Data centers e o novo extrativismo digital: quando a inteligência artificial redefine a geografia da espoliação

Durante anos, a economia digital foi apresentada como uma alternativa limpa às atividades extrativas tradicionais. A imagem de uma “nuvem” imaterial ajudou a consolidar a percepção de que serviços digitais, inteligência artificial e computação em larga escala dependeriam muito mais de algoritmos do que de recursos naturais. Essa narrativa, contudo, começa a ruir à medida que a corrida global pela inteligência artificial exige uma expansão sem precedentes da infraestrutura física necessária para sustentar o processamento de dados.

O artigo de Lucas Zinet que foi publicado no Blog da Boitempo oferece uma contribuição importante para compreender esse fenômeno ao propor que os data centers constituem uma nova fronteira do extrativismo latino-americano. A analogia é particularmente pertinente porque revela que a economia digital não elimina a dependência de recursos naturais. Ao contrário, ela cria novas formas de apropriação intensiva de energia, água, terras e infraestrutura pública, frequentemente concentradas em países periféricos que assumem os custos ambientais enquanto capturam apenas uma parcela limitada dos benefícios econômicos.

Essa interpretação merece especial atenção no caso brasileiro. O país reúne exatamente os atributos mais cobiçados pelas grandes empresas globais de tecnologia: disponibilidade crescente de energia renovável, abundância relativa de água doce, extensas áreas para implantação de infraestrutura e uma posição geográfica estratégica para conexões internacionais por cabos submarinos. Não surpreende, portanto, que estados como Ceará, Bahia e Rio Grande do Sul disputem investimentos bilionários para atrair grandes centros de processamento de dados.

O problema reside na natureza dessa disputa. Os governos oferecem incentivos fiscais, infraestrutura energética subsidiada e facilidades regulatórias sob a promessa de geração de empregos e desenvolvimento regional. Entretanto, uma vez concluída a fase de construção, os data centers operam com um contingente relativamente pequeno de trabalhadores altamente especializados. Em outras palavras, trata-se de empreendimentos intensivos em capital, consumo energético e uso de recursos naturais, mas pouco intensivos em emprego.

Essa dinâmica guarda impressionantes semelhanças com outros enclaves de exportação que marcaram a história econômica latino-americana. Minas, monoculturas de exportação, grandes complexos portuários e agora data centers compartilham uma característica fundamental: organizam o território segundo as necessidades das cadeias globais de acumulação, deslocando para as populações locais os custos ambientais e sociais da atividade econômica.

No Brasil, essa lógica já pode ser observada na associação entre grandes projetos portuários, expansão da geração elétrica e instalação de infraestrutura digital. Não se trata apenas da construção de edifícios repletos de servidores, mas da reorganização de sistemas elétricos, redes de transmissão, disponibilidade hídrica e políticas públicas voltadas prioritariamente para atender às demandas das grandes plataformas digitais.

Outro aspecto particularmente relevante consiste no consumo crescente de água e eletricidade. Embora as empresas enfatizem avanços tecnológicos em eficiência energética e sistemas modernos de resfriamento, a expansão simultânea da inteligência artificial faz com que o consumo absoluto continue aumentando. Em regiões já sujeitas à insegurança hídrica ou à pressão sobre os sistemas elétricos, essa demanda adicional pode intensificar conflitos pelo acesso aos recursos naturais.

Há ainda uma dimensão geopolítica frequentemente negligenciada. Os dados tornaram-se um ativo estratégico comparável ao petróleo no século XX. Entretanto, enquanto muitos países latino-americanos fornecem energia, água e território para a instalação dessa infraestrutura, o controle das plataformas, dos algoritmos, da propriedade intelectual e da renda permanece concentrado nas grandes corporações sediadas nos Estados Unidos e na China. Assim, a promessa de inserção na economia digital pode reproduzir uma velha condição periférica: exportam-se recursos naturais e importam-se tecnologias e dependência.

Essa constatação não implica rejeitar a expansão da infraestrutura digital nem ignorar sua importância econômica. O desafio consiste em impedir que a transição para a economia da inteligência artificial repita os mesmos padrões históricos de espoliação que caracterizaram sucessivos ciclos extrativos na América Latina. Isso exige políticas públicas capazes de estabelecer contrapartidas efetivas, assegurar transparência sobre os custos ambientais, proteger os recursos hídricos, garantir tarifas energéticas socialmente justas e ampliar a apropriação local do conhecimento produzido.

O artigo publicado no Blog da Boitempo cumpre um papel importante justamente por deslocar o debate para além do fascínio tecnológico. Os data centers não representam apenas infraestrutura digital. Eles materializam uma nova etapa da disputa global por energia, água, território e soberania tecnológica. Em um momento em que governos disputam investimentos das gigantes da inteligência artificial, torna-se indispensável perguntar quem controlará essa infraestrutura, quem ficará com seus lucros e quem suportará seus custos ambientais e sociais.

Responder a essas perguntas talvez seja uma das tarefas mais urgentes para aqueles que pretendem construir uma economia digital que não reproduza, sob novas formas, as antigas veias abertas do extrativismo latino-americano.

Deixe uma resposta