Relatório analisa impacto socioambiental das principais fibras utilizadas na indústria da moda

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  • O relatório “Fios da Moda”, lançado hoje na Semana Fashion Revolution, traz informações sobre a produção e os impactos ambientais do algodão, do poliéster e da viscose.
  • O Brasil é o segundo maior exportador de algodão do mundo, cultura que consome o dobro de agrotóxicos aplicados no cultivo da soja; maiores impactos são no Cerrado.
  • O descarte também é um problema: só no centro de São Paulo estima-se que sejam descartadas mais de 60 toneladas de resíduos têxteis por dia; o poliéster pode levar até 400 anos para se decompor.
  • O algodão orgânico no Brasil tem tido um crescimento lento, mas promissor; no Nordeste, o cultivo agroecológico contribui para a segurança alimentar.
Por Sibélia Zanon para o Mongabay

Para muito além do preço que se paga por cada peça nova de roupa, existe um custo socioambiental invisibilizado na etiqueta. Desde a produção das três fibras mais utilizadas pela indústria da moda – o algodão, a viscose e o poliéster – até o descarte da peça de roupa há um longo caminho que passa pelo uso do solo, a toxicidade gerada durante os processos de plantio e fabricação, o uso de água e energia, as emissões de gases de efeito estufa (GEE), o descarte de resíduos e a mão de obra envolvida em toda a cadeia produtiva.

O relatório “Fios da Moda”, com lançamento oficial hoje durante a Semana Fashion Revolution, é a primeira publicação brasileira a analisar em detalhes esses impactos. Publicado pela Modefica, plataforma de moda com foco em sustentabilidade, em parceria com a Regenerate Fashion e a Fundação Getulio Vargas, o relatório faz uma avaliação qualitativa e quantitativa do quanto as fibras têxteis têm contribuído para a crise climática e a desigualdade social.

Segundo Marina Colerato, autora do relatório, a escassa produção de informações e dados sobre a indústria da moda no Brasil é ponto de atenção. “Se a gente está vivendo na década final para a questão do clima, para a redução de emissões de CO2, é bastante alarmante que as empresas de grande porte não façam mensuração das emissões de CO2”, alerta a também coordenadora do Modefica. “Se a gente não está produzindo dados, a gente não está olhando para o problema. E se a gente não está olhando para o problema, a gente não vai agir sobre ele”.

O setor têxtil brasileiro compreende todas as etapas da confecção, desde o plantio de algodão até o varejo, e é referência mundial em segmentos como jeans e moda praia. A cadeia produtiva é fragmentada, contando com grande número de fornecedores, o que dificulta a rastreabilidade de impactos causados ao longo das diversas etapas do processo produtivo.

Com cerca de 9 bilhões de peças de roupa produzidas por ano e destinadas sobretudo ao mercado interno, o Brasil faturou US$ 48,3 bilhões em 2018. Como exportador de vestuário, o país ocupa o 83º lugar, mas, quando se trata da exportação de commodities como o algodão, o Brasil é o segundo maior e também está entre os principais exportadores de polpa de celulose solúvel, matéria-prima que vem da madeira e dá origem à viscose.

Segundo a consultoria McKinsey, o setor têxtil representa 6% das emissões globais de gases de efeito estufa e de 10 a 20% do uso de pesticidas. Lavagem, solventes e corantes usados na fabricação são responsáveis por um quinto da poluição industrial da água, e a moda é responsável por 20 a 35% do fluxo de microplásticos para o oceano.

Confecção em Salvador (BA): o setor têxtil brasileiro compreende todas as etapas da confecção, do plantio de fibras ao varejo, Foto: Jefferson Peixoto/Secom.

Algodão consome 28 litros de agrotóxicos por hectare

Entre as fibras mais produzidas, o poliéster representa 51% da produção mundial, seguido pelo algodão com 25%. O Brasil é o quarto maior produtor mundial de algodão e, dentre as fibras produzidas no país, o algodão lidera com mais de 90% da produção. Ainda que tenha a vantagem de ser uma fibra natural, o algodão deixa um rastro pesado no meio ambiente. Segundo o relatório Fios da Moda, trata-se da quarta cultura que mais consome agrotóxicos, sendo responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizado no Brasil, com uma aplicação média de 28 litros de pesticidas por hectare – mais do que o dobro aplicado na soja, commodity que recebe 12 litros por hectare.

“A Abrapa (Associação Brasileira de Produtores de Algodão) é uma das associações que mais está se esforçando politicamente para a aprovação da chamada PL do veneno”, diz Marina, referindo-se ao projeto de lei que regulamenta o uso de novos agrotóxicos. O Brasil já é conhecidamente permissivo em relação ao uso de pesticidas, se comparado a outros países. Segundo o atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, revisado em 2019 pela pesquisadora Larissa Mies Bombardi, dos 160 agrotóxicos autorizados para o cultivo do algodão no Brasil, 47 são de uso proibido na União Europeia.

A pressão pela expansão de áreas de cultivo é outro aspecto que se soma ao custo socioambiental da fibra. Segundo o relatório “Perspectivas para a Agropecuária 2019/20”, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a área para o plantio do algodão aumentou 37,1% na safra 2018/19 em relação à safra anterior, atingindo 1,61 milhão de hectares de área. O Mato Grosso e a Bahia respondem por 88% do total da área de cultivo do algodão no Brasil. Isso aponta para uma grande pressão sobre o Cerrado, bioma que já perdeu 55% de sua vegetação nativa e concentra a maior parte da cultura algodoeira por ter suas estações de seca e chuva mais definidas, favorecendo o cultivo em regime de sequeiro, ou sem irrigação, predominantemente praticado no Brasil.

O setor algodoeiro se orgulha por ter mais de 90% da safra 2018/19 certificada no Brasil com o selo Better Cotton Initiative (BCI), que configura a produção responsável de algodão. “O BCI, como o nome já diz, ele é melhor, mas ainda não é bom”, afirma Silvio Moraes, embaixador da certificadora Textile Exchange para a América Latina. “O Brasil está longe de ser um bom exemplo de país com produção sustentável de algodão. O selo BCI garante, na teoria, que o agrotóxico tenha registro e seja aplicado de forma correta, com equipamentos de segurança e tudo mais, mas ele não busca reduzir o uso de agrotóxico”.

Cultura de algodão em Lucas do Rio Verde (MT): campeã em uso de agrotóxicos. Foto: Alan Santos.

Poliéster, campeão em emissões de GEE

A segunda fibra produzida no Brasil é o poliéster, que representa 5% da produção nacional e inicia sua cadeia produtiva com o refino de petróleo e a obtenção da nafta. O uso de combustível fóssil faz dela a fibra campeã em emissões de gases de efeito estufa. Além disso, o poliéster solta microplásticos, que já foram encontrados na água potável, no peixe servido à mesa, e em vários órgãos do corpo humano. Estudo recente indica que as micropartículas das roupas de material sintético podem prejudicar a recuperação dos tecidos pulmonares em pacientes com doenças respiratórias, como a covid-19.

O poliéster reciclado, feito a partir de garrafas PET, cresceu nos últimos anos. A relevância da reciclagem é indiscutível, mas o relatório “Fios da Moda” aponta para o fato de que o problema não é solucionado, mas muda de endereço. Se o material oriundo da reciclagem de garrafa PET não volta para a produção das garrafas, mas é direcionado a outros produtos como o poliéster, as novas garrafas PET que chegam ao mercado continuarão demandando matéria-prima virgem em sua produção.

“PET é um produto bom porque você consegue reciclar”, comenta Silvio. “Ele retorna para o ciclo econômico, mas com algum custo, e às vezes não retorna 100% do material que foi colocado no mercado. Agora, quando você fala do algodão, ele é 100% reciclável. Ou vai ser reciclado na forma de fibra, retornando para o ciclo industrial, ou ele vai apodrecer e virar um composto no fim das contas”, compara.

Viscose, provável motora do desmatamento

Em terceiro lugar no cenário das fibras está a viscose, fibra artificial que tem a produção semelhante à da celulose para papel e usa no processo materiais corrosivos, como a soda cáustica e o ácido sulfúrico. A polpa da madeira extraída de árvores é transformada em fibra de celulose e, então, em fios de viscose. O Brasil está entre os 10 principais produtores de celulose, representando cerca de 11% da produção mundial em 2019.

Quando falamos em celulose, falamos na eucaliptocultura, que ocupa no Brasil território equivalente a 80% do tamanho de Portugal. Tanto a cultura do eucalipto quanto a do algodão utilizam entre 7 a 10 dos principais tipos de agrotóxico vendidos no Brasil, incluindo o glifosato, apontado como altamente tóxico e cancerígeno.

Somando-se a isso, a consultoria Canopy estima que 30% da viscose produzida no mundo é proveniente de árvores de florestas nativas e ameaçadas de extinção, incluindo a Amazônia. “Os números do desmatamento ilegal refletem de alguma forma na indústria da moda porque a gente tem uma produção de celulose bastante considerável e baixo rastreamento” afirma Marina. “Ninguém me garante que a celulose solúvel que está saindo do Brasil não vem de floresta desmatada”.

Um comparativo entre as fibras, no que se refere às emissões de GEE, mostra que a produção de viscose tem emissão menor do que o poliéster e 50% maior que as fibras de algodão. As emissões do algodão estão diretamente relacionadas ao uso de fertilizantes químicos, herbicidas, inseticidas e fungicidas, além do uso de operações mecanizadas. Se comparado ao cultivo convencional, o cultivo de algodão orgânico reduz em 58% as emissões de GEE.

Cultivo de eucalipto para celulose em Eunápolis (BA), principal matéria-prima da viscose. Foto: Amanda Oliveira/GOVBA.

Demanda por algodão orgânico brasileiro é maior do que a oferta

De acordo com relatório da Textile Exchange, o Brasil é um dos últimos entre os 19 países produtores de algodão orgânico, com 0,04% da produção mundial. Ainda assim, apresentou incremento de 335% na safra 2018/19. “Nós hoje temos uma demanda de algodão orgânico muito maior do que a produção. Então essa demanda está puxando os agricultores a produzirem mais”, afirma Silvio.

Nos últimos anos, o apoio de ONGs para assistência técnica aos agricultores, a comercialização garantida por contratos e parcerias com instituições e empresas preocupadas com sustentabilidade fortaleceram a cadeia de produção.

O plantio de algodão orgânico no Brasil ocorre predominantemente no Nordeste, dentro dos preceitos da agroecologia. “Eu sou muito defensor do algodão orgânico da forma como é produzido no Brasil ou em alguns lugares do Peru, onde é produzido por pequeno produtor com recuperação do ambiente, muitas vezes de forma comunitária e remunerado por preço diferenciado pelo mercado”, explica Silvio. “O algodão agroecológico orgânico brasileiro, todo ele é produzido em consórcios alimentares. Isso dá para o agricultor segurança alimentar”.

A Paraíba é o estado campeão na produção de algodão orgânico. Desde 2015, o Projeto Algodão Paraíba, iniciativa governamental com parceria da Embrapa, apoia pequenos núcleos de agricultores. “Essa é uma coisa completamente nova”, afirma Silvio. “O que puxava a produção do algodão orgânico eram pequenas empresas idealistas e de repente a gente vê uma iniciativa governamental. Quem dera a gente conseguisse replicar isso em outros estados”.

Colheita de algodão agroecológico na Paraíba. Foto: Governo da Paraíba.

Circularidade na indústria da moda

A metade das empresas do segmento têxtil e de confecção está no Sudeste. Apenas na região central da cidade de São Paulo estima-se que os bairros tradicionalmente conhecidos por formarem o maior pólo produtivo de roupas do país, como Brás, Bom Retiro e Vila Maria, descartam mais de 60 toneladas de resíduos têxteis por dia.

Enquanto o algodão leva de 10 a 20 anos para se decompor, alguns tecidos sintéticos demoram entre 100 e 300 anos e o poliéster pode levar até 400 anos. Segundo o “Fios da Moda”, a reciclagem não é uma tarefa incentivada. Enquanto fazer o descarte dos resíduos não custa nada aos produtores, eles pagam aos catadores entre R$ 0,30 e R$ 0,60 pelo quilo de resíduos têxteis recolhidos.

A aplicação da economia circular na indústria da moda seria uma alternativa para reduzir resíduos e poluição, prolongar o uso das peças e regenerar sistemas naturais. Com os princípios da reutilização, reparo e remanufatura, a reciclagem se apresenta como último recurso. A economia circular inclui ainda a regeneração de terras agrícolas e florestais, diminuição de emissões de GEE, cuidados com o uso e poluição das águas, e valorização das pessoas nas diversas etapas da cadeia produtiva. “A gente não pode deixar de pensar que a economia circular também precisa ser restaurativa e regenerativa para com a sociedade. A gente precisa pensar em restauração e regeneração por princípios: das pessoas, da sociedade e do meio ambiente. Então a gente está falando de regeneração socioambiental”, explica Marina.

Algumas iniciativas caminham nessa direção, como é o caso da Re-Roupa, metodologia para reaproveitamento de tecidos e transformação de peças que é aplicada em oficinas de criação coletiva e capacitação. Também praticado por novas marcas, o conceito de upciclyng prega a reutilização criativa de peças em vez do descarte. O movimento Fashion Revolution busca conscientizar sobre os impactos socioambientais do setor e criou a Brasil Eco Fashion Week, semana dedicada à moda sustentável.

“A questão óbvia quando se fala de sustentabilidade de verdade é a circularidade. Qualquer fibra, qualquer produto que seja usado, ele tem que ter dois fins: ou ele retorna para o ciclo econômico, ou ele retorna para o ciclo natural”, diz Silvio. “Fibras orgânicas sempre vão ser preferenciais. E entre elas, no meu ponto de vista, o algodão, o cânhamo e o linho”, acrescenta.

Imagem do banner: Colheita do algodão em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso. Foto: Clauber Cleber Caetano.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Mongabay News [Aqui!].

China e Rússia fazem queixas de agrotóxico e coronavírus em carne e soja exportadas pelo Brasil

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao MAPA

Soya Plantation in the Amazon
Plantação de soja na Amazônia

Por Raquel Lopes / FolhaPress

As embaixadas do Brasil na China e na Rússia reportaram, em telegramas ao Itamaraty, problemas em alimentos brasileiros exportados. Segundo diplomatas, autoridades nos dois países cobram soluções e há até queixa por “falta de controle” em relação aos produtos brasileiros.

Moscou, por exemplo, alertou para o índice de agrotóxico acima do limite permitido. Só em 2020, a reclamação envolveu mais de 300 mil toneladas de soja.

A missão em Pequim, por outro lado, relatou ao menos seis registros de presença do novo coronavírus em embalagens de carne e de pescado.

Nos telegramas, as duas embaixadas disseram que os órgãos de fiscalização da Rússia e da China pediram providência ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A Folha teve acesso a 350 páginas das correspondências enviadas ao Ministério das Relações Exteriores. Os documentos foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Segundo dados do Comex Stat, um sistema do governo para consultas e extração de dados do comércio exterior brasileiro, a soja correspondeu a 25% da exportação brasileira para a Rússia em 2020.

Em um dos telegramas de janeiro, a embaixada do Brasil em Moscou cita que o Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia está preocupado com casos repetidos de detecção de glifosato acima do tolerado.

O documento pontuou que o país está endurecendo o controle sobre a presença da substância em produtos de grãos tanto no mercado interno quanto nas operações de exportação e importação.

A justificativa usada pelo país seria por causa do alto grau de toxicidade do glifosato para humanos e animais, confirmado por estudos da  Organização Mundial de Saúde (OMS).

Como funciona a permissão de agrotóxicos no Brasil

No Brasil, esse tipo de agrotóxico é permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O telegrama assinado pelo embaixador na Rússia, Tovar da Silva Nunes, citou que a agência reguladora russa tem informado repetidamente ao MAPA sobre o fornecimento ao país de soja com níveis acima do permitido desde 2019.

“O lado russo chamou a atenção dos colegas brasileiros para a necessidade de tomar medidas corretivas o quanto antes”, escreveu o diplomata.

Nunes acrescentou ainda que o desrespeito aos limites do agrotóxico corresponde a uma violação aos requisitos do regulamento técnico da União Aduaneira sobre a segurança dos grãos.

Segundo consta do telegrama, os resultados de verificação de segurança de grãos importados pela Rússia constataram, em parte da soja exportada no ano passado, teor de glifosato até 14,2 vezes superior ao máximo de 0,15 mg/kg previsto nas exigências do regulamento técnico da união aduaneira.

“O que aponta para a falta de controle estatal adequado por parte das autoridades competentes do Brasil. Nesse sentido, Rosselkhoznadzor [a vigilência russa] disse em comunicado que se reserva o direito de impor uma proibição temporária à importação dos produtos em questão do Brasil”, escreveu Nunes.

A Folha já publicou reportagem sobre o risco de o governo da Rússia adotar restrições temporárias à importação de soja caso não fosse reduzida a quantidade de pesticidas nos grãos importados do Brasil.
Já os telegramas da embaixada em Pequim citaram a detecção do coronavírus em produtos exportados ao país asiático no ano passado.

Em uma das correspondências, de novembro, o embaixador Paulo Estivallet de Mesquita relatou que a aduana da China suspendeu um estabelecimento brasileiro exportador de pescado.

A medida foi tomada em razão da não apresentação de medidas corretivas após os produtos apresentarem resultado positivo para o vírus causador da COVID-19.

“Na comunicação, a aduana chinesa afirma esperar que o Mapa atribua importância à identificação do novo coronavírus em produtos exportados pelo Brasil para a China e às não conformidades encontradas na auditoria por videoconferência”, escreveu Mesquita.

De acordo com ele, o órgão “solicita, ademais, que as autoridades brasileiras adotem medidas para investigar a causa da contaminação, requeiram a adoção de medidas corretivas pelo estabelecimento e notifiquem as referidas correções ao lado chinês, a fim de garantir a segurança dos pescados exportados para este mercado”.

Também em novembro, Mesquita informou que a imprensa chinesa intensificava as notícias que associavam o surgimento de novos casos de COVID-19em portos e aeroportos do país a contato com produtos importados.

Ao falar especificamente do Brasil, citou ao menos cinco vezes em que a mídia tratou da detecção do coronavírus em produtos importados da cadeia de frio. Os casos ocorreram nas províncias de Hubei, Shanxi e Shandong.

“A mídia chinesa continua a insistir na narrativa de que alimentos importados da cadeia de frio apresentam alto risco de transmissão da COVID-19, chegando mesmo a insinuar que o primeiro caso da epidemia, em Wuhan, teria origem em produtos vindos de outros países”, escreveu o embaixador.

O MAPA afirmou, por meio de nota, que rotineiramente são tratados temas similares na relação comercial entre países. “Os dois pontos citados já foram analisados e continuamente são monitorados entre o Brasil e os governos da China e Rússia. O fluxo comercial desses países com o Brasil permanece fluído, sem interrupção”, afirmou.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) disse, em nota, que desenvolveu protocolo com o Hospital Israelita Albert Einstein, que rege os cuidados adotados pelas empresas do setor, assim como a legislação brasileira.

“Ambos protegem a saúde dos colaboradores e preservam a inocuidade dos alimentos produzidos para o mercado interno e internacional.”

A entidade disse ainda que organizações técnico-científicas relacionadas à saúde humana e à produção de alimentos realizaram pesquisas que constataram que o risco de transmissão de COVID-19 por embalagens é praticamente nulo.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Diário do Nordeste [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: aproveitando o caos causado pela pandemia, governo Bolsonaro acelera a aprovação de agrotóxicos

Com mais 39 liberações, governo Bolsonaro alcança 1.139 agrotóxicos liberados desde janeiro de 2019

chuva

Em meio ao avanço catastrófico da COVID-19 e toda a agitação política em torno dos supostos malfeitos cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro na condução da resposta governamental à pandemia, os braços executivos do governo federal continuam operando com a agilidade conhecida, especialmente em se tratando da liberação de agrotóxicos. Assim é que , em meio à situação caótica imperando no Brasil neste momento, o Ministério da Agricultura fez publicar no Diário Oficial da União do dia de ontem (13/04), o Ato No. 19 de 07 de abril de 2021 por meio do qual foram liberados mais 39 produtos no mercado brasileiro, totalizando 1.139 liberações desde janeiro de 2019.

Esse ritmo de aprovações não possui nenhum paralelo no que foi praticamente anteriormente, pois essas 1.072 liberações feitas em apenas 26 meses representam 35% de todos os produtos disponíveis no mercado (i.e., 3.197), evidenciando um ritmo para lá de frenético na hora de liberar agroquímicos proibidos em outras partes do mundo por causa dos graves danos que causam à saúde humana e ao meio ambiente.

A propensão de aprovar produtos banidos em outras partes do mundo fica evidente quando se verifica que 28% dos produtos liberados  pelo Ato No. 19 de 07 de abril de 2021 estão proibidos na União Europa. Dentre eles se destacam os conhecidos Fipronil, Acefato, Ametrina e Atrazina. Em conjunto, esses grupos já foram confirmados como causadores de diferentes tipos de câncer e também capazes de alterar substancialmente o sistema glandular humano.

Who's killing the bees? New study implicates virtually every facet of  modern farming - ExtremeTech

Além disso, o Fipronil que é conhecido por causar o extermínio de espécies não-alvo e que são essenciais para a agricultura por serem polinizadores (como é o caso das abelhas) teve mais três versões aprovadas, sendo que agora passamos a ter 24 variações do Fipronil liberadas para comercialização direta ou para emprego na formulação de outros produtos. Em outras palavras, o governo Bolsonaro prepara, apenas com as liberações de Fipronil, uma verdadeira hecatombe para as populações de abelhas no Brasil.

Civil Society Calls on the EU to Prohibit Exports of Banned Pesticides -  Slow Food International

E o mais peculiar é que o grosso dos agrotóxicos estão sendo liberados para uso nas grandes monoculturas destinadas a produzir grãos e outras commodities para exportação, como é o caso da soja, do milho, do algodão e da cana-de-açúcar, reforçando o caráter do Brasil de ser um grande latifúndio operando para servir os interesses das grandes cadeias que controlam o mercado global de commodities.

Quem desejar acessar a base de dados relativa ao Ato No. 19 de 07 de Abril de 2021, basta clicar [Aqui!]. Para os que desejarem baixar a base contendo os 1.139 liberados desde o início do governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Novo estudo encontra correlação entre exposição a agrotóxicos e tumores no sistema nervoso central em crianças

“As intervenções políticas para reduzir a exposição a agrotóxicos em indivíduos que residem perto de campos agrícolas devem ser consideradas para proteger a saúde das crianças”.

crianças agrotoxicos

Um novo estudo, o primeiro de seu tipo, encontrou evidências diretas que ligam a exposição a agrotóxicos a tumores do sistema nervoso central na infância. O estudo, que foi publicado na Environmental Research, foi usado “para estimar os efeitos de um grande número de agrotóxicos específicos em relação aos subtipos de tumor do Sistema Nervoso Central (SNC) ”.

A pesquisa examinou dados do Registro de Câncer da Califórnia em relação a certos tipos de casos de câncer em crianças nascidas entre 1998 e 2011, que viviam em áreas rurais, e descobriu que a exposição a agrotóxicos, tais como: Clortalonil, Bromacil, Tiofanato-Metila, Triforina, Cresoxim-Metila, Propiconazol, Dimetoato e Linuron, aumentou o risco de tumores no SNC.

“As intervenções políticas para reduzir a exposição a agrotóxicos em indivíduos que residem perto de campos agrícolas devem ser consideradas para proteger a saúde das crianças”, disse Beate Ritz, coautora e professora de epidemiologia da Fielding School of Public Health da UCLA.

O estudo identificou 667 casos de tumores do sistema nervoso central na infância e 123.158 controles e “comparou esses casos com dados do sistema de Relatórios de Uso de Agrotóxicos (PUR) do Departamento de Regulamentação de Agrotóxicos da Califórnia (CDPR) para identificar se os produtos químicos classificados como possíveis carcinógenos pelo Meio Ambiente dos EUA A Agência de Proteção (EPA) foi pulverizada a 2,5 milhas de suas casas no nascimento ”, relatou EcoWatch. Os pesquisadores determinaram que alguns dos agrotóxicos estudados tinham um risco aumentado de tumor em até 2,5 vezes.

O estudo também revelou que “além dos efeitos negativos dos agrotóxicos sobre a saúde dos trabalhadores, há um grande número de mulheres grávidas e crianças que vivem adjacentes aos campos tratados que também podem sofrer efeitos prejudiciais à saúde”, disse o autor e epidemiologista do Samuel Oschin do Comprehensive Cancer Institute no Cedars-Sinai Medical Center em Los Angeles.

“Nossos resultados sugerem que a exposição a agrotóxicos específicos pode explicar melhor os resultados de estudos anteriores que relataram relações entre tipos de agrotóxicos mais amplos e tumores no SNC”, disse Julia Heck,  também coautora do estudo.”

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo “Nation of Change” [Aqui!  ] .

Pássaros versus abelhas: aqui estão os vencedores e os perdedores na grande troca de agrotóxicos

Honey Bee (Apis mellifera) covered in pollen in pumpkin, Germany

O uso crescente de inseticidas neonicotinóides está prejudicando os polinizadores, como esta abelha em uma flor de abóbora. IMAGENS DE KONRAD WOTHE / MINDEN
Por Erik Stokstad para a Science

As fazendas são campos de batalha, colocando os cultivadores contra pragas vorazes e ervas daninhas agressivas em campanhas caras e sem fim que geralmente envolvem armas químicas. Essas armas, infelizmente, também prejudicam espectadores inocentes, como abelhas, peixes e crustáceos. Agora, um grande estudo mostra mudanças épicas que ocorreram nas últimas décadas, conforme os agricultores dos EUA mudaram seu arsenal de pesticidas. Aves e mamíferos se saíram muito melhor, enquanto polinizadores e invertebrados aquáticos estão sofrendo. O impacto tóxico nas plantas terrestres também disparou, provavelmente porque os agricultores estão usando cada vez mais tipos de produtos químicos para combater ervas daninhas que se tornaram resistentes aos herbicidas comuns.

“Essas tendências mostram mudanças notáveis ​​na toxicidade ao longo do tempo”, diz John Tooker, entomologista da Universidade Estadual da Pensilvânia, University Park, que não participou da nova pesquisa. “A escala do que eles fizeram é realmente impressionante”, acrescenta a ecotoxicologista Helen Poynton, da Universidade de Massachusetts, em Boston.

Nas últimas décadas, a quantidade de inseticidas usados ​​nos Estados Unidos caiu cerca de 40%. Mas, ao mesmo tempo, os ingredientes ativos se tornaram mais poderosos. Por exemplo, os piretróides, inseticidas de ação rápida que afetam o sistema nervoso, são muito tóxicos em concentrações extremamente baixas. Alguns requerem apenas 6 gramas por hectare, em comparação com vários quilos dos pesticidas organofosforados e carbamatos mais antigos. Isso fez Ralf Schulz, um ecotoxicologista da Universidade de Koblenz e Landau, se perguntar se a toxicidade geral do ecossistema havia mudado. Alguns estudos examinaram certos compostos e organismos , mas nada foi feito em escala nacional.

Schulz e colegas começaram com os dados do US Geological Survey sobre o uso autorrelatado de pesticidas por agricultores dos EUA de 1992 a 2016. Eles também coletaram dados de toxicidade aguda da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) sobre esses mesmos compostos – 381 ao todo. Em seguida, eles compararam os níveis de limite regulatório da EPA – o ponto em que uma substância pode prejudicar a vegetação ou a vida selvagem – com a quantidade de cada pesticida aplicado aos campos agrícolas e determinaram uma “toxicidade total aplicada”.

A boa notícia é que a toxicidade total despencou mais de 95% para pássaros e mamíferos de 1992 a 2016, relata a equipe hoje na Science , em grande parte por causa da eliminação de pesticidas mais antigos. A toxicidade para os peixes diminuiu menos – cerca de um terço – porque eles são mais sensíveis aos piretróides. A má notícia: os piretróides causaram o dobro da toxidade para os invertebrados aquáticos, como o plâncton e as larvas de insetos, que são uma parte importante das cadeias alimentares. E outra classe popular de pesticidas, os neonicotinóides, dobrou o risco para polinizadores como as abelhas e os zangões. Essa compensação geral – vertebrados impactaram menos e invertebrados atingiram mais fortemente – também foi observada em um estudo menor.

Para alguns pesticidas e espécies, no entanto, estimar o impacto no mundo real é complicado. Isso ocorre porque muitos fatores afetam se um produto químico prejudicará plantas ou animais, como o clima ou a época do ano. Para ver como os pesticidas afetaram diretamente os crustáceos aquáticos e insetos, os pesquisadores analisaram dados de exposição tóxica revisados ​​por pares em 231 lagos e riachos nos Estados Unidos. Quando compararam os dados com a quantidade de pesticidas aplicados nas proximidades, eles encontraram uma correlação “relativamente forte”.

As plantas também foram impactadas. Desde 2004, a toxicidade total aplicada de herbicidas dobrou em plantas terrestres. Um dos principais herbicidas que contribuem para o aumento é o glifosato, que simplificou a agricultura, melhorou a conservação do solo e permitiu que os agricultores abandonassem os herbicidas mais tóxicos após o advento de plantações geneticamente modificadas para tolerar o glifosato na década de 1990. Mas, desde então, algumas ervas daninhas desenvolveram resistência ao glifosato e os agricultores estão pulverizando outros tipos de herbicidas. Isso ameaça as plantas com flores que crescem nas margens do campo, fornecendo alimento e habitat para outras espécies.

Até mesmo uma espécie de cultivo geneticamente modificada para reduzir o uso de pesticidas – milho contendo uma substância química que mata insetos, chamada Bacillus thuringiensis ( Bt ) – viu sua exposição tóxica aumentar rapidamente. A toxicidade total aplicada no milho Bt tem aumentado tão rapidamente – 8% ao ano na última década – quanto no milho não geneticamente modificado. “Foi um pouco surpreendente”, diz Schulz. “Eu não esperava isso, devo admitir.” O motivo, Schulz suspeita, é que as pragas estão desenvolvendo resistência a produtos químicos que são usados ​​em demasia em ambos os tipos de milho, exigindo aplicações mais frequentes. “Esse é realmente um dos maiores problemas de que a agricultura está sofrendo”.

Schulz espera que os resultados ajudem os formuladores de políticas e outros a pensar de forma mais ampla sobre a complexidade do controle de pragas e ervas daninhas e as compensações para as espécies selvagens, a fim de reduzir os danos não intencionais. Tooker observa que o aumento da toxicidade em plantas e invertebrados aquáticos pode levar a um habitat menos diversificado e recursos alimentares que eventualmente se propagam pelas populações de animais, potencialmente causando perdas. “Os padrões de uso de pesticidas nos Estados Unidos e os dados de toxicidade devem servir de advertência para o resto do mundo, muitos dos quais parecem estar mais inclinados ao uso de pesticidas do que às interações ecológicas para o controle de pragas.”

Em última análise, essas decisões se resumem em como a sociedade valoriza vários grupos de espécies, diz Edward Perry, economista agrícola da Universidade Estadual do Kansas, em Manhattan. Por exemplo, os reguladores poderiam restringir o uso de neonicotinóides, como aconteceu na União Europeia, para beneficiar os polinizadores. Mas os agricultores provavelmente mudariam para outros inseticidas que poderiam representar riscos diferentes para as espécies – ou enfrentariam rendimentos mais baixos e preços mais altos dos alimentos.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela revista Science [Aqui!].

Estudo na Science mostra que o aumento da toxicidade de agrotóxicos aplicados na agricultura moderna ameaça plantas, insetos aquáticos e polinizadores

agrotóxicosOs agricultores americanos estão usando quantidades menores de agrotóxicos mais bem direcionados, mas eles estão prejudicando polinizadores, insetos aquáticos e algumas plantas muito mais tempo do que décadas atrás, descobriu um novo estudo publicado na Science

Um grupo de cientistas da Universidade de Koblenz-Landau, Alemanha, mostrou que para plantas e insetos a toxicidade de agrotóxicos aplicados na agricultura aumentou substancialmente entre 2004 e 2016. Em um artigo publicado na atual edição atual Science , os autores mostram que esse padrão também é relevante em plantações que usam organismos geneticamente modificados (OGMs) que foram originalmente projetadas para reduzir os impactos de agrotóxicos no meio ambiente.

“Pegamos um grande corpo de dados de uso de  agrotóxicos nos Estados Unidos e expressamos mudanças nas quantidades aplicadas na agricultura ao longo do tempo como mudanças na toxicidade total dos agrotóxicos aplicados”, diz o autor principal Ralf Schulz, professor de Ciências Ambientais em Landau. “Isso fornece uma nova visão sobre as consequências potenciais que o uso de agrotóxicos na agricultura tem sobre a biodiversidade e os ecossistemas”.

A quantidade de inseticidas usados ​​na agricultura dos EUA diminuiu substancialmente em mais de 40% entre 1992 e 2016. Peixes, mamíferos e pássaros enfrentam toxicidades aplicadas mais baixas do que na década de 1990, porque as classes de inseticidas como os organofosforados, que apresentam alta toxicidade para vertebrados, são usado menos hoje.  Entretanto, invertebrados aquáticos e polinizadores, como as abelhas, ainda experimentam o oposto: apesar das quantidades aplicadas reduzidas, a toxicidade aplicada a esses grupos de espécies mais do que dobrou entre 2005 e 2015. Uma mudança nos inseticidas usados ​​para o uso de inseticidas piretróides e neonicotinóides é responsável por esta tendência.

 

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Tendências temporais na quantidade total de agrotóxicos aplicados (ou seja, massa) versus TAT ​​e principais classes de agrotóxicos que contribuem para a toxicidade aplicada durante um período de 25 anos. Ralf Schulz et al. Science 2021;372:81-84

A toxicidade aplicada também aumenta para os herbicidas, juntamente com a quantidade aplicada. Nesse caso, as plantas terrestres estão enfrentando o maior aumento na toxicidade aplicada. Plantas e polinizadores são ecologicamente fortemente conectados. O aumento simultâneo das toxicidades aplicadas em ambos os grupos alerta para potenciais efeitos negativos gerais fortes sobre a biodiversidade de plantas e insetos.

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Tendências temporais na quantidade total de agrotóxicos aplicados (ou seja, massa) versus TAT ​​e principais classes de pesticidas que contribuem para a toxicidade aplicada durante um período de 25 anos

As safras de OGMs foram desenvolvidas para reduzir a dependência da agricultura do uso de agrotóxicos químicos. Os resultados do novo estudo, no entanto, revelam claramente que mesmo nas duas culturas de OGMs mais importantes nos Estados Unidos, milho e soja, a toxicidade aplicada aumenta, junto com o aumento da adoção de OGMs, nas mesmas taxas das culturas convencionais.

De acordo com os autores, os resultados do estudo provavelmente se aplicam a muitas outras regiões dominadas pela agricultura moderna, embora muitas vezes os dados para uma avaliação completa das tendências da toxicidade aplicada não estejam disponíveis publicamente. Ralf Schulz acrescenta: “Esses resultados desafiam as alegações de redução do impacto ambiental de pesticidas químicos tanto em safras convencionais quanto transgênicas e exigem ações para reduzir a toxicidade dos pesticidas aplicados na agricultura em todo o mundo”.

Poeira tóxica de colheita de soja atinge comunidade quilombola em Poconé (MT)

Em desacordo com a legislação de pulverização terrestre, propriedades rurais mantêm aplicações de agrotóxicos sem distanciamento mínimo da comunidade. Organizações sociais fazem denúncia ao Ministério Público

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A comunidade quilombola Jejum, localizada no município pantaneiro de Poconé (MT), foi atingida por uma nuvem tóxica da lavoura próxima ao território no dia 23/3/2021. A apenas dez metros de distância, a máquina passava realizando a colheita da soja e levando ao ar uma camada densa de poeira. As pessoas da comunidade passaram mal com tosse, irritação na garganta e problemas respiratórios. Diante do ocorrido, organizações da sociedade civil protocolaram documento junto ao Ministério Público Federal e Estadual ontem, 29/3.

“Eles plantam soja aqui na beirada de casa. Na colheita sobe aquele poeirão que ninguém aguenta”, disse uma moradora que não se identificou por uma questão de segurança. Ela contou que desde o dia 21/3 estavam realizando a colheita da soja e que a poeira provocou muitos efeitos. “A garganta ficava ardendo, os olhos ficam até lacrimejando, a cabeça dói. Assim não dá certo, porque eles secam a soja com veneno e isso prejudica demais.” Algumas pessoas mencionaram também dificuldades para dormir, enfermidades no estômago e até questões relacionadas à saúde mental por conta dos agrotóxicos.

Além dos efeitos à saúde, outros aspectos da vida da comunidade vêm sendo impactados. “Há cinco anos mudou tudo quando essa soja veio para cá. Nem horta presta mais por aqui”, conta outra moradora da comunidade. Ela desistiu de trabalhar sua horta pela presença grande de lagartas e insetos, dificuldade de crescimento da banana, mal desenvolvimento do mamão e outros efeitos que não conseguia combater frente a lavoura no cultivo de mandioca, frutas e demais produtos. Na manhã de ontem, 29/3, os moradores relataram ainda a mortandade de peixes de tanques de piscicultura na comunidade, um possível indicativo de contaminação da água.

Por conta do ocorrido, em conjunto, a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE)*, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e a Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, com apoio da organização Terra de Direitos, realizaram denúncia junto ao Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso, e ainda ao Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPE) e ao Fórum Estadual de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, coordenado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). 

Entre os argumentos, está o desrespeito à distância mínima de 90 metros para pulverização terrestre, conforme estabelecido na legislação (Decreto Estadual 1651/2013/MT). “Se colheu a soja, pulverizou antes dessecante. Já vínhamos denunciando o não cumprimento da lei no que diz respeito à distância mínima para a pulverização de agrotóxicos próximo a casas, estradas e fontes de água”, contou a representante da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, Fran Paula, da FASE. De acordo com ela, situações como essa são cada vez mais frequentes no Pantanal por conta do aumento de monoculturas na região. “Os agrotóxicos representam não só uma violação à saúde dessas famílias. São várias as violações. Entre elas, o direito humano a um ambiente saudável”, destaca.

Sobre a denúncia, Laura Ferreira da Silva, quilombola e representante da Conaq em Mato Grosso, enfatiza a necessidade de ação do poder público. “A gente precisa que o Estado, que o Ministério Público Federal e o estadual tomem atitude, porque isso não pode acontecer. Isso é inadmissível. São vidas quilombolas que estão ali e vidas quilombolas importam.”

No ofício, a comunidade quilombola Jejum requer providências dos Ministérios Públicos para que seus direitos sejam preservados e para que ações preventivas sejam colocadas em prática por conta da iminência de novos danos de colheita de soja na propriedade vizinha.

*A FASE é uma das organizações que compõem a rede do Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad).

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad) [Aqui!].

Rios brasileiros estão envenenados por agrotóxicos: estudo detecta 32 tipos de agrotóxicos no Rio Dourados (MS) 

Pesquisa monitora resíduos de agrotóxicos nas águas superficiais dos rios de MS

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Levantamento realizado pelo Laboratório de Análises Ambientais da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Agropecuária Oeste), detectou 32 tipos diferentes de agrotóxicos ou produtos de degradação no Rio Dourados, durante o período de 10 de dezembro de 2019 a 11 de dezembro de 2020. O estudo visa monitorar a qualidade da água das bacias hidrográficas em vários rios do Estado e da água potável de alguns municípios.

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O principal objetivo do estudo é monitorar resíduos de 46 tipos de agrotóxicos e e produtos de degradação em amostras de água do Rio Dourados. A partir dos resultados obtidos será realizado um diagnóstico do nível de exposição do Rio Dourados aos agrotóxicos utilizados nos sistemas de produção da região, fornecendo assim dados técnico-científicos para aprimoramento de políticas públicas ambientais. Além de contribuir no processo de avaliação do risco ambiental de agrotóxicos pelas autoridades regulatórias.

Entre os 32 compostos detectados no Rio Dourados, a classificação com base no seu tipo foi de 15 herbicidas, oito inseticidas, três fungicidas e seis produtos de degradação.

Conforme o estudo, as concentrações de agrotóxicos e produtos de degradação constatadas nas amostras de água do Rio Dourados e previstas na legislação como a  Atrazina, Alacloro e Simazina, não ultrapassaram os valores máximos permitidos pela legislação brasileira. 

Contudo, na maior parte dos agrotóxicos encontrados na pesquisa, os valores Máximo Permitidos (VMP), não são autorizados pela lei brasileira no que se refere à qualidade das águas superficiais. Especialistas que realizaram o estudo alertam para a urgente necessidade de inclusão dos VMP desses agrotóxicos na legislação brasileira.

A pesquisa foi realizada pelo Laboratório de Análises Ambientais da EMBRAPA Agropecuária Oeste, inaugurado por meio de parceria estabelecida por diversas Instituições, entre elas o MPMS por meio da 11ª Promotoria de Justiça do Meio Ambiente. O laboratório monitora a qualidade da água das bacias hidrográficas em diferentes rios do Estado, além da água potável de alguns municípios.

O Ministério Público custeou a construção das cinco primeiras fases da Primeira Etapa do laboratório, enquanto a Embrapa executa o projeto de Monitoramento dos Resíduos de Agrotóxicos em Águas Superficiais do nosso Estado.

Para conferir o estudo completo acesse o link: https://www.embrapa.br/agropecuaria-oeste/.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site jornalístico “CapitalNews” [Aqui!].

Bolsa agrotóxico: Estados prorrogam descontos e até isenção de ICMS para agrotóxicos

Os fabricantes desses produtos continuarão gozando desses benefícios fiscais até 2025, quando o convênio voltará a ser discutido

 

São Paulo – O Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) desprezou mais uma vez apelos de organizações que pedem o fim de subsídios fiscais aos agrotóxicos. E manteve os afagos às poderosas indústrias de agrotóxicos e transgênicos.

Em reunião nesta sexta-feira (12), os secretários estaduais da Fazenda que compõem o Conselho prorrogaram até 2025 a vigência do Convênio 100, firmado em 1997. A medida reduz alíquotas e até isenta produtos agropecuários da tributação de ICMS em operações estaduais internas e interestaduais.

A exceção fica por conta dos fertilizantes, para os quais foi adotada tributação progressiva nas vendas. Adubos importados terão uma alíquota de 1% a partir de 2022, que subirá gradualmente até chegar a 4% em 31 de dezembro de 2025.

Em carta divulgada nesta quinta-feria, 123 organizações e movimentos ligados à defesa do direitos humanos, da saúde, meio ambiente, consumidor, agroecologia e reforma agrária fizeram um apelo. Pediram aos secretários que não renovassem as cláusulas 1ª e 3ª do Convênio. São vários os argumentos.

Conforme a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, o Brasil é que mais gasta com agrotóxicos no mundo. As lavouras de soja, milho e cana ocupam 76% de toda a área plantada do Brasil. E nela são despejadas 82% de todo agrotóxicos, segundo dados de 2015. Essa produção toda é exportada como commodities, com diversos outros subsídios fiscais. Não se trata, portanto, de alimentos.

ONU pelo fim dos subsídios

Relatores de Direito à Alimentação Adequada e de Resíduos Tóxicos das Nações Unidas recomendaram ao Brasil a eliminação de subsídios. E em vez disso o pagamento de taxas pela utilização desses produtos.

As entidades alegam também que 70% dos estabelecimentos rurais têm área de um e 50 hectares, cuja base é a agricultura familiar. Responsável pela produção de mais de 60% do alimento que chega à mesa, esses produtores gastam pouco com agrotóxicos, algo em torno de 4% do custo de produção. Assim, esses alimentos e esses produtores é que deveriam contar com benefícios fiscais.

A carta destaca ainda dados de um relatório do Tribunal de Contas da União. Os auditores vão direto ao ponto: “ao reduzir o preço dos agrotóxicos por meio de renúncia tributária para a importação, a produção e a comercialização interestadual de defensivos químicos, o governo brasileiro incentiva o uso de agrotóxicos. E atua de forma contraditória e contraproducente aos objetivos das políticas que buscam garantir sistemas sustentáveis de produção de alimentos”. 

Isenção aos agrotóxicos no STF

Ainda segundo o documento, a renúncia de arrecadação com os agrotóxicos é no mínimo paradoxal, considerando que o país vive uma crise financeira. Sob efeitos da Emenda Constitucional nº 95/2016, do teto de gastos, em 2019 os recursos da saúde encolheram R$ 20,19 bilhões, segundo o Conselho Nacional de Saúde. “Em um momento de colapso do SUS pela propagação da pandemia de Covid-19, é um contrassenso que o país permaneça estimulando, via benesses fiscais, o uso de produtos tóxicos que acarretam em internações por intoxicações crônicas ou agudas”, diz um trecho. 

As cláusulas que permitem a redução da base de cálculo e até isenção de ICMS estão sendo questionadas noSupremo Tribunal Federal (STF), por meio da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5.553, apresentada em 29 de junho de 2016 pelo Psol. 

No início de novembro, o ministro Gilmar Mendes pediu vista do processo. O único que votou até agora é o ministro relator da ação, Edson Fachin. Em seu voto, ele pondera sobre a falta de relação de causa e efeito entre a desoneração tributária e a redução do preço dos alimentos ao consumidor. E, consequentemente, a segurança alimentar – o principal argumento do agronegócio.

“O consumo de agrotóxicos no Brasil é concentrado em quatro commodities, cujo preço é determinado pelo mercado mundial. Em 2014, a soja representava 49% do uso dos produtos no Brasil; a cana, 10,1%; o milho, 9,5%; e o algodão, 9,1%, o que soma 77,7%”, destaca o ministro em seu voto. Ou seja, grande parte do agrotóxico vai para ração animal, etanol e indústria têxtil.

Desoneração seletiva

Pondera ainda sobre a desoneração tributária seletiva a partir de mercadoria e processo produtivo menos nocivo à saúde e ao meio ambiente. E a criação de um fluxo de receita que poderia ser direcionado para mitigar os impactos ambientais dos agrotóxicos. É o caso de práticas agrícolas mais sustentáveis e promoção de pesquisa e desenvolvimento de alternativas tecnológicas menos nocivas, como ocorre na Dinamarca e na França.

“O objetivo da tributação não é apenas fazer com que os poluidores paguem pelos danos causados (princípio do poluidor-pagador), mas também induzir mudanças de comportamento, incentivando o uso de produtos menos nocivos”.

O Convênio 100/1997 vinha sendo renovado anualmente, sem alteração. Em outubro foi formado grupo de trabalho para apresentar uma proposta definitiva de alteração do benefício.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Seis em dez casos de intoxicação por agrotóxicos no RS acontecem em casa

agrotóxicosFOTO: IBADAH MIMPI / UNSPLASH

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Pesquisadoras da Escola de Saúde Pública e do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, em Porto Alegre, ao analisar 3.122 casos suspeitos de intoxicação  por agrotóxicos notificados no Rio Grande do Sul entre 2011 e 2018, mostram que o cenário mais comum de contaminação acontece de forma acidental, em 40% dos casos, e na própria residência do trabalhador, em 59% dos casos. Seis em cada dez casos notificados estão relacionados à produção agrícola do estado. O estudo foi publicado em 7 de dezembro na revista “Epidemiologia e Serviços de Saúde”

Na maioria dos casos, as notificações foram de homens (63,7%), brancos (86,9%) com baixo nível de escolaridade. Apenas 4,3% haviam cursado ou completado o ensino superior. Embora a faixa etária mais atingida tenha sido de 20 a 29 anos (20,3%), a maioria (60,6%) das intoxicações suspeitas foi notificada a partir dos 30 anos. Em 82% dos casos, a intoxicação foi do tipo aguda, quando há apenas um evento de exposição do indivíduo à substância tóxica em 24 horas. O diagnóstico da intoxicação foi feito por meio de avaliação clínica em 61% dos casos notificados.

O fato de quase seis entre dez notificações terem ocorrido por contato na própria residência, superando o ambiente de trabalho (33,7), não surpreendeu as autoras. “Esse dado levanta as hipóteses da existência de problemas no armazenamento e de descumprimento da distância mínima recomendada entre a lavoura e a casa. Além disso, no ambiente domiciliar se utilizam também inseticidas, raticidas e produtos destinados ao tratamento de piolhos e outros parasitas, aumentando ainda mais o risco de intoxicação”, observa a sanitarista da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul, Amanda Brito de Freitas, que assina a autoria do estudo ao lado da sanitarista Vanda Garibotti. 

Como evitar intoxicações 

A contaminação acidental (40%) foi o principal motivo de intoxicação. Mais do que isso, registrou o dobro da contaminação por uso habitual (20%) e supera também o uso ambiental e tentativa de suicídio. As principais motivações associadas com esses acidentes são o armazenamento em local de fácil acesso, manejo inadequado destas substâncias (incluindo também a reutilização das embalagens) e falta de equipamento de proteção individual (EPI). 

A orientação técnica e a fiscalização nestes casos são fundamentais para evitar os riscos à segurança e à saúde dos trabalhadores rurais. Na agricultura, explica Amanda Freitas, o objetivo do uso do EPI é evitar os riscos químicos que podem levar às intoxicações de forma aguda e crônica, em decorrência da utilização de agrotóxicos. As atividades de pulverização (42%) e diluição (18%) foram as de maior exposição ao agrotóxico. 

“É importante que o empregador proporcione capacitação aos trabalhadores com orientação quanto ao risco à saúde inerente à utilização desses produtos, quanto aos locais adequados de armazenamento e forma correta de manuseio e aplicação, de acordo com os rótulos e as bulas do fabricante; assim como o uso correto da vestimenta adequada incluindo: calças e camisas compridas, que cubram toda a pele, botas, luvas, avental, óculos de segurança ou viseira de proteção, chapéu ou capuz com máscara. Além disso, é importante orientar também sobre as recomendações quanto à manutenção, lavagem, descarte e armazenamento destes EPIs”, detalha.

As autoras vislumbram que o estudo seja utilizado como subsídio para o planejamento das ações da vigilância em saúde e políticas públicas para a proteção da saúde da população. Ela também concluem que é necessário avançar na identificação dos casos de intoxicação por meio do desenvolvimento de novos métodos diagnósticos a partir de biomarcadores e melhor qualidade da coleta de dados. 

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].