Live discutiu os desafios da regulação e remoção dessa substância considerada tóxica
Na terça-feira, 15, o CRQ-IV/SP transmitiu uma live organizada pela Comissão Técnica de Meio Ambiente para discutir os “Conceitos, Ocorrências e Implicações dos PFAS”, um grupo de substâncias com potencial contaminante. A palestra foi conduzida pelo Químico Aluisio Soares, mestre e doutor em Química Ambiental, com pós-doutorado na ocorrência de PFAS em águas subterrâneas pela Universidade de São Paulo (USP). Soares é membro da Comissão Técnica de Meio Ambiente do CRQ-IV/SP e sócio da consultoria EVA Way Projetos Ambientais.
Os PFAS (substâncias per e polifluoroalquil) são compostos sintéticos, fabricados desde a década de 1930. Eles fazem parte do grupo dos contaminantes emergentes, assim como fármacos, hormônios, drogas psicotrópicas, pesticidas. Alguns desses contaminantes emergentes, como os PFAS, são considerados interferentes endócrinos e podem causar efeitos adversos – como câncer – após a exposição prolongada. Segundo Aluisio, a produção dos PFAS foi reduzida nos anos 2000, quando se descobriu os seus malefícios.
Antes disso, os PFAS foram amplamente utilizados durante a Segunda Guerra Mundial, no revestimento de equipamentos usados para testes atômicos. Após o fim da guerra, o composto ganhou popularidade no uso doméstico, especialmente em utensílios antiaderentes, como panelas revestidas com teflon, cujo princípio ativo é o perfluorooctanoico (PFOA), um dos PFAS mais conhecidos. Ele também pode estar presente em produtos como espumas antichamas, roupas impermeáveis, revestimentos para sofás e até cosméticos.
Os PFAS são formados por cadeias de átomos de carbono ligadas a átomos de flúor. A substituição de hidrogênios por flúor confere a esses compostos uma enorme estabilidade química, o que os torna extremamente resistentes e difíceis de serem quebrados pela natureza. Sua estrutura pode ser “per” ou “poli”, dependendo do nível de substituição por flúor, resultando em diferentes propriedades químicas e físicas, o que amplia ainda mais o seu uso em diversos setores industriais.
Um dos maiores exemplos de contaminação ao meio ambiente por PFAS ocorreu em bases militares dos Estados Unidos, onde a utilização de espumas antichamas resultou em áreas de solo e água subterrânea contaminadas. Estudos também já detectaram PFAS no sangue de ursos polares e em peixes. O palestrante fez referência ao filme “Dark Waters” (2019), que retrata o impacto ambiental da produção de teflon, ilustrando as consequências da exposição prolongada a esses compostos.
Apesar da crescente conscientização sobre os riscos dos PFAS, os métodos de análise e monitoramento desses compostos ainda são limitados. Os métodos analíticos atuais são capazes de quantificar apenas cerca de 40 PFAS, quando existem mais de 5 mil, o que representa um grande desafio. Além disso, muitos desses compostos são encontrados em concentrações extremamente baixas, na ordem de picogramas por litro, o que exige equipamentos de alta sensibilidade para detecção.
Com o avanço dos estudos, o uso do PFAS foi reduzido, mas esses materiais ainda circulam no País. “Provavelmente todos vocês devem ter algum produto em casa contendo PFAS”, disse Soares. No Brasil, a substância já foi encontrada em carnes, vegetais, água mineral, como resultado das contaminações ambientais. O palestrante explicou que técnicas como a osmose reversa, processos oxidativos avançados, uso de carvão ativado granular e resinas de troca iônica já são utilizados por empresas de tratamento de água no Brasil e exterior para remover os PFAS.
Soares afirma que o tema ainda representa um desafio, que envolve desde a falta de uma legislação nacional robusta, a busca por substitutos que não sejam prejudiciais ao meio ambiente e à saúde, e os riscos da exposição prolongada. Entretanto, existe um Projeto de Lei – PL 2726/2023 –, ainda em discussão fora do Plenário, que buscará instituir a política nacional de controle dos PFAS. A expectativa é que, com a aprovação de novos regulamentos, seja possível reduzir e controlar os impactos desses compostos no meio ambiente e na saúde pública.
O evento foi encerrado com uma rodada de perguntas feitas pelos participantes. A mediação foi realizada pela Química Dilcelli Soares Moura, especialista em Química Instrumental, Gestão de Qualidade, ensaios analíticos e amostragem de matrizes ambientais, e membro da Comissão Técnica de Meio Ambiente do CRQ-IV/SP. A apresentação foi feita pelo Químico Aislan Balza, coordenador das Comissões Técnicas do Conselho.
Uma nova pesquisa acrescenta evidências de que vários tipos de agrotóxicos— incluindo os herbicidas amplamente utilizados 2,4-D e glifosato — podem aumentar o risco de câncer de próstata.
Um estudopublicado em 4 de novembro no periódico Cancer examinou a relação entre a quantidade de agrotóxicos usados em condados dos EUA em certos períodos de tempo e as taxas de câncer de próstata 14 anos depois. Quase duas dúzias desses produtos químicos foram consistentemente associados a um risco elevado da doença, que é o câncer mais comum em homens e é considerado o segundo mais mortal.
Os resultados sugerem que mais pesquisas são necessárias urgentemente para entender melhor o papel que agrotóxicos podem desempenhar no desenvolvimento deste e de outros tipos de câncer, escreveram os autores.
“Muitos agrotóxicos não foram suficientemente estudados quanto aos seus potenciais efeitos cancerígenos, particularmente em relação ao câncer de próstata”, disse o coautor do estudo Simon Soerensen , pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Stanford.
As descobertas aumentam as preocupações sobre os impactos à saúde da exposição crônica a agrotóxicos e são apenas as mais recentes em anos de pesquisa que relacionam produtos químicos usados na agricultura a diferentes tipos de câncer e outras doenças.
A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial da Saúde classifica o 2,4-D como “possivelmente” cancerígeno para humanos, por exemplo. E seis outros agrotóxicos analisados no estudo são atualmente classificados como “potenciais cancerígenos humanos” pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). A EPA classifica o herbicida diuron em particular como um cancerígeno conhecido/provável.
O estudo também identificou quatro produtos químicos que estavam ligados não apenas à incidência de câncer de próstata, mas também à morte por ele. Entre eles estão três herbicidas, conhecidos como cloransulam-metil, diflufenzopir e trifluralina, e um inseticida chamado tiametoxam, que foi proibido para uso externona União Europeia devido à sua toxicidade para abelhas.
Um dos herbicidas consistentemente associados ao câncer de próstata no artigo foi o 2,4-D. Essa descoberta se destaca por ser amplamente usada, disse John Leppert , urologista e pesquisador, também em Stanford.
O uso de 2,4-D em fazendas aumentou nos últimos anos, à medida que espécies de ervas daninhas desenvolveram resistência crescente a outros herbicidas, como o glifosato, o ingrediente ativo do Roundup e outras marcas desenvolvidas pela antiga Monsanto Co., levando os agricultores a aplicar alternativas ao glifosato.
O desenvolvimento de culturas que toleram ser pulverizadas com 2,4-D acelerou o uso nos últimos anos. Existem agoramilhões de hectares de milho e sojaplantados nos EUA que são geneticamente modificados para serem resistentes ao 2,4-D. O produto químico também é encontrado em produtos herbicidas comuns de quintal.
Um estudo de 2022 descobriu que quase um terço dos 14.395 participantes tinham níveis mensuráveis de herbicida 2,4-D na urina.
No artigo sobre o câncer , os pesquisadores analisaram o uso de dezenas de agrotóxicos em nível de condado de 1997 a 2001 e, então, procuraram ver, para cada produto químico, se parecia haver uma ligação com casos de câncer no condado 14 anos depois, de 2011 a 2015. Eles fizeram a mesma coisa por um segundo período de tempo, analisando o uso de 2002 a 2006 e casos de câncer e mortes de 2016 a 2020.
Todos os 22 pagrotóxicos foram consistentemente associados ao câncer de próstata ao longo do tempo e do espaço. O artigo tentou quantificar essas ligações observando o quanto um aumento discreto no uso de qualquer produto químico dado em um condado comparado ao aumento da incidência de câncer de próstata lá.
Ele encontrou as ligações mais fortes para os herbicidas trifluralina, cloransulam-metil e tribenuronm; o fungicida propiconazol; e o inseticida paration. (Paration é um inseticida organofosforado altamente tóxico que foi proibido em muitos, se não na maioria dos países,incluindo os Estados Unidos.)
O estudo mostra que um aumento no desvio padrão do uso do herbicida trifluralina em condados, por exemplo, foi associado a sete casos adicionais de câncer de próstata por 100.000 indivíduos.
Como o câncer de próstata é tão comum e pode ser agressivo, é uma “tremenda preocupação de saúde” cujos fatores de risco ambientais subjacentes ainda são pouco compreendidos, disse Leppert.
“Acho que precisamos estar mais conscientes de que o que está no ambiente pode contribuir para o risco de câncer em um homem”, acrescentou.
Agrotóxicos associados ao câncer de próstata
Os 22agrotóxicos identificados incluem herbicidas (2,4-D, glifosato, trifluralina, cloransulam-metil, tribenuron, diflufenzopir, diuron, hexazinona, linuron, pendimetalina, sulfosato, tifensulfuron), inseticidas (paration, tiametoxam, acefato, bifentrina, carbaril, cialotrina-lambda), fungicidas (propiconazol, azoxistrobina, trifloxistrobina) e fumigantes de solo (cloropicrina).
O STF estará julgando, no próximos dias, uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 5.553) impetrada pelo PSOL, questionando o projeto de lei 6.299/2002 que modifica a legislação sobre agrotóxicos vigente, visando ampliar os subsídios e isenções fiscais no Brasil. O agronegócio brasileiro já é há alguns anos o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, sendo que pelo menos um terço com alto grau de toxidade e muitos deles proibidos por órgãos reguladores tanto nos Estados Unidos como na União Europeia. As reduções de impostos têm um papel importante neste processo, mas o agronegócio quer mais, sobretudo reduzir em 60% o ICMS e zerar o IPI sobre os agrotóxicos.
Em outras manobras legislativas, a bancada ruralista almeja facilitar ainda mais a liberação de novos agrotóxicos, apesar de estar conseguindo colocar estes produtos cada vez mais rapidamente no mercado interno, na base de centenas a cada ano, oito vezes mais ligeiro do que na União Europeia. Isto se faria pela retirada da competência da ANVISA e do IBAMA do sistema de aprovação, entregando-o estritamente nas mãos da complacente e cúmplice burocracia do MAPA.
O agronegócio brasileiro argumenta que sem estes e outros subsídios (sobretudo para fertilizantes e sementes) não conseguiriam competir no mercado internacional e que teriam que cotejar as eventuais vantagens apontadas pelo agrobusiness com os impactos negativos (custos externos) das suas atividades.
Com toda a propaganda de alta qualidade e alto custo na mídia brasileira (“agro é pop, agro é tec, agro é tudo…”) o nosso agronegócio confessa a sua ineficiência quando cobra do erário o custo da sua sobrevivência.
O argumento da preocupação com a alta do custo dos alimentos é pura falácia. O aumento dos preços do arroz com feijão, que usaremos como indicativo da base de uma dieta nacional desejável, não é provocado principalmente pelos custos de produção (inclusive dos agrotóxicos), mas pela baixa oferta dos produtos no mercado interno.
A oferta per capita de arroz e de feijão vem caindo regularmente ao longo dos últimos 50 anos. Entre 1977 e 2022, o consumo per capita de arroz caiu de 79 para 49 quilogramas por ano, uma redução de 38%. O de feijão caiu de 24,7 kg para 14 kg, 43% a menos.
O consumo de outros alimentos básicos da dieta tradicional brasileira (aquela entronizada na lei do salário-mínimo de Getúlio Vargas nos anos trinta e que está longe de ser a mais correta do ponto de vista nutricional), como o milho e a mandioca, seguiram o padrão do arroz e feijão. Em 2022, o milho usado para consumo humano não superou os 8,7 kg per capita no ano, um sétimo do que foi consumido por animais sob forma de ração e a metade do que foi usado para produzir biodiesel. Ficou muito para trás o tempo em que a broa de milho era o pão de boa parte dos brasileiros
Para apontar o destino da produção agropecuária brasileira de forma mais geral, basta olhar a área cultivada dos produtos dirigidos principalmente para o mercado interno e os dirigidos principalmente para as exportações. Entre os 22 cultivos mais importantes, ocupando em 2022/2023 perto de 88 milhões de hectares de lavouras, soja e milho (em grande parte exportados quer em grãos, farelo ou para a engorda de frangos, suínos e bovinos, também exportados em grande parte) ocuparam 71% da área total. Mais 15% da área foi destinada para outros produtos de exportação como cana de açúcar, algodão, café, cacau e fumo. Apenas 11,5 % da área de lavouras foi destinada a cultura alimentares do mercado interno, como arroz, feijão, trigo, mandioca, banana, batata, aveia, cebola, tomate, etc.).
Este processo de internacionalização do nosso agro não é novo. Afinal de contas, o país nasceu e cresceu sob o signo da exportação de produtos agrícolas, açúcar, café, algodão, cacau e outros, nos famosos ciclos econômicos que só tiveram um período em que foram os minerais (ouro) que dominaram a exportação. O que é novo é que, depois de um período de desenvolvimento industrial acelerado iniciado nos governos de Vargas, mas que tiveram continuidade até no regime da ditadura militar, voltamos a ser essencialmente um país exportador de produtos primários, agrícolas e minerais, com a produção industrial caindo a pouco mais de 12 % do PIB.
Esta regressão tem um efeito brutal no custo da alimentação dos brasileiros. Neste século, tivemos 6 anos apenas em que a inflação geral medida pelo IPCA ficou acima da inflação de alimentos (60% mais alta em média), enquanto nos outros 18 anos esta última bateu a primeira mais ou menos com a mesma média anual.
Descartemos, portanto, o argumento de que os subsídios se dirigem a baratear a alimentação dos brasileiros. Eles se dirigem a aumentar a competitividade dos nossos produtos no mercado internacional, deixando o consumo interno de alimentos em permanente insuficiência frente às necessidades dos consumidores.
Para dar uma ideia aproximada do problema, é só lembrar que a demanda anual reprimida de arroz (em casca) é de 18 milhões de toneladas, extrapolação realizada pelo autor a partir do consumo desejável indicado em pesquisa do Instituto de Nutrição da UERJ, publicada na Revista de Saúde Pública. A demanda anual reprimida de feijão é de 7,6 milhões de toneladas, pelo mesmo critério. Isto significa a necessidade de se multiplicar a produção de arroz por 2,8 e a de feijão por 3,4 para alimentar corretamente os brasileiros (sem contar, é claro, vários outros produtos alimentares necessários e igualmente deficitários). E, enquanto os preços da soja e do milho nos mercados internacionais de comodities forem mais altos do que os do feijão e arroz no mercado interno, a orientação do agronegócio será a de privilegiar as exportações.
Enquanto isso, a produção de soja cresceu de 12 para 153 milhões de toneladas, entre os anos de 1977 e 2022. A de milho de 19 para 125. Ambos os produtos, como vimos acima, dirigidos essencialmente para o mercado externo sob diversas formas, grãos, farelo e carnes de frango e de suínos.
O agronegócio é “tec”, como ele autoproclama na sua propaganda? Nem tanto. A produtividade da soja brasileira iguala a americana e supera a da Argentina, dois grandes exportadores, mas com uso mais intensivo de insumos. Já a produtividade do milho é muito menor: 2,78 e 1,7 vezes mais baixa do que nos Estados Unidos e na Argentina. Os nossos concorrentes têm algumas vantagens naturais de clima e de solos, mas isto não explica o nosso atraso em termos de produtividade. Entretanto, o Brasil hoje produz e exporta mais do que qualquer outro e não só nestes dois produtos dominantes. Como explicar?
É simples. Por um lado, a legislação ambiental e a sanitária nos EUA e na União Europeia implicam em custos mais altos na aplicação das mesmas tecnologias. Temos custos bem menores pela fragilidade da aplicação da nossa legislação ambiental, cada dia mais permissiva. E temos custos de mão de obra também muito mais baixos. Mas, sobretudo, nós temos disponibilidade de terras baratas para expandir a produção, algo que falta para os concorrentes. Enquanto a demanda continuar aquecida pelas compras chinesas estaremos bombando com preços compensadores, mas com qualquer redução das cotações nós seremos os primeiros a perder mercado pois nossos custos de produção são mais altos. Como nossa produtividade é mais baixa, nem o custo quase zero da ocupação de terras griladas na Amazônia ou o trabalho mal pago compensará os custos maiores de produção.
É claro que existem setores do agronegócio mais tecnificados e competitivos, mas a maioria vive de explorar as vantagens naturais e humanas locais sem pensar no amanhã. Se fossem de fato “high tec”, como proclamam, já estariam aplicando as tecnologias disponíveis para reduzir o uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, ao invés de lutar para facilitar o uso de produtos cada vez mais perigosos … e caros.
Na verdade, a experiência internacional mostra que o agronegócio é igual em todo o mundo. Os produtores americanos só adotam técnicas mais racionais e de menor risco ambiental ou para a saúde quando a pressão de legisladores ou do mercado os obriga.
Um exemplo do outro lado do mundo é dos mais ilustradores deste axioma. Nas Filipinas dos anos 90, a FAO convenceu o governo da hora a montar um plano de redução do uso dos agrotóxicos na cultura do arroz, central na economia e na sociedade do país. O projeto visava não a erradicação do uso de agrotóxicos, mas o seu uso racional, na forma do manejo integrado de pragas ou IPM, na sigla em inglês. O programa dirigiu-se a agricultores de pequeno, médio e grande porte, mas seu sucesso inicial se deu principalmente no primeiro grupo. Os pequenos produtores, com menos acesso a recursos financeiros, perceberam a oportunidade de reduzir custos sem perder produtividade e filiaram-se ao programa em grandes números. Já os médios e grandes produtores só aderiram quando o governo filipino retirou os subsídios para o uso de agrotóxicos na produção de arroz. Em dez anos, as Filipinas reduziram o emprego de agrotóxicos no arroz a menos de 20% dos volumes anteriormente empregados. Com ganhos de produtividade e menores custos.
O programa da FAO ganhou prêmios de excelência e passou a ser disseminado na Ásia e na África com apoio do Banco Mundial, que estava carente de alguma coisa para melhorar a sua imagem junto aos ambientalistas. Embora o IPM esteja longe de ser um programa agroecológico e que ele nem sequer imagine outros componentes de racionalização do uso de insumos, o resultado, embora estrategicamente diminuto, aponta na direção correta. Ele ficou ainda mais relevante com a escalada dos preços dos agrotóxicos e dos adubos químicos nas últimas décadas e que tende a se intensificar ainda mais.
Ao que eu saiba, não existe no Brasil um cálculo sobre os custos indiretos do uso de agrotóxicos nos sistemas produtivos do agronegócio. Sabe-se que cerca de 25% das amostras de alimentos contêm, em média, doses de agrotóxicos acima do tolerável, segundo as definições da ANVISA. Também é sabido que a contaminação de trabalhadores agrícolas é um recorde mundial contínuo. Mas não se sabe quanto isto custa em termos de gastos privados ou do SUS. Os impactos ambientais sobre fauna e flora são constatados em grande escala, mas também sem avaliações de custos. A única indicação encontrada foi de um estudo da cooperação técnica da Alemanha, apontando para um custo indireto (abrangendo todos os impactos) de 20,00 reais para cada real de faturamento do agronegócio. Não tive acesso ao estudo, somente às suas conclusões que me parecem algo exageradas, mas por comparação com estudos em outros países estes “custos externos” apontados pelo estudo podem estar corretos.
O que temos que entender no caso brasileiro é que o caráter predador e imediatista do nosso agronegócio só pode ser parado com maiores controles de seus impactos ambientais e na saúde e não com o programa da bancada ruralista que é desmontar a legislação e os instrumentos estatais de controle para poderem devastar a seu talante.
Sem sombra de dúvida, o maior freio possível no uso dos agrotóxicos é o financeiro, na forma da diminuição paulatina até a eliminação dos subsídios existentes. O STF tem nas mãos a possiblidade de colocar limites nesta fúria devastadora, já que o governo Lula ou bem resolveu se aliar com o agronegócio, na ilusão de amansar a besta ou bem capitulou frente a bancada ruralista por total falta de poder de fogo.
Resta saber se os votos restantes no STF (em seções anteriores suas excelências já votaram a favor do agronegócio por 6×2) vão equilibrar o resultado e estimular algum dos anteriores a se penitenciar e rever sua posição, talvez pensando no bem do Brasil, do seu povo e de sua fauna.
De Olho No Material Escolar tem entre seus líderes um ex-executivo da indústria de agrotóxicos, nega o impacto do desmatamento da Amazônia causado pela pecuária e vê até poemas de autores como Ferreira Gullar como conteúdos negativos sobre o agro
Por Hélen Freitas | Edição Paula Bianchi e Diego Junqueira para a Repórter Brasil
“O que as crianças e os adolescentes estão aprendendo que vai ser bom para o mundo do trabalho?”, perguntou Christian Lohbauer, vice-presidente da associação De Olho No Material Escolar, a uma plateia de políticos e empresários reunidos na capital paulista, no início de outubro. Ele discursava durante evento do Lide, grupo criado pelo ex-governador de São Paulo João Dória.
“Ela não pode aprender, todos os dias, em todos os materiais, há 30 anos, que tem trabalho escravo na cana-de-açúcar. Ela não pode aprender que o alimento brasileiro está envenenado com agrotóxicos. Ela não pode aprender que a pecuária é responsável pela destruição da Amazônia, porque não é verdade”, o próprio Lohbauer respondeu.
Cientista político e um dos fundadores do Partido Novo, ele lidera uma organização que se apresenta como um grupo de pais e mães apartidários preocupados com o ensino dos filhos. Na prática, porém, trata-se de um movimento financiado por empresas do agronegócio com um objetivo: alterar materiais didáticos para retratar o setor de forma mais positiva.
Christian Lohbauer (à direita) e Letícia Jacintho se reuniram com o presidente do Senado Rodrigo Pacheco (ao centro) no início deste ano para falar do Plano Nacional da Educação. (Foto Reprodução/Redes Sociais)
Com apenas três anos, a De Olho No Material Escolar, conhecida como Donme, cresceu e vem ganhando espaço em instituições públicas. Já fechou parceria com a Universidade de São Paulo (USP), tem portas abertas nas secretarias de Educação e de Agricultura do estado e mantém diálogos com a cúpula do Congresso, em Brasília, na tentativa de influenciar o novo Plano Nacional de Educação (PNE) – que vai estabelecer as diretrizes da educação na próxima década.
Por trás desta atuação, porém, está o financiamento de dezenas de empresários e corporações do agronegócio. A organização declara 70 empresas entre os membros, mas não diz quem são. Um estudo ainda inédito, de pesquisadoras da Faculdade de Educação da USP e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mostra que na lista estão grandes associações, como a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que representa companhias como a JBS, a Cargill, o Itaú BBA e a Cosan.
A associação também é financiada pela Croplife Brasil, representante das maiores fabricantes multinacionais de agrotóxicos e que era presidida por Christian Lohbauer até 2023, quando ele deixou o cargo para assumir como vice-presidente da Donme.
“Somos uma entidade que busca a atualização do material escolar com base em conteúdo científico, equilibrado e que gere perspectivas positivas para os estudantes”, afirma a Donme em seu site.
Em conjunto com a USP, por exemplo, a organização criou a “Agroteca”, uma biblioteca virtual com publicações sobre o agronegócio. Nela, é possível encontrar conteúdos que negam que o Brasil seja o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, tema frequente nas falas da Donme.
No entanto, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o Brasil lidera com folga o ranking de consumo de pesticidas, quando considerados os dez países com as maiores áreas de lavoura no mundo. A média aqui é de mais de 12 kg aplicados por hectare. Na sequência estão Indonésia (6,5 kg/ha), Argentina (5,9 kg/ha) e Estados Unidos (3 kg/ha).
Negar a responsabilidade da pecuária pelo desmatamento na Amazônia e a existência de trabalho escravo na cana-de-açúcar também fazem parte desta estratégia – ainda que diversos estudos apontem a criação de gado como o principal vetor da destruição na Amazônia, e mesmo que a cana seja um dos setoresque mais empregam mão-de-obra escrava, com 1.105 trabalhadores resgatados nos últimos quatro anos.
Especialistas em educação pública ouvidos pela Repórter Brasil classificam a organização como uma versão atualizada do “Escola Sem Partido”, que há uma década passou a fiscalizar o material didático e promover perseguições a professores para impedir uma suposta “doutrinação ideológica” nas escolas.
Para o professor da pós-graduação em Educação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Rodrigo Lamosa, que pesquisa políticas públicas de educação, o posicionamento da organização é, muitas vezes, “absolutamente ideológico e nada científico”.
“Os livros didáticos são produzidos por autores diversos, são avaliados no interior das editoras e depois no Programa Nacional do Livro Didático, que é um dos maiores programas de distribuição de livros públicos e gratuitos do mundo”, afirma Lamosa. “Então, por mais que a gente possa ter divergências e críticas a alguns livros, isso é parte do processo que constitui a diversidade do campo educacional”, complementa
Um dos objetivos do movimento é ir contra essa diversidade para impor uma visão única, opina o professor da Faculdade de Educação da USP Daniel Cara. “O agronegócio considera que a educação é uma esfera importante para disputa da hegemonia das ideias na sociedade, para disputa da formação de opinião pública”, afirma ele, que é membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE).
Lobby da associação mira plano nacional de educação
Inicialmente batizada de “Mães do Agro”, a Donme foi fundada em 2021 pela pecuarista Letícia Jacintho, atual presidente da associação.
Ela faz parte de uma família influente no agronegócio, comempresas e fazendasem São Paulo e Goiás, nos ramos de pecuária, cana-de-açúcar e soja. Letícia é considerada uma das mulheres mais poderosas do agro pela revista Forbes, juntamente com a sua sogra, Helen Jacintho. Também fundadora da Donme, Helen é membro do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Em três anos, a organização conquistou associados em 17 estados e 129 cidades. Entre suas ações, a entidade realiza palestras, treinamentos e análise de materiais escolares. Organiza reuniões com editoras de livros didáticos, além de excursões afeiras do agronegócio para alunos, professores e profissionais das editoras. Atua também no lobby em Brasília.
Apenas neste ano, a organização já se reuniu pelo menos duas vezes com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), para debater o Plano Nacional de Educação (PNE). O documento deve ser votado em 2025, com validade para os próximos dez anos.
Odocumento de referência do plano, divulgado em dezembro, foi alvo de críticas da De Olho No Material. A associação diz que a proposta é pouco plural, carece de “base técnico-científica na abordagem do conteúdo” e apresenta “postura refratária à iniciativa privada”.
Desde então, a Donme realizou diversas investidas em Brasília. Além dos encontros com Pacheco e Lira, reuniu-se com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), presidente da Comissão de Educação da Câmara. Em março, o deputado apresentou os resultados de um estudo da Donme, que avaliou as menções ao agro no material escolar, durante uma reunião da Frente Parlamentar Agropecuária.
O deputado corroborou a visão da associação de que os livros didáticos supostamente trazem uma visão distorcida do agro, e prometeu pautar a Comissão de Educação. “Afinal de contas, o agro é que sustenta, e é locomotiva deste país”, justificou.
Já em abril, quando o Senado realizou uma sessão temática para debater o PNE, a Donme indicou vários nomes para discursar. A sessão foi solicitada pela senadora Damares Alvares (Republicanos-DF) a pedido da associação, segundo apurou a Repórter Brasil.
O PNE, porém, só deve avançar quando for analisado o requerimento do deputado federal Rafael Brito (MDB-AL) e de outros 13 parlamentares, para que seja criada uma comissão mista de análise do plano, composta por deputados e senadores. Desde julho o pedido está parado na Câmara.
Em encontros com os presidentes da Câmara Arthur Lira e do Senado Rodrigo Pacheco, a De Olho no Material Escolar apresenta suas propostas para o Plano Nacional da Educação (Fotos: Reprodução Redes Sociais)
Para a coordenadora da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Andressa Pellanda, a Donme está atuando junto com a bancada ruralista em torno do novo PNE, e pode impedir avanços em temas como as mudanças climáticas.
Procurada, a De Olho No Material Escolar disse em nota que trabalha para a melhoria da qualidade do conteúdo didático sobre o agronegócio oferecido às escolas, independentemente do tema. “Nosso principal ponto é que a ciência esteja presente nos livros didáticos com dados e informações técnicas e reais, por isso a parceria com institutos de pesquisas e instituições de ensino especializadas no setor”. Leia a resposta completa.
Movimento influencia escolas particulares
Embora já tenha alcançado a cúpula do Congresso, o movimento teve início com uma simples carta enviada a uma escola particular de Barretos, interior de São Paulo.
Letícia Jacintho e outros paisescreveram para um colégio na cidade que utilizava o material didático do sistema Anglo, para criticar como temas como desmatamento e povos indígenas eram abordados. Segundo a carta, “as crianças são incentivadas a manifestar piedade aos índios e repudiar a cultura da cana-de-açúcar [por retirar as terras dos indígenas]”.
Página enviada pelo grupo de pais questionando a abordagem do livro didático. (Foto: Reprodução)
O protesto viralizou quando o agrônomo e político Xico Graziano, ex-secretário de Meio Ambiente no governo de José Serra e voz influente no agro, divulgou a história. “Tem coisa errada [nos livros], tem coisa doutrinária, esquerda, esquerdismo”, disse Graziano.
Na carta ao Anglo, os pais afirmavam que a realidade do campo é “totalmente” diversa da retratada nos livros. “A cana-de-açúcar é responsável por uma parcela importantíssima de nossos empregos e renda”, escreveram.
Após o episódio, Letícia decidiu realizar um estudo sobre materiais didáticos, mas faltava o financiamento. Foi quando entrou em cena a Croplife Brasil, associação das fabricantes de agrotóxicos, que era então presidida por Christian Lohbauer.
“A gente [Croplife] foi um dos principais financiadores do estudo, junto com todo um pessoal que eu ajudei a angariar das associações do agro. A pecuária, os exportadores de carne, os exportadores de frango e suínos, açúcar e etanol, que são setores muito afetados [pelos livros escolares]”, lembrou Lohbauer em uma entrevista recente.
Em janeiro de 2023, Lohbauer deixou a presidência da Croplife para embarcar na Donme. Chamado de “professor”, o executivo passou boa parte da carreira em empresas, como a Bayer, e associações ligadas ao agronegócio, como a Abag. Ainda foi candidato a vice-presidente do Brasil pelo partido Novo em 2018.
Ele também é comentarista da Brasil Paralelo, produtora conhecida pela veiculação de conteúdo audiovisual de extrema-direita, em um programa ao lado do deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP).
O estudofinanciado pela Croplife – o mesmo apresentado pelo deputado Nikolas Ferreira à FPA – identificou que a maior parte das menções ao agro em 94 livros didáticos tinham tom negativo. Um dos exemplos apresentados é um poema de 1991 de Ferreira Gullar, que trata das condições precárias dos trabalhadores de cana-de-açúcar. Os resultados da pesquisa são utilizados pela associação em palestras, entrevistas e no lobby.
“Homens que não sabem ler e morrem de fome/ aos viente e seta anos/ plantaram e colheram a cana /que viraria açúcar”, diz poema de Ferreira Gullar, apontado pelo movimento como exemplo negativo (Foto: Reprodução/Estudo Donme)
O discurso da Donme sensibilizou ao menos um representante do sistema Anglo, Mario Ghio, ex-presidente e atual conselheiro da Somos Educação, dona das marcas Anglo, Mackenzie, Ática e Saraiva. Ele se lembrou da carta de Letícia durante o evento do Lide neste mês.
“A gente se conheceu num momento duro, a Letícia veio me dar uma ‘paulada na cabeça’. Ela veio me criticar, e eu falei: ‘você tem razão’. Nós temos autores metropolitanos que viveram uma vida urbana e que acham que o mundo agropecuário é o Jeca Tatu do Monteiro Lobato ou é o destruidor da Amazônia, que eles leem em alguns meios de comunicação. A gente precisou reconhecer o problema, andar pra trás, educar todo mundo”, declarou.
Atualmente, aSomos Educação mantém parcerias com a Donme para a elaboração de vídeoaulas e treinamento para autores e editores. A reportagem não conseguiu confirmar se o material do sistema Anglo é alterado sob orientação da Donme.
Questionada, a Somos Educação declarou que “todo o material didático é atualizado anualmente, seguindo as orientações curriculares do Ministério da Educação (Base Nacional Comum Curricular e Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental), com todo o rigor técnico-pedagógico”. “A Somos Educação se pauta pela pluralidade de ideias e busca manter seus materiais em constante atualização”, finalizou.
Parceria com a USP e aproximação do governo de SP
Não foi apenas o Anglo que abriu as portas para a De Olho No Material. Em Piracicaba (SP), a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, decidiu colocar sua produção acadêmica à disposição da associação em um projeto de divulgação científica.
Assim nasceu em 2022 a “Agroteca”, uma biblioteca virtual com conteúdo do agronegócio. No repositório, porém, não há menções a fatos como a responsabilidade do agronegócio por queimadas ou desmatamento.
Procurada, a Esalq não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.
O governo paulista também abriu as portas para a Donme. “O primeiro estado que passou a adaptar os seus materiais próprios, os escritos, até por orientação do [ex-governador João] Dória, foi o estado de São Paulo junto com o movimento De Olho No Material, justamente porque a gente concorda que não dá para demonizar aquilo que nos sustenta”,declarou no evento do Lide o ex-secretário de educação do estado, Rossieli Soares. Ele já foi secretário de Educação do Amazonas, ministro da Educação do governo Michel Temer e é o atual chefe da pasta no Pará.
A Repórter Brasil questionou a secretaria de educação paulista sobre mudanças no material didático e parcerias envolvendo a Donme, mas não houve retorno. Já a Donme declarou que não tem qualquer acordo com o governo de São Paulo, apesar de a sua presidentejá ter dito em entrevistarecente que está negociando com a pasta um treinamento para professores, que se chamará “Mestres do Agro”.
A Secretaria de Agricultura do estado também recebeu a Donme este ano, emreunião em fevereiro sobre materiais escolares. “Precisamos promover conteúdos com embasamento científico e vivência real para os jovens brasileiros”, afirmou após o encontro o secretário da agricultura Guilherme Piai, que também vem de uma família de produtores rurais.
Em setembro, a secretaria anunciou a criação do programa Agro Jovem, “que prevê políticas públicas para integrar as novas gerações ao campo”, iniciativa celebrada pela De Olho No Material.
Para Lamosa, a Donme utiliza-se de uma estratégia ideológica de disputa de espaço ao criar campanhas afirmando que os livros didáticos e a escola estão de costas para o agronegócio. “É uma falácia dizer que o agro não está dentro da escola. Todas as pesquisas sobre ações que eles vêm produzindo [dentro e fora da escola] mostram que eles estão lá. A questão é que eles querem o monopólio da escola”, finaliza.
As mulheres e as meninas são a parcela da população mais vulnerável aos efeitos de substâncias tóxicas que vêm da indústria, da produção extrativista e da agricultura. E esses efeitos podem durar várias gerações.
São questões como aborto espontâneo, câncer, problemas no sistema endócrino, puberdade precoce. O alerta é do relator especial da ONU sobre substâncias tóxicas e direitos humanos, Marcos Orellana.
São diversos os produtos químicos que podem trazer essas desordens. Quando se fala de Brasil, a preocupação de especialistas é, também, com os agrotóxicos. Segundo o advogado Emiliano Maldonado, somos um dos países que mais usam essas substâncias no mundo.
“Infelizmente, o Brasil é campeão mundial de agrotóxicos. Dados apontam que consumimos mais de 720 mil toneladas dessas substâncias”.
Dentre os alimentos, alguns campeões: morango, arroz, pimentão e cenoura, por exemplo. Carolina Panis, pesquisadora na área de micropoluentes, agrotóxicos fala sobre os efeitos que essas substâncias podem ter no nosso organismo.
“Quando o agrotóxico consegue entrar no nosso corpo e simular o hormônio que produzimos naturalmente, ele tá causando um super estímulo desses receptores, no momento em que eles não deveriam estar trabalhando. Então isso vai ter, sim um impacto na criança. E na mulher adulta, isso tem uma consequência muito séria, que é a ligação direta com o desenvolvimento de câncer”.
E não são só os consumidores que estão submetidos a riscos. Carolina Panis chama a atenção para outra parte da população: as mulheres que trabalham na agricultura.
“A partir do momento em que elas são agricultoras ou manipulam EPI, utensílio ou roupa contaminada com agrotóxico, ele entra pela pele, porque elas não usam nenhum tipo de proteção. E a gente estima que essas mulheres têm risco aumentando de ter câncer de mama de mais de 50%, se comparar com mulheres ocupadas com atividades urbanas”.
E qual a solução? O caminho quem aponta é o advogado Emiliano Maldonado. Um deles é o uso de bioinsumos, um processo feito a partir de microrganismos.
“São possibilidades que o conhecimento científico e o uso de outros mecanismos têm apontado no sentido que a gente não perderia a nossa produtividade agrícola, e estaria protegendo a saúde dos consumidores e consumidoras brasileiras”.
O assunto foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). No próximo dia 5, uma audiência pública vai debater a questão econômica dos agrotóxicos, da desoneração de IPI e ICMS para essas substâncias. Mas o relator, ministro Edson Fachin, entende que o assunto ultrapassa os limites jurídicos e envolve política agrícola, meio ambiente e saúde.
Quase 80% das amostras de ar coletadas no ano passado nas quatro comunidades com maior uso intensivo de agricultura da Califórnia continham resíduos de agrotóxicos, embora as concentrações fossem “improváveis de serem prejudiciais à saúde humana”, de acordo com um relatório regulatório estadual divulgado recentemente.
O Departamento de Regulamentação de Agrotóxicos da Califórnia (CDPR) coletou 207 amostras de ar em estações em Oxnard, Santa Maria, Shafter e Watsonville uma vez por semana ao longo de 2023, encontrando pelo menos um dos 40 agrotóxicos testados em 163 das amostras, de acordo com os resultados .
As estações de monitoramento detectaram um total de 19 agrotóxicos diferentes nas amostras de ar, incluindo o herbicida pendimetalina e o fumigante 1,3-dicloroproneno (Telone), ambos associados ao câncer.
Esses produtos químicos e outros detectados pelo CDPR também foram associados a náuseas, falta de ar e irritação ocular e respiratória.
Apesar de ser proibido em 34 países, o Telone é o terceiro agrotóxico mais usado na Califórnia, e o CDPR foi criticado por não implementar regulamentações que protegessem adequadamente os trabalhadores rurais, em sua maioria latinos, do produto químico.
Todas as amostras foram coletadas nas dependências da escola, o que gerou preocupações entre defensores do meio ambiente e da saúde sobre riscos à segurança de crianças e outros membros vulneráveis da comunidade.
“Os últimos resultados de amostragem de ar continuam a mostrar que os agrotóxicos pulverizados nos campos se afastam do local e contaminam o ar próximo, uma preocupação séria para aqueles que vivem, estudam ou trabalham perto de campos agrícolas”, disse Alexis Temkin, toxicologista sênior do Environmental Working Group (EWG), em um comunicado à imprensa.
“Alguns agrotóxicos podem se espalhar por vários quilômetros dos campos, colocando muitas pessoas em risco, incluindo trabalhadores rurais e populações vulneráveis, como crianças pequenas, grávidas e idosos”, disse Temkin.
Nenhum dos agrotóxicos nas amostras de ar de 2023 foi detectado em concentrações iguais ou superiores aos níveis que o CDPR considera ameaçadores à saúde pública, disse o CDPR.
As “detecções de agrotóxicos abaixo das metas de proteção à saúde não indicam riscos para pessoas que vivem, trabalham ou vão à escola perto de campos agrícolas”, disse a agência estadual.
Apesar de detectar a presença de agrotóxicos na maioria das amostras, a agência emitiu um comunicado à imprensa no início deste mês afirmando que “95% de todas as análises de amostras não apresentaram agrotóxicos detectáveis”.
A maneira como a agência divulgou publicamente seus dados deturpou as descobertas e pareceu intencionalmente enganosa, disseram os críticos.
“Esta é uma desinformação deliberada com a intenção de enganar o público”, disse Jane Sellen, codiretora da Californians for Pesticide Reform. “É muito a serviço da indústria.”
Como um grande centro agrícola, a Califórnia aplica mais agrotóxicos do que qualquer outro estado dos EUA . Um estudode 2022 publicado no periódico Science of the Total Environment descobriu que uma média de 5,7 milhões de libras de agrotóxicos por ano foram pulverizadas somente no Condado de Ventura, Califórnia, de 2016 a 2018, incluindo mais de 60 produtos com ligações conhecidas ao câncer. As seções de municípios dentro do Condado de Ventura onde pessoas de cor constituem a maioria da população tiveram tanto o maior uso de agrotóxicos quanto o uso de produtoss mais tóxicos, descobriu o estudo.
Mas mesmo os moradores das cidades podem não conseguir evitar a exposição a agrotóxicos, de acordo com descobertas publicadas no início deste mês.
Umestudopublicado no periódico Environment International encontrou glifosato, o herbicida mais usado no mundo e o principal ingrediente do herbicida Roundup, em todas as 99 amostras de ar coletadas dentro de residências urbanas em Nova York e 15 outros estados do país, embora o produto químico não seja usado em ambientes fechados.
“Descobrimos a ocorrência onipresente de glifosato e AMPA [seu produto de degradação] na poeira interna de residências em áreas urbanas nos Estados Unidos”, escrevem os autores, observando que a presença generalizada do herbicida na poeira interna “pode ser explicada por sua ampla aplicação nos EUA”.
Após décadas de inação, na sexta-feira passada a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) divulgouum plano proposto para implementar seu Programa de Triagem de Disruptores Endócrinos (EDSP), o programa da EPA para avaliar como os agrotóxicos podem prejudicar os sistemas hormonais de humanos e animais selvagens.
O plano de implementação proposto é resultado de um acordo legal provisório entre a EPA e uma coalizão de trabalhadores rurais e organizações de saúde ambiental, incluindo o Center for Food Safety, a Alianza Nacional de Campesinas, a Organización en California de Líderes Campesinas, o Center for Environmental Health, a Pesticide Action Network of North America e a Rural Coalition, que contestaram a falha da agência em testar e regulamentar agrotóxiocos desreguladores endócrinos no tribunal em 2022.
O sistema endócrino, ou sistema hormonal, opera como um dos principais sistemas de controle do corpo, regulando quase todos os processos, do crescimento e desenvolvimento à fertilidade e função sexual. Os agrotóxicos podem perturbar o sistema hormonal aumentando a produção de alguns hormônios enquanto diminuem outros, e interferindo em sua sinalização. A perturbação pode prejudicar a fertilidade e a função imunológica, causar câncer e criar anormalidades metabólicas. Em 1996, o Congresso determinou que a EPA implementasse o EDSP para avaliar os potenciais efeitos de perturbação endócrina dos agrotóxicos. Quase 3 décadas depois, a EPA testou menos de 50 dos mais de 1.315 agrotóxicos registrados para efeitos de perturbação endócrina e concluiu apenas 34 desses testes.
“Muitos dos agrotóxicos abrangidos pelo acordo estão ligados a defeitos congênitos, danos reprodutivos significativos e certos tipos de câncer em pessoas, particularmente trabalhadores rurais que estão em contato direto com esses produtos químicos tóxicos”, disse Sylvia Wu, advogada do Center for Food Safety, consultora dos demandantes no caso. “Após décadas de inação, apesar desses danos terríveis, como resultado do nosso processo, a EPA agora está comprometida com medidas muito necessárias para proteger os trabalhadores rurais e o público dos danos potenciais de desregulação endócrina dos agrotóxicos.”
Em outubro de 2023, quase um ano após os demandantes processarem a EPA, a EPA propôs uma revisão do EDSP. O acordo legal proposto hoje se baseia nessa revisão inicial ao definir prazos nos quais a EPA implementará o EDSP e avaliará os efeitos de desregulação endócrina dos agrotóxicos. Sob os termos do acordo proposto, nos próximos cinco anos, a EPA coletará dados e avaliará os efeitos dos agrotóxicos desreguladores endócrinos, seja como parte da revisão de registro da agência de pesticidas registrados ou como parte de novas aprovações de agrotóxicos. Para maximizar a proteção do trabalhador rural e da saúde pública, o acordo proposto oferece oportunidades para a contribuição do trabalhador rural na priorização de certos agrotóxicos e exige que a EPA forneça atualizações públicas regulares sobre o status de sua avaliação em andamento. De acordo com o acordo, a EPA concluirá a avaliação de desregulação endócrina para 86 agrotóxicos nos próximos 10 anos.
“A Alianza Nacional de Campesinas aplaude o acordo da EPA para avançar o Programa de Triagem de Disruptores Endócrinos (EDSP). Como mulheres trabalhadoras rurais, os perigos representados por produtos químicos desreguladores endócrinos em agrotóxicos são uma realidade vivida que ameaça nossa saúde e o bem-estar de nossas famílias. Embora o compromisso da EPA em implementar triagens de agrotóxicos seja um passo vital à frente, mais trabalho é necessário para garantir que produtos químicos nocivos sejam removidos inteiramente de nossos campos e comunidades”, disse Mily Trevino-Sauceda, diretora executiva e cofundadora da Alianza Nacional de Campesinas, uma autora no caso.
Estudos recentes mostram que os disruptores endócrinos estão no sangue ou na urina de quase todas as pessoas, impactando a fertilidade e a função sexual, os sistemas metabólicos, o sono e a resposta imunológica das pessoas. Sem a implementação legalmente obrigatória do teste EDSP para efeitos endócrinos, os agrotóxicos que provavelmente estão interrompendo o sistema endócrino permanecem registrados, expondo trabalhadores rurais, paisagistas, consumidores e animais selvagens a danos. A EPA está fornecendo um período de comentários públicos de 30 dias sobre o acordo legal proposto.
Abelhas são vistas se alimentando do melado de moscas-brancas em árvores cítricas. Traços de neonicotinoides, uma família de agrotóxicos, apareceram no melado, uma importante fonte de alimento para outros insetos.
Por Douglas Main para o “The New Lede”
Uma nova pesquisa fornece evidências de que os produtos químicos usados na agricultura podem ser mais prejudiciais aos insetos do que se pensava anteriormente, contribuindo para o declínio mundial de espécies importantes.
Em um estudo abrangente e inédito publicado em 24 de outubro na revista Science , cientistas descobriram que concentrações extremamente pequenas e subletais de mais de 580 agrotóxicos, herbicidas, fungicidas e outros produtos químicos podem ter sérios impactos negativos no comportamento e na sobrevivência subsequente de certos insetos.
Os cientistas testaram alguns dos produtos químicos em larvas de moscas-das-frutas, mosquitos e borboletas.
Os resultados foram “muito chocantes”, disse o coautor do estudo Justin Crocker , pesquisador do Laboratório Europeu de Biologia Molecular em Heidelberg, Alemanha.
O estudo reforça a ideia de que os agrotóxicos desempenham um papel importante na queda populacional de insetos, um fenômeno que pode prejudicar gravemente a produção de alimentos, já que certos insetos são necessários para polinizar culturas alimentares importantes.
“Um pouco assustador”
No artigo, pesquisadores expuseram 75 larvas de moscas-das-frutas a três concentrações de 1.024 agroquímicos diferentes. O menor nível testado (2 micromoles) está bem dentro da faixa encontrada no mundo real; por exemplo, não é incomum encontrar essa concentração do herbicida glifosato em riachos perto de campos de cultivo.
Após apenas 16 horas de exposição, eles transferiram os insetos para frascos contendo alimentos sem produtos químicos e filmaram seu comportamento. Mais da metade dessas substâncias causaram mudanças perceptíveis no comportamento dos insetos em desenvolvimento.
Essas mudanças comportamentais incluíam mudanças na maneira como as larvas rastejavam, viravam ou movimentavam seus corpos. Mais de 380 agrotóxicos não inseticidas afetaram muitas dessas características, bem como uma tendência à “peregrinação anormal”, que está ligada a uma menor probabilidade de sobrevivência a longo prazo.
“Foi definitivamente um pouco assustador para nós”, disse Crocker, especialmente ao imaginar a escala massiva do que está acontecendo com os insetos no mundo real.
Os autores também testaram alguns dos produtos químicos em temperaturas ambientes mais altas e descobriram que os efeitos foram muito mais pronunciados.
Alguns desses produtos químicos não tiveram efeito sobre a aptidão em temperaturas mais baixas, mas quando o ambiente do estudo foi aquecido alguns graus, “ele se tornou letal absoluto”, disse Crocker. “Essas não são diferenças sutis.”
Esse resultado chamou a atenção de Charlie Outhwaite , pesquisador da Sociedade Zoológica de Londres que não estava envolvido no artigo.
“Dado o aquecimento climático que já ocorreu e que continuará a ocorrer, parece provável que os impactos reais das aplicações de agrotóxicos aumentem consideravelmente se mudanças não forem feitas”, disse ela.
Um estudo marcante
Vários outros pesquisadores externos ficaram surpresos com o artigo e o que ele significa para o chamado “apocalipse dos insetos”.
“Eu conduzi pesquisas sobre o impacto de toxinas em insetos nos últimos 48 anos e estou chocado com a gravidade dos efeitos que uma alta porcentagem dos 1.024 produtos químicos testados têm”, disse Philip Batterham , um toxicologista da Universidade de Melbourne que não estava envolvido no artigo. “Esta é uma publicação histórica.”
A maioria desses produtos químicos não são considerados inseticidas, mas têm atividade inseticida pronunciada, disse o pesquisador Francisco Sanchez-Bayo , que acrescentou que ficou “surpreso com o grande número de produtos químicos não inseticidas que têm efeitos sérios na reprodução”. O que é, claro, vital para a sobrevivência das populações animais.
Sanchez-Bayo foi coautora de um estudo de 2019 no periódico Biological Conservation que investigou as causas do declínio global de insetos, concluindo que a perda de habitat causada pela conversão de terras para agricultura intensiva foi uma causa primária, com os agrotóxicos também desempenhando um papel importante.
As populações e declínios de insetos variam muito de um lugar para outro, e algumas reservas naturais parecem ter experimentado pouca mudança nas últimas décadas. Mas uma queda geral é inconfundível, especialmente na Europa. Na Alemanha, por exemplo, pesquisas sugerem que a massa de insetos voadores diminuiu mais de 70% nas últimas décadas.
A longo prazo, Crocker e colegas querem criar uma nova plataforma para medir a toxicidade química. No passado, muitas substâncias foram julgadas com base em medidas muito mais contundentes, como a LD50 — a quantidade que mata 50% de qualquer população de animais.
“Os insetos estão claramente em declínio ao nosso redor, e esses [agrotóxicos] são claramente um fator determinante”, diz Crocker. “Se você está mudando o comportamento nesses sistemas, não deveria ser muito difícil dizer que isso está impactando as populações.”
Grandes empresas de combustíveis fósseis como Shell, Exxon, BP ou Total não são sua fonte confiável para obter conselhos sólidos sobre como impedir urgentemente que o clima mude cada vez mais rápido. Mas para deter a disseminação do câncer e de todos os tipos de doenças degenerativas, ajudar fazendeiros a saírem de seus pesadelos socioeconômicos coletivos, combater a fome ou como evitar um colapso ainda maior da biodiversidade , os formuladores de políticas acham completamente normal se envolver com poderosas empresas agroquímicas como Bayer e BASF.
No entanto, essas empresas produzem muitos produtos químicos que são ruins para a nossa saúde, para o meio ambiente e, cada vez mais, para a própria democracia, como mostra o novo relatórioBayer’s Toxic Trails, do Corporate Europe Observatory .
Seja sobre glifosato, organismos geneticamente modificados ou aquecimento global, mostramos como a empresa tenta capturar políticas públicas para perseguir seus interesses privados.
A Bayer tenta legitimar esse lobby caro sendo mais ou menos transparente sobre ele e chamando-o de “ advocacia política ”. Na verdade, é graças aos seus bolsos fundos e influência econômica que ela é capaz de mudar leis e regulamentos que devem servir ao interesse geral. A Bayer simplesmente quer manter o controle monopolista dos mercados de sementes e agrotóxicos, e luta contra os desafios regulatórios de seus produtos tóxicos, enquanto tenta limitar sua responsabilidade legal eexerce influência política .
Primeiro, há o elemento do poder de mercado global e a concentração cada vez maior, tornando-os uma parte essencial de um pequeno clube de Food Barons globais . Apenas quatro dessas multinacionais – Bayer, BASF, Corteva e Syngenta – controlam mais de 65%do comércio global de agrotóxicos e pelo menos metade do comércio mundial de sementes. Isso representa um mercado multibilionário de euros, co-controle sobre a produção mundial de alimentos e profunda influência política nas políticas agrícolas e ambientais.
Só para constar: a bem-sucedida campanha de lobby para derrubara estratégia do Prado ao Prato, uma parte crucial do Acordo Verde da União Europeia (UE), foi trabalho dessas empresas, suas consultorias e associações comerciais como a Croplife (com uma pequena ajuda deseus amigos políticos , é claro).
Vários estudos científicos independentes mostram que o glifosato pode ser cancerígeno. Como escreveu a Pesticide Action Network (PAN), “reaprovar o glifosato é uma violação da Lei de Pesticidas da UE que diz que a saúde e o meio ambiente devem vir em primeiro lugar”. Várias ONGs estão levando a Comissão Europeia ao tribunalsobre a decisão do glifosato.
A Bayer e seus amigos poderosos gostam de falar sobre “inovação” e ” políticas baseadas na ciência “, desde que consigam determinar o que é ciência correta e o que não é.
Em umacarta aberta de abril deste ano, a Bayer chama todas as descobertas independentes de cientistas sobre o glifosato, incluindo aquelas da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), de “ciência lixo”. É um lembrete da campanha ativa e cara da Monsanto parafabricar “indignação” contra a IARC sobre sua classificação de câncer.
A campanha de lobby intensiva que a Bayer encenou nos EUA é ultrajante de uma perspectiva democrática. A Bayer estáativamente fazendo lobby para mudar a lei dos EUA. De acordo com relatos da mídia, ela coescreveu algumas emendas, tanto em nível federal quanto estadual, para evitar mais litígios do RoundUp movidos por pacientes com câncer.
Como os rótulos dos produtos que contêm glifosato não alertaram suficientemente os usuários sobre seus perigos potenciais, a Bayer/Monsanto enfrenta nada menos que 170.000 processos até agora, dos quais 60.000 ainda estão pendentes. A empresa concordou em pagar mais de US$ 11 bilhões em acordos e foi condenada a pagar grandes somas adicionais pelos júris.
Uma nova investigação da mídia global acaba de revelar que “os contribuintes dos EUA financiaram uma campanha secreta para minimizar os riscos dos agrotóxicos e desacreditar ambientalistas na África, Europa e América do Norte”. O The New Lede e outros veículos revelaram como uma empresa do Missouri fundada por um ex-executivo da Monsanto ajudou a tentar conter os críticos dos pesticidas e outros, incluindo cientistas ambientais ou ativistas da sustentabilidade.
Todo esse tipo de batalha jurídica e operações de lobby custam muito dinheiro, o que seus acionistas não apreciam.
Nos últimos dois anos, a Bayer se tornou um dos maiores gastadores de lobby na UE e no mundo.
De acordo com o registro de lobby da UE, a Bayer AG gastou entre € 7 milhões e € 8 milhões em 2023 em lobby para influenciar decisões da União Europeia.
Para o ano de 2022, a empresa autodeclarou ter gasto € 6,5 milhões em lobby na UE, € 2,5 milhões na Alemanha e € 4 milhões em taxas para associações comerciais e de lobby baseadas na UE, como a Croplife Europe. Isso faz com que o orçamento total estimado para lobby na UE seja bem acima de € 10 milhões.
Para o ano de 2022, a Bayer declarou gastar € 49 milhões em lobby no mundo todo, além de € 26 milhões extras em taxas de associações comerciais, o que totaliza impressionantes € 75 milhões (embora a empresa não indique claramente as taxas como custos de lobby, o que é exigido pelo Registro de Transparência da UE).
A Bayer fabrica produtos que são ruins para nossa saúde e ecossistemas e, ao defender agressivamente seus interesses comerciais, também está prejudicando a democracia. Não deve ser permitido que continue seu negócio destrutivo, na UE ou em outro lugar. É hora de uma política livre de tóxicos.
Hans van Sharen é pesquisador e ativista do Corporate Europe Observatory, especializado em agronegócio e alimentos, pesticidas, OGM e lobby na União Europeia.
( As colunas de opinião publicadas no The New Lede representam as opiniões dos indivíduos que as escrevem e não necessariamente as perspectivas dos editores da TNL .)
A Repórter Brasil teve acesso aos “Monsanto Papers”, série de documentos internos da empresa comprada em 2016 pela multinacional alemã Bayer; Mensagens revelam estratégia de encontrar cientistas aliados para a defesa do glifosato, agrotóxico mais vendido no Brasil
Por Carla Ruas e Sílvia Lisboa, edição de Paula Bianchi, para a Repórter Brasil
Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) classificou o agrotóxico glifosato como “provável cancerígeno”. Menos de cinco anos depois, no entanto, o Brasil rebaixou o grau de toxicidade do pesticida banido em países como Áustria e Alemanha. Por aqui, o glifosato segue campeão de vendas.
O lobby por trás dessa decisão, contrária à da agência ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), só agora começa a ser revelado, com a análise pela Repórter Brasildos chamados “Monsanto Papers”, originalmente divulgados em 2019. Até hoje, os documentos que mostram os bastidores da atuação no Brasil da principal fabricante do glifosato não haviam sido investigados.
E-mails internos da Monsanto, comprada pela multinacional alemã Bayer em 2016, mostram que a companhia fez uma lista de cientistas brasileiros que poderiam atuar contra eventuais restrições ao herbicida. Tratava-se de uma estratégia comum, segundo documentos da empresa.
Em mensagens de 2012 e 2013, o então gerente de toxicologia da Monsanto, David Saltmiras, menciona quatro nomes de confiança no país: o médico Flávio Zambrone, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a toxicologista Silvia Berlanga Moraes de Barros, da Universidade de São Paulo (USP), o patologista João Lauro Viana de Camargo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e o agrônomo Edivaldo Domingues Velini, também da Unesp e presidente entre 2014 e 2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), do governo federal.
Em e-mail, o então gerente de toxicologia da Monsanto, David Saltmiras, menciona cientistas brasileiros convidados para evento da empresa (Reprodução: Monsanto Papers)
Os Monsanto Papers vieram a público em 2019, durante uma leva de processos judiciais contra o glifosato nos Estados Unidos, e foram fundamentais para condenações que já somam US$ 11 bilhões (R$ 60 bilhões). Hámilhares de açõesna Justiça norte-americana em que agricultores afirmam ter contraído câncer devido ao uso do herbicida da empresa.
Os documentos vazados não trazem os posicionamentos dos cientistas brasileiros. Mas indicam como a empresa buscava a participação deles em audiências públicas e congressos acadêmicos, além de sugerir até mesmo edições em artigos científicos.
Procurada, a Bayer não retornou até a publicação desta reportagem.
Diretor da Monsanto sugeriu edições em artigo científico de brasileiro
Citado nos Monsanto Papers, o médico João Lauro Viana de Camargo é professor aposentado de Patologia da Unesp. Em 2015, enquanto o uso do glifosato estava sob reavaliação no Brasil, a Monsanto foi surpreendida pela decisão da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) de classificar o glifosato como um “provável cancerígeno para humanos”. O anúncio levou a empresa a montar uma estratégia global de redução de danos.
O plano incluía montar um grupo de especialistas, incluindo Camargo, para realizar estudos refutando as afirmações da Iarc. Em um documento de planejamento, a empresa diz que seu objetivo era “proteger a reputação e a liberdade de operação do Roundup (nome comercial do agrotóxico da empresa), comunicando a segurança do glifosato”. A estratégia também falava em “fornecer cobertura para que as agências reguladoras continuem a tomar decisões de recadastramento com base na ciência.”
Em trecho de documento de planejamento, empresa fala em “proteger a reputação e a liberdade de operação do Roundup [produto da Bayer], comunicando a segurança do glifosato” (Foto: Reprodução/Monsanto Papers)
A ofensiva da Monsanto resultou em uma série de artigos científicos publicados no periódico Critical Reviews of Toxicology. Dois deles foram assinados por Camargo, em conjunto com outros cientistas. Apesar de a empresa negar qualquer envolvimento nas pesquisas, ofícios internos mostram que a Monsanto teria participado ativamente da produção dos artigos, da redação de manuscritos à edição final por parte de executivos da empresa.
Em um email interno, o Diretor de Estratégia de Avaliação de Segurança de Produtos, William Haydens, admite que analisou um dos artigos coescritos por Camargo e indicou “o que acho que deveria ficar, o que pode ir, e em alguns pontos eu fiz uma pequena edição.”
Em e-mail, executivo da Monsanto sugere modificações em artigo que teve o professor Camargo como um dos autores. A referência ao artigo consta da troca de mensagens (Reprodução: Monsanto Papers)
A Monsanto pagou US$ 350 mil (R$ 1,9 milhão) para uma consultoria científica contratar os especialistas e coordenar o trabalho. Em memorando de comunicação interno analisado pela reportagem, a Monsanto admite que muitos, incluindo Camargo, já haviam trabalhado como consultores pagos pela empresa. Apesar do esforço, a Iarc manteve a classificação do glifosato como potencialmente cancerígeno.
A decisão repercutiu na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que desde 2008 estava reavaliando o glifosato. Em 2016, a agência contratou um parecerista técnico externo pelo valor de R$ 10 mil. Quem ganhou o edital foi a pesquisadora Marize Solano, orientanda de mestrado e doutorado de Camargo, na Unesp. No laudo, Solano discorda da Iarc e diz considerar “pouco provável” que o glifosato seja cancerígeno.
Em nota, a Anvisa afirmou que a contratada cumpriu exigências profissionais e de formação acadêmica, mas não respondeu se tinha conhecimento do vínculo com Camargo. Procurada, Solano não aceitou dar entrevista. Camargo também não respondeu a perguntas sobre sua relação com a Monsanto.
O parecer foi decisivo para a decisão final da Anvisa sobre o glifosato, finalmente anunciada em 2019. Embora tenha aprovado mudanças nas recomendações sobre o uso do produto, a agência não proibiu o glifosato no Brasil e abrandou seu grau de toxicidade. Hoje, o princípio ativo considerado um provável cancerígeno pela agência da OMS é classificado no Brasil como pouco tóxico para humanos.
Médico representou a Monsanto em audiências sobre o glifosato
Já o médico Flávio Zambrone é um velho conhecido da Monsanto. O toxicologista e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) fundou a consultoria privada Planitox nos anos 1990, que ainda hoje presta serviço para fabricantes de insumos agrícolas. Ele representou a Monsanto e outras 38 empresas de agrotóxicos durante a reavaliação do glifosato pela Anvisa.
“As empresas se unem e contratam um toxicologista de confiança para que organize os seus dados e suas informações”, afirmou Zambrone em uma audiência pública sobre o processono Congresso Nacional, em 2019. “Essas informações são fornecidas para a Anvisa usar nas suas avaliações e tomar decisões”, explicou sobre o seu papel.
O médico também defendeu a indústria nas reavaliações de outros dois agrotóxicos: o 2,4 D – usado no cultivo da soja e milho – e o clorotalonil, fungicida utilizado em diferentes plantações, como batata e trigo.
Enquanto a Anvisa avaliava o glifosato, Zambrone fundou outras duas organizações para respaldar o uso de agrotóxicos no país: o Instituto Brasileiro de Toxicologia (IBTox), responsável por treinamentos para produtores rurais e profissionais de toxicologia, e o Grupo de Informações e Pesquisas sobre Glifosato (Gipeg), criado para defender o glifosato, principalmente na imprensa.
Em todas essas organizações, o médico contou com o apoio da filha, Maria Vitória Zambrone, especialista em comunicação corporativa e sócia do pai na Planitox. Maria Vitória também criou o serviço de checagem de notícias “Drops”, utilizado pelo portal do médico e comunicador Drauzio Varella, e encerrado em 2020.
Em uma das checagens, o Drops afirmou ser “insustentável” a notícia de que o glifosato tem relação com autismo, sem expor aos leitores a associação direta de sua fundadora com a indústria de agrotóxicos.
Procurado pela reportagem, o Portal Drauzio afirmou, em nota, desconhecer qualquer envolvimento de Maria Vitória Zambrone com as empresas de seu pai. O texto afirma que, “visto a situação atual, que chegou ao nosso conhecimento através desta reportagem, iremos retirar o conteúdo citado do ar”.
O agrônomo e ex-gerente de toxicologia da Anvisa, Luiz Claudio Meirelles, lembra que Flávio Zambrone estava sempre na agência defendendo o lado das empresas. “Ele (Zambrone) usa do prestígio de uma universidade pública para defender interesses privados. Esse viés é inaceitável, na minha opinião”, diz Meirelles, atualmente pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. “Universidade pública deve servir ao bem comum, ao interesse de todos”, complementa.
Procurados, Flávio e Maria Vitória Zambrone não responderam aos questionamentos da Repórter Brasil.
O médico já precisou dar explicações sobre outros possíveis conflitos de interesses em sua atuação. Em 2009, o Ministério Público do Trabalho (MPT) questionou a conduta do toxicologista diante do vazamento de uma fábrica de agrotóxicos da Shell e da Basf em Paulínia, interior de São Paulo.
O então pesquisador da Unicamp foi chamado para aferir os níveis de contaminação da população local, como parte de um convênio entre a universidade e a indústria. Mas, na época, Zambrone também prestava serviços de consultoria em toxicologia para a Shell e grandes empresas fabricantes de agrotóxicos, por meio da Planitox.
No documento, a procuradora Márcia Kamei Lopes Aliaga afirmaque atuação nas duas frentes “deixa entrever que o interesse público e o privado se mesclam, não havendo clara distinção, no caso, sobre tais conceitos”. A procuradora explica que a prestação de serviço de consultoria privada por um professor de universidade pública pode “comprometer a produção científica, tais questões podem ferir princípios éticos e legais da Administração Pública.”
Na época, moradores da região e ex-funcionários da fábrica acusaram o médico de favorecer a Shell, ao produzir laudos técnicos dizendo que não havia indícios de contaminação humana. Outra análise realizada pela prefeitura detectou substâncias intoxicantes em 86% das amostras de sangue analisadas.
‘A guardiã da toxicologia’ e o defensor dos transgênicos
Os outros dois cientistas citados nos Monsanto Papers são a toxicologista Silvia Berlanga de Moraes Barros, professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP), e o agrônomo Edivaldo Domingues Velini, professor da Unesp – Campus Botucatu.
Berlanga foi presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox) nos anos 1990 e continua influente na entidade, que hoje tem a Bayer como “sócia institucional”.
A aproximação da entidade com a fabricante do glifosato teria ocorrido em 2015, no mesmo ano em que a Iarc classificou o glifosato como provável cancerígeno.
Naquele ano, a SBTox chamou a associação que então representava a indústria de agrotóxicos no Brasil, a Andef, para organizar a “agenda científica” do seu congresso anual. Executivos da Bayer, Basf, Syngenta e Dow Agroscience foram palestrantes do evento científico. O episódio gerou umaonda de desfiliações e notas de repúdio entre toxicologistas.
A Repórter Brasil questionou a SBTox sobre a parceria com a Bayer, mas não obteve retorno. Berlanga também foi perguntada sobre sua relação com a multinacional e sobre as críticas de seus pares quanto à proximidade com fabricantes de agrotóxicos. A cientista se negou a dar entrevistas e disse “não ter gostado das afirmações” a seu respeito.
Já o agrônomo Edivaldo Velini é um dos principais defensores do uso de sementes transgênicas no país, outro filão de mercado da Bayer. Essas plantas são mais resistentes ao uso de agrotóxicos econsomem mais dessas substâncias.
Velini foi presidente entre 2014 e 2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação responsável pela avaliação e aprovação de sementes transgênicas.
A nomeação de Velini para o cargo geroumanifestações de repúdiode organizações ambientalistas por causa de declarações favoráveis ao glifosato. Em entrevista ao site institucional da Monsanto em 2011, o professor afirmou que “ainda não há um herbicida que possa ser comparado ao glifosato em termos de segurança de uso e benefícios para o agricultor”.
A primeira semente transgênica comercializada no país foi a Soja Roundup Ready, da então Monsanto, no final da década de 1990. O grão foi desenvolvido para gerar maior produtividade com a aplicação do glifosato da companhia e chegou a ter sua venda proibida pela Justiça federal.
Em março de 2005, com a promulgação daLei de Biossegurança, a CTNBio se tornou responsável por solicitar ou dispensar estudos e relatórios de impacto ambiental para transgênicos. Até então, o Ministério do Meio Ambiente era o responsável por exigir a apresentação desses estudos. Até hoje, no entanto, a Monsanto nunca teve de apresentar os estudos das sementes transgênicas resistentes ao glifosato.
À Repórter Brasil, o professor da Unesp disse que produzir e difundir informações sobre os métodos de controle de ervas daninhas fazem parte das suas atribuições. “Esta é uma atividade que realizo em rotina e que não pode ser reduzida ao termo ‘apoiar agrotóxicos’”, disse.