Observatório dos Agrotóxicos: governo Bolsonaro libera mais 93 agrotóxicos e chega a 1.265 liberações em 30 meses

Aumento das fabricantes chinesas e o uso de agrotóxicos altamente perigosos são marcas da tsunami de aprovações do governo Bolsonaro

pesticides china

Em que pese a crise política, econômica e sanitária que o Brasil atravessa neste momento, o governo Bolsonaro continua com a tsunami de liberações de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo.   Em apenas dois atos publicados em maio e junho (Atos 26 e 29, respectivamente) foram liberados mais 93 agrotóxicos, o que implica em um “grande total” de 1.265 agrotóxicos liberados sob a batuta de Jair Bolsonaro e da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS). 

Essa verdadeira tsunami tóxica visa basicamente acelerar a compra de agrotóxicos por grandes latifundiários que estavam envolvidos com as monoculturas de exportação que incluem a soja, o milho, o algodão e a cana-de-açúcar. Em uma análise rápida dos 93 agrotóxicos aprovados é possível verificar que a maioria dos agrotóxicos liberados (seja para uso imediato por agricultores ou para fabricação de produtos pela indústria do veneno instalada no Brasil) é a persistência de produtos antigos (os chamados pós-patente) e a hegemonia de empresas chinesas em seu fornecimento.  Essas características estão certamente relacionadas a um aperto das regras de fabricação e uso em mercados mais exigentes, a começar pela União Europeia, e o envio desses produtos antigos para regiões cujos governos são mais dependentes das renda gerada pela exportação de commodities agrícolas, como é o caso do Brasil.

Produtos altamente venenosos classificados como pouco danosos à saúde humana e ao meio ambiente

abelhas-mortas2

Outra característica que está presente na tsunami tóxica do governo Bolsonaro é a liberação de produtos banidos por terem sido identificados como altamente nocivos à saúde humana e ao meio ambiente, e ainda por cima com definições de risco baixo. Exemplos gritantes disso são os agrotóxicos Ametrina, Atrazina e o exterminador de abelhas Fipronil. Aliás, com os produtos liberados pelo Ato No. 26, o governo Bolsonaro liberou o incrível total de 34 produtos formulados ou técnicos contendo o Fipronil. Como esse produto é conhecido por causar o extermínio de polinizadores benignos como é o caso das abelhas, os riscos ambientais que estão sendo impostos ao meio ambiente são altíssimos apenas quando se considera o Fipronil.  Mas como o Fipronil não é o único exterminador de abelhas que está sendo liberado, que ninguém se surpreenda se em breve tivermos uma série falta de mel e quebra de safras de culturas que dependam de polinizadores para suas floradas.

O avanço da indústria chinesa no mercado de agrotóxicos brasileiros

Outra característica marcante dos Atos 26 e 29 é a confirmação de que o Brasil se tornou um mercado preferencial para a crescente indústria chinesa de agrotóxicos. No caso do Ato No. 29 que liberou 29 produtos, o predomínio de empresas chineses ficou mais do que evidente, já que estas são as fabricantes de 24 dos agrotóxicos liberados (82,7%). Mas outro fenômeno aparente é a instalação de subsidiárias das indústrias chinesas que estão dispensado os intermediários para obter a autorização para a venda de seus produtos no mercado brasileiro. Com a velocidade de liberação que está sendo propiciada pelo governo Bolsonaro, não será de se estranhar que a influência da indústria chinesa de venenos agrícolas comece em breve a colocar em xeque a hegemonia das gigantes europeias e estadunidenses como Basf, Bayer e DowDupont.

O Brasil como zona de sacrifício de agrotóxicos altamente perigosos

Ainda que não haja a devida cobertura jornalística, o Brasil está imerso em uma combinação perversa que mistura o avanço do desmatamento na Amazônia com o aumento da demanda por agrotóxicos naquela onde as condições climáticas aceleram o processo de regeneração primária e o aumento de populações de insetos e de doenças causadas por fungus e vírus. Em certo sentido, o avanço do desmatamento na Amazônia está sendo um forte vetor para o consumo de agrotóxicos, o que em face dos últimos dados de remoção total das áreas florestas amazônicas deverá aumentar exponencialmente a demanda por venenos agrícolas.

O problema é que ao contrário do prometido não está havendo nenhuma modernização dos agrotóxicos, o que nem interessa aos fabricantes desses produtos que ganham rios de dinheiro sem que tenham que efetivamente buscar qualquer tipo de inovação no seu portfólio de produtos, já que a demanda tende apenas a crescer.

No final o que estamos nos defrontando é a transformação do Brasil em uma zona de sacrifício capitalista, onde a geração de margens espremidas de lucros pelo latifúndio agro-exportador força o avanço da franja de desmatamento dentro da Amazônia com base em sistemas agrícolas altamente dependentes do consumo de agrotóxicos. 

Quem desejar as planilhas do Ato No. 26, basta clicar [Aqui!], e a do Ato No. 29 [Aqui! ]. Já os interessados em baixar a planilha contendo a descrição completa dos 1.265 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019, basta clicar [Aqui!]. 

 

Dossiê é lançado para dar embasamento científico à disputa política sobre agrotóxicos na arena legislativa

monocultura

Foto: Chris Ensminger/Unsplash

Nesta terça-feira (06), foi lançado o “Dossiê Contra o pacote do Veneno e em Defesa da Vida“, no quarto e último encontro da Mobilização Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.  Este dossiê sintetiza um conjunto de estudos e análises técnico-científicas e é resultado de um processo de cooperação entre a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a  Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida,  Instituto Ibirapitanga, Patrícia Canto e pela FIOCRUZ.

dossie agrotóxicos

O dossiê relata as diversas manobras do Congresso Nacional nas tentativas de aprovar o “Pacote do Veneno” ou Projeto de Lei n.o 6.299/2002 e analisa e denuncia as propostas perversas do agronegócio e das indústrias agroquímicas e seus aliados no Executivo e Legislativo, no sentido de aumentarem ainda mais a venda e o uso de agrotóxicos, consequentemente, ampliando a intoxicação da vida (vegetal, animal e ambiental) no território brasileiro.

Mas o dossiê também apresenta alternativas para enfrentar o modelo agrícola hegemonico, mostrando práticas e trazendo propostas baseadas na produção agroecológica, de caráter coletivo, democrático, de
promoção da vida e produção de alimentos saudáveis. Estes itens estão contidos na Política Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos ou PNARA ou Projeto de Lei n.o 6.670/2016,  que são defendidos no Dossiê.

Quem desejar baixar o arquivo contendo este importante dossiê, basta clicar [Aqui!].

Demanda global por soja pressiona Pantanal, maior pantanal selvagem do Brasil

pantanal

  • A demanda global por soja viu a produção anual da safra no Brasil subir de 30 milhões de toneladas em 2000 para 125 milhões de toneladas hoje. A maior parte dos agroquímicos consumidos no Brasil é utilizada nesta cultura.
  • A cultura da soja também responde pela maior parte dos agroquímicos usados ​​no Brasil, e a atividade agrícola concentrada no estado de Mato Grosso agora está vendo esses produtos químicos serem lavados rio abaixo até o Pantanal.
  • Maior planície de inundação do planeta, o Pantanal é relativamente intocado pela agricultura, com apenas 0,01% de sua área ocupada por fazendas de soja.
  • Cientistas mostraram que os cursos de água que alimentam o Pantanal estão contaminados e assoreados, e que os peixes estão escasseando em alguns locais.
Por Fernanda Wenzel , Naira Hofmeister , Pedro Papini/ Traduzido para o inglês por Maya Johnson

O anzol que Lourenço Pereira Leite lança no rio Paraguai atrai cada vez menos pintados , cacharas e pacus com o passar dos dias. Essas espécies nativas de peixes sustentaram sua família por muitas gerações, mas nenhuma das habilidades que aprendeu pescando no Pantanal com seu pai e avô o ajudou a evitar as embalagens vazias de agrotóxicos que aparecem em suas armadilhas em vez de peixes. “Isso tem que vir de montante, porque não há grandes fazendas por aqui”, diz ele.

Sua observação resume a encruzilhada em que se encontra este bioma brasileiro: apenas 0,01% do vasto Pantanal selvagem foi transformado em fazendas de soja, mas a área úmida tornou-se um enorme depósito para os resíduos de agroquímicos que lavam das terras agrícolas ao norte do rio. planaltos do estado de Mato Grosso. A crescente demanda internacional por soja fez com que as fazendas invadissem áreas preservadas e empurrou os campos de soja para mais perto das nascentes que alimentam o Pantanal.

No ano passado, o bioma passou por uma queimada histórica que atingiu 30% da região e chamou muita atenção da imprensa internacional – a exemplo dos incêndios de 2019 na Amazônia – com foco na inércia do governo federal em proteger seu patrimônio natural. Mas, na realidade, a região está sofrendo em silêncio há muito mais tempo. Os poluentes viajam rio abaixo, ameaçando uma das poucas regiões naturais do Brasil ainda bem preservada da atividade humana.

Lourenço Leite pesca no município de Cáceres, no sudoeste de Mato Grosso, porta de entrada para o bioma reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial . A água que rege a vida do Pantanal passa pelo local onde ele lança seu fio. As chuvas que caem ao norte, na planície mato-grossense, fazem subir as nascentes dos rios Paraguai, Sepotuba e Cabaçal. Essa abundância de água desce para Cáceres, de onde forma a maior planície alagável do planeta , habitada por espécies raras e ameaçadas de extinção, como onças, tamanduás-bandeira e tatus gigantes.

Em condições naturais, essa água carregaria apenas a matéria orgânica que serve de alimento para os peixes e fertilizante para as plantas. Mas hoje também traz consigo os produtos químicos que vazam das fazendas de soja. Nos últimos 30 anos, a produção de soja do Brasil aumentou seis vezes, de 20 milhões de toneladas métricas por ano para 125 milhões de toneladas hoje, a maioria das quais é cultivada em Mato Grosso . O estado é o maior produtor de soja do Brasil, que por sua vez é o maior fornecedor mundial do grão .

“O Planalto Mato Grosso faz parte do Planalto Central”, diz Débora Calheiros, bióloga da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) do Ministério da Agricultura. A região é considerada o reservatório de água do Brasil por abrigar as nascentes das principais bacias hidrológicas do país. Além da Bacia do Alto Paraguai que forma o Pantanal, outras quatro grandes bacias têm origem aqui: a Amazônia, a São Francisco, a Paraná e a Araguaia / Tocantins, diz Calheiros, que também trabalha no Ministério Público Federal e tem se dedicado sua trajetória na compreensão do impacto do uso de agroquímicos no ecossistema da região.

“O Pantanal é uma espécie de buraco”, diz Nilza da Silva, pescadora de Cáceres. “Nós estamos aqui embaixo e eles plantam soja em cima. Quando as chuvas vêm, para onde flui a água? Descendo a ladeira até aqui.

“O centro de Cáceres fica na margem do rio”, acrescenta Nilza. “Ela costumava ser um buraco muito profundo pesca onde poderíamos até mesmo pegar jaú ” – o bagre dourada, uma das maiores espécies de peixes nativos do Brasil, que pode atingir comprimentos de 1,5 metros. “Hoje em dia, na estação seca, você pode atravessar o rio com água abaixo dos joelhos por causa de todo o lodo. E quase não há peixes ”, diz Nilza.

Um grupo de pesquisadores que monitoram o bem-estar do Pantanal concluiu que o assoreamento que ela descreve é ​​o resultado de um aumento de 200% dos depósitos de sedimentos no Pantanal nas últimas três décadas , número que cresceu junto com o crescimento da agricultura em altitudes mais elevadas.

A planície de inundação do Pantanal foi quase totalmente preservada do agronegócio. Apenas 16% de sua área é dedicada à atividade agropecuária, principalmente à pecuária. É uma imagem diferente das altas planícies, onde 60% da terra foi retomado pelo agronegócio e onde brasileiros maiores municípios produtores de soja, também líderes nacionais no uso de  agrotóxicos , estão localizados. As planícies também abrigam as nascentes dos rios que alimentam o Pantanal.

A soja não é nativa do Brasil e hoje é cultivada em fazendas de monocultura que requerem grandes volumes de inseticidas e herbicidas para manter as pragas afastadas. Por isso, embora represente 42% da área plantada no Brasil, a soja responde por mais de 60% do uso de agroquímicos no país – um coquetel de mais de 450 fórmulas químicas diferentes, a maioria considerada tóxica para o homem ou prejudicial à natureza, de acordo com a Agência Nacional de Saúde e o Ministério do Meio Ambiente.

Os olhos do mundo no Brasil

Das 125 milhões de toneladas de soja que o Brasil produziu em 2019-2020, apenas um terço ficou no país. A maior parte da produção é exportada para servir de ração para bovinos, aves e suínos , que por sua vez são abatidos para alimentar a crescente população do planeta.

A China é o maior cliente de soja do Brasil . As exportações também atingem toda a Europa, com volumes particularmente elevados na Holanda, Espanha e França.

A Noruega, principal doador do Fundo Amazônia que visa proteger a floresta tropical contra o ataque de ameaças como a agricultura, atualmente importa 328.000 toneladas de soja por ano, pelo menos 70% dos quais vêm do planalto de Mato Grosso. Também importa outras 278.000 toneladas na forma de proteína de soja, para usar em suas fazendas de salmão, de acordo com a Statistics Norway.

É uma pequena parcela da produção total do Brasil (cerca de 0,5%), mas representa 86,3% de toda a soja importada por um país que continua pressionando o Brasil a cuidar do meio ambiente por meio do Fundo Amazônia.

A Noruega também pressionou importadores e empresas a adotarem um método de certificação rigoroso para a soja brasileira que entra no país , incluindo uma lista de agrotóxicos proibidos . Ele exige que a origem do produto seja rastreada para evitar qualquer associação com o desmatamento e garantir que os grãos não venham de plantações geneticamente modificadas. Mas do ponto de vista social e ambiental, a soja convencional não difere muito da soja transgênica , pois ambas são cultivadas em extensas monoculturas com uso de agrotóxicos. A única exceção é o uso do herbicida glifosato, que, dependendo de como é aplicado, pode matar a soja convencional . Por esse motivo, ele é usado com menos frequência.

Segundo a plataforma da Trase , seis municípios são os principais fornecedores de soja integral para a Noruega: Sapezal, Diamantino, Nova Ubiratã, Campo Novo do Parecis, Campos de Júlio e Tangará da Serra. Essas cidades – que também exportam para China, Holanda, Turquia, Tailândia, Reino Unido, Arábia Saudita, México e Cuba – estão todas localizadas no planalto de Mato Grosso, região de grande importância ambiental.

Um rio envenenado na nascente

A 200 km, cerca de 120 milhas, a norte de onde Lourenço Leite vai pescar, é um local onde a água escorre do solo em pequenas nascentes cristalinas que formam sete lagos. Esta é a nascente do rio Paraguai . A partir daqui, a água flui por 2.600 km (1.600 mi), através da Bolívia e do Paraguai, antes de se derramar no mar da Argentina junto com o rio Paraná.

Ao longo do caminho, forma as curvas sinuosas que compõem as vistas panorâmicas muitas vezes associadas ao Pantanal brasileiro. Mas dos sete lagos originais, apenas três ainda retêm água, e um deles está perigosamente baixo. “Estão desaparecendo por causa da falta de vegetação e da quantidade de soja e pecuária nas proximidades”, diz Jacildo de Siqueira Pinho, biólogo da secretaria estadual de saúde. “Quem sobrevoa a região vê apenas monocultura. Eles removeram quase toda a vegetação ao redor dos lagos. ”

Foto 1 (canto superior esquerdo): Quatro dos sete lagos dentro da Área de Proteção Ambiental das Cabeceiras do Rio Paraguai secaram devido ao assoreamento; Foto 2 (canto superior direito): Pesquisadores da UFMT coletam amostras de água para verificação de contaminação por agroquímicos; Foto 3 (embaixo à esquerda): Apesar de seu uso proibido, os agroquímicos são usados ​​indiscriminadamente dentro da EPA; Foto 4 (embaixo, à direita): 40% da vegetação nativa da área de conservação foi substituída por soja, milho e pecuária. Todas as imagens de Jacildo de Siqueira Pinho.

O Código Florestal do Brasil torna obrigatória a conservação das matas ciliares no entorno dos mananciais. Isso significa que na nascente do rio Paraguai, uma área maior do que a capital da Noruega, Oslo, está ostensivamente sob proteção. Conhecida como Área de Proteção Ambiental da Nascente do Rio Paraguai (APA), abrange 77.743 hectares (192.107 acres) e abrange os municípios de Alto Paraguai e Diamantino. Este último é um dos seis principais exportadores de soja para a Noruega.

Todas as atividades que agridem o meio ambiente são proibidas pela EPA, principalmente aquelas que ameaçam os mananciais, e o uso indiscriminado de agroquímicos não é tolerado. Apesar disso, 40% da vegetação nativa dentro da EPA foi desmatada para fazendas de soja e milho e pastagem de gado.

spread

Entre os poderosos proprietários de terras da APA estão o grupo pecuarista argentino Telhar e Gilmar Mendes, um juiz do Supremo Tribunal Federal que já foi comparado por um colega a um chefe do crime organizado. O Ministério Público do Estado de Mato Grosso não tem conseguido processar com sucesso nenhum dos agentes agrícolas da região.

Os promotores ajuizaram 19 ações cíveis contra várias partes em provas que incluíam um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) mostrando vestígios de pelo menos 10 agroquímicos em amostras de água, sedimento de rio e até solo de dentro da APA da nascente do rio Paraguai. Mas não venceram em nenhuma das ações, nem conseguiram um acordo com os fazendeiros para reduzir a quantidade e a toxidade dos agrotóxicos que utilizam em suas lavouras. Em vez disso, foi o procurador da comarca de Diamantino, Daniel Zappia, que acabou sendo alvo de um processo administrativo do CNMP , a mando de um dos fazendeiros investigados: o ministro Mendes.

“Já provamos que os agroquímicos usados ​​nas cabeceiras chegam aos rios Pantanal e que todos os estuários do bioma estão contaminados”, diz o biólogo Calheiros, que liderou o estudo da UFMT que encontrou vestígios de agroquímicos na unidade de conservação.

Uma das toxinas encontradas pelos pesquisadores da UFMT é a atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004 e que nos anos 1990 levou ao fechamento dos sistemas de abastecimento de água na Itália após a identificação de altas concentrações do produto.

A atrazina em humanos causa irritações na pele, olhos e sistema respiratório. Esses mesmos sintomas vêm aumentando entre os moradores de Cáceres ao longo do baixo rio Paraguai, segundo Claudia de Pinho, coordenadora da Rede Cáceres de Comunidades Tradicionais do Pantanal. “Algumas comunidades reclamam muito de doenças de pele. Isso piorou ainda mais após a queima de 2020 ”, diz ela. Na APA da Fonte do Rio Paraguai, os incêndios florestais de 2020 afetaram 70% da área protegida.

“O desmatamento que ocorre em altitudes mais elevadas envia sedimentos pelos rios para a planície de sedimentos, que é o Pantanal”, diz Solange Ikeda, uma das fundadoras do Instituto Gaia , uma ONG de Cáceres que trabalha pela proteção do Pantanal. “Isso reduziu o nível da água e, aqui, alguns centímetros a menos de água já impacta a biodiversidade, que é controlada pelo pulso de inundação.”

No entanto, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso (SEMA) minimizou as conclusões do relatório da UFMT, dizendo que “não demonstrou que os limites legalmente estabelecidos foram ultrapassados” e que “a legislação não inclui limites para muitos dos [ produtos químicos] listados no relatório. ” Na verdade, o limite aceitável do Brasil para os níveis de glifosato na água é 5.000 vezes maior do que na Noruega e na União Europeia.

Impacto no fundo da bacia

O modo de vida dos moradores do Pantanal mudou com a qualidade da água: já se foi o tempo em que uma pessoa podia matar a sede simplesmente se inclinando na lateral de sua canoa. “Não podemos mais beber do rio porque nos dá diarreia e vômito. Hoje em dia, quando vou pescar, tenho que levar uma garrafa de água mineral ”, diz Lourenço Leite, o pescador de Cáceres. Mas, uma vez que os sintomas que ele descreve surgem tão comumente de casos de envenenamento agudo por agrotóxicos quanto de infecção por parasitas e bactérias que podem ser encontrados na água, é difícil atribuir a culpa.

Mas foi demonstrado que os agroquímicos fluem das planícies altas para a bacia inferior. Um estudo de 2014 verificou a presença de sete dessas substâncias na Bacia do Rio Cuiabá, que também abastece o Pantanal. Segundo os autores, “atos realizados na alta bacia podem impactar diretamente o Pantanal”. As evidências chamaram a atenção de cientistas do exterior, e agora uma equipe de pesquisadores do Brasil, Argentina e Reino Unido está trabalhando no assunto. Eles ainda não divulgaram suas descobertas.

Pescador tradicional do rio Paraguai no município de Poconé, MT. Imagem de André Dib.

Um estudo de 2008 , liderado por Débora Calheiros e três outros pesquisadores, mostrou a presença de quatro agrotóxicos, alguns deles usados ​​em fazendas de soja, em amostras de água do Pantanal. Como o cultivo da soja ainda é uma atividade nova no bioma, isso reforça a hipótese de contaminação da bacia hidrológica.

O agronegócio vem avançando nas fronteiras do Pantanal em um ritmo lento, mas constante . Em 1985, a atividade agropecuária ocupava cerca de 4% do bioma. Hoje, esse número é de 16%, principalmente a pecuária. A soja é responsável por 0,01% do uso da terra no Pantanal. Mas a pressão para abrir novas terras para a agricultura aumentou significativamente na última década porque a demanda excede a capacidade das fazendas existentes, embora a produtividade tenha aumentado desde os anos 1980.

“A soja começou a surgir no Pantanal há dez anos”, diz Clovis Vailant, do Instituto Gaia. “As fazendas já ocupam toda a planície da fronteira com o Paraguai e a Bolívia, de onde vem se espalhando de oeste para leste. O Pantanal está bem no caminho desse crescimento, é a última barreira. ”

A agricultura já chegou a Cáceres e a Poconé, a cerca de 180 km de distância. “Já estávamos sentindo o impacto da agricultura na bacia alta e agora há plantações de soja no Pantanal”, diz Claudia de Pinho, da Rede Cáceres. “Isso nos deixa ainda mais preocupados com a contaminação, porque ela está acontecendo ainda mais perto das comunidades tradicionais. Temos comunidades em Poconé que estão tendo dificuldade em manter suas hortas vivas. Os vegetais morrem porque o vento traz pesticidas das áreas circundantes e os impacta diretamente. ”

De acordo com as projeções dos cientistas , se o crescimento das fazendas continuar neste ritmo, o agronegócio terá substituído a vegetação nativa em uma área de 1,4 milhão de hectares (3,5 milhões de acre) da Bacia do Alto Paraguai até 2050, e a quantidade de agrotóxicos usados na região aumentará em 4,3 milhões de litros (1,1 milhão de galões) por ano – o equivalente a duas piscinas olímpicas cheias de agroquímicos tóxicos. O efeito de tudo isso em grandes altitudes não será grande: representaria um aumento de 7% sobre o volume de agroquímicos usados ​​hoje. Mas nas planícies do Pantanal, onde hoje há pouco uso de agrotóxicos, o aumento pode chegar a 50%.

Bando de andorinhas-do-mar (Phaetusa simplex) nas margens do rio Cuiabá no município de Poconé, Mato Grosso. A relação entre os recursos hídricos e a biodiversidade é muito importante no bioma Pantanal e a poluição da água devido aos agroquímicos pode resultar em um desequilíbrio geral. Imagem de André Dib.

Resíduos também chegam à Amazônia

Dos seis municípios brasileiros que mais exportam soja integral para a Noruega, quatro estão entre os maiores usuários de agroquímicos do Brasil . Segundo dados de 2015, estudo de Wanderley Pignati, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso que se tornou a autoridade brasileira em agroquímicos. Há evidências de defeitos de nascença em crianças, mostra o trabalho de Pignati. Ele também observa que as taxas de câncer em crianças da região são superiores à média nacional e as hospitalizações por intoxicações graves são frequentes.

Três outros estudos de 2016 e 2017 mostram que a contaminação por agroquímicos atingiu municípios que ficam na bacia do rio Juruena, que deságua no Tapajós, ele próprio afluente do rio mais poderoso de todos aqui: o Amazonas.

Nos municípios de Sapezal, Campo Novo do Parecis e Nova Ubiratã, os moradores estão consumindo água, peixes, frutas e verduras comprovadamente contaminados por toxinas das fazendas. Nem mesmo os poços artesianos que abastecem as escolas são seguros.

Como a complexa hidrografia da Amazônia é bastante extensa, o efeito das toxinas se dilui, e é difícil provar que elas chegam à floresta. Mas a bióloga Débora Calheiros afirma que a contaminação é real.

“Por ser crônica, a contaminação se espalha. O ingrediente ativo se decompõe após entrar no sistema de água, mas os compostos resultantes dessa decomposição são às vezes mais tóxicos do que o ingrediente ativo. Quem mais sofre são as pessoas que dependem dessa água e dos peixes ”, afirma.

Muita soja, mas comida insuficiente

Além de comprometer a qualidade da água de dois biomas fundamentalmente brasileiros, o sistema de produção de commodities em larga escala também representa uma ameaça à segurança alimentar das populações locais.

Um estudo de 2019 mostrou que os moradores dos municípios de Campo Novo do Parecis, Sapezal e Campos de Júlio obtêm alimentos em outros estados porque é quase impossível cultivar alimentos em uma região onde 98% das terras são dedicadas ao cultivo de culturas comerciais como soja e milho.

Não há espaço suficiente para cultivar frutas e vegetais, ou para criar galinhas e porcos, ou para criar vacas leiteiras. Quem tenta produzir alimentos nesses municípios sofre com a deriva de agroquímicos, fenômeno do vento que leva as toxinas para propriedades vizinhas.

Quase metade das fazendas nesses municípios tem mais de 1.000 hectares (2.500 acres) e são mantidas por apenas alguns proprietários, então o impacto de pulverizar as monoculturas com agroquímicos é grande. “As nuvens de veneno não chegam apenas ao seu alvo (plantas e pragas), mas atingem também os trabalhadores da fazenda e, indiretamente, o ar, o solo e a água, as pessoas que ali vivem, os animais e outras plantas do entorno”, afirma. para o estudo de 2019 .

Este se tornou um dos desafios do dia a dia para os pequenos agricultores agrupados sob a CEIBA, a Associação de Agricultores Familiares do Assentamento Caeté, em Diamantino – um dos principais municípios usuários de agrotóxicos no Brasil e um importante fornecedor de soja para a Noruega.

O CEIBA é formado por cerca de 15 famílias que buscam produzir alimentos com pouco ou nenhum agroquímico. Suas fazendas confinam com os campos de soja, o que exige um esforço extra para proteger os pomares e as hortas dos assentamentos. “Plantamos árvores ao longo das propriedades e do lado que tem soja plantamos mandioca”, diz o agricultor Ruseveth Marques Martins. Eles escolheram a mandioca porque suas folhas se erguem a mais de um metro (3 pés) do solo, formando uma barreira natural contra a deriva; a parte comestível da planta cresce no subsolo, protegida da contaminação do ar.

A deriva compromete a saúde de alunos de escolas próximas às fazendas de soja e mesmo de residentes em áreas urbanas desses municípios. A bióloga Lucimara Beserra identificou resíduos de agrotóxicos na água usada em quatro escolas de Campos de Júlio, Sapezal e Campo Novo do Parecis. “Quem mora aqui está acostumado a ver os aviões jogando veneno”, diz Mauro Flávio de Souza , professor de uma escola da zona rural de Campos de Júlio. “Você pode sentir o cheiro no ar. Se uma pessoa tem algum tipo de alergia a agroquímicos, ela tem que sair da cidade ”.

Pesquisa é tabu na terra dos agrotóxicos

Em 2017, o consumo brasileiro de agrotóxicos foi três vezes maior que a média mundial. Então, só em 2020, o governo do presidente Jair Bolsonaro aprovou o uso de outros 493 agrotóxicos – uma média de quase 10 por semana. Um relatório publicado este ano pelo Parlamento Europeu alerta que um terço dessas substâncias contém ingredientes ativos proibidos ou restritos para uso dentro da UE.

Mas os cientistas brasileiros não podem se mover tão rápido quanto os aviões que lançam os agroquímicos nos campos. “Precisamos de uma rede de laboratórios credenciados, validados e certificados no Brasil para estudar os resíduos de agroquímicos na água, na chuva, na terra, no ar, no sangue, na urina e no leite materno, assim como fazemos na alimentação ”, Afirma Wanderley Pignati, da Universidade Federal de Mato Grosso.

Foi apenas em 2015 que Mato Grosso, estado que mais utiliza agrotóxicos no Brasil, inaugurou seu primeiro laboratório para identificar resíduos de glifosato, o herbicida usado na cultura da soja e que é o mais vendido no Brasil .

Graças a uma parceria com o Ministério Público do Trabalho, o laboratório da universidade federal conseguiu adquirir novos equipamentos. Ainda está em fase de teste para uso devido a atrasos relacionados à pandemia.

Enquanto isso, a universidade conseguiu identificar a presença de 15 princípios ativos, uma fração dos 504 princípios ativos aprovados para uso no Brasil, segundo estudo da pesquisadora Larissa Bombardi .

Por enquanto, a logística de testar qualquer amostra da região para a presença de agrotóxicos significa que ela deve ser enviada à Fiocruz, instituto de pesquisas em saúde pública do Rio de Janeiro, ou percorrer mais de 2.000 quilômetros até Santa Maria Federal Universidade do Rio Grande do Sul. Mesmo assim, ambas as instituições têm capacidade limitada de detecção de glifosato, por exemplo.

O atual mal-estar econômico complica ainda mais as coisas. Os fundos estaduais e federais foram cortados em 80% nos últimos anos, enquanto as bolsas de pesquisa e pós-graduação foram cortadas pela metade. “Nossas instituições parceiras, como o Ministério Público, estão direcionando todos os seus recursos para o combate à pandemia”, diz Pignati.

Os obstáculos não são apenas técnicos e econômicos. Especialistas que pesquisam os efeitos do uso de agrotóxicos no Brasil podem receber ameaças de morte e até serem forçados a deixar o país. Foi o que aconteceu com Larissa Bombardi, autora de um dos estudos mais completos já produzidos sobre o tema.

Em carta aberta que enviou aos colegas da Universidade de São Paulo no dia 3 de março de 2021, Bombardi revelou que havia sido intimidada após a publicação de seu trabalho.

“Em junho de 2019, recebi recomendações de lideranças de movimentos sociais para que eu fizesse diversos rumos e variasse minha agenda para que minha rotina ficasse mais difícil de rastrear e para que eu ficasse mais protegido de possíveis ataques dos setores econômicos envolvidos no tema ao qual dediquei meu trabalho ”, escreveu ela.

Para a Bombardi, a gota d’água foi em agosto de 2020, quando agressores invadiram sua casa. Eles a trancaram no banheiro e levaram seu computador, onde ela salvou todos os seus dados de pesquisa. “[Um] parente perguntou-me se a agressão pode ter tido a ver com o meu trabalho. Todo mundo sabe que eu não salvo meus arquivos na nuvem. Sinceramente, essa hipótese nem passou pela minha cabeça no dia do ataque. E eu realmente não tenho ideia se isso estava relacionado ao meu trabalho. É possível que não tenha sido. Mas eu nunca saberei ”, disse Bombardi antes de deixar o Brasil para morar na Europa.

Imagem do banner: Vista aérea do Parque Nacional do Pantanal, no estado de Mato Grosso, e do rio Paraguai na divisa entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com a Serra do Amolar ao fundo. Imagem de André Dib. 

Este relatório foi financiado pela Future in our hands e publicado pela primeira vez em português em ((o)) eco .

fecho

Esta texto foi publicada em inglês pelo site Mongabay [Aqui!].

Agrotóxicos à base de glifosato persistem por anos em plantas selvagens e causam infertilidade

O glifosato é um herbicida comumente usado em operações florestais em British Columbia, Canadá. Os pesquisadores investigaram como o produto químico pode afetar a saúde reprodutiva da rosa selvagem espinhosa, uma planta perene encontrada sob a copa da floresta. O novo estudo, da editora de acesso aberto Frontiers, descobriu que a viabilidade do pólen diminuiu em média 66% em comparação com as plantas não tratadas um ano após a aplicação inicial do herbicida, com traços de glifosato persistindo por pelo menos dois anos.

Wild,Rose,,This,Rose,Is,The,Alberta,Provincial,Floral,Emblem,also

Flor de rosa espinhosa, Rosa acicularis. Crédito da imagem: BSG_1974 / Shutterstock.com]

Por Peter Rejcek para Frontiers Science News

Um herbicida amplamente utilizado na agricultura, silvicultura e outras aplicações pode causar efeitos deletérios na saúde reprodutiva de uma planta perene selvagem comum encontrada em florestas na Colúmbia Britânica, Canadá. Os pesquisadores relataram na revista Frontiers in Plant Science que os herbicidas à base de glifosato (GBH) deformaram várias partes reprodutivas da rosa espinhosa ( Rosa acicularis ), um ano ou mais depois que os produtos químicos foram aplicados pela primeira vez em locais de campo e parcelas experimentais.

O estudo é um dos primeiros a examinar os efeitos do GBH na morfologia reprodutiva de uma planta perene prevalente em uma operação florestal comercial. O herbicida é comumente usado para controlar plantas que podem competir com coníferas que são cultivadas para serem colhidas em áreas conhecidas como ‘blocos de corte’. O glifosato tem sido usado desde a década de 1970, mas tem sido cada vez mais investigado nos últimos anos devido a preocupações com os efeitos cancerígenos na saúde humana.

Investigadores da University of Northern British Columbia (UNBC) coletaram e analisaram amostras de partes reprodutivas de rosa espinhosa de três blocos de corte, bem como de plantas selvagens cultivadas em estufas, e as compararam com plantas não tratadas de fontes semelhantes.

Os resultados foram surpreendentes. A viabilidade do pólen de plantas tratadas com glifosato caiu em média 66% em comparação com os controles um ano após a aplicação inicial. Mais de 30% das anteras, a parte do estame que contém o pólen, não se abriram (um processo conhecido como ‘deiscência’), condenando essas flores à infertilidade. Além disso, os pesquisadores encontraram traços de GBH nas flores das plantas dois anos depois que o herbicida foi pulverizado pela primeira vez. 

“As mudanças nas plantas foram documentadas no passado, em plantas agrícolas, então não é surpreendente encontrá-las nas florestas”, disse a Dra. Lisa J. Wood, professora assistente do Departamento de Ciência e Gestão de Ecossistemas da UNBC. “O importante é o cronograma. Continuar a encontrar esses efeitos um a dois anos após as aplicações de herbicidas, em novas partes de plantas em crescimento, é digno de nota. ”


  Leia o artigo original
►  Baixe o artigo original (pdf)


Durante séculos, os indígenas usaram a rosa selvagem espinhosa como alimento e remédio, principalmente nas partes reprodutivas. R. acicularis também é uma planta importante ecologicamente, em parte porque fornece alimento para polinizadores. As abelhas, por exemplo, são atraídas por cores específicas exibidas nas flores.

Wood e a autora principal Alexandra Golt, uma estudante de graduação da UNBC, observaram mudanças de cor nas pétalas e anteras das flores de plantas tratadas. Essas anormalidades na coloração podem afetar a interação entre flores e polinizadores.

Wood disse que um estudo de acompanhamento investigará se as mudanças de coloração nas flores tratadas com GHB as tornam menos ou mais atraentes para os polinizadores. Os pesquisadores também vão testar insetos polinizadores e fezes de beija-flores para verificar se há resíduos de glifosato.

“Isso vai nos dizer se os polinizadores estão absorvendo resíduos das plantas de que se alimentam”, explica ela. “Também vamos pesquisar outras plantas para ver se as mudanças que observamos na rosa selvagem também são encontradas em outras flores.”

Wood disse que, embora pesquisas anteriores mostrem que o glifosato não é agudamente tóxico para a maioria dos organismos nos níveis aplicados comercialmente no Canadá, os cientistas não sabem muito sobre as implicações crônicas do uso do glifosato ou como ele muda a dinâmica do ambiente natural – como as interações entre as espécies ou a qualidade dos alimentos disponíveis.

“Quanto mais aprendemos, melhor e a pesquisa sempre pode ser usada para informar melhor a administração”, observou Wood. “As práticas de herbicida podem mudar, se a pesquisa mostrar que isso é do melhor interesse do público.”

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Frontiers Science News [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 64 liberações, governo Bolsonaro chega a 1.238 agrotóxicos liberados em 29 meses

Agrotóxicos-e-câncer

Estava estranhando a falta de novas liberações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro ao longo do mês de maio, mas agora verifiquei que no dia 09 de junho, o Diário Oficial da União publicou o Ato No 26 de 28 de maio de 2021 que traz a liberação de mais 64 agrotóxicos.  Como sempre faço, nos próximos dias o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski trará a lista completa e principais características desses 64 produtos que agora estão liberados para venda no mercado brasileiro de venenos agrícolas.

Mas posso adiantar que substâncias altamente nocivas tiveram vários produtos liberados, a começar pelo “assassino de abelhas“, o Fipronil, que teve pelo menos 8 novos produtos liberados, e o Glifosato, herbicida produzida pela multinacional alemã Bayer que é considerado um precursor do linfoma de Non-Hogdkin, com mais 5 liberações. Mas também identifiquei liberações de produtos banidos na União Europeia por seus efeitos danosos à saúde como a Ametrina e a Atrazina.

Em outras palavras, enquanto o presidente Jair Bolsonaro distrai os brasileiros com suas peripécias motorizadas, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS), continua com sua marcha de aprovação de venenos agrícolas altamente venenosos.  Com isso, se completa um circulo vicioso de envenenamento e mortes por COVID-19.

Ciclo do veneno: frutas exportadas pelo Brasil levam agrotóxicos proibidos na Europa à mesa dos alemães

Teste realizado a pedido do Greenpeace com alimentos brasileiros vendidos em quatro cidades alemãs encontrou 35 substâncias, 11 delas proibidas na Europa. Brasil minimiza e diz que produção agrícola atende a regras internacionais

frutas alemas

Figo, mamão, manga, melão e limão brasileiros dentre as frutas analisadas pelos laboratórios alemães.BENTE STACHOWSKE / © BENTE STACHOWSKE / GREENPEACE

Por Marina Rossi para o jornal “El País”

A Alemanha está consumindo agrotóxicos que são proibidos ali por meio de alimentos importados do Brasil. Testes realizados por laboratórios independentes alemães, a pedido do Greenpeace, com 70 frutas brasileiras, detectaram ao menos 11 substâncias cujo uso é banido em toda a União Europeia. No total, foram encontrados 35 agrotóxicos diferentes em frutas brasileiras, como manga, mamão, limão e figo, comercializadas nas cidades alemãs de Hamburgo, Colônia, Leipzig e Stuttgart. Dessas, 21 pertencem ao grupo de Pesticidas Altamente Perigosos, uma classificação criada pela agência da ONU para a alimentação e agricultura (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar da proibição do uso em solo europeu, muitos desses agrotóxicos são produzidos por empresas sediadas em países da Europa, como as alemãs BASF e Bayer, e depois exportados para o Brasil. Segundo o Greenpeace, no início de 2020 essas duas empresas detinham a produção de 12% dos pesticidas aprovados no Brasil. Marina Lacôrte, porta-voz da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil, defende, portanto, que não só o uso mas também a produção dessas substâncias sejam proibidas no território europeu. “Se o governo estabelece que os alemães não podem ingerir essa substância, por que não ter uma legislação proibindo a produção delas?”, questiona. “Por que uma criança europeia não pode consumir determinados agrotóxicos e as crianças brasileiras podem?.”

Os questionamentos de Lacôrte são levantados em um momento crucial tanto para o Brasil quanto para países europeus, já que a exportação agrícola é uma das peças-chave do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. O tratado ainda precisa ser ratificado por todos os países envolvidos, mas a França em especial tem se mostrado resistente, exigindo cláusulas de proteção aos seus produtos agrícolas e um compromisso do Governo brasileiro com o desmatamento, um dos pontos nevrálgicos do Governo Bolsonaro. Por outro lado, a mesma França encabeça o ranking dos países europeus exportadores de agrotóxicos para o Mercosul, seguida pela Grã-Bretanha, Alemanha, Bélgica e Espanha, segundo a ONG ambiental. Diante do impasse, os ambientalistas pedem que a União Europeia seja “consistente” e não ratifique o acordo, que pode deixar inclusive os agrotóxicos mais baratos, por meio de isenções fiscais, e “aumentar significativamente a venda e o uso de venenos agrícolas europeus.”

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil, responsável por fazer o controle de resíduos de agrotóxicos acima do limite e nos alimentos para exportação, afirmou por meio de nota que “assim como o Brasil permite o uso de alguns pesticidas não registrados na Europa, o oposto também é verdadeiro. Há agrotóxicos registrados na Europa que não são permitidos em território brasileiro”, diz, sem mencionar quais. Segundo o órgão, “essa diferença decorre das diferenças de cultivos, clima e pragas que infestam as plantações em cada parte do globo”, afirma a pasta. “Os pesticidas são, portanto, registrados e utilizados conforme as necessidades nacionais.”

No estudo, foi detectado que 64% das frutas brasileiras estavam com algum resíduo de pesticida. O mamão foi campeão, chegando a apresentar até nove substâncias diferentes em uma única fruta, no que a ONG classifica como um “verdadeiro coquetel de pesticidas”. Entre 2017 e 2020, o Brasil foi responsável por 77% dos mamões importados pela Alemanha. O Greenpeace afirma ter comunicado o Governo alemão sobre os resultados.

O teste foi realizado entre a segunda quinzena de abril e início de maio deste ano. Segundo o laudo, apenas 11 das 70 amostras de frutas não continham agrotóxicos. O Ministério da Agricultura afirma que o fato desses alimentos terem ingressado em território estrangeiro “demonstra que os limites encontrados estão abaixo daqueles internacionalmente considerados como seguros pelas autoridades do país importador ou pelo CODEX Alimentarius [coletânea de padrões reconhecidos internacionalmente sobre segurança alimentar] (FAO/OMS)”. Ainda por meio de nota, o Governo brasileiro diz que “os produtos produzidos e comercializados pelo Brasil são seguros para consumo humano.

Frutas sendo examinadas durante o teste pelo laboratório alemão.

Frutas sendo examinadas durante o teste pelo laboratório alemão. BENTE STACHOWSKE / © BENTE STACHOWSKE / GREENPEACE

No ano passado, o Brasil bateu recorde na aprovação de novos agrotóxicos. Somente em 2020 foram aprovadas 321 substâncias, segundo o Ministério da Agricultura, 59% a mais que em 2019, quando foram liberados 202 pesticidas de acordo com o órgão. Esses registros vêm crescendo ano após ano, mas o Governo minimiza o aumento da aprovação e diz que “97% dos produtos registrados são genéricos, ou seja, já estavam disponíveis no mercado com outros nomes comerciais.”

Para ser registrado no Brasil, um pesticida precisa passar por três instâncias: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avalia e classifica toxicologicamente os agrotóxicos. A avaliação da agência considera tanto o impacto da exposição dos aplicadores quanto os riscos dos resíduos que eventualmente podem ser encontrados nos alimentos tratados. Em seguida, o Ibama realiza a avaliação ambiental das substâncias, estabelecendo suas classificações quanto ao potencial de periculosidade para o meio ambiente. E, então, o Ministério da Agricultura avalia a eficiência agronômica dos agrotóxicos. É também a pasta que concede o registro do químico, após receber os pareceres favoráveis dos órgãos de saúde e do meio ambiente.

O ministério, chefiado pela ministra Tereza Cristina, ainda esclareceu à reportagem que “há tendência de queda no volume médio de defensivos agrícolas aplicados por área tratada”. De acordo com a nota, em 2020 houve redução de 0,1% na quantidade de quilos por hectare. Em 2019 e 2018, sempre na comparação com os anos anteriores, também havia registro de queda, na média, de 1,1% e 0,5%, respectivamente.

Veneno no pacote

Os resíduos de agrotóxicos perigosos para a saúde não estão somente nos alimentos naturais, como frutas, verduras e legumes. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) divulgou recentemente um estudo apontando para a presença dessas substâncias em alimentos ultraprocessados. Cereais, salgadinhos, biscoitos, bebidas de soja, pães e bolos de diferentes marcas apresentaram as substâncias em sua composição. Até mesmo o controverso glifosato, um dos herbicidas mais usados no Brasil ―e um dos proibidos na Europa― e classificado como “provavelmente carcinogênico” pela OMS, foi encontrado em alguns alimentos.

Ao todo, 27 produtos foram analisados pelo Idec, divididos em oito categorias. Dessas, seis apresentaram resíduos de agrotóxicos. Os alimentos onde foram identificados agrotóxicos são: a bebida de soja Naturis (Batavo); o cereal matinal Nesfit (Nestlé); os salgadinhos Baconzitos e Torcida (ambos da Pepsico); os pães bisnaguinha Pullman (Bimbo), Wickbold, Panco e Seven Boys (da Wickbold); os biscoitos de água e sal Marilan, Triunfo (Arcor), Vitarela e Zabet (ambos da M Dias Branco); as bolachas recheadas Bono e Negresco (Nestlé), Oreo e Trakinas (Mondeléz).

O Idec afirma que comunicou aos fabricantes sobre os resíduos encontrados em seus produtos. As empresas que responderam ao Instituto afirmaram que seguem boas práticas dos fornecedores de matéria-prima, ou que a quantidade de substâncias está dentro dos limites. Não há, no entanto, regulação sobre os limites máximos de agrotóxicos em alimentos ultraprocessados, já que a Anvisa monitora essas substâncias apenas nos alimentos naturais.

A Lactails, responsável pela Batavo, informou, após a publicação desta reportagem, que não foi comunicada sobre o estudo do Idec. Por meio de nota, a empresa também afirma que todos seus insumos “são controlados e monitorados através de laudos externos e atendem rigorosamente à legislação brasileira”, e que “a empresa tem uma política rígida na escolha de seus fornecedores de insumos, homologando apenas aqueles que cumprem com todas as exigências legais e de segurança alimentar”.

fecho

Este texto foi publicado originalmente pelo jornal “El País” [Aqui!].

Solos do mundo ‘sob grande pressão’, diz relatório da ONU

Os solos fornecem 95% de todos os alimentos, mas são danificados pela poluição industrial, agrícola, da mineração e urbana

glyphosate spray

O herbicida glifosato é pulverizado em um campo de milho no noroeste da França. Fotografia: Jean-François Monier / AFP / Getty

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

Os solos do mundo, que fornecem 95% dos alimentos da humanidade, estão “sob grande pressão”, de acordo com um relatório da ONU sobre a poluição dos solos.

soil seed

Os solos também são o maior estoque ativo de carbono, depois dos oceanos, e, portanto, cruciais no combate à crise climática. Mas o relatório disse que a poluição industrial, mineração, agricultura e gestão deficiente de resíduos estão envenenando os solos, com o princípio do “poluidor pagador” ausente em muitos países.

Os poluentes incluem metais, cianetos, DDT e outros agrotóxicos e produtos químicos orgânicos de longa duração, como PCBs, disse o relatório, tornando os alimentos e a água inseguros, reduzindo a produtividade dos campos e prejudicando a vida selvagem. No entanto, ele disse que a maioria das emissões de poluentes que acabam nos solos não são facilmente quantificadas e, portanto, o verdadeiro dano permanece altamente incerto.

A produção global de produtos químicos industriais a cada ano dobrou desde 2000 para 2,3 bilhões de toneladas, disse o relatório, e está projetada para quase dobrar novamente até 2030, o que significa que a poluição do solo deve aumentar ainda mais. A ONU também alerta sobre contaminantes emergentes, incluindo produtos farmacêuticos, antimicrobianos que levam a bactérias resistentes a medicamentos e plásticos.

“Os solos globais estão sob grande pressão”, disse Qu Dongyu, chefe da organização de alimentos e agricultura da ONU. “Esta fina crosta da superfície da Terra, o solo, sustenta toda a vida terrestre e está envolvida em muitos serviços ecossistêmicos essenciais para o meio ambiente e para a saúde e o bem-estar humanos.”

Inger Andersen, chefe do programa ambiental da ONU (Unep), disse: “A poluição do solo pode ser invisível aos olhos humanos, mas compromete os alimentos que comemos, a água que bebemos e o ar que respiramos. A poluição não conhece fronteiras – os contaminantes se movem pelo solo, pelo ar e pela água.

“É hora de nos reconectarmos com nossos solos, pois é aí que começa a nossa alimentação”, disse ela. “A poluição do solo não deveria mais ser uma realidade oculta. Vamos todos ser parte da solução para a poluição do solo. ”

O futuro dos solos parece “sombrio” e seu estado é pelo menos tão importante quanto a emergência climática e a destruição do mundo natural acima do solo, de acordo com os cientistas por trás de outro relatório da ONU sobre a biodiversidade do solo , publicado em dezembro. Desde a Revolução Industrial, cerca de 135 bilhões de toneladas de solo foram perdidas em terras agrícolas e, uma vez que leva milhares de anos para os solos se formarem, é necessária a proteção e restauração urgente dos solos restantes, disseram os cientistas.

O novo relatório da ONU conclui: “Os contaminantes do solo podem ter consequências irreparáveis ​​para a saúde humana e do ecossistema”. A maior fonte de poluição do solo varia por região, concluiu. O maior problema é a poluição industrial na Europa Ocidental e América do Norte, agricultura na Ásia, América Latina e Europa Oriental, e mineração na África Subsaariana. No norte da África e no próximo leste, a poluição urbana é a maior fonte de contaminação.

“A etapa fundamental para identificar o responsável pela poluição ainda está faltando em muitos estados”, disse o relatório. “Espera-se que a poluição do solo aumente, a menos que haja uma rápida mudança nos padrões de produção e consumo e um compromisso político em direção a uma gestão sustentável real onde a natureza seja totalmente respeitada.”

“É necessário um maior compromisso político, empresarial e social para buscar alternativas ao uso de contaminantes altamente tóxicos e para aumentar o investimento em pesquisa, prevenção e remediação”, disse o relatório, observando que limpezas após a poluição podem custar centenas de milhões de dólares . Os solos do mundo também estão sendo danificados por outros fatores, incluindo erosão, acidificação, contaminação por sal e compactação.

Um relatório de 2017 descobriu que um terço das terras do planeta está gravemente degradado e que o solo fértil estava sendo perdido a uma taxa de 24 bilhões de toneladas por ano. O secretário de meio ambiente do Reino Unido disse em 2017 que o país estava de 30 a 40 anos longe da “ erradicação fundamental da fertilidade do solo ” em alguns lugares.

fecho

Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Documento aponta relação entre agrotóxicos e o agravamento da COVID-19

Documento aponta relação entre agrotóxicos e o agravamento da COVID-19

pesticide_viapixabay

Por Rede Brasil Atual

São Paulo – Documento lançado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) aponta a relação dos agrotóxicos com o agravamento da COVID-19. Maior mercado consumidor mundial desses produtos, que tende a aumentar, o Brasil avança para chegar a meio milhão de mortos.

Trata-se do relatório Agronegócio e pandemia – uma sindemia está agravando a pandemia de covid-19?.

“Segundo os pesquisadores, os agrotóxicos têm efeitos no sistema imunológico e neurológico. E a covid-19 é uma doença sistêmica, o que pode agravar os quadros de infecção”, disse à repórter Girrana Rodrigues, da TVT, a médica Lia Giraldo, professora da pós-gradução em Saúde Pública no Instituto Aggeu Magalhães, em Pernambuco.

Sindemia dos agrotóxicos

Essa relação dos agrotóxicos com a covid-19, aliás, tem um nome ainda pouco conhecido: sindemia. É a interação sinérgica entre duas ou mais doenças que se desenvolvem simultaneamente em indivíduos de um dado grupo populacional marcado por condições socioeconômicas desfavoráveis, como populações indígenas, negras e de trabalhadores rurais pobres, afetando negativamente a evolução de cada uma dessas doenças.

“Quando relatórios nos mostram que a saúde da população está sendo prejudicada, que o sistema imunológico da população está sendo enfraquecido, que diversas dessas comorbidades agravam ainda mais os efeitos da covid-19 são causadas pelos agrotóxicos, a gente consegue reforçar e ter muito mais clareza de que a luta contra os agrotóxicos é necessária”, disse o coordenador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, Alan Tygel.

 O estudo aponta ainda que o desflorestamento e a exploração de recursos naturais, acentuados nos dias atuais, podem causar outras pandemias tão graves como a COVID-19. “Desflorestar, que é o que o agronegócio faz, cria um ambiente propício a novos episódios dessas pandemias zoonóticas”, disse Lia Giraldo.

A saída é a agroecologia

Para reverter esse quadro, segundo os especialistas, a única saída é uma política pública que incentive a expansão da agroecologia.

“Nós temos por um lado o agronegócio, que desde os anos 1960 recebem incentivos estatais e até de fora do país para se estabelecer. E por outro lado o modelo da agroecologia, que vive lutando por parcos recursos aqui e ali. Quando a gente tiver, de fato, investimentos em política pública séria e focada na produção de alimentos agroecológicos, as barreiras técnicas deixam de existir”, disse Tygel.

Participaram do estudo do Grupo de Trabalho Saúde e Ambiente da Abrasco a Rede Internacional para Eliminação dos Poluentes (International Pollutants Elimination Network – IPEN).

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Webinar sobre a exposição ocupacional a agrotóxicos e seus efeitos na saúde dos trabalhadores agrícolas: estudos epidemiológicos no Chile e no Brasil

exposição

12 de maio de 2021

Hora: 12:00h – 13:30h (EST, USA) (Washington DC)

Série de webinars ISEE LAC-OPAS: uma colaboração para a educação permanente em epidemiologia ambiental

Inscreva-se aqui

Organização:  Capítulo para América Latina e Caribe da Sociedade Internacional de Epidemiologia Ambiental (ISEE-LAC) em colaboração com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS / OMS)

Objetivos:  Apresentar os resultados de pesquisas recentes focadas na exposição ocupacional a agrotóxicos e gerar um espaço para discutir sua relevância e implicações para a saúde dos trabalhadores agrícolas dos países da América Latina e do Caribe.

Público-alvo:  Alunos inscritos no  Curso Online de Epidemiologia Ambiental do Campus Virtual de Saúde Pública ; alunos de graduação e pós-graduação, técnicos, profissionais e gestores de saúde ambiental e de saúde pública em geral e a população em geral com interesse no assunto.

Apresentações e palestrantes: 

1. introdução
A região da América Latina e do Caribe representa 14% da produção agrícola mundial e 23% das exportações mundiais de produtos agrícolas e pesqueiros. Embora a produção agrícola na região deva desacelerar nos próximos anos, seu rápido crescimento nas últimas décadas tem sido associado ao uso extensivo de pesticidas, uso limitado de equipamentos de proteção individual pelos trabalhadores agrícolas e à falta ou implementação inadequada de regulamentos relacionados a o uso de agrotóxicos. O uso intensivo de agrotóxicos na região, para fins agrícolas e de controle de vetores (por exemplo, para combater a dengue e a malária), resultou na exposição ocupacional crônica dos trabalhadores agrícolas aos agrotóxicos. Esses trabalhadores são expostos a misturas de pesticidas como inseticidas (por exemplo, organofosforados) e herbicidas (por exemplo, glifosato) por meio de sua aplicação direta ou de seu trabalho em campos agrícolas tratados com esses produtos químicos. Vários estudos epidemiológicos têm mostrado que a intoxicação aguda por pesticidas representa uma das principais causas de morbidade e mortalidade entre os trabalhadores agrícolas. Além disso, a exposição de longo prazo a pesticidas como organofosforados e carbamatos tem sido associada a uma ampla gama de efeitos crônicos na saúde, incluindo função neurocomportamental prejudicada, problemas respiratórios, obesidade e diabetes.

julieta-rodriguez

Apresentadora: Julieta Rodriguez, MD MScA SO

Bio:  Dra. Rodríguez é especialista em Saúde Ocupacional. Ela tem um Mestrado em Saúde Ocupacional e um Diploma em Epidemiologia Ocupacional. O Dr. Rodríguez atua como Assessor Regional de Saúde do Trabalhador na Unidade PS de Promoção da Saúde e Determinantes Sociais do Departamento de Família, Promoção e Curso de Vida FPL da Organização Pan-Americana da Saúde / Organização Mundial da Saúde (OPAS / OMS).
 

2. Exposição ocupacional e ambiental a agrotóxicos e efeitos na saúde dos agricultores familiares no Brasil

buralli

Palestrante: Dr. Rafael Buralli 

O Dr. Buralli apresentará os resultados de seu projeto de doutorado na Universidade de São Paulo. O projeto transversal avaliou a exposição a agrotóxicos e sintomas de intoxicação e efeitos na saúde respiratória e mental de agricultores familiares no Estado do Rio de Janeiro, Brasil.

Estava: Dr. Rafael Buralli é fisioterapeuta, mestre e doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP / USP), com intercâmbio no Centro de Pesquisas em Meio Ambiente e Saúde da Criança (CERCH), da University of California (UC) em Berkeley e outro na University of Chile. Atualmente, o Dr. Buralli é consultor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS / OMS) na Coordenação-Geral de Saúde Ocupacional do Ministério da Saúde do Brasil (CGSAT / DSASTE / SVS / MS), atuando em diversos temas de vigilância na saúde, saúde ambiental, emergências ocupacionais e de saúde pública. Ela tem um interesse especial em questões relacionadas à saúde ambiental e ocupacional, saúde materno-infantil e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

3. Plataforma de pesquisa para trabalhadores agrícolas para estabelecer danos à saúde no Chile 

cortes

Palestrante: Sandra Cortés, PhD

Bio:  Dra. Cortés é Médica Veterinária, Mestre em Ciências Biológicas e Doutora em Saúde Pública (Universidade do Chile). Ela trabalha como Professora Associada no Departamento de Saúde Pública da Pontificia Universidad Católica de Chile. Dr. Cortés é Pesquisador Associado do Centro Avançado de Doenças Crônicas e da Coorte Maule (MAUCO) e Pesquisador Associado do Centro de Desenvolvimento Urbano Sustentável. Ela também é a Diretora Acadêmica do Diploma de Saúde Ocupacional da Universidade Católica (http: //educacioncontinua.uc. Cl / 39087-tab-nuevo-diploma-em-saúde-ocup … ) e Pesquisadora-chefe da Rede Chilena de Pesquisadores em Trabalhadores na Agricultura.

4. Discussão

ana maria mora

Moderadora: Ana María Mora, PhD – representante de ISEE-LAC

Estava: Dra. Mora é pesquisadora do Centro de Pesquisa sobre Meio Ambiente e Saúde Infantil da UC Berkeley (CERCH). Ele obteve seu diploma de Medicina pela Universidade da Costa Rica em 2005 e seu Ph.D. em Epidemiologia pela Escola de Saúde Pública da UC Berkeley em 2014. Seus estudos estão focados principalmente nos efeitos sobre a saúde da exposição a substâncias tóxicas ambientais. como pesticidas, metais e ftalatos, em populações vulneráveis. Dr. Mora é um co-investigador de dois estudos de coorte de nascimento: o Programa ISA na Costa Rica e o Estudo do Centro de Avaliação da Saúde Materno-Infantil de Salinas (CHAMACOS) na Califórnia, Estados Unidos. Atualmente faz parte do Comitê Executivo do Capítulo LAC do ISEE.

Agenda

Hora Atividade Responsável
12:00 – 12:10 Boas-vindas, introdução, apresentação dos palestrantes
 
Julieta Rodriguez
12:10 – 12:30 Exposição ocupacional e ambiental a agrotóxicos e efeitos na saúde de agricultores familiares no Brasil Rafael Buralli
12:30 – 12:50 Plataforma de pesquisa para trabalhadores agrícolas para estabelecer danos à saúde no Chile Sandra Cortes
12:50 – 13:20 Discussão Ana maria Mora
13:20 – 13:30 Fechando Ana maria Mora

Tribunal da França manobra e livra indústrias de agrotóxicos de condenação no caso Agente Laranja

Ao se declarar incompetente para julgar, corte francesa favorece indústrias de agrotóxicos que supriram exército dos EUA de armas químicas que até hoje fazem vítimas no Vietnã

agente-laranjaHelicóptero dos Estados Unidos despeja combinação de agrotóxicos altamente tóxicos sobre floresta no Vietnã

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Um tribunal da França favoreceu indústrias de agrotóxicos ao se declarar incompetente para julgar uma ação na qual eram acusadas de causar diversas danos à saúde de Tran To Nga, uma ativista franco-vietamita de 79 anos. Em decisão anunciada nesta segunda-feira (10), a Justiça de Evry, nos arredores de Paris, declarou não ter competência para julgar a responsabilização da Bayer, dona da Monsanto, a Dow Química e mais uma dezena de fabricantes de herbicidas componentes do Agente Laranja, arma química usada pelos Estados Unidos contra o Vietnã.

O tribunal também se declarou incompetente para julgar ações do governo dos Estados Unidos durante a guerra contra aquele país asiático. Segundo a imprensa local, o argumento foi que “as empresas estavam agindo por ordem do governo dos Estados Unidos, que estava envolvido em um ato soberano”.

Entre 1962 e 1971, aviões e helicópteros das forças estadunidenses despejaram milhares de toneladas de Agente Laranja sobre florestas e lavouras. O objetivo era localizar e atingir soldados vietnamitas, além de quebrar a produção de alimentos do país.

Agrotóxicos na guerra

A ativista, uma ex-jornalista nascida em 1942 na então Indochina francesa, também acusou os fabricantes de agrotóxicos de causar danos graves a outras pessoas. Desde a guerra, mais de 150.000 crianças nasceram com graves deformidades. E muitos casos continuam sendo registrados mesmo após 50 anos do fim da guerra.

Organizações de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente estimam que quatro milhões de pessoas no Vietnã, Laos e Camboja foram expostas aos 76 milhões de litros de Agente Laranja pulverizados.

Até agora, apenas veteranos militares dos Estados Unidos e de seus aliados Austrália e Coreia obtiveram indenização pelos efeitos colaterais do produto químico altamente tóxico. Isso inclui deformidades graves em filhos desses soldados.

A gigante química alemã Bayer, dona da Monsanto, e as outras empresas acusadas argumentaram que não podiam ser responsabilizadas pelo uso que os militares americanos fizeram de seu produto.

Tribunal na França

Para o agrônomo Leonardo Melgarejo, coordenador-adjunto do Fórum Gaúcho de Combate aos Agrotóxicos, a decisão do tribunal na França é um “atestado de ausência de culpa, para quem tem culpa. Ou seja, uma espécie de troféu”. “Passa um verniz de inocência e preocupação com a saúde pública, que não é real”, disse à RBA.

Conforme destacou, essas empresas são responsáveis por danos concretos a toda uma gama de direitos humanos. “E gastam milhões na formatação de discursos ilusórios. Com certeza se beneficiarão de todo elemento que contribua para desviar o foco de dramas reais”.

“Isso fica evidente em publicação recente da FIAN, bem como posicionamento do relator especial da ONU sobre produtos tóxicos. Alias, é o terceiro relator da ONU a apontar os mesmos crimes, o que demonstra a longevidade da prática e a fragilidade dos governos quando o assunto é agrotóxicos e os direitos humanos”.

Vietnã no Brasil

Para o geógrafo Marcos Pedlowski, professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) a decisão isenta as corporações produtoras de venenos agrícolas. “Além disso, contribui para a dupla moral dos países sede dessas companhias, que proíbem muitos deles dentro dos seus territórios. Mas liberam para venda no sul global ou permitem o seu uso como arma de guerra”, disse.

Conforme ele, o uso recente de agrotóxicos como armas químicas contra comunidades indígenas e quilombolas no Brasil mostra que a herança da Guerra do Vietnã está muito viva. “O que me parece evidente é que na inexistência de estruturas de contenção do avanço do latifúndio agroexportador sobre territórios ocupados por comunidades tradicionais, o agrotóxico está se tornando mais um instrumento para a sua remoção de áreas alvo para a implantação de monoculturas de exportação.”

“Em outras palavras, está se usando os agrotóxicos na sua função original, já que foi criado para serem armas químicas”, ponderou Pedlowski.

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!  ].