Inteligência Artificial: a nova corrida do ouro que pode nos deixar sem água

Enquanto grandes corporações acumulam fortunas com a expansão acelerada da IA, pouco se discute sobre seus custos ambientais, a substituição do trabalho humano e a crescente captura do próprio fazer científico

O uso disseminado da chamada Inteligência Artificial (IA) é a principal transformação que vem ocorrendo no mundo científico, afetando, por assim dizer, o conjunto da obra. Não se trata mais de usar a IA para realizar correções linguísticas pontuais, mas até mesmo para escrever textos inteiros, incluindo o desenvolvimento de hipóteses e questões de pesquisa.

Os defensores da IA veem esse processo de captura do fazer científico como uma espécie de chegada de uma nova pedra filosofal, pois haveria um ganho não apenas de tempo, mas também na complexidade dos desafios que se poderiam enfrentar na realização da empreitada científica. É como se, do nada, estivéssemos entrando em uma nova idade de ouro da ciência.

A questão que esses apologistas da IA não fazem, nem querem que se faça, é a seguinte: quem ganha — e aí eu digo economicamente — com toda essa aceleração? Claramente, as grandes corporações econômicas que hoje monopolizam a produção dos algoritmos que impulsionam as diferentes ferramentas que cabem sob a sombrinha da IA. São essas corporações que estão especulando com a IA e, por enquanto, amealhando grandes fortunas com a sensação de que temos ganhos produtivos decorrentes dessa corrida.

Por outro lado, quem perde e o que se perde? Os perdedores são, essencialmente, os trabalhadores que estão vendo suas oportunidades de trabalho serem diminuídas pelo uso da IA. Mas pouco se fala sobre os custos ambientais trazidos pelo boom da IA, a começar pelo consumo exagerado de água, em um momento em que as reservas planetárias já estão se escasseando, inclusive no Brasil.

Como em qualquer onda gerada pela máquina capitalista, existe uma certa euforia em torno da IA. E é justamente por isso que precisamos ter um olhar crítico, e não um de mero deslumbre, sobre as ferramentas de IA. Ainda que não se possam ignorar os ganhos pontuais que se obtêm com a IA, o que não se pode esquecer é que o desenvolvimento intelectual humano ainda possui grande potencial de crescimento, e não há sequer necessidade de uma substituição sistemática da capacidade crítica que os seres humanos possuem.

Por isso, como em muitas outras situações atravessadas pela hegemonia capitalista, esse boom da IA precisa ser compreendido pelo que é e pelos custos que carrega. Do contrário, daqui a pouco não teremos água nem para o cafezinho, enquanto os donos das corporações de IA se afogam em suas fortunas.

Por outro lado, a inteligência humana sempre avançou porque aprendeu a construir ferramentas. O problema nunca foram as ferramentas, mas quem as controla, quem se apropria de seus benefícios e quem é obrigado a suportar seus custos socioambientais. A IA pode ampliar a capacidade humana de produzir conhecimento ou acelerar sua captura pelo capital. A diferença entre um caminho e outro não será decidida pelos algoritmos, mas pela  luta política e pelas decisões que sejam tomadas em sociedade.