Uso do glifosato impacta negativamente o desenvolvimento de bebês, aponta estudo

Aumento de agricultores que pulverizam glifosato está correlacionado com queda no peso de bebês no momento do nascimento, mostra estudo

A soja Round-up Ready tolera o herbicida glifosato e levou a um aumento maciço em seu uso. Jim West/Alamy

Por Erik Stokstad para a Science

Bebês em condados rurais dos Estados Unidos que usam glifosato, um herbicida comum nascem um pouco mais cedo e abaixo do peso , segundo um grande estudo. Essas mudanças, embora pequenas em média, podem resultar em deficiências de aprendizagem e um risco aumentado de infecção, relataram pesquisadores na semana passada no Proceedings of the National Academy of Sciences , resultando em mais de US$ 1 bilhão em custos de assistência médica em todo o país a cada ano.

É um estudo “muito convincente e rigoroso”, diz Eyal Frank, um economista ambiental da Universidade de Chicago que não estava envolvido. Para as crianças mais vulneráveis, em grupos historicamente desfavorecidos, o efeito foi significativamente maior. “Essa é a descoberta mais alarmante”, ele diz. Ainda assim, Frank e outros observam que a pesquisa não pode provar que o produto químico conhecido como glifosato é o culpado. Por um lado, o estudo não mediu diretamente a exposição individual ao ingrediente ativo do herbicida.

Mais de 127.000 toneladas de glifosato são pulverizadas em campos dos EUA a cada ano, e a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e outras agências reguladoras dizem que é seguro usar com as devidas precauções. Mas algumas pesquisas sugerem que o glifosato pode interromper os hormônios reprodutivos em animais de laboratório. Em pessoas, um pequeno estudo em 2018 relacionou a exposição ao glifosato a uma gravidez ligeiramente mais curta.

Edward Rubin, economista ambiental da Universidade do Oregon, e o estudante de pós-graduação Emmett Reynier decidiram dar uma olhada ampla no efeito do glifosato. Com a introdução da soja geneticamente modificada para tolerar o glifosato em 1996, os agricultores puderam pulverizar o herbicida sem prejudicar suas plantações. Isso permitiu o controle barato e fácil de todos os tipos de ervas daninhas sem arar, o que corrói o solo. Nos anos seguintes, as plantas de milho e algodão tolerantes ao glifosato também passaram a dominar as terras agrícolas dos EUA.

Para procurar efeitos em bebês, Rubin e Reynier analisaram dados sobre tempo de gestação e peso ao nascer de mais de 10 milhões de bebês nascidos entre 1990 e 2013 em condados rurais. Eles compararam os dados de nascimento com quantidades estimadas de glifosato e outros agroquímicos pulverizados por quilômetro quadrado nos condados, publicados pelo US Geological Survey.

O baixo peso ao nascer é um importante preditor de problemas de saúde, como atraso no desenvolvimento cognitivo, e aumenta o risco de infecção e doenças não transmissíveis, como diabetes e doenças cardiovasculares.

Entre 1990 e 1996, não houve diferença no peso ao nascer ou na duração da gravidez entre os condados, descobriu a equipe. Depois que as culturas biotecnológicas chegaram ao mercado, no entanto, o peso ao nascer começou a cair em condados onde mais culturas biotecnológicas são cultivadas e pulverizadas com glifosato. Em 2005, os bebês nascidos em condados dominados por milho, soja e algodão biotecnológicos pesavam em média cerca de 30 gramas a menos do que aqueles nascidos em condados rurais que cultivam principalmente outros tipos de culturas nas quais o glifosato não é usado. Os bebês também nasceram 1,5 dias antes em lugares onde o glifosato era comum.

A quantidade de dados permitiu que os cientistas descartassem a possibilidade de que mudanças em outros herbicidas e agroquímicos estivessem em ação. Eles também consideraram outras possíveis influências no peso do bebê ao nascer, como o impacto do desemprego.

A mudança média no peso ao nascer — um pouco menos de 1% de declínio — é relativamente pequena. Mas Rubin observa que ela cancela o aumento do peso ao nascer visto em bebês quando suas mães recebem benefícios alimentares do governo que visam melhorar a saúde infantil, um programa que custa bilhões de dólares a cada ano.

Rubin e Reynier também estimaram os custos de saúde ao longo da vida do nascimento prematuro, incluindo cuidados pós-natais, educação especial e menores ganhos na idade adulta. Os custos gerais de saúde da redução média de 0,6% no tempo de gestação associada à exposição ao glifosato chegam a cerca de US$ 1,1 bilhão anualmente. Essa estimativa é “realmente nova e útil”, diz Carly Hyland, cientista de saúde ambiental da Universidade da Califórnia, Berkeley.  

A injustiça ambiental também está em jogo, diz Rubin. Filhos de pais negros ou solteiros tinham mais de 60 vezes mais probabilidade de ter baixo ou muito baixo peso ao nascer, com quase o dobro de redução de peso. “Isso sugere alguns efeitos realmente grandes”, diz Rubin.

Alguns estudos encontraram danos mais severos em outros países. Dois artigos publicados em 2023 encontraram taxas mais altas de mortalidade infantil e câncer infantil em áreas agrícolas no Brasil, onde as taxas de aplicação de glifosato são duas vezes maiores que nos EUA.

Cynthia Curl, cientista de saúde ambiental e epidemiologista da Boise State University, diz que “uma limitação importante” do estudo dos EUA foi sua dependência do uso de glifosato em todo o condado, em vez de dados de exposição individual. “Gosto de ver medições na mãe durante a gravidez”, acrescenta Lynn Goldman, pediatra e epidemiologista da George Washington University.

No entanto, os novos resultados devem preocupar os reguladores, diz Goldman. “A EPA definitivamente precisa analisar isso.” A segurança dos pesticidas aprovados deve ser reavaliada a cada 15 anos; a EPA atrasou sua revisão do glifosato e agora espera concluí-la no ano que vem. No entanto, a administração do presidente Donald Trump pode adiar ainda mais a revisão.

 

Fonte: Science
 

Uso intenso de agrotóxicos provoca crise silenciosa na saúde e meio ambiente no Oeste do Pará

Avanço da soja e do milho expõe populações de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos a problemas de saúde

Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado – Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Por Liege Costa para o Brasil de Fato 

oeste do Pará se tornou um dos grandes polos agrícolas do Brasil destacando-se na produção de soja e milho. Os municípios de Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos estão entre os dez maiores produtores do estado, mas o uso intenso de agrotóxicos traz consequências.

“A chegada da soja trouxe desenvolvimento econômico para a região, mas a um alto custo”, afirma a Dra. Annelyse Figueiredo, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “Esses cultivos dependem de agrotóxicos, como o glifosato, que não apenas eliminam ervas daninhas, mas também contaminam o meio ambiente e afetam a saúde humana”, afirmou.

Com o Brasil consolidado como o maior produtor de soja do mundo, a dependência de agrotóxicos cresce, e o glifosato, herbicida amplamente utilizado, torna-se símbolo de um problema que afeta desde o solo até as gerações futuras.

Os números da intoxicação: um alerta para a região

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinam) revelam, que desde os anos 2000, 92 casos de intoxicação aguda por agrotóxicos foram registrados em Belterra, Santarém e Mojuí dos Campos ao longo de 24 anos. Belterra lidera as notificações, com 54 casos, enquanto Santarém e Mojuí dos Campos registraram 33 e 5 casos, respectivamente. No entanto, o número pode ser apenas a “ponta do iceberg.

“Esses números podem parecer baixos, mas sabemos que para cada caso registrado, outros 50 ficam fora das estatísticas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Isso significa que o problema é muito maior do que os dados mostram”, alerta Annelyse.

O aumento de casos em Belterra, que passou de 5 notificações em 2018 para 44 em 2023, é motivo de preocupação para especialistas. A situação é ainda mais grave quando se observa que mais de 60% das vítimas são jovens com menos de 19 anos, incluindo crianças e até mesmo bebês.

“Na Escola Municipal Vitalina Mota, localizada ao longo da BR-163, cercada por lavouras de soja, alunos e professores sofrem constantemente com os efeitos da pulverização de agrotóxicos. A exposição gera sintomas imediatos, como náuseas, vômitos e tontura, e frequentemente as aulas precisam ser suspensas”, detalha Annelyse.

Impactos crônicos e subagudos: um legado de doenças

Os impactos do uso de agrotóxicos vão além das intoxicações agudas. Pesquisas apontam para o aumento de casos de câncer, doenças neurológicas e malformações congênitas na região.

“Os agrotóxicos contêm substâncias químicas que podem causar mutações celulares, favorecendo o surgimento de diferentes tipos de câncer, como linfomas, leucemias e tumores de mama e próstata”, explica a Dra. Kalysta Borges, médica oncologista e hematologista do Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém.

Ela também alerta para os danos de longo prazo: “a exposição crônica pode levar a alterações hormonais, problemas neurológicos, danos ao fígado e rins, além de aumentar os riscos de doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Isso é especialmente perigoso para populações vulneráveis, como crianças, gestantes e idosos”.

Dados do Sistema Único de saúde (SUS) revelam um aumento de 123% nas mortes por neoplasias em Belterra entre 2000 e 2020. O aumento mais alarmante foi de 667% nas mortes por doenças do sistema nervoso no mesmo período.

“Esse aumento não é coincidência. Estamos falando de uma população exposta a agrotóxicos de forma contínua, muitas vezes sem saber. Esses números indicam um problema muito maior e com consequências que ultrapassam gerações”, reforça Annelyse Figueredo.

A visão das lideranças locais

Para Sileuza Barreto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Mojuí dos Campos, os agrotóxicos representam uma ameaça direta à saúde da população e à agricultura familiar.

“Os relatos de câncer, náuseas, dores de cabeça, alergias e problemas na gravidez são constantes. Já identificamos até glifosato na urina de moradores. Isso é muito grave”, denuncia Sileuza.

Ela também aponta para os impactos no meio ambiente: “a pulverização contamina o solo, a água e até as plantações dos pequenos agricultores. Muitas famílias perderam suas produções porque os agrotóxicos atingiram áreas de agricultura familiar. Isso afeta a alimentação, a renda e a qualidade de vida dessas pessoas”.

Apesar das dificuldades, Sileuza acredita na agroecologia como solução: “estamos fortalecendo a agroecologia nas comunidades. Ela é o caminho para uma produção sustentável e para proteger a saúde das pessoas. Nossa salvação é investir em alternativas que respeitem o meio ambiente”.

Deriva técnica e o alcance invisível dos agrotóxicos

A dispersão de agrotóxicos pelo vento ou pela água, conhecida como deriva técnica, é outro problema grave. Mesmo seguindo normas técnicas, é impossível evitar que os produtos químicos atinjam áreas próximas.

“Escolas, comunidades e corpos d’água estão constantemente expostos. A chuva pode carregar os produtos para igarapés, contaminando a água utilizada para consumo ou irrigação. Isso expõe a população a riscos invisíveis e constantes”, explica Annelyse.

A Dra. Kalysta reforça que a deriva amplia os danos: “Os sintomas de intoxicação crônica podem surgir anos depois, como fadiga constante, doenças autoimunes e, em casos graves, câncer. O consumo de água contaminada ou alimentos expostos ao agrotóxico intensifica esses riscos”.

Caminhos para um futuro sustentável

Especialistas e lideranças destacam a necessidade de ações integradas para enfrentar os impactos dos agrotóxicos: 

– Criação de zonas livres de agrotóxicos: Proteger áreas sensíveis, como escolas, comunidades e corpos d’água; 

– Fiscalização rigorosa: Monitorar o uso de agrotóxicos e proibir pulverizações em locais próximos a populações; 

– Incentivo à agroecologia: Promover práticas agrícolas sustentáveis e fomentar a agricultura orgânica; 

– Conscientização da população: Educar sobre os riscos dos agrotóxicos e os direitos de saúde e proteção ambiental; 

– Melhoria no registro e monitoramento: Criar sistemas públicos para rastrear o uso de agrotóxicos na região.

“Precisamos de políticas públicas eficazes e de um esforço coletivo para proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente. Sem isso, as consequências serão devastadoras”, alerta Annelyse.

Sileuza conclui com um apelo: “A agroecologia é a nossa esperança. Não é só sobre produzir alimentos, é sobre garantir que as próximas gerações tenham um futuro”.

Um legado para as futuras gerações

Este é um chamado urgente para que políticas públicas, conscientização coletiva e práticas sustentáveis sejam adotadas em defesa da vida e do meio ambiente no oeste do Pará.

A situação na região reflete os desafios de um modelo agrícola centrado na produção de commodities à custa do meio ambiente e da saúde pública.

“Sem uma mudança estrutural, os impactos do uso de agrotóxicos continuarão a se manifestar por gerações, comprometendo o futuro das crianças, das comunidades e do ecossistema da região”, conclui Annelyse.

* Liege Costa é jornalista da Rede de Notícias da Amazônia.


Fonte: Brasil de Fatos

Anvisa alerta: abacaxi e laranja têm agrotóxicos em excesso

 

Imagem: Getty Images/iStockphoto

Por Rudinei Sbalchiero

No dia 11 de dezembro de 2024, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgou os resultados do Para (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos) referente a 2023. Foram avaliadas 3.294 amostras de alimentos, coletadas em 76 cidades brasileiras.

O objetivo do programa é verificar a presença de resíduos de agrotóxicos nos alimentos e identificar possíveis riscos à saúde humana. As amostras são retiradas diretamente das prateleiras de supermercados e submetidas a análises em laboratórios, que utilizam métodos científicos reconhecidos a nível global.

Ao todo, 14 tipos de alimentos foram examinados, representando 31% do consumo de produtos de origem vegetal no Brasil.

  • Abacaxi
  • Alface
  • Alho
  • Arroz
  • Batata-doce
  • Beterraba
  • Cenoura
  • Chuchu
  • Goiaba
  • Laranja
  • Manga
  • Pimentão
  • Tomate
  • Uva

As análises buscaram resíduos de 338 agrotóxicos diferentes, incluindo substâncias nunca autorizadas e aquelas já proibidas no país.

Risco agudo (em 24h após o consumo)

Foram encontradas 22 amostras, representando 0,67% do total, com possível risco à saúde do consumidor. O abacaxi e a laranja se destacaram como as frutas com o maior número de amostras apresentando risco agudo: o abacaxi tinha sete amostras e a laranja, seis.

Risco crônico (ao longo de toda a vida)

Nas avaliações, não foi identificado risco crônico. Para esse tipo de risco, a Anvisa considera tanto os dados atuais quanto os dos últimos dez anos do programa. A análise leva em conta o consumo diário dos alimentos ao longo da vida, incluindo os que contêm agrotóxicos autorizados, mas não monitorados, como a cana-de-açúcar, consumida principalmente como açúcar processado.

Recomendações para minimizar riscos

Não é preciso parar de consumir o que vem do campo. A ingestão das vitaminas e minerais pode ser compensada variando a alimentação por sazonalidade e optando por produtos orgânicos, o que reduz o risco de ingestão de agrotóxicos. Estas substâncias também podem ter seu teor reduzido com a higienização correta dos vegetais, principalmente dos que serão consumidos crus e com a casca.

Lave os alimentos com água corrente para retirar as sujidades e excesso de compostos químicos. Depois faça uma imersão com 1 litro de água e 1 colher (sopa) de água sanitária, deixe por 15 minutos e em seguida enxague bem. Apesar de só ter efeito na parte externa dos vegetais, essa higienização reduz a níveis seguros os microrganismos e formas parasitárias neles encontrados.

O cozimento também ajuda a reduzir os níveis de agrotóxicos, mas não os elimina. O ideal é cozinhar no vapor e com a casca, método que mantém mais minerais do que a cocção por ebulição dos vegetais descascados.

Atualmente já conhecemos quais são os vegetais que sofrem maior ataque de pragas durante o cultivo e por isso recebem maior quantidade de agrotóxico. Já apareceram no topo do ranking em pesquisas anteriores do Para: morango, pepino, mamão, pimentão, goiaba, cenoura, tomate, alface e uva.


Fonte: Floresta Notícias

Drones do veneno: equipamento responde por 94% das contaminações por agrotóxicos no Maranhão

Comunidades rurais afirmam que os drones são usados como ferramenta de perseguição e ataques contra pequenos produtores; especialistas alertam para aumento de casos e falta de fiscalização

drones do veneno

Por Hélen Freitas/ Edição Diego Junqueira para a Repórter Brasil 

“Tanto o drone quanto o avião, toda a volta que faz, passa por cima do lote e da plantação, para você perder a produção e seus animais morrerem”, conta uma agricultora de Açailândia, polo de produção de soja no Maranhão. “Fazem isso para nos forçar a deixar a terra.” 

Comunidades rurais do Maranhão afirmam que drones estão sendo utilizados como instrumento de intimidação e de expulsão de agricultores familiares. As denúncias, porém, não são investigadas, segundo advogados que acompanham os casos.

Dados inéditos obtidos pela Repórter Brasil mostram que 228 comunidades em 35 municípios do estado denunciaram contaminação por agrotóxicos entre janeiro e outubro de 2024. Do total, 214 casos (94%) correspondem a ataques por drones. 

Os dados foram coletados pela Fetaema (Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão), pela Rama (Rede de Agroecologia do Maranhão) e pelo Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da Universidade Federal do Maranhão. 

As queixas vão desde intoxicações humanas até prejuízos ambientais, como o envenenamento de rios e a morte de animais.

“Se você não estiver prestando atenção, às vezes você nem percebe, a não ser pelo cheiro, que é mais forte porque o drone voa mais baixo [do que os aviões agrícolas]”, afirma a trabalhadora rural de Açailândia, que pede para não ser identificada por temer represálias. 

A cerca de 600 km da capital São Luís, Açailândia tem se consolidado como grande produtor de soja. Em 2024, sediou a “Abertura Nacional do Plantio da Soja 2024/2025”, que ocorreu pela primeira vez no estado, reunindo produtores e autoridades, como o governador Carlos Brandão (PSB). “Queremos informar aos produtores rurais de outros estados que, no Maranhão, eles têm como plantar e colher com apoio do governo”, afirmou o mandatário no evento.

Para a trabalhadora, contudo, a expansão da soja não é sinônimo de progresso. A cada ano que passa, ela diz que mais lotes da reforma agrária são repassados para a monocultura. Quem fica é vigiado e ameaçado de morte e expulsão, principalmente com o uso dos drones, ela diz.

Governador Carlos Brandão (PSD) comemora a abertura da safra da soja em Açailândia, município que vem denunciando ataques pela pulverização de agrotóxicos (Foto: Brunno Carvalho/Divulgação
Governador Carlos Brandão (PSD) comemora a abertura da safra da soja em Açailândia, município que vem denunciando ataques pela pulverização de agrotóxicos (Foto: Brunno Carvalho/Divulgação)

Em São Mateus (MA), município conhecido como a “capital do arroz”, relatos apontam que aviões e drones despejam agrotóxicos nas proximidades de moradias e pequenas plantações. “Eles usam essa estratégia justamente para expulsar as pessoas”, conta outra agricultora, que também não será identificada. “Lá onde eu moro era um lugar de muito peixe, mas com essa pulverização hoje não existe mais“, continua.

Com o crescimento das denúncias, movimentos populares e legisladores locais têm se mobilizado para criar mecanismos de proteção. Nove municípios maranhenses já aprovaram leis que proíbem a pulverização aérea. Além disso, a Rama e organizações ligadas à igreja católica iniciaram uma campanha em abril passado para a criação de um projeto de lei estadual de iniciativa popular contra a prática. 

A reação foi rápida. Um mês depois, um projeto de lei para permitir a pulverização aérea no estado foi protocolado na assembleia legislativa do Maranhão. “Não foi coincidência, foi reação às denúncias”, afirma Diogo Cabral, advogado da Fetaema.

Porém, mesmo que o projeto estadual seja aprovado, continuarão valendo as leis municipais, que são mais restritivas, afirma Cabral. Ele explica que essas normas locais seguem o entendimento do STF de que estados e municípios têm competência legislativa para estabelecer diretrizes de proteção à saúde e ao meio ambiente, como é o caso da aplicação de agrotóxicos.

Falta de fiscalização e punição

As denúncias, porém, não foram comprovadas pelas autoridades. As duas agricultoras ouvidas pela reportagem contam que vídeos e fotos não têm sido suficientes para apontar os responsáveis. “A gente vai buscar ajuda em todos os lugares, mas parece que as portas se fecham, porque ninguém dá importância”, diz uma delas.

Marcos Orellana, relator especial da ONU para tóxicos e direitos humanos, já manifestou preocupação com o uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil. Em 2022, ele enviou uma carta ao governo brasileiro alertando sobre os impactos da pulverização aérea e criticou a ausência de respostas efetivas. Segundo ele, há um padrão de intimidação contra comunidades que denunciam essas práticas, o que amplia a vulnerabilidade dos grupos mais atingidos.

“Essas pulverizações não eram ocorrências isoladas, mas parte de um padrão de ataques repetidos e perseguições contra essas comunidades, que são submetidas a um medo constante e a sofrimento psicológico contínuo”, afirma Orellana.

Em maio do ano passado, a Repórter Brasil publicou uma denúncia de tentativa de intimidação a Diogo Cabral. O advogado da Fetaema havia recebido uma notificação extrajudicial do Sindag (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola) para se retratar ou comprovar, em até 48h, que a pulverização aérea de agrotóxicos no Maranhão prejudica comunidades. A notificação ocorreu após entrevista de Cabral sobre a proibição da pulverização aérea no município de Caxias (MA). 

À Repórter Brasil, o Sindag afirmou na época que buscou esclarecimentos tanto com o advogado popular quanto com a rede de televisão que veiculou a reportagem a fim de buscar a “transparência sobre as informações divulgadas e a verdade sobre os fatos”.

Para Cabral, a falta de uma fiscalização efetiva cria um cenário de impunidade. “O agronegócio quer um Estado máximo para investir e garantir a produção, e um Estado mínimo para fiscalizar e punir quem comete crime ambiental.”

Angela Silva, presidenta da Fetaema, afirma que as análises de amostras para verificar a contaminação de agrotóxicos não acontecem de forma rápida no estado, o que interfere nas denúncias que a organização têm feito. 

“O sentimento das comunidades, assim como o nosso, é de tristeza, de impunidade, de não valorização. A gente denuncia, mas, às vezes, o caso não é levado a sério como deveria”, diz ela, ressaltando que as autoridades desconfiam se as denúncias são verdadeiras.

À Repórter Brasil, o pesquisador da Fiocruz no Ceará Fernando Carneiro afirmou que o aumento de casos no Maranhão mostra que “há pessoas não qualificadas operando os drones e causando contaminações”.

Estudos realizados em outros países mostram que há uma dificuldade em se obter precisão na aplicação. Pesquisa da Chinese Society of Agricultural Engineering revelou que até 55% do volume aplicado pelo drone se espalhou pelo entorno.

Procurado, o governo do Maranhão informou que “atua de forma ativa na mediação de conflitos agrários e na proteção das comunidades rurais” e que encaminha as denúncias sobre uso incorreto de agrotóxicos para órgãos de fiscalização, como a Aged (Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Maranhão), Sema (Secretaria de Estado do Meio Ambiente) e a Superintendência do Ministério da Agricultura no Maranhão.

A Sema declarou que lidera a “fiscalização compartilhada do uso de agrotóxicos, em todas as etapas, desde a aquisição até o descarte adequado das embalagens” e que “tem adotado medidas mais rigorosas e preventivas para assegurar a preservação dos recursos naturais e a qualidade de vida das comunidades”. Jà a Aged declarou que monitora o comércio, uso, armazenamento e transporte das substâncias, assim como realiza atividades de educação quanto ao uso seguro dos agrotóxicos. 

Para o Sindag , os conflitos agrários devem ser investigados e resolvidos pelas autoridades “na melhor forma da lei e do bem-estar das pessoas”. O grupo afirma que, por ser uma  “ferramenta” visível em campo, a aviação agrícola sofre com os estereótipos. 

“A exemplo do que ocorre no Maranhão, onde ela está no centro de uma campanha da Igreja para que seja proibida nos Municípios”, afirma a organização, em referência à campanha da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em torno de um projeto de lei estadual contra a pulverização.

O Sindag diz ainda ser necessária uma fiscalização ampla e constante para que “inocentes não paguem por culpados”. Leia as manifestações na íntegra.

“Eu estou ficando sem condições de contar essa história, porque dói muito, mas ficar calada é pior”, conta, emocionada, a agricultora de Açailândia.

A agricultora de São Mateus afirma ter medo de dar depoimentos sobre a atuação do agronegócio na sua região. Assim como ela, outros vivem com medo de falar e sofrerem mais represálias. “Enquanto eu puder e tiver condição de lutar junto com os demais, eu vou lutar para que chegue o fim da pulverização aérea”, finaliza.


Fonte: Repórter Brasil

SUS gasta R$ 12 bilhões por ano para tratar doenças causadas por agrotóxicos

Estudo revelou que exposição à substância encontrada em centenas de produtos vendidos no país pode desencadear doenças neurodegenerativas

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Por Camila Bezerra para o Jornal GGN

Um estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) apontou que o Sistema Único de Saúde (SUS) gasta, aproximadamente, R$ 12 bilhões por ano para tratar doenças causadas pela exposição a agrotóxicos. 

Em contrapartida, o governo federal torna o prejuízo aos cofres públicos ainda maior ao conceder R$ 10 bilhões em isenções fiscais anualmente para tais indústrias.  

“Estamos discutindo a reforma tributária. Os agrotóxicos têm bilhões de reais em isenção todos os anos. Quando olhamos a relação do que é isento e dos gastos para tratar essas pessoas, podemos até questionar a história de que o agronegócio é líder do Produto Interno Bruto [PIB]. Sabemos que, se botarmos na conta os problemas, eles vão ficar devendo”, afirma  Karen Friedrich,  servidora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante da Abrasco.

A exposição ao glifosato, usada em centenas de produtos vendidos no país, mesmo em curto prazo, pode causar danos permanentes, como o acúmulo no cérebro. Consequentemente, o usada em centenas de produtos vendidos glifosato pode desencadear processos inflamatórios associados a doenças neurodegenerativas. 

Pesquisadores chamam atenção ainda para o risco que a pulverização aérea, tendo em vista que se trata da prática mais nociva em diversos fatores, pois requer controle da quantidade de agrotóxico dispensada, do vento e temperatura. 

“As condições climáticas do país são muito diversas e mais ainda com o momento de crise e de colapso climático. Então, garantir a segurança é algo antiético. Não é possível dizer que é 100% seguro quando não é. Os mais atingidos são os trabalhadores da agricultura, suas famílias, quem mora nas áreas do entorno e povos e comunidades tradicionais, inclusive de maneira proposital. Além de tudo, o agrotóxico no Brasil também é usado como arma química”, continua a servidora. 

Além da reforma tributária, que assegurou 60% de redução de impostos para agrotóxicos registrados no Ministério da Agricultura, Karen Friedrich também observou o atraso no Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara)

Ainda que o Pronara estivesse previsto para 2014, o programa foi adiado e não saiu do papel até hoje. Há a expectativa de que o programa seja anunciado ainda no primeiro semestre do próximo ano.


Fonte: Jornal GGN

‘Todos os rios do Brasil estão contaminados’, alerta pesquisador sobre uso de agrotóxicos

Estudo divulgado nesta semana pelo governo federal mostra que rio Tocantins contém substância proibida na Europa

tractor sprayAtualmente, mais de 100 agrotóxicos diferentes usam o glifosato em sua composição – PABLO AHARONIAN / AFP

Por Lucas Weber para o Brasil de Fato

Neste final de semana, o governo  federal divulgou o resultado da análise sobre a qualidade do rio Tocantins, após a ameaça de contaminação da água por agrotóxicos, por causa da queda de caminhões que transportavam herbicidas e ácido sulfúrico.

O estudo trouxe alívio ao revelar que os tonéis onde as substâncias estavam armazenadas não se romperam. A tragédia da queda da ponte Juscelino Kubitschek, que ligava Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), em 22 de agosto, portanto, não contaminou o rio.

Mas os dados do governo mostram que já havia a presença na água de agrotóxicos proibido em diversos países do mundo, incluindo a União Europeia. Foi detectado uma concentração de 0,2 microgramas por litro (µg/L) do herbicida 2,4-D, apontado como cancerígeno por agências internacionais, mas amplamente utilizado no Brasil.

“Com as doses, frequências e diversidade de agrotóxicos usados no Brasil, dá para afirmar que todos os rios estão contaminados. Sem nenhuma dúvida. O grau de contaminação é que pode variar”, denuncia Danilo Rheinheimer dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência na análise de agrotóxicos em água.

A presença de agrotóxicos na água não é novidade no Brasil. Estudo do ano passado realizado pela Repórter Brasil mostrou que 27 tipos de agrotóxicos foram encontrados na água consumida por parte da população de 210 municípios brasileiros, como São Paulo (SP), Fortaleza (CE) e Campinas (SP).

Os dados surgiram a partir de informações do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde, com testes feitos em 2022.

O agrotóxico 2,4-D, encontrado no rio Tocantins e considerado “normal” pelo estudo do governo federal, é o mesmo usado como componente do chamado “agente laranja”, um desfolhante químico altamente tóxico, usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A arma química era utilizada pelas tropas estadunidenses para desmatar florestas e impedir que soldados vietnamitas se escondessem na vegetação.

A análise do rio Tocantins, divulgado nesta sexta-feira (27), aconteceu dias após a queda da ponte que matou 10 pessoas, com outras sete ainda desaparecidas. 


Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, sobre o Rio Tocantins, que caiu com grande quantidade de agrotóxicos / AFP

No comunicado com os dados, o governo reconhece que “essa concentração de 2,4-D é considerada normal em rios que atravessam áreas agrícolas, como o rio Tocantins, e, por isso, não foram encontrados indícios de contaminação da água por defensivos agrícolas decorrente do acidente na Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira”.

Mas o professor Rheinheimer contesta a conclusão oficial: “A gente só faz, sempre, um questionamento: se fosse os europeus, a água seria imprópria para consumo pois está acima de 0,1 ug/L. Mas somos brasileiros e daí tudo bem”.

“Valemos menos”

O fato de o Brasil ser mais flexível no uso de agrotóxicos que países da União Europeia (UE) é investigado pela pesquisadora Larissa Bombardi, que já recebeu ameaças por após a publicação de estudos que denunciam a situação. Foi ela quem constatou que, dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil, cinco são proibidos na UE.

“Quando eu olho o fato de que no Brasil o resíduo de glifosato autorizado na água potável é cinco mil vezes maior do que aquele autorizado na União Europeia. Quando eu vejo que o resíduo de malationa no Brasil é 400 vezes maior do que o autorizado na União Europeia, sou obrigada a pensar que, no conjunto das relações internacionais, a população brasileira, latino-americana e africana é tida como sub-humana. Nós valemos menos”, disse ao Brasil de Fato quando lançou o livrAgrotóxicos e Colonialismo Químico, em julho esse ano

“Quando a gente vê por exemplo, casos criminosos de uso de agrotóxicos, vai ver que a substância utilizada foi produzida por justamente por uma dessas empresas sediadas na União Europeia. Fica claro um mecanismo que remete ao período colonial, ou seja, um deslocamento dessa agricultura capitalista, dessa monocultura, que avança sobre áreas de camponeses, de povos originários, utilizando como arma nessa violência dos conflitos fundiários, uma substância que é proibida no território em que ela foi produzida.”

Edição: Rodrigo Durão Coelho


Fonte: Brasil de Fato

Crise ambiental no rio Tocantins: 12 toneladas de agrotóxicos foram derramadas com queda de ponte

Entre os produtos químicos derramados em queda de ponte, o 2,4-D tem fácil propagação pela água

ponte estreitoPor Rodrigo Chagas para o Brasil de Fato 

queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que conectava os municípios de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), além dos impactos socioeconômicos, pode desencadear uma grave crise ambiental. No domingo (22), três caminhões carregados com agrotóxicos e ácido sulfúrico caíram no rio Tocantins, espalhando 25,2 mil litros de agrotóxicos e 76 toneladas de ácido, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA).

Entre os produtos derramados, estavam quase nove toneladas do herbicida 2,4-D, permitido no Brasil, mas proibido na Dinamarca, em Moçambique e no Vietnã devido à sua toxicidade. Também já foi proibido na Austrália e no Canadá. Na União Europeia, há um processo em curso para o banimento definitivo do composto.

O 2,4-D é o mesmo usado como componente do chamado “agente laranja”, um desfolhante químico altamente tóxico que também foi usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A arma química era usada pelas tropas estadunidenses para desmatar florestas e impedir que soldados vietnamitas se escondessem na vegetação.

Danilo Rheinheimer dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência na análise de agrotóxicos em água, alerta que os impactos ambientais e à saúde são profundos e duradouros. “Essa conversa de que os agrotóxicos são facilmente biodegradáveis não é verdadeira. Eles têm alta permanência, especialmente na água”, explica.

Segundo ele, mesmo que medições posteriores não constatem mais a presença dos produtos na água, não é possível garantir que o ambiente não estará contaminado. “Produtos como o 2,4-D e o picloram impregnam nas rochas e nos biofilmes epilíticos do fundo do rio, contaminando tudo por anos.” 

“Os agrotóxicos não desaparecem simplesmente à medida que o rio segue seu curso. Eles se diluem, mas deixam um rastro. Mesmo 40 ou 50 quilômetros rio abaixo, as moléculas podem estar presentes, contaminando a fauna aquática e os organismos bentônicos, como moluscos e peixes”, detalha Rheinheimer.

O professor reforça que a contaminação pode alcançar toda a cadeia alimentar, com riscos para a saúde humana. “Bactérias, algas e peixes que não morrerem agora ficarão contaminados, passando esse impacto para toda a cadeia trófica. Isso é um desastre terrível,” conclui.

O peso do 2,4-D: um veneno de longo prazo

Entre os produtos químicos derramados no acidente, o 2,4-D chama atenção por seus efeitos nocivos. Classificado como um “gatilho hormonal”, o herbicida é associado a casos de câncer e proibido na União Europeia.

“Com o derramamento de quase 9 mil quilos desse veneno, os efeitos não serão localizados ou temporários. Estamos falando de algo que vai se impregnar nos sedimentos e permanecer ativo por muitos anos, talvez décadas,” afirma Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e membro da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Melgarejo reforça que a desestruturação causada por esse tipo de contaminação não aparece de imediato. “Os problemas de saúde, como casos de câncer, podem surgir décadas depois, mas suas raízes estarão neste desastre e na irresponsabilidade que permitiu a fabricação e o transporte desse veneno no Brasil,” denuncia.

Outro produto transportado era o acetamiprid, inseticida da classe dos neonicotinóides. Ele é amplamente reconhecido por seu impacto devastador sobre abelhas e aves. Já o picloram, outro agrotóxico envolvido, será proibido na União Europeia a partir de 2028, devido à sua toxicidade persistente e riscos ambientais.

O acidente ocorrido na ponte Juscelino Kubitschek onde dois caminhões  carregados de agrotóxico e ácido sulfúrico caíram sob o rio fez com que 19  cidades ficassem impedidas de consumir água do rio

Detalhes da carga derramada

Os pesticidas transportados nos caminhões incluíam:

  • Carnadine (acetampirid): inseticida neonicotinóide, com 500 litros transportados, totalizando 100 kg de princípio ativo.

  • Pique (picloram): herbicida, com 2.700 litros transportados, totalizando 1.048 kg de princípio ativo.

  • Tractor (picloram): herbicida, com 22.080 litros transportados, totalizando 2.274 kg de princípio ativo.

  • Tractor (2,4-D): herbicida hormonal, com 22.080 litros transportados, totalizando 8.964 kg de princípio ativo.

O total transportado chegou a 12.386 kg de princípios ativos altamente tóxicos.

Medidas emergenciais e alertas à população

Por precaução, o governo do Maranhão recomendou a suspensão da captação de água nos municípios banhados pelo rio Tocantins. As prefeituras de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO) emitiram alertas para que a população evite contato com a água devido ao risco de queimaduras químicas e intoxicação.

A Agência Nacional de Águas (ANA) iniciou coletas em cinco pontos do rio para monitorar os parâmetros de qualidade da água.

No entanto, segundo Heinheimer, as medidas emergenciais podem não ser suficientes. “Mesmo que o monitoramento aponte baixos níveis de contaminação agora, os resíduos estarão impregnados nos sedimentos, e os impactos continuarão a surgir ao longo do tempo,” alerta.

Queda de ponte entre Tocantins e Maranhão tem relação com impacto do agronegócio na região, diz pesquisadora

A tragédia evidenciou problemas estruturais históricos denunciados pela população local. Construída na década de 1960, a Ponte Juscelino Kubitschek está localizada na região do Matopiba, epicentro do crescimento do agronegócio no Brasil. Nas últimas décadas, a produção de commodities como soja e milho transformou a paisagem da região e sobrecarregou a infraestrutura de transporte.

“O desabamento da ponte é um marcador de alerta de que precisamos de fiscalização e comprometimento com essas infraestruturas. Isso também está diretamente relacionado ao avanço voraz do agronegócio, que impulsiona o transporte pesado e agrava os impactos ambientais,” destaca Gilvânia Ferreira, doutoranda em Estudos Sociais Agrários.

Nos últimos dez anos, a produção de grãos no Matopiba aumentou 92%, de 18 milhões de toneladas na safra 2013/14 para 35 milhões atualmente. Os principais produtos são soja, milho e algodão. Um estudo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostra que a escalada vai continuar e pode chegar a 37% nos próximos 10 anos.

A professora ressalta que os danos não são apenas econômicos, mas sociais e ambientais. “Essa ponte simboliza a destruição de territórios e modos de vida. O avanço da monocultura prejudica a produção familiar, contamina as águas e coloca em risco a saúde humana e dos animais,” explica.

Enquanto o Ministério Público e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes apuram as causas do acidente, o Ministro dos Transportes, Renan Filho, prometeu a reconstrução da ponte até 2025. Porém, especialistas e moradores alertam que, sem mudanças estruturais e no modelo de produção agrícola predominante, tragédias como esta continuarão a ocorrer.

Edição: Geisa Marques


Fonte: Brasil de Fato

Rios secando em meio ao avanço do desmatamento sinalizam para grave crise hídrica no Brasil

crise hidrica

Quando se olha para a situação geral dos rios brasileiros, a avaliação está longe de ser boa. É que tudo indica que estamos testemunhando um processo de ressecamento nas bacias ligadas às florestas da Amazônia e do Cerrado.  E o pior é que a voracidade do latifúndio agro-exportador por mais desmatamento está sendo alimentada por um conjuntov de projetos de logística orientados para a pavimentação de estradas como a BR-319 e a construção de ferrovias como a Ferrogrão

Para piorar esse cenário em diferentes estados e municípios o cenário de 2024 foi marcado pela aprovação de uma série de leis para fragilizar leis ambientais com o único objetivo de facilitar ainda mais a ação destruidora das monoculturas, mesmo em estados como o Rio Grande do Sul que foi devastado por eventos extremos de chuvas.  

Um componente extra dessa tempestade perfeita é o aumento da poluição nos rios, especialmente pelo lançado de substâncias tóxicas associadas às atividades de mineração e das monoculturas.  As evidências científicas já apontam para o aumento da carga de metais pesados (especialmente a do mercúrio liberada pelo garimpo de ouro) e de agrotóxicos em grandes rios brasileiros.

O que teremos com o somatório desses componentes sinaliza para rios cada vez mais secos e poluídos em meio a um crescente aumento da população urbana.  Eu não me surpreenderia se já em 2025 começarmos a ver uma crise persistente em estados importantes como Rio de Janeiro e São Paulo, especialmente nas suas principais áreas metropolitanas.

O fato inescapável é que estamos na antessala de uma grave crise hídrica e que não se resumirá à oscilações sazonais nas intensidades de precipitação. Por isso, é urgente que se refaça uma profunda reorganização dos mecanismos de controle social do acesso à água. Os atuais comitês de bacias hidrográficas já se mostraram insuficientes para enfrentar uma crise do tamanho que estamos enfrentando. Até porque eles são ferramentas para o gerenciamento privado das águas, e o que está posto vai muito além desse cenário.

 

Pulverização aérea: agrotóxicos aumentam em 27 vezes o risco de câncer, diz estudo da UFC

Na última sexta-feira (13), o grupo fechou os resultados da etapa mais recente dos estudos desenvolvidos desde 2011 com agricultores da região da Chapada do Apodi

drones

Do Portal do Deputado Estadual Renato Roseno

Um trabalhador rural que é exposto a agrotóxicos por meio da pulverização aérea tem vinte e sete vezes mais chance de desenvolver algum tipo de neoplasia do que um agricultor que não teve contato com o veneno. A denúncia é de um grupo de pesquisadores vinculados ao Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Na última sexta-feira (13), o grupo fechou os resultados da etapa mais recente dos estudos desenvolvidos desde 2011 com agricultores da região da Chapada do Apodi. A partir de 2022, os pesquisadores adotaram uma nova tecnologia para o sequenciamento genético da população estudada, chamada Next Generation Sequencing (Sequenciamento de Última Geração).

“Na população mundial, de cada 100 indivíduos, nós vamos encontrar apenas um com alguma mutação genética indutora de câncer. Ou seja, 1%. Entre os agricultores, esse percentual de mutação sobe para a casa de 27%”, explica o hematologista Ronald Feitosa Pinheiro, professor livre-docente pela Escola Paulista de Medicina, professor associado da UFC e um dos coordenadores da pesquisa. Ele destaca também que esse percentual pode chegar a 80% caso sejam considerados critérios mais abertos em termos de idade e de metodologia.

Em 2021, os primeiros resultados da pesquisa foram publicados na prestigiada revista científica Enviromental Toxicology and Pharmacology. À época, os pesquisadores apontaram que a exposição ao agrotóxico era um dos principais fatores de aumento do risco de distúrbios hematológicos em trabalhadores agrícolas devido ao seu potencial carcinogênico (causador do câncer).

“Naquele momento, com a tecnologia que nós tínhamos, que era a expressão gênica e citogenética, nós mostramos que o DNA (dos trabalhadores) estava alterado, que a expressão de genes que corrigem o DNA quando ele está lesionado estava reduzida”, explica o professor. “Agora, com essa nova tecnologia, nós somos capazes de ler o DNA da pessoa na mesma região mais de mil vezes. E ai você identifica mutações genéticas que podem predispor ao câncer”.

Segundo Ronald, esse tipo de estudo, com a utilização da tecnologia NSG, é inédito porque nunca foi feita em populações de agricultores que trabalhavam com agrotóxicos. “São resultados que saíram na última sexta-feira, após uma análise muito aprofundada e muito séria, que usa uma metodologia descrita apenas em 2022, que á analise de oncogenicidade de uma mutação, para dizer se uma mutação realmente é indutora de câncer”, explica.

Os pesquisadores também destacam que esse é o primeiro estudo realizado no mundo que avalia mutações indutoras do câncer em indivíduos expostos ambientalmente, mas que não têm câncer ainda. Isso é importante, ensina o professor, porque permite retirar o individuo dessa exposição ambiental e protegê-lo dentro do “nível do possível”. “Às vezes, você passa 30 ou 40 anos com a mutação antes da eclosão do câncer”, ele explica.

Os próximos passos do estudo são a apresentação desses dados mais recentes no Congresso de Síndrome Mielodisplásica e Leucemia Aguda, marcado para a cidade de Rotterdam em maio do próximo ano; e a preparação de um artigo com os resultados finais da pesquisa que será submetido à revista Nature, principal publicação de divulgação científica do mundo. “Pela primeira, nós demostramos isso (a associação entre a pulverização aérea de agrotóxicos e os casos de câncer) com tecnologia de ponta”, defende Ronald.

A pesquisadora Roberta Taiane Germano de Oliveira, que participa do estudo, destaca que o agrotóxico é um produto químico e, como vários produtos químicos, ele vai lesar o DNA. “O que a gente procurou? Exatamente, esses danos causados por esse produto químico no DNA. E nós encontramos danos que só são encontrados em pessoas que tem câncer na medula”.

Ela explica que o nome desse fenômeno é “chip”. “Porque é como um chip que vai ser inserido no seu DNA e vai lhe acompanhar pelo resto da vida”, afirma. “Ou seja, uma vez que você tem essa mutação no DNA, você sempre está correndo risco de ter um câncer de medula. E foi uma mutação causada por um produto químico, o agrotóxico”.

Os pesquisadores alertam também que a pulverização é central nesse processo de contaminação. Desde o início do trabalho, o grupo acompanha o quadro de saúde de 58 trabalhadores da região do Apodi, área muito exposta à pulverização aérea antes da lei Zé Maria do Tomé (lei 16.820/19), de autoria do deputado estadual Renato Roseno (PSOL), que proibiu essa prática em território cearense.

“Nós tivemos muitos relatos de trabalhadores que tomaram banho de veneno enquanto estavam na lavoura”, afirma Ronald, que destaca que o drone não é uma tecnologia segura para o uso na agricultura. “Não tem como você controlar a pulverização aérea porque você não consegue controlar o ar. Nós estamos falando de previsão climática. A gente sabe que o vento segue a teoria do caos, em um segundo ele muda completamente de eixo e isso é capaz de derrubar um avião, por exemplo. Você imagina, então, um drone aplicando veneno…”


Fonte: Portal do Deputado Estadual Renato Roseno

Reino Unido proibirá agrotóxicos que matam abelhas, mas tipos altamente tóxicos ainda podem ser permitidos

Ministros estabelecem planos para proibir os neonicotinoides, mas consideram a solicitação de agricultores para usar o Cruiser S

Uma abelha em uma flor

Helena Horton,  Repórter de meio ambiente, para o The Guardian

Agrotóxicos que matam abelhas serão proibidos pelo governo do Reino Unido, enquanto os ministros definem planos para proibir o uso de neonicotinoides.

No entanto, o neonicotinoide altamente tóxico Cruiser SB poderá ser autorizado para uso no ano que vem , já que os ministros estão considerando solicitações da National Farmers’ Union e da British Sugar.

Este poderoso agrotóxico envenena as abelhas destruindo seus sistemas nervosos. O Prof Dave Goulson, especialista em abelhas da Universidade de Sussex, disse que uma colher de chá do produto químico é suficiente para matar 1,25 bilhão de abelhas. Mesmo em doses não fatais, pode causar problemas cognitivos que dificultam a busca de néctar pelas abelhas, e os produtos químicos podem permanecer no solo por anos.

Os ministros dizem que identificaram opções legislativas que impediriam legalmente o uso futuro de três neonicotinoides específicos – clotianidina, imidacloprida e tiametoxam – por completo.

Paul de Zylva, defensor da natureza na Friends of the Earth, disse: “O fim da pantomima anual do governo anterior de conceder o uso ‘emergencial’ desses agrotóxicos profundamente prejudiciais já deveria ter acontecido há muito tempo. Mas ainda não estamos fora de perigo – o governo deve seguir adiante se comprometendo totalmente com uma proibição completa em janeiro. E deve ir ainda mais longe, descartando o atual e fraco plano nacional de ação sobre pesticidas e, em vez disso, produzir uma versão confiável.”

O ex-secretário do Meio Ambiente Michael Gove prometeu em 2017 que os ministros usariam o Brexit para impedir o uso de agrotóxico que destroem as populações de abelhas.

Em vez disso, a UE proibiu todas as autorizações de emergência de agrotóxico neonicotinoides, enquanto desde 2021 o governo do Reino Unido permite o uso emergencial de tiametoxame todos os anos.

Embora os agrotóxico sejam proibidos para uso geral, há autorização de emergência durante condições climáticas em que uma praga chamada vírus amarelo prospera em plantas de beterraba. Essas condições foram atendidas no Reino Unido todos os anos.

O Departamento de Meio Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais está sendo investigado pelo órgão de fiscalização do Escritório de Proteção Ambiental depois que o governo anterior autorizou o uso do agrotóxico neste ano.


Fonte: The Guardian