ainda com o momento de crise e de colapso climático. Então, garantir a segurança é algo antiético. Não é possível dizer que é 100% seguro quando não é. Os mais atingidos são os trabalhadores da agricultura, suas famílias, quem mora nas áreas do entorno e povos e comunidades tradicionais, inclusive de maneira proposital. Além de tudo, agrotóxico no Brasil também é usado como arma química.” 

Na conversa com o podcast, Karen Friedrich aponta ainda que agrotóxicos recebem bilhões de reais em isenções fiscais anualmente. Segundo a pesquisadora, as vantagens contribuem para aumentar o problema do uso excessivo dessas substâncias no Brasil.  

Ela cita um estudo da Abrasco que demonstra que o Sistema Único de Saúde (SUS) gasta cerca de R$ 12 bilhões para tratar doenças causadas por agrotóxicos, enquanto o governo concede R$ 10 bilhões em isenções fiscais para a indústria de agrotóxicos. 

“Estamos discutindo a reforma tributária. Os agrotóxicos têm bilhões de reais em isenção todos os anos. Quando olhamos a relação do que é isento e dos gastos para tratar essas pessoas. Podemos até questionar a história de que o agronegócio é líder do Produto Interno Bruto [PIB]. Sabemos que, se botarmos na conta os problemas, eles vão ficar devendo”.
 

Edição: Martina Medina


Fonte: Brasil de Fato

Fiocruz e Abrasco alertam contra pulverização de agrotóxicos com drones

Há robustas evidências dos impactos nocivos à população

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Por Agência Brasil

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e a Fiocruz divulgaram na quarta-feira (11) um posicionamento oficial contra a pulverização de defensivos agrícolas com drones.

A nota foi publicada em defesa da Lei nº 16.820/19, sancionada pelo governo do Ceará em 2019, proibindo a prática de forma pioneira no país. A liberação do uso dos veículos aéreos não tripulados para esse fim, entretanto, voltou a ser discutida na Assembleia Legislativa do estado.

A Abrasco e a Fiocruz afirmam que “existem robustas evidências científicas comprovando os impactos nocivos da exposição das populações humanas e da biodiversidade decorrentes da pulverização aérea de defensivos”.Essas evidências foram sistematizadas no Dossiê Abrasco – um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde (2015), no Dossiê contra o Pacote do Veneno e em defesa da vida (2021) e no Dossiê Danos dos Agrotóxicos na Saúde Reprodutiva: conhecer e agir em defesa da vida (2024).

“Devido à prática da pulverização aérea em algumas regiões do país, acidentes envolvendo comunidades tradicionais e crianças têm sido verificados com frequência”, diz a nota.

“No estado do Ceará, especificamente, tal prática foi realizada por grandes empreendimentos agrícolas atingindo diversas comunidades de camponeses, como constatado na região da Chapada do Apodi, provocando intoxicações agudas e crônicas, produzindo câncer, malformações congênitas, desregulações endócrinas, dentre outros agravos à saúde que podem ser constatados em estudos científicos publicados”, acrescenta a nota.

Comunidades atingidas

As entidades citam dados de relatório divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) que apontam que a contaminação por defensivos nas comunidades rurais aumentou quase dez vezes no primeiro semestre de 2024 em relação ao mesmo período do ano passado.]

Somente no Maranhão, exemplificam, mais de 100 comunidades foram atingidas pela pulverização aérea de agrotóxicos neste ano.

O relatório Territórios Vitimados Diretamente por Agrotóxicos no Maranhão, também citado pela nota, denuncia que 88% dos casos de pulverização aérea que geram contaminação dessas comunidades, do meio ambiente e que resultaram em perda da produção foram causados por drones.

O estudo é de autoria da Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama), da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras do Estado do Maranhão (Fetaema) e da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

“O melhor caminho para uma agricultura mais saudável e sustentável passa pela aprovação de políticas como o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), voltadas para a diminuição do uso de agrotóxicos e pela promoção da agroecologia, nos âmbitos municipais, estaduais e federal. Frente à atual crise climática, é uma das políticas públicas mais urgentes para serem implantadas na defesa da vida”, dizem a Fiocruz e a Abrasco.


A nocividade dos agrotóxicos na saúde reprodutiva: Abrasco lança novo relatório

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Por Lia Giraldo da Silva Augusto1 e Nadia Spada Fiori2 

Os agrotóxicos são substâncias químicas usadas para o controle de insetos, fungos e plantas consideradas indesejadas na agricultura ou dentro de nossas próprias casas. Entretanto, além de causarem a morte destes organismos vivos, também causam sérios problemas à saúde das pessoas.

Atualmente, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo! Situação que tem causado o adoecimento de muitos trabalhadores da agricultura e de comunidades que moram próximas às áreas de uso dos venenos. A aplicação de agrotóxicos nas plantações envenena os alimentos, as águas, o solo e o ar, principalmente quando são aplicados por aviões sobre extensas áreas de plantações, causando a deriva do veneno para as moradias e escolas das comunidades vizinhas.

Lia Giraldo tem lutado contra esses venenos por longos anos de sua vida, muitos deles, junto à Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO). Diante do reconhecimento da ABRASCO como instituição que luta pela Saúde Coletiva e pela vida, o Centro de Direitos Reprodutivos (CDR) solicita a esta instituição um relatório que aponte os danos reprodutivos relacionados aos agrotóxicos. Nesta época, Lia coordenou o Grupo Temático de Saúde e Ambiente da ABRASCO e aceitou o desafio.

Procurando aliar o conhecimento científico com as experiências de vida e relatórios de casos verídicos, Lia reuniu um grande grupo composto por pesquisadores, gestores, militantes de movimentos sociais como o de mulheres camponesas e estudantes das áreas da saúde, que trabalharam juntos na construção de um amplo . 

Buscamos na literatura científica brasileira todos os estudos que abordam danos reprodutivos e agrotóxicos e encontramos diversas doenças, neoplasias, alterações genéticas e hormonais relacionadas com a exposição aos agrotóxicos. Também foram encontrados grupos populacionais expostos e invisibilizados, desigualdades de gênero e nas pesquisas no país.

Observamos que mulheres moradoras de áreas rurais e expostas a agrotóxicos sofreram maiores taxas de aborto espontâneo e mais alterações genéticas do que as moradoras de áreas urbanas; entretanto, essas mulheres foram menos estudadas quando comparadas às moradoras da porção urbana das cidades. Outros grupos vulneráveis, como as mulheres camponesas, indígenas, ribeirinhas e quilombolas não foram exploradas pelos estudos, o que perpetua a invisibilidade destas populações. Da mesma forma, a exposição aos agrotóxicos aumentou o risco de câncer de mama e de tumores com maior agressividade.

Em um ambiente onde todos os seres vivos estão contaminados por estes venenos, a mulher, por gestar a Vida, desempenha um papel essencial na transmissão através das gerações dos danos causados ​​pelos agrotóxicos. Agrotóxicos foram encontrados no sangue materno, no sangue do cordão umbilical e no leite materno, principalmente organoclorados, aumentando a ocorrência de abortos espontâneos, prematuridade, malformações congênitas e leucemias em crianças menores de dois anos.

Diante de tantos efeitos negativos na saúde humana, o grupo específico é um evento para discutir os resultados encontrados e buscar formas de lutar contra estes venenos. Uma nota técnica foi elaborada e aprovada neste evento, sendo enviada posteriormente às autoridades brasileiras para instrumentalizar os debates regulamentadores dos agrotóxicos. Ainda assim, foi elaborado um almanaque sobre o corpo humano, os direitos reprodutivos e os efeitos dos agrotóxicos em nosso corpo, em linguagem acessível ao público leigo e ilustrado com lindas figuras.

O relatório está em processo de transformação em um dossiê para aumentar seu poder transformador na sociedade civil, acadêmica e jurídica.

A luta contra os agrotóxicos é permanente e não pode ser silenciada. Precisamos de aliados dentro de um país com grande influência do agronegócio e com uma legislação permissiva, que não proteja os seres vivos e o meio ambiente. Precisamos trabalhar juntos: saúde, meio ambiente, legislativo e principalmente, movimentos sociais! 

Link para o relatório:

https://abrasco.org.br/wp-content/uploads/2024/05/Saude-Reprodutiva-ea-Nocividade-dos-Agrotoxicos-Abrasco-2024-1.pdf

Link para o Almanaque:

https://abrasco.org.br/wp-content/uploads/2024/05/almanaque-abrasco_2024_VF.pdf

Link da página da Abrasco que anuncia os dois documentos:

https://abrasco.org.br/confira-relatorio-final-do-projeto-saude-reprodutiva-e-uso-de-agrotoxicos/

1Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO)  e 2Departamento de Medicina Social, Universidade Federal de Pelotas (UFPel)


Fonte: Ipen.org

Alimentos importados encontrados com resíduos de 48 agrotóxicos não aprovados para uso no Reino Unido

Análise da Pesticide Action Network sobre dados de testes do governo descobre produtos químicos associados ao câncer e prejudiciais às abelhas

Uma videira carregada de frutos

Algumas uvas importadas continham resíduos de até 13 agrotóxicos, e 87% das amostras continham um coquetel químico. Fotografia: Zoonar GmbH/Alamy

Por Helena Horton para o “The Guardian” 

Análises mostram que alimentos importados continham resíduos de 48 agrotóxicos que não foram aprovados para uso por agricultores britânicos, incluindo produtos químicos associados ao câncer e imidacloprido, que é prejudicial às abelhas.

A Pesticide Action Network (PAN) analisou dados de testes do governo do Reino Unido, comparando os resultados de testes de agrotóxicos em alimentos importados e produzidos internamente. Eles descobriram que havia resíduos de 46 agrotóxicos relacionados ao câncer em produtos importados, em comparação com 19 em alimentos de origem do Reino Unido. Os exportadores incluem a UE, Peru, Tailândia, Turquia e os EUA.

O PAN também descobriu que 29 agrotóxicos associados à desregulação endócrina, que podem interferir nos sistemas hormonais e levar a problemas de saúde, incluindo câncer e defeitos congênitos, estavam presentes em produtos importados, em comparação com 12 em alimentos cultivados no país.

Também foi detectado o pesticida imidacloprida, cujo uso foi proibido em plantações do Reino Unido em 2018. Vários estudos descobriram que o produto químico, que pertence ao grupo dos neonicotinoides, é extremamente prejudicial às abelhas. Traços do agrotóxico foram encontrados em produtos como batatas, ervilhas e uvas.

Nick Mole, da PAN UK, disse: “Embora os resultados para produtos do Reino Unido também sejam preocupantes, quando se trata de agrotóxicos que representam um risco à saúde do consumidor, as importações tendem a ser muito piores do que os alimentos cultivados aqui no Reino Unido. Os alimentos importados testados pelo governo continham quase três vezes o número de agrotóxicos altamente perigosos, incluindo carcinógenos, disruptores endócrinos e neurotoxinas.

“O governo do Reino Unido está permitindo que quantidades maiores de produtos químicos apareçam em uma lista cada vez maior de itens alimentares comuns. Eles precisam reverter urgentemente essa tendência atual.”

Junto com sua análise, o grupo de campanha lançou sua lista anual Dirty Dozen, que destaca os produtos que têm múltiplos resíduos de agrotóxicos presentes. Isso ocorre porque há evidências de que quando um produto tem mais de um pesticida, isso pode resultar em um efeito “coquetel” que agrava os problemas de saúde causados.

No topo da lista deste ano estão as frutas cítricas macias, que incluem satsumas, tangerinas e clementinas, das quais 96% tinham mais de um agrotóxico presente quando testadas. O maior número de agrotóxicos encontrados em um pedaço de fruta cítrica foi nove.

Laranjas ficaram em segundo lugar com 95% contendo um coquetel de produtos químicos, e nove agrotóxicos foram encontrados na fruta. Uvas foram encontradas com o maior número de agrotóxicos, 13, e 87% das amostras de uva continham um coquetel químico.

“Ao permitir agrotóxicos proibidos em nossas importações, o Reino Unido está exportando sua pegada ambiental e de saúde humana para o exterior. Trabalhadores rurais e a vida selvagem em países onde nossos alimentos são cultivados estão expostos a esses produtos químicos perigosos e sofrerão os danos associados. Isso também prejudica os agricultores britânicos em um momento em que pedimos que eles produzam de forma mais sustentável”, disse Mole.

“Mas qualquer queda nos padrões britânicos de agrotóxicos será um grande problema para o comércio com a União Europeia, o que também pode devastar a agricultura do Reino Unido. Se o governo for sério sobre proteger os consumidores britânicos e apoiar nossos fazendeiros, ele pode matar dois coelhos com uma cajadada só, não permitindo que importações de alimentos cultivados usando agrotóxicos proibidos para uso doméstico entrem na Grã-Bretanha.”

Um porta-voz do departamento de meio ambiente, alimentos e assuntos rurais disse: “Temos limites rígidos para resíduos de agrotóxicos em vigor, definidos após rigorosas avaliações de risco para garantir que os níveis sejam seguros para o público. Esses limites se aplicam tanto a alimentos produzidos domesticamente quanto importados de outros países.”


Fonte: The Guardian

Hipocrisia máxima: Reino Unido exportou 8.500 toneladas de agrotóxicos proibidos em 2023

O Partido Trabalhista é instado a proibir as exportações de produtos químicos tóxicos e exterminadores de abelhas, cujo uso é proibido na agricultura britânica

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Um fazendeiro colhe algodão no norte da Costa do Marfim, um dos 18 países para os quais o Reino Unido exportou pesticidas proibidos no ano passado. Foto: Issouf Sanogo / AFP via Getty Images

Por Crispin Dowler e Naíra Hofmeister para o Unearthed

O Reino Unido exportou 8.500 toneladas de agrotóxicos no ano passado , que são proibidos nas fazendas britânicas devido aos perigos que representam à saúde humana e à natureza, revelou uma nova investigação da Unearthed e da Public Eye. 

Os carregamentos, descritos pelos ativistas como “a maior hipocrisia”, incluíam milhares de toneladas de um herbicida proibido no Reino Unido devido ao alto risco que representa para as pessoas que vivem perto dos campos onde é pulverizado . 

Eles também incluíram uma quantidade suficiente do famoso inseticida proibido tiametoxam, que mata abelhas, para pulverizar uma área maior que a Inglaterra .

Em resposta às descobertas, políticos e especialistas pediram ao governo trabalhista que seguisse o exemplo de alguns países europeus e tomasse medidas para impedir essas exportações .

“É profundamente chocante que empresas sediadas no Reino Unido estejam enviando esses agrotóxicos mais perigosos e mortais para o exterior, onde podem causar enormes danos às pessoas e ao meio ambiente, apesar de serem, com razão, proibidos aqui”, disse Siân Berry, parlamentar do Partido Verde pelo Pavilhão de Brighton .

“E é inacreditável que isso esteja aparentemente acontecendo legalmente.”

Ela acrescentou: “Nosso governo não pode continuar a permitir esse tipo de exploração”.

Sob a lei britânica, quando um agrotóxico é banido, a proibição não se estende à sua produção ou exportação. Isso deixa as empresas livres para continuar fabricando esses produtos no Reino Unido para serem vendidos em países com regulamentações mais fracas. 

De longe, o principal beneficiário dessa liberdade é uma única empresa: a gigante agroquímica Syngenta, sediada na Suíça e de propriedade chinesa. Essa multinacional foi responsável por 98% dos agrotóxicos proibidos exportados da Grã-Bretanha no ano passado, mostram documentos obtidos sob leis de liberdade de informação.

Agricultores no Brasil contaram à Unearthed e à Public Eye, uma ONG suíça, como eles experimentaram sintomas como tremores, paralisia temporária e danos oculares permanentes após serem acidentalmente expostos a um desses agrotóxicos– o herbicida diquat produzido pela Syngenta, que se tornou o maior pesticida proibido exportado pelo Reino Unido pela primeira vez no ano passado .

Exportação de agrotóxicos banidos pelo Reino Unido em 2023

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Um porta-voz da Syngenta disse que a “fábrica de produção de alta tecnologia da empresa no Reino Unido é um centro global de excelência” e que a empresa só produz agrotóxicos em alguns lugares ao redor do mundo para garantir que “nossos compostos atendam aos rigorosos padrões de produção”. 

Ele acrescentou: “As necessidades agrícolas diferem globalmente, e o uso de produtos agroquímicos é baseado na avaliação dos governos nacionais sobre os riscos e benefícios do uso em seu próprio país”. As instalações da Syngenta no Reino Unido às vezes fabricam produtos que “não estão mais disponíveis ou não são mais necessários em um contexto doméstico do Reino Unido”, mas que são “considerados necessários” por “agricultores e reguladores no país importador”.

No entanto, Marcos Orellana, relator especial das Nações Unidas sobre substâncias tóxicas e direitos humanos, disse que a exportação de pesticidas proibidos para o sul global era “uma forma de exploração moderna” com “tons racializados”.

“Parece que para os países que produzem e exportam agrotóxicos proibidos, a vida e a saúde das pessoas nos países receptores não são tão importantes quanto a de seus próprios cidadãos”, acrescentou.

Um porta-voz do governo do Reino Unido disse: “Este governo está comprometido em proteger a saúde humana e o meio ambiente dos riscos representados pelos produtos químicos”.

O Reino Unido vai “além do padrão internacional” para exportações dos herbicidas proibidos paraquat e diquat, ao “exigir o consentimento explícito do país importador antes que a exportação possa ocorrer”, ela acrescentou. Isso permitiu que “o país importador tomasse decisões informadas sobre a importação desses produtos químicos e como manuseá-los com segurança” . 

Este regulamento foi herdado da União Europeia (UE) após o Brexit e exige que os exportadores, na maioria dos casos, obtenham “consentimento prévio informado” (PIC) dos países importadores antes de poderem enviar produtos químicos proibidos.

“Os pássaros estão morrendo”

Sob o regulamento PIC, qualquer empresa que queira exportar um produto químico proibido precisa emitir uma “notificação de exportação” para o país de destino. No final do ano, ela tem que reportar aos reguladores do Reino Unido confirmando a quantidade total do produto químico que foi enviado . 

Unearthed e Public Eye obtiveram esses documentos do Health and Safety Executive usando leis de liberdade de informação.

Eles revelaram que no ano passado o Reino Unido exportou agrotóxicos contendo 8.489 toneladas de ingredientes ativos cujo uso é proibido em campos britânicos. O peso total dos produtos proibidos exportados deve ter sido muito maior – o ingrediente ativo frequentemente compõe menos de um quarto do peso de um pesticida pronto para uso.

As remessas foram para 18 países diferentes. Os principais importadores incluíram os EUA, Brasil, Canadá e México. Uma quantidade significativa também foi para a UE – onde esses agrotóxicos são proibidos – para serem reexportados para outro lugar . 

Cinco empresas estavam envolvidas neste comércio, mas a Syngenta foi responsável por 8.282 toneladas das exportações – ou seja, 98% .

As três principais exportações de agrotóxicos proibidos do Reino Unido foram todas produtos da Syngenta . 

Entre os três primeiros – revela esta investigação pela primeira vez – está o famoso inseticida matador de abelhas, o tiametoxam .

Este agrotóxico ‘neonicotinoide’ foi banido de todo uso externo no Reino Unido e na UE em 2018 devido ao perigo que representa para as colônias de abelhas . No entanto, o último governo  conservador indignou os ambientalistas ao conceder repetidamente aos produtores de beterraba autorizações de “emergência” para usá-lo em suas plantações. 

O Partido Trabalhista criticou essas autorizações na oposição prometeu pará-las se eleito. “Queremos proibir agrotóxicos que matam abelhas e que estão destruindo polinizadores, que são uma parte tão importante do ecossistema”, disse Steve Reed, que agora é secretário do meio ambiente, semanas antes da eleição . “Os pássaros estão morrendo, em parte porque não há insetos para eles comerem por causa do uso desses tipos de pesticidas.”

Dados obtidos pela Unearthed e Public Eye mostram que no ano passado a Syngenta exportou 374 toneladas do mesmo neonicotinoide proibido do Reino Unido para países como Costa do Marfim, Ucrânia, Taiwan e Marrocos.

Isso produziria inseticida à base de tiametoxam suficiente para pulverizar cerca de 133.000 quilômetros quadrados de campos — uma área maior que a Inglaterra . 

Documentos da HSE revelam que em 2024 a Syngenta espera exportar ainda mais. De acordo com notificações de exportação emitidas pela empresa, ela planeja enviar inseticidas contendo mais de 1.000 toneladas de tiametoxam este ano . Os destinos incluem Brasil, Rússia e Indonésia, mas, como foi o caso no ano passado, a Syngenta planeja enviar a grande maioria para a UE, de onde será reexportada para outro lugar .

“Proibir agrotóxicos para uso doméstico e, ao mesmo tempo, continuar a fabricá-los e exportá-los para outros países é a maior hipocrisia”, disse Josie Cohen, chefe de políticas e campanhas do grupo Pesticide Action Network UK.

“Se um produto químico é considerado muito prejudicial para ser usado aqui, então ele não deve ser enviado ao redor do mundo para envenenar trabalhadores rurais e animais selvagens e contaminar a água e o solo .”

Efeitos tóxicos

De longe, a maior exportação de pesticida proibido do Reino Unido em 2023 foi o diquat, fabricado pela Syngenta em Huddersfield, West Yorkshire.

A empresa exportou 5.123 toneladas deste herbicida no ano passado, mais da metade das quais foi enviada para o Brasil. A demanda por diquat no Brasil disparou nos últimos anos, depois que o governo brasileiro proibiu o uso de seu primo químico próximo, paraquat. 

O Brasil proibiu o paraquate — que também é fabricado pela fábrica da Syngenta em Huddersfield — em resposta a estudos que relacionam seu uso à doença de Parkinson, à gravidade dos envenenamentos acidentais por paraquate no país e a informações que mostram que a exposição de trabalhadores rurais ao herbicida excederia os níveis seguros, mesmo se estivessem usando equipamentos de proteção (EPI). 

O uso de diquat no país aumentou desde que essa proibição entrou em vigor em 2020, passando de apenas 1.400 toneladas no ano anterior para 24.000 toneladas em 2022. 

No entanto, Unearthed e Public Eye descobriram que o estado brasileiro do Paraná, que é o maior usuário de diquat do país, também viu um aumento acentuado nos envenenamentos por diquat. 

Entre 2018 e 2021, o estado registrou apenas um a três casos anualmente. Isso aumentou para seis em 2022, e novamente para nove no ano passado.

Marcelo de Souza Furtado, especialista da Secretaria Estadual de Saúde do Paraná, viu o número de intoxicações por diquat relatadas aumentar nos últimos anos. Vídeo: Marcelo Curia / Public Eye / Unearthed

“Esses números refletem uma pequena parcela da realidade”, disse Marcelo de Souza Furtado, especialista da Secretaria Estadual de Saúde do Paraná, responsável por rastrear intoxicações no oeste do estado. “Segundo a Organização Mundial da Saúde, para cada intoxicação registrada, haverá 50 não detectadas.”

Ele acrescentou: “Estamos preocupados. Se já foi proibido em outros países, então isso já mostra que tem um efeito muito tóxico.”

Agricultores e trabalhadores rurais no Paraná que foram acidentalmente envenenados com diquat disseram à Unearthed e à Public Eye que apresentaram sintomas como paralisia temporária, dor de estômago e danos oculares permanentes. 

“Todo o lado direito do meu corpo ficou paralisado. Eu não conseguia sentir meu pé e minha mão. Minha boca se torceu para a direita”, disse Valdemar Postanovicz, um pequeno agricultor no Paraná que foi acidentalmente exposto ao herbicida à base de diquat Reglone da Syngenta em 2021. 

“Se é proibido em um lugar, tem que ser proibido para todos”, ele acrescentou. “Estamos falando da saúde das pessoas.”

O diquat foi banido no Reino Unido e na UE em 2018 , com os fazendeiros tendo até o início de 2020 para usar seus estoques. A proibição ocorreu depois que a Agência Europeia para a Segurança Alimentar (Efsa) descobriu que ele representava um alto risco para moradores e espectadores próximos aos campos onde era usado, bem como para pássaros. 

Na maioria dos casos, o uso de diquat não era seguro para trabalhadores agrícolas, e a exposição do operador ao produto químico seria inaceitavelmente alta, mesmo para pessoas usando EPI, descobriu a Efsa.

Um porta-voz da Syngenta disse que herbicidas como o diquat eram “ferramentas essenciais” para os agricultores brasileiros que praticam a agricultura sem lavoura, um método de cultivo sem lavrar o solo que alguns especialistas acreditam que ajuda a terra a sequestrar carbono. O herbicida também é usado como um tratamento pré-colheita em plantações de soja, o que, segundo ele, deu aos agricultores a capacidade de “cronometrar a colheita com precisão” e obter “duas colheitas por ano na mesma terra”. 

Ele acrescentou que a empresa treina centenas de milhares de pessoas por ano no uso seguro dos produtos da Syngenta e espera treinar “55.000 pessoas somente no Brasil” neste ano. 

Após ser envenenado por diquat em 2021, Valdemar Postanovicz agora capina sua pequena propriedade no Paraná manualmente. Foto: Marcelo Curia / Public Eye / Unearthed

A queda do paraquate

A nova posição do diquate como a maior exportação de agrotóxicos proibidos do Reino Unido foi impulsionada em parte por uma queda acentuada nas exportações de paraquate da Syngenta. 

O paraquate foi banido no Reino Unido desde 2007 e é responsabilizado por especialistas por pelo menos dezenas de milhares de mortes por envenenamento no mundo todo . Durante anos, esse herbicida tóxico foi de longe o principal pesticida proibido exportado da Grã-Bretanha. 

Tanto em 2020 quanto em 2021 , o Reino Unido exportou mais de 10.000 toneladas de paraquate para 10 países diferentes. Mas no ano seguinte, as exportações caíram para menos de um quarto desse nível. 

Da mesma forma, em 2023, a Syngenta exportou apenas 2.771 toneladas de paraquate. Tudo foi para os EUA, onde ainda é aprovado para uso profissional licenciado . A Syngenta está enfrentando processos nos EUA de milhares de trabalhadores agrícolas que alegam que trabalhar com o produto químico lhes deu a doença de Parkinson . A empresa contesta que o paraquate cause Parkinson e diz que seus produtos são seguros quando usados ​​de acordo com as instruções. 

A queda nas exportações de paraquate do Reino Unido parece ser motivada em parte pela proibição do Brasil e em parte pela recente decisão da Syngenta de parar de vender paraquat em países como África do Sul e Índia.

No entanto, essa queda está sendo compensada por uma série de pesticidas que foram proibidos mais recentemente, incluindo diquate e tiametoxam , que agora estão sendo exportados do Reino Unido. 

No ano passado, o Reino Unido exportou pesticidas contendo 10 produtos químicos proibidos diferentes . Entre eles estava a fenamidona, proibida em 2018 devido a preocupações sobre seu potencial de danificar o DNA e “alto potencial de contaminação de águas subterrâneas” .

A empresa de pesticidas Gowan exportou fungicidas contendo 47 toneladas de fenamidona para o Chile. Um porta-voz da empresa disse que a Gowan cumpriu integralmente as regras internacionais que regem a exportação de produtos químicos, bem como “todas as regras relacionadas a padrões ambientais, de saúde e segurança”.

Eles também incluíram outro neonicotinoide matador de abelhas, o imidacloprido , enviado para a Tunísia pelo fabricante Nufarm, bem como o fungicida clorotalonilcontaminante de águas subterrâneas , exportado em pequenas quantidades pela Syngenta e pela Nufarm. 

Um porta-voz da Nufarm disse que todos os produtos da empresa “sempre atendem aos requisitos regulatórios e legais dos países nos quais são fabricados e vendidos”.

Ele acrescentou: “O Regulamento PIC visa proteger a saúde humana e o meio ambiente, fornecendo aos países em desenvolvimento informações sobre o armazenamento, transporte, uso e descarte seguros de produtos químicos perigosos. Apoiamos esse requisito de relatórios totalmente transparentes e estamos satisfeitos que ele esteja sendo aplicado adequadamente. ”

Prateleiras de agrotóxicos usados ​​para pulverizar plantações de feijão em uma pequena fazenda no Paraná, Brasil, 2024. Foto: Marcelo Curia / Public Eye / Unearthed

Benefícios do Brexit

Assim como o Reino Unido, a UE é um importante ator no comércio transfronteiriço de agroquímicos proibidos. 

No entanto, nos últimos quatro anos, alguns países da UE tomaram medidas para acabar com a prática. 

Em 2022, a França fez história ao proibir a exportação de alguns agrotóxicos proibidos.

No ano seguinte, a Bélgica aprovou uma lei que será a segunda proibição nacional dessas exportações. 

A anterior Comissão Europeia assumiu o compromisso de acabar com a exportação de todos os produtos químicos proibidos na UE, e um representante da nova comissão disse que continuará esse trabalho . 

Em outubro deste ano, seis estados-membros apoiaram publicamente uma proibição em toda a UE sobre exportações químicas proibidas. “Acredito que temos uma responsabilidade moral e ética de proteger a saúde dos cidadãos e o meio ambiente, não apenas na UE, mas também fora da união”, disse o ministro do meio ambiente dinamarquês Magnus Heunicke, de acordo com um relatório do site Politico. “Ninguém pode justificar isso. Isso tem que acabar.”

O Reino Unido, no entanto, nunca assumiu nenhum compromisso de acabar ou restringir seu próprio comércio de pesticidas proibidos . “Os países europeus estão tomando medidas para reprimir essa prática antiética enquanto o governo do Reino Unido permanece em silêncio, mais uma área em que estamos ficando para trás da UE em termos de padrões de pesticidas”, disse Josie Cohen da PAN UK.


Fonte: Unearthed

Agricultores brasileiros são envenenados e mortos por Diquat, agrotóxico da Syngenta banido na Europa

Quando o Brasil proibiu o famoso herbicida paraquat, os agricultores mudaram para diquat, um primo químico próximo. Mas agora o diquat – um agrotóxico da Syngenta proibido na Suíça e na UE – está causando seus próprios problemas 

valdemar diquat

Por Naira Hofmeister, Laurent Gaberell e Crispin Dowler para a Public Eye

Quando um lado do corpo dele traumático depois de trabalhar nos campos de sua pequena propriedade, Valdemar Postanovicz temeu estar tendo um derrame.

“Todo o lado direito do meu corpo estava paralisado. Eu não conseguia sentir meu pé e minha mão. Minha boca se contorcia para a direita”, ele diz.

Na verdade, ele estava apresentando sintomas de envenenamento agudo por agrotóxicos. Postanovicz havia absorvido acidentalmente Reglone, um herbicida poderoso baseado no diquat químico, enquanto limpava ervas daninhas de sua terra em uma vila isolada no sul do Brasil, em 2021.

“Foi só uma vez na minha vida, mas eu me senti tão mal que nunca mais usei”, ele conta à Unearthed e à Public Eye. Hoje em dia, ele capina seus campos de feijão e tabaco manualmente.

Postanovicz é um dos agricultores de um número crescente que foram envenenados com diquat no Paraná, o coração agrícola do Brasil e seu maior consumidor do herbicida. Desde que a proibição do notório herbicida paraquat entrou em vigor no Brasil em 2020, o uso de diquat no país – um primo químico próximo – disparou. Entre 2019 e 2022, as vendas anuais de diquat no Brasil dispararam de cerca de 1.400 para 24.000 toneladas – um aumento de mais de 1.600%.

“Agricultores brasileiros envenenados por agrotóxico da Syngenta proibido na Europa”.  

Uma marca popular desse herbicida no Brasil é o Reglone, uma solução contendo 20% de diquat que é fabricada em Huddersfield, no norte da Inglaterra, pela gigante agroquímica Syngenta, sediada na Suíça. O uso do diquat foi proibido na Suíça e na União Europeia (UE) após a identificação de um “alto risco” para pessoas que vivem perto de campos onde ele foi pulverizado . No entanto, a Syngenta continua vendendo-o no Brasil e em outros países, onde os riscos geralmente são maiores.

A lei britânica até permite que a Syngenta continue fabricando o herbicida no Reino Unido, para exportação a países com regulamentações mais fracas, embora seu uso seja proibido em fazendas britânicas. No ano passado, a Syngenta exportou mais de 5.000 toneladas de diquat do Reino Unido, e mais da metade disso – 2.661 toneladas – foi para o Brasil.

O uso de diquat no Paraná aumentou ainda mais acentuadamente do que no Brasil como um todo; agora o estado começou a ver um aumento nos casos relatados de envenenamento por diquat. Entre 2018 e 2021, o estado registrou apenas um a três casos anualmente. Isso saltou para seis em 2022 e novamente para nove em 2023. Especialistas dizem que esses números oficiais são provavelmente a ponta do iceberg. Muitos incidentes de envenenamento por pesticidas não são relatados, devido à falta de acesso a cuidados de saúde em áreas remotas ou medo de represálias dos empregadores.

Marcelo de Souza Furtado, da Secretaria Estadual de Saúde do Paraná. Ele diz que os casos de intoxicação por diquat estão aumentando na região. ©Marcelo Curia

“Esses números refletem uma pequena parcela da realidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde, para cada intoxicação registrada, haverá 50 não registradas”, disse Marcelo de Souza Furtado, especialista da Secretaria Estadual de Saúde do Paraná, responsável pelo rastreamento de intoxicações na região oeste do estado. As autoridades paranaenses não sabem a real dimensão do problema de intoxicação por agrotóxicos no estado, ele acrescenta, mas “o problema é grande”.

Furtado notou pela primeira vez que as notificações de envenenamento por diquat estavam começando a substituir o paraquat no ano passado.

“Estamos preocupados”, ele diz, quando lhe contam que esse produto químico é proibido no Reino Unido. “Se ele já foi proibido em outros países, isso já mostra que ele tem um efeito muito tóxico.”

“Agricultores brasileiros envenenados por pesticida da Syngenta proibido na Europa”. ©Marcelo Curia

O Reglone, campeão de vendas da Syngenta, é a marca mais comumente citada em casos de envenenamento por diquat no Brasil. Dos 36 casos de envenenamento por diquat registrados nacionalmente pelo Ministério da Saúde do Brasil entre 2018 e 2022, o Reglone foi citado em 30, ou 83%.

“Eu não sabia disso (fato), que eles não usam no país deles”, diz Darley Corteze, um jovem fazendeiro de Pérola d’Oeste, no extremo oeste do Paraná. Corteze foi envenenado com diquat no ano passado, enquanto trabalhava nas plantações de soja ao redor da casa de seus pais. “Eles fabricam, mandam para o exterior (mas) não usam”, ele acrescentou. “Agora vou tentar evitar usar, a menos que eu não tenha outra opção.”

Um porta-voz da Syngenta disse que as necessidades agrícolas diferem ao redor do mundo e que o “uso de produtos agroquímicos é baseado na avaliação dos governos nacionais sobre os riscos e benefícios do uso em seu próprio país”.

“Com base nisso”, ele continuou, “em alguns casos, as unidades de fabricação da Syngenta no Reino Unido fornecem produtos que não estão mais disponíveis ou são necessários no contexto doméstico do Reino Unido, mas são considerados necessários por razões agronômicas e agrícolas por fazendeiros e reguladores no país importador”.

A Syngenta continua produzindo diquat em Huddersfield, no norte da Inglaterra, embora seu uso seja proibido em fazendas do Reino Unido. ©Shutterstock

Ele disse à Unearthed e à Public Eye que herbicidas como o diquat eram “ferramentas essenciais” para fazendeiros que queriam implementar a agricultura sem lavoura, um método de cultivo sem perturbar o solo, e que o diquat também era usado como um dessecante pré-colheita em plantações de soja brasileiras. Esse uso deu aos fazendeiros a capacidade de “cronometrar com precisão a colheita e o plantio subsequente”, o que significa que eles poderiam ter “duas colheitas por ano na mesma terra, aumentar a produtividade agrícola e reduzir a pressão para limpar novas áreas para cultivo”.

“A Syngenta está profundamente ciente de todas as regulamentações relevantes”, ele acrescentou, “e as cumpre rigorosamente na produção, venda e transporte de nossos produtos de proteção de cultivos”.

Uma ocupação perigosa

O diquat foi finalmente banido na UE e no Reino Unido devido ao “ alto risco ” que representava para moradores e transeuntes perto dos campos onde era pulverizado. Mas autoridades de segurança da UE também citaram preocupações sobre os riscos representados para fazendeiros que trabalham com o produto químico. Em um cenário modelado usando equipamento montado em trator, a Agência Europeia de Segurança Alimentar concluiu que a exposição do trabalhador excederia o nível máximo aceitável em mais de 4000% – mesmo se o trabalhador rural estivesse usando equipamento de proteção individual (EPI).

A rotulagem brasileira da Syngenta para o Reglone recomenda que os trabalhadores usem EPI, incluindo macacão, botas, luvas, gorro, avental, óculos de proteção e proteção respiratória.

No entanto, no Brasil, os pequenos agricultores nem sempre estão cientes da importância do EPI, diz Furtado. Calor e umidade tornam o uso consistente ainda mais difícil.

“O uso de EPI está melhorando entre os fazendeiros locais, mas continua sendo um desafio cultural e prático significativo”, ele disse. “Muitos fazendeiros e trabalhadores não o usam ou usam apenas parte do equipamento.”

Pequenos agricultores nem sempre estão cientes da importância do EPI. Calor e umidade tornam o uso consistente ainda mais difícil. ©Marcelo Curia

Corteze era um desses trabalhadores. Ele diz que, apesar de usar equipamento de proteção completo – incluindo luvas e macacão – ele pulou a viseira.

“Você tem que lavá-lo toda vez, e isso atrapalha sua visão porque é plástico na frente dos seus olhos”, diz ele.

Corteze diz que a dor que sentiu após ser acidentalmente envenenado com diquat não era normal – algo que ele “não sentia antes”. Mais de um ano depois, ele acrescenta, sua cabeça ainda dói um pouco quando ele usa o produto químico.

Seus pais agora são cautelosos com pesticidas. Eles ainda vivem na pequena casa onde ele cresceu, a uma curta distância de um grande campo de soja.

“Agricultores brasileiros envenenados por agrotóxico da Syngenta proibido na Europa”. ©Marcelo Curia

“Quando eles pulverizam pesticidas (naquele campo), você tem que se fechar, bloquear as frestas sob as portas, fechar as janelas para que o ar envenenado não entre”, diz sua mãe, Joselaine. “O cheiro vai direto para sua cabeça, (e) as dores de cabeça começam, a náusea.”

Às vezes, os trabalhadores rurais dizem que seus EPIs não são eficazes. Quando Fábio Souza estava preparando o equipamento para pulverizar as plantações de seu empregador com Reglone em abril de 2023, ele diz que usou uma viseira para se proteger.

“Mas o líquido veio de baixo e atingiu meu olho”, ele conta ao Unearthed e ao Public Eye.

Souza ainda sente sequelas de sua lesão, incluindo uma sensação de queimação em dias ensolarados. O nome de Souza foi alterado para proteger sua identidade, porque ele teme represálias de seu empregador por falar com a mídia.

O estado do Paraná, no sul do Brasil, é o coração agrícola do país e seu maior consumidor de diquat. ©Marcelo Curia

“Isso afetou minha visão, que às vezes fica turva”, ele diz. “Nós só temos esses olhos. Se sua visão se for, tudo se será, ficará escuro, o mundo se será.”

Ele ainda usa Reglone, mas, com medo de deriva, só pulveriza quando seus filhos estão na escola. Sua casa fica a 100 metros das plantações.

“Depois do acidente, comecei a ser ainda mais cauteloso no uso de pesticidas. Tenho muito medo de usá-los. É perigoso”, ele conta à Unearthed e à Public Eye.

Especialistas dizem que os riscos provavelmente são particularmente altos para pequenos agricultores, que cuidam de pequenas áreas de terra e pulverizam agrotóxicos manualmente.

“Agricultores brasileiros envenenados por pesticida da Syngenta proibido na Europa”. ©Marcelo Curia

“O maior risco de contaminação está principalmente na pessoa que aplica (o agrotóxico)”, diz Renato Young Blood, diretor da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar). “Provavelmente é por isso que essas contaminações ocorrem em cultivos mais comuns na agricultura familiar, onde você vai ter o uso de equipamentos de pulverização de menor tecnologia e vai ter uma exposição maior da pessoa que aplica (o agrotóxico).”

Postanovicz é um desses fazendeiros: ele mora em uma modesta casa de três cômodos, em uma área remota. Fazendas pequenas como a dele dominam. Postanovicz cultiva frutas e feijões suficientes para sua própria subsistência, e planta um pouco de tabaco para cobrir suas contas. Ele trabalha sozinho em sua propriedade de 35 hectares, e usou um pulverizador de mochila para aplicar Reglone.

Postanovicz vive em uma modesta casa de três cômodos, em uma área remota. Pequenas fazendas como a dele dominam. ©Marcelo Curia

“O Reglone é um produto muito forte, se ele tocar na planta do tabaco, ele a mata (imediatamente)”, ele diz. Assim como Corteze, ele diz que usou calças, botas e luvas de proteção, mas omitiu a viseira. “Quando respiramos, ele embaça toda essa coisa de plástico e não conseguimos enxergar direito. É perigoso: podemos tropeçar, cair e nos machucar.”

Postanovicz diz que seus sintomas começaram depois que ele terminou o trabalho e tomou banho. Sua visão ficou turva, sua perna e braço direitos ficaram dormentes, e tremores sacudiram sua mão direita. Mesmo agora, o cheiro de Reglone desencadeia uma reação visceral.

“Eu odeio isso. Eu posso sentir se alguém estiver usando longe daqui, é horrível”, ele diz.

Veneno ao alcance de todos

A exposição ocupacional não é o único perigo enfrentado por pessoas que têm que trabalhar com pesticidas perigosos. A própria disponibilidade de produtos tóxicos em comunidades agrícolas apresenta seus próprios riscos. De 2010 a 2019, 138 pessoas no Brasil morreram de envenenamento por paraquate, de acordo com uma análise da Universidade Federal do Ceará. Destes, 129 foram classificados como suicídios.

O paraquat é fatal em quantidades muito pequenas – apenas um gole de herbicida à base de paraquat pode matar, e não há antídoto. Isso o torna extraordinariamente perigoso quando ingerido, seja por acidente ou em atos de automutilação. Alguns especialistas argumentam que o acesso a um produto como esse é em si um risco à saúde pública, devido à alta probabilidade de que usá-lo em um ato impulsivo de automutilação seja letal.

Agora há sinais de que, à medida que o diquat substitui o paraquat, ele também está sendo usado em tentativas de suicídio. Entre 2018 e 2022, o Brasil registrou oficialmente 36 casos de envenenamento por diquat em todo o país. Quase metade deles, 17, foram tentativas de suicídio, quatro das quais fatais. O número nacional para 2023 ainda não está disponível.

Conversamos com a família de Luiz Patalo, um pequeno agricultor do centro do Paraná, que morreu de envenenamento por diquat em fevereiro de 2019.

Elza Patalo: “Eram 18h quando ele entrou na cozinha e me disse que tinha bebido Reglone”. ©Marcelo Curia

“Eram 18h quando ele entrou na cozinha e me disse que tinha bebido Reglone”, disse a mãe de Patalo, Elza, à Unearthed e à Public Eye, com lágrimas nos olhos. “Na manhã seguinte, ele estava morto.”

“Ele teve uma parada cardíaca, não conseguiram salvá-lo”, acrescenta sua irmã Luciana. “Os médicos fizeram tudo o que puderam, mas o efeito do pesticida foi muito forte.”

Luiz não mostrou sinais de depressão em geral, segundo Elza. Ele era um homem feliz, sempre rindo, que se dava bem com sua comunidade.

“Nós nunca teríamos esperado isso – ele era uma pessoa alegre”, ela continua. Mas quando ele chegou em casa naquela noite, ele discutiu com um vizinho que estava bebendo em uma festa da comunidade, e a situação se tornou violenta. Ele estava claramente chateado, ela disse. Ele tomou o que sua família acredita ter sido uma decisão impetuosa. O diquat foi mantido em um “pequeno armário trancado” no jardim atrás da casa.

Agricultores brasileiros envenenados por pesticida da Syngenta proibido na Europa.©Marcelo Curia

“Acho que se ele não tivesse tido acesso ao agrotóxico, talvez as coisas pudessem ser diferentes hoje, porque foi fácil para ele pegar e beber o pesticida”, diz Luciana.

De acordo com o professor de toxicologia clínica Michael Eddleston, especialista em envenenamento por pesticidas na Universidade de Edimburgo, essas circunstâncias não são incomuns: pessoas que engolem pesticidas geralmente agem por um impulso passageiro que tem pouco a ver com um desejo profundo de morrer. O ato imediato de beber um líquido parece mais fácil e menos violento do que outros métodos de suicídio. Mas produtos de toxicidade aguda como paraquat e  diquat são implacáveis ​​com atos impulsivos.

“Não deveríamos pensar em pessoas que bebem pesticidas como pessoas que querem se matar”, ele diz. “Elas nem sempre fazem isso. Elas estão se autoenvenenando para se comunicar. E elas fazem isso com o que estiver disponível.”

“Automutilação é um método de comunicação. Alguém que está bravo, estressado, pode pensar que é a única maneira de comunicar a você e à comunidade o quão machucado e ferido está por uma situação.”

É por isso, diz Eddleston, que as taxas de mortalidade podem cair vertiginosamente quando pesticidas altamente tóxicos são substituídos por alternativas não tóxicas ou menos tóxicas. O Sri Lanka, por exemplo, era famoso por ter uma das maiores taxas de suicídio do mundo no início dos anos 1990. Mas as restrições e regulamentações de pesticidas contribuíram para uma queda nas taxas de suicídio de mais de 70% desde 1995.

Um anúncio de 1986 diz: “No caso improvável de ingestão, o emético do GRAMOXONE SUPER induzirá o vômito”

Da mesma forma, uma pesquisa na China descobriu que as proibições de alguns produtos extremamente tóxicos e perigosos contribuíram para uma queda substancial na taxa de suicídio do país entre 2006 e 2018. “Se esses produtos químicos não estivessem nas casas das pessoas por uma razão ocupacional, as pessoas não estariam morrendo”, acrescenta Eddleston.

A tentativa de suicídio de Fernanda Characovski com Reglone e outro agroquímico, em 2020, foi similarmente não planejada. Characovski havia se mudado recentemente com seu parceiro para trabalhar na fazenda de tabaco de sua família. O trabalho era exaustivo, e ela se sentia isolada — ela não tinha vizinhos e nem sempre se dava bem com a família de seu parceiro.

Ela bebeu o agrotóxico depois de “uma briga feia” com seu então parceiro. Foi, ela diz, “um impulso”.

“(Foi) um momento de raiva. Eu queria me vingar, sabe?” ela conta à Unearthed e à Public Eye. “Foi algo desesperador de se fazer, mas eu também não o culpo. Como eu disse, acho que minha psique já estava muito abalada. Também foi devido a um pouco de depressão.”

Characovski passou duas semanas no hospital, incluindo vários dias na Unidade de Terapia Intensiva. O envenenamento deixou efeitos duradouros: ela não consegue mais comer certos alimentos.

“Meu estômago queimou com o pesticida”, ela diz.

Ela fala eloquentemente sobre sua tentativa de suicídio e diz que a facilidade de acesso foi um fator crítico.

Agrotóxicos letais como o Reglone são frequentemente armazenados em pequenos armários no jardim atrás das casas de pequenos agricultores. ©Marcelo Curia

“Eu acho que quando você está de cabeça quente você age sem pensar, e quando você está deprimido é algo que você faz sem sentir na hora, como se você não estivesse sentindo nada”, ela conta ao Unearthed e ao Public Eye. “Se eu não tivesse acesso ao armário de  agrotóxicos, eu não teria tentado me matar. Eu não teria tido coragem de me jogar em uma fornalha, teria?”

O Brasil não é o único lugar que viu envenenamentos fatais com diquat desde que o produto químico foi usado para substituir o paraquat. A China proibiu o paraquat em 2016 e, desde então, o diquat se tornou seu substituto amplamente utilizado. De acordo com Eddleston, os médicos relataram centenas de mortes por envenenamento por diquat na China desde que a proibição do paraquat entrou em vigor. Estudos de pessoas que engoliram diquat na China relatam taxas de mortalidade variando de 17% a 60% . Eddleston ressalta que os fabricantes estão vendendo diquat em formulações líquidas de 20%, assim como normalmente vendiam paraquat. Essas formulações, diz ele, reproduzem “as propriedades mais perigosas do paraquat”, incluindo a facilidade com que pode ser engolido e a ausência de um antídoto.

Até o momento, pessoas não morreram de envenenamento por diquat, no Brasil ou na China, em números semelhantes aos que morreram anteriormente por paraquat. No entanto, Eddleston tem certeza de que as formulações de 20% que estão sendo vendidas são “perigosas demais para pequenos agricultores terem em mãos”.

“A consequência de tomar até mesmo uma pequena dose dessa coisa é letal. E uma pequena dose pode acontecer por acidente”, ele acrescenta.

“Isso não era um problema há dez ou 20 anos. Mas agora estamos vendo claramente que é um problema, e isso é novo, mudou, pois o diquat substituiu o paraquat.”

O novo paraquat

Como o maior produtor mundial de soja, cana-de-açúcar, café e laranja, o Brasil é um dos maiores consumidores de pesticidas do mundo, e seu uso de agroquímicos está aumentando a cada ano. Mas a curva de uso de diquat é dramaticamente diferente, transformando-se de um produto químico marginalmente usado em um dos herbicidas mais prevalentes do Brasil. O uso geral de pesticidas aumentou em um fator de 1,5 de 2018 a 2022 no Brasil; para diquat, o uso aumentou em um fator de 18.

O catalisador para esse aumento foi a proibição do paraquate no país. De acordo com a ANVISA, a agência reguladora de saúde do país, essa proibição ocorreu por quatro motivos: a gravidade dos casos de envenenamento ocupacional e acidental, o fato de que a exposição dos trabalhadores ao paraquate excedeu os níveis seguros mesmo usando EPI, o potencial mutagênico do produto químico e estudos que o relacionam com a doença de Parkinson.

O Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo e o uso de agroquímicos aumenta a cada ano. ©Marcelo Curia

Agora, diante do aumento exponencial do uso do diquat, mesmo com o herbicida tendo sido proibido nas fazendas de toda a Europa, alguns questionam por que esse parente próximo do paraquat ainda está no mercado brasileiro.

“Paraquat e diquat são praticamente a mesma molécula”, disse Marcos Andersen, engenheiro agrônomo que trabalha na Secretaria Estadual de Saúde do Paraná. “A ação é a mesma, e o diquat também deveria ter sido proibido.”

Em 2024, as autoridades sanitárias do Paraná incluíram o diquate pela primeira vez em seus testes anuais de resíduos de pesticidas em alimentos. “Estamos preocupados com o aumento do uso dessa substância”, acrescenta Andersen.

No entanto, há poucas chances de que as autoridades brasileiras tomem medidas para restringir o uso de diquat no país em breve.

“A Anvisa está conduzindo um processo interno para decidir qual pesticida é o mais problemático, para começar a reavaliar isso, mas eles estão realmente no início do processo”, disse Gamini Manueera, especialista da Universidade de Edimburgo que costumava liderar o regulador de pesticidas do Sri Lanka.

Pelo contrário, o Brasil aprovou recentemente uma lei chamada “pacote do veneno” , uma legislação favorável ao agronegócio que enfraquece o papel das agências de saúde e meio ambiente na regulamentação de  agrotóxicos e simplifica o processo de aprovação de pesticidas.

“A legislação começou a ficar um pouco mais branda, mais relaxada quando se trata de liberar agroquímicos”, diz Furtado. “Muitos novos agrotóxicos foram introduzidos, e ainda não sabemos o quão prejudiciais muitos deles são para a saúde humana.”

Outros argumentam que o advento desta nova lei coloca uma responsabilidade maior sobre os países e empresas do Norte Global para parar de exportar agrotóxicos proibidos como o diquate para o Brasil.

“O Brasil aprovou no ano passado, com o apoio das empresas agroquímicas, uma nova lei de pesticidas, que flexibiliza ainda mais o registro e o uso de agrotóxicos”, diz Alan Tygel, porta-voz da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida do Brasil. “Nesse contexto, os países europeus que produzem e exportam pesticidas proibidos em seu próprio país para o Brasil devem reconhecer sua responsabilidade e parar de nos enviar produtos que são muito perigosos para (suas próprias fazendas).”

“Muitos novos agrotóxicos foram introduzidos, e ainda não sabemos o quão prejudiciais muitos deles são para a saúde humana.

A Syngenta responde que cada país tem o direito soberano de decidir quais agrotóxicos são necessários em suas fazendas. “Ao exportar produtos do Reino Unido, a Syngenta respeita a soberania e a direção do país importador, atende a todos os requisitos regulatórios internacionais, incluindo Consentimento Prévio Informado, e fornece administração e informações detalhadas no país para promover a aplicação segura pelos usuários finais”, diz o porta-voz da empresa.

A empresa só produz agrotóxicos em alguns lugares do mundo, para garantir que os compostos “tenham a mais alta qualidade”, ele diz, e bloquear o acesso a “produtos de alta qualidade e autorizados incentiva um mercado de produtos falsificados e ilegais – muitos dos quais são produzidos por organizações criminosas sofisticadas que usam ingredientes nocivos e não regulamentados, o que coloca os agricultores em risco ainda maior”.

“Todos os anos, a Syngenta treina centenas de milhares de pessoas no uso seguro de nossos produtos”, ele acrescenta. “Este ano, esperamos treinar mais de 55.000 pessoas somente no Brasil.”

No entanto, para Marcos Orellana, relator especial das Nações Unidas sobre substâncias tóxicas e direitos humanos, a exportação de agrotóxicos proibidos para o Sul Global é uma forma de “exploração moderna”.

“Parece que para os países que produzem e exportam  agrotóxicos proibidos, a vida e a saúde das pessoas nos países receptores não são tão importantes quanto a de seus próprios cidadãos”, diz ele.

É um sentimento compartilhado por muitos trabalhadores rurais envenenados com diquat com quem a Unearthed e a Public Eye conversaram no Paraná, assim como por suas famílias.

©Marcelo Curia

“Acredito que é errado proibir um agrotóxicos em um país e enviá-lo para nós”, diz Luciana Patalo, que perdeu seu irmão Luiz para o envenenamento por diquat. “Se é perigoso para uma população, será para a outra também.”


Fonte: Public Eye