Deserto Verde e a rearticulação dos defensores da monocultura do eucalipto no território fluminense

Monocultura de eucalipto em expansão na região de Morro do Coco, norte do município de Campos dos Goytacazes 

Por Rede Alerta contra Desertos Verdes (RADV)

A retomada do debate em torno da monocultura do eucalipto no estado do Rio de Janeiro, capitaneada por grupos empresariais, setores do governo Claudio Castro (PL) e representantes de órgãos federais, exige uma reflexão crítica sobre os rumos da política agrária fluminense e seus possíveis impactos socioambientais.

O Fórum Florestal Fluminense (FFF), criado em 2008, vem se consolidando como um espaço estratégico de articulação entre representantes do setor industrial, governo do estado, de associações de classe e de órgãos de pesquisa federais e estaduais. Sua atuação recente, entretanto, revela a retomada de antigos projetos de expansão da monocultura do eucalipto — propostas já questionadas e barradas no passado pela sociedade civil organizada, em defesa dos interesses ambientais e territoriais da população fluminense.

É importante destacar que o Fórum Florestal Fluminense, surgiu a partir de uma parceria entre a Associação Profissional dos Engenheiros Florestais do Rio de Janeiro (APEFERJ), o Instituto BioAtlântica (IBio), a então empresa Aracruz Celulose (atual Suzano) e federações empresariais como a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN). Dentre os objetivos principais do Fórum Florestal Fluminense, podemos citar: discutir normas de licenciamento ambiental, fomentar políticas de incentivo à silvicultura industrial e a ampliação da cadeia produtiva florestal no estado. Desde sua origem, o Fórum defende a criação de mecanismos que facilitem a entrada, no território fluminense, de grandes empresas do setor de papel e celulose — especialmente a Suzano, já consolidada nos estados vizinhos do Espírito Santo e de São Paulo. 

Entre 2008 e 2016, o Fórum Florestal Fluminense promoveu diversos encontros em municípios como Campos dos Goytacazes, Nova Friburgo, Macaé e Rio Claro. Após um período de inatividade, o Fórum Florestal Fluminense retomou suas ações em outubro de 2021 e intensificou sua atuação em agosto de 2022, quando promoveu um evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Na ocasião, apresentou propostas para o “desenvolvimento florestal” no estado do Rio de Janeiro a representantes políticos, incluindo candidatos de “esquerda”, que pleiteavam o governo estadual e o parlamento fluminense.

Cabe destacar que, dentre os atores que compõem o Fórum, a FIRJAN tem se destacado como principal porta voz da expansão da monocultura do eucalipto no estado. A entidade vem promovendo eventos de grande visibilidade, como o seminário “Economia Verde: Firjan, Governo e Especialistas Analisam o Potencial Econômico da Silvicultura no RJ”, realizado em maio de 2023, lotando o auditório da própria FIRJAN.

Nesse encontro, lideranças empresariais como Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira (então presidente da FIRJAN) e Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo e presidente da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ) defenderam a silvicultura industrial como solução para “gerar empregos”, “recuperar áreas degradadas” e reduzir a dependência da madeira importada no estado do Rio de Janeiro — o que, segundo eles, representaria modernização e sustentabilidade econômica para o espaço agrário fluminense. Estiveram presentes também no evento, Thiago Pampolha – então Secretário de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS) e Vice-governador do Estado do Rio de Janeiro, Diogo Ladvocat – representante da Suzano, Joésio Perin – Vice-Presidente na STCP Engenharia, entre outros representantes de setores empresariais e da política fluminense. 

Entretanto, esse discurso da chamada “economia verde”, propagado por representantes do setor industrial, precisa ser questionado. Apesar de se autoproclamarem como defensores do reflorestamento e da sustentabilidade, o modelo promovido por esses grupos, baseia-se em plantações homogêneas de eucalipto — uma monocultura voltada majoritariamente à produção de celulose para exportação. Na prática, trata-se de um modelo agroexportador, altamente dependente de grandes extensões de terra, que tende a acentuar conflitos fundiários, aumentar a concentração da terra, pressionar os recursos hídricos, impactar a biodiversidade regional e aumentar a insegurança alimentar. Esses problemas e muitos outros já foram amplamente documentados em estados onde existe a monocultura do eucalipto em larga escala e a atuação da Suzano, tais como o Espírito Santo e a Bahia.

Muito embora o Rio de Janeiro ainda não possua extensas áreas de eucalipto (pouco mais de 20 mil hectares), novos empreendimentos estão sendo planejados, especialmente no Norte Fluminense. Destaca-se a atuação recente da empresa Tree Agroflorestal S.A, que projeta o plantio de cerca de 30 mil hectares de eucalipto em Campos dos Goytacazes — município historicamente marcado pela concentração fundiária, pelos conflitos no campo, pelo desmatamento e pela monocultura.

 Em recente publicação nas suas redes sociais, o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho afirmou:

“O desenvolvimento da nossa cidade segue firme! Antes, terras sem uso e improdutivas agora estão sendo arrendadas para o plantio de eucalipto. Já temos uma empresa investindo R$ 80 milhões nesse projeto, gerando mais de 100 empregos! Essa conquista só foi possível graças à alteração na lei municipal, que agora permite o plantio de eucalipto em áreas específicas, garantindo um uso sustentável e estratégico dessas terras. Seguimos trabalhando para atrair mais investimentos e transformar o agronegócio em um dos grandes motores da nossa economia!”

Mas não parou por aí: ele afirmou que esse investimento só foi possível com a aprovação da Lei Municipal nº 9.333/2023 que revogou a Lei Municipal nº 7.282/2002, facilitando o cultivo de eucalipto no município. Com isso, o intuito é, a curto prazo, viabilizar o aumento do cultivo de eucalipto no município, para que a médio prazo, possa se instalar uma empresa de celulose em Campos. Ninguém tem dúvida, pelas tentativas anteriores e pelas articulações em curso, que essa empresa seria, preferencialmente, a SUZANO.

Buscando antecipar-se às críticas sociais e ambientais decorrentes das experiências negativas da monocultura do eucalipto em outros estados, o Fórum Florestal Fluminense, com apoio da FIRJAN e de setores do governo estadual, tem defendido a atualização dos dados sobre as terras disponíveis nos chamados Distritos Florestais (Decreto 45.597/2016), que somam um total de 600 mil hectares, sendo 324 mil hectares com “potencial” para a monocultura do eucalipto.

Figura 1: Áreas dos Distritos Florestais do Estado do Rio de Janeiro

Fonte: http://www.seas.rj.gov.br

______________

¹ Atualmente, existem cinco Distritos Florestais no Rio de Janeiro, que abrangem municípios das regiões Norte1 (Campos dos Goytacazes, Cardoso Moreira, Italva, São Francisco do Itabapoana e Bom Jesus de Itabapoana), Norte 2 (Campos dos Goytacazes, Quissamã, Carapebus, Conceição de Macabu Santa Maria Madalena e Macaé), Noroeste (Itaperuna, Laje do Muriaé, Miracema, Santo Antônio do Pádua e São José de Ubá), Serrana (Carmo, São Sebastião do Alto e Cantagalo) e Médio Paraíba (Paraíba do Sul, Paty do Alferes, Rio das Flores, Quatis, Valença e Vassouras).

A criação dos Distritos Florestais, alinhada com a mudança na legislação, através da aprovação da Lei Estadual nº 9.972/2023 (Política Estadual de Desenvolvimento Florestal), foi festejada por defensores da monocultura do eucalipto no evento da FIRJAN, pois as facilidades criadas pela nova legislação poderão garantir viabilidade para o projeto dos Distritos Florestais e da silvicultura industrial sair do papel. 

Com a nova lei, o governo estadual fará o licenciamento prévio dos Distritos Florestais, assim cada empresa ou grande produtor que se instalar nessas regiões precisará só de uma licença autodeclaratória. Essa lei facilitadora para a introdução da monocultura do eucalipto em larga escala foi aprovada pelos deputados estaduais no apagar das luzes da legislatura anterior (2019 – 2022) e o govenador Claudio Castro, sancionou no início do seu segundo mandato (janeiro de 2023), “passando a boiada” do licenciamento ambiental e “escancarando” o território fluminense para a monocultura do eucalipto. 

Essa estratégia em curso é vendida como uma forma de ordenamento produtivo de espaços ditos “abandonados” e, com isso, busca-se neutralizar críticas sobre os impactos fundiários, produtivos e ambientais da expansão da monocultura do eucalipto no RJ. Ao mesmo tempo em que afirmam existir terras suficientes para implantar projetos industriais, omitem os riscos de novas formas de territorialização do capital, que podem se dar por meio da subordinação de pequenos produtores à lógica empresarial do setor celulósico-papeleiro, marcado inclusive, pelo endividamento dos produtores que participaram da última tentativa frustrada de exportar essa atividade industrial para a região, empreendida pela então Aracruz Celulose\Fibria e pelo pai do atual prefeito de Campos e na época govenador do estado RJ, o senhor Anthony Garotinho.  Projeto fracassado que teve continuidade nas gestões de Sérgio Cabral\Carlos Minc e do governador Pezão, deixando um passivo de dívidas, abandono e perda de terras por partes dos produtores no Norte e Noroeste Fluminense.

A atual ofensiva em defesa da monocultura do eucalipto no Rio de Janeiro, liderada por setores empresariais e legitimada pelo Fórum Florestal Fluminense, representa, portanto, um projeto de reconfiguração territorial que ameaça a diversidade ambiental e social no estado do RJ. Sob o rótulo da “sustentabilidade” e da “economia verde”, observa-se a tentativa de expansão de um modelo produtivo concentrador, com graves implicações socioambientais, que representará, novamente, sérios riscos, para termos a formação de um deserto verde no estado do Rio de Janeiro.

A Rede Alerta contra os Desertos Verdes (RADV) vem a público avisar a sociedade que a rearticulação de grupos ligados à implantação da monocultura do eucalipto em larga escala tem avançado, sobretudo na alteração de legislações, tanto no campo estadual quanto municipal, com claro intuito de facilitar a expansão da área plantada com eucalipto e a chegada de uma grande empresa de papel e celulose. Tudo isso, com apoio político e utilização de recursos públicos, inviabilizando a construção de um projeto de reforma agrária popular e agroecológico, afetando a segurança hídrica nas bacias hidrográficas do estado e a soberania territorial fluminense.

Por todas essas razões, conclamamos a sociedade civil, os movimentos sociais, pesquisadores, universidades e outros setores, a reafirmar a necessidade de um debate público amplo, com diferentes segmentos da sociedade, com a presença das populações do campo que poderão ser afetadas pela monocultura do eucalipto. É necessário reorganizar as forças progressistas no campo estadual, para que sejam capazes de denunciar os impactos dessa política e propor alternativas de uso do território que priorizem a vida, a diversidade e a justiça socioambiental. 

Uma grande oportunidade está em curso, com o Projeto de Lei nº 5516/2025, de autoria da Deputada Estadual Marina do MST, que tem por finalidade alterar a Lei Estadual nº 9.972/2023 e a Lei Estadual nº 5.067/2007, tendo como objetivo, reforçar a proteção de solos, águas e biodiversidade na Política Estadual de Desenvolvimento Florestal, estabelecendo com nitidez a diferença entre floresta e monocultura

Mais do que nunca, é hora de irmos à luta!

Rede Alerta contra Desertos Verdes (RADV)

Baixe a Carta [Aqui!]


Fonte: Rede Alerta contra Desertos Verdes (RADV)

Agrotóxicos comuns e substâncias químicas presentes no plástico sufocam bactérias intestinais saudáveis

1. Kiran Patil no laboratório. Crédito: Jonathan Settle, Universidade de Cambridge.

Por Brian Bienkowski para “The New Lede” 

De acordo com um novo estudo, mais de cem substâncias químicas presentes em agrotóxicos, plásticos e outros produtos aos quais as pessoas são rotineiramente expostas inibem o crescimento de bactérias intestinais benéficas à saúde.

Nos últimos anos, especialistas em saúde têm se concentrado cada vez mais na importância do microbioma intestinal e no que pode prejudicá-lo. Os seres humanos possuem, em média, centenas de tipos de bactérias intestinais que são essenciais para a digestão, o controle do peso, o funcionamento do sistema imunológico e a saúde mental. Essas bactérias, juntamente com outros tipos de microrganismos, como vírus e fungos, formam o que é conhecido como microbioma intestinal. Alterações na microbiota intestinal têm sido associadas a diversos problemas de saúde, incluindo alergias, doença de Parkinson e diabetes tipo 2.  

O novo estudo, publicado na revista Nature Microbiology e que se baseia em evidências anteriores de que certos pesticidas e produtos químicos afetam a saúde intestinal, alerta que a maioria dos testes de segurança química atuais não leva em consideração os impactos na saúde intestinal, embora seja provável que as pessoas sejam expostas regularmente a muitos dos produtos químicos testados. 

“Certos produtos químicos industriais e agrícolas podem inibir o crescimento de bactérias intestinais e selecionar aquelas que apresentam maior resistência a antibióticos”, disse Indra Roux, autora principal do estudo e pesquisadora da Unidade de Toxicologia do Conselho de Pesquisa Médica da Universidade de Cambridge. “Isso pode perturbar o funcionamento normal do microbioma e reduzir a eficácia dos antibióticos.”

Roux e seus colegas, em experimentos de laboratório, examinaram o impacto de 1.076 substâncias químicas — incluindo 829 agrotóxicos — em 22 espécies de bactérias intestinais e descobriram que 168 contaminantes eram tóxicos para essas bactérias. A maioria das substâncias que inibiram o crescimento bacteriano não era anteriormente considerada antibacteriana, e entre os contaminantes estavam diversos herbicidas, fungicidas, retardantes de chama e aditivos plásticos populares. Fungicidas e produtos químicos industriais foram os que apresentaram maior probabilidade de afetar a microbiota intestinal.

“Certos produtos químicos industriais e agrícolas podem inibir o crescimento de bactérias intestinais e selecionar aquelas que apresentam maior resistência a antibióticos.” – Indra Roux, Universidade de Cambridge

Roux afirmou que não está totalmente claro como os contaminantes sufocam as bactérias, mas eles investigaram como algumas bactérias intestinais sobrevivem ao estresse causado pelos poluentes e os experimentos mostraram que “alguns mecanismos de resistência a poluentes se sobrepõem à resistência a antibióticos”. 

“Se efeitos semelhantes ocorrerem no intestino humano, poderão tornar as infecções mais difíceis de tratar”, acrescentou ela. 

Alguns contaminantes comuns afetaram mais bactérias intestinais do que outros. Por exemplo, o retardante de chama tetrabromobisfenol A (TBBPA) e o closantel, um antiparasitário usado em bovinos, inibiram o crescimento de 19 cepas de bactérias. 

O fungicida e composto antibacteriano hexaclorofeno liderou a lista, inibindo 20 cepas de bactérias. O uso do hexaclorofeno já é restrito pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) devido a preocupações com a saúde, e a Agência de Proteção Ambiental dos EUA revogou todas as autorizações de uso alimentar para a substância química em 1995.  

Pesquisadores já haviam alertado sobre o impacto de certos agrotóxicos na saúde intestinal. Por exemplo, outro estudo divulgado este mês descobriu que o herbicida mais usado no mundo, o glifosato — o ingrediente ativo do Roundup, que é alvo de milhares de processos judiciais por alegações de câncer — perturba a microbiota intestinal mesmo em níveis de exposição muito baixos em estudos de laboratório. Este é apenas o estudo mais recente a associar o herbicida a distúrbios na saúde intestinal, com pesquisas anteriores sugerindo que os efeitos do glifosato no microbioma intestinal são causados ​​pelo mesmo mecanismo pelo qual o herbicida age para matar ervas daninhas e outras plantas. E há evidências de que o diquat, um produto químico cada vez mais usado para substituir o glifosato, tem efeitos semelhantes . 

A Bayer, empresa alemã que adquiriu a Monsanto, fabricante do glifosato, contestou estudos que associam seu herbicida à alteração da microbiota intestinal, afirmando em um relatório de julho de 2024 que “esses estudos não são representativos das condições reais do trato gastrointestinal”. O novo estudo incluiu o glifosato, mas não encontrou impactos significativos. 

Os pesquisadores utilizaram a mesma concentração de cada substância química, portanto, as descobertas não se traduzem necessariamente em exposição humana, disse Roux, acrescentando que o trabalho pode, no entanto, orientar sobre quais compostos e efeitos focar em estudos futuros.  

Além de agrotóxicos e produtos químicos industriais, pesquisadores descobriram que certos aditivos alimentares, como conservantes, emulsificantes e adoçantes artificiais, podem perturbar a microbiota intestinal. 

Os autores do novo estudo afirmam que os órgãos reguladores não estão testando adequadamente os impactos dos produtos químicos na saúde intestinal. Eles usaram seus dados para criar um protótipo de modelo de aprendizado de máquina capaz de prever se os produtos químicos prejudicarão as bactérias intestinais e o publicaram juntamente com o novo estudo.

A autora principal, Kiran Patil, professora e pesquisadora da Unidade de Toxicologia do Conselho de Pesquisa Médica da Universidade de Cambridge, afirmou que, embora o novo modelo possa eventualmente ajudar a desenvolver produtos químicos mais seguros, é importante que pesquisas futuras coletem dados de exposição no mundo real para verificar se os produtos químicos estão afetando o intestino humano de maneira semelhante ao que foi observado em laboratório. 

Imagem em destaque: Kiran Patil, professor e pesquisador da Unidade de Toxicologia do Conselho de Pesquisa Médica da Universidade de Cambridge, em seu laboratório. (Crédito: Jonathan Settle/Universidade de Cambridge)


Fonte: The New Lede

PRF apreende quatro toneladas de agrotóxicos escondidas em caminhão de leite no interior do Paraná

Por Kevin Polasso para “Toledo News”

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu, na manhã desta quinta-feira (27), um caminhão utilizado para transporte de leite que carregava aproximadamente quatro toneladas de agrotóxicos contrabandeados. A ação ocorreu na zona rural de Toledo e foi conduzida pelo Núcleo de Operações Especiais (NOE) da Polícia Rodoviária Federal (PRF), com apoio do 19º Batalhão de Polícia Militar de Toledo (19º BPM).

De acordo com a PRF, durante a abordagem o motorista recebeu ordem de parada, mas pulou pela porta do passageiro e fugiu em direção a uma área de mata fechada. Buscas foram iniciadas imediatamente, porém o condutor ainda não havia sido localizado até o momento da divulgação da ocorrência.

Na inspeção do veículo, os agentes encontraram diversos pacotes de agrotóxicos de origem chinesa escondidos dentro do tanque do caminhão, espaço originalmente destinado ao transporte de leite. O veículo também possuía um rádio comunicador, que teria sido utilizado pelo motorista para manter contato com outros envolvidos no contrabando e acompanhar possíveis movimentações policiais ao longo do trajeto.

Todo o material apreendido, assim como o caminhão, foi encaminhado à Receita Federal em Cascavel-PR, onde serão realizados os procedimentos legais cabíveis ao caso.


Fonte: Toledo News

Agrotóxicos escapam de estações de tratamento de água e chegam às casas, mostra estudo

pesticidas Costa Rica

[IGUALA DA INDEPENDÊNCIA, MÉXICO, SciDev.Net] A poluição da água por agrotóxicos é geralmente associada a áreas agrícolas, mas um estudo na Costa Rica sugere que as cidades latino-americanas enfrentam um desafio pouco discutido: suas águas residuais tratadas também podem estar carregando essas substâncias em níveis tóxicos.

Pesquisadores do Centro de Pesquisa sobre Contaminação Ambiental (CICA) da Universidade da Costa Rica e do Instituto de Aquedutos e Esgotos confirmaram a presença de 29 compostos que fazem parte de fórmulas utilizadas diariamente em residências, empresas e indústrias.

Esses contaminantes foram encontrados tanto nas entradas quanto nas saídas de água de quatro estações de tratamento no Vale Central, região que abriga a maior parte da população do país e onde está localizada a capital.

“As estações de tratamento são projetadas para águas residuais ‘comuns’, não para produtos químicos derivados de agrotóxicos.”

Rosalía Cruz, pesquisadora do Departamento de Recursos da Terra da Universidade Autônoma Metropolitana, México.

Os cinco ingredientes ativos mais preocupantes encontrados foram cipermetrina, diazinon, cinerina II, diuron e terbutrina. Em todas as detecções, esses agrotóxicos excederam os limites de segurança para a vida aquática, sugerindo um perigo contínuo nos corpos d’água que recebem os efluentes.

Além disso, a presença dessas substâncias tem implicações para a saúde humana , uma vez que pertencem a famílias químicas que têm sido associadas na literatura científica a danos ao sistema nervoso e alterações nos processos hormonais.

Outra descoberta relevante foi que cinco dos pesticidas detectados (cinerina II, flubendiamida, diclorano, bifenil e 1,4-dimetilnaftaleno) nunca haviam sido relatados anteriormente em águas residuais urbanas.

Víctor Castro Gutiérrez, um dos autores da pesquisa, explicou ao SciDev.Net que “o uso urbano da cinerina II corresponde a inseticidas naturais para jardins e pomares urbanos, bem como para o controle de mosquitos, moscas e baratas em nível doméstico. A flubendiamida também é usada como inseticida, e sua presença em águas residuais urbanas pode estar associada ao uso ornamental”.

Ele explicou que o diclorano é um fungicida usado para controlar o mofo em plantas de interior, enquanto o bifenil é usado como conservante em frutas cítricas. Por outro lado, o 1,4-dimetilnaftaleno é usado em desinfetantes em spray.

Para avaliar o impacto real desses resíduos, a equipe aplicou duas ferramentas complementares: um quociente de risco, que compara as concentrações encontradas com os níveis considerados seguros para a vida aquática, e experimentos de toxicidade em três organismos sentinela: a pulga-d’água Daphnia magna , a bactéria luminescente Aliivibrio fischeri e as sementes de alface Lactuca sativa .

A análise, publicada em 15 de novembro na versão impressa da revista Environmental Pollution , pesquisou 442 ingredientes ativos de agrotóxicos, uma metodologia nunca antes vista na América Latina.

Individualmente, 17 compostos apresentaram alto risco ambiental . No entanto, em nível de amostra, todos (tanto a água de entrada quanto a de saída) se enquadraram na mesma categoria devido ao efeito combinado da mistura de agrotóxicos.

“Este é o primeiro estudo a abordar este problema na região, com o objetivo de fornecer subsídios para futuras estratégias de mitigação do seu impacto”, comentou Castro Gutiérrez por e-mail.

Para Rosalía Cruz, pesquisadora do Departamento de Recursos Terrestres da Universidade Autônoma Metropolitana (México), que não participou do estudo, as conclusões transcendem a Costa Rica e confirmam que na América Latina existe uma limitação estrutural que não é devidamente abordada pelos órgãos governamentais.

Em entrevista à SciDev.Net, ele afirmou que “as estações de tratamento são projetadas para águas residuais ‘comuns’, não para produtos químicos derivados de agrotóxicos”, portanto não é surpreendente que os efluentes continuem a transportar esses tipos de contaminantes.

Jon Molinero — membro da ONG Yemanyá-Água e Conservação (Equador), que também não participou da pesquisa — concordou e alertou o SciDev.Net que “não existe uma única tecnologia capaz de eliminar misturas tão diversas; muitas substâncias passam sem se degradar”.

De acordo com a política nacional em vigor até 2045, menos de 15% da população da Costa Rica está conectada a estações de tratamento de esgoto. Em várias dessas instalações, Castro Gutiérrez e seus colegas notaram que a água que saía apresentava uma concentração maior de agrotóxicos, o que poderia ser devido à lixiviação desses produtos dos sólidos que chegam à estação ou à sua alteração durante o processo de tratamento.

Rosalía Cruz acredita que o desafio agora é ir além da análise. “O problema exige diálogo com aqueles que tomam as decisões sobre saneamento e planejamento urbano”, disse ela, observando que os sistemas de tratamento e a forma como as cidades são projetadas determinam o que acaba nos rios.

Para Jon Molinero, o desafio também é estrutural. A partir de seu trabalho no Equador, ele observa uma tendência que afeta a região: a rápida introdução de novas moléculas, decorrente da industrialização, em contraste com a lentidão com que elas são retiradas do mercado.

“A indústria está constantemente lançando novos compostos, e removê-los é muito difícil. Muitos são proibidos em países desenvolvidos, mas continuam sendo vendidos em nações com regulamentações mais brandas”, concluiu.


Fonte: SciDev

Observatório dos Agrotóxicos: em plena COP30, governo Lula libera mais 30 agrotóxicos

As contradições entre discurso e prática do presidente Lula e seu governo são evidentes a cada dia e cada ato prático, por mais corriqueiro que seja. Como alguém que acompanha com interesse a situação da aprovação de agrotóxicos no Brasil desde 2019, pensei que pelo menos para disfarçar, o governo federal não publicaria nenhum daqueles infames atos de liberação de agrotóxicos para comercialização no território nacional.

Pois bem, pensei errado.  É que hoje o Diário Oficial da União traz a publicação do ATO Nº 54, de 11de  Novembeo de 2025 que libera a comercialização de mais 30 agrotóxicos do tipo Produto Técnico, que é aquela classificação que se refere a produtos concentrados que serão usados para a fabricação dos produtos formulados que serão consumidos no final das contas.

Já olhei a lista dos agrotóxicos inclusos nesse ato é vejo ali velhos conhecidos e aquela costumeira característica de serem produzidos, explicitando uma espécie de colonialismo químico sul-sul, e não norte-sul.

De qualquer forma, como os agrotóxicos são emissores de gases estufa,  o que fica claro é que o governo Lula, quando seu líder não está no palco da COP30 vendendo a sua imagem de exportação, não hesita em rasgar a fantasia da sustentabilidade para introduzir mais venenos perigosos no já sobrecarregado mercado brasileiro de agrotóxicos.

Essa história de COP é semelhante àquela festa em que vamos todos bem vestidos para tomar um porre com whisky barato para acordar no dia seguinte com uma tremenda ressaca.  E, pior, quem dá a festa já sabendo que a ressaca será devastadora.

E depois ainda vai ter gente em 2026 dizendo que é melhor votar em Lula do que arriscar a ter a extrema-direita bolsonarista de volta no poder por causa da devastação ambiental que vai acontecer. Pura hipocrisia. Afinal, na hora de acalentar os lucros do agronegócio, essas duas vertentes estão juntas e misturados. E tome agrotóxicos na água e na comida dos brasileiros!

Agrotóxicos sem Fronteiras: Um Dilema Global, o documentário

Filmado no Brasil, Bélgica, França e Suíça, o documentário “Agrotóxicos sem Fronteiras” acompanha a geógrafa Larissa Bombardi em uma investigação que atravessa fronteiras geográficas e políticas para revelar o colonialismo químico — a cadeia que conecta o agronegócio brasileiro às decisões europeias sobre a produção, exportação e uso de agrotóxicos altamente perigosos.

Larissa Bombardi conduz conversas com cientistas, lideranças indígenas, juristas e ativistas que expõem o custo humano e ambiental desse modelo. Entre eles, a toxicologista Angelique Lise Massu; Lia Giraldo (Fiocruz) e Vanderlei Pignati (UFMT), que relacionam o uso intensivo de agrotóxicos a doenças graves; a chef Bela Gil, que fala sobre a alimentação como forma de resistência; Joenia Wapichana e Watatakalu Yawalapiti, que relatam os impactos diretos das pulverizações sobre os territórios indígenas; Marcos Orellana, Relator Especial da ONU para Substâncias Tóxicas, que enquadra o tema como uma questão de direitos humanos; e Arnaud Apoteker, articulador do Tribunal Monsanto em Paris, que discute as possibilidades de responsabilização diante da insuficiência dos mecanismos oficiais.

Com entrevistas, imagens de arquivo e animações originais, o filme traduz ideias complexas — regulação internacional, lobby corporativo e justiça socioambiental — em uma narrativa poética, acessível e contundente. “Agrotóxicos sem Fronteiras” é um chamado por soberania alimentar, transição agroecológica e cooperação global, onde ciência, arte e ativismo se unem em defesa da vida.

O agronegócio terá a sua vez para tentar se apropriar da COP30

As expectativas para a COP no Brasil são altas após duas cúpulas sediadas por empresas petrolíferas, mas o agronegócio pode novamente comprometer o progresso climático

Aumento da inadimplência no agronegócio levou o Banco do Brasil a perder R$ 7,7 bilhões em valor de mercado no fim de julho

O agronegócio exerce forte influência sobre o Estado brasileiro, seja ele governado pela esquerda ou pela direita, por Lula ou por Bolsonaro. – Yasuyoshi Chiba / AFP

Por Larissa Parker 

O agronegócio abriu caminho a passos largos nas últimas décadas, tornando o Brasil o maior exportador de carnes e rações para animais. Todas as maiores corporações agroalimentares do mundo colheram lucros enormes com esse boom, incluindo algumas empresas nacionais, como a gigante da carne JBS, com uma pegada climática que rivaliza com a de Bangladesh ou Espanha. A combinação de desmatamento, grilagem de terras, pecuária intensiva e campos encharcados de agrotóxicos e fertilizantes tornou o Brasil notório pela destruição climática. No entanto, embora o setor seja responsável por três quartos das emissões de gases de efeito estufa do Brasil, ele está excluído da lei nacional de carbono do país.

O agronegócio exerce forte influência sobre o Estado brasileiro, seja ele governado pela esquerda ou pela direita, por Lula ou Bolsonaro. Portanto, não é surpresa que a COP deste ano esteja se configurando como um exercício monumental de greenwashing do agronegócio.

O destaque principal é uma “Zona Agrícola” próxima às sessões oficiais da COP. Enquanto todos os outros disputam espaço na superlotada “Zona Verde”, gigantes do setor de alimentos ultraprocessados ​​como Nestlé e PepsiCo, e as grandes empresas agroquímicas Bayer e Yara, ganham um espaço exclusivo para impressionar os delegados da COP. Os principais grupos de lobby do setor, como a CropLife e o Conselho de Exportação de Lácteos dos EUA, realizarão sessões, assim como Bill Gates, cuja fundação, como uma das principais patrocinadoras da Zona Agrícola, apresentará a África como a próxima fronteira do agronegócio. A Netafim, empresa israelense de irrigação apontada pelo Relator Especial da ONU por seu envolvimento na ocupação ilegal de terras palestinas, também realizará uma sessão.

O povo brasileiro talvez não saiba, mas está arcando com a maior parte dos custos desse espetáculo corporativo. O evento está sendo organizado pela Embrapa, a agência nacional de pesquisa agropecuária do Brasil, que já está em parceria com grandes empresas para reformular a imagem do agronegócio brasileiro por meio de programas como “pecuária leiteira com emissão zero” com a Nestlé e “soja de baixo carbono” com a Bayer. Até mesmo o Ministério da Agricultura e Pecuária, que não implementa a reforma agrária devido a uma suposta falta de verbas, é um dos patrocinadores. Outros governos também participarão, como os da Austrália, Canadá, França, Alemanha, Japão, Holanda e Reino Unido.

O objetivo aqui não é apenas promover o agronegócio como empresa verde. As COPs do clima se tornaram palcos de negociações, comparáveis ​​a Davos, e este ano o gigante brasileiro do agronegócio tem um grande acordo em jogo.

Na COP28 em Dubai, com o Brasil já escolhido para sediar a COP30, o governo brasileiro anunciou seus planos para uma parceria público-privada de US$ 100 bilhões para converter 40 milhões de hectares de pastagens degradadas em monoculturas de soja e outras culturas de exportação. Alega-se que o cultivo dessas culturas irá repor o carbono no solo e que as empresas podem investir como forma de compensar suas emissões de combustíveis fósseis.

Desde então, o governo brasileiro e o lobby do agronegócio têm enviado missões ao redor do mundo – incluindo Riad, Pequim e Nova York – para atrair investidores estrangeiros para o projeto, agora chamado Caminho Verde Brasil. O fundo soberano da Arábia Saudita, que detém participação majoritária na gigante brasileira de carnes Minerva, manifestou interesse e já está adquirindo créditos de carbono. O mesmo ocorre com o fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, Mubadala, por meio de uma subsidiária brasileira que está plantando 180 mil hectares do Cerrado com macaúba para produzir biocombustíveis para aviões a jato, como parte do programa. Grandes instituições financeiras do agronegócio também aderiram – como o Rabobank, da Holanda, e o BTG, do Brasil, ambos comprando terras para plantações de árvores e, assim, gerar créditos de carbono para a Microsoft.

O governo está agora tentando atrair investidores estrangeiros com participações acionárias em fazendas, utilizando um novo instrumento financeiro, chamado Fiagros, que lhes permitiria contornar as restrições à propriedade estrangeira de terras. Acordos de fornecimento também estão sendo elaborados com empresas chinesas, nos quais investimentos iniciais em dinheiro seriam pagos com soja, açúcar e carne.

Essa nova “forma verde” nada mais é do que uma expansão da antiga forma de fazer agronegócio no Brasil. A venda de pastagens desmatadas para conversão em fazendas intensivas de soja, cana-de-açúcar, eucalipto ou gado incentivará ainda mais o desmatamento e a grilagem de terras com o deslocamento do gado, além de aumentar o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos, com impactos drásticos na saúde pública, especialmente em comunidades camponesas e indígenas . Toda a produção será destinada à exportação, e todos os lucros continuarão sendo embolsados ​​por banqueiros, latifundiários e acionistas de multinacionais. As emissões reais aumentarão mais rápido, mais longe e por mais tempo do que qualquer carbono que o programa consiga sequestrar temporariamente no solo.

Se houver alguma esperança de que a COP deste ano seja diferente, ela estará a poucos quilômetros da Zona Agrícola, na Cúpula dos Povos, onde comunidades que há muito sofrem com o boom do agronegócio brasileiro estão organizando seu próprio espaço. Ali, organizações e movimentos sociais trabalharão juntos para construir sistemas alimentares que possam realmente responder à emergência climática e às demais crises ambientais, sanitárias e sociais alimentadas pelo agronegócio.

Larissa Packer concentra-se nas tendências do agronegócio na América Latina, especialmente em relação à digitalização, reforma agrária, greenwashing climático e grilagem de terras. Ultimamente, ela tem se envolvido em trabalhos sobre leis de sementes e lutas mais amplas pela soberania alimentar na região. Ela representa a GRAIN na Alianza Biodiversidad (Aliança para a Biodiversidade), uma coalizão de 10 organizações/movimentos que lutam pela soberania alimentar em toda a América Latina.


Fonte: Jornal Brasil de Fato

Por que 70% dos agrotóxicos largamente usados no Brasil foram banidos na União Europeia?

As autoridades de lá consideram alertas científicos da relação dessas substâncias com o câncer, malformações fetais, danos à reprodução, rins e fígado, autismo, Parkinson, Alzheimer, contaminação da água e muito mais

Tecnologia avançada para aplicar aqui venenos proibidos em outros países. Foto: ANAC

Cida de Oliveira* 

Atentas aos alertas da ciência sobre os riscos que os agrotóxicos representam para a saúde pública e o equilíbrio dos ecossistemas – e, claro, à pressão dos consumidores – autoridades da União Europeia já baniram 223 ingredientes ativos químicos desde 2001. Pesou na decisão a relação desses produtos com a alarmante lista do início desta reportagem, que vai bem além. Ou seja, foram proibidas as substâncias que foram utilizadas até que a efetividade e a segurança foram questionadas por estudos mais modernos e abrangentes. Portanto, deixaram de ser aceitáveis perante os novos conhecimentos científicos.

Já o Brasil, em sentido oposto, segue autorizando esses produtos por aqui. Tanto que esses 223 correspondem a 52% dos 429 ingredientes químicos permitidos no país pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). São matérias primas usadas na formulação de uma infinidade de herbicidas, fungicidas, inseticidas, acaricidas e reguladores do crescimento das plantas, que compõem as milhares de toneladas vendidas todo ano no Brasil, o maior mercado consumidor desses venenos.

Para piorar, desses agentes banidos pelos europeus, 7 estão na lista dos 10 mais vendidos no Brasil em 2023, segundo dados do Ibama divulgados no início do ano. No final da reportagem, você poderá conferir um recorte a partir do parecer publicado nesta terça (28) aqui no Blog do Pedlowski. Trata-se de um documento produzido e divulgado de maneira voluntária pela professora juntamente com Leonardo Melgarejo, coordenador adjunto do Fórum Gaúcho de Combate aos Efeitos dos Agrotóxicos, para respaldar organizações e setores do governo e legislativo na discussão de possibilidades relacionadas ao Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara).

 “São moléculas banidas há muito tempo porque são velhas, mais tóxicas. E aqui se usa já há muitos anos, desde 1985. Isso impede a entrada de outras mais novas, menos tóxicas e melhor testadas”, disse ao Blog a engenheira química Sonia Corina Hess, professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coautora de um parecer técnico detalhando dados sobre esses produtos banidos na União Europeia. “Não é por falta de opção que a gente está usando essas moléculas velhas. E sim porque são despejadas aqui devido ao preço mais baixo desse lixo em relação a moléculas novas. É por isso que entre os mais vendidos estão 7 banidos. A gente vai cumprindo assim esse papel de lixeira mesmo”.

De acordo com ela, que se dedica arduamente ao estudo desse caldeirão de venenos, a situação é bem complexa. Entre suas causas principais está o poder das transnacionais fabricantes, com seu lobby sobre os poderes da República. “A indústria química foca muito no Brasil porque é o maior mercado de agrotóxicos do mundo. Vale muito dinheiro. Há forte pressão até para impedir o banimento. Por isso a gente está com esse cenário tão trágico para o povo brasileiro, que praticamente não tem defesa diante desse poder das indústrias multinacionais”.

Regulação frágil

Esse lobby onipresente, aliás, explica em parte a fragilidade da regulação brasileira quando comparada à do bloco europeu. Lá o conjunto de países observa vários pontos no processo de análise de pedido de registro e de sua validade. “Na União Europeia a reavaliação dos produtos é periódica. Trata-se de um trabalho extenso, que pode levar 6 anos ou até mais; um processo bem bacana, em que um país assume a liderança desses estudos. Depois é feito um parecer que é apresentado para os demais países. Entra então em consulta pública. Se aparece algum ponto que pode sinalizar para o banimento, eles convocam a indústria para justificativas. É bem sério”, disse.

“Já no Brasil a validade é eterna, não tem prazo. Uma vez aprovado, não há regras definindo datas para reavaliação. Por isso a gente tem moléculas que são vendidas no Brasil desde 1985. Para conseguir banir é um processo muito complicado; é no varejo e não no atacado, como na Europa. Como lá cada substância tem uma validade e se naquele prazo não se justificar a manutenção, eles vão banir. Existe uma organização, uma sistemática de reavaliação que não tem no Brasil”, disse. “Isso é que falta aqui. E cada vez que tem reavaliação de agrotóxicos no Brasil é aquele drama, um ‘Deus nos acuda’, com o lobby todo contrário pressionando. E ninguém leva em consideração a saúde pública, o gasto no SUS, a tragédia que é o adoecimento das pessoas. Uma tragédia brasileira diante desse poderio das multinacionais.”

Sonia Hess lembra ainda o processo de enfraquecimento da legislação do setor. “A lei dos agrotóxicos, em vez de mais rigorosa, ficou mais branda, dificultando o banimento. Mas os números da saúde pública estão aí. A incidência de câncer em pessoas mais jovens está aumentando. Autismo, desregulação endócrina. São muitas doenças que provêm de contaminação ambiental e os agrotóxicos têm papel muito decisivo nisso”, disse a especialista, que se vê particularmente preocupada com a qualidade da água de abastecimento. “Cada vez que a gente analisa a água encontra uma série de substâncias perigosas, inclusive agrotóxicos.”

Interesses em conflito

O engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, com extenso currículo envolvendo o tema, acrescenta outro fator agravante: o poder do agro no poder, inclusive sobre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), por trás da liberação dos agrotóxicos. “O MAPA afirma que precisamos usar no Brasil venenos desnecessários na União Europeia por conta de nosso clima tropical. Oculta com isso um fato simples: aqueles produtos hoje proibidos na União Europeia já foram utilizados lá; eram necessários para a agricultura até que se comprovaram perigosos demais para a saúde humana e ambiental. Mas como a agricultura européia se mantém, sem eles? Utilizando outras formulações”, apontou.

“O fato é que estas outras formulações são mais caras, enquanto o lixo tóxico, que não pode ser comercializado lá é desviado para cá, a preços baixos. Lixo tem preço baixo”, disse, fazendo coro a Sonia Hess. Na sua análise, trata-se tambem de uma questão de contabilidade, onde os gastos com saúde são desprezados por aqueles só enxergam os resultados da lavoura, a cada safra, desprezando o horizonte de uso de seus próprios territórios. “Estão acabando com a microvida e a fertilidade dos solos, envenenando a água, multiplicando tragédias familiares e justificam isso com base em argumentações falaciosas”, completou.

Após uma década de espera pelos movimentos e organizações da sociedade civil, em junho deste ano o governo federal instituiu, por decreto, o Pronara. A política visa a redução gradual e contínua do uso de agrotóxicos, principalmente os altamente perigosos ao meio ambiente e extremamente tóxicos para a saúde. 

Mensagem de repúdio ao Pacote do Veneno projetado em edifício. Foto @projetemos

atribui ao mesmo MAPA, entre outras coisas, priorizar o registro de agrotóxicos de baixa toxicidade e de bioinsumos. Ou seja, uma incumbência que destoa dos horizontes do poderoso comando da pasta. Para Melgarejo, o nó dessa improvável convergência de interesses só pode ser desatado pela sociedade. E isso quando estiver plenamente consciente da situação.

“As pessoas que residem nas ‘zonas de sacrifício’ não estão cientes de que seus parentes estão sofrendo doenças incuráveis que poderiam ser evitadas, que gestações estão sendo perdidas, que se multiplicam casos de oncologia infantil e distúrbios nos sistemas endócrinos, nervoso e reprodutivo porque a água está sendo envenenada. E se soubessem que isso tudo poderia ser evitado com mudanças nas regras de financiamento, isenção de impostos e autorização de uso, aqui, de venenos que são PROIBIDOS em outros países, não reagiriam?”, pondera, lembrando que “zonas de sacrifício” são áreas nas quais os índices de mortalidade, afecções cancerígenas, gestações perdidas e casos de autismo e infertilidade superam as médias nacionais.

 Nessa perspectiva, Melgarejo defende que a sociedade seja informada sobre a gravidade da situação em que vive. “As pessoas estão sendo enganada a respeito dos agrotóxicos. E o Pacote do Veneno é um instrumento criminoso a serviço de interesses econômicos, cego aos direitos humanos fundamentais, antiético e contrário à civilidade”, disse. “Os números e fatos relatados no parecer demonstram isso. A sociedade precisa ser informada para avaliar aqueles seus representantes que vêm sendo escolhidos para ocupar espaços no poder legislativo. A maioria deles, como demostram as decisões envolvendo o pacote do veneno e as dificuldades para discussão de um modelo de desenvolvimento amistoso à natureza, zombam da saúde de seus eleitores”, diz.

Ele defende também que esta disseminação de informações sobre o tema dê o devido espaço para os avanços das práticas agroecologias, “um sistema de produção mais coerente com as necessidades de soberania alimentar e de enfrentamento ao aquecimento global, está sendo bloqueado pelo estímulo ao uso de lixo tóxico entre nós”. “Precisamos de proteção para as regiões onde a agroecologia se expande, que sejam estabelecidas áreas livres de agrotóxicos e os avanços possam ser multiplicados.

Mas não é só. Como tudo isso depende de políticas públicas, a importância de esclarecimento da sociedade ganha ainda mais relevância. “Até mesmo para o ganho de força na correlação que levou o agro ecocida a dominar o estado”, diz Melgarejo. “Eles estão no legislativo e ocupam postos chave no executivo, em todos os governos. Ocuparam o estado, que precisa se aproximar mais das necessidades da população e se afastar dos mecanismos que nos subordinam a interesses ofensivos à saúde humana e ambiental.”

Leia também:

Parecer técnico identifica graves riscos à saúde de centenas de agrotóxicos banidos na Europa e vendidos legalmente no Brasil

Agrotóxico amplia vendas em até 2.672,8% e escancara farsa dos transgênicos no Brasil

Agrotóxicos: Perto de completar 30 anos, farra tributária do ICMS terá R$ 1,93 bi de isenção somente em SP 

 

Confira a seguir


Cida Oliveira é jornalista e colaboradora regularmente com o Blog do Pedlowski.

A Revolução Verde na América Latina: debates, perspectivas e interdisciplinaridade, o livro

LRV

Abordar o legado da Revolução Verde a partir de uma perspectiva latino-americana exige examinar a dinâmica das mudanças agrárias, seus atores, gestão e fatores condicionantes, além de monitorar suas trajetórias em evolução. O livro “A Revolução Verde na América Latina: debates, perspectivas e interdisciplinaridade” surge do desejo de explicar o passado da América Latina em relação à Revolução Verde e o lugar da América Latina em sua trajetória global. O octogésimo aniversário, em 2023,  impeliu os autores desta obra a considerar a pluralidade e a diversidade da Revolução Verde, cujas várias interpretações revelam que o processo em questão se transformou em múltiplas revoluções verdes.

Os autores adotaram uma perspectiva crítica sobre a comemoração, visando contribuir para uma renovação das interpretações. Essa iniciativa também abrange questões historiográficas referentes à periodização, ao local de sua produção, aos contextos que justificaram seu estudo e às questões que ainda precisam ser exploradas.

Quem desejar baixar gratuitamente este livro, basta clicar [Aqui!].

 

Estudo realizado na Bélgica e na Holanda mostra que agrotóxicos se acumulam na poeira depositada no interior das residências

Outbreak Management | Contamination Control Co.

Residências estão se tornando reservatórios de múltiplos agrotóxicos

A poeira depositada nos quartos — espaços onde os indivíduos passam tempo substancial — pode atuar como um reservatório para resíduos de agrotóxicos.  Isso é o que mostra um estudo publicado pela revista “Environmental Pollution” que analisou a poeira coletada no do piso de 112 quartos na Bélgica e na Holanda para avaliar os níveis de agrotóxicos em relação a dois fatores: proximidade de campos agrícolas e presença de animais de estimação, juntamente com uma avaliação cumulativa de risco à saúde.

As casas utilizadas no estudo estavam localizadas a menos de 250 m de campos agrícolas (55 com animais de estimação, 49 sem) ou em áreas urbanas/periurbanas a mais de 500 m dos campos (10 casas; 5 com animais de estimação, 5 sem), servindo como controles. As análises do material coletado foi analisado com o uso de cromatografia líquida e gasosa-espectrometria de massas. um total de 494 agrotóxicos foram analisados e os determinantes da ocorrência foram estudados por meio de regressão logística.  O estudo detectou a presença de resíduos de 120 agrotóxicos (61 aprovados, 59 não aprovados). Os agrotóxicos se mostraram onipresentes já que mais de 98% das casas estudadas tinham a presença de resíduos de pelo menos um produto, enquanto 95% continham cinco ou mais. A mistura mais comum — diclorano, permetrina, 2-fenilfenol, DEET e propiconazol — foi encontrada em 33% das amostras.

Os resultados do estudo mostram ainda que domicílios próximos a terras agrícolas tenderam a apresentar maiores probabilidades de detecção de múltiplosagrotóxicos, enquanto lares com animais de estimação apresentaram níveis elevados de fipronil e permetrina. Ambos os compostos são proibidos para uso agrícola na União Europeia, mas permanecem autorizados como biocidas.

Uma avaliação de risco cumulativo do pior caso indicou que a maioria dos sistemas orgânicos apresentou valores de índice de risco (IH) abaixo de 1, sugerindo baixo risco geral à saúde. O limiar de neurotoxicidade (IH = 1,45) foi excedido em um domicílio com concentrações excepcionalmente altas de fipronil, ilustrando um potencial cenário de pior caso em vez de um efeito em toda a população.

A detecção frequente de pesticidas antigos e que não estão mais necessariamente em uso ressalta sua persistência em ambientes internos, pqie  destaca o desafio de mitigar a exposição a longo prazo. Os resultados sugerem a necessidade de avaliações de exposição mais abrangentes e estratégias direcionadas para mitigar a contaminação por agrotóxicos em ambientes residenciais.