Circling the wagon: os muitos amigos da Águas do Paraíba e o esforço para esconder a crise hídrica em Campos

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Circle the wagons é uma expressão idiomática da língua inglesa que pode se referir a um grupo de pessoas que se unem por um propósito comum. Historicamente, o termo era usado para descrever uma manobra defensiva que era empregada pelos americanos no século XIX. O termo evoluiu coloquialmente para significar pessoas defendendo umas às outras.

Pois bem, os campistas acabaram de assistir uma demonstração prática do “circle the wagons” com a crise detonada pelo excesso de geosmina na água servida aos campistas pela eterna concessionária “Águas do Paraíba”.  O que se viu de gente apontando o dedo para todos os lados, menos para quem deveria (até pelo preço que cobra) entregar água seguindo padrões máximos de ser “inodora, insípida e incolor”.

Uma olhada pelas páginas dos diversos veículos da mídia corporativa campista pode verificar uma série de manifestações que, ao contrário do que poderia se esperar, se esmeraram em procurar defender a concessionária, mesmo levando em conta o fato de que se o cheiro, o sabor e a cor não tivessem entregue o trabalho mal feito, nunca teríamos descoberto que estavam nos servindo uma solução aquosa contendo, entre outras coisas, geosmina. É importante notar que a geosmina foi a melhor amiga dos campistas, pois pelo cheiro soubemos do que estava acontecendo. Se tivéssemos dependido dos dados postados pelas Águas do Paraíba ou da fiscalização que deveria estar sendo feita pelos órgãos ambientais, teríamos continuado a receber gato por lebre.

O curioso é que até o momento quem deveria ser o maior interessado em fiscalizar a água servida com olhos de lince parece estar mantendo um silêncio típico dos ambientes que hospedam sepulcros. Falo tanto do prefeito de Campos dos Goytacazes, como do presidente da Câmara Municipal de Vereadores. Sempre tão loquazes e agudos na hora de se atacarem, os dois têm mantido uma posição para lá de discreta. Tanto silêncio em um caso tão caro aos campistas (e bota caro nisso quando se trata das tarifas cobradas por serviços duvidosos como os prestados pela concessionária das tarifas exorbitantes) deveria ser bem aproveitado pelos oposicionistas. Aliás, se não for, isso deverá indiciar que a expressão “circle the wagons” inclui também o mundo partidário. Falando nisso, por onde os partidos políticos que nada falaram até agora sobre a crise hídrica em curso? Estão todos tomando água mineral? Parece que sim.

Os destoantes do grande círculo: O MPRJ e o Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf

Uma nota positiva nessa crise que parece interminável foi a ação do Ministério Público do Rio de Janeiro e do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf. Ao primeiro procurar o segundo é tivemos um mínimo de transparência sobre a situação, o que se aprofundou com a visita de uma equipe de promotores às instalações da Águas do Paraíba,

É preciso que se diga que a partir da ação do MPRJ e do LCA/Uenf, possamos ver ações mais contundentes de órgãos como a Agência Nacional de Águas, Ibama, Inea e o Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana saiam da inércia em que se encontram e comecem a fazer o que deles se espera que é olhar de muito perto o que anda fazendo a concessionária, especialmente no que se refere ao tratamento de água e esgotos pelo qual os campistas são cobrados de forma salgada.

Aliás, uma das missões do MPRJ poderá ser investigar o porquê de tanta inércia e ineficácia desses órgãos todos em cumprir a missão básica de garantir que a Águas do Paraíba seja fiscalizada e não defendida em momentos em que a baixa qualidade dos seus serviços fica evidente,.

A Águas do Paraíba e a obrigação de mostrar os dados que realmente importam

Uma das coisas mais trombeteadas pela mídia amiga da Águas do Paraíba é que a empresa publiciza os dados do tratamento que é feito da água que chega na casa dos campistas.  Quem for procurar por esses dados na página da empresa vai notar que não é bem assim, e que só são mostrados dados que são convenientes.

Dados sobre agrotóxicos, micropoluentes emergentes, presença de cianabactérias? Isso nem pensar, como se não fosse obrigação da empresa informar de forma ampla o que é servido na água que chega nas residências, escolas e unidades hospitalares do município.

Aliás, uma boa medida do MPRJ seria exigir que dados mais amplos e completos sejam disponibilizados pela concessionária em sua página. Sem esse mínimo de transparência, não há como se saber o que está, de fato, acontecendo. E eu diria que até pelo que se paga, os campistas merecem ter esse acesso garantido.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura

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Por Douglas Barreto da Mata

Podemos acusar a empresa concessionária de fornecimento de água e tratamento de esgoto de Campos dos Goytacazes de muitas coisas, menos de falta de engenhosidade para driblar qualquer subordinação às normas e regulamentos do contrato a qual está vinculada, junto com a municipalidade.  Aliás, se usassem 5% dessa engenhosidade e energia para melhorarem os seus processos administrativos, para cumprimento de suas obrigações, Campos dos Goytacazes estaria no paraíso.

A estratégia dos grupos concessionários, sem exceção, no Brasil e no resto do mundo, e em qualquer atividade econômica, seja conservação de estradas, gestão de rodoviárias, aeroportos, portos, ou, neste caso, seja de águas  esgoto é sempre a mesma.Ignoraram o poder concedente.

Veja o caso da concessão estadual de trens urbanos no Rio. Literalmente  derrubam esgoto in natura na cabeça do poder concedente, e estão na iminência de entregar a concessão de volta, sem os investimentos prometidos.  Cobram tarifas, e pronto, agora, depois de comida a carne, entregam os ossos para o Governo do Estado.

A concessão da BR 101 também não é lá muito diferente, e vez por outra tenta escapar às suas obrigações contratuais, quando ameaça devolver a concessão.

Estes grupos econômicos agem como se fossem donos dos serviços concedidos, e ao mesmo tempo, subtraem as atribuições dos entes legislativos, e subvertem as regras, subordinando-as aos seus interesses negociais. Vencem pelo cansaço, daí o título desse texto.

Prestação de contas da empresa do grupo Águas? Ninguém sabe, ninguém viu?

Outro caso famoso na cidade campista foi o rompimento do dique na Av XV de Novembro. Com a velocidade da luz, construíram a narrativa de que foi a força do leito do rio que levou a contenção.

Aqui, uma outra face dessa estratégia:  O controle da narrativa, facilitado por relações incestuosas com grupos de mídia locais.Como água mole em pedra dura, a mentira repetida também “fura” a pedra da verdade.

O fato é que, depois da apresentação da “certeza” de que foi a cheia do rio a causa do incidente, ninguém mais questionou se poderia ter sido o rompimento da adutora, que passava bem no local.

Nesses últimos dias, a crise hídrica se apresentou, e houve fundada suspeita sobre a qualidade da água fornecida.

A empresa, antes de todos, sem qualquer base científica, correu e desmentiu qualquer possibilidade de contaminação, antes mesmo de que fosse comprovada ou afastada essa circunstância.  Depois disse que poderia ser, depois desdisse, e assim, ficou tudo por isso mesmo.

Por último, a “do carvão ativado”.  Eu não sou engenheiro, nem especialista no assunto, mas me pareceu que aquela mancha de carvão exaurida dos tanques de filtragem deixa algumas dúvidas:

– Se houve aumento do uso do insumo na filtragem, algo errado havia, ou não?

Eu dei uma rápida olhada no pai digital dos burros, o Google, e olhem o que achei:  o carbono é um material extremamente poroso que atrai e retém uma grande variedade de contaminantes prejudiciais à saúde. O carvão ativado consiste em uma esponja porosa sólida e preta. É usado em filtros de água, medicamentos que removem seletivamente toxinas e processos de purificação química.

Uai, se estava tudo certo, sem toxinas, por que colocar carvão ativado até ter que exaurir e jogar o excesso no Rio Paraíba do Sul?  E mais, que coincidência fazer isso quando negavam que havia toxinas, não é?

Enfim, como confiar em uma empresa que não tem transparência para apresentar suas contas aos consumidores e aos órgãos fiscalizadores do contrato? Como acreditar em quem esconde os números que integram o cálculo da tarifa, quando eles nos dizem que a água é boa?

Dizem os antigos, quem faz um cesto, faz cem.

Giuliano Tinoco e a saída de mestre: se não consumiu a água fornecida, já foi ressarcido

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Ouvi antentamente a entrevista que o Diretor Executivo da concessionária Águas do Paraíba, Giuliano Tinoco, concedeu esta manhã ao radialista Cláudio Nogueira e uma declaração me chamou a atenção. Perguntado sobre o possível ressarcimento aos consumidores que optaram por comprar água mineral à luz das alterações percebidas na água fornecida pela empresa.

Tinoco respondeu à pergunta com uma saída de mestre. Ele deu a entender que o ressarcimento já se deu no momento em que o consumidor deixou de consumir a água fornecida pela sua empresa, diminuindo assim o valor da fatura a ser paga em algum momento do futuro.

Genial, não? Seria se não fosse pelo fato básica de que existe algo chamado como fatura mínima que seria a cobrança de um consumo de 10 m3, independente do que se tenha consumido menos. Eu, por exemplo, mensalmente consumo menos de que o valor da fatura mínima, mas invariavelmente pago pelos ditos 10 m3.

Algo que também precisa ser lembrado é que em Campos dos Goytacazes, há a cobrança pelo tratamento de esgoto, mesmo em bairros em que não há o efetivo tratamento do que é coletado (quando é coletado).

Assim, me vem a dúvida sobre o que já deveria estar fazendo o Procon-Campos para fazer garantir o direito dos milhares de consumidores cativos da Águas do Paraíba que continuam pagando uma das tarifas mais caras do Brasil para ainda ter que ouvir o tipo de sugestão oferecido por Tinoco que, nas condições atuais, é um verdadeiro tapa na cara dos campistas.

Fimalmente, não sei quantos mais ouviram as declarações de Tinoco, mas eu não me senti nem um pouco mais aliviado com as garantias dadas sobre a real qualidade da água que está sendo servida aos campistas nos dias atuais. Como foi citado que vários vereadores receberam os laudos que a concessionária teria para provar que tudo está certo, vamos aguardar as manifestações dos que tiveram acesso aos mesmos.

A Portaria GM/MS 888 e as informações que a Águas do Paraíba precisa tornar públicas

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Situação é de alerta após análise do LCA/Uenf apontar a presença de cianobactérias nas águas do Rio Paraíba do Sul. Foto: Reprodução

Relendo algumas das matérias do estilo “press release”  paras as quais a concessionária Águas do Paraíba vem contribuindo nos últimos dias, notei uma afirmação que é no mínimo curiosa.  A concessionária de águas e esgotos da cidade de Campos, informa que  “em cumprimento à PortariaGM/MS Nº 888, vem monitorando o rio Paraíba do Sul preventivamente a respeito das espécies citadas, bem como os seus derivados metabólitos”

Pois bem, uma primeira coisa é que a Águas do Paraíba guardou o quanto pode, a informação que se tornou pública após a divulgação dos resultados das análises feitas pelo Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf, que foi a detecção da cianobactéria Raphidiopsis SP, que é capaz de produzir potencialmente uma cianotoxina chamada de saxitoxina, que pode causar danos importantes nas funções cerebrais.

Em relação a isso, a Águas do Paraíba teria afirmado que  “ainda no dia 25 laudos entregues à Uenf, ao Inea e à Prefeitura que traziam de forma explícita a ausência da Saxitoxina”.  Pois bem, o que faltou ser divulgado é se algumo tipo de cianotoxina teria sido encontrado ou não. É que dada a forma opaca com as informações têm sido disponibilizadas pela Águas do Paraíba, essa seria uma informação importante para deixar os cidadãos que são consumidores cativos da concessionária ficassem mais calmos (ou não) em relação ao que está chegando pelas torneiras nas casas dos campistas.

Eu particularmente apreciaria que mais informações estivessem sendo disponibilizadas, principalmente em relação à Saxitoxina, dada a capacidade que a mesma possui para causar sérios prejuízos à saúde humana. Vale lembrar que no caso da Saxitoxina, sua meia vida de degradação pode ultrapassar 3 meses.

O que diz a Portaria GM/MS 888 sobre a ocorrência de cianobactérias?

Dada as múltiplas possibilidades de dano à saúde pelas toxinas produzidas pelas cianobactérias, a Portaria GM/MS 888 possui um artigo específico para quando as mesmas ocorrerem, o de 43. É preciso que se diga que o Artigo 43 traz não só uma série de determinações do que deve ser feito em termos de monitoramento quando as cianobactérias forem detectadas, mas também sobre o que pode ser ou não feito para o tratamento da água bruta em que elas estiverem presentes. 

Mas é preciso dizer que o § 9º deste artigo traz diretrizes específicas sobre o que precisa ser feito quando for detectada a presença de cianotoxinas na água tratada, sendo obrigatória a “comunicação imediata a autoridade de saúde pública, às clínicas de hemodiálise e às indústrias de injetáveis“.

A pergunta que se faz é a seguinte: quais cianotoxinas, se alguma, já foram detectadas nas amostras analisadas pelo laboratório da Águas do Paraíba. No caso de alguma ter sido detectada, qual teria sido e quais são os efeitos à saúde humana? 

Além disso, dizer que até o dia 25 a Sixotoxina não havia sido detectada pede a informação sobre qual teria sido o período de coleta das águas analisadas, o que não foi informado pela Águas do Paraíba. Como agora, estamos em uma situação que as cianobactérias estão reconhecidamente presentes nas águas coletadas para abastecer a cidade de Campos dos Goytacazes, há que se lembrar que o § 6º do mesmo artigo 43 determina que ” o monitoramento de cianobactérias, quando exigido, deve ser realizado em cada ponto de captação e deve identificar os gêneros presentes.” E eu acrescento que deveria se informar os tipos de cianotoxinas que podem ser geradas a partir de cada um dos gêneros presentes.

O monitoramento tem que estar além da Águas do Paraíba

Uma coisa que me parece evidente é que será fundamental nas próximas semanas que seja feito um monitoramento independente da água bruta e da de pós-tratamento por outros laboratórios que não sejam os da Águas do Paraíba. 

Digo isso porque quando se trata o monitoramento como um segredo empresarial, a despeito do que determina a legislação, a possibilidade de que informações estratégicas não cheguem ao conhecimento da população que, afinal de contas, é a principal interessada no provimento de uma água que seja efetivamente desprovida de agentes biológicos, sejam eles capazes de causar doenças ou não. Afinal, quando se paga o valor cobrado pela Águas do Paraíba, não é possível aceitar qualquer coisa diferente de uma água de altíssima qualidade. 

Análises do LCA/UENF colocam Águas do Paraíba sob pressão

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O Rio Paraíba do Sul segue com águas de tom esverdeado. Foto: Silvana Rust

Uma matéria do J3 News a partir de dados gerados pelo Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Uenf confirma o que muitos já suspeitavam: há algo peculiarmente distinto florescendo nas águas do Rio Paraíba do Sul. 

Segundo a reportagem, os resultados das análises feitas pelo LCA detectaram a presença de uma espécie de cianobactéria, a Raphidiopsis SP, que é capaz de produzir potencialmente uma cianotoxina chamada de saxitoxina, que pode causar danos importantes nas funções cerebrais.

A boa notícia é que ainda não se sabe se essa toxina está sendo efetivamente produzida. Mas essa é uma boa notícia de pernas curtas, pois é evidente que a simples possibilidade dessa produção já deveria ter acendido vários sinais vermelhos a partir dos quais a concessionária Águas do Paraíba estava obrigada a ter acionado mecanismos precaucionários.  Mas pelo que eu pude notar pelas notas publicadas pela mídia corporativa campista é que tudo estaria dentro da normalidade, o que agora se vê que nunca foi bem assim. 

Como a matéria do J3News revela que os dados gerados pelo LCA/Uenf já estão na posse do Ministério Público Estadual, o que deverá aumentar a pressão sobre a Águas do Paraíba para que informações mais precisas sejam fornecidas sobre o que a concessionária efetivamente sabe sobre a condição em que se encontram as águas do Rio Paraíba do Sul.

Aliás, agora que a situação extrapolou os limites do município e está sendo noticiada pela mídia estadual, tampouco será suficiente para a Águas do Paraíba continuar afirmando que “ a água tratada distribuída à população (campista) está em conformidade com os parâmetros da legislação, própria para consumo, e não apresenta nenhum risco à saúde”. É que a estas alturas, este tipo de declaração será recebida com uma merecida incredulidade por quem recebe a água que a Águas do Paraíba trata.

O fato é que a coisa não está cheirando bem, e eu não estou falando da geosmina que também prolifera no Paraíba do Sul. Tanto isso é verdade, que o LCA/Uenf propôs que “as amostras sejam encaminhas à Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ufrj) para análise de potável, por considerar que o tratamento convencional não é suficiente para remover o odor e gosto fora dos padrões normais“.

Aguardemos então o que fará o Ministério Público Estadual que aparece neste momento como o ente que está se movimentando para garantir o direito dos campistas de receberem uma água de qualidade em seus domicílios.

Wladimir, a crise hídrica, e o silêncio que pode contaminar as chances de reeleição

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Estavando tendo uma conversa doméstica sobre a crise hídrica que paira ameaçadoramente sobre a cidade de Campos dos Goytacazes, quando uma voz me perguntou: e o prefeito no meio dessa confusão toda? Respondi rapidamente com um seco “boa pergunta!”.

A verdade é que se o prefeito Wladimir Garotinho não quiser sair chamuscado da situação que floresce nas águas do Rio Paraíba do Sul, ele terá que romper rapidamente o silêncio obsequioso em que se encontra.

É que se houver a necessidade de suspender a coleta de água que abastece a cidade de Campos dos Goytacazes, muito mais vozes começarão a perguntar “cadê o prefeito?”.  É que o cansaço popuar com a concessionária “Águas do Paraíba” já tinha grande potencial para se introjetar na campanha eleitoral antes mesmo das águas ficarem com um tom esverdeardo. Agora que a crise hídrica está explícita, o silêncio do hoje prefeito vai inevitvavelmente a contaminar a campanha eleitoral.

Assim, se houver um secretário com a capacidade de falar coisas desagradáveis para Wladimir, a hora dele agir é agora. Se demorar pode ficar ruim, muito ruim. É que o povo campista pode aturar muita coisa calado, mas dificilmente vai aceitar ficar desinformado e desapoioado em contexto que já se mostra capaz de movimentar multidões.

E para não dizer que eu não falei de flores para Wladimir: notificar a Águas do Paraíba não vai dar conta do recado. A população quer explicações sobre o que de fato está acontecendo com o abastecimento de águ na cidade, e para ontem.

As decisões políticas, as salsichas e o tratamento da água

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Por Douglas Barreto da Mata

Diz um antigo ditado que se o povo soubesse como são feitas as salsichas e como são tomadas certas decisões políticas, o mundo entraria em convulsão. Pois bem, eu adiciono mais um item: o tratamento de água e esgoto executado pelas empresas concessionárias do país.

Os economistas, historiadores, cientistas sociais e políticos mais atentos sabem que os serviços concedidos (água, esgoto, transporte, estradas, equipamentos de infraestrutura, etc) são a última fronteira a ser atacada pelos fundos de investimentos, os fundos predadores ou fundos urubus.

Na ausência de mais riquezas para transferir para as suas matrizes, depois de exaurir as economias da periferia com a imposição de altas taxas de arbitragem ao capital que emprestam (juros), ao mesmo tempo que criam as condições para que haja demanda por tais empréstimos (variação cambial, ataques especulativos, e etc), estes fundos atacam os serviços concedidos.

É o caso da ENEL, da Arteris, e de todos os conglomerados financeiros que adquiram outras fatias das estruturas primordiais de nossa economia, como a Eletrobrás, portos e aeroportos, enfim, tudo que faz um país se movimentar.

Na cidade de Campos dos Goytacazes, bem como em tantas outras ao redor do país, atua a empresa do grupo Águas do Brasil. Aqui denominada Águas do Parahyba, o grupo é conhecido por duas características que são comuns a todos os serviços concedidos: Péssimo serviço e tarifas que beiram a extorsão. Mas há um outro ingrediente nessa receita.

A total e completa falta de transparência, que acontece sob o beneplácito do ente que deveria fiscalizar e exigir essa circunstância.

A Câmara Municipal de Vereadores de Campos dos Goytacazes permite que a empresa Águas do Parahyba faça da cidade a sua “casa da mãe Joana”.

Por exemplo, a prestação de contas e a exibição das planilhas de custo e investimentos exigidas no contrato está há anos sem aparecer, e alguns gaiatos passaram a chamar essas informações de “cabeça de bacalhau”, existe, mas raramente se vê.

É com essas informações que se elabora a tarifa, os níveis de satisfação, a previsão vinculante (obrigatória) de investimentos, a descrição dos custos e investimentos já realizados, enfim, é nesse monte de dados que a população sabe, dentre outras coisas, se o contrato está sendo cumprido, e se o preço é correto.

Isto tudo não é um “favor” da empresa, é obrigação legal, já que o contrato de adesão já traz em si uma dose elevada de cláusulas que não podemos alterar.

Ou seja, neste modelo de contrato não há discussão entre as partes contratantes, nem possibilidade de usarmos outro fornecedor.

Quando uma das partes não pode debater as condições do que está contratando, e por tal razão, não pode escolher, nem dizer se aceita aquela forma de contrato, que por isso, é uma imposição (“adesão”) , criam-se regras para que o poder público aja em nome do contratante, a população.

O ente escolhido para avaliar, fiscalizar e encerrar (denunciar) o contrato é a Casa Legislativa, sem a qual, pouco pode fazer o Poder Executivo, além de judicializar os problemas, como tem feito, ultimamente.

Aí, entra outra questão. A julgar pelo sucesso dos advogados da empresa junto ao TJ/RJ e até ao STJ e STF, eu diria que todos deveriam ser indicados para tomarem assentos como desembargadores e ministros, haja vista tanta competência. Se eu fosse Governador, ou Presidente da República, na dúvida sobre quem indicar, não hesitaria mais: um advogado da empresa Águas do Brasil.

Não há, na história da advocacia brasileira, nenhum caso de tamanha taxa de vitórias em cortes superiores como este, dos advogados do grupo Águas.

Pois bem, como a falta de transparência é regra, e não exceção nessa relação consumerista, não nos causa espanto que a água bebida pelos campistas pareça com cocô de paulista (outro ditado  antigo: orgulho de campista é beber cocô de paulista), pois como sabemos, o Rio Parahyba tem sua nascente em São Paulo.

Ontem os meios de comunicação divulgaram a contaminação de espécies de tubarão por cocaína, o que revela que a ausência de tratamento do esgoto lançado no mar, ou tratamento ineficiente. Agora é a água da cidade de Campos dos Goytacazes.

Meses atrás foi a contaminação do sistema Guandu, provavelmente, por empresas ligadas à cadeia do refino de petróleo. Novamente, ninguém sabe. E nunca saberemos, porque as empresas do setor não revelam seus “segredos”.

Fica só uma dúvida: Será que na Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, e nas festas de veículos de imprensa patrocinados pela empresa Águas do Parahyba, serve-se água da torneira filtrada ou eles consomem água mineral envasada? 

Água de torneira em Campos: o que há de errado?

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Venho ao longo dos anos acompanhando a situação da distribuição da água na cidade de Campos dos Goytacazes, tendo inclusive orientado uma dissertação de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf que foi defendida no cada vez mais distante ano de 2012.

Por isso mesmo, recebi com certa incredulidade um telefone de uma colega que me narrou uma série de problemas que estariam afetando a condição da água que está sendo distribuída na cidade de Campos dos Goytacazes pela concessionária “Águas do Paraíba”. Segundo essa colega, os problemas estariam causando transtornos a que ingeriu uma água que estaria com alterações de odor e gosto. O principal sintoma dessas alterações seria o fato de que o produto servido aos campistas estaria com um “cheiro de terra molhada”. 

Imediatamente me ocorreu o fato de que o cheiro de terra molhada ou a chuva é um efeito que resulta da combinação de duas substâncias principais: o petricor e a geosmina. É preciso lembras que estas duas substãncias são componentes naturais do solo e das plantas que, quando entram em contato com a chuva, produzem uma série de reações das quais emerge o aroma único. Em função dessa evidência é que descartei uma versão que estaria circulando sobre um suposto acidente químico no Rio Pomba, afluente do Rio Paraíba do Sul.

Se o problema detectado pelos campistas tiver alguma relação com a presença de uma dessas substâncias, poderemos estar diante do mesmo problema que afetou o abastecimento da região metropolitana do Rio de Janeiro em 2021.

Há que se lembrar que apesar da presença de Geosmina não apresentar efetivamente um efeito tóxico ao organismo, pesquisadores já relataram que a água com gosto desagradável pode causar efeitos psicossomáticos (sintomas causados por alguma instabilidade emocional que vão gerar efeitos físicos no organismo) como dores de cabeça, estresse e náuseas.

Desta forma, o que se espera é que a ação dos órgãos de fiscalização da qualidade da água servida aos campistas seja rápida, e que se dê o devido retorno aos cidadãos campistas que estão neste momento justamente alarmados.

Karoline vai à luta e desvela situação vexaminosa em relação ao saneamento urbano em Campos

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Conheço a agora psicóloga e ativista política Karoline Barbosa há mais de duas décadas, e sempre achei que ela seria uma pessoa de opinião forte, pois desde criança mostrava a capacidade de ser pró-ativa e eloquente. Eu só não esperava que a Karoline crescesse para se tornar a pessoa corajosa que iria desvelar o estado lamentável em que se encontra parte do serviço de coleta e tratamento de esgotos em Campos dos Goytacazes.

É que munida de ferramentas que a tecnologia de sensoriamento desenvolveu, Karoline resolveu fazer algo que muita raposa política felpuda já poderia ou deveria ter feito. Falo aqui da documentação áerea do despejo de esgoto in natura em corpos hídricos no Distrito de Guarus (ver vídeo abaixo).

Mas mais do que documentar, Karoline foi até a justiça para exigir algo que me parece minimamente justo: que a concessionária Águas do Paraiba não possa mais cobrar por um serviço que efetivamente não presta aos campista em troca de uma tarifa para lá de salgada.

O curioso é que não tenho visto nenhum tipo de reação por parte dos vereadores campistas em relação ao minucioso processo de levantamento dos problemas ambientais que estão sendo causados pelo despejo de esgoto sem tratamento em corpos hídricos. Aliás, ao silêncio dos vereadores também se soma o silêncio de outros segmentos que deveriam estar se aproveitando do trabalho de Karoline Barbosa, a exemplo da silenciosa mídia corporativa local.

De minha parte cabe desejar que Karoline continue sendo a pessoa que me acostumei a ver, e que continue desvelando o que não pode mais continuar sendo encoberto.

Água mole em pedra dura, tanto bate e nunca apanha

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Por Douglas Barreto da Mata
Apesar de ser de conhecimento de todos os moradores, e até das pedras portuguesas e dos banquinhos arrancados da Praça Quatro Jornadas em Campos dos Goytacazes, de que a empresa concessionária de água e esgotos da cidade presta um serviço caro e porco, não houve nenhuma alteração e/ou intervenção séria pelos poderes constituídos, que, via de regra, deveriam estar a serviço da população que lhes outorga os mandatos…
Não bastam os dados nacionais e internacionais que apontam que o modelo de concessão/privatização dos serviços essenciais não funciona, nem aqui, nem nas terras do rei da Inglaterra…
Mesmo assim, os proprietários e/ou acionistas majoritários e controladores dessas empresas seguem impunes e seus interesses intactos…
Lembram do rompimento do dique? 
Pois é…caiu no esquecimento, e sem uma apuração digna desse nome, a conta do estrago ficou para a viúva…
Sabem os questionamentos sobre os níveis de substâncias tóxicas (incluindo aí agrotóxicos) na água fornecida?
Nada!
Neste último domingo, a população pobre da comunidade da Linha interrompeu o tráfego na BR 101, causando transtornos e até prejuízo para concorrentes ao cargo de guarda municipal, cujo concurso foi realizada naquele dia.
A queima de pneus, método utilizado, acabou por danificar o recém-instalado pavimento.
water privatization
Ou seja, devido a uma justa revolta de pessoas privadas de um insumo mais básico e essencial, água, mais equipamento público foi danificado e  vários candidatos a uma vaga no serviço público foram prejudicados
O que esperam os poderes legislativo e executivo da cidade?
Que a empresa concessionária de águas e esgoto provoque uma tragédia, uma revolta popular sem precedentes?
O estranho disso tudo é que os combativos e beligerantes vereadores, que vociferam impropérios uns contra os outros, como leões, quando na disputa pelos seus espaços políticos, sejam da oposição ou situação, parecem gatinhos domesticados a espera do pires de leite…quando se trata da empresa, ronronam…
Ao seu lado, o prefeito e sua astuta equipe de procuradores batem às portas do Judiciário, sem qualquer resultado prático…
Ora, ora, ora…
Se tivessem um mínimo de coragem e empatia ao sofrimento da população pobre que os elege, e que é quase sempre a primeira a ser privada da água, do esgoto, da luz, enfim, adotariam o que a Lei manda:
– CASSAR A CONCESSÃO, pela não prestação de contas da empresa junto aos vereadores, pelas diversas irregularidades na prestação do serviço, pela tarifa não justificada, já que as planilhas de custo operacional, cronograma de investimentos e etc, nunca são apresentadas, nem na Justiça, e por último, pelo total descaso da empresa com a municipalidade…
Fica enfim a pergunta: para que eleição em Campos dos Goytacazes? Pois basta entregar a cidade à empresa, que no fim das contas, é quem parece mandar na cidade, de fato….