Porto do Açu está entre os maiores consumidores de água do Brasil. Enquanto isso, o V Distrito convive com água salinizada…

montagem-2

No dia 27 de outubro repercuti uma reportagem da Agência Pública mostrando que apenas 50 empresas podem usar a mesma quantidade de água que metade da população brasileira.  Pois bem, ontem ao ministrar uma aula no curso de Ciências Sociais da Uenf, notei um detalhe fino da reporagem que me passou despercebido inicialmente.

É que um dos gráficos usados pela Pública para ilustrar a sua reportagem aponta que o Porto do Açu possui um volume outorgado anual de 142,4 bilhões de litros de água, ficando acima de grupos empresariais importantes como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Klabin (ver imagem abaixo).

water-4

Não sei se os leitores do blog recordam, mas o projeto do porto criado pelo ex-bilionário Eike Batista previa a realização de uma transposição do Rio Paraíba do Sul que retiraria um volume de de 10 litros por segundo para abasteceras necessidades do empreendimento.  Este volume seria capaz de abastecer uma cidade com uma população de 2,8 milhões de habitantes.

Entretanto, como a tal transposição nunca foi concretizada, a pergunta que fica é de onde a Prumo Logística estaria retirando a água que lhe foi outorgada e para quais usos específicos.  Uma coisa é certa, se mesmo uma fração do volume outorgado está sendo usado neste momento, isto levanta questões interessantes sobre o impacto que o empreendimento está trazendo para os mananciais existentes em seu entorno ou embaixo dele.

Nunca custa lembrar que a população do V Distrito de São João da Barra continua enfrentando as mesmas condições de abastecimento que existiam antes da construção do empreendimento, com uma “leve pitadinha de sal” vindo do aterro hidráulico do Porto do Açu (dos aterros, quer dizer).

Resistência no Uruguai aos planos de privatização da água potável

protesto

Os sindicalistas da concessionária estadual protestam contra a privatização da água. Fonte :ANA ALANIZ
Por Martha Andújo para o Amerika21

 Após o alívio da crise hídrica devido às chuvas, os planos de privatização do abastecimento de água potável voltam a ser criticados. O governo do presidente Luis Lacalle Pou quer introduzir capital privado na gestão dos recursos hídricos do Uruguai.

A partir de Maio, a falta prolongada de chuvas chamou a atenção do público para a crise no abastecimento de água potável à região da capital. As advertências de que o rio Santa Lucía, que abastece a água doce de Montevidéu, não é mantido há muitos anos e que o leito assoreado do rio e as áreas periféricas desprotegidas de agroquímicos poderiam desencadear uma grave crise de abastecimento, não motivaram nenhuma resposta do governo (relatou Amerika21 ) .

O polêmico projeto denominado Neptuno, apresentado pelo governo como resposta à crise hídrica que atravessa, envolve a construção de uma nova estação elevatória no Río de la Plata. Uma estação de tratamento de água e uma linha de abastecimento de 85 quilómetros para a área metropolitana da capital poderiam melhorar o abastecimento. A gestão dos recursos hídricos uruguaios deveria ser entregue ao capital privado.

Na semana passada, organizações sociais pediram liminar para suspender a adjudicação do concurso público internacional do projeto Neptuno. Segundo o diário uruguaio La Diaria, este é apenas o primeiro passo para uma ação judicial contra o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Saúde e a empresa estatal de água Obras Sanitarias del Estado (OSE). Os resultados de quaisquer futuros processos principais devem continuar a ser executórios e não devem ser tornados ineficazes por um facto consumado. Os iniciadores salientaram que a Instituição Nacional de Direitos Humanos já tinha recomendado às autoridades em 2022 “não renovar ou continuar” o concurso.

No seu pedido, a Comissão Nacional de Defesa da Água e da Vida (Comisión Nacional en Defensa del Agua y la Vida) e o colectivo Tucu Tucu apelam a uma moratória até que “o projecto cumpra o disposto na Constituição, segundo o qual o o serviço público é exclusivo e direto deve ser prestado pelo Estado”. O planeamento dos recursos hídricos deve ser feito “de acordo com as normas internacionais e nacionais do direito humano à água e requer um estudo de impacto ambiental e de planeamento espacial com participação real” das instituições municipais relevantes na área de captação. Finalmente, a ciência deve examinar a questão ecológica. a sustentabilidade e a qualidade dos recursos hídricos do Rio da Prata confirmam o fornecimento de água potável.

Na esfera política pública, tanto a oposição Frente Ampla como os sindicatos sublinham que deixar parte da gestão do abastecimento de água potável para consumo humano nas mãos de empresas privadas “significa uma renúncia à soberania, uma vez que o Estado estará sujeito ao cumprimento de obrigações de terceiros”. Isto já contradiria os requisitos da constituição do país.

O presidente da representação sindical dos trabalhadores da concessionária estatal OSE, Federico Kreimerman, explicou que “a privatização da produção de água potável coloca o lucro acima da finalidade social, o que contraria o mandato constitucional, que considera o acesso a este recurso como um direito humano fundamental”. ” 


compass black

Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo Amerika21 [Aqui!]

Aquecimento global e privatização da água

O neoliberalismo e a privatização não resolvem os graves problemas do aquecimento global

agua uy

Manifestação em defesa do direito humano à água em Montevidéu (maio de 2023). Fonte:PITCNT
Por Franklin Frederico para o Amerika 21

O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, declarou recentemente estado de emergência devido à escassez de água na capital, Montevidéu. As medidas anunciadas para combater a seca mais longa do país em 74 anos incluem a construção de um reservatório e uma isenção de impostos para água engarrafada (conforme relatado pelo Amerika21 )

A isenção fiscal, aparentemente destinada a aumentar o acesso à água engarrafada para os mais desfavorecidos, é a habitual “solução” neoliberal para enfrentar uma das consequências mais comuns do aquecimento global, nomeadamente o aumento das secas e das inundações. Transfere a “responsabilidade” de fornecer água potável ao segmento da população que pode pagar pelo serviço para o sector privado – a indústria da água engarrafada. É claro que os mais pobres não poderão pagar esta medida generosa de Lacalle Pou.

Esta ação do governo uruguaio é apenas mais um passo do neoliberalismo no processo de transformar o aquecimento global e os desastres previstos em mais uma fonte de lucro para as grandes empresas privadas.

Desastres prenunciados e a indústria da água engarrafada

Em junho deste ano, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) anunciou que o fenômeno El Niño, que geralmente acompanha o aumento das temperaturas, está de volta, segundo uma declaração da climatologista da NOAA, Michelle L’Heureux, poderia levar a temperaturas recordes. Por outro lado, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou este ano que o período 2023-2027 poderá ser o mais quente já registado. Basta relembrar os acontecimentos do ano passado para se ter uma ideia do que está por vir.

A intensa onda de calor que atingiu a Europa em 2022 foi acompanhada daquela que é provavelmente a pior seca no continente em 500 anos, segundo vários cientistas da época. Grandes rios como o Danúbio, o Reno, o Pó e o Volga tinham tão pouca água que em alguns casos a navegação tornou-se impossível. Os incêndios espalharam-se por Portugal, Espanha, França e Itália.

Num esforço desesperado para conservar a água, piscinas públicas foram fechadas em França e Portugal, entre outros, e a utilização de mangueiras para regar jardins privados foi proibida em Inglaterra e noutros países europeus.

Mas no meio dos esforços vertiginosos e intensos para reduzir o consumo de água, a indústria da água engarrafada permaneceu intocada, aumentando mesmo a produção para satisfazer a procura crescente devido ao calor intenso. Um exemplo escandaloso desta contradição são as montanhas de Vosges, em França, onde a empresa Nestlé foi autorizada a continuar a bombear água de aquíferos subterrâneos para engarrafamento, apesar de toda a região estar a sofrer com a seca e as autoridades já estarem a restringir o consumo de água de diferentes setores. e a população em geral tinha, conforme denunciou o grupo Collectif Eau 88.

Para a indústria de água engarrafada, a onda de calor serviu para impulsionar as vendas. No entanto, a produção e o transporte de água engarrafada são os principais contribuintes para o aquecimento global e para a escassez de água: são necessárias grandes quantidades de materiais à base de petróleo e muita água para produzir garrafas de plástico, especialmente PET. Estima-se que sejam necessários cerca de três litros de água para produzir um litro de água engarrafada. O transporte dessas garrafas das fábricas até os supermercados é feito principalmente por caminhão, que consome mais combustíveis fósseis.

Pior ainda, a água engarrafada e transportada por longas distâncias – como a engarrafada pela Nestlé em Vittel e exportada para a Alemanha ou a Suíça – é retirada do ciclo hídrico local e contribui para a escassez de água na região.

A maior parte da água utilizada para engarrafamento vem de aquíferos que levam muitos anos para serem reabastecidos naturalmente. Se a quantidade de água consumida nestes aquíferos for superior à recarga natural, existe um perigo agudo de esgotamento. É o caso, por exemplo, do aquífero que abastece a cidade de Vittel, tal como constataram as autoridades francesas competentes. Alguns são feitos de água fóssil, ou seja, água acumulada no subsolo, às vezes há milhares de anos. Nestes casos não há reposição natural e estes aquíferos poderiam ser utilizados até que estejam completamente secos.

O poderoso lobby da indústria da água engarrafada

O facto de, no meio de uma crise tão grave como a seca de 2022 na Europa, os engarrafadores terem continuado a explorar as águas subterrâneas, enquanto muitos outros sectores da sociedade tiveram de reduzir o seu uso de água, deve-se em parte ao enorme poder económico destas empresas.

Nestlé, Danone, Coca-Cola e Pepsi são as maiores engarrafadoras de água do mundo. As empresas locais mais pequenas, na maioria dos casos, só conseguem sobreviver no mercado através de acordos de distribuição com uma destas grandes empresas.

Por iniciativa da Nestlé e com o apoio do governo suíço, os principais engarrafadores de água fundaram em 2011 o “Grupo de Recursos Hídricos” (WRG), no qual atualmente também estão envolvidos governos de vários países. O objetivo do WRG é privatizar a água sempre que possível em todo o mundo e defender a produção e o consumo de água engarrafada. É importante lembrar que os lucros anuais de empresas como a Nestlé ou a Coca-Cola excedem os orçamentos nacionais em muitos países ao redor do mundo.

Além do poder económico, existe também o poder político de países cujas políticas externas apoiam a privatização da água nos países do Sul Global, muitas vezes sob o pretexto de “ajuda ao desenvolvimento”. Tal como no caso da Suíça, que aliás não esconde esta decisão: desde 2018, o antigo diretor de assuntos globais da Nestlé, Christian Frutiger, é vice-diretor da Agência Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação (SDC).

Poucos países podem, portanto, resistir à pressão para privatizar a sua água, dando concessões de águas subterrâneas a empresas privadas por longos períodos, 20 anos ou mais.

A luta do grupo Collectif Eau 88 contra a exploração e engarrafamento de águas subterrâneas pela Nestlé na região de Vittel é novamente um caso emblemático. Os envolvidos neste movimento, que estão empenhados em proteger as suas águas e o ambiente, enfrentam dificuldades quase intransponíveis, apesar de todos os indícios e evidências dos danos já causados ​​aos aquíferos e da poluição do ambiente pelos resíduos plásticos. Isto se deve principalmente à colaboração entre o poder público e a empresa.

Existem casos semelhantes de conflitos entre movimentos civis e a empresa Nestlé nos EUA e no Canadá. A França, os EUA e o Canadá são nações desenvolvidas com democracias bem estabelecidas e instituições sólidas. No entanto, as pessoas destes países enfrentam enormes dificuldades na sua luta para proteger as suas águas e o seu ambiente. O que pode ser dito, então, quando tais conflitos entre empresas e grupos cívicos ocorrem em países menos desenvolvidos, com instituições democráticas muito mais fracas e muito menos acesso à defesa legal ou à imprensa?

Em muitos países do Sul, o WRG desempenha um papel importante na privatização de empresas públicas de água, reduzindo a capacidade destas empresas de fornecer aos residentes água potável de qualidade e, o mais importante, habituando a classe média local a consumir água engarrafada. As classes mais desfavorecidas, que não têm condições de comprar água engarrafada, praticamente não têm acesso a água de qualidade.

E nos países do Sul, a poluição causada por garrafas plásticas é outro problema sério. Mesmo em França, na Alemanha ou na Suíça é impossível reciclar todas as garrafas de plástico e muitas acabam no ambiente, nos rios ou no mar. Na maioria dos países do sul, a reciclagem destas garrafas plásticas é mínima. Mas a poluição causada pela indústria da água engarrafada é o que os economistas chamam de “externalidade”, o que significa que os custos ambientais são transferidos para a sociedade em geral, enquanto as empresas apenas recolhem os lucros.

Sistema público de abastecimento de água e mudanças climáticas

Os serviços públicos de água desempenham um papel fundamental na mitigação dos efeitos do aquecimento global para garantir o acesso a água limpa e de qualidade, mesmo face a desafios como secas ou inundações. Você pode beber água da torneira em quase qualquer lugar da Europa Ocidental. Embora a contaminação da água proveniente de um sistema de abastecimento público seja possível, em geral os casos são raros e os controlos de higiene são muito mais rigorosos e frequentes do que os da indústria da água engarrafada.

O fato de muitas pessoas terem mais confiança na qualidade da água engarrafada do que na água das empresas públicas é um sinal do sucesso da campanha de propaganda levada a cabo pela indústria do engarrafamento durante anos para desvalorizar a qualidade dos sistemas públicos.

Nenhuma empresa de engarrafamento possui a mesma experiência técnica e conhecimento em saneamento que uma grande empresa pública de abastecimento de água. E há sempre meios democráticos para exigir e ter mais qualidade entregue pelas empresas públicas destinadas a servir os cidadãos.

Tanto a indústria de engarrafamento de água como as empresas privadas de abastecimento de água e saneamento têm o lucro como objetivo principal. Não foi por acaso que em Inglaterra, um país onde grande parte da água e do saneamento é propriedade privada (um legado da época de Margaret Thatcher), face à onda de calor e à seca de 2022, se falou em nacionalizar estas empresas privadas, porque isso percebeu-se que não eram capazes de lidar com a crise.

A França, tal como a Alemanha, a Suíça e outros países da Europa Ocidental, tem excelentes serviços públicos de abastecimento de água e a água engarrafada é, de fato, um luxo nestes países. Mas um luxo social e ecologicamente mais caro. A realidade do aquecimento global exige mudanças profundas. A possibilidade de secas cada vez mais frequentes significa que as águas subterrâneas devem ser tratadas como uma reserva para as gerações futuras, ou mesmo para o nosso próprio futuro. Estas reservas não devem ser desperdiçadas no lucro e na ganância de algumas empresas privadas.

Já é tempo de a sociedade civil dos países da Europa Ocidental exigir aos seus governos, como primeiro gesto concreto, uma proibição definitiva da produção e comercialização de água engarrafada, a fim de reduzir a contribuição do consumo nestes países para o aquecimento global.

Porque se estes países, que podem e já fornecem água de excelente qualidade aos seus cidadãos, enquanto a água engarrafada é um luxo, não podem dar esse pequeno passo, como poderão ser assumidos os compromissos assumidos pelos governos destes países relativamente aos problemas do aquecimento global? seriamente?

A França tem uma importante responsabilidade simbólica neste caso, pois foi neste país, mais precisamente em Vittel, que começou o engarrafamento de água em recipientes de plástico. Anteriormente, as garrafas eram de vidro, o que limitou a expansão da indústria de engarrafamento de água. Foi somente quando foi envasado em garrafas plásticas que a indústria de engarrafamento de água se espalhou pelo mundo. A poluição das garrafas plásticas começou em Vittel e se espalharia por todo o planeta. A batalha do Collectif Eau 88 em Vittel tem, portanto, um significado global. Seria um gesto importante se a França acabasse com a produção de água engarrafada e se Vittel desse um novo impulso, desta vez contra a poluição e pela água como bem público e direito humano.

A Suíça também tem uma grande responsabilidade, pois é sede da multinacional Nestlé, a maior engarrafadora de água do mundo.

Ao anunciar uma isenção fiscal para a água engarrafada no meio da crise hídrica do Uruguai, o presidente Lacalle Pou está a revelar-se um grande amigo de empresas como a Coca-Cola, Danone e Nestlé.

Mas não há dúvida de que a sua acção será saudada pelos governos de vários países como um exemplo de “responsabilidade” e “solução sustentável”. O WRG certamente incentivará outros países a seguirem o exemplo do Uruguai.

É hora de o Brasil e a América Latina mostrarem que outro caminho é possível, o caminho que suas empresas públicas de água já mostraram. É também tempo de exigir à Europa que, face ao aquecimento global, apoie por todos os meios possíveis os fornecedores públicos de água nos países do Sul. A indústria da água engarrafada já causou danos suficientes tanto no norte como no sul do planeta.

O neoliberalismo e as suas privatizações não resolvem os graves problemas do aquecimento global, apenas os utilizam para aumentar os seus lucros e o seu poder sobre as decisões da sociedade. As empresas públicas e uma gestão pública e transparente da água são o caminho certo.


compass black

Este escrito originalmente em alemão foi publicado pelo Amerika21 [Aqui!].

05 de junho: população de Campos dos Goytacazes tem encontro marcado com novo aumento da conta da água

wladimir juscelio

O prefeito Wladimir Garotinho em momento de alegre descontração com Juscelio Azevedo, superintendente da concessionária Águas do Paraíba. Enquanto isso, a população sofre com contas salgadas e serviços de baixa qualidade

A população de Campos dos Goytacazes pode não saber, mas ela tem um encontro marcado com um novo (e absurdo) aumento da já salgada conta da água que é cobrada pela concessionária Águas do Paraíba. É que repetindo o que já fez em 2022, a empresa pertencente ao grupo “Águas do Brasil” levou para a capital um processo (curiosamente ainda não decido na justiça local) contra a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes para obter um aumento que lhe foi negado pelo prefeito Wladimir Garotinho. Curiosamente, o processo caiu com o mesmo desembargador que concedeu o aumento que havia sido negado no ano passado (ver imagem abaixo).

audiencia ap

Como já informou o jornalista Roberto Barbosa, a Águas do Paraíba que já cobra a conta de saneamento mais cara do Brasil, enquanto usufrui de uma 6ª prorrogação de contrato sem licitação com o município de Campos dos Goytacazes (RJ), tenta obter mais um reajuste de tarifa retroativo a janeiro de 2023.

Como alguém que já conduziu um estudo sobre os efeitos da privatização da água em Campos dos Goytacazes e sofre na pele o infortúnio de ser cliente cativo (já que inexiste concorrência), considero que o alto custo dos serviços de água e esgoto já pesa de forma exorbitante no bolso dos campistas, sem que haja o devido retorno, sendo que a única coisa realmente boa em relação à Águas do Paraíba é a propaganda que a empresa faz de si mesma.

Assim, se nada de muito diferente acontecer, o que virá pela frente é mais um reajuste retroativo que nos será cobrado sem que haja qualquer transparência ou controle possível sobre as contas que chegarão, inexplicavelmente, em separado. E que não conseguir pagar que se prepare para receber uma daquelas cartas ameaçadoras do Serasa.

De minha parte, gostaria de ver o que fará o prefeito Wladimir Garotinho. Eu pessoalmente gostaria que ele parasse de dar prorrogações ad infinitum de um contrato em que a concessionária parece mais preocupada com aumentar seus lucros estratosféricos do que melhorar a qualidade da água que serve aos campistas. Aproveito aqui para lembrar o problema grave da contaminação da água de torneira por resíduos de agrotóxicos, fato cientificamente comprovado, mas que a Águas do Paraíba continua negando a existência.

Desmatamento do Cerrado no Matopiba coloca em risco oferta de água

Cinco bacias hidrográficas na região concentram 74,5% do desmatamento no bioma; sem vegetação nativa, perdem capacidade de absorção e distribuição. Tocantins e São Francisco estão entre as mais comprometidas, mostra SAD Cerrado

unnamedPesquisadores alertam para conexão entre desmatamento do bioma e segurança hídrica no Dia Mundial da Água (Foto: Acervo IPAM)

O desmatamento do Cerrado no Matopiba pode reduzir o abastecimento e a qualidade da água em ao menos 373 municípios, se seguir o ritmo atual. Esses municípios estão dentro da área das bacias hidrográficas mais desmatadas do bioma em 2022, na região da fronteira agrícola. Segundo o SAD Cerrado, 74,5% de todo o desmatamento do Cerrado ano passado ocorreu nas bacias dos rios Tocantins (210.804 hectares), São Francisco (116.367 ha), Parnaíba (105.419 ha), Itapecuru (88.049 ha) e Araguaia (78.368 ha).

A análise de pesquisadores expõe, neste Dia Mundial da Água (22), a relação entre desmatamento e segurança hídrica no bioma considerado berço das águas do Brasil. O SAD Cerrado (Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado) é desenvolvido pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em parceria com o MapBiomas e com o LAPIG (Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento) da UFG (Universidade Federal de Goiás).

Com a perda de vegetação nativa, fica comprometida a capacidade natural de absorção e distribuição da água, que chega a “viajar” centenas de quilômetros antes de ser aproveitada para uso humano, seja em consumo próprio, afazeres domésticos, geração de energia, produção industrial ou irrigação, por exemplo. O SAD Cerrado indica que os municípios que mais desmataram dentro da área das bacias foram Balsas (MA), São Desidério (BA), Correntina (BA), Carolina (MA) e Formosa do Rio Preto (BA).

“Garantir a proteção dos remanescentes de vegetação nativa do Cerrado e, ao mesmo tempo, recuperar áreas próximas a nascentes, rios e bacias, é essencial para a manutenção dos recursos hídricos que temos hoje e para o equilíbrio climático. São diversos e complexos os efeitos que a diminuição na oferta de água teria nos municípios, mas uma coisa é certa: se o desmatamento continuar na velocidade e na extensão em que está, a disponibilidade hídrica será cada vez menor”, explica Fernanda Ribeiro, pesquisadora no IPAM responsável pelo SAD Cerrado.

O Cerrado tem 24 bacias hidrográficas, com nascentes de 8 das 12 principais regiões hidrográficas do país. As cinco bacias mais desmatadas em 2022 são também as que têm os maiores contínuos de vegetação nativa.

Segundo o SAD Cerrado, foram 815.532 hectares desmatados no bioma ano passado. Maranhão teve a maior derrubada no período e Balsas (MA) foi o município que mais desmatou: subiu quase 60% em relação a 2021. Já em 2023, Bahia, Goiás e Minas Gerais tiveram recorde, com altas de 227%, 82,5% e 69%, respectivamente.

Além do desmatamento, monoculturas e atividades agrícolas que não levam em conta o equilíbrio com a sociobiodiversidade acabam causando outros prejuízos para a segurança hídrica, não só de quem vive na cidade, mas de povos, comunidades tradicionais e agricultores familiares no campo, com a seca e o envenenamento de rios. A transformação de áreas de vegetação nativa para pastagem e agricultura já tornou o clima no Cerrado quase 1°C mais quente e 10% mais seco. Nos locais desmatados, a temperatura média anual pode subir até 3,5°C com queda de 44% na evapotranspiração, processo que contribui para a umidade do ar.

“O Cerrado está ficando cada vez mais quente e seco, com menos água disponível. Este cenário acende o alerta para que tipo de planeta queremos habitar no futuro. É como destacou o relatório-síntese do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, das Nações Unidas], precisamos lidar com a emergência do clima tendo como prioridades a justiça climática e a equidade para o bem-estar humano e da biodiversidade”, conclui Julia Shimbo, pesquisadora no IPAM e coordenadora científica do MapBiomas.

Baixa no nível dos rios no Brasil soa alerta para toda a América Latina

rios-Cerrado-996x567 (1)A redução da vazão dos rios do Cerrado pode afetar a produção agrícola, a geração de energia elétrica e o abastecimento de água da população. Crédito da imagem: Pedro Biondi/Flickr , sob licença Creative Commons (CC BY-NC 2.0)

Por Pablo Corso para a SciDev

O desmatamento devido ao avanço da fronteira agrícola e os efeitos das mudanças climáticas estão reduzindo a vazão dos rios do Cerrado brasileiro, a savana com maior biodiversidade do mundo.

Sem medidas para acabar com a extração indiscriminada, um cenário de gravidade inusitada pode ser gerado em três décadas, estendendo-se a outras áreas do país e até à região, sugere pesquisa publicada na revista Sustainability .

Entre 1985 e 2018, a vazão dos rios do Cerrado —no centro do Brasil— diminuiu 8,7% devido ao desmatamento e 6,7% devido às mudanças climáticas, segundo pesquisa que abrangeu 81 bacias.

Se o desmatamento continuar no ritmo atual, até 2050 a água poderá diminuir em nove das dez bacias desse bioma, com “níveis críticos e recorrentes de escassez”, afirma o documento.

A redução total da vazão do rio seria de 34%, o que afetará a produção agrícola, a geração de eletricidade e o abastecimento de água para a população, Eraldo Matricardi, um dos autores do artigo científico, disse à SciDev.Net, 

O Cerrado fornece 44% da produção nacional de carne e 48% das exportações de soja. “É considerado ‘o berço das águas’ do país, pois reúne as principais nascentes de oito bacias hidrográficas, que atendem às regiões mais populosas”, acrescenta o professor da Universidade de Brasília.

A demanda mundial por produtos agrícolas, o aumento dos preços das commodities e a falta de políticas de controle ambiental são alguns dos fatores que permitem a contínua expansão das lavouras, afirma o estudo.

A menor infiltração de água causada pela perda da vegetação nativa “poderia prejudicar a capacidade de recarga dos aquíferos durante as estações chuvosas e de manter um alto consumo de água para irrigação durante as estações secas”. Essas dinâmicas, que não são exclusivas do Cerrado, são especialmente preocupantes no contexto atual.

“Se há um século tínhamos um copo de água per capita, hoje temos apenas menos de um décimo (…) E os padrões de consumo da nossa região, a mais urbanizada do planeta, apresentam pegadas hídricas cada vez maiores”

Miguel Doria, especialista para a América Latina do Programa Hidrológico Intergovernamental da Unesco

“Em 1900 havia cerca de 60 milhões de pessoas na região; hoje somos mais de 660 milhões”, disse Miguel Doria, especialista para a América Latina do Programa Hidrológico Intergovernamental da Unesco , ao SciDev.Net .

“Se há um século tínhamos um copo d’água per capita, hoje temos apenas menos de um décimo”, compara. “E os padrões de consumo da nossa região, a mais urbanizada do planeta, apresentam pegadas hídricas cada vez maiores ”, continua.

A diminuição do fluxo dos rios do Cerrado também aumentou as tensões sobre o acesso à água. “Esses conflitos devem se intensificar”, alerta Matricardi.

A grande irrigação exigida pela exportação de produtos agrícolas “mudou a governação” deste recurso, “passando do controlo de actores locais, regionais e nacionais para os que dominam as cadeias produtivas”, indica o estudo.

Por outro lado, alguns pesquisadores comemoram a crescente conscientização da necessidade de justiça da água com vistas a uma distribuição mais equitativa.

No nível local, qualquer expansão de terras agrícolas poderia ser avaliada generalizando o sistema de comitês de bacias hidrográficas , “uma estratégia importante para empoderar as comunidades e evitar o uso excessivo e desigual da água”, diz Matricardi.

A criação de reservas em propriedades particulares e áreas protegidas também pode contribuir para a preservação dos recursos, resguardando porcentagens de vegetação nativa capazes de manter fluxos hídricos adequados.

Quanto às iniciativas de reflorestamento, Doria destaca o trabalho “vasto e positivo” que está sendo desenvolvido , chamando a atenção para a necessidade de utilizar espécies adequadas e considerar fatores como distribuição e tipo de solo, para otimizar os processos de evaporação, retenção de água e proteção contra exposição a contaminantes.

Estas ações de mitigação e adaptação “devem ser aplicadas sempre que se equacione o desenho e gestão de uma cultura, um aqueduto ou uma albufeira”, antecipa.

Mesmo contextos de seca ou escassez podem levar a uma gestão eficiente dos recursos, através de culturas mais rentáveis ​​ou que necessitem de menos água.

“A importância dos recursos hídricos em um ecossistema está ligada ao econômico, mas também ao cultural”, acrescenta. “Quando a biodiversidade se perde, perde-se também o patrimônio das comunidades e dos países”.


compass black

Este artigo foi produzido e publicado pela edição América Latina e Caribe de  SciDev.Net [Aqui!].

Reestatizar a água e esgoto, barateia o custo: o exemplo de Setúbal em Portugal

agua-é-do-povo-798

Os consumidores cativos da concessionária Águas do Paraiba estão sendo premiados com uma conta extra neste início de fevereiro por conta de uma derrota na justiça que decidiu dar mais um brinde a uma empresa que hoje fatura milhões e entrega serviços de baixa qualidade.  E notem que a empresa do grupo Águas do Brasil acaba de ter mais um relatório reprovado pela Câmara Municipal de Vereadores por simplesmente não cumprir obrigações e continuar impondo custos altíssimos aos campistas.

A impressão que muita gente tem é que essa condição de consumidor cativo é uma espécie de prisão de onde não se pode escapar, mas isto não é nem próximo da verdade. Bastaria apenas que o prefeito Wladimir Garotinho e o agora presidente da Câmara de Vereador Marquinho Bacelar decidissem colocar o interesse da população em primeiro lugar e realizassem a imediata reestatização desse serviço público.

água privada

Alguns diriam que estou falando besteira, mas se fizessem isso o fariam apenas por ignorãncia. É que dezenas de cidades e capitais europeias já reestatizaram os serviços de água e esgoto, já que a iniciativa privada se mostrou incapaz de não só baixar o custo do consumidor, mas também de oferecer serviçso de qualidade.

Um exemplo recente de uma cidade que reestatizou os seus serviços de água e esgoto, e agora espera diminuir o custo das contas em algo próximo de 20% foi Setúbal que fica localizada a cerca de 49 km de Lisboa. Lá como em outras cidades europeias, os serviços deficientes e o custo alto fizeram com que a prefeitura não renovasse o contrato de concessão e retomasse o oferecimento direto dos mesmos. Mas é importante dizer que outrs 500 cidades no mundo, a maioria na Europa já tinham feito antes, aquilo que Setúbal fez agora.

Desta forma, é preciso que se inicie imediatamente a discussão para que a consequência da última reprovação do relatório da Águas do Paraíba pela Câmara de Vereadores seja a suspensão do contrato e a imediata criação de uma empresa municipal que passe a gerir os serviços de água e esgoto. É que já passou da hora de dar um basta a todos os desmandos que a Águas do Paraíba realiza nesta cidade tão rica, mas com um povo tão pobre.

Agronegócio brasileiro só é competitivo porque exporta soja sem cobrar por água e biodiversidade perdidas, diz cientista

soja bbcBrasil é o maior exportador de soja do mundo. Ueslei Marcelino/Reuters

Por  Leandro Machado para BBC News Brasil em São Paulo

Para o biólogo e pesquisador Reuber Brandão, o Cerrado brasileiro vive um momento dramático: o desmatamento e o avanço descontrolado do agronegócio sobre o território estão matando nascentes de água e pequenas lagoas extremamente importantes para o abastecimento da população e a geração de energia elétrica.

Oito das 12 principais bacias hidrográficas brasileiras, como as dos rios São Francisco e Paraná, nascem nesse que é o segundo maior bioma do país, perdendo só para a Amazônia.

Segundo Brandão, o uso da água do Cerrado para irrigação de produtos agrícolas, principalmente a soja, está diminuindo o volume do recurso nessas bacias, além de destruir boa parte da fauna e da flora que fazem do bioma a savana mais biodiversa do planeta.

“Quando você exporta uma commodity como a soja, o valor da água e da biodiversidade perdidas não está embutido no preço da semente. Por isso, o Brasil é competitivo”, disse o pesquisador em entrevista à BBC News Brasil.

Brandão aponta que boa parte do bioma já está perdido para sempre. Conservar o restante do Cerrado, diz, seria um movimento estratégico mais importante do que manter o país na posição de maior exportador de soja do mundo.

Segundo o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Cerrado perdeu 4.091,6 km² para o desmatamento entre janeiro e julho deste ano, uma alta de 28,2% em relação ao mesmo período do ano passado.

Os dados mostram que os Estados que mais desmataram estão na região conhecida como Matopiba — principal fronteira de expansão agrícola no país: Maranhão, Bahia, Tocantins e Piauí.

De acordo com o MapBiomas, plataforma que monitora o uso do solo no Brasil, 45,4% do Cerrado já foi destruído para dar lugar à agropecuária.

Reuber Brandão, de 50 anos, conhece o Cerrado desde a infância, quando brincava e consumia as frutas típicas. Depois, estudou a biodiversidade da região até virar professor de manejo de fauna e de áreas silvestres da Universidade de Brasília (UnB), cidade onde nasceu. Ele também é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).

Reuber Brandão Pesquisador Reuber Brandão, professor da UnB, estuda a biodiversidade do Cerrado. Crédito: Arquivo Pessoal.

Neste ano, o biólogo liderou uma equipe de pesquisadores em uma expedição na reserva particular Serra do Tombador, em Goiás, área que pertence à Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza desde 2007. Na área de 9 mil hectares, os cientistas encontraram 34 espécies de anfíbios e 55 répteis, boa parte desconhecida naquela região.

Reservas particulares, diz Brandão, podem ser uma das soluções para conservar a parte do Cerrado que ainda resta. “Empresários que preservam a natureza devem ser valorizados e remunerados”, diz.

Na entrevista a seguir, ele também fala sobre o consumo da água do Cerrado pelo agronegócio, o histórico da ocupação do território e como o bioma deveria ser conservado e utilizado para gerar riquezas ao Brasil.

BBC News Brasil – Por que o Cerrado é importante?

Reuber Brandão – O Cerrado é a savana mais diversa e úmida do planeta, com paisagens belíssimas como a Chapada dos Veadeiros. Quando a gente pensa em savana, pensa na África com elefantes ou na Austrália com os cangurus. Mas nenhuma dessas savanas tem a diversidade do Cerrado. Ele tem mais de 12 mil espécies de árvores.

Há uma pluviosidade (volume de chuvas) comparada à de regiões da Amazônia, mas a chuva é concentrada em poucos meses do ano. Oito das 12 bacias hidrográficas do Brasil nascem no Cerrado. E, em algumas delas, 70% de suas águas vêm do bioma, como a bacia do rio São Francisco. Pensando em grandes projetos para o país, sem a conservação do Cerrado você inviabiliza inclusive a transposição do São Francisco.

As usinas hidrelétricas dependem da água do Cerrado para gerar energia. Os processos hidrológicos do Pantanal também, porque uma parte das águas que correm por ele nasce no Cerrado. Essa combinação de biodiversidade com a quantidade de nascentes coloca o bioma em uma posição estratégica para o Brasil.

BBC News Brasil – O abastecimento de água de outras partes do país pode ser afetado pela destruição do Cerrado?

Brandão – Sim, afeta do abastecimento de água nas cidades à geração de energia. Afeta a própria água necessária para a agricultura. Não faz muito sentido a agricultura brasileira tratar a água como um insumo infinito, quando todo mundo sabe que ela pode acabar.

O próprio agronegócio tem preocupação com isso, porque já sabe que mais de 80% das bacias hidrográficas do Cerrado diminuíram sua quantidade de água.

BBC News Brasil – Como essa água está sendo afetada?

Brandão – O maior reservatório de água do planeta é o solo, onde ela permanece por muito tempo. Isso permite o crescimento da vegetação e uma grande quantidade de água nas nascentes.

Nas chapadas, as áreas mais altas cobertas pelo Cerrado, essa água é aparente em veredas, lagoas rasas e nascentes. Mas esse volume vem do afloramento do lençol freático. E esse lençol depende da água da chuva que entra no solo e da quantidade usada para outros fins.

Quando há um rebaixamento desse lençol, esses ambientes deixam de crescer. Os pequenos riachos de montanha, as veredas e lagoas de alto chapadas são fortemente afetadas pela irrigação da agricultura.

BBC News Brasil – Onde isso está acontecendo?

Brandão – No oeste da Bahia, por exemplo, o aumento da demanda por água para irrigação no sistema de pivôs centrais ocasionou o desparecimento de lagoas e veredas dos rios das Éguas, Arrojado e Formoso. Conheço veredas cuja nascente recuou mais de 10 quilômetros em relação à original. Essas áreas, que tinham a presença de corpos aquáticos na paisagem, passaram a ser muito mais secas.

E isso tem um impacto muito grande sobre fauna e flora, porque as plantas que precisam ter contato com a água do solo sofrem um estresse hídrico e começam a morrer. Há um grande mortalidade de árvores. Já a fauna foge para procurar áreas com água.

BBC News Brasil – Estamos retirando a água do Cerrado para irrigar o quê?

Brandão – Principalmente soja. O único destino de ocupação do território do Cerrado é o agronegócio. E ele tem uma demanda muito grande por água. Um único pivô central, aqueles círculos de irrigação com uma lança de 150 metros, gasta por ano a mesma quantidade de água que 4 mil famílias. Cada pivô central é uma pequena cidade — e há 1 milhão deles no Brasil.

 

Pivô central em fazenda

Pivô central utilizado para irrigar lavoura. Crédito: Embrapa

Essa água é retirada do solo com autorização do Estado, por meio de outorgas previstas na lei. Mas é bem possível que existam irrigações ilegais também. A expectativa é que o número áreas irrigadas aumente muito nos próximos anos.

Quando você exporta uma commodity como a soja, o valor da água e da biodiversidade perdidas não está embutido no preço da semente. Por isso, o Brasil é competitivo. É uma visão reducionista e míope do país, porque a commodity não tem valor agregado e depende da oscilação do mercado. De repente, o preço cai e vira uma quebradeira geral. É diferente do produto industrial.

BBC News Brasil – O que poderia ser feito de diferente?

Brandão –O Cerrado tem um potencial de biodiversidade gigantesco. Seja para bioprodutos tecnológicos, como colas, ou para alimentícios, cosméticos e medicamentosos, como analgésicos. Há proteínas do veneno da jararaca, por exemplo, com valor econômico enorme. Ou a grande quantidade de palmeiras que nunca foram estudadas. A mesma coisa com as castanhas do Cerrado, que poderiam ter um impacto de uso global.

Veja o caso do açaí, que não é do Cerrado, mas é um produto brasileiro que em pouco tempo se tornou uma commodity. Hoje, há áreas na Amazônia que estão deixando de criar búfalos para plantar açaí, o que ajuda na recomposição da floresta.

O Cerrado é único, e o Brasil ainda não acordou para o fato de que tratá-lo como mero campo de expansão da pecuária e da agricultura sem proteção garantida pela lei é colocar fogo no nosso futuro. Estamos apostando em um modelo de produção sem valor agregado que depende da ocupação de grandes territórios para ser viável. Ninguém consegue ter uma produção de soja economicamente viável com menos de 800 hectares de terra.

 

Áreas de plantação de soja ao lado do rio Formoso, na Bahia. Os círculos são pontos com pivô central de irrigação

Áreas de plantação de soja perto do rio Formoso, no oeste da Bahia. Os círculos são pontos com pivôs centrais de irrigação. Crédito: Google

BBC News Brasil – Os programas de conservação do Cerrado ficaram para trás em relação a outros biomas, como a Amazônia e a Mata Atlântica?

Brandão –Por muito tempo, o Cerrado se manteve conservado por causa de seu solo ácido. Poucas culturas agrícolas efetivamente davam certo. Outro ponto foi o isolamento geográfico. A maior parte da ocupação do Brasil estava no litoral e ao longo de grandes rios, como o Amazonas e o São Francisco.

Mas isso mudou bastante com a inauguração de Brasília, em 1960, e com o avanço tecnológico da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) no campo da calagem do solo (técnica de preparação que diminui a acidez do solo). Ele se tornou viável para ser ocupado pela agricultura, e isso aconteceu de maneira acelerada.

Quando o Brasil acordou, boa parte do Cerrado já estava destruída. Não houve a criação de grandes áreas de conservação. No próprio imaginário do brasileiro, ele fica atrás de outros biomas, como Amazônia, a Mata Atlântica, o Pantanal. As pessoas se perguntam: ‘para que serve o Cerrado?’

BBC News Brasil – Quais áreas já foram destruídas?

Brandão – Existem Cerrados diferentes. Em cada lugar, há um ecossistema e uma biodiversidade diferentes, pois o Cerrado tem quase o tamanho da Argentina.

A parte sul do Cerrado, no Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas e São Paulo, praticamente não existe mais. Há apenas minúsculos fragmentos, muito alterados. As maiores áreas maiores ainda estão no norte, em Tocantins, Maranhão e Piauí. Elas são muito valiosas. E conservá-las é uma questão urgente para o Brasil. É preciso criar grandes áreas de conservação.

 

Cachoeira e lagoa no Cerrado

Pequenas lagoas e nascentes de água estão sendo afetadas pela destruição do Cerrado. Divulgação

BBC News Brasil – É possível recuperar algumas áreas?

BrandãoQuando ela está degradada, ainda é possível recompor grande parte do que foi perdido. Mas, se o solo é removido completamente, demoraria milhões de anos para recuperar a biodiversidade. As pessoas precisam entender que, quando você destrói uma área dessas, não tem mais volta, ela está permanentemente perdida.

BBC News Brasil – As chamadas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), que estão em expansão, podem ser uma solução para o bioma?

Brandão – O grande problema das reservas privadas é que muitos proprietários não têm condição de contribuir com uma grande quantidade de terra para conservação. Para eles, é muito caro ceder o território.

Do ponto de vista da conservação, não faz grande diferença, porque pequenos fragmentos não vão ajudar muito na preservação de mamíferos e predadores de grande porte, como onças e crocodilos, que precisam de enormes áreas e muitas presas para sobreviver.

Mas esse modelo é muito importante porque, com as reservas particulares, dá para proteger áreas singulares ou pequenos remanescentes que sobraram. Dá para unir reservas e aumentar conectividade, principalmente se a propriedade for no entorno de uma área pública protegida.

Já existem 1,5 mil reservas particulares no Brasil, então o modelo deu certo. Isso mostra que o proprietário de terra não é uma pessoa insensível à conservação da biodiversidade, ele tem a percepção do valor do recurso natural. Dono de terra que conserva a natureza precisa ser valorizado.

BBC News Brasil – O senhor acredita há no agronegócio a preocupação de que a destruição de biomas como Cerrado e Amazônia pode ser prejudicial aos negócios, como haver dificuldade de exportar produtos oriundos de áreas desmatadas?

Brandão – Os empresários da agricultura não tem um modo único de pensar. Existem grandes empresários que são instruídos, que sabem o impacto da perda de água e das mudanças climáticas. Eles não são negacionistas e estão acompanhando o mercado internacional, que está cada vez mais preocupado com a questão ambiental.

Veja o caso da Europa… Você não acha que um alemão, ao ver um rio do país secar, não está pensando no efeito estufa e no desmatamento da Amazônia? Com certeza está.

 

Área de Cerrado recém-incendiadaSegundo o MapBiomas, mais de 45% do Cerrado já foi destruído para dar lugar à agropecuária. Crédito: AGÊNCIA BRASIL

A tendência é esses mercados colocarem cada vez mais barreiras para produtos vindos do desmatamento. Então existe sim uma preocupação real dos proprietários com o futuro da atividade agrícola, porque eles são pessoas que tem um vínculo com uma produção, e eles querem deixar a terra para os filhos.

BBC News Brasil – Quais são as principais questões do Cerrado que o próximo presidente precisará enfrentar?

Brandão –A primeira coisa é aumentar a rede de áreas protegidas em pontos remanescentes importante. Outra é agilizar um projeto de lei de pagamentos aos proprietários que mantêm conservação em suas áreas. Eles precisam ser remunerados por isso. É necessário que, do ponto de vista econômico, seja interessante para o proprietário manter áreas naturais em vez de desmatar.

Um terceiro ponto é se aproximar de proprietários na região do sul do Cerrado para incrementar projetos importantes de recomposição do bioma. Também seria muito importante valorizar e empoderar as universidades e instituições de pesquisa, para que seja possível desenvolver projetos de biotecnologia a partir do Cerrado.

Você pode criar startups do Cerrado. Por exemplo, uma empresa que desenvolva um novo produto a partir do baru (espécie de árvore), ou de uma castanha, um novo tipo de adesivo a partir do extrato de uma proteína de alguma planta ou animal do Cerrado. Há um potencial imenso a ser explorado.

– Este texto foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62718299

Mais veneno na nossa mesa: com custo astronômico, uso de agrotóxicos continua aumentando no Brasil

agrotoxicos comida

Em uma nota publicada com o simpático título de “Desafios fitossanitários aumentam e área tratada com defensivos agrícolas cresce 1,6 milhão de hectares no primeiro semestre” (de 2022), o  Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) ofereceu algumas informações preciosas para que possamos entender o avanço no uso de agrotóxicos na agricultura brasileira no primeiro semestre de 2022.

Uma das informações interessantes é que apesar de todo o veneno despejado nas áreas agrícolas brasileiras, há uma necessidade crescente para que se use ainda mais produtos, na medida em que os alvos estão desenvolvendo resistência, ocasionando a necessidade de mais agrotóxicos. O problema aqui é que dada a conjuntura internacional, o custo dos produtos saltou de US$ 5,468 bilhões para US$ 6,560 bilhões entre o primeiro semestre de 2021 e o de 2022 (algo em torno de R$ 34 bilhões). Em outras palavras, um custo astronômico que não foi necessariamente compensado pelas vendas, ainda que os preços tenham oscilado positivamente, principalmente por causa do conflito bélico na Ucrânia.

Outro detalhe é que apesar de todo o discurso que o latifúndio agro-exportador está “matando” a fome dos brasileiros, 86% dos agrotóxicos utilizados no Brasil estão sendo utilizados em culturas de exportação, tais como soja, milho e algodão (ver imagem abaixo).

culturas

Fonte: Sindveg

Área maior, risco maior

A expansão da área aspergida significa mais riscos para os brasileiros, na medida em que a maioria dos “campeões de venda” está proibida em outras partes do mundo, a começar pela União Europeia. Assim, a informação de que  área que recebeu aplicação de agrotóxicos chegou a 741,278 milhões de ha– ante 739,615 milhões de ha entre janeiro e junho do ano passado (1,663 milhão de ha a mais) não é prova de avanço de uma agricultura sustentável como sugere o Sindveg, mas justamente o contrário.

O fato é que a crescente dependência do modelo agro-exportador de venenos agrícolas altamente perigosos sinaliza que haverá um avanço não apenas do nível de contaminação dos recursos hídricos e solos, mas também da contaminação direta e indireta de seres humanos, transformando os agrotóxicos em um dos principais riscos sanitários que o Brasil já enfrentou.

Taxar os agrotóxicos e exigir um novo modelo agrícola

Algo que é pouco sabido é que a indústria dos venenos agrícolas, que reúne algumas das principais corporações do planeta (incluindo a ChemChina/Sygenta, Bayer/Monsanto, Basf, DowDupont), é altamente beneficiada no Brasil com uma generosa política de isenções fiscais, propiciando lucros fabulosos aos fabricantes, enquanto um rastro destruição e adoecimento é deixado para os brasileiros.

Assim, uma primeira necessidade que temos de enfrentar é o fim dos benefícios fiscais para os fabricantes de agrotóxicos. Além disso, há que se aumentar a pressão para que haja uma mudança radical na forma de produção agrícola no Brasil, com a adoção de medidas que diminuem a dependência desses venenos agrícolas. 

Aliás, como já disse aqui antes, a questão dos agrotóxicos precisa ser item estratégico no debate eleitoral de 2022, na medida em que o Brasil já vive uma epidemia de doenças associadas ao uso e ingestão de água e comida contaminadas por resíduos de agrotóxicos altamente venenosos.

Escassez de água ameaça a segurança alimentar global

escasez-agua-996x567A segurança alimentar enfrenta dez ameaças graves que comprometem a meta de acabar com a fome até 2030. Crédito da imagem: Juan Pablo Marin García / Alliance of Bioversity International e CIAT sob licença Creative Commons (CC BY-NC-SA 2.0)

Cerca de 828 milhões de pessoas passaram fome em 2021, em comparação com uma estimativa de 811 milhões em 2020, e cerca de 11,7% da população global sofria de grave insegurança alimentar , segundo os novos dados.

Não só as secas relacionadas às mudanças climáticas estão aumentando a competição entre os agricultores por água, o relatório também observa que a crescente demanda por água pelas populações está reduzindo o acesso à água potável, água subterrânea e irrigação.

Ao mesmo tempo, conflitos em andamento, como a guerra na Ucrânia e as consequências econômicas da pandemia de COVID-19 , estão revertendo décadas de progresso, ameaçando desfazer as metas de acabar com a fome, a insegurança alimentar e a desnutrição. em todas as suas formas até 2030 .

Outro estudo publicado na One Earth também identificou a seca e as ondas de calor na África subsaariana, danos aos ecossistemas e a interrupção das monções e do degelo na Ásia como as principais ameaças à segurança alimentar mundial. As ameaças foram identificadas por membros de um painel de especialistas e depois classificadas e priorizadas.

Zia Mehrabi, principal autora do estudo e professora assistente de estudos ambientais no Mortenson Center for Global Engineering da University of Colorado Boulder, disse que a segurança alimentar é um problema de pobreza, distribuição limitada e acesso a alimentos, e não sua produção.

De acordo com Mehrabi, os efeitos das mudanças climáticas estão se tornando mais graves eas políticasdevem se concentrar na construção de resiliência sistêmica, em vez de responder a instâncias individuais de clima extremo. “É aqui que a sociedade deve concentrar seus esforços para elevar o padrão de vida em geral. Só assim podemos esperar que eventos extremos não afetem os mais vulneráveis”, disse ele à SciDev.Net .

“Da mesma forma, temos que cuidar de nossos ecossistemas, porque eles fornecem a salvação para a agricultura : se os perdermos, nossa capacidade de lidar com eventos extremos diminui enormemente”, acrescentou.

A equipe de pesquisadores internacionais observou que, mesmo antes da guerra na Ucrânia e da guerra civil em curso na Etiópia, que interrompeu a produção de alimentos e as cadeias de suprimentos, conflitos como os da Síria e do Iêmen ameaçavam a segurança alimentar regional e global.

Esses distúrbios são exacerbados por eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, como ondas de calor marinhas, inundações e secas .

“Da mesma forma, temos que cuidar de nossos ecossistemas, porque eles fornecem a salvação para a agricultura: se os perdermos, nossa capacidade de lidar com eventos extremos diminui enormemente.”

Zia Mehrabi, Professora Associada da Universidade do Colorado Boulder

O cenário latino-americano

Apesar dos dados do estudo, as preocupações com as ameaças à segurança alimentar na América Latina ainda não estão diretamente relacionadas à escassez de água.

“Vivemos no paradigma da falsa abundância, em muitas áreas pensa-se que há água suficiente para a agricultura. As principais políticas estão mais focadas no abastecimento das grandes cidades do que nos possíveis impactos na produção agrícola”, disse Francisco Javier Lemus Yáñez, professor da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Autônoma do México , à SciDev.Net .

Uma das características da região é que a maior parte dos terrenos agrícolas é irrigada sazonalmente, em função das chuvas, pelo que as alterações climáticas que afectam os padrões de precipitação são particularmente preocupantes, disse.

“Já estamos vendo o caos. O clima está mudando, mas por enquanto são situações temporárias, mas isso não significa que não será um problema nos próximos anos”, acrescentou Lemus Yáñez. “Especialmente em locais onde há má gestão da água, corrupção e má distribuição do recurso.”

O que está acontecendo é que em muitas partes da região há uma mudança no uso da terra para ganhar mais terra para a agricultura e produzir mais produtos exportáveis. Hoje, a região é o segundo ponto com maior índice de desmatamento (atrás apenas do Sudeste Asiático); Milhões de hectares de floresta foram perdidos devido à agricultura ilegal e ao cultivo de soja , carne bovinaóleo de palma , principalmente.

A mudança no uso da terra para a agricultura é uma séria ameaça para a América Latina, que tem a segunda maior taxa de desmatamento do mundo, atrás apenas do Sudeste Asiático. Crédito da imagem: Juan Pablo Marin García / Alliance of Bioversity International e CIAT sob uma licença Creative Commons (CC BY-NC-SA 2.0)

Jessica Hernández Orozco, ex-assessora da Comissão Nacional de Águas do México, disse à SciDev.Net a mesma coisa: “devido a secas e eventos extremos, como furacões, chuvas, nevascas, a produção é afetada periodicamente”, mas “ainda é não uma crise” que põe em risco a segurança alimentar.

Encontrar soluções

Os autores do artigo One Earth pedem maior colaboração e coordenação entre os pesquisadores que estudam ameaças específicas aos sistemas alimentares, para que os tomadores de decisão tenham informações abrangentes, modelos atualizados e ferramentas relevantes à medida que surgem.

Os países precisam passar de políticas protecionistas e nacionalistas para formas colaborativas de governança, e precisamos começar a nos fazer perguntas como “como é a governança para sistemas alimentares resilientes?”, disse Mehrabi.

São necessárias informações abrangentes, modelos atualizados e ferramentas relevantes para enfrentar as ameaças à segurança alimentar, como secas e outros eventos extremos. Crédito da imagem: Juan Pablo Marin García / Alliance of Bioversity International e CIAT sob uma licença CreativeCommons (CC BY-NC-SA 2.0)

Lemus Yáñez também está convencido de que a governança dos sistemas alimentares e a gestão da água devem ser colaborativas. “A única forma de conseguir isso é gerando acordos horizontais, nos quais todos os atores, especialmente os ‘abaixo’, realmente se comprometam. Podemos gerar muitas leis, mas se as pessoas não se sentirem parte delas, não as respeitarão”, disse.

Segundo Mehrabi, a governança colaborativa “é uma ideia impopular, mas a realidade é que, a longo prazo, todos serão beneficiados. Precisamos de políticas que se concentrem na construção da confiança entre os atores dentro e entre os países, uma confiança que nos permita enfrentar grandes problemas com seriedade.”

Este artigo foi produzido pela edição global do SciDev.Net, com reportagens adicionais da América Latina e Caribe.


compass black

Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui!].