Em vez do “custo Brasil”, que tal falarmos do “lucro Brasil”?

dominação dos banqueiros

Estou nos capítulos iniciais do livro de Alex Cuadros intitulado “Brazillionaires” (Aqui!), mas já encontrei várias questões interessantes que o material escolhido por ele para descrever e ilustrar o comportamento dos ultra-ricos brasileiros acerca de seu papel na formação da nossa realidade econômica, política e social.

Uma dessas questões que Cuadros levantou se refere ao alegado “custo Brasil” que os patrões usam para colocar nas costas dos trabalhadores uma suposta culpa por onerar a atividade industrial pelos mesmos terem direitos excessivos. Essa questão serve, inclusive, para a preparação de uma reforma trabalhista que promete nos colocar de volta no Século XIX. Um exemplo dessas pérolas foi a proposta de um hoje ex-diretor da Fiesp que nem ficou rubro ao propor que o Brasil tivesse uma jornada semanal de 80 horas.

Ao manjado “custo Brasil”, Cuadros contrapõe um que raramente é falado pelos ultra-ricos e seus aliados dentro das esferas de poder e até mesmo dentro da comunidade científica, o “lucro Brasil”.  Segundo Cuadros, esse “lucro Brasil” surge, por exemplos, das vantagens obtidos por esquemas de corrupção que drenam anualmente algo em torno de de 20 bilhões de dólares. Eu acredito que se Cuadros fosse mais familiarizado com a rede de favores e subsídios invisíveis que os ricos recebem no Brasil, o valor seria bem maior do que foi por ele estimado em seu livro.

Mas em seu crédito, Cuadros descreveu de forma perfeita como no Brasil os ricos estão sempre, provavelmente sempre os mesmos desde os tempos coloniais, prontos a se apropriarem de grandes vantagens econômicas subtraídas diretamente do Estado, que assim não fica com os meios possíveis para alavancar uma diminuição mínima na profunda desigualdade que existe em nosso país.

Pois bem,um exercício interessante para os que dizem se opor às políticas ultraneoliberais do governo interino de Michel Temer seria ampliar as variáveis que compõe o “lucro Brasil”. Assim, quem sabe, não teremos mais que ficar ouvindo as ladainhas de como programas sociais como a Bolsa Família drenam riquezas que poderiam ser usadas para alavancar o desenvolvimento nacional.  É que o “lucro Brasil” nada mais do que uma gigantesca “Bolsa bilionário”, mas sobre isso eles certamente não quer que se fale ou, menos ainda, se calcule o valor.

 

 

O problema dos bilionários do Brasil

bilionarios

Para compreender a desigualdade global, primeiro você tem que entender a desigualdade do Brasil .

*Por Patrick Iber

Pouco mais de dois anos atrás, em Abril de 2014 , quando Thomas Piketty lançou o seu livro “O Capital no século XXI”, que foi publicado inicialmente em inglês e tomou o primeiro lugar na lista de best-sellers do New York Times. O livro de Piketty atingiu um nervo, ajudando a disseminar várias ideias-entre elas a de que o capitalismo não gera automaticamente uma distribuição razoável ou equitativa da renda e que prestar atenção ao 1% dos mais ricos é necessário para se compreender a política. Piketty focou sua análise na concentração de riqueza nos séculos 19 e 20 na França, no Reino Unido e nos Estados Unidos, lugares onde a maioria dos dados que disponibilizados para esses períodos. Mas se Piketty se comportasse, em vez do economista que é, como um repórter que trabalha para compreender o mundo que os extremos de desigualdade fizeram hoje, ele não olharia para os países ricos. Ele poderia muito bem ter escolhido para se concentrar no Brasil, como Alex Cuadros fez em seu novo livro intitulado “Brazillionaires”.

brazillionaires

Cuadros, um repórter da Bloomberg, chegou ao Brasil em 2010 com uma missão tipo a encaminhada por Piketty: investigar a vida dos não 1%, mas dos 0,0001% mais ricos dos brasileiros. Parte de seu trabalho foi organizar a classificação bilionários brasileiros na lista da Bloomberg. Uma espécie de US News & World Report do ranking dos super-ricos, bem como para se informar sobre seus negócios e suas vidas pessoais.  No “Brazillionaires”, ele consolidou e moldou tais perfis em um pujante e engajador retrato envolvente do Brasil moderno.

Cuadros usa seu retrato do falecido magnata de mídia Roberto Marinho, por exemplo, para discutir como os principais meios de comunicação do Brasil retratam a questão da raça, e através disso, suas ideias e ideologias sobre as questões raciais. Seu capítulo sobre Edir Macedo, um pregador na linha do “evangelho da prosperidade”, que lhe permite discutir a mudança nas práticas religiosas. Embora cada capítulo seja construído em torno de um perfil de um determinado bilionário, Cuadros inclui reflexões de sua própria lavra e de informações obtidas gastando a sola do seus próprios sapatos. Ele visita os grupos comunitários nas favelas e vai junto no helicóptero $ 1.500 por hora que seus casos de estudo (no caso os bilionários) usam para evitar os congestionamentos de trânsito. O livro pode ser mais revelador do que os bilionários estudados gostariam. Na verdade, ele não estará disponível no Brasil, ´pois um dos bilionários em questão não ficou feliz com o que viu nos rascunhos do livro, e por causa disso os editores recuaram da ideia de publicar a obra em português.

O bilionário mais importante para o livro é, sem dúvida, Eike Batista. Eike, como é conhecido, subiu tão alto que chegou ao posto de oitavo colocado na lista de bilionários da Bloomberg, com uma fortuna estimada de US $ 30 bilhões de dólares. Eike ambicionava se tornar o homem mais rico do mundo. Eike que foi campeão de corridas de lanches tem implantes de cabelo usando as tecnologias mais modernas, e foi casado com Luma de Oliveira, uma modelo que posou para a Playboy e foi rainha do Carnaval. Um de seus filhos, Thor Batista, mostrou seu enorme torso muscular no Instagram e, até pouco tempo atrás, dirigia um Mercedes-Benz SLR McLaren avaliado em mais de um milhão de dólares. Eike e sua família dificilmente poderia ser menos representativos do estilo de vida de playboy bilionário dos ultra-ricos globais.

Portanto, Eike serve como um símbolo dos problemas do Brasil de hoje, e cerca de metade dos capítulos Brazillionaires é dedicada a ele. Apesar do que parece ser diferenças fundamentais na perspectiva e ideologia, Eike forjou uma relação de trabalho pragmática com os governos do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda. Até a presidente Dilma Rousseff, que foi suspensa do exercício do cargo por legisladores hostis em maio deste ano, o país tinha sido governada pelo Partido dos Trabalhadores de centro-esquerda desde 2003, primeiro sob o metalúrgico e líder sindical organizador Luís Inácio Lula da Silva (2003-2011) e depois sob Dilma (2011-2016). Antes de Lula tomar posse, os ricos brasileiros ficaram preocupados com o que iria acontecer quando Lula, um ex-socialista, assumisse o poder. O próprio Eike descreveu-a como uma regressão. Mas Lula que estava determinado a quebrar a associação de governos de esquerda com o caos econômico, e construiu alianças com oligarcas brasileiros.

Lula abraçou um programa desenvolvimentista que Cuadros descreveu como “querendo trazer a nação não tanto para o Século XXI  com alta tecnologia e alta finança, mas para o Século XX, com portos, barragens e grandes empresas brasileiras de base.” Porque Eike controlava um conjunto de empresas inter-relacionadas, principalmente nos setores de mineração e gás, e tinha feito grandes apostas na perfuração offshore, ele recebeu grandes empréstimos de bancos estatal de desenvolvimento. Em função disso Eike se aproximou de Lula.

A corrupção é quase uma parte esperada de negócios e políticos no Brasil, e Eike, embora muitas vezes retratado como um empresário de “estilo americano” e “self-made”, não foi uma exceção. Ele ajudou a financiar um filme biográfico lisonjeiro sobre Lula e gastou quarto de milhão de dólares em um leilão para comprar um terno que Lula tinha usado em sua posse. Mas, apesar da evidência de corrupção e conflitos de interesses através do sistema político, por um tempo todos pareciam estar se beneficiando. A economia do Brasil fez enormes progressos. A classe média cresceu e os padrões de qualidade de vida entre os pobres melhorou dramaticamente. Desnutrição foi diminuída pela metade. Um dos programas com a assinatura de Lula, o Bolsa Família, forneceu transferências monetárias diretas aos pobres, parcialmente em troca de frequência escolar das crianças. Muitos dos bilionários entrevistados por Cuadros justificaram a sua riqueza com alguma versão do argumento “do que é bom para a GM é bom para o país”. A maioria dos brasileiros considerou esta abordagem aceitável: Lula deixou o cargo com a aprovação de mais de 80%.

Mas os problemas surgiram em 2013. O governo do Brasil e seus consumidores tinham tomado dívidas em demasia. Os preços das commodities estavam caindo. As previsões de produção de campos de petróleo offshore de Eike se mostraram ser insuficientes para ele cobrir seus custos e suas empresas começou a colapsar. O seu patrimônio líquido estimado caiu de US$ 30 bilhões para US$ 1 bilhão negativo um em apenas dois anos, e ele se viu perante o tribunal, acusado de fazer uso de informações privilegiadas. Em 2012, seu filho Thor atingiu e matou um ciclista pobre com aquela McLaren avaliada em milhões de dólares. Os julgamentos de Eike e Thor pareciam ser testes para se saber se os poderosos poderiam ser responsabilizados pelas suas ações num momento em que as pessoas comuns estavam sofrendo com a deterioração das suas condições vida e com suas esperanças frustradas.

Em toda a sua ora, Cuadros é crítico dos bilionários que retrata, mas ele não os denuncia. Em alguns deles ele encontra qualidades admiráveis. Mas ele está ciente, de que os mitos contados sobre eles e dos mitos que ele contam sobre si mesmos são profundamente prejudicais. O mais próximo que ele chega a um crítica é quando ele pergunta a funcionários do escritório de Jorge Paulo Lemann (que se tornou o homem mais rico do Brasil depois da queda de Eike, e é dono do Burger King, da Budweiser, e de parte da Heinz), para citar alguma “coisa nova” que ele tivesse criado como um empreendedor adequadamente deve fazer. Eles não deram qualquer exemplo, e ele escreveu “Em uma apresentação recente para investidores recente Heinz apresentou inovações que misturaram mostarda amarela e molhos picantes”. É como se fosse um tipo destruição criativa sem a parte da criatividade.

Muitos dos brasileiros pobres admiram seus conterrâneos ricos, como Cuadros deixa claro. Muitos na classe média direcionam sua ira contra os pobres. Alguns de nós temos que trabalhar duro, mas:

” nós temos estas pessoas que não fazem nada e podem viver uma boa vida boa.” Quando eu perguntei a ela se ela coloca seu dinheiro em certificados de CDBs que recebem altas taxas de juros, ela respondeu que sim. Ela ficou surpresa quando eu argumentei que isto também era um subsídio público, uma muito maior, uma vez que o governo paga enormes somas para os bancos para ter seus títulos. Eu deveria ter mencionado que três de quartos dos adultos apoiados pelo Bolsa Família também precisam trabalhar para sobreviver.

Se Cuadros tem uma agenda, esta pode ser descrita como a ênfase nas contingência dos resultados econômicos, bem como sobre os obstáculos à mobilidade e ao acesso, todos que fazem a ideia de meritocracia pouco mais do que um meio para justificar a desigualdade extrema.

Estas questões-e todos os tipos de conversas sobre mérito, bem estar e distribuição da riqueza, não são, naturalmente, de nenhuma maneira única restritos ao Brasil. Brazillionaires se refere na superfície sobre o Brasil, mas pretende ser mais do que isso.  O Brasil, em alguns aspectos importantes, é mais representativo do mundo do que qualquer outro país.  O Brasil tem sido em décadas recentes um dos países mais desiguais do mundo. Se você combinar todas as pessoas do mundo juntos e medir as desigualdades de riqueza, o que se acha encontra é um nível maior de desigualdade do que existe em qualquer única nação. Ainda assim, o perfil do Brasil é que fica mais próximo de igualar a situação mundial: uma pequena rica e dominante classe alta, uma classe média modesta, e uma grande maioria de pobres que luta por renda e direitos efetivos.

O Brasil é incomum entre os países de desigualdade elevada dado o fato que seus cidadãos estão espalhados por todo o espectro de classes sociais. Nos Estados Unidos, por outro lado, em termos puramente monetários, os pobres são de renda média para os padrões mundiais.  O Brasil tem pessoas que são tão pobres como outros em qualquer outro lugar, e ainda tem, portanto, pessoas que são tão ricas quanto qualquer um em outro lugar qualquer. Apenas um dos entrevistados de Cuadros expressou qualquer tipo de remorso sobre essa situação peculiar. Guilherme Leal, co-fundador de uma empresa de cosméticos sustentáveis (a Natura, grifo meu) disse a Cuadros que se sente desconfortável em ser bilionário em um país tão pobre. “Eu acho que as sociedades mais felizes são os menos desiguais”.  Leal adicionou ainda que:

“Onde todos pudessem ter uma qualidade de vida bastante decente e razoável. Se eu tivesse que desistir de uma parte significativa da minha riqueza, e pagar 30% ou 40% a mais impostos, mas que com isso eu pudesse viver num país com menos desigualdade, eu seria mais feliz.”

Ainda assim, quando sua companhia foi instada a pagar milhões de dólares em impostos não recolhidos, Leal afirmou que: “aqui no Brasil, se você não tentar lidar de forma inteligente com a carga tributária, você vai falir.” Se o nível de desigualdade do Brasil choca a consciência, e leva a injustiças óbvias, então devemos reconhecer que, como uma comunidade humana global, nós somos todo o Brasil.

Cuadros não faz essa comparação global de forma explícita, mas ele espalha trilhas de pedaços de pão para uma terceira interpretação do conteúdo do seu livro. Mesmo o subtítulo da edição nos EUA “Riqueza, poder, decadência e esperança num país americano” visivelmente não diz que “país latino-americano”, mas americano. O ponto, que ele faz com certeza é de que estes problemas não são apenas Brasil, mas também são os dos Estados Unidos. Ambientalistas nos EUA reclamar com desânimo que enormes porções da Amazônia estão sendo desmatadas para o plantio de soja e a criação gado, como também fazem os ambientalistas brasileiros. Mas a atividade de traz ganhos de curto prazo para as áreas pobres do país e, como Cuadros aponta, os EUA tem feito o mesmo cálculo com o uso de fracking nos últimos anos.

Ambos os países são ex-sociedades escravagistas que lutam para enfrenta seus legados de racismo institucional e a violência que acompanha a patologização de um pobre racializado. Ambos são lugares onde os ricos têm aos meios garantir que seus filhos se tornem prósperos e mais se beneficiam até mesmo de bens públicos, como a educação.  A corrupção institucional tem sua cultura particular no Brasil, onde ela tanto pode ser uma frustração cotidiana quanto completamente exasperante. (O juiz responsável pelo julgamento de Eike Batista por manipulação de mercado e uso de informações preferenciais apreendeu alguns dos seus bens pessoais para depois ser flagrado dirigindo o Porsche Cayenne de Eike pelas ruas do Rio de Janeiro)

Mas o que dizer das nossas práticas completamente legais de lobbying na qual a experiência no governo pode ser transformada em riqueza privada, e as corporações e as pessoas ricas tem grande influência sobre a aprovação de leis?  A história de nossos poderosos bilionários não é simplesmente sobre produção de valor social, mas de bolhas, monopólios, negócios preferenciais, e a violência estatal e privada contra os trabalhadores. Os EUA são mais ricos e sua democracia é mais antiga, mas não é assim tão diferentes do Brasil.

Por causa dos Jogos Olímpicos, o Brasil é agora o centro da atenção mundial. Mas o fato de que os jogos acontecem num momento de conflito político e recessão econômica certamente é desapontador para os líderes brasileiros. Mas as legiões de jornalistas estrangeiros que estão caindo de paraquedas para visitas rápidas serão certamente atraídos pelo exótico: a beleza da paisagem e do povo, futebol, Carnaval, as favelas, e assim por diante. Brazillionaires é apenas uma lembrança aos telespectadores nos EUA serão mais bem servidos se não olharem para o Brasil como um lugar exótico com problemas igualmente exóticos. Contemplar as condições do Brasil é contemplar um quadro alarmante, e perceber que nosso olhar não está dirigido a uma pintura, mas a um espelho.

**O texto de Patrick Iber foi originalmente escrito em inglês  e  publicado pelo jornal estadunidense “New Republic” (Aqui!) e foi traduzido pessoalmente por mim para o português.

Quer saber como vivem, agem e mandam os bilionários brasileiros? Leia o livro de Alex Cuadros “Brazillionaires”

Graças ao jornalista Glenn Greenwald e uma entrevista com o jornalista Alex Cuadros que acaba de ser publicada pelo site “The Intercept”, vamos poder saber mais sobre como vivem, agem e mandam os bilionários brasileiros (Aqui!)

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Como um dos personagens do livro é o ex-bilionário Eike Batista, este é o que Greenwald chamou de um “must read”. Eu, até por meus interesses de pesquisa sempre resvalarem na epopeia de Batista, já comprei a minha cópia.