Contaminantes emergentes agravam crise hídrica nos países em desenvolvimento, aponta dossiê

Além da escassez e da distribuição desigual da água, a qualidade está sendo fortemente afetada por agrotóxicos, resíduos industriais e descarte de medicamentos e produtos de higiene

Entre os poluentes emergentes estão agrotóxicos, aditivos de combustíveis, materiais plastificantes ou antiaderentes, medicamentos, produtos de higiene e cosméticos (foto: Freepik)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

Com o crescimento da população, da urbanização e da atividade agroindustrial, o uso global de água doce deverá aumentar 55% até 2050. A projeção dos estudiosos é que essa escalada da demanda venha a impactar fortemente um cenário já caracterizado pela escassez e distribuição desigual dos recursos hídricos, pela privatização de um bem essencial que deveria ser de domínio público e pela deterioração da qualidade da água, especialmente nos países em desenvolvimento.

Migrações forçadas, tensões sociais e conflitos militares decorrentes do déficit hídrico agravam esse quadro sombrio. E não se trata aqui de um futuro possível, mas de algo que já está ocorrendo agora. Entre 1970-2000 houve um aumento de 10% na migração global relacionada à falta de água. E, de acordo com um relatório publicado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 2024, 2,2 bilhões de pessoas viviam na época sem acesso a água potável gerida com segurança. E, desde 2022, aproximadamente metade da população mundial experimentou grave escassez de água por pelo menos parte do ano, enquanto um quarto enfrentou níveis “extremamente altos” de estresse hídrico.

Nesse contexto, a revista Frontiers in Water publicou um dossiê reunindo cinco artigos sobre o tema, intitulado Emerging Water Contaminants in Developing Countries: Detection, Monitoring, and Impact of Xenobiotics (Contaminantes emergentes da água em países em desenvolvimento: detecção, monitoramento e impacto dos xenobióticos).

Geonildo Rodrigo Disner, pesquisador do Instituto Butantan e integrante do Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP –, foi coeditor e autor principal do editorial de apresentação do dossiê.

“Além de contaminantes convencionais, como os coliformes fecais, cuja presença está relacionada com o baixo índice de tratamento dos esgotos, a água doce dos países em desenvolvimento está sendo, cada vez mais, impactada por uma nova categoria de poluentes: os contaminantes emergentes. Estes incluem agrotóxicos, aditivos de combustíveis, materiais plastificantes ou antiaderentes, medicamentos [como antibióticos, analgésicos e hormônios], produtos de higiene e cosméticos”, relata Disner.

Embora não sejam necessariamente novos, esses compostos passaram a ser detectados em concentrações e ambientes antes não registrados, gerando preocupação crescente. É o caso dos herbicidas diuron, usado principalmente nas culturas de cana-de-açúcar e algodão; glifosato, usado principalmente em lavouras de soja e milho; atrazina, usado principalmente nas culturas de milho e sorgo; e 2,4-D, usado no controle de plantas de folhas largas em pastagens e lavouras (leia mais em: agencia.fapesp.br/54568).

“Por não serem removidos pelos métodos convencionais de tratamento de água, esses poluentes acumulam-se nos ecossistemas aquáticos, podendo causar efeitos tóxicos, inclusive em concentrações extremamente baixas. Muitos atuam como desreguladores endócrinos, com impactos sobre a reprodução e o desenvolvimento de organismos — efeitos que podem se estender à saúde humana. A exposição é geralmente crônica, contínua e silenciosa. E muitos desses compostos se bioacumulam ao longo da cadeia alimentar, o que aumenta ainda mais os riscos à saúde”, informa Disner.

O pesquisador lembra que tudo acaba na água. A água é o receptáculo final da maioria dos poluentes, inclusive daqueles liberados no solo ou no ar. Além disso, a água é um veículo de transporte, que carrega contaminantes mesmo para regiões onde nunca foram usados.

“Apesar dos riscos, a maioria dos contaminantes emergentes ainda não é monitorada regularmente, nem regulamentada por legislação específica. Em geral, os sistemas de tratamento removem apenas materiais grosseiros, como partículas em suspensão, parte da matéria orgânica e microrganismos. Mesmo na cidade de São Paulo, onde temos uma estrutura relativamente mais desenvolvida, todos os 27 agrotóxicos testados foram detectados pelo Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano [Sisagua] nas águas monitoradas. A gente vive em uma região com enorme pressão sobre os recursos hídricos e o tratamento de que dispomos ainda é limitado”, sublinha Disner.

Diante dessa situação, os artigos reunidos no dossiê exploram os desafios e avanços recentes na identificação, monitoramento e avaliação de impacto dos contaminantes emergentes em países de baixa e média rendas. Um dos papers, escrito por pesquisadores do Sri Lanka, investiga a presença de metais pesados na água subterrânea e no arroz cultivado localmente, associando a exposição à alta incidência de doença renal crônica. Outro estudo, de Bangladesh, analisa a qualidade da água engarrafada vendida comercialmente, revelando contaminação por arsênio e microrganismos patogênicos. Já no Brasil, um trabalho realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) avalia os efeitos tóxicos do diuron e de seus metabólitos em peixes-zebra, modelo animal utilizado em estudos ecotoxicológicos.

Além dos contaminantes, o pesquisador chama atenção para um problema estrutural mais amplo: a desigualdade no acesso à água e os efeitos já observáveis das mudanças climáticas. “As grandes enchentes, como vimos recentemente no Rio Grande do Sul, comprometem toda a estrutura de captação e distribuição de água potável. Por outro lado, há regiões que estão enfrentando secas severas. Entre 2002 e 2021, as secas afetaram mais de 1,4 bilhão de pessoas”, diz.

A disputa por água já é uma realidade em algumas partes do mundo e tende a se intensificar nas próximas décadas. O relatório da Unesco informa que, enquanto aproximadamente 40% da população mundial vive em bacias hidrográficas e lacustres transfronteiriças, apenas um quinto dos países tem acordos transfronteiriços para administrar conjuntamente esses recursos de forma equitativa. Muitas bacias transfronteiriças estão localizadas em áreas marcadas por tensões internacionais atuais ou passadas.

“A água está se tornando um recurso geoestratégico. E a privatização das fontes hídricas pode transformar esse bem em moeda de controle e poder. Estamos acostumados a falar da disputa pelo petróleo, mas a disputa pela água poderá ser ainda mais acirrada. A água precisa ser tratada como um direito. E não se trata apenas do acesso, mas também da qualidade. Garantir água potável de qualidade para a população é um dever do Estado”, enfatiza Disner.

Os autores do dossiê ressaltam que a prevenção na fonte, o princípio da precaução e a remediação de áreas contaminadas são estratégias essenciais para conter a entrada de poluentes em ecossistemas aquáticos. Também defendem a criação de marcos regulatórios e programas de monitoramento voltados especificamente aos contaminantes emergentes, com o objetivo de proteger a saúde humana e ambiental, contribuindo para o alcance das metas globais de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU).

A participação de Disner foi apoiada pela FAPESP por meio de bolsa de pós-doutorado concedida ao pesquisador.

O dossiê Emerging Water Contaminants in Developing Countries: Detection, Monitoring, and Impact of Xenobiotics pode ser acessado em: www.frontiersin.org/research-topics/58353/emerging-water-contaminants-in-developing-countries-detection-monitoring-and-impact-of-xenobiotics/magazine.


 

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Fonte: Agência Fapesp

Agronegócio e escassez hídrica no Brasil: uma tragédia anunciada

Seca no Rio Madeira em 2024. Foto: Michael Dantas / AFP

Um levantamento feito pela Agência Pública no banco de dados da Agência Nacional de Águas (ANA) identificou que 50 grupos empresariais possuem outorgas de uso de água que alcançam 3,5 trilhões de litros de água, um valor que serviria para abastecer cerca de 98 milhões de pessoas (46% da população brasileira) por um ano. Há que se notar que 86% das outorgas eram para atividades do dito agronegócio.

O Brasil vive hoje um processo de diminuição da água existente em seus principais rios. Isso é o que mostram diferentes estudos científicos realizados nos últimos anos e publicados em importantes revistas científicas internacionais. As causas dessa perda da capacidade hídrica estão ligadas a problemas que vão desde as mudanças climáticas, passam pelo desmatamento na Amazônia e no Cerrado, e desembocam na outorga de trilhões de litros de água anualmente para uso pelo agronegócio e pela mineração.

Um levantamento feito pela Agência Pública no banco de dados da Agência Nacional de Águas (ANA) identificou que 50 grupos empresariais possuem outorgas de uso de água que alcançam 3,5 trilhões de litros de água, um valor que serviria para abastecer cerca de 98 milhões de pessoas (46% da população brasileira) por um ano. Nesse caso, há que se notar que 86% das outorgas eram para atividades do dito agronegócio.

Mas os problemas associados ao uso intenso de água pelo agronegócio estão entrelaçados ao processo de desmatamento, especialmente no bioma do Cerrado. Uma pesquisa da qual participei e que foi publicada em 2023 na revista Sustainability mostrou a perda da capacidade hídrica (ou seja, o ressecamento) em 82 bacias hidrográficas localizadas dentro do Cerrado. Essa perda de capacidade hídrica é especialmente preocupante, na medida em que são os rios do Cerrado que abastecem a maioria das bacias hidrográficas que abastecem o resto do Brasil. É uma espécie de efeito cascata no qual o ressecamento dos rios do Cerrado irá espalhar a seca por outras partes do Brasil.

Uma estratégia dos latifundiários para responder aos impactos oriundos do desmatamento, o uso de água subterrânea para irrigação, também colabora para que o volume dos rios esteja diminuindo. Um estudo publicado pela prestigiosa revista Nature em 2019 apontava para um lento processo que estava atingindo entre 15 e 21% das bacias hidrográficas que têm suas águas subterrâneas removidas, já atingiram um limiar ecológico crítico, dizem os autores — e que esse número pode subir rapidamente para algo entre 40 e 79% até 2050. Essa tendência foi confirmada de forma específica para o Brasil por um estudo publicado pela revista científica “Nature Communications”, que apontou que mais da metade dos rios brasileiros está perdendo água para o subsolo, o que deverá comprometer a vazão, o que afetará fortemente a quantidade de água disponível para consumo humano”.

Apesar das evidências de que caminhamos para um grave problema de abastecimento de água em um futuro não muito distante, e que os principais responsáveis são conhecidos, a privatização das empresas concessionárias na maioria dos estados e municípios torna a crise uma oportunidade para os donos do capital. É que, com demanda em crescimento e oferta em diminuição, a tendência será de aumentos explosivos do preço da água para os trabalhadores do campo e da cidade.

Em face desse cenário ameaçador, é preciso que o debate em torno da democratização do acesso à água, bem como da imposição das restrições sobre o consumo abusivo pelo agronegócio e pela mineração. Mas a receita para isso precisa nascer do reconhecimento de que não há como esperar soluções das estruturas criadas para gerir a privatização da água, a começar pela própria ANA e os chamados comitês de bacia. É que desse aparato não sairá uma gota de água para os pobres, pois foi criado para gerenciar a água não como um direito humano, mas mais uma commodity a ser comercializada para alcançar o lucro máximo. 

O caminho para evitar uma aguda crise social causada pela escassez da água terá de ser o da organização popular e do questionamento frontal do modelo privatista de gerenciamento dos recursos hídricos que foi estipulado em 1997 com a promulgação da Política Nacional de Recursos Hídricos. Um exemplo prático de como o controle privado da água deve ser enfrentado pelos trabalhadores foi a chamada Revolta de Correntina, que ocorreu em 2017 na região oeste do estado da Bahia, quando milhares de pessoas se mobilizaram para denunciar o uso abusivo da água pelas atividades do agronegócio.  A replicação da mobilização de Correntina terá de estar na ordem do dia, pois, do contrário, a falta de água vai se tornar regra e não exceção.

Finalmente, há que se dizer que todo esse contexto de diminuição da quantidade de água facilmente disponível para consumo deverá ser piorado pelas mudanças climáticas com o aumento dos períodos de seca e de ondas de calor. Por isso, não há tempo para contemplar, pois a hora é agir. O quanto antes, melhor. 


Fonte: A Nova Democracia

O dilema ambiental da Inteligência Artificial em um mundo cada vez mais digital

Imagem: Freepik

São Paulo, fevereiro de 2025 – A ascensão das Inteligências Artificiais Generativas, tanto para uso pessoal quanto corporativo, já é uma realidade e vem revolucionando diversos setores, impulsionando a inovação e a produtividade. No entanto, seu uso contínuo e crescente tem gerado impactos ambientais e sociais significativos, devido ao alto consumo de energia e água, especialmente nos data centers. Esses centros de processamento, armazenamento e gerenciamento de dados utilizam milhões de litros de água para lidar com os grandes volumes de informações que recebem. Por exemplo, o GPT-4, a versão mais avançada do chat de IA generativa da OpenAI, pode consumir até meio litro de água para gerar um único e-mail.

Com o aumento da demanda por modelos avançados de Inteligência Artificial, a necessidade de centros de dados robustos cresce na mesma proporção. Essas estruturas exigem uma quantidade massiva de energia para operar e resfriar os servidores, resultando em um impacto ambiental considerável. Segundo um estudo realizado pela Deloitte, só em 2023 essas estruturas foram responsáveis pelo consumo de 1,4% da energia global. Além disso, apenas o treinamento de um grande modelo de linguagem de IA pode gerar cerca de 300 toneladas de CO2.

Diante desse cenário, é essencial compreender os desdobramentos energéticos e ecológicos que o uso excessivo de IA poderá causar. Gustavo Fortuna, líder em Inteligência Artificial da BlueShift, empresa referência em soluções de dados e tecnologia, destaca que promover o uso sustentável da IA depende de práticas sólidas de governança por parte das empresas de tecnologia. “A adoção de medidas sustentáveis e a transparência sobre questões ambientais são essenciais para que tanto as empresas quanto o público em geral possam fazer um uso consciente dessas ferramentas.”

A urgência de práticas mais sustentáveis nas empresas deve acelerar a implementação de regulamentações não apenas para o uso, mas também para a criação e aprimoramento das Inteligências Artificiais. A União Europeia já deu um passo importante nesse sentido com o AI Act, o primeiro marco legislativo mundial sobre IA, que busca garantir a segurança e o uso ético dessas tecnologias. Contudo, embora seja um avanço significativo, o AI Act ainda não aborda de maneira aprofundada a sustentabilidade e o impacto ambiental das inteligências artificiais, nem estabelece limites claros sobre o consumo de energia e água pelas empresas. Em contrapartida, em Frankfurt, na Alemanha, uma iniciativa já limita a construção de novos data centers e o consumo de recursos, mostrando novas alternativas para regulamentar este setor.

Para Gustavo Fortuna, a criação de políticas de regulamentação das IAs deve buscar o equilíbrio entre os avanços tecnológicos e a proteção ambiental. “As próprias IAs podem ser usadas para analisar dados e tendências climáticas de forma mais aprofundada. Com a transparência das empresas que gerenciam essas ferramentas, podemos estabelecer processos para medir os impactos ambientais e sociais das IAs e como mitigá-los de forma eficaz”, explica.

A insustentável leveza da inteligência artificial

Por Silvia Ribeiro para o “La Jornada”

O desenvolvimento rápido, desregulado e geralmente desnecessário de sistemas de inteligência artificial levou a um aumento brutal no consumo de água doce e energia globalmente, especialmente em comunidades onde grandes data centers estão instalados. Isso traz consigo um aumento global de gases de efeito estufa que aceleram a crise climática, além de impactos ambientais e à saúde.

Não é um desenvolvimento baseado na demanda . Há atores poderosos que a promovem agressivamente: a oligarquia tecnológica que agora governa os Estados Unidos sem ter um único voto. É uma estratégia deliberada para aumentar a dependência do usuário e o controle sobre os dados e o comportamento do usuário.

Tecnologias com inteligência artificial geral existem há décadas e podem ou não ser úteis para automatizar algumas atividades, dependendo do contexto, necessidades, alternativas, custos e impactos que acarretam. O desenvolvimento recente da chamada inteligência artificial generativa (GAI) é diferente porque não apenas coleta e sistematiza dados, mas também produz novos conteúdos que podem ser texto, imagens, som e até mesmo novas formas biológicas. Esse tipo de inteligência artificial sustenta aplicativos como o ChatGPT e similares. Exige processos de treinamento extensivos com grandes modelos de linguagem e conjuntos de dados cada vez mais volumosos, o que implica um aumento exponencial no uso de computadores, servidores, infraestrutura e, portanto, energia, água, recursos e geração de poluição e resíduos.

A digitalização em todos os setores industriais e seu uso individual em plataformas e redes sociais geram imensos volumes de dados que, para funcionar, exigem muitos computadores interconectados, ou seja, data centers que podem armazenar, processar, extrapolar e reinterpretar. Esses centros são a base física das nuvens de computação. Atualmente, três das maiores empresas da oligarquia tecnológica – Amazon, Microsoft e Google – controlam 66% das nuvens de computação do mundo e, junto com a Meta (dona do Facebook), 70% dos cabos submarinos.

Cecilia Rikap, do University College London, entrevistada na série Data Vampires pelo analista canadense Paris Marx, explica que grandes empresas de tecnologia estabeleceram uma estratégia deliberada de centralizar informações digitais em suas meganuvens. Ela é apresentada a empresas, instituições e governos como uma solução eficiente para evitar a criação de uma infraestrutura digital própria, com contratos que supostamente podem ser interrompidos. De fato, devido às constantes atualizações de programas e aplicativos de interconexão, fica muito difícil para quem contrata esses serviços revogar e até mesmo controlar o uso de suas informações. Os proprietários da nuvem ganham dinheiro vendendo o serviço, ao mesmo tempo em que aumentam seu acesso a mais dados e lucram com o negócio de vender ou usar a interpretação desses dados para influenciar escolhas de consumidores, políticas ou quaisquer outras.

Em 2018, havia 430 grandes data centers no mundo todo. No final de 2023 eram 992, atualmente são mais de mil. Com o uso da inteligência artificial generativa, estima-se que o número de grandes data centers dobre a cada 4 anos, sendo a maioria em hiperescala, uma categoria para aqueles com mais de 5.000 servidores e 10.000 pés quadrados de área de superfície. Por exemplo, a Amazon Web Services (AWS) está instalando um centro com mais de 50 mil servidores em Minnesota,

Com o sucesso de vendas do ChatGPT, todas as grandes empresas de tecnologia investiram no desenvolvimento de aplicativos com o IAG. A China acaba de anunciar o DeepSeek, um aplicativo muito mais barato que os dos EUA. Eles também incorporaram sistemas IAG em mecanismos de busca, celulares e diversos dispositivos, muitas vezes sem nos dar a opção de não usá-los, o que aumenta exponencialmente a demanda por água e energia sem que possamos decidir sobre isso.

De acordo com Sasha Luccioni, cientista da computação entrevistado pelo Data Vampires, a diferença entre fazer um cálculo matemático em uma calculadora manual com energia solar ou usar o ChatGPT pode multiplicar o uso de energia em até 50 mil vezes. Uma pergunta e resposta no ChatGPT ou em um mecanismo de busca de IA consome entre 0,5 e um litro de água. Também sujeito a erros frequentes e sem fornecer fontes.

As necessidades de água e energia são brutais e levaram a conflitos com diversas cidades onde estão instalados data centers. Cingapura, Irlanda e Holanda impuseram moratórias à instalação desses centros devido ao alto consumo de recursos.

Na América Latina, os principais locais para instalação de mega data centers são São Paulo, Brasil, e Querétaro, México. Em terceiro lugar está Quilicura, em Santiago do Chile, onde já há protestos da população contra essas instalações.

Os impactos ambientais, de saúde, sociais e políticos locais e globais do IAG são sérios e afetam a todos. Os lucros vão para um pequeno grupo de ultra-ricos.


Fonte: La Jornada

Crise global da água colocará metade da produção mundial de alimentos em risco nos próximos 25 anos

Revisão histórica diz que ação urgente é necessária para conservar recursos e salvar ecossistemas que fornecem água doce

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Uma criança bebe de um recipiente de plástico em Gaza. Mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável segura. Fotografia: Abed Zagout/Anadolu via Getty Images

Por Fiona Harvey para o “The Guardian”

Alguns países se beneficiam mais do que outros da “água verde”, que é a umidade do solo necessária para a produção de alimentos, em oposição à “água azul” de rios e lagos. O relatório descobriu que a água se move ao redor do mundo em “rios atmosféricos” que transportam umidade de uma região para outra.

Cerca de metade da precipitação pluviométrica mundial sobre a terra vem de vegetação saudável em ecossistemas que transpiram água de volta para a atmosfera e geram nuvens que então se movem a favor do vento. China e Rússia são os principais beneficiários desses sistemas de “rios atmosféricos”, enquanto Índia e Brasil são os maiores exportadores, pois suas massas terrestres suportam o fluxo de água verde para outras regiões. Entre 40% e 60% da fonte de precipitação de água doce é gerada pelo uso de terras vizinhas.

“A economia chinesa depende do manejo florestal sustentável na Ucrânia, Cazaquistão e região do Báltico”, disse o Prof. Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático e um dos copresidentes da comissão. “Você pode fazer o mesmo caso para o Brasil fornecer água doce para a Argentina. Essa interconexão apenas mostra que temos que colocar a água doce na economia global como um bem comum global.”

Tharman Shanmugaratnam, presidente de Cingapura e copresidente da comissão, disse que os países devem começar a cooperar na gestão dos recursos hídricos antes que seja tarde demais.

“Temos que pensar radicalmente sobre como vamos preservar as fontes de água doce, como vamos usá-la de forma muito mais eficiente e como vamos conseguir ter acesso à água doce disponível para todas as comunidades, incluindo os vulneráveis ​​– em outras palavras, como preservamos a equidade [entre ricos e pobres]”, disse Shanmugaratnam.

A Comissão Global sobre Economia da Água foi criada pela Holanda em 2022, com base no trabalho de dezenas de cientistas e economistas renomados, para formar uma visão abrangente do estado dos sistemas hidrológicos globais e como eles são gerenciados. Seu relatório de 194 páginas é o maior estudo global a examinar todos os aspectos da crise hídrica e sugerir soluções para formuladores de políticas.

As descobertas foram surpreendentemente severas, disse Rockström. “A água é a vítima número um da [crise climática], as mudanças ambientais que vemos agora se agregando em nível global, colocando toda a estabilidade dos sistemas da Terra em risco”, ele disse ao Guardian. “[A crise climática] se manifesta antes de tudo em secas e inundações. Quando você pensa em ondas de calor e incêndios, os impactos realmente duros são por meio da umidade – no caso de incêndios, [o aquecimento global] primeiro seca as paisagens para que elas queimem.”

ciclo hidrológico

Cada aumento de 1C nas temperaturas globais adiciona outros 7% de umidade à atmosfera, o que tem o efeito de “energizar” o ciclo hidrológico muito mais do que aconteceria sob variações normais. A destruição da natureza também está alimentando ainda mais a crise , porque o corte de florestas e a drenagem de pântanos interrompem o ciclo hidrológico que depende da transpiração das árvores e do armazenamento de água nos solos.

Subsídios prejudiciais também estão distorcendo os sistemas de água do mundo e devem ser tratados como prioridade, descobriram os especialistas. Mais de US$ 700 bilhões (£ 540 bilhões) em subsídios a cada ano vão para a agricultura, e uma alta proporção deles é mal direcionada, encorajando os agricultores a usar mais água do que precisam para irrigação ou em práticas de desperdício .

Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da Organização Mundial do Comércio, também copresidente da comissão, disse que os países devem redirecionar os subsídios, eliminando os prejudiciais e garantindo que os pobres não sejam prejudicados. “Devemos ter uma cesta de ferramentas políticas trabalhando juntas se quisermos obter os três Es – eficiência, equidade e sustentabilidade ambiental e justiça. Portanto, temos que acoplar o preço da água com subsídios apropriados”, disse ela.

Atualmente, os subsídios beneficiam principalmente aqueles que estão em melhor situação, acrescentou Okonjo-Iweala. “A indústria está recebendo muitos subsídios, e pessoas mais ricas. Então, o que precisamos são subsídios mais bem direcionados. Precisamos identificar as pessoas pobres que realmente precisam disso”, disse ela. 

Mulheres em trajes coloridos carregam potes de água na cabeça.
A crise da água tem um impacto descomunal sobre as mulheres, disse um dos copresidentes da comissão. Fotografia: Anjum Naveed/AP

Os países em desenvolvimento também devem ter acesso ao financiamento necessário para reformar seus sistemas de água, fornecer água potável e saneamento e deter a destruição do meio ambiente natural, concluiu o relatório.

Mariana Mazzucato, professora de economia na University College London e copresidente da comissão, disse que empréstimos feitos por bancos do setor público para países em desenvolvimento devem ser condicionados a reformas hídricas. “Isso pode ser melhorar a conservação da água e a eficiência do uso da água, ou investimento direto para indústrias intensivas em água”, ela disse. “[Devemos garantir] que os lucros sejam reinvestidos em atividades produtivas, como pesquisa e desenvolvimento em torno de questões hídricas.”

Problemas com água também tiveram um impacto descomunal em mulheres e meninas , acrescentou Mazzucato. “Uma de nossas comissárias é Yvonne Aki-Sawyerr, prefeita de Freetown, em Serra Leoa. Ela diz que a maioria dos estupros e abusos de mulheres realmente acontecem quando elas vão buscar água”, disse Mazzucato. “Mortalidade infantil, paridade de gênero, o fardo da coleta de água, o fardo da segurança alimentar — todos eles estão conectados.”

Cinco principais conclusões do relatório

O mundo tem uma crise de água

Mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável segura, e 3,6 bilhões de pessoas — 44% da população — não têm acesso ao saneamento seguro. Todos os dias, 1.000 crianças morrem por falta de acesso à água potável. Espera-se que a demanda por água doce ultrapasse seu suprimento em 40% até o final desta década. Esta crise está piorando — sem ação, até 2050 os problemas de água reduzirão cerca de 8% do PIB global, com os países pobres enfrentando uma perda de 15%. Mais da metade da produção mundial de alimentos vem de áreas que apresentam tendências instáveis ​​na disponibilidade de água.

Não existe um esforço global coordenado para enfrentar esta crise

Apesar da interconexão dos sistemas globais de água, não há estruturas de governança global para a água. A ONU realizou apenas uma conferência sobre a água nos últimos 50 anos , e somente no mês passado nomeou um enviado especial para a água .

A degradação climática está a intensificar a escassez de água

Os impactos da crise climática são sentidos primeiro nos sistemas hidrológicos do mundo , e em algumas regiões esses sistemas estão enfrentando graves perturbações ou até mesmo colapso. Seca na Amazônia, inundações na Europa e Ásia, e derretimento de geleiras nas montanhas, que causam inundações e secas rio abaixo, são todos exemplos dos impactos de condições climáticas extremas que provavelmente piorarão em um futuro próximo. O uso excessivo de água pelas pessoas também está piorando a crise climática – por exemplo, drenando turfeiras e pântanos ricos em carbono que então liberam dióxido de carbono na atmosfera.

A água é artificialmente barata para alguns e muito cara para outros

Subsídios à agricultura ao redor do mundo frequentemente têm consequências não intencionais para a água , fornecendo incentivos perversos para fazendeiros irrigarem demais suas plantações ou usarem água de forma desperdiçada. Indústrias também têm seu uso de água subsidiado, ou sua poluição ignorada, em muitos países. Enquanto isso, pessoas pobres em países em desenvolvimento frequentemente pagam um alto preço pela água, ou só podem acessar fontes sujas. Preços realistas para água que removam subsídios prejudiciais, mas protejam os pobres devem ser uma prioridade para os governos.

A água é um bem comum

Toda a vida humana depende da água, mas ela não é reconhecida como o recurso indispensável que é . Os autores do relatório pedem uma reformulação de como a água é considerada – não como um recurso infinitamente renovável, mas como um bem comum global, com um pacto global pela água pelos governos para garantir que eles protejam as fontes de água e criem uma “economia circular” para a água na qual ela seja reutilizada e a poluição seja limpa. As nações em desenvolvimento devem ter acesso a financiamento para ajudá-las a acabar com a destruição de ecossistemas naturais que são uma parte fundamental do ciclo hidrológico.


Fonte: The Guardian

Pesquisa internacional aponta pane em ciclo hídrico global

Desde o início do século 20, o padrão de chuva no mundo está cada vez mais imprevisível, com aumento de secas ou tempestades extremas. Aumento na variabilidade da precipitação coloca em risco os ecossistemas e a existência humana 

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Precipitação de Cumulonimbus arcus sobre Zhuhai, China – (crédito: GAO Si)

Por Isabella Almeida para o “Correio Braziliense” 

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Academia Chinesa de Ciências (Ucas) e do Met Office, no Reino Unido, revelou que a variabilidade diária da precipitação global cresceu 1,2% por década desde 1900. As análises mostraram que, atualmente, mais de 75% das áreas terrestres sofreram com esse aumento. Os impactos foram mais acentuados na Europa, Austrália e leste da América do Norte.

A variabilidade da precipitação se refere à irregularidade temporal e na quantidade de chuva. Isso resulta em períodos de seca mais prolongados e intensos e tempestades torrenciais mais frequentes.

Zhang Wenxia, autor principal do estudo, detalhou que a atmosfera mais quente e úmida devido às emissões de gases de efeito estufa está provocando eventos de chuva mais fortes e flutuações mais drásticas entre períodos secos e úmidos. Isso torna a previsão e a gestão das águas pluviais cada vez mais complexas e desafiadoras.

Desmatamento

Marcelo Seluchi, especialista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), sublinha que a mudança do uso do solo é um problema. “Desmatar para produzir modifica o solo e o balanço da umidade. Se troca floresta por pastagem, diminui a evaporação do solo, que é muito importante para provocar chuva, especialmente em países muito grandes, como o Brasil. Se é uma área costeira, o oceano tem grande influência, mas, por exemplo, a região Centro-Oeste está muito longe da água, então essas áreas dependem bastante da umidade evaporada pelas florestas.”

Além da variabilidade da precipitação, a segurança hídrica global enfrenta novos desafios. Uma pesquisa da Universidade de Estocolmo, publicada na Nature Water, destacou a importância de considerar a origem da umidade que gera a chuva ao avaliar o risco de escassez de água.

Tradicionalmente, a segurança hídrica tem sido avaliada com base na quantidade de água armazenada em aquíferos, lagos e rios. No entanto, o novo estudo revela que os riscos são significativamente maiores ao considerar a umidade a favor do vento — aquela evaporada de outras áreas, que contribui para a precipitação.

Demanda

Os cientistas estudaram 379 grandes áreas hídricas ao redor do mundo e descobriram que a demanda por água, que chega a 32,9 mil quilômetros cúbicos por ano, está ainda mais ameaçada do que se pensava. O risco de o recurso faltar é de quase 50% maior do que o calculado usando métodos tradicionais que só consideram a área acima das bacias.

A pesquisa também destaca a influência da governança e das mudanças no uso da terra nas áreas a favor do vento. Se o desmatamento e o desenvolvimento agrícola forem predominantes em regiões onde a umidade evapora, a quantidade de precipitação pode diminuir, aumentando os riscos à segurança hídrica.

Conforme José Marín, doutor pela Universidade de Estocolmo e principal autor do estudo, os impactos das mudanças no uso da terra na disponibilidade de água em áreas a jusante dependem das transições de uso da terra e mudanças na evaporação. “Por exemplo, a substituição de florestas por pastagens reduz tanto a evaporação quanto a disponibilidade de água em áreas desmatadas e a favor do vento, respectivamente. Por outro lado, a conversão de terra seca em terras de cultivo irrigadas aumenta a evaporação e a disponibilidade de água”, afirmou, ao Correio.

Integração

O artigo reforça ainda a interdependência entre países e a importância de uma gestão integrada dos recursos. Como exemplo, existe a bacia do Rio Congo, na África, que enfrenta riscos consideráveis devido à falta de regulamentação ambiental e desmatamento em países vizinhos.

Além disso, as secas prolongadas são consideradas um grande desafio. Ao contrário de desastres naturais repentinos, como terremotos ou furacões, elas se desenvolvem lentamente, o que as torna mais difíceis de gerenciar.

A conscientização global sobre o problema tem aumentado, em parte devido ao acesso à informação pela internet. No entanto, conforme aponta um estudo recente, divulgado na revista Clean Water, há uma grande disparidade na capacidade de resposta entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Nações com alta renda per capita têm mais recursos para gerenciar os impactos da seca, enquanto aqueles com menos infraestrutura enfrentam maiores dificuldades.

Ao Correio, Jonghun Kam, coautor do estudo e cientista da Universidade de Ciência e Tecnologia de Pohang, na Coreia do Sul, ressaltou que muitas nações não estão prontas para uma seca severa. “Esses países precisam de ajudas e doações internacionais. As descobertas do nosso estudo sobre análise multidimensional da conscientização global sobre a seca dão ideias sobre como construir um roteiro eficiente e eficaz para ajudas e doações internacionais para os países que têm lutado contra secas.”

Três perguntas para…

Juliano Bueno
Juliano Bueno de Araujo, diretor técnico do Instituto Internacional Arayara, acredita que a população não compreende a crise hídrica iminente(foto: Arquivo cedido)

Estudos mostram que os padrões pluviométricos estão se alterando no mundo todo. Qual a situação do Brasil nesse cenário?

Diversos estudos têm demonstrado que o aumento da temperatura média do planeta causa uma intensificação do ciclo hidrológico, o que poderá ocasionar mudanças nos regimes das chuvas, como o aumento da ocorrência de eventos hidrológicos extremos, alterando fortemente a disponibilidade hídrica de uma região e a qualidade de vida da população. A análise da tendência de séries históricas de precipitação pluviométrica é uma das maneiras de se inferir a ocorrência de mudança climática brasileira. Já estamos convivendo com extremos climáticos. Houve três enchentes no Rio Grande do Sul em 18 meses, vemos agora regiões com mais de 100 dias sem chuvas, com queimadas, fumaça tóxica e devastação de territórios que equivalem ao tamanho de Portugal incinerado em semanas.

É possível reverter a situação atual?

É possível e necessário, para mantermos nossa existência da forma que conhecemos hoje. A restauração ecológica inclui mecanismos como a recuperação acelerada de áreas e biomas degradados e a transição energética, que reduzirá pela metade as emissões de gases de efeito estufa. Temos como exemplo Brasília, que está há mais de 130 dias sem chuvas e teve episódios de 7% de umidade do ar, pior que o deserto do Saara. Essa conjuntura mostra que temos que agir, e isso não deve ser protelado, pois pontos de não retorno de biomas e regiões podem nos colocar em circunstâncias ainda piores. Portanto, devemos associar novas políticas públicas e ações do setor privado e da sociedade para agir em prol de um objetivo principal: manter nossa existência e a dos biomas.

A população compreende a crise hídrica iminente?

Infelizmente, acredito que não. Sou conselheiro do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) e cientista em riscos e emergências ambientais. O que assisto é um conjunto de desinformações e pessoas acreditarem que estamos com a mesma abundância de água que o Brasil tinha 30 anos atrás. Nesse curto período, eliminamos 7,5% de todos nossos recursos hídricos — isso é o equivalente ao que a França tem de água. As projeções não são boas, o que significará o encarecimento da água, de alimentos e de todas as atividades que demandam esse elemento central na vida humana.


Fonte: Correio Braziliense

Plantações de eucalipto reduzem a riqueza de insetos aquáticos de nascentes de rios, mostra estudo

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Monocultura de eucalipto reduz biodiversidade em até 30% em nascentes

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Prática comum no território brasileiro, a substituição de vegetação nativa por monoculturas como o eucalipto provoca mudanças na estrutura do solo, que podem afetar o ambiente e a fauna de nascentes de rios próximas. Um estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) mostra que plantações de eucalipto reduziram em quase 30% o número de espécies de organismos aquáticos, entre eles insetos, encontrados em nascentes da Mata Atlântica. Os resultados da análise, publicados na sexta (2) na revista “Acta Limnologica Brasiliensia”, reforçam a qualidade ambiental de nascentes em áreas de mata preservada.

Os pesquisadores analisaram dez nascentes da bacia do rio Paraíba do Sul, em Minas Gerais, durante a estação seca de 2017 — metade em áreas com plantações de eucaliptos e a outra, com vegetação nativa. Eles coletaram amostras da água e sedimento em pontos diferentes das nascentes e analisaram a presença de macroinvertebrados aquáticos, incluindo insetos e vermes.

A pesquisa encontrou 8.474 macroinvertebrados aquáticos em áreas de florestas nativas e 5.261 em áreas de plantações de eucalipto, de 58 grupos. Embora a abundância total de macroinvertebrados não tenha diferido significativamente entre os dois tipos de vegetação, a riqueza de espécies foi significativamente menor nas áreas com plantações de eucalipto. Organismos aquáticos de seis grupos, como os trichoptera (friganídeos), psychodidae (família das moscas-de-banheiro) e tipulidae (pernilongos-gigantes), foram encontrados exclusivamente em nascentes de florestas nativas.

A presença desses grupos, especialmente sensíveis a alterações ambientais, indica que as nascentes com vegetação nativa possuem condições ecológicas mais favoráveis. Além dos macroinvertebrados, outros indicadores como cobertura vegetal, presença de matéria orgânica, pH, oxigênio dissolvido e condutividade elétrica foram analisados para avaliar a qualidade da água.

As florestas plantadas ocupam 9,5 milhões de hectares do país, sendo que 77,3% dessa área é de eucalipto, segundo dados de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Brasil é o principal exportador de celulose, e Minas Gerais se destaca como o estado com maior área de plantação de eucalipto, de 29%. Em 2022, a produção florestal foi responsável por 1,3% do PIB do país, segundo o Ministério de Agricultura e Pecuária. Embora reconheça a importância do setor, a pesquisadora Sheila Peixoto, da UFJF, autora do estudo, aponta que os impactos negativos do eucalipto são bem conhecidos pela ciência. “Além dos impactos terrestres, com esse trabalho, percebemos que esse tipo de plantação afeta também as nascentes”, analisa.

Para Peixoto, a pesquisa pode incentivar as tomadas de decisão sobre a autorização, regulamentação e licenciamento de plantações de eucalipto, principalmente em áreas com nascentes. Além disso, os dados podem ser usados em futuros estudos sobre bioindicadores ambientais, que medem a qualidade da água desses ambientes.

Agora, os cientistas da UFJF pretendem focar em grupos biológicos mais sensíveis aos impactos ambientais, por meio de uma abordagem voltada para o biomonitoramento da qualidade das águas. “Vamos aumentar a coleta de dados para conseguirmos comparar a biodiversidade em nascentes com diferentes condições ecológicas”, antecipa a pesquisadora.


Fonte:  Agência Bori

Circling the wagon: os muitos amigos da Águas do Paraíba e o esforço para esconder a crise hídrica em Campos

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Circle the wagons é uma expressão idiomática da língua inglesa que pode se referir a um grupo de pessoas que se unem por um propósito comum. Historicamente, o termo era usado para descrever uma manobra defensiva que era empregada pelos americanos no século XIX. O termo evoluiu coloquialmente para significar pessoas defendendo umas às outras.

Pois bem, os campistas acabaram de assistir uma demonstração prática do “circle the wagons” com a crise detonada pelo excesso de geosmina na água servida aos campistas pela eterna concessionária “Águas do Paraíba”.  O que se viu de gente apontando o dedo para todos os lados, menos para quem deveria (até pelo preço que cobra) entregar água seguindo padrões máximos de ser “inodora, insípida e incolor”.

Uma olhada pelas páginas dos diversos veículos da mídia corporativa campista pode verificar uma série de manifestações que, ao contrário do que poderia se esperar, se esmeraram em procurar defender a concessionária, mesmo levando em conta o fato de que se o cheiro, o sabor e a cor não tivessem entregue o trabalho mal feito, nunca teríamos descoberto que estavam nos servindo uma solução aquosa contendo, entre outras coisas, geosmina. É importante notar que a geosmina foi a melhor amiga dos campistas, pois pelo cheiro soubemos do que estava acontecendo. Se tivéssemos dependido dos dados postados pelas Águas do Paraíba ou da fiscalização que deveria estar sendo feita pelos órgãos ambientais, teríamos continuado a receber gato por lebre.

O curioso é que até o momento quem deveria ser o maior interessado em fiscalizar a água servida com olhos de lince parece estar mantendo um silêncio típico dos ambientes que hospedam sepulcros. Falo tanto do prefeito de Campos dos Goytacazes, como do presidente da Câmara Municipal de Vereadores. Sempre tão loquazes e agudos na hora de se atacarem, os dois têm mantido uma posição para lá de discreta. Tanto silêncio em um caso tão caro aos campistas (e bota caro nisso quando se trata das tarifas cobradas por serviços duvidosos como os prestados pela concessionária das tarifas exorbitantes) deveria ser bem aproveitado pelos oposicionistas. Aliás, se não for, isso deverá indiciar que a expressão “circle the wagons” inclui também o mundo partidário. Falando nisso, por onde os partidos políticos que nada falaram até agora sobre a crise hídrica em curso? Estão todos tomando água mineral? Parece que sim.

Os destoantes do grande círculo: O MPRJ e o Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf

Uma nota positiva nessa crise que parece interminável foi a ação do Ministério Público do Rio de Janeiro e do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf. Ao primeiro procurar o segundo é tivemos um mínimo de transparência sobre a situação, o que se aprofundou com a visita de uma equipe de promotores às instalações da Águas do Paraíba,

É preciso que se diga que a partir da ação do MPRJ e do LCA/Uenf, possamos ver ações mais contundentes de órgãos como a Agência Nacional de Águas, Ibama, Inea e o Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana saiam da inércia em que se encontram e comecem a fazer o que deles se espera que é olhar de muito perto o que anda fazendo a concessionária, especialmente no que se refere ao tratamento de água e esgotos pelo qual os campistas são cobrados de forma salgada.

Aliás, uma das missões do MPRJ poderá ser investigar o porquê de tanta inércia e ineficácia desses órgãos todos em cumprir a missão básica de garantir que a Águas do Paraíba seja fiscalizada e não defendida em momentos em que a baixa qualidade dos seus serviços fica evidente,.

A Águas do Paraíba e a obrigação de mostrar os dados que realmente importam

Uma das coisas mais trombeteadas pela mídia amiga da Águas do Paraíba é que a empresa publiciza os dados do tratamento que é feito da água que chega na casa dos campistas.  Quem for procurar por esses dados na página da empresa vai notar que não é bem assim, e que só são mostrados dados que são convenientes.

Dados sobre agrotóxicos, micropoluentes emergentes, presença de cianabactérias? Isso nem pensar, como se não fosse obrigação da empresa informar de forma ampla o que é servido na água que chega nas residências, escolas e unidades hospitalares do município.

Aliás, uma boa medida do MPRJ seria exigir que dados mais amplos e completos sejam disponibilizados pela concessionária em sua página. Sem esse mínimo de transparência, não há como se saber o que está, de fato, acontecendo. E eu diria que até pelo que se paga, os campistas merecem ter esse acesso garantido.

Em meio à crise hídrica em Campos, o que diz o secretário de Saúde sobre a garantia de segurança para os pacientes de hemodiálise?

agua-de-Hemodialise-1Em cada sessão de hemodiálise em torno de 120 a 200 litros de água são consumidos

Como filho de alguém que faleceu por insuficiência renal, após uma luta dura em uma clínica de hemodiálise, me ocorre perguntar ao secretário municipal de Saúde de Campos dos Goytacazes: o que está sendo feito para garantir que não haja nenhum comprometimento nos serviços prestados para os pacientes renais a partir do eventual comprometimento da qualidade da água utilizada nos procedimentos?

É preciso lembrar que no processo de filtragem feito durante a hemodiálise, um elemento é fundamental: a água tratada. Ali, a água é misturada com alguns solutos na máquina e se torna a solução de diálise. É essa solução que entrará em contato com o sangue na máquina para fazer a filtragem e manter a concentração do sangue correta.  Um fato ainda mais marcante: em uma única sessão de hemodiálise consome de 120 a 200 litros de água por paciente.

Assim, que passos já teram sido adotados pela Secretaria Municipal de Saúde de Campos dos Goytacazes após o reconhecimento de que a água tratada distribuída pela concessionária Águas do Paraíba está chegando aos pontos de consumo com, pelo menos, geosmina? Se para pessoas com condição clínica em que os rins estão saudáveis, o que isso pode significar para o tratamento de pacientes renais?

Voltando ao meu pai, quando em tratamento de hemodiálise e já na fase final da sua vida, ele podia consumir apenas um copo de água por dia, algo que o deixava particularmente angustiado. A partir da experiência do meu pai, me vem a pergunta de como os pacientes de hemodiálise de Campos dos Goytacazes podem ter certeza que seu volume máximo diário vai estar adequado? Com a palavra, o secretário municipal de Saúde!

E antes que eu me esqueça: a Águas do Paraíba poderia vir a público confirmar se o seu “produto” é próprio para uso em clínicas e pacientes de hemodiálise?

Porto do Açu está entre os maiores consumidores de água do Brasil. Enquanto isso, o V Distrito convive com água salinizada…

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No dia 27 de outubro repercuti uma reportagem da Agência Pública mostrando que apenas 50 empresas podem usar a mesma quantidade de água que metade da população brasileira.  Pois bem, ontem ao ministrar uma aula no curso de Ciências Sociais da Uenf, notei um detalhe fino da reporagem que me passou despercebido inicialmente.

É que um dos gráficos usados pela Pública para ilustrar a sua reportagem aponta que o Porto do Açu possui um volume outorgado anual de 142,4 bilhões de litros de água, ficando acima de grupos empresariais importantes como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Klabin (ver imagem abaixo).

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Não sei se os leitores do blog recordam, mas o projeto do porto criado pelo ex-bilionário Eike Batista previa a realização de uma transposição do Rio Paraíba do Sul que retiraria um volume de de 10 litros por segundo para abasteceras necessidades do empreendimento.  Este volume seria capaz de abastecer uma cidade com uma população de 2,8 milhões de habitantes.

Entretanto, como a tal transposição nunca foi concretizada, a pergunta que fica é de onde a Prumo Logística estaria retirando a água que lhe foi outorgada e para quais usos específicos.  Uma coisa é certa, se mesmo uma fração do volume outorgado está sendo usado neste momento, isto levanta questões interessantes sobre o impacto que o empreendimento está trazendo para os mananciais existentes em seu entorno ou embaixo dele.

Nunca custa lembrar que a população do V Distrito de São João da Barra continua enfrentando as mesmas condições de abastecimento que existiam antes da construção do empreendimento, com uma “leve pitadinha de sal” vindo do aterro hidráulico do Porto do Açu (dos aterros, quer dizer).