Multinacionais são financiadoras ocultas da Frente Parlamentar da Agropecuária

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Empresas como Bayer, Basf, BRF, JBS, Bunge, Syngenta e Cargill compõem as associações do agronegócio cujos recursos custeiam o Instituto Pensar Agro (IPA), por sua vez o motor logístico da FPA, o principal braço da bancada ruralista

Por Priscilla Arroyo para o “De olho nos ruralistas”

O Instituto Pensar Agropecuária (IPA) é praticamente invisível. Não tem site oficial e há poucas informações públicas sobre as atividades que mantém. O IPA se apresenta como uma instituição que presta suporte técnico à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), grupo de associações e empresas do setor que reúne 257 deputados e senadores. É o braço institucional mais conhecido da bancada ruralista, a maior do Congresso.

Na presidência da FPA está o deputado Alceu Moreira (MDB-RS). Ele assumiu o cargo em fevereiro, sucedendo Tereza Cristina, atual ministra da Agricultura. Na prática, o IPA e a FPA se confundem: as instituições têm o mesmo e-mail para contato e o mesmo endereço – uma casa no Lago Sul, em Brasília, onde os parlamentares se reúnem todas as terças-feiras.
As verbas do IPA são direcionadas para a FPA. Até aí, fato conhecido – e relatado pelos próprios congressistas. Fato menos conhecido: esses recursos são oriundos da contribuição de 38 associações mantenedoras do IPA, que pagam uma mensalidade de pelo menos R$ 20 mil cada uma. Isso significa R$ 760 mil no caixa por mês. E quem mantém as associações? Multinacionais. Grandes empresas brasileiras do setor. Bancos.

De Olho nos Ruralistas identificou as empresas ligadas a doze dessas associações e listou as que têm mais relevância na economia. Dessa lista, fazem parte 22 das 50 maiores companhias do agronegócio no Brasil, de acordo com a revista Forbes. Bayer, Basf, BRF, JBS, Syngenta, Bunge e Cargill são algumas delas.

Confira a lista:

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Líder mundial em sementes e pesticidas, a alemã Bayer lidera também o levantamento ao apoiar cinco entidades que financiam o Instituto Pensar Agropecuária. Entre elas estão a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan). A Monsanto, que pertence à Bayer desde o ano passado, contribui com três mantenedoras do IPA. A empresa produz o Roundup, um dos pesticidas mais usados no mundo e alvo de milhares de processos judiciais nos Estados Unidos por conta das suspeitas de causar câncer.

A produtora de químicos Basf dá suporte a quatro entidades, entre as quais o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). A Cargill, que processa e exporta grãos e está presente em 17 estados e em 191 municípios do Brasil, está entre as empresas que compõem a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) – ambos apoiadores do IPA.

A lista de mantenedores indiretos da bancada ruralista inclui duas grandes multinacionais do tabaco, a Souza Cruz e a Philip Morris, ambas fiadoras da Associação Brasileira da Indústria do Fumo. Corporações como Nestlé, Aurora e Danone, da Viva Lácteos. Ou o grupo André Maggi, capitaneado pelo ministro da Agricultura do governo Temer, Blairo Maggi. A empresa ajuda a bancar a Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Aprass) – uma das associações que têm mais influência na FPA, ao lado da Aprosoja.

“Tem dinheiro da Cargill? Tem”, diz o principal executivo 

O IPA, ou Instituto Pensar Agro, como também é conhecido, foi criado em 2011 e se apresenta como uma entidade representativa do setor que “debate estratégias para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro”. Possui cerca de dez funcionários, a maioria técnicos, que produzem material de apoio para a formulação de projetos de lei e discussões protagonizadas pelos 225 deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária, ou 44% do total de votos da Casa. No Senado, o grupo ocupa 32 das 81 cadeiras.

 

mourão terezaTereza Cristina, Hamilton Mourão, Bolsonaro e Alceu Moreira: aliança. (Foto: Reprodução)

Os votos da FPA mostraram-se decisivos para a derrubada da presidente Dilma Rousseff, em 2016, com 50% dos votos, e manutenção do presidente Temer no poder, em 2017, com 55% dos votos. Esse braço da bancada ruralista – que se reúne também em organizações temáticas mais específicas, como o setor sucroalcooleiro e a silvicultura – foi também um dos fiadores da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

A relação entre os técnicos do IPA e os parlamentares da FPA é cultivada por meio de almoços semanais, nos quais são definidas as pautas a serem discutidas no Congresso. A imprensa é convidada a participar desses almoços, no saguão, à espera dos deputados e senadores que se reúnem em local fechado.

Na reunião desta terça-feira (21/05), por exemplo, foi convidado o secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Luiz Antônio Nabhan Garcia, a face remanescente da União Democrática Ruralista (UDR). Entre as pautas estão o Código Florestal e o licenciamento ambiental – a bancada ruralista defende um licenciamento mais “flexível”.

Foi em um desses encontros semanais no Lago Sul, em 2016, que a equipe do De Olho nos Ruralistas foi expulsa pelo principal executivo do IPA, João Henrique Hummel. Intitulando-se “dono da casa“, ele disse que os repórteres – que haviam acabado de entrevistar Alceu Moreira e o gaúcho Luís Carlos Heinze (PP-RS) – não podiam estar ali, por se tratar de lugar privado. Após o episódio, a assessoria de imprensa da FPA confirmou que o acesso era público, sem restrições a este ou aquele veículo.

Notem no vídeo que Hummel carregava uma pasta da Aprosoja, uma das associações que mantêm o IPA:

Em “Uma análise sobre a Frente Parlamentar da Agropecuária”, trabalho de graduação de Andressa Gonçalves Ferreira na Universidade de Brasília, a pesquisadora diz que “cabe também ao IPA, em conjunto com as entidades mantenedoras, custear as ações e estudos fornecidos à FPA”. Ela dedicou a monografia a colegas de trabalho nas duas instituições.

O próprio João Henrique Hummel explicou em junho, em entrevista que a Agência Pública definiu como “conversa com um lobista”, a origem dos recursos do Instituto Pensar Agro. “Tem dinheiro da Cargill? Tem”, disse ele ao repórter Vasconcelo Quadros. “Ela contribui com as associações, e as associações pagam aqui”.

Múltis e bancos se apresentam como sustentáveis

Além das gigantes do agronegócio, há importantes representantes do setor financeiro entre os integrantes da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), como Banco do Brasil, Santander e Itaú BBA –  divisão de atacado da maior instituição financeira do país. Fazem parte ainda dessa lista o Sicredi, a B3 (antiga Bovespa, bolsa de valores do Brasil) e o banco holandês Rabobank.

Entre as companhias que têm capital aberto e figuram na lista de apoiadoras das associações mantenedoras do IPA, algumas  fazem parte também do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, uma relação das empresas que têm alto nível de eficiência econômica, equilíbrio ambiental e justiça social de acordo com métricas da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Nessa lista, além de Banco do Brasil e Santander, estão a Duratex, uma das maiores produtoras de painéis de madeira do Brasil, e a Klabin, uma das mais relevantes produtoras e exportadoras de papéis. Ambas estão associadas à Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), uma das mantenedoras do Instituto Pensar Agro.

A lista de empresas que financiam indiretamente a Frente Parlamentar da Agropecuária é maior do que a reunida pelo De Olho nos Ruralistas – que não conseguiu identificar os financiadores de 26 das 38 associações que compõem o IPA. Entre elas está uma das principais, a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja).

Mas há pistas. Em setembro, a Aprosoja-MT  aprovou em assembleia a criação de um fundo para construir a Ferrogrão, ferrovia entre Sinop (MT) e Miritituba (PA). A obra orçada em R$ 12,7 bilhões foi uma ideia de cinco grandes multinacionais: Amaggi, ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company.

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) – uma associação sem fins lucrativos – apoia 74 entidades filantrópicas no estado, entre elas a Santa Casa de Cuiabá e o Hospital do Câncer.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pelo site do Observatório do Agronegócio no Brasil, o “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

Palestra virtual sobre impactos ambientais e sobre a saúde humana dos agrotóxicos na UNIRIO

cartaz palestra online Dr. Marcos Pedlowsky

No dia 14 de maio ofereci  uma palestra virtual para discentes do curso de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) sobre os impactos ambientais e sobre a saúde humana do uso de agrotóxicos no Brasil. 

Essa palestra virtual agora foi disponibilizada pela coordenação de curso de Ciências Ambientais, e pode ser acessada Aqui!

Observatório dos Agrotóxicos: afinal quantos produtos foram liberados pelo governo Bolsonaro e por que importa ter o número certo?

Brazil's pesticide poisoning problem poses global dilemma, say criticsO ritmo acelerado de aprovações de agrotóxicos altamente perigosos pelo governo Bolsonaro cria um dilema para os importadores de commodities agrícolas brasileiras

Desde janeiro de 2019, acompanho a enxurrada de aprovações de novos (que na maioria são velhos) agrotóxicos pelo governo Bolsonaro.  Para fazer isso, contabilizei os chamados “Atos” que são emitidos pelo Ministério da Agricultura para anunciar a conclusão do processo de avaliação e objetivamente liberar a comercialização dos produtos aprovados em território nacional.

Afora as mudanças que ocorreram na forma de classificação de toxicidade humana e ambiental e das incongruências na forma de reportar a categoria tóxica desses produtos, houve ainda a separação do anúncio em produtos que são aprovados para venda imediata (os chamados produtos formulados) e aqueles que serão adquiridos pelas empresas para produzir os primeiros (os chamados produtos técnicos). 

Para mim tudo isso é feito para gerar dificuldade no acompanhamento e avaliação dos produtos que estão sendo liberados, já que uma parcela significativa deles está proibida em outras partes do mundo. Tenho usado o status dos produtos aprovados pelo Brasil na União Europeia como um indicador de que estamos usando agrotóxicos que foram banidos em outras partes do mundo.  Mas a União Europeia é apenas uma referência, pois temos produtos sendo aprovados que já se encontram banidos nos países que os produzem. O caso mais representativo é o da herbicida Paraquate que está banido na União Europeia onde ele foi criado, e passará a ser completamente banido a partir de setembro no país que hoje controla a sua produção, a China.

Mas toda essas mudanças também tido como resultado a dificuldade de se saber quantos produtos já foram efetivamente liberados durante os pouco mais de 16 meses de governo Bolsonaro.  É que diferentes fontes jornalísticas estão fazendo contagens distintas da quantidade aprovada, justamente por causa da dificuldade de se acompanhar a publicação dos atos, ou mesmo por decisões de quais produtos devem ser incluídos na conta do governo Bolsonaro.

Lendo uma uma matéria publicada pelo portal de notícias da Rede Globo, o G1, pode-se ver um gráfico que aponta a aprovação de 474 agrotóxicos e outros 150 em 2020, um total de 624. Já em uma outra publicada pela parceria da ONG Repórter Brasil com a Agência Pública, aparece a aprovação de 475 agrotóxicos em 2020 e 150 em 2020, o que soma 625 agrotóxicos liberados.

Entretanto, somando os números de aprovações em atos publicados em 2019, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski somou 503 agrotóxicos, enquanto que para 2020 já foram contabilizados 185 agrotóxicos, o que dá um “grande total” de 688 agrotóxicos que tiveram sua aprovação publicada pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019 (ver gráfico abaixo).

agrotóxicos aprovados 2005-2020

Essa diferença de números pode ser apenas uma faceta pela qual a transformação do Brasil em uma espécie de refúgio para agrotóxicos altamente perigosos e banidos em outras do ponto do mundo é reportada, mas é significativa. É que se não soubermos os números corretos, fica difícil fazer qualquer análise mais efetiva.

Mas também me preocupa que se aceite a separação adotada entre produtos formulados e produtos técnicos na hora de se fazer a contagem dos agrotóxicos liberados. É que, afinal de contas, os produtos técnicos serão transformados essencialmente em produtos formulados similares e chegarão da mesma forma ao mercado consumidor formado principalmente por grandes proprietários de terras envolvidos na exportação de commodities agrícolas.

Outra questão é que a maioria das matérias jornalísticas, até de forma compreensível, passa ao largo de análises mais complexas sobre o que pode ser chamado de “economia política dos venenos agrícolas” que é caracterizado por uma complexa troca de propriedade intelectual entre grandes corporações como a Basf, a Bayer e ChemChina que visa não apenas transferir a produção de determinados agrotóxicos altamente perigosos dos países desenvolvidos para países da chamada periferia capitalista onde o processo de regulação de venenos agrícolas é mais frágil, possibilitando que determinados produtos tenham uma espécie de sobrevida mercadológica, ainda que causando graves processos de contaminação humana e ambiental.

agrotóxicos liberados

Mas já que não se pode cobrar de jornalistas que façam análises mais profundas sobre a economia política dos agrotóxicos, que pelo menos ele trabalhem com o número certo dos produtos liberados.  Afinal, é a partir daí que as análises mais aprofundadas poderão ser feitas por quem pode fazê-las.

Mistura de agrotóxicos na água continua sem controle, Fiocruz propõe regras mais rígidas

Brasil deveria seguir o padrão europeu para controle de agrotóxicos na água, sugere Fiocruz sobre novas regras do Ministério da Saúde. Fundação propõe número maior de substâncias a serem monitoradas, mais rigidez nos volumes permitidos e um sistema de alerta para a população

torneira

Por Ana Aranha – Repórter Brasil/Agência Pública

Nem todo mundo sabe, mesmo porque esses dados são pouco divulgados, mas a água que sai da nossa torneira pode carregar diversos agrotóxicos. Eles são carregados pelas chuvas e pelos rios para as redes de abastecimento das grandes cidades. São crescentes os estudos sobre os impactos para a saúde humana, já que os agrotóxicos não são barrados pelos filtros caseiros e são poucos os tratamentos disponíveis para as empresas de abastecimento de água.

O que se pode fazer é controlar quais e em qual quantidade vamos bebê-los. As regras para isso estão atualmente abertas para serem discutidas dentro de consulta pública feita pelo Ministério da Saúde que vai até o dia 4 de junho. A proposta em debate, porém, ignora um dos mais novos fenômenos que afeta a nossa água: a mistura de diferentes agrotóxicos. 

“O risco no caso das misturas são as interações entre os componentes delas”, afirma Fábio Kummrow, professor de toxicologia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Pode ocorrer efeito aditivo, quando se somam os efeitos de substâncias com o mesmo mecanismo de ação. Ou o sinérgico, quando o efeito final é maior que o esperado da soma – isso pode acontecer entre substâncias com ação diferente”. 

No Brasil não funciona, hoje, um procedimento de alerta para a detecção de agrotóxicos na água (Foto: Mrjn Photography/Unsplash)

Entre os agrotóxicos encontrados na água do Brasil, há aqueles classificados como “prováveis cancerígenos” pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e outros apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, como puberdade precoce e problemas reprodutivos.

Além de não fixar um parâmetro de controle para a mistura, a revisão das regras também deixou passar a chance de incluir no monitoramento dois dos agrotóxicos mais utilizados no Brasil: o paraquate e o imidacloprido. Devido à sua alta toxicidade e risco à saúde humana, o paraquate está com data marcada para ser proibido, em setembro deste ano. Já o imidacloprido, um dos inseticidas suspeitos pelas mortes das abelhas, foi o agrotóxico mais encontrado nos alimentos testados pela Anvisa entre 2017 e 2018. 

Para evitar que substâncias assim cheguem também à nossa água, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicou hoje documento recomendando mudanças para tornar esse controle mais rígido. “Consideramos a proposta do Ministério da Saúde um avanço em comparação à anterior, mas ela pode ser aprimorada”, afirma a pesquisadora em saúde pública Aline Gurgel, vice coordenadora do grupo de trabalho sobre agrotóxicos na Fiocruz.

“Não pode deixar que o problema fique evidente só na ponta, que é o tratamento final da água, tem que atuar na fonte da contaminação”, afirma Ana Cristina, que monitora os dados de vigilância da água na Fiocruz

As novas regras do Ministério da Saúde aumentam de 27 para 37 o número de substâncias a serem testadas. As concessionárias são obrigadas por lei a testar a água para checar a presença desses agrotóxicos a cada semestre. Embora o número tenha aumentado, a Fiocruz recomenda a inclusão de mais 35 substâncias, entre elas o paraquate e imidacloprido, que hoje não são testados na água. A fundação recomenda também uma redução geral nos valores máximos permitidos para o volume de cada agrotóxico na água. Além da criação de um mecanismo para controlar a mistura de diferentes substâncias.

As recomendações têm a União Europeia como referência. Partindo do princípio de que a água não deveria ter agrotóxicos, o bloco tem os parâmetros mais rígidos do mundo. Além de baixos limites individuais para o volume de cada ingrediente na água (máximo de 0,1 micrograma por litro), há também um limite máximo para a soma de diferentes substâncias (0,5 microgramas por litro). 

Aqui, como em muitos outros países, toleramos quantidades maiores. O mais criticado deles é o glifosato, com valor máximo permitido de 500 microgramas por litro – volume mil vezes mais permissivo do que o europeu pode beber. Isso acontece porque, enquanto a Europa passou a régua mais rígida possível, com um valor igualmente baixo para todas as substâncias, os nossos parâmetros são calculados individualmente para cada agrotóxico. Esse cálculo é feito a partir de testes em animais de laboratório que muitas vezes são realizados pelas empresas produtoras de agrotóxicos. O Brasil nunca teve tem um limite para a soma de diferentes agrotóxicos na água. 

“O ideal seria adotar o princípio da precaução, como a União Europeia, com o máximo de 0,5 microgramas por litro para a soma de todas as substâncias”, afirma Gurgel, vice coordenadora do grupo de trabalho dos agrotóxicos da Fiocruz. “Mas sabemos que esse não é o parâmetro usado pelo Brasil. Por isso sugerimos que se fixe um limite para a presença de diferentes substâncias na água, estabelecendo tanto uma concentração máxima, que é a soma dos níveis de todas as substâncias detectadas, quanto um limite no número de substâncias presentes em uma única amostra””.

“A União Europeia é o único exemplo de um valor único para a soma”, argumenta o engenheiro Rafael Bastos, especialista na área e coordenador do grupo de trabalho que reuniu dezenas de especialistas e representantes de diferentes setores para revisar a portaria do Ministério da Saúde. “Na Europa, o parâmetro para a água foi um instrumento de controle para o uso de agrotóxicos. Mas a luta para diminuir o uso de agrotóxicos na sociedade se dá em outro fóruns e não no seio de uma norma de potabilidade da água”.

Lentidão no controle, rapidez na liberação

O tema da mistura de substâncias na água chegou a ser debatido pelo grupo de especialistas que revisou as regras. Mas, segundo Bastos, não houve consenso sobre qual seria o melhor método para se fixar um parâmetro de controle. “Definir isso, neste momento, seria uma discussão açodada. Terminamos o processo abrindo esse tema como ordem do dia para a próxima revisão”.

Em tese, a cada cinco anos o grupo de especialistas atualiza as regras brasileiras sobre controle dos agrotóxicos na água. A ideia é que essas regras sejam revisadas à luz das novidades científicas e mudanças de mercado, como quais substâncias passaram a ser mais utilizadas. Na prática, porém, cada revisão tem levado cerca de dez anos para ser concluída. 

O ritmo lento é ainda mais preocupante agora que o governo de Jair Bolsonaro tem mostrado celeridade recorde na liberação de novos produtos. “A gente faz todo um processo para avançar de 27 para 37 agrotóxicos sendo testados na água, mas o Estado autoriza centenas de substâncias, não temos condições de acompanhar essa velocidade”, afirma Bastos. Apenas nessa semana foram 22 novos produtos liberados pela Anvisa, somando 625 aprovados sob Bolsonaro.

O necessário avanço sobre o controle das misturas de agrotóxicos na água, porém, também sofre devido à ainda incipiente produção científica no Brasil. “Antes de ter uma legislação, precisamos de mais estudos avaliando o efeito dessas misturas”, afirma Kummrow, da Unifesp. Ele defende que essas pesquisas sejam feitas no Brasil, com foco na interação entre as substâncias mais presentes na nossa água, conforme recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

No documento que fixa as diretrizes internacionais para esse controle, a OMS recomenda a pesquisa específica sobre interação entre agrotóxicos encontrados na água de cada país. É o que já começou a fazer a agência de proteção ambiental americana com estudos para investigar a mistura da atrazina e da simazina. 

A Fiocruz cobra que uma nova regulação estabeleça ações obrigatórias para empresas de abastecimento de água e secretarias municipais e estaduais de saúde e de agricultura (Foto: Jed Owen/Unsplash)

Outra dificuldade são os gastos envolvidos em tirar do papel uma lei mais restritiva. “Ao adotar um padrão rígido, como o Europeu, isso vai exigir maior tecnologia para o tratamento, o que vai encarecer a água”, afirma Kummrow. “Isso pode levar a população a buscar outras alternativas, como poços, e acabar usando fontes ainda menos confiáveis”. 

O argumento é contestado por Gurgel, da Fiocruz, para quem as medidas necessárias para melhorar a qualidade da água devem ser vistas como um investimento fundamental na saúde. “São investimentos para a redução de doenças e agravos relacionados à exposição aos agrotóxicos. Esse investimento terá reflexos para agravos crônicos, que necessitam de tratamento de longo prazo e representam custos elevados para o sistema de saúde, que incluem a aquisição de medicamentos, ocupação de leitos, consultas com especialistas. Não há custo maior que a perda da saúde ou da vida”, conclui.

Ao contrário do que ocorre em outros países, no Brasil as empresas que produzem agrotóxicos não se envolvem com o monitoramento da água. O sistema é custeado apenas cofres públicos e pelas empresas de abastecimento.

Alertas para a população e responsáveis

No Brasil não funciona, hoje, um procedimento de alerta para a detecção de agrotóxicos na água. “As concessionárias não divulgam essas informações de forma clara para a população, nem mesmo quando são encontradas quantidades acima do valor máximo permitido”, alerta a química Ana Cristina Simões Rosa, da Fiocruz. 

O problema de informação é tão grave que, entre 2014 e 2017, mais da metade dos municípios sequer enviou os resultados dos testes realizados na água para o Sisagua, o sistema nacional que integra informações locais e é gerido pelo Ministério da Saúde. Outros lançaram as informações de modo errado, desrespeitando as orientações do ministério, que segue método padronizado, o mesmo usado por governos e universidades em todo o mundo. 

Detecções acima do valor máximo permitido entre 2014 e 2017

Fonte: Controle do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (SISAGUA) / Ministério da Saúde (2014-2017)

Este problema foi revelado pela publicação do mapa dos agrotóxicos na água, uma parceria da ONG Suíça Public Eye com a Repórter Brasil e a Agência Pública. O mapa divulgou, de forma inédita, os dados de detecção em todo o Brasil de acordo com as informações disponíveis no Sisagua. Em decorrência da publicação, foram tantos os questionamentos enviados pelas empresas de abastecimento que o Ministério da Saúde teve de convocar uma reunião para esclarecer a metodologia que deveria ser aplicada por todos. O encontro teve a presença de representantes das empresas de abastecimento, do Inmetro, dos laboratórios de saúde pública, das Secretarias de Saúde e da Anvisa. A Fiocruz recomenda que, na revisão da portaria da água, o Ministério da Saúde reforce os esclarecimentos que foram pauta da reunião.

A fundação também argumenta que os dados não podem ficar restritos ao debate entre técnicos. E sugere a criação de níveis de alertas simples e claros para comunicar os casos de detecção à população, assim como para acionar os órgãos responsáveis em tomar ações. 

O nível 1 e 2 seriam para quando se detecta a presença de agrotóxico na água, mesmo que abaixo do valor máximo permitido. Para a Fiocruz, esses casos não devem ser menosprezados, pois também são situações de “não conformidade”, já que “a concentração esperada para qualquer agrotóxico em água é zero”.

Já quando os níveis individuais ou da mistura estiverem acima do permitido, deveria soar o alerta máximo de emergência. 

Em todos esses cenários, além de divulgar a informação de modo claro, a fundação cobra que a nova regulação estabeleça ações obrigatórias a serem tomadas pelas empresas de abastecimento de água, assim como secretarias municipais e estaduais de saúde e de agricultura, coisa que não acontece hoje, conforme revelou matéria da Repórter Brasil e Agência Pública. A recomendação é que o sistema mobilize os órgãos responsáveis em lidar com o problema na ponta (com o tratamento da água e diminuição do abastecimento) e na sua origem (a fiscalização na aplicação de agrotóxicos nas plantações).

Ana Cristina Simões Rosa, que monitora os dados de vigilância da água em metade dos estados brasileiros pela Fiocruz, defende a importância de uma atuação responsável das pastas ligadas à saúde e agricultura nesse processo. “Não pode deixar que o problema fique evidente só na ponta, que é o tratamento final da água, tem que atuar na fonte da contaminação”, afirma. “Uma vez que a contaminação esteja ocorrendo, é necessário monitorar o máximo possível dos agrotóxicos utilizados no país, na água que todos nós consumimos”.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela “Repórter Brasil” [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: Governo Bolsonaro autoriza mais 22 agrotóxicos e o total em 2020 já chegou a 185

A enxurrada de aprovação de agrotóxicos segue firme fazendo a festa das multinacionais que produzem venenos agrícolas

Sempre menciono neste blog que quando se trata de aprovar agrotóxicos, o governo Bolsonaro (tendo a ministra Tereza Cristina à frente do time do veneno) é altamente eficiente. É que hoje, em plena pandemia e quando o Brasil já contabiliza mais de 12.000 mortos pela COVID-19, o Ministério da Agricultura publicou o Ato No. 31 de 4 de Maio de 2020 onde são liberados mais 22 produtos, vários deles proibidos na União Europeia. O total para 2020 agora é de 185 agrotóxicos, no que pode ser chamado “um museu de velhas novidades”, pois a maioria dos produtos liberados já estão liberados para venda no Brasil. Há ainda que se lembrar que agora o “grande total” do governo Bolsonaro chegou a 688 produtos em pouco mais de 16 meses de duração do mandato de Jair Bolsonaro.

A partir de análises rápidas, já pude identificar o padrão habitual de cerca de 30% de produtos proibidos na União Europeia, e uma predominância de empresas chinesas no fornecimento dos produtos aprovados nesta rodada (ver gráfico abaixo).

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Uma pequena diferença é que as empresas chinesas são os produtores primários de “apenas”  40,9 % dos agrotóxicos liberados. Além disso, há que se notar a presença de produtos da Basf e da Du Pont. 

Também me parece importante notar que dos 6 agrotóxicos liberados que são proibidos na União Europeia, 4 são produzidos por diferentes empresas chinesas e 2 pela multinacional estadunidense DuPont em sua planta localizada na Espanha.

Quem desejar acessar a planilha com os dados do Ato No. 31, basta clicar Aqui! . Já para baixar a planilha completa de 2020, basta clicar Aqui!

Entrevista sobre os impactos dos agrotóxicos ao projeto “Tom da Ciência”

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A convite do professor Marcelo Gantos, coordenador do projeto de extensão “Tom da Ciência” dei uma entrevista que acaba de ser veiculada nas redes sociais sobre os impactos sociais e ambientais do uso de agrotóxicos, com uma número significativo de substâncias que são classificadas como altamente tóxicas,  na agricultura familiar (ver vídeo abaixo).

Dentre os aspectos que pontuei como importantes na questão do uso de agrotóxicos por assentados da reforma agrária que venho estudando há quase duas décadas é de que os agricultores familiares são uma espécie de “canário na mina de carvão” no tocante ao uso de venenos agrícolas altamente tóxicos, e que estão sendo liberados em velocidade espantosa pelo governo Bolsonaro.

Além disso, pontuei na entrevista para aquilo que chamei de “ciclo de envenenamento” que envolve o agricultor familiar desde o momento em que manuseia a substância para aplicar em sua roça, passando pela contaminação de águas e solos, e termina no momento em que os alimentos gerados são consumidos dentro da unidade familiar.

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Noto ainda que no momento em que a entrevista foi concedida, o governo Bolsonaro havia aprovado 48 agrotóxicos em 2020, sendo que agora o total de aprovações já alcançou 163. Mas a proporção de 30% de agrotóxicos banidos pela União Europeia continua mantida.

O projeto “Tom da Ciência” é uma ferramenta de divulgação das áreas de pesquisa das três pós-graduações do Centro de Ciência do Homem (Cognição e Linguagem, Políticas Sociais, e Sociologia Política) mantidos pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). O o material que é produzido pelo “Tom da Ciência“, a partir  de entrevistas com docentes desses programas, serviu para criar um espaço comunicativo alternativo de mídia (Youtube, Facebook e Instagram) que será atualizado  constantemente para a divulgação do conhecimento científico, tecnológico e cultural.

Agrotóxicos, câncer, padrões duplos, e o que a Bayer tem a ver com os incêndios na floresta amazônica

AVIÃOFoto: Rafi Bablan, CC BY 2.5

Por Christian Russau, ativista de Direitos Humanos e membro do conselho da Ethical Shareholders da Alemanha

Como a Bayer se aproveita das novas leis de participação acionária alemãs em tempos de distanciamento social da Corona, para nós, que somos ativistas de direitos humanos, este ano não é possível participar ativamente da AGM da Bayer para criticar a diretoria da Bayer  diretamente como fizemos nas últimas décadas. Mas, no entanto, a nossa crítica é mais importante do que nunca. Então, aqui vamos nós.

A Bayer vende agrotóxicos no Brasil que são proibidos na União Europeia (UE). Fiz duas investigações, uma em 2016 e a segunda em 2019.

A investigação em 2016 mostrou que a Bayer estava vendendo oito substâncias ativas de agrotóxicos no Brasil em 2016 que não são autorizadas a nível da UE, como afirma o Banco de Dados de Agrotóxicos da UE. Em 2016, as substâncias proibidas na UE que eram vendidas no Brasil eram as seguintes:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Dissulfotom
  • Etiprol
  • Etoxissulfuron
  • Ioxinil
  • Thidiazuron
  • Tiodicarbe

Mas em 2019, o número havia aumentado para 12, como uma nova investigação em 2019 mostrou:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Etiprol
  • Etoxissulfuron
  • Fenamidona
  • Indaziflam
  • Ioxinil
  • Oxadiazam
  • Propinebe
  • Thidiazuron
  • Tiodicarbe
  • Tirame

Isso significa que, entre 2016 e 2019, houve um aumento de 50% nas vendas de produtos agroquímicos da Bayer no Brasil, proibidas na UE.

Isso me lembrou do ano de 1988, quando o então CEO da Bayer, Hermann J. Strenger, se recusou a admitir que a Bayer estava usando padrões duplos. Strenger disse na época: “Nós fazemos os mesmos requisitos de nossos investimentos no Brasil ou na Índia, nos EUA ou no Japão, como [na Alemanha].” Mas ele admitiu: “De fato, no Brasil, por exemplo, não tem leis como na República Federal da Alemanha”.

Então, 32 anos depois, a Bayer ainda vende no Brasil alguns herbicidas, inseticidas e fungicidas com ingredientes ativos que são proibidos na Europa. Então, como seria possível não falar de padrões duplos?

Por que estamos focando no Brasil?

Por que colocamos nosso foco no Brasil? Porque o Brasil está no centro do interesse de crescimento da Bayer. O CEO da Bayer, Werner Baumann, disse na Assembleia Geral Anual de 2018 que o interesse da Bayer em adquirir a Monsanto seria no setor de sementes e no crescimento desse setor: vamos analisar mais de perto esse tipo de crescimento da empresa. O tipo de semente da Bayer (e agora também a antiga Monsanto ”) geralmente é geneticamente modificado, e isso acompanha o crescimento de venenos agrícolas. Se juntarmos essas três variáveis ​​- sementes geneticamente modificadas, venenos agrícolas e crescimento – juntas, apenas um denominador comum pode ser encontrado em todo o mundo: o Brasil. Essa ainda é a triste realidade, e com um governo de extrema direita como o de Jair Bolsonaro está ficando cada vez pior. Somente em 2019, em um ano de governo, o governo de direita em Brasília liberou mais 503 agrotóxicos

Nos EUA, vemos os processos legais em andamento contra a Bayer/Monsanto, na Europa as pessoas estão cada vez mais querendo se livrar da Glyphosate & Co, na Índia, mais e mais estados estão se declarando “livres de agrotóxicos”, e a China está mostrando preocupação com a contaminação por agrotóxicos. Então: para a Bayer, só resta o Brasil. E há uma razão para isso: “503 novos agrotóxicos, o que significa – como um cientista conhecido  da FIOCRUZ colocou: “O Brasil se tornará um paraíso para os venenos agrícolas”. Já é.

E a Bayer continuará participando, talvez mais do que nunca, na venda e distribuição de agroquímicos altamente tóxicos no Brasil. Pode ser algum tipo de tática de sobrevivência suicida diante da aquisição de vários bilhões de dólares da Monsanto, mas a Bayer buscará crescimento a qualquer preço. Qualquer veneno que possa ser vendido será vendido.

O Brasil é o inferno dos agrotóxicos na Terra

O Brasil é o inferno dos agrotóxicos na Terra. Vejamos os fatos: o Brasil é o líder mundial no uso de venenos agrícolas. 7,3 litros de veneno agrícola por cidadão brasileiro por ano representam a média nacional. A província transgênica de Mato Grosso detém o recorde mundial: no estado brasileiro de Mato Grosso são aplicados 13,3% (140 milhões de litros) de todos os agrotóxicos usados ​​no Brasil.  Apenas no pequeno município de Sapezal, no estado de Mato Grosso, em 2012, nove milhões de litros de venenos agrícolas foram utilizados.  Em Sapezal, o uso de per capita de agrotóxicos é de 393 litros, 52 vezes superior à média nacional de 7,3 litros.

Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso constatou que houve 1.442 casos de câncer gástrico, esofágico e pancreático em 13 municípios (64.746 habitantes de acordo com o último censo de 2015), nos quais foram cultivados soja, milho e algodão entre 1992 e 2014. Em comparação, nos 13 municípios comparáveis ​​(219.801 habitantes de acordo com o último censo de 2015), onde o turismo predominou em vez da agricultura, o número de casos de câncer foi de apenas 53. Isso resulta em uma taxa de câncer de 223,65 por 100.000 habitantes em municípios predominantemente agrícolas, enquanto em municípios predominantemente turísticos, há uma taxa de câncer de 24,11 por 100.000 habitantes. Assim, em municípios onde os agrotóxicos são fortemente pulverizados, a taxa de câncer é estatisticamente maior em um fator de 8.

No ano passado, perguntei ao CEO da Bayer Baumann: quanto remédio anticâncer (volume e vendas) sua empresa farmacêutica enviou ao estado de Mato Grosso em 2016 e 2017? Infelizmente, não recebi uma resposta.

Incêndios florestais da Amazônia na floresta tropical

O mundo teve que testemunhar em 2019 uma temporada de incêndios na floresta amazônica com um enorme aumento ano a ano nos incêndios ocorridos na floresta amazônica. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil registrou um aumento de 77% ano a ano. No final de agosto, o céu acima da cidade de São Paulo escureceu durante o dia, apesar de estar a milhares de quilômetros da Amazônia. O governo de Bolsonaro fez sua parte no jogo horrível. Mas e a Bayer?

Em setembro de 2019, a Bayer declarou participar da chamada “Coalizão Brasileira de Clima, Floresta e Agricultura”.  A Bayer declarou então: “Estamos adotando uma posição clara para exigir a aplicação de leis de proteção florestal e impulsionar a intensificação sustentável da agricultura”. A Bayer argumenta que o princípio a ser adotado seria: “Quanto mais bem-sucedidos formos em intensificação sustentável, menor pressão sobre novas extensão do uso da terra”. Traduzindo isso para o discurso do mundo real: mais agrotóxicos da Bayer em terras usadas agrícola e, em seguida, a Amazônia seria salva.

Curiosamente, é preciso lembrar que os municípios da Amazônia brasileira com as maiores taxas de desmatamento ilegal são os mesmos com o maior aumento no uso de venenos agrícolas.

Então, Bayer, pare de espalhar besteiras, como uma empresa de ciências como você deveria saber muito melhor … Ou é mais uma decisão estratégica?

No Paraguai, o movimento anti-agrotóxicos e as comunidades indígenas têm um slogan popular: Ñamosêke Monsanto! – É a língua guarani e traduz para “Fora Monsanto!” O mesmo se aplica naturalmente à Bayer.

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Este artigo foi inicialmente publicado em inglês pela Association of Ethical Shareholders [Aqui].

Observatório dos Agrotóxicos: Governo Bolsonaro autoriza mais 16 produtos e chega a 163 liberações em 2020

Tractor spraying young crops in field

Em uma prova de que, apesar de todo o caos aparente,  o governo Bolsonaro continua sendo eficiente naquilo que se propôs, o Ministério da Agricultura (ainda comandado pela “musa do veneno”, Tereza Cristina (DEM/MS) publicou hoje o Ato 28 de 22 de Abril onde são liberados mais 16 agrotóxicos, todos eles definidos como “produtos técnicos”.

A estratégia de liberar agrotóxicos na forma de “produtos técnicos” parece visar a facilitação de criação de novos agrotóxicos genéricos, pois a totalidade dos agrotóxicos liberados a partir do Ato 28 já estavam autorizados por atos anteriores.

A característica predominante dos produtos serem fabricados na China foi mantida no Ato 28, visto que 11 dos produtos serão fornecidos por empresas chinesas. O interessante neste caso é a contribuição da Índia que fornecerá os 5 agrotóxicos restantes da lista de aprovados. Mais uma vez fica evidente que toda a grita de setores mais estridentes dos apoiadores do governo Bolsonaro não tem qualquer impacto sobre as relações comerciais com a China, que continuará sendo a principal fornecedora de agrotóxicos para o latifúndio agro-exportador no Brasil.

Apesar de ter tido apenas 2 produtos aprovados, a “estrela” do Ato 28 é o herbicida Dicamba cuja aprovação em 2019 foi alvo de um ofício conjunto que foi enviado ao Ministério da Agricultura  pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja)  que manifestaram “preocupação com o futuro de toda a agricultura brasileira” devido aos efeitos negativos que este produto causaria, entre outras, à diversas e importantes culturas agrícolas, tais como soja, algodão, batata, café, cítricos, feijão, leguminosas, tomate, uva e milho.

dicambaDicamba destruiu plantações de soja nos EUA – Foto: Reprodução

Aparentemente os interesses das corporações multinacionais que fabricam o Dicamba, incluindo a Bayer, a Basf e DowDupont falou mais alto, e agora os riscos causados pelo Dicamba deverão ser ainda maiores. 

Interessante notar que o Dicamba que antes era classificado com sendo da classe  toxicológica “I” (extremamente tóxico para seres humanos), agora apareceu sem sequer ser classificado, sob a desculpa de que a classificação atende ao produto técnico equivalente, sem que se indique qual seria.

Para quem desejar acessar a lista de agrotóxicos aprovados pelo Ato 28, basta clicar Aqui! , e a lista de 163 agrotóxicos liberados em 2020 Aqui!.

 

Observatório dos Agrotóxicos divulga lista completa dos 147 agrotóxicos liberados até 01 de Abril de 2020

observatório

Como havia adiantado,  organizei o “Observatório dos Agrotóxicos” para continuar informando a todos os interessados sobre a marcha das aprovações de novos agrotóxicos pelo governo Bolsonaro. Lembro que em 2019, o Ministério da Agricultura (MAPA) atingiu a impressionante marca de 503 agrotóxicos liberados para o mercado brasileiro.

Mas aparentemente a ministra Tereza Cristina está disposta a estabelecer um novo recorde de liberações em 2020, pois com cinco atos publicados até o dia 01 de abril, o MAPA já totaliza 147 “novos” agrotóxicos nos primeiros 92 dias do corrente ano. Isso demonstra que nem a pandemia da COVID-19 está servindo para diminuir a avidez em despejar no mercado brasileiro uma série de produtos “genéricos” de agrotóxicos já disponíveis no mercado. 

Noto ainda que a nova metodologia de avaliação dos riscos sobre a saúde humana e o meio ambiente que está sendo utilizada pelos órgãos responsáveis pelo processo de liberação de agrotóxicos no Brasil (i.e., Anvisa, IBAMA e MAPA) criou uma situação peculiar, pois a maioria dos agrotóxicos aparece como mais potencialmente tóxicos para o meio ambiente do que para a saúde humana, o que modifica os padrões que existiam antes das modificações impostas na forma de classificação dos agrotóxicos pelo governo federal.

Também é importante salientar que se consolida a hegemonia de empresas chinesas no oferecimento das versões genéricos de agrotóxicos que já existem no mercado brasileiro. O detalhe é que esses agrotóxicos “genéricos” abarcam uma quantidade significativa de produtos banidos nos países que os desenvolveram originalmente. Tal fato indica uma articulação entre corporações localizadas nos países centrais e empresas chinesas  para mover a produção dessas substâncias indesejadas nos países centrais para a China que, depois, as comercializa com países produtores de commodities agrícolas como o Brasil e a Argentina.

Quem desejar acessar a base de dados, contendo os 147 agrotóxicos já aprovados em 2020, basta clicar [Aqui! ].

Observatório dos agrotóxicos: governo Bolsonaro libera mais 46 produtos

agrotóxicos chuva

Apesar das evidências existentes de que existe uma ligação direta entre o modelo de agricultura industrial e a ocorrência de pandemias como a causada pela COVID-19, o governo Bolsonaro mantém-se firme na liberação de agrotóxicos para serem usados, em grande maioria, nas grandes extensões de monoculturas de soja, milho e cana-de-açúcar.

Tanto isto é verdade que, por meio do Ato No. 26 de 01 de abril de 2020, foram liberados mais 46 agrotóxicos para uso no Brasil. Mais tarde divulgarei a lista completa desses 46 produtos e a base atualizada dos agrotóxicos já aprovados em 2020 que já alcança um “grande total” de 147 aprovados apenas entre 1 de janeiro e 01 de abril.

Dois detalhes interessantes sobre essa nova lista de aprovações. A primeira é a presença de 17 agrotóxicos de natureza biológica. A segunda é aprovação de várias versões do herbicida 2,4-D  que é fabricado pela multinacional estadunidense Dow Chemical Co.

Por isso é que eu digo que o caos aparente no interior do governo Bolsonaro pode não passar disso mesmo, aparência. É que enquanto os brasileiros estão lutando por suas vidas em meio à pandemia da COVID-19, o Ministério da Agricultura comandado por Tereza Cristina segue firme no seu intento de nos transformar numa imensa banheira tóxica para onde as corporações multinacionais destinam proibidos em seus países-sede.