Trabalhadores rurais são os mais expostos; saiba como identificar intoxicação e o que fazer
Movimentos populares protestam contra o PL do Veneno, que flexibilizou o processo de liberação e fiscalização de agrotóxicos no Brasil – Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida
Por Redação Brasil de Fato
O Brasil ocupa o posto demaior consumidor de agrotóxicos do mundo, com 720 mil toneladas anuais, de acordo com os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Esses produtos, amplamente utilizados pelo agronegócio, são apontados como responsáveis por 300 mil mortes anuais em decorrência de envenenamentos, conforme a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Em território nacional, o problema é crescente. Os números relacionados à contaminação por agrotóxicos no primeiro semestre do ano saltaram de 19 para 182, o que representou um aumento de mais de 950% em relação ao mesmo período em 2023. O dado foi divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) nesta semana, no marco do Dia Mundial de Luta Contra os Agrotóxicos.
No Brasil, cerca de 19 milhões de pessoas estavam empregadas no setor em 2022, muitas delas expostas a intoxicações graves que impactam o sistema nervoso, respiratório e reprodutivo.
Dados do “Atlas dos Agrotóxicos”, da Fundação Heinrich Böll, revelam que, globalmente, cerca de 385 milhões de pessoas sofrem intoxicação por esses produtos a cada ano, sendo os trabalhadores rurais de países em desenvolvimento os mais vulneráveis. Entre as doenças associadas à exposição contínua estão Parkinson, leucemia infantil, câncer de fígado e mama, além de condições como diabetes tipo 2, asma, defeitos congênitos e distúrbios de crescimento.
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) destaca o uso no Brasil de mais de 20 agrotóxicos proibidos em outros países, como atrazina e clorpirifós, já banidos na União Europeia. Essa prática aumenta os riscos para os trabalhadores e reforça a dependência de insumos químicos no modelo agrícola nacional.
A OIT também alerta para o impacto das mudanças climáticas na exposição aos agrotóxicos. O calor extremo, comum em regiões agrícolas, facilita a absorção dessas substâncias pela pele, intensificando os efeitos tóxicos. Embora os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) sejam obrigatórios por lei, seu uso pode ser inviável devido às condições climáticas e às longas jornadas de trabalho no campo.
Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) arca com custos estimados em R$ 45 milhões por ano para tratar casos de intoxicação, segundo a Fundação Heinrich Böll.
Flexibilização de leis sobre agrotóxicos eleva riscos à saúde e ao meio ambiente
Em maio deste ano, o Congresso Nacional derrubou vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à lei que flexibilizou o registro de agrotóxicos, transferindo a responsabilidade principal para o Ministério da Agricultura e enfraquecendo órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Conhecida comoPL do Veneno, a nova legislação é criticada por instituições científicas e ambientais, que alertam para o aumento do uso de substâncias tóxicas no Brasil.
Pesquisadores da Fiocruz apontaram, à época, que a lei possibilita a liberação de produtos altamente cancerígenos, desconsiderando os impactos na saúde pública e no meio ambiente.
“Entidades de renome internacional e notório saber científico como a Fiocruz, o Inca [Instituto Nacional de Câncer], a Abrasco [Associação Brasileira de Saúde Coletiva] e a ONU [Organização das Nações Unidas] destacaram que o PL vai permitir o registro de produtos mais tóxicos no país, incluindo aqueles com maior potencial cancerígeno. A ciência está errada e o agro está certo?”, escreveram os pesquisadores da Fiocruz, em nota.
Como identificar intoxicação por agrotóxicos
A Anvisa, por meio da cartilha Série Trilhas do Campo, lista sintomas de intoxicação por contato com a pele, ingestão ou inalação de agrotóxicos. Entre os sinais estão:
Pela pele:
Irritação (vermelhidão, inchaço, dor);
Brotoejas com coceira;
Desidratação (pele seca, escamosa e, em casos graves, infeccionada).
Por inalação:
Tosse, dificuldade de respirar, dor no peito;
Ardência no nariz e na boca.
Por ingestão:
Náuseas, vômitos, diarreia;
Irritação na boca e garganta.
Efeitos prolongados incluem tremores, fraqueza, abortos e depressão.
O que fazer em caso de suspeita
Ao perceber sintomas, procure imediatamente postos de saúde, hospitais ou Centros de Referência em Saúde do Trabalhador. O serviço Disque Intoxicação (0800-722-6001) também está disponível para orientações gratuitas. Atendimentos são realizados por 36 unidades da Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Renaciat), distribuídas pelo país.
A redução dos danos causados pelos agrotóxicos depende de um esforço coletivo, que inclui fiscalização rigorosa, ampliação das políticas públicas e o fortalecimento de alternativas como a agroecologia. Somente assim será possível garantir condições mais justas e seguras para os trabalhadores rurais.
A exposição ambiental a toxinas no ar, na água ou em certos produtos químicos pode aumentar o risco de efeitos nocivos à saúde, incluindo o cérebro humano. Agora,uma nova pesquisa mostrou que até mesmo uma breve exposição ao herbicida mais usado no mundo, o glifosato, pode causar danos duradouros ao cérebro, que podem persistir por muito tempo após o término de qualquer exposição direta.
No novo estudo, o pesquisador Ramon Velazquez, da Universidade Estadual do Arizona, e sua equipe demonstram que a exposição a um ingrediente ativo em herbicidas, chamado glifosato, pode resultar em inflamação cerebral significativa e aumentar o risco de doenças neurodegenerativas e efeitos semelhantes aos do Alzheimer.
“Nosso trabalho contribui para a crescente literatura que destaca a vulnerabilidade do cérebro ao glifosato”, diz Velazquez. “Dada a crescente incidência de declínio cognitivo na população idosa, particularmente em comunidades rurais onde a exposição ao glifosato é mais comum devido à agricultura em larga escala, há uma necessidade urgente de mais pesquisas básicas sobre os efeitos deste herbicida.”
A pesquisa foi publicada no Journal of Neuroinflammation. Velazquez é pesquisador do ASU-Banner Neurodegenerative Disease Research Center no ASU Biodesign Institute e professor assistente da School of Life Sciences.
A equipe de Velazquez realizou o trabalho em colaboração com o Translational Genomics Research Institute, ou TGen, parte da City of Hope, e usou camundongos para modelar a exposição ao glifosato. Eles mostraram que os cérebros podem ser muito mais suscetíveis aos efeitos danosos do herbicida do que se pensava anteriormente. O glifosato é o herbicida químico mais comum usado no mercado global.
O estudo monitorou a presença e o impacto dos subprodutos do glifosato no cérebro muito depois do término da exposição, mostrando uma série de efeitos persistentes e prejudiciais à saúde cerebral.
A exposição ao glifosato também resultou em neuroinflamação, sintomas semelhantes aos do Alzheimer, morte prematura e comportamentos semelhantes aos da ansiedade, replicando outros estudos.
Os pesquisadores testaram dois níveis de exposição ao glifosato: uma dose alta, semelhante aos níveis usados em pesquisas anteriores, e uma dose mais baixa que está próxima do limite usado para estabelecer a dose aceitável atual em humanos. Além disso, os cientistas descobriram que esses sintomas persistiram muito depois de um período de recuperação de seis meses em que a exposição foi descontinuada.
Essa dose menor ainda levou a efeitos nocivos nos cérebros dos camundongos, mesmo após a exposição cessar por meses. Enquanto os relatórios mostram que a maioria dos americanos é exposta ao glifosato diariamente, esses resultados mostram que mesmo um curto período pode potencialmente causar danos neurológicos.
Por outro lado, o estudo levanta sérias preocupações sobre a segurança do produto químico para populações humanas.
De acordo com os Center for Disease Research, trabalhadores rurais, paisagistas e outros empregados na agricultura têm maior probabilidade de serem expostos ao glifosato por inalação ou contato com a pele. Além disso, as novas descobertas sugerem que a ingestão de resíduos de glifosato em alimentos pulverizados com o herbicida potencialmente representa um risco à saúde. A maioria das pessoas que vivem nos EUA foi exposta ao glifosato durante a vida.
“Minha esperança é que nosso trabalho impulsione uma investigação mais aprofundada sobre os efeitos da exposição ao glifosato, o que pode levar a um reexame de sua segurança a longo prazo e talvez gerar discussão sobre outras toxinas prevalentes em nosso ambiente que podem afetar o cérebro”, disse Samantha Bartholomew , candidata a doutorado na ASU e primeira autora do artigo.
As descobertas da equipe se baseiam em pesquisas anteriores da ASU que demonstram uma ligação entre a exposição ao glifosato e um risco aumentado de distúrbios neurodegenerativos. O estudo anterior mostrou que o glifosato foi capaz de cruzar a barreira hematoencefálica, uma camada protetora que normalmente impede que substâncias potencialmente prejudiciais entrem no cérebro. Uma vez que o glifosato rompe essa barreira, ele pode interagir com o tecido cerebral e contribuir para a neuroinflamação e outros efeitos prejudiciais na função neural.
Os regulamentos atuais permitem o uso de pesticidas em plantações de alimentos. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA define uma tolerância ou limite sobre a quantidade de resíduos de pesticidas que podem permanecer legalmente em alimentos e rações. A EPA considera certos níveis de glifosato seguros para exposição humana, afirmando que o produto químico é minimamente absorvido pelo corpo e é excretado principalmente inalterado.
No entanto, estudos recentes, incluindo este, podem mudar essa percepção e levantar questões sobre os limites de segurança existentes e se o uso do glifosato é realmente seguro.
“Os herbicidas são usados intensamente e onipresentemente em todo o mundo”, disse o coautor Patrick Pirrotte, professor associado da Divisão de Detecção Precoce e Prevenção do TGen, diretor do Integrated Mass Spectrometry Shared Resource do TGen e da City of Hope, e autor sênior do artigo.
“Essas descobertas destacam que muitos produtos químicos que encontramos regularmente, antes considerados seguros, podem representar riscos potenciais à saúde. No entanto, pesquisas adicionais são necessárias para avaliar completamente o impacto na saúde pública e identificar alternativas mais seguras”, disse ele.
“Nosso objetivo é identificar fatores ambientais que contribuem para a crescente prevalência de declínio cognitivo e doenças neurodegenerativas em nossa sociedade”, disse Velazquez. “Ao revelar tais fatores, podemos desenvolver estratégias para minimizar exposições, melhorando, em última análise, a qualidade de vida da crescente população idosa.”
O cérebro humano é um órgão incrivelmente adaptável, frequentemente capaz de se curar, mesmo de traumas significativos. No entanto, pela primeira vez, uma nova pesquisa mostra que até mesmo um breve contato com um herbicida comum pode causar danos duradouros ao cérebro, que podem persistir muito tempo após o término da exposição direta.
O longo e tortuoso caminho regulatório para um agrotóxico conhecido por ser prejudicial ao desenvolvimento de bebês tomou outro rumo na segunda-feira, quando a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) disse que estava planejando proibir apenas parcialmente o inseticida clorpirifós na agricultura.
Sob pressão de poderosos interesses da indústria agrícola e ordenado por um tribunal federal a considerar os fatores levantados pelos grupos agrícolas em uma petição legal, a EPA disse que continuaria a permitir que o clorpirifós fosse usado por agricultores que cultivam 11 culturas, incluindo maçãs, aspargos, frutas cítricas, pêssegos, morangos, trigo, soja e outros, apesar das evidências de que o pesticida está associado a “efeitos neurodesenvolvimentais” que podem prejudicar o desenvolvimento normalde crianças. Outros usos na agricultura seriam proibidos, disse a agência.
No relatório mais recente de monitoramento deresíduos de agrotóxicos da Food and Drug Administration (FDA) , o clorpirifós foi o 11º agrotóxico mais frequentemente encontrado em amostras de alimentos humanos, entre 209 pesticidas diferentes detectados pelos testes da FDA.
“A EPA continua a priorizar a saúde das crianças”, disse Michal Freedhoff, administrador assistente do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA, em uma declaração. “Esta regra proposta é um passo crítico à medida que trabalhamos para reduzir o clorpirifós dentro ou sobre os alimentos e para proteger melhor as pessoas, incluindo bebês e crianças, da exposição a produtos químicos prejudiciais à saúde humana.”
Defensores da saúde pública e ambiental viram a questão de forma diferente, dizendo que o clorpirifós não deveria ser permitido de forma alguma, dadaa pesquisa científica que mostra que ele tem efeitos neurotóxicos e desreguladores endócrinos, particularmente no desenvolvimento de crianças de mulheres grávidas.
“Os compromissos associados ao uso de produtos químicos à saúde pública são inconcebíveis, dada a disponibilidade de alternativas produtivas e com boa relação custo-benefício”, disse Jay Feldman, diretor executivo do grupo sem fins lucrativos Beyond Pesticides. “Com decisões como essa, no agregado, a carga tóxica para as pessoas e o meio ambiente é insustentável. A decisão anunciada hoje reflete uma falha tanto da lei subjacente quanto de um histórico de negociações que falham em documentar completamente o impacto catastrófico multidimensional do uso de pesticidas na saúde, biodiversidade e clima.”
Não está claro exatamente o quanto uma proibição parcial reduzirá a quantidade do agrotóxico usado a cada ano, embora se espere que o uso contínuo seja substancial. No ano passado, a agência disse que de 2014 a 2018 , o uso de clorpirifós nessas 11 culturas representou cerca de 55% do uso total de clorpirifós na agricultura em libras médias aplicadas. Na segunda-feira, a agência disse que manter “apenas os 11 usos alimentares poderia diminuir a média anual de libras de clorpirifós aplicadas nos EUA em 70% em comparação ao uso histórico”.
“Efeitos graves para a saúde” citados
Os inseticidas contendo clorpirifós foram introduzidos pela Dow Chemical em 1965 e têm sido amplamente utilizados em ambientes agrícolas. No início dos anos 2000, a Dow Chemicaleliminou gradualmentea maioria dos usos residenciais do produto químico em um acordo com a EPA devido a pesquisas científicas que mostram riscos à saúde humana, especialmente de crianças.
Em 2012, pesquisadores da Universidade de Columbia publicaram um estudo que relacionou a exposição ao clorpirifós a déficits cognitivos em crianças. Pesquisas adicionais mostraram que exposições pré-natais ao clorpirifós estão associadas a menor peso ao nascer, redução do QI, perda de memória de trabalho, distúrbios de atenção e atraso no desenvolvimento motor. A Academia Americana de Pediatria alertou que o uso de clorpirifós coloca fetos em desenvolvimento, bebês, crianças e mulheres grávidas em risco.
Ações judiciais por grupos ambientais, incluindo Earthjustice e Pesticide Action Network, pressionaram a EPA por anos para promulgar uma proibição nacional de clorpirifós, e os próprios cientistas da agência alertaram sobre o potencial de danos a crianças expostas ao produto químico por meio de alimentos e água. Sob o governo Obama, uma proibição estava programada para ser promulgada em 2017, mas depois que o governo Trump assumiu o poder em 2017, a EPA adiou e depois retirou a proibição.
Em dezembro de 2017, o Escritório de Avaliação de Riscos Ambientais à Saúde da Califórnia listou o clorpirifóscomo conhecido por “causar toxicidade reprodutiva” e, em 2019, os reguladores estaduais anunciaram a proibição do uso na agricultura, citando “efeitos graves à saúde de crianças e outras populações sensíveis em níveis de exposição mais baixos do que os previamente compreendidos”.
Esforços de proibição de ida e volta
No geral, os defensores da saúde pública têm pressionado o governo federal a proibir o clorpirifós por quase duas décadas. Mas os lobistas da indústria de pesticidas têm resistido, argumentandoque a ciência é fraca e o produto químico é uma ferramenta importante no controle de insetos que podem danificar a produção agrícola. Ambos os lados têm martelado a EPA com uma série de ações legais.
Em agosto de 2021, a EPA disse novamente que interromperiao uso de clorpirifós na produção de alimentos para “melhor proteger a saúde humana, particularmente a de crianças e trabalhadores rurais”. Mas isso só aconteceu depois que uma ordem judicial federalforçou a agência a agir em uma petição de 2007 de grupos que buscavam uma proibição.
Em resposta, vários grupos agrícolas representando organizações de produtores de açúcar, soja, trigo, algodão e frutas e vegetaisentraram com uma ação judicialbuscando a reversão da proibição, argumentando que a ação da EPA para proibir o clorpirifós era “ilegal” e carecia de base científica. O Tribunal de Apelações dos EUA para o Oitavo Circuito então anulou a regra de agosto de 2021 da EPA, anulando a proibição.
Ao emitir sua última tentativa de forjar uma regra sobre clorpirifós, a EPA disse que sua revisão do pesticida continua. E com o recém-reeleito presidente Trump pronto para retornar ao cargo em janeiro, o anúncio da EPA na segunda-feira pode estar em questão, alguns observadores notaram.
A dificuldade em conseguir a proibição do clorpirifós, um agrotóxico com ampla comprovação científica de danos, frustra os críticos e ressalta os desafios de controlar outras toxinas perigosas.
“Ganhos relativamente pequenos para reduzir a exposição a agrotóxicos, obtidos ao longo de décadas de revisão regulatória e inação, não garantirão um futuro habitável”, disse Feldman.
A exposição ao glifosato, presente nos herbicidas, ameaça a cognição e a lucidez, além de aumentar a ansiedade, mostram estudos. Os que correm mais riscos são os trabalhadores rurais e profissionais que atuam diretamente no campo
Glifosato, amplamente usados, é pulverizado em plantações nas pesquisas com camundongos, surge concentrado em áreas específicas do cérebro, causando efeitos associados ao Alzheimer – (crédito: Gráfico por Jason Drees)
Por Isabella Almeida para o Correio Braziliense
O cérebro tem uma grande capacidade de adaptação. No entanto, uma nova pesquisa, liderada pela Universidade Estadual do Arizona e pela City of Hope, nos Estados Unidos, revela que até mesmo uma breve exposição a um defensivo agrícola comum pode causar danos cerebrais que persistem por um longo período. Os cientistas demonstraram, em camundongos, que o glifosato, um dos herbicidas mais comuns no mundo, promove uma inflamação significativa no sistema nervoso, associada a doenças neurodegenerativas.
O estudo, publicado no Journal of Neuroinflammation, identificou uma relação glifosato e sintomas de neuroinflamação em ratos, além de uma condição de neurodegeneração acelerada, semelhante ao que é observado na doença de Alzheimer, em humanos. Os pesquisadores rastrearam a presença e o impacto dos subprodutos do agrotóxico no cérebro, mesmo após o fim da exposição e identificaram uma série de efeitos persistentes que prejudicam a saúde neural.
Os camundongos submetidos ao herbicida também morreram prematuramente e apresentaram comportamentos semelhantes aos de ansiedade. No entanto, os cientistas ficaram surpresos ao notar que esses sintomas persistiram mesmo após um período de recuperação de seis meses.
A pesquisa mostrou também que um subproduto do glifosato —o ácido aminometilfosfônico —acumulou-se no tecido cerebral, levantando sérias preocupações sobre a segurança do produto químico para os seres humanos. “Nosso trabalho contribui para a crescente literatura que destaca a vulnerabilidade do cérebro ao glifosato”, afirmou Ramon Velazquez, cientista da Arizona State University. “Dada a crescente incidência de declínio cognitivo na população idosa, particularmente em comunidades rurais onde a exposição ao glifosato é mais comum devido à agricultura em larga escala, há uma necessidade urgente de mais pesquisas básicas sobre os efeitos deste herbicida.”
Para o trabalho, a equipe realizou experimentos com camundongos expostos a duas doses de glifosato: uma dose alta, similar aos níveis usados em estudos anteriores, e uma dose mais baixa, próxima do limite considerado seguro para humanos. Mesmo a quantidade menor causou efeitos nocivos no cérebro dos animais, desencadeando inflamação persistente no cérebro e no sangue, mesmo após a interrupção da exposição por meses.
Os dados indicam que a exposição ao glifosato pode resultar em danos neurológicos significativos, com inflamação prolongada que pode impulsionar a progressão de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
Efeitos adversos
Os experimentos foram realizados ao longo de 13 semanas, seguidos por um período de recuperação de seis meses. O principal metabólito do glifosato, o ácido aminometilfosfônico, foi detectado nos cérebros dos camundongos, tanto em camundongos normais quanto em camundongos modelos da Alzheimer. Mesmo com o fim da exposição, os efeitos adversos persistiram.
Conforme os autores, estudos como esse são importantes porque mostram que trabalhadores rurais e outros profissionais da agricultura têm maior probabilidade de ser expostos ao glifosato por inalação ou contato com a pele. Além disso, as descobertas indicam que a ingestão de resíduos em alimentos pulverizados com o herbicida pode representar um risco à saúde. De acordo com os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a maioria das pessoas nos Estados Unidos foi exposta ao glifosato em algum momento da vida.
Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Dasa, destaca haver teorias que propõem que todo esse processo de neurodegeneração começaria com infecções por microrganismos, ou tem a ver com um processo inflamatório cerebral. “Há muito tempo se propõe que seja desencadeado pela exposição a toxinas, inclusive, metais pesados, ou outro tipo de materiais tóxicos. Agora vemos o glifosato, são resultados interessantes.
No entanto, Uribe pondera que ainda não é possível extrapolar os resultados do estudo para seres humanos. “Mas esse tipo de pesquisa é muito importante para abrir novas perspectivas, começar a investigar se realmente existe um efeito tóxico a longo prazo, e qual seria o tipo de exposição que desencadearia. Qual dose seria tóxica mesmo, uma série de coisas.”
Os pesquisadores reforçam a necessidade de mais estudos sobre os efeitos neurológicos do glifosato, já que as descobertas anteriores demonstraram que o herbicida atravessa a barreira hematoencefálica — camada protetora que normalmente impede que substâncias potencialmente prejudiciais entrem no cérebro. Após a travessia, o produto pode interagir com o tecido cerebral e contribuir para a neuroinflamação e outros danos na função neural.
“Essas descobertas destacam que muitos produtos químicos que encontramos regularmente, antes considerados seguros, podem representar riscos potenciais à saúde. No entanto, mais pesquisas são necessárias para avaliar completamente o impacto na saúde pública e identificar alternativas mais seguras”, frisou Patrick Pirrotte, autor sênior do estudo e pesquisador da City of Hope.
Impactos ambientais de culturas geneticamente modificadas: Adotar culturas com essas características afeta perdas de colheitas, uso de agrotóxicos e outras ações de manejo, incluindo níveis de cultivo e diversidade de culturas. Essas mudanças, por sua vez, afetam a expansão agrícola, o desmatamento, a poluição, a saúde humana, as emissões de gases de efeito estufa e a biodiversidade
Uma equipe liderada pelo professor Frederick Noak do departamento de Food and Resource Economics, da University of British Columbia acaba de publicar um interessante artigo de revisãosobre as expectativas em torno da adoção de sementes geneticamente modificadas (OGMs) e das consequências que já detectadas. Dentre as consequências que foram inicialmente desconsideradas, a equipe liderada pelo professor Noak aponta para a expansão de áreas agrícolas com a consequente elevação na derrubada de florestas, a repercussão cheia de nuances em torno do uso de agrotóxicos, e a ampliação das emissões de gases estufa que ocorre em função do aumento de uso de equipamentos agrícolas.
O estudo aponta ainda que apesar de ter tido um início acelerado, a adoção de sementes OGMs tem ficado reduzida a um número pequeno de países, pois a maioria dos governos nacionais acabou impondo legislações bastante restritivas para a adoção deste tipo de semente geneticamente manipulado por causa dos riscos ambientais que ainda não foram claramente respondidos pelos fabricantes dessas semente.
O mapa abaixo mostra bem como o plantio de sementes geneticamente modificadas ainda se encontra concentrado em um pequeno número de países. Interessante é o caso do Brasil onde a adoção de sementes geneticamente modificadas tem sido acompanhada pelo aumento exponencial no uso de agrotóxicos altamente tóxicos e pelo avanço da franja de desmatamento para áreas mais interiores da Amazônia, principalmente em função da ampliação dos plantios de soja.
O estudo mostra ainda que há uma grande concentração das empresas que controlam a produção e comercialização deste tipo de sementes OGMs. Segundo o artigo, Em 2020, apenas quatro empresas controlavam mais da metade do mercado mundial de sementes, sendo que elas detinham direitos de propriedade intelectual sobre 95% das variedades de algodão e milho e 84% das variedades de soja geneticamente modificadas. Esse dado é particularmente importante, na medida em que essas empresas cobram royalties por cada semente que é usada em paíoses como Brasil e Argentina.
Uma coisa é certa: quanto mais sementes OGMs são utilizadas, mais agrotóxicos e mais desmatamento tendem a acontecer. E lamentavelmente esta é a situação do Brasil neste momento.
Em meio aos debates sobre a adoção do lamentável acordo União Europeia-Mercosul, o parlamento da França vetou a ratificação deste tratado comercial com uma desculpa compreensível, mas que também mostra a dupla moral com que os franceses tratam o problema da contaminação de alimentos por agrotóxicos banidos na União Europeia. É que o argumento (correto, diga-se de passagem) dos franceses relaciona o uso de agrotóxicos banidos na União Europeia contamina os alimentos produzidos nos países do Mercosul, os quais pretendem aumentar o nível de exportação justamente para a Europa.
O problema é que a França é um dos principais exportadores de agrotóxicos banidos na União Europeia (ver a figura abaixo), e o Brasil é um dos maiores consumidores desses venenos super poderosos. Em outras palavras, na hora de vender produtos que estão banidos nos campos franceses, tudo bem. O que os franceses não querem é ver as commodities agrícolas brasileiras entrando em seus supermercados, já que sabem os malefícios que esses produtos podem trazer para a saúde dos franceses.
Essa dupla moral reflete bem a relação disfuncional que marca o comércio global de agrotóxicos, já que quem vende sabe muito bem os problemas que estão exportando para países com legislações ambientais mais frágeis, como é agora o caso do Brasil sob a égide do Pacote do Veneno. E isso fica ainda mais claro com a decisão do parlamento francês de recusar a ratificação do acordo com o Mercosul por causa da contaminação que agrotóxicos “fabriqué en France“.
A questão é de como aqui no Brasil essa discussão está sendo jogada para debaixo do tapete pelo latifúndio agro-exportador e seus aliados na mídia corporativa e no governo Lula. Mas para aqueles que entendem os graves problemas causados pelo uso excessivo de agrotóxicos altamente venenosos, a decisão do parlamento francês serve para impulsionar a legitimidade concedida ao latifúndio agro-exportador para nos contaminar com venenos altamente perigosos. Em que pese a forte carga de hipocrisia que esta decisão carrega.
Audiência Pública em Goiânia e Missão Territorial em Santa Helena de Goiás contam com participação de comunidades, especialistas convidadas e com divulgação de pesquisa inédita
Por CPT Goiás
Nos dias 26 e 27 de novembro, será realizada, em Goiânia e em Santa Helena de Goiás, a Jornada Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida em Goiás, uma iniciativa da Campanha Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra Regional Goiás (CPT Goiás), que conta com a participação de pesquisadoras de diversas áreas, ativistas e comunidades do campo.
A jornada conta com duas grandes ações: uma Missão Territorial, no dia 26 de novembro, no Acampamento Leonir Orback, em Santa Helena de Goiás (GO), e, no dia 27, a Audiência Pública intitulada “Os impactos dos Agrotóxicos em Goiás”, na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (ALEGO), em Goiânia.
As atividades são abertas ao público e têm como o objetivo de divulgar e debater os resultados de pesquisas, uma delas inédita, sobre o impacto dos pesticidas na saúde da população do campo em Goiás, além de fazer a oitiva e ampliar o grito de socorro de comunidades que são cotidianamente expostas a várias formas de contaminação por agrotóxicos utilizados nos grandes monocultivos presentes em todas as regiões do estado.
Missão Territorial
A Missão Territorial tem como proposta reunir a comunidade do Acampamento Leonir Orback com especialistas ou estudiosos do assunto, para discutir a realidade local de exposição aos agrotóxicos, refletindo sobre os problemas e possíveis caminhos para seu enfrentamento. Estarão presentes na Fernanda Savicki, da Fundação Oswaldo Cruz, Andreya Gonçalves Costa, professora do Laboratório de Mutação Genética da UFG (LABMUT/UFG) e Jaqueline Pivato, da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida, além de representantes da Campanha Cerrado e CPT Goiás.
Durante a atividade, o LABMUT/UFG irá apresentar, em primeira mão, os resultados de estudo inédito realizado com material coletado na comunidade no último mês de julho. A pesquisa analisou geneticamente amostras de sangue e fluido bucal de moradores da comunidade, identificando os danos genéticos associados à exposição a substâncias agrotóxicas.
O impacto dos agrotóxicos no Acampamento Leonir Orback vem sendo monitorado pela CPT Goiás e Campanha Cerrado desde 2021, a partir das denúncias realizadas pelas famílias locais, que relatam constantes problemas de saúde relacionados à intensa exposição aos produtos aplicados em lavouras de soja e cana de açúcar em propriedades vizinhas. Estudo realizado entre 2022 e 2023, publicado em “Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”, da Campanha Cerrado, revelou a contaminação da água da comunidade com pelo menos 5 diferentes tipos de agrotóxicos.
Audiência Pública
Para debater a problemática com o conjunto da sociedade, em especial com autoridades do estado, a caravana será finalizada com a Audiência Pública “O Impacto dos Agrotóxicos em Goiás”, no Auditório Francisco Gedda, na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (ALEGO).
A Audiência será presidida pela deputada estadual Bia de Lima e a mesa será composta por Fernanda Savicki, da Fundação Oswaldo Cruz, Jaqueline Pivato, da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida, Miller Caldas Barradas, pesquisador do Laboratório de Mutação Genética da UFG (LABMUT/UFG), Leila Lemes, da CPT Goiás, Laureana Fernandes, do Acampamento Leonir Orback e outros convidados.
A audiência contará ainda com a presença de comunidades do campo de diversas regiões do estado, que levarão os seus depoimentos sobre a questão dos agrotóxicos para a discussão.
Serviço
Jornada Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida em Goiás
26 e 27 de novembro – Santa Helena de Goiás e Goiânia (GO)
Programação
26 de novembro – Santa Helena de Goiás (GO)
Missão Territorial
9:00 – Roda de Conversa sobre os impactos dos agrotóxicos na vida das comunidades em Goiás – No Acampamento Leonir Orback (Zona Rural)
14:00 – Entrega da Premiação do Edital de Vídeos Inéditos da Agro é Fogo Atendimento à imprensa – No Acampamento Leonir Orback (Zona Rural)
15:00 – Ato de solidariedade na cidade com entrega de alimentos (Sta Helena)
27 de novembro – Goiânia (GO)
Audiência Pública: Impactos dos agrotóxicos em Goiás
Local: Auditório Francisco Gedda – Assembleia Legislativa do Estado de Goiás,
WEST BEND, Iowa – Pessoas que buscam maneiras de limitar o impacto que a agricultura industrializada americana causa nas comunidades, na terra e na água podem querer visitar Clear Creek Acres, no norte de Iowa.
Com pouco menos de 800 habitantes, West Bend, Iowa, é apenas um pontinho na paisagem de pradaria, mas se tornou a base de uma extensão incomumente grande de cultivos orgânicos — operações que tiveram sucesso em desafiar a convenção popular de que agrotóxicos e outros produtos químicos agrícolas são necessários para alimentar o mundo.
Os silos de grãos imponentes são cercados por quase 20 mil hectares de milho, soja, aveia e outras culturas cultivadas sem o uso de produtos químicos sintéticos. Os fazendeiros fertilizam a terra com cama de galinha e esterco de porco e capinam grande parte da terra manualmente ou com ferramentas não químicas, como novas capinas a laser.
O que ocorreu aqui desde 1998, quando o fazendeiro Barry Fehr experimentou cultivar soja sem produtos químicos em 18 hectares, é o desenvolvimento da área mais expansiva e lucrativa de produção de grãos orgânicos em Iowa, e possivelmente nos Estados Unidos. A maior parte da terra é cultivada por várias gerações da família Fehr. A família também administra cerca de 1.200 hectares de produtos orgânicos no Colorado. Gerando milhões de dólares anualmente em uma “renda sustentável”, o sucesso das operações orgânicas aqui no coração do país do milho desafia convenções antigas sobre a necessidade de produtos químicos na agricultura.
A indústria agroquímica, liderada pela Bayer, dona da Monsanto, pela Syngenta e outras gigantes globais de sementes e produtos químicos, afirma que herbicidas, inseticidas e outros pesticidas são essenciais para uma produção robusta de alimentos, e que uma população global crescente exige o uso desses produtos químicos na agricultura.
Mas Dan Fehr, de 71 anos, que é agricultor há mais de 50 anos, diz que “isso é discutível”.
As fazendas da família Fehr estão quase igualando os rendimentos das safras cultivadas convencionalmente, talvez vendo apenas um declínio de rendimento de cerca de 10% em comparação, disse Fehr. Seus custos são menores porque eles não estão comprando pesticidas e as sementes geneticamente modificadas de alto preço projetadas para serem usadas com certos pesticidas herbicidas.
E os preços que eles colhem são mais altos porque as safras orgânicas comandam prêmios em um mercado onde a demanda do consumidor por alimentos orgânicos está aumentando. Cerca de 25.000 acres das fazendas Fehr em Iowa geram aproximadamente R$ 200 milhões por ano em vendas de safras.
“O prêmio que ganhamos vendendo orgânicos é a razão principal”, disse Fehr. “A demanda por orgânicos definitivamente cresceu muito. É por isso que fazemos isso.”
E, ele acrescentou – “Ninguém morreu por não usar agrotóxicos. Não acho que vá fazer mal algum não usar agrotóxicos.”
Onda de crescimento
Clear Creek faz parte de uma onda de crescimento na agricultura sem produtos químicos em Iowa e arredores. O número de fazendas orgânicas em Iowa aumentou de467 para 799 de 2011 a 2021, e ocupa o sexto lugar no país em número de fazendas sem produtos químicos. O estado é o primeiro na produção orgânica de milho e soja, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
“Eles são únicos na maneira como administram suas operações”, disse Cole Thompson, diretor de marketing da Albert Lea Seed, sediada em Minnesota, a maior produtora de sementes orgânicas do país. “A maioria das pessoas na indústria acha que não é possível cultivar organicamente nessa escala. Mas é possível. Eles estão provando isso.”
Embora as conquistas da família sejam celebradas no crescente setor de fazendas orgânicas do país, nem todos estão impressionados . Os críticos dizem que a prática dos Fehrs de arar suas terras para controlar ervas daninhas deixa milhares de hectares descobertos, tornando o solo superficial vulnerável à erosão do vento e da chuva. A aração também reduz o potencial de sequestro de carbono do solo, dizem os críticos da prática.
“Eles não estão fazendo muito por esta comunidade, eu lhe digo”, disse Joe Joyce, que cultiva 809 hectares aqui usando produtos químicos convencionais.
“É só inveja. Só isso”, rebateu Linus Solberg, um fazendeiro e comissário do Condado de Palo Alto. “Eu digo às pessoas que qualquer um pode fazer isso. Qualquer um aqui tem a oportunidade de cultivar plantações orgânicas se quiser investir tempo. Esses caras descobriram como fazer isso.”
Plantar e colher safras sem as proteções contra insetos, ervas daninhas e doenças fornecidas por produtos químicos não é tarefa fácil. Mas um crescente corpo de evidências científicas mostrou que os produtos químicos não vêm apenas com benefícios, mas também com uma série de riscos.
Foi demonstrado cientificamente que muitos tipos de agrotóxicos comuns causam câncer e outras doenças, e muitos também são prejudiciais ao meio ambiente e são conhecidos por causar grandes problemas de poluição da água.
Jack Fehr, 28, disse que sua família está dando um exemplo para outros agricultores que temem que a conversão para a agricultura orgânica demore muito, custe muito, rende muito pouco e não possa ser feita com sucesso, exceto em pequenas fazendas.
“Eu converso com muitos fazendeiros”, disse Fehr. “A grande questão deles é, bem, não sei se consigo fazer funcionar? Bem, você consegue. Nós conseguimos. E ganhamos um prêmio por nossas safras orgânicas, duas a três vezes o que os preços convencionais são, em média.”
Fehr disse que os compradores de Clear Creek pagam até R$ 40 por bushel por milho orgânico e R$ 110 por bushel por soja orgânica, o dobro do preço de mercado convencional.
Ato de equilíbrio
A agricultura orgânica é um ato de equilíbrio entre o menor custo de suprimentos e os maiores custos de mão de obra. Fehr explicou que o custo de produção em Clear Creek Acres é comparável aos custos da agricultura química.
No lado da economia do livro-razão estão as sementes orgânicas que têm preços mais baixos porque não são tratadas com produtos químicos para afastar insetos e doenças. Não há custo para inseticidas, herbicidas, fungicidas e fertilizantes químicos. A Clear Creek aplica esterco de porco de menor custo em seus campos para nutrientes. E usa cama de frango que produz de uma grande operação de alimentação de galinhas poedeiras não orgânicas que possui na fazenda.
A última peça para manter os custos de produção baixos para operações agrícolas tão grandes quanto Clear Creek são as economias de escala. A fazenda e seus vizinhos têm frotas de tratores, colheitadeiras, reboques e outros equipamentos que eles compartilham.
(Jack Fehr colhendo soja. Foto de Keith Schneider.)
Esses custos mais baixos são compensados pela despesa de superar o principal impedimento à produção orgânica de grãos – controlar ervas daninhas, especialmente em campos de soja. A maioria dos 30 funcionários da Clear Creek passa os verões nos campos cultivando e gradeando para matar ervas daninhas. Eles são ajudados por moradores locais e uma equipe de 70 trabalhadores de campo guatemaltecos, contratados sob um programa especial de visto agrícola, que capinam manualmente e custam uma média de US$ 30 por hora em salários e despesas.
“Temos muito mais equipamentos e nossas horas de trabalho, nossa força de trabalho, são maiores do que na agricultura convencional”, disse Fehr. “Um grande desestímulo para o fazendeiro que busca fazer a transição para o orgânico é a quantidade de trabalho e o tempo que isso leva. Estou em um trator, no campo, cultivando desde 15 de fevereiro deste ano. Não tive um dia de folga.”
Lidar com essa escassez também produzirá benefícios ambientais, particularmente para a qualidade da água. Não há produtos químicos tóxicos saindo dos campos orgânicos. E pesquisas mostram que a rotação de culturas e outras práticas de cultivo orgânico melhoram a condição do solo, o que impede que mais nitrogênio e fósforo sejam drenados para a superfície e para as águas subterrâneas.
Uma equipe depesquisadores do USDA e da Universidade Estadual de Iowa comparouo escoamento de campos onde fertilizantes comerciais foram aplicados a campos e pastagens fertilizados com esterco. Os pesquisadores descobriram que a produção agrícola convencional drenou quase o dobro de nitrato na água do que a produção orgânica. Os autores do estudo concluíram que a agricultura orgânica “pode melhorar a qualidade da água em paisagens do Centro-Oeste”.
O interesse em amostragem de água é intenso nos dois condados onde a fazenda Fehrs. A área a oeste de Emmetsburg, a maior cidade do Condado de Palo Alto, tem o maior número de cursos de águaprejudicados por contaminantes relacionados à fazenda de qualquer região de Iowa , de acordo com o Departamento de Recursos Naturais do estado. Mas as partes dos condados de Kossuth e Palo Alto cultivadas por Clear Creek e outras famílias Fehr ficam ao sul do curso de água mais próximo e solitário prejudicado em sua área. É o Lago Five Island em Emmetsburg, poluído por fósforo, que desenvolve uma proliferação anual de algas tóxicas no verão.
Jeremy Thilges, especialista em conservação do USDA em Iowa, disse que seu escritório está supervisionando um estudo de vários anos sobre a qualidade da água na área para determinar as causas e as fontes de contaminação.
(Este relatório, copublicado com o Circle of Blue, foi possível graças a uma bolsa de reportagem investigativa concedida pela Alicia Patterson Foundation e pelo Fund for Investigative Journalism. Ele faz parte de uma série contínua que analisa como as mudanças nas políticas agrícolas estão afetando a saúde ambiental.)
(Keith Schneider, ex-correspondente nacional do New York Times, é editor sênior do Circle of Blue . Ele relatou a disputa por energia, alimentos e água na era das mudanças climáticas em seis continentes.)
Produtora de embalagens e artífice de desastre ambiental em Maceió, Braskem lidera a lista, que conta com as principais trans dos venenos. Dados foram usados por Haddad para pedir debate sobre cortes no orçamento
Latifundiários e empresas transnacionais do agronegócio são as principais beneficiadas pela isenção de impostos.Faixa em protesto contra os ruralistas no Rio de Janeiro denuncia relação entre agrotóxicos e o câncer. Créditos: Agência Brasil
Por Mauro Lopes e Plínio Teodoro para a Fórum
As grandes empresas transnacionais dos agrotóxicos e os ruralistas são os principais beneficiados pela chamada Dirbi (sigla de Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidades de Natureza Tributária) política de benefícios fiscais que acumulou R$ 97,7 bilhões em isenções de impostos somente entre os meses de janeiro e agosto deste ano.
O link para o acesso inédito ao trem da alegria das isenções foi divulgada na última quarta-feira (13) e serviu de base para o ministro Fernando Haddad (Fazenda) propor um debate sobre o ajuste fiscal. Entre outros, os dados mostram que a mídia liberal – que defende cortes na saúde, educação e limitação de reajustes do BPC e salário-mínimo – é uma das principais beneficiários da desoneração da Folha de Pagamento.
“Hoje nós demos a público pela 1ª vez na história os incentivos fiscais dados a cada empresa individualmente e aos setores, de uma forma agregada”, afirmou o ministro, ressaltando que é preciso “parar de defender interesses particulares”.
Trans dos venenos
Alvo da política de privatização à toque de caixa de Jair Bolsonaro (PL) – que não conseguiu concretizar a venda em 2022 – e artífice do afundamento do solo em Maceió (AL) por exploração de sal-gema, a Braskem está no topo da lista das maiores beneficiadas pela política de isenções.
Fabricante de resinas termoplásticas usadas na fabricação das embalagens de agrotóxicos, a Braskem deixou de pagar R$ 2,2 bilhões em impostos somente nos primeiros oito meses de 2024.
Em segundo lugar na lista está a Syngenta, que se reuniu 216 vezes com o primeiro escalão do governo Bolsonaro e foi uma das principais beneficiadas com a política que “passou a boiada” e liberou agrotóxicos em série pelo governo do ex-presidente. No total, a transnacional obteve R$ 1,7 bilhão em isenção de impostas.
Entre as seis primeiras colocadas, há ainda duas empresas aéreas, que ganharam benefícios principalmente durante a pandemia. Em terceiro lugar no geral, a Tam também obteve R$ 1,7 milhão em isenções no período. A Azul Linhas Aéreas está na quinta colocação, deixando de pagar R$ 1 milhão em impostos.
Na quarta colocação, está outra empresa do ramo agrícola. A Yara Brasil – da holding Yara International, controlada pelo governo norueguês – obteve benefícios na casa dos R$ 1,2 bi.
Ainda na casa das isenções bilionárias, completa a lista a sul-coreana Samsung, com R$ 1 bi em isenções.
Veja a lista
Principais beneficiados
Apoiadores contumazes da tentativa de golpe perpetrada por Jair Bolsonaro em 2022, os ruralistas são os principais beneficiários da política de isenção de impostos, segundo dados divulgados pela Receita Federal.
Somente no setor de adubos e fertilizantes, o governo federal deixou de arrecadas R$ 14,9 bilhões entre janeiro e agosto desse ano com a política de isenções.
Em seguida, está a desoneração da folha de pagamento, com R$ 12,2 bilhões em taxas trabalhistas não recolhidas.
Na terceira colocação vêm os agrotóxicos – identificados como “defensivo agrícolas” – com R$ 10,7 bi em desonerações.
Criada por Bolsonaro em uma medida desesperada para angariar apoio eleitoral da classe artística, o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) gerou R$ 9,6 bi em isenções fiscais.
Na lista de cifras bilionárias que deixaram de ir para os caixas públicos ainda estão o setor de aeronaves, exportação de carnes e importação de produtos farmacêuticos.
Estudo feito entre 2015 e 2019 aponta pelo menos 13 morbidades associadas à exposição da população a agrotóxicos
Por RD News
Contaminações no ecossistema, alimentos, animais e em humanos – neste último, resultando em doenças crônicas. Esses são os resultados apontados por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), sobre os impactos da exposição a agrotóxicos em todo o território de municípios da região Oeste de Mato Grosso, que são conhecidos pelo forte domínio do agronegócio: Campo Novo do Parecis, Campos de Júlio e Sapezal.
Publicado em agosto, o estudo intitulado Pesquisa participativa com populações expostas aos agrotóxicos em Mato Grosso: aspectos metodológicos e desafios políticos foi realizado entre 2015 e 2019.
Os pesquisadores afirmaram que escolheram esses municípios da bacia hidrográfica do Rio Juruena, pois compõem as bacias do rios Tapajós e Amazonas, responsáveis por banhar 70% do território do estado de Mato Grosso.
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